sexta-feira, 13 de abril de 2018

Incêndio do Pinhal de Leiria planeado com um mês de antecedência


Já se sabia que o grande incêndio do Pinhal de Leiria tivera origem em mão criminosa. Com efeito, já na segunda quinzena de janeiro (mais propriamente a 22), embora as autoridades não tenham adiantado detalhes sobre o método usado para atear os fogos, declaravam, através da Polícia Judiciária de Leiria que os dois incêndios que, a 15 e 16 de outubro de 2017, devastaram 86% do Pinhal de Leiria tiveram “mão criminosa”, que a investigação continuava e o inquérito ainda não tinha terminado.
Também o Expresso do dia 19 de janeiro afirmava que, num dos incêndios do pinhal de Leiria, “foi usado um engenho artesanal para atear o fogo”, embora os investigadores não tenham ainda conseguido identificar os autores.
Foram, não um, mas dois incêndios que destruíram mais de quatro quintos do histórico Pinhal do Leiria, naquele que foi considerado o pior dia do ano de 2017 em fogos. Nesse dia e no dia seguinte, morreram 49 pessoas vítimas dos incêndios florestais que atingiram sobretudo a região Centro.
Hoje, dia 13 de abril, a TVI 24 refere que a destruição incendiária do Pinhal de Leiria foi preparada com a antecedência de um mês e avança que nas reuniões em que foram planeados os detalhes do incêndio foram também decididos preços para a madeira.
Segundo a reportagem de Ana Leal, feita seis meses depois – com imagem de Romeu Carvalho e montagem de João Ferreira, que o Jornal das 8 da TVI vai apresenta na íntegra, esta noite – terão estado envolvidos no planeamento madeireiros, responsáveis por grandes empresas e também de fábricas que compram e vendem madeira. É o negócio feito a partir da desgraça coletiva, à custa de bens, vidas e sossego
De acordo com a explicação da mesma estação televisiva, as reuniões para planear o incêndio aconteceram numa cave, onde também foram delineados os preços para a madeira ardida. Terão sido também utilizados, para iniciar as chamas, vasos de resina com caruma no interior. Assim, pode dizer-se com verdade que “o pinhal estava armadilhado para arder”, por obra e graça de máfia organizada.
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Recorde-se que os incêndios de outubro de 2017, que atingiram 36 concelhos da região Centro, provocaram 49 mortos e cerca de 70 feridos e destruíram total ou parcialmente perto de 1.500 casas e cerca de meio milhar de empresas.
Extensas áreas de floresta e de terrenos agrícolas foram igualmente destruídas pelos fogos de 15 e 16 de outubro de 2017, que afetaram de forma mais grave os municípios de Castelo de Paiva e Vagos, no distrito de Aveiro; Oleiros e Sertã, no distrito de Castelo Branco; Arganil, Figueira da Foz, Lousã, Mira, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra, Penacova, Tábua e Vila Nova de Poiares, no distrito de Coimbra; Gouveia e Seia, no distrito da Guarda; Alcobaça, Marinha Grande e Pombal, no distrito de Leiria; e Carregal do Sal, Mortágua, Nelas, Oliveira de Frades, Santa Comba Dão, Tondela e Vouzela, no distrito de Viseu.
Na sequência dos fogos que deflagram em 15 de outubro foram consumidos 190.090 hectares de floresta, cerca de 45% da área total ardida durante 2017, de acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
O Expresso afirmava igualmente que os fogos que nesses dias deflagraram no distrito da Guarda foram resultados de queimadas iniciadas por dois pastores locais.
Por outro lado, o investigador Paulo Fernandes disse que o fogo que no mesmo dia deflagrou na Lousã, no distrito de Coimbra, teve origem num “acidente elétrico”.
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Entretanto, hoje o Primeiro-ministro afirmou que o Estado não se deixará “capturar por cartéis” ligados a empresas de meios aéreos e que este verão esses meios estarão disponíveis a tempo e horas “custe o que custar”.
António Costa falava aos jornalistas na ANPC (Autoridade Nacional de Proteção Civil), em Carnaxide (Oeiras), tendo ao seu lado o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, após uma reunião de trabalho sobre a preparação do dispositivo especial de combate aos incêndios.
Interrogado sobre os meios aéreos que estarão disponíveis para o combate no próximo verão, o líder do executivo respondeu: “Há uma coisa que gostaria de deixar claro, é que pode ser que as autoridades reguladoras e judiciais não ajam atempadamente para desfazer os cartéis que querem capturar o Estado”. E declarou a seguir:
Mas o Estado não será capturado e teremos os meios aéreos a tempo e horas custe a quem custar – e vai custar, porque não é aceitável que alguém queira transformar a segurança das populações numa ameaçada ao Estado”.
Entretanto o PCP manifestou a intenção de ouvir o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e o presidente da Autoridade Nacional da Proteção Civil, Mourato Nunes, sobre “a preparação, meios e respostas previstas para a fase mais crítica de incêndios que se aproxima”, na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais.
Num requerimento entregue esta sexta-feira de manhã, o grupo parlamentar comunista nota que “informações e relatos” que chegaram aos deputados do partido “dão conta de atrasos que se verificam na preparação da proteção civil para a época mais crítica de incêndios”.
Segundo o deputado Jorge Machado, numa intervenção no plenário da Assembleia da República, notou que a discussão sobre a proteção civil “não pode estar refém de calendários mediáticos nem pode ser discutida à margem dos agentes de proteção civil”. E, antecipando a entrega do requerimento para ouvir Eduardo Cabrita e Mourato Nunes, sustentou que, “no que à proteção civil diz respeito, estamos piores do que estávamos no ano passado”.
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Obviamente que o Estado não pode estar refém de empresas de meios aéreos, mas tem estado. E não sei se o Governo tem força para anular essa tentação cartelista. Não o fez noutras áreas, salvo honrosas exceções, dado que se trata de empresas poderosíssimas num Estado sem autoridade. Tanto assim é que se sabe que a maior parte dos incêndios tem origem em mão criminosa ou em atitudes de negligência e as atitudes de negligência continuam e as mãos criminosas prosseguem impunemente. Não sei se a culpa é da Lei (se é, que a mudem) se da Justiça (se é, que a escrutinem e não nos atirem com a sua autonomia e independência).
Depois, a culpa acaba por ser imputada pela opinião pública a quem não limpa matas, porque não tem possibilidades económicas…
Se o Estado não se acautela e não ganha autoridade para intervir sempre que a comunidade está em perigo, é de perguntar para que diabo queremos o Governo, o Parlamento e os Tribunais. Muitos efetivamente se governam à custa do Estado, sobretudo aqueles que querem que haja menos Estado, pretendendo vender com facilidade a ideia de melhor Estado sendo exíguo o Estado. Depois, facilmente prejudicam os interesses públicos, seja nas PPP, seja nos contratos swap, seja nos vistos Gold, seja na resolução/venda bancária, seja com outros mecanismos.
Quanto aos fogos, está visto que é preciso articular o combate com a prevenção, tirando duma e doutra vertente a especulação negociária. Obviamente que aqueles que trabalham merecem o salário justo e quem vende merece a justa paga, não mais. Ninguém pode engordar com o mal alheio, muito menos com o mal público.
E, mais que a prevenção/combate a incêndios, importa cuidar a floresta, pelo reordenamento, seleção de espécies, pontos de água, vias de acesso e penetração, pluricultura, travagem negociária especulativa. Depois, responsabilizar duramente os prevaricadores.
Um incêndio foi planeado com um mês de antecedência, combinaram os preços de madeira queimada, deram cabo da joia florestal da Coroa. E que lhes acontecerá? Quando? Como? Nada ou no “Dia de São Nunca à tarde”. Para alguns as provas nunca são inequívocas. Porque… têm poder, dinheiro e sabem estar no terreno em prol dos próprios interesses! Até quando?
2018.04.13 – Louro de Carvalho

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