terça-feira, 17 de abril de 2018

Bispo do Porto convida a rezarmos com ele e a rezarmos por ele


Há pormenores que parecem anódinos, mas cujo peso é deveras relevante. Depois de o Administrador Diocesano ter feito um certo ponto de situação sobre o modo como os colaboradores o ajudaram a conduzir a diocese do Porto durante a vacatura da sede, de ter feito memória de Dom António Francisco e de ter publicamente entregue a diocese ao Bispo recebido como um dom de Deus e ter prometido, em nome de toda a comunidade, inteira obediência e total disponibilidade, Dom Manuel Linda fez uma primeira saudação a todos os presentes.
Nessa alocução, deixou uma mensagem de reconhecimento a todos os que se encontravam presentes (é de assinalar a presença do Ministro da Defesa Nacional e dos diversos chefes de estado-maior das Forças Armadas e do comandante geral da GNR e do Diretor nacional da PSP ) e àqueles que, por motivos ponderosos, se viram impedidos de comparecer; fez uma referência ao seu mestre Dom António Taipa, a quem agradeceu a condução da diocese neste interstício de vacância da sede; traçou as linhas programáticas da abrangência no sentido de contar com todos e cada um, especificando detalhadamente os diversos grupos e setores de agentes pastorais, e de fazer chegar a ação da Igreja a todos os setores e lugares da sociedade em estreita cooperação com todos os que têm a missão de promover o bem comum; elegeu os sacerdotes como porta-estandartes do sagrado no mundo de profanidade; e fez sua uma referência do seu antecessor na entrada na diocese a 6 de abril de 2014: “A nossa Diocese do Porto vem de longe com uma bela história de caminho de [fiéis] esclarecidos, conscientes e responsáveis, inseridos na vida e na cultura do nosso tempo e com uma reconhecida audácia de missão. Todos somos necessários e imprescindíveis!”.
E repetindo como seu o último segmento “Todos somos necessários e imprescindíveis!”, deu a palavra de ordem: “Então, mãos à obra!”. E acrescentou um convite humilde e discreto, mas claro, explícito e mobilizador: “Rezai comigo e rezai por mim”. 
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O convite a rezar com o Bispo e pelo Bispo não pode ser entendido como um pró-forma ou como um mimetismo em relação ao atual Papa Francisco. A meu ver, tem de ser entendido no âmbito do ser e da missão da Igreja. Com efeito, a exemplo de Cristo orante – frequentou a sinagoga (vd Lc 4,16) várias vezes se retirava para orar, ensinou os discípulos a rezar (vd Mt 6,9; Lc 11,1-2), pediu-lhes que orassem e vigiassem (vd Lc 22,40.46) com Ele (e não eram capazes) e rezou ao Pai aquando da ressurreição de Lázaro (vd Jo 11,41-42) e no alto da Cruz (Mt 27,46; Mc 15,34; Lc 23,34.46) – os primeiros cristãos (At 2,42; 4,24-26) eram assíduos à oração (os apóstolos até aguardaram o Espírito Santo reunidos no cenáculo em oração com Maria, mãe de Jesus – At 1,14). Assim se pode ver como a oração é uma vertente importante do ser da Igreja e, em coerência com esse ser orante, a missão há de envolver o convite à oração, porque sempre que dois ou três se reunirem em nome de Cristo, Ele garante a sua presença no meio deles (cf M718,19-20). Por outro lado, o Senhor assegura que tudo o que pedirmos ao Pai em nome d’Ele, o Pai o concederá (Jo 16,23) e Cristo o fará (Jo 14,13), para que o Pai seja glorificado no Filho.
É a oração que prepara e fortalece o ensino dos apóstolos e sustenta a celebração da fração do pão. Sem a disponibilidade para a oração e para um estilo de vida orante, não é possível acolher a Palavra de Deus e é uma temeridade proclamá-la (o orador será sino que tange, mas obviamente oco por dentro). Sem a oração a celebração eucarística saberia a magia ou ilusionismo e as obras sócio-caritativas da Igreja não passavam da mera ação filantrópica. Por isso, o prelado diocesano do Porto tem toda a razão no convite explícito que faz à oração com ele e por ele. Será a oração, iluminada pelo ensino apostólico e a suportar a celebração da fração e comunhão do pão e do vinho, feitos corpo e sangue de Cristo, que garantirá a união fraterna, de modo que os crentes vivam unidos e possam, querendo, possuir tudo em comum e, vendendo terras e outros bens, possam distribuir o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um (cf At 2,42-47). Talvez seja oportuno perguntar pela razão por que o ser cristão hoje não desperta a simpatia do povo nem faz com que o Senhor também agora aumente, todos os dias, o número dos que têm entrado no caminho da salvação (cf id et ib). Será a falta de oração, a falta de assiduidade ao ensino dos apóstolos (aclamam-se Papas e Bispos, mas ouvem-se pouco; compram-se bíblias, mas lê-se e medita-se pouco a Bíblia…)?
 Provavelmente, vai-se muito à missa, rezam-se muito terços, mas não se procura ter com os outros um só coração e uma só alma ou fecham-se às corações às necessidades e aos problemas dos outros. E talvez se dê esmola para despacho de consciência ou descarte do incómodo, sem olhar para o outro e sentir a sua necessidade e valorizar a sua dignidade.
Recordo que Dom Manel Linda, ao referir os consagrados de vida contemplativa e de vida ativa, assinalava a necessidade que temos do exemplo deles e delas e também a necessidade que temos da sua intercessão. Isto leva-nos a pensar na comunhão dos santos que professamos quando proclamamos o Símbolo dos Apóstolos. Em igreja, a oração é sempre pessoal e comunitária. Mesmo quando um crente está sozinho e fala com seu Pai celeste, deve fazê-lo em união com os demais. E nunca deve rezar exclusivamente por si, mas deve louvar, agradecer, pedir perdão e pão por si e pelos demais; e deve saber que em união com ele estão muitos irmãos e irmãs – vivos e defuntos – que rezam por si. É a mútua intercessão, é o interesse mútuo, a participação nos méritos de uns e de outros e, infelizmente, a participação no pecado de cada um dos outros, sobretudo se formos responsáveis por omissão, cooperação ou por escândalo ou ainda por envolvimento ativo ou passivo em estruturas de pecado.  
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Às vezes, papagueamos a tríplice missão da Igreja de ensinar, santificar e pastorear e facilmente a atribuímos ao Bispo, que tem a plenitude da participação no múnus sacerdotal de Cristo. E esquecemos que na base da santificação está a oração, que prepara e confirma a pregação e a escuta da Palavra e que impulsiona e vivifica a caridade.
Ora, o Bispo que entenda como fundamental o apelo a que rezem consigo e por si tem autoridade para reconhecer “os enormes contributos que os múltiplos setores da sociedade podem dar para esta necessária e urgente sensatez humana, para se obstar à inversão dos polos: a transmissão dos valores na família, o inestimável contributo da cultura, a força ordenadora da lei justa, o papel organizador da atividade político-administrativa, a prevenção ou repressão atribuídas às Forças Armadas e às Forças de Segurança, etc.”. Porém, tem força para afirmar que, no entanto,
Esta obra de salvação está confiada primordialmente à Igreja, como guardiã da memória d’Aquele que ‘por nós homens e para nossa salvação desceu dos Céus’. A comunidade crente atualiza essa salvação agindo, simultaneamente, em dois âmbitos: internamente, na santificação, isto é, no tornar os corações mais sensíveis, mais semelhantes ao de Cristo; externamente, contribuindo para a humanização das organizações e das estruturas, no respeito pela autonomia das realidades terrenas.”.
E, na homilia da Missa da entrada solene no exercício do seu múnus pastoral, o Bispo do Porto, depois de pronunciar os segmentos acabados de transcrever, assumiu que “esta é a nossa missão”. E prosseguiu, justificando com o que pressente de necessário no mundo e na decorrência da missão da Igreja:
Mesmo sem o reconhecer, esta é a fermentação evangélica que o nosso mundo anseia. Sim, há muitas linguagens e compete-nos sermos especialistas na sua decifração. E uma das que mais ressoam por aí é o grito da opressão do sem-sentido que tanto fecha a pessoa no seu individualismo narcisista como o conduz ao abandono dos outros. Ser presença de Igreja neste mundo passa, consequentemente, por “comover [os corações] para desconvocar a angústia e aligeirar o medo”, para usar a belíssima expressão de Agustina Bessa Luís.”.
Depois, privilegiando a “ação pastoral de ‘comover’ os corações”, diz que para ela conta “com todos”, em especial com os jovens, “com as sapatilhas calçadas”. E acrescenta:
Este tempo só aceita jogadores titulares em campo, não no banco de suplentes. Jovens e pessoas de todas as idades.”.   
Mas deixa um recado aos pastores, que os distingue dos burocratas. Assegurando que “o cristianismo é proximidade”, diz “o que faz a diferença entre o burocrata e o pastor: um conta o número de ovelhas, o outro procura cuidar delas”. 
Já tinha ficado assente que contava com todos e todos “como titulares e em campo”, obviamente “treinados e capitaneados pelos bispos e padres”, mas “não para gáudio destes, mas para, mais organicamente, obter bons resultados e marcar pontos no atuar da salvação no mundo”. E, não se retirando “a determinante importância aos pastores”, eleva-se “o timbre de o ser”.
Agora, quase a terminar, deixa o desafio claro aos fiéis em Cristo: “Estamos todos na barca de Pedro: ou navegamos ou nos afundamos. Então, o melhor será remarmos em conjunto.”.
Por fim, pegando no “gesto das Câmaras Municipais do Porto e de Vila Nova de Gaia de atribuição do nome de Dom António Francisco dos Santos à nova ponte, estrutura de aproximação e de encontro”, viu neste tributo à Diocese do Porto uma “interpelação” feita a si, pessoalmente, “qual seja a necessidade de nunca me esquecer de que um bispo é, por natureza e mandato divino, ‘um pontífice’, um construtor de pontes”. E prometeu tentá-lo “com a ajuda divina” que implora “por intermédio da ‘Rosa mística’, a Virgem Santa Maria, venerada como Senhora da Assunção em toda a Diocese e como Senhora da Vandoma nesta nossa cidade episcopal”.
E, firmando-se no lema do presente ano pastoral “Movidos pelo amor de Deus”, apelou: “vamos à nossa obra, irmãos”.  
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Enfim, temos Bispo do Porto. Veremos se teremos Igreja no Porto!
2018.04.17 – Louro de Carvalho

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