sábado, 7 de abril de 2018

Generalização da autonomia e flexibilização curricular nas escolas


O comunicado do Conselho de Ministros de 5 de abril de 2018 abre com a informação de foi aprovado na generalidade, naquele dia, “o Decreto-Lei que define os princípios de organização do currículo dos Ensinos Básico e Secundário, que será agora colocado em consulta pública”. É um diploma que “representa mais um passo na concretização de uma política educativa que garanta a igualdade de oportunidades, promovendo o sucesso educativo” e que “vem conferir autonomia curricular às escolas, reforçando a flexibilidade dos currículos, de modo a que sejam aprofundadas e enriquecidas as aprendizagens essenciais”.

As principais alterações contidas neste diploma são: adaptação do currículo ao Perfil dos Alunos à saída da escolaridade obrigatória, como finalidade dos 12 anos de escolaridade; generalização  a Autonomia e Flexibilidade Curricular, conferindo às escolas a possibilidade de gerir até 25% do tempo disponível, de forma não impositiva, adequando tempos, espaços e metodologias aos seus projetos curriculares; eliminação dos instrumentos de dualização precoce, extinguindo-se os cursos vocacionais do ensino básico; introdução da área de Cidadania e Desenvolvimento no currículo; introdução da flexibilidade no Ensino Secundário, dando aos alunos dos diferentes cursos e vias a possibilidade de permutar disciplinas; e eliminação dos requisitos discriminatórios no acesso ao Ensino Superior dos alunos do Ensino Profissional e do Ensino Artístico especializado.
Complementarmente, o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, no fim do Conselho de Ministros, anunciou que efetivamente as escolas vão poder gerir como quiserem um quarto do seu tempo de funcionamento, adaptando os espaços, atividades e métodos aos seus projetos curriculares próprios, segundo um decreto-lei ora aprovado e que define os currículos dos ensinos básico e secundário.  
O Ministro disse aos jornalistas que este modelo “é um importante instrumento de trabalho, de equidade e de promoção do sucesso escolar”. E sustentou que, com a possibilidade de cada escola ser responsável por parte do currículo dos seus alunos, “sempre numa lógica não impositiva”, alarga-se às escolas públicas “uma ferramenta de trabalho que até aqui estava garantida apenas às escolas privadas”. Com essa ferramenta poderão, como disse, por exemplo, cruzar-se ou fundir-se disciplinas.
No ensino básico, acaba-se com os cursos vocacionais, e os alunos do ensino profissional e ensino artístico especializado passam a estar nas mesmas condições que todos os outros para entrar no ensino superior, acabando-se com “requisitos discriminatórios” agora existentes.
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Os diretores de grupamentos de escolas e de escolas não agrupadas (poucas) acreditam que “mais escolas vão querer aderir à flexibilização no próximo ano letivo”.
Diz um dos representantes dos diretores de escolas públicas que, no próximo ano letivo, todas as escolas poderão ter mais autonomia para gerir currículos, sendo que o projeto-piloto funcionou melhor no ensino básico do que no secundário.
A experiência do Ministério da Educação, que passa por dar autonomia às escolas para flexibilizar currículos, está a acontecer em 236 escolas públicas e privadas. Abrange apenas inícios de ciclo: 1.º, 5.º, 7.º e 10.º. Para o próximo ano letivo, além da continuidade por parte das já aderentes (repetindo 1.º, 5.º, 7.º e 10.º e prosseguindo nos: 2.º, 6.º, 8.º e 11.º), mais escolas públicas vão querer aderir à flexibilização curricular. A convicção é de Filinto Lima, presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas), que acredita que o projeto-piloto que este ano deu flexibilidade curricular a mais de 230 escolas públicas e privadas funcionou melhor no ensino básico do que no secundário. Defende o ilustre:
No próximo ano letivo vai haver mais adesão de escolas. Quando aparece algo diferente, nós, portugueses, temos receio e pensamos logo que o melhor é deixar os outros ir à frente. Mas, quando os que vão à frente têm feedback positivo, os outros – neste caso, as escolas – também vão querer entrar e criar projetos à sua medida.”.
Recorde-se que, entre outros aspetos, no projeto-piloto, as escolas podiam gerir livremente 25% do tempo letivo disponível, o que implicava poderem escolher diferentes formas de organização, abordagem e métodos de ensino nas salas de aula. Sobre isto, Filinto Lima aduz:
Esta é uma boa medida porque o Ministério da Educação não obriga ninguém a aderir. Tinha algum receio que houvesse uma universalização obrigatória do projeto de flexibilização e isso iria contra a autonomia das escolas. Mas com estes contornos é positivo. Esta é a verdadeira autonomia. As escolas não querem gerir dinheiros, querem é gerir currículos.”.
Do contacto que tem tido com outros diretores de agrupamentos escolares, Filinto Lima diz sentir que no ensino básico tudo está a correr bastante bem. O mesmo não se pode dizer do secundário. O projeto-piloto ocorreu apenas em turmas de início de ciclo, ou seja, do 1.º, 5.º, 7.º e 10.º anos. E justifica:
No ensino secundário surgem dificuldades em virtude do modelo de acesso ao ensino superior. O secundário é muito virado para os exames e, devido à forma como está criado, é um ciclo perdido. É um ciclo em que os alunos se preparam para os exames, para aquela hora e meia.”.
Por isso mesmo, aproveitou o ensejo para voltar a falar de um assunto em que tem vindo a insistir há muito tempo: é preciso discutir o modelo de acesso ao ensino superior. Era muito importante fazermos esta discussão nesta altura, pois é uma boa oportunidade para pais, alunos, professores pensarmos se é este o modelo que queremos ter de acesso ao ensino superior e se ele nos serve. Neste sentido, desafiou também os reitores a falarem sobre este assunto, pois é uma oportunidade para falarem de um assunto que, com certeza, lhes interessa. Por outro lado, pressupõe que esta é uma discussão que sente que o Governo também quer ter.
É de recordar que, em fevereiro, o diretor para a Educação da OCDE esteve em Portugal. Ao falar sobre este projeto-piloto, disse haver uma tensão crescente nas salas de aulas: de um lado estava o novo perfil do aluno e o novo modelo que representa a forma como os professores querem dar aulas e, do outro, a responsabilidade de preparar os estudantes para terem bons resultados nos exames nacionais.
E enquanto nos diapositivos de Andreas Schleicher se lia a questão “O dilema: ensinar para o mundo de amanhã ou para o exame nacional?”, o próprio verbalizava a profecia: “Um dia, Portugal vai ter que alinhar o seu sistema de exames com este novo perfil do aluno”.
Sem exames nacionais, esta tensão não se sente no 1.º e no 5.º o ano de escolaridade. Já o 7.º tem como horizonte o final de ciclo com as provas finais em Português e Matemático. Em termos genéricos, Filinto Lima refere:
No básico é mais fácil de ser implementado, não há a problemática dos exames. O que me dizem os diretores é que há um ou outro constrangimento, mas as escolas estão satisfeitas com os modelos que implementaram. No terreno há 236 escolas e cada escola tem o seu projeto, por isso há 236 projetos diferentes. E o sucesso tem a ver com isso: não há nenhum fato feito pelo ministério, cada escola faz o fato à sua medida, há 236 fatos.”.
E, esperando que não seja uma medida educativa que dura só o tempo duma legislatura, diz:
Esta é uma grande medida, estrutural, e o Governo tem obrigação de chamar a si a oposição, de ter a sua aprovação. Daqui a 6 anos vamos provavelmente ter um governo de direita – é a alternância democrática habitual em Portugal – e vai mudar tudo outra vez sem se saber porquê. A escola precisa de estabilidade. Precisa do tal Pacto de Educação de que fala o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.”.
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Por mim, já aqui adverti que a flexibilização curricular e o Perfil do Aluno oportunamente definido não são compatíveis com a cultura do teste e do exame final. Por isso, a escola pública e a escola devem centrar-se nas condições propícias à provocação das aprendizagens de forma integradora, integrante, integrada e integral. A prova de aferição, que deveria ser aplicada por amostragem – suficiente e menos onerosa –, deve ser elaborada em função da perceção do estado do ensino/aprendizagem e das eventuais introduções de melhoria no sistema.
Não se justifica definir aprendizagens essenciais, bastando que haja programas elaborados de forma adequada ao nível etário dos alunos em cada ano de escolaridade e que a respetiva escola transponha para o seu projeto curricular o que entender que deve transpor, no que deve ser acompanhada por agentes aferidores da exigência e das possibilidades locais. A definição das aprendizagens essenciais pode mesmo constituir um alçapão de facilidade para escolas com ambição académica em detrimento da aprendizagem consistente.
E tenha-se a coragem de dizer às Universidades e aos Institutos Politécnicos que escolham os seus candidatos através das provas de conhecimentos e testes psicotécnicos e/ou de aferição do perfil humano, podendo obviamente um dos esteios complementares (que não o único) ser a média de classificações no ensino secundário. Em alternativa, pode o CRUP (Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas) e o CCISP (Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos) promover a elaboração de uma prova geral de acesso a aplicar a todos os candidatos, como já esteve em uso no país e vigora noutros países.
Quanto ao pacto da educação, ele parece dispensável se um qualquer governo resolver ter um pouco de juízo e for induzido em não proceder a nenhuma alteração de fundo sem uma avaliação do estado de coisas que pretende alterar. Agora, se todos os governos têm marcado a sua agenda política, como é que se há de estranhar que um determinado governo não enverede por esse caminho. E não é um pacto que vai demover um Executivo das suas intenções programáticas. Nesse aspeto, como noutros, o Parlamento poderia estar mais atento!
Recordo que Roberto Carneiro impulsionou uma ampla reforma educativa entre 1987-1989. E uma Ministra da Educação de Governo da mesma área político-partidária em 1995 pegou na tesoura da simplificação de programas do ensino secundário – sem avaliar os programas, mas em função dos exames finais!  Nuno Crato, em 2013/2014 passou uma esponja por programas que estavam em vigor desde 2009 e mandou elaborar novos; e pelas metas de aprendizagem que foram elaboradas em 2010/2011, determinando a elaboração das metas curriculares.
Quem tem telhados de vidro não atira pedras.
2018.04.07 – Louro de Carvalho

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