quarta-feira, 18 de abril de 2018

Cuba: transição histórica após seis décadas de poder dos irmãos Castro


A Assembleia Nacional de Cuba iniciou hoje, dia 18 de abril, um dia antes do inicialmente previsto, uma sessão de dois dias para constituir a IX Legislatura e eleger o novo Presidente. É uma transição histórica depois de seis décadas de poder dos irmãos Castro.
A escolha do sucessor de Raúl Castro, irmão do falecido comandante Fidel, deverá recair em Miguel Mario Díaz-Canel Bermúdez na véspera de perfazer 58 anos. Mais do que as parecenças com o ator Richard Gere, espera-se para ver o papel que irá desempenhar no país e no quadro internacional o homem que sobreviveu à sucessão.
Os trabalhos começaram às 9 horas locais (14 horas, em Lisboa) e a eleição deverá ser confirmada pelos delegados amanhã, 19 de abril, aniversário da vitória militar na Baía dos Porcos, local onde, em 1961, exilados cubanos formados e apoiados pela CIA tentaram invadir a ilha para derrubar Fidel Castro do poder.
A respeito deste evento da Assembleia Nacional, José Paulo Fafe, analista e consultor de marketing político avisa:
“Não pensemos que vai mudar tudo de uma vez, mas também não vai ficar tudo como até aqui”.
Este singular conhecedor da realidade de Cuba, onde viveu entre 1975 e 1977, e que visita com regularidade, disse à TVI24 que Díaz-Canel “é suficientemente sagaz para marcar Cuba nos próximos anos”. Deverá estar no poder durante dois mandatos de cinco anos, ou seja será presidente até 2028 com o apoio de Raúl Castro. Com efeito, quando este o nomeou vice-presidente do Conselho de Estado, em 2013, deu um sinal claro de que era Díaz-Canel que desejava como sucessor, como refere José Paulo Fafe, sendo que o “sucessor anunciado, sobreviveu a essa sucessão”, ou seja, resistiu a tensões e jogos de bastidores, “com os quais não é fácil de lidar, num país de partido único”.
Díaz-Canel foi o primeiro filho da revolução a chegar ao cargo, pois nasceu em 1960, um ano após a tomada do poder pelos barbudos da Sierra Maestra, sob a liderança de Fidel Castro, com Raul e Che Guevara. Paulo Fafe revela:
Houve tentativas ao longo dos últimos anos, sobretudo de certos setores como a intelligentsia militar para que houvesse alternativa a Díaz-Canel, que passaram até pelo ‘lançamento’ do nome do filho de Raul, Alejandro Castro Espín, um militar.
A sobrevivência aos enredos tecidos nos bastidores do poder poderá constituir uma primeira prova de força do novo presidente. É recordado, como exemplo dos que não se aguentam no mecanismo de sucessão o caso de Carlos Lage Dávila, o médico que foi vice-presidente do Conselho de Estado até março de 2009 e visto como forte sucessor mesmo de Fidel Castro. Porém, desapareceu na linha da sucessão ao ser destituído por Raúl.
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Inevitavelmente, nos últimos dias e horas, multiplicam-se na imprensa internacional, os perfis de Miguel Díaz-Canel. Apelidado de Richard Gere das Caraíbas pelas parecenças físicas com o ator norte-americano, refere-se a sua paixão desde muito jovem pela música dos Beatles, o uso de computadores e novas tecnologias, sem lhe causar repulsa ou desdém, o poder das novas tecnologias, muito pelo contrário.
Licenciado em Engenharia eletrónica, nasceu em Placetas, cidade do município de Villa Clara, filho duma professora e dum operário e bisneto dum espanhol das Astúrias. Refere o jornal El País, que é casado pela segunda vez e tem dois filhos do primeiro casamento. No final da década de 80 do século passado, ingressou na União dos Jovens Comunistas e passou a secretário do Partido em 1994, na sua província.
Em Villa Clara, ganhou a imagem de dirigente mais aberto, sem uniforme, tendo até apoiado um centro cultural onde havia espetáculos de travestismo. No entanto, foi subindo na nomenclatura do regime até chegar a Ministro da Educação e, em 2013, vice-presidente de Raúl Castro, que dele então disse, num discurso, que “não é um novato ou improvisado.
Díaz-Canel é um homem de Raúl Castro, um quadro do partido, que, de alguma forma, desafia o estilo do dirigente cubano e tentará pensar pela sua cabeça. Mas, apesar das diferenças, sobretudo de estilo, não se espera uma “rutura em Cuba nos próximos tempos”, sobretudo do ponto de vista ideológico. A este respeito, o já mencionado José Paulo Fafe sublinha:
Na realidade dos cubanos, a questão ideológica pouco se coloca. O que se coloca é a questão económica. São poucos os que se preocupam com os partidos, ao fim de tantos anos a viver com partido único. De uma forma direta, o que interessa às pessoas é ter dinheiro no bolso. E, nesse aspeto, Díaz-Canel pode ter um papel importante.”.
Como presidente de Cuba terá a continuidade de Raúl Castro como líder máximo do Partido Comunista, contracenando com os Estados Unidos de Donald Trump, na outra margem do estreito da Florida, a pouco mais de 150 quilómetros de mar, aparentemente mais agrestes para Havana que os de Obama desde a abertura do relacionamento combinada entre Raúl e Obama.
A nível interno, continuarão as reformas de Raúl, em que poderá haver a indução de mudanças, designadamente na permissão e estímulo a pequenas empresas, favorecendo alguma livre iniciativa. A relação com os EUA poderá manter-se, quanto mais não seja, como está. Na prática, após a saída de Obama, poucas mudanças se verificaram: não deixou de haver embaixadas; as remessas de cubanos nos EUA continuam a chegar; e Trump precisa de ter alguma cautela porque tem pela frente uma comunidade cubana de 3.ª geração, muito diferente dos primeiros exilados, mais atenta e que voltou até a poder ir a Cuba.
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Com previsões e inevitáveis incertezas, a 19 de abril vira-se a página na história política de Cuba, ilha que há quase 60 anos desafia a superpotência dos EUA. Porém, algo, muito ou pouco, irá mudar. Vamos ver se Díaz-Canel se aguenta. 
O velho Castro deixa de ser Presidente de Cuba, para cumprir com o compromisso de limitar os cargos políticos a dois mandatos consecutivos, segundo a emenda constitucional que ele próprio promoveu, e entrega o poder a uma geração mais jovem de líderes comunistas. Neste arranque histórico da era pós-castrista, os jovens esperam mais reformas e oportunidades económicas e menos restrições no setor privado. A este propósito, o empreendedor Leo Canosa sublinha:
Penso que o Governo cubano deveria olhar mais favoravelmente para os proprietários de negócios privados. Ajudam a economia. Têm de existir em Cuba para que as pessoas possam sobreviver.”.
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Quando Miguel Díaz-Canel chegou à cúpula do Partido Comunista de Cuba, em 2003, Fidel Castro elogiou-lhe “alto sentido de trabalho coletivo”, a “exigência com os subordinados”, o “afã de superação” e a “sólida firmeza ideológica”. E o elogiado não desiludiu. Fazendo jus ao percurso político iniciado vários anos antes, pautado pela discrição e pela eficiência, chegou a Ministro da Educação e depois a vice-presidente do Conselho de Ministros, até alcançar o estatuto de possível sucessor de Raúl Castro na presidência do país.
O processo de substituição acontece um dia antes do inicialmente previsto e a apenas dois dias de Díaz-Canel completar 58 anos, sendo que esta decisão do Conselho de Estado de antecipar a sessão constitutiva da IX Legislatura da Assembleia Nacional do Poder Popular (única câmara parlamentar) se justifica, segundo a agência cubana de notícias (ACN), pela intenção de “facilitar o desenvolvimento dos passos que requerem uma sessão de tal importância”.
Raúl Castro, de 86 anos, deixará a cadeira presidencial de Cuba, em cumprimento da limitação de mandatos a um máximo de 10 anos decretada por ele mesmo. E, a confirmar-se o cenário previsto, o engenheiro eletrónico, muitas vezes referido como o Richard Gere cubano, tornar-se-á (em 60 anos) o primeiro Chefe de Estado do sem o apelido Castro e o primeiro civil.
Miguel Díaz-Canel integra a primeira geração de líderes cubanos nascidos após a revolução. Nasceu em 1960, um ano após a queda de Fulgêncio Batista, e ingressou na União de Jovens Comunistas no final da década de 1980. De 1994 a 2003 foi secretário do partido na sua província natal fazendo parte do passado o cabelo comprido e o gosto assumido pelos Beatles e pelos Rolling Stones. Deu nas vistas pelo estilo informal, sendo comum vestir velhas T-shirts com a imagem de Che Guevara, e por preferir circular de bicicleta, sempre disponível para “ouvir as pessoas”, mostrando-se ”sensível aos seus problemas”. Foi também nessa época que tomou medidas irreverentes, como licenciar o bar El Mejunje, conhecido pela ligação ao movimento LGBT de Cuba. É, no entanto, um defensor da essência do “castrismo”, leal aos princípios inerentes ao regime. Abraham Jiménez, da revista digital “El Estornudo” considera que Díaz-Canel “já deixou claro que não será o homem da mudança”.
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A ilha dos paradoxos, habituada durante 59 anos a que tudo mude para que tudo continue igual, verá os 605 deputados da Assembleia Nacional do Poder Popular (concorreram às eleições gerais de março numa lista única, em que todos ganhavam e nenhum perdia), escolher entre as suas fileiras o sucessor do octogenário Castro, há dez anos no poder, depois dos 49 do irmão Fidel. Ninguém na América Latina ocupa o poder há tanto tempo como os irmãos Castro.
O novo Presidente passará a chefiar o Conselho de Estado, cujos membros serão eleitos no mesmo dia. No novo Parlamento estarão, ainda, os homens e as mulheres mais poderosos do país, a começar pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez, e o da Economia, Marino Murillo. Também lá estão os chefes do Exército, Leopoldo Cintra Frías e Ramón Espinosa, e a chefe política de Havana, Mercedes López de Acea, juntamente com Mariela Castro, filha de Raúl e responsável pelo Centro Nacional de Educação Sexual.
Acima de todos estará o ainda vice-presidente do Conselho de Estado, Díaz-Canel, chamado a prosseguir a revolução cubana sob a tutela do mais novo dos Castros, que se manterá à frente do Partido Comunista Cubano (PCC), a “força dirigente superior da sociedade e do Estado”.
A eleição de Díaz-Canel, líder duma geração de funcionários provinciais do PCC, consagra um político formado pela revolução, que não combateu na Sierra Maestra porque ainda não tinha nascido. Representa, ainda, a ascensão do primeiro civil à mais alta magistratura, exercida desde 1959 por dois militares com uniformes verde-azeitona.
O futuro homem-forte de Cuba é um dirigente hábil que logrou manter-se em segundo plano enquanto outros, dotados de maior carisma ou popularidade, iam caindo como fruta madura, incluindo os primeiros delfins escolhidos por Fidel. Cauteloso, nos últimos meses extremou as suas declarações mais ortodoxas para que ninguém pudesse ver nele um Gorbatchev cubano. Isto levou alguns a considerá-lo marioneta de Raúl, com fios manobrados pelos militares e pelo PCC. E o Richard Gere cubano, como lhe chamam as seguidoras mais entusiastas, “demonstrou obediência, lealdade e capacidade de gestão”, como resume ao Expresso o politólogo Arturo López-Levy, professor da Universidade do Texas e autor do livro “Raúl Castro e a nova Cuba”, sem edição portuguesa, que explicita:
Tem uma imagem de quadro político eficiente, com atitude dialogante e práticas populares entre os setores revolucionários, com um manejo mais moderno dos novos códigos. Tem a seu favor um grupo de quadros nas províncias e o aparelho central do Governo, além dos funcionários do partido que cresceram sob a sua tutela e orientação.”.
Os analistas apostam que a nomeação de Díaz-Canel induzirá alterações na Constituição. Já não há necessidade institucional de ser um Castro (Fidel ou Raúl) a exercer a presidência simultânea do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros. E o politólogo Álvaro Alba vaticina:
A própria Assembleia pode proceder à reforma para dividir o poder entre os presidentes do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros. Vimos isso na URSS aquando da morte de Estaline, tendo o poder sido repartido entre Khrushchev (secretário-geral do partido), Malenkov (Conselho de Ministros) e Beria (Ministério do Interior).”.
O principal desafio de Díaz-Canel é a economia, no meio duma nova escalada com os EUA – Trump travou o degelo que Obama encetara após mediação do Papa – e da deriva sem limites da aliada Venezuela. O economista Pavel Vidal, antigo funcionário do Banco Central sustenta:
Em termos financeiros estamos numa situação muito parecida com a de 2008, com a economia afundada na crise. Faltam reformas para que o país consiga sustentar uma taxa de crescimento decente e alcance uma nova forma de inserção internacional.”.
Qual será a agenda de Díaz-Canel? Especialistas e cubanólogos observam o estro do país caribenho, que mostra muitas dúvidas e poucas certezas. E há uma conclusão na boca de Vidal:
A economia e a sociedade necessitam de mais mudanças. O novo Presidente terá de avaliar os custos e benefícios políticos, nomeadamente do seu baixo capital político inicial, da pouca legitimidade democrática e da menor legitimidade histórica.”.
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Cuba vai mudar, mas devagar. Poderá suceder ali algo do que se passa com a China: abertura da economia ao sistema de economia de mercado, mas recrudescimento do regime político de partido único, ficando o Estado mais na sombra a controlar dentro e fora do país as empresas que vestem a camisa exterior e funcional das nossas SA.
Se calhar, a Ilha precisa de reforço da democracia política espelhada na Constituição e nas leis, mas também praticada através de eleições pluralistas e da intervenção crítica no quotidiano sem tédio, cansaço ou esgotamento. Os cidadãos merecem!
2018.04.18 – Louro de Carvalho

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