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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Invocar, caminhar e agradecer, três marcas do cristão em Igreja


Foi em torno destes três verbos que o Papa desenvolveu a sua homilia da Missa de canonização, a 13 de outubro, na Basílica de São Pedro, do Cardeal John Henry Newman, das religiosas Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e da leiga Margarida Bays.
Partindo do episódio dos 10 leprosos de que fala o texto do Evangelho de Lucas (Lc 17,11-19) assumido para o 28.º domingo do Tempo Comum no Ano C, Francisco salientou que a palavra do Senhor ao leproso que, tal como os outros, indo de caminho mostrar-se aos sacerdotes, se sentiu curado da lepra e deu meia volta para vir agradecer, “A tua fé te salvou” “é o ponto de chegada” do Evangelho que mostra o caminho da fé. Com efeito, por um lado, o caminho da fé espelha-se no percurso que Jesus fez com os discípulos para Jerusalém, onde ia ser sujeito à Paixão em que o Pai o glorificaria e Se glorificaria n’Ele, sendo a ressurreição dos mortos o certificado da glorificação de Cristo. Um caminho para o qual Jesus convida quem o quiser seguir e que implica renúncia e andar sem olhar para trás. Por outro lado, este percurso de fé mostra-nos três momentos significativos vincados pelos leprosos, sendo que apenas um – e estrangeiro – executou o 3.º momento: invocar, caminhar e agradecer.
Naqueles tempos, os leprosos sofriam a doença que os afligia (ainda hoje presente e a exigir combate) e sofriam o estigma da exclusão social em razão do perigo de contágio, pelo que deviam estar isolados do resto do mundo e gritar a quem pressentissem aproximar-se: Impuro, impuro! Também à passagem de Jesus, aqueles 10 leprosos gritaram, não o pregão estabelecido na Lei, mas o da confiança. Vão ter com Jesus, mas mantêm-se à distância e invocam-No. Vencem as exclusões ditadas pelos homens e invocam o Filho de Deus, que não exclui. Não se contentaram com o que ouviram dizer que Jesus fez a outrem; acreditavam que Jesus os podia curar. Isto faz dizer ao Santo Padre que “a salvação não é beber um copo de água para estar em forma, mas é ir à fonte, que é Jesus”. Na verdade, “só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida”. Os leprosos foram à fonte.
Ora, nós não podemos dizer que isso não nos diz respeito, pois todos nós necessitamos de cura, Precisamos da cura sobre a pouca confiança em nós mesmos, na vida, no futuro; sobre os medos que nos paralisam; sobre os vícios que nos escravizam; sobre a nossa autossuficiência, eu nos isola dos demais; sobre os fechamentos, dependências e apegos ao jogo, ao dinheiro, à televisão, ao telemóvel, às opiniões alheias. O Senhor liberta e cura o coração, se O invocarmos. Ora, invocar remete para a oração que nos leva a chamar a Deus pelo seu nome, o que é sinal de confidência, de que o Senhor gosta e que faz crescer a fé. Com a invocação confiante da fé, levando a Jesus o que somos, sem esconder as nossas misérias, sabemos que Deus salva. Isto é rezar, é mostrar fé. A fé salva e a oração, que “é a porta da fé”, é “o remédio do coração”.
Depois, é preciso atentar no facto de os leprosos terem sido curados, não quando estavam diante de Jesus, mas enquanto caminhavam às ordens de Jesus para se mostrarem aos sacerdotes, como diz o Evangelho: “Enquanto iam a caminho, ficaram purificados” (17,14). Foram curados enquanto caminhavam para Jerusalém palmilhando uma estrada a subir. Também nós somos purificados no caminho da vida, um caminho frequentemente a subir, porque leva para o alto. A fé requer um caminho, uma saída e só acontece o milagre, diz o Papa, “se sairmos das nossas cómodas certezas, se deixarmos os nossos portos serenos, os nossos ninhos confortáveis”. E o Sumo Pontífice recordou que também o Profeta a Naaman, general sírio que pedia a cura da sua lepra, indica a tarefa de caminhar até ao rio Jordão para se banhar sete vezes. Naaman, que esperava o espetáculo da cura milagrosa pelas rezas e toques do homem de Deus, fica desapontado, pois tinha na sua terra rios melhores que o Jordão. E foi um servo que o aconselhou a fazer aquela coisa tão simples que o Profeta lhe recomendara. E ficou curado, o que leva o Sumo Pontífice a dizer:
A fé aumenta com o dom e cresce com o risco. A fé atua, quando avançamos equipados com a confiança em Deus. A fé abre caminho através de passos humildes e concretos, como humildes e concretos foram o caminho dos leprosos e o banho de Naaman no rio Jordão (cf 2 Re 5, 14-17). O mesmo se passa connosco: avançamos na fé com o amor humilde e concreto, com a paciência diária, invocando Jesus e prosseguindo para diante.”.
Em contexto sinodal, Francisco sublinha o facto de os leprosos ficarem curados quando se moviam juntos. O Evangelho refere, no plural, que “iam a caminho” e “ficaram purificados”, pelo que se deduz que “a fé é também caminhar juntos, jamais sozinhos”. E o Papa Bergoglio anota que, uma vez curados, nove continuam pela sua estrada e apenas um regressa para agradecer. E Jesus desabafa a sua mágoa perguntando pelos outros nove. Esqueceram que é tarefa dos homens agradecer. E isto faz-se de forma eminente na Eucaristia, que nos leva a “ocuparmo-nos de quem deixou de caminhar, de quem se extraviou”, pois “somos guardiões dos irmãos distantes, todos nós”, somos intercessores por eles, somos responsáveis por eles, isto é, chamados a responder por eles, a tê-los a peito”.
Agradecer é a última etapa do percurso. E só àquele que agradece é que Jesus diz: “A tua fé te salvou”. E é de notar que “não se encontra apenas curado; também está salvo”. Isto quer dizer que “o ponto de chegada não é a saúde, não é o estar bem, mas o encontro com Jesus”. Quando o homem encontra Jesus, brota dele espontaneamente o “obrigado”, porque descobre o mais importante da vida: “não o receber uma graça nem o resolver um problema, mas abraçar o Senhor da vida”. E o Papa desenvolve:
É encantador ver como aquele homem curado, que era um samaritano, manifesta a alegria com todo o seu ser: louva a Deus em voz alta, prostra-se, agradece (cf 17,15-16). O ponto culminante do caminho de fé é viver dando graças. Podemos perguntar-nos: Nós, que temos fé, vivemos os dias como um peso a suportar ou como um louvor a oferecer? Ficamos centrados em nós mesmos à espera de pedir a próxima graça, ou encontramos a nossa alegria em dar graças?”.
Depois, enuncia os efeitos do agradecimento a Deus:
Quando agradecemos, o Pai deixa-Se comover e derrama sobre nós o Espírito Santo. Agradecer não é questão de cortesia, de etiqueta, mas questão de fé. Um coração que agradece, permanece jovem. Dizer ‘obrigado, Senhor’, ao acordar, durante o dia, antes de deitar, é antídoto do envelhecimento do coração, porque o coração envelhece e se habitua mal.”.
***
Do episódio dos leprosos, o Pontífice passa ao episódio da canonização, a que procedeu, dos cinco beatos. Também eles invocaram o Senhor, para se purificarem das tentações de autossuficiência, dos medos paralisantes, dos vícios que os espreitavam. E nós agora invocamo-los como intercessores. Também eles caminharam na fé em conjunto com os irmãos e irmãs. E nós agora queremos associá-los à nossa caminhada conjunta assumindo-os como luzeiros da doutrina, da fé, da Eucaristia, da caridade e da misericórdia. Também eles souberam agradecer os benefícios de que Deus os cumulou, os dons que o Senhor lhes dispensou para benefício da Igreja e da humanidade. E o Papa sintetiza em breves palavras as suas vidas:  
Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela, na sua humildade, o esplendor da Páscoa. Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman quando diz: ‘O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (...) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (...) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum’ (Parochial and Plain Sermons, V, 5).”.
E terminou exortando e rezando:
Peçamos para ser, assim, ‘luzes gentis’ no meio das trevas do mundo. Jesus, ‘ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros’ (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.
***
O Vatican News em português realça, de entre os cinco beatos canonizados, a Irmã Dulce Pontes, a primeira santa brasileira, a devotada aos pobres. Assim, enfatiza:
Irmã Dulce é santa. A celebração litúrgica com o rito da canonização reuniu cerca de 50 mil pessoas na Praça São Pedro. Com o “Anjo bom da Bahia”, foram canonizados também João Henrique Newman, Josefina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, e Margarida Bays.”.
Depois, relata em três pontos:
A cerimónia teve início com o rito da canonização: o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Becciu, acompanhado dos postuladores, foi junto do Santo Padre e pediu que se procedesse à canonização dos beatos.
O Cardeal apresentou brevemente a biografia de cada um deles, que foram então declarados santos. Seguiu-se a ladainha dos santos e o Pontífice leu a fórmula de canonização.
O prefeito da Congregação, sempre acompanhado dos postuladores, agradeceu ao Santo Padre e o coro entoou o canto do Glória.”.
E refere que, “na homilia, o Papa Francisco comentou o Evangelho deste 28.º Domingo do Tempo Comum, que narra a cura de 10 leprosos”, como já foi desenvolvido, em torno dos verbos invocar, caminhar e agradecer.
***
Antes de concluir a celebração eucarística da canonização, o Santo Padre rezou com os fiéis a oração mariana do Angelus e fez dois apelos: ao Médio Oriente e ao Equador.
Formulou uma saudação e um agradecimento a todos, nomeadamente aos cardeais, bispos, sacerdotes, monjas, religiosos e religiosas de todo o mundo, em especial aos que pertencem às famílias espirituais dos novos Santos, e aos fiéis leigos ali reunidos.
Saudou as delegações oficiais de vários países e, em particular o Presidente da República Italiana e o Príncipe de Gales, pois, com o seu testemunho evangélico, estes Santos fomentaram o crescimento espiritual e social nas respetivas nações. E dirigiu uma saudação especial aos delegados da Comunhão anglicana, com profunda gratidão pela sua presença.
Saudou todos os peregrinos, bem como todos os que seguiram aquela Missa através da rádio e da televisão. E dirigiu uma saudação especial aos fiéis da Polónia que celebravam o Dia do Papa: agradeceu as suas orações e o seu constante afeto.
Os seus pensamentos dirigiram-se uma vez mais para o Médio Oriente, em particular, para a amada e martirizada Síria, de donde voltam a chegar notícias dramáticas sobre o destino das populações do nordeste do país, obrigadas a abandonar os seus lugares por causa das ações militares: entre estas populações há também muitas famílias cristãs. E renovou o seu apelo a todos os atores envolvidos e à comunidade internacional no sentido de se comprometerem com sinceridade honestidade e transparência no caminho do diálogo para buscar soluções eficazes.
Referiu que, juntamente com todos os membros do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, especialmente os equatorianos, seguia com preocupação o que tem vindo a suceder no Equador nas últimas semanas. Encomendou o país à oração comum e à intercessão dos novos Santos, unindo-se à dor pelos mortos, feridos e desaparecidos. Animou-o a buscar a paz social, com especial atenção às populações mais vulneráveis, aos pobres e aos direitos humanos.
E, por fim, exortou a que todos se dirigissem à Virgem Maria, modelo de perfeição evangélica, para que nos ajude a seguir o exemplo dos novos Santos, que são nossos intercessores e luzeiros nesta nossa caminhada de fé, de oração, de testemunho evangélico e de caridade na justiça.
2019.10.14 – Louro de Carvalho

domingo, 13 de outubro de 2019

Em Fátima, paz foi a intenção central da Peregrinação de outubro de 2019


Foi a intenção da paz que levou Dom Andrew Yeom Soo-jung, Cardeal sul-coreano e Arcebispo de Seul, a aceitar o convite para vir a Fátima presidir à Peregrinação Internacional Aniversária da 6.ª Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria, para a qual se inscreveram no Santuário 157 grupos de mais de três dezenas de países, entre eles muitos da Ásia. Disse o purpurado asiático na conferência de imprensa que antecedeu o início da peregrinação na tarde do dia 12, no final de uma intervenção que percorreu a história da evangelização da Coreia do Sul:
Na Coreia, a oração pela paz é diária. Vim a Fátima, sob o manto de Maria, trazer essa intenção pelos que sofrem e são torturados, na península coreana.”.
A paz é também uma das preocupações que traz a esta Peregrinação o prelado de Leiria-Fátima, que lembrou a ameaça da nova frente de guerra iniciada contra os curdos, na Síria (já morreram pelo menos 440 combatentes curdos das Forças Democráticas Sírias). 
Tanto Dom Andrew Yeom Soo-jung como Dom António Marto apontaram a paz como primeira intenção para as celebrações destes dois dias (12 e 13), na Cova da Iria. A respeito da paz e do Santuário, o prelado fatimita afirmou:
A presença do arcebispo de Seul quer ser um sinal da atenção que o Santuário de Fátima dedica à paz, bem como ao crescente número de peregrinos que aqui afluem vindos da Coreia do Sul e de toda a Ásia”.
Porém, o Cardeal Dom António Marto não esqueceu o que se passou a 6 de outubro e alertou para a importância de uma maior consciência democrática. Debruçando-se sobre a atualidade nacional, o purpurado congratulou-se com a “maneira cívica” como decorreram as eleições legislativas do passado fim-de-semana, mostrando-se, no entanto, preocupado com os “níveis tão elevados de abstenção” e a “crescente onda de populismos”, que, em sua opinião, exigem uma “elevação da qualidade da atividade política” e uma maior consciência democrática.
É preciso responder às questões de fundo da sociedade. A classe política deve mostrar que tem classe!” – afirmou deixando votos para que a nova legislatura traga “paz social; estabilidade; uma maior atenção à solidariedade social, para com os mais pobres, frágeis e vulneráveis e para com as instituições de solidariedade que a eles se dedicam”.
No âmbito da Igreja universal, Dom António Marto sublinhou a “especial importância para a Igreja” do Sínodo sobre a Amazónia, que está a decorrer no Vaticano, dizendo:
Podemos dizer que a Amazónia é um lugar concreto onde se centram e manifestam os grandes desafios globais do nosso tempo e onde se retomam as grandes linhas pastorais do Santo Padre”.
Ao nível da Igreja em Portugal, lembrou o encerramento do Ano Missionário, convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa – dentro do mês missionário extraordinário, proclamado pelo Papa – que acontecerá a 20 de Novembro, no Santuário de Fátima, evocando o seu propósito:
A finalidade deste Ano Missionário era dar um abanão à Igreja, para reavivar o ardor e a paixão pela missão de Jesus e reacender o dinamismo missionário de uma Igreja em saída da sua zona de conforto e da sua autorreferencialidade”.
Na sua intervenção, o purpurado português referiu-se ainda à viagem apostólica que o Papa vai fazer ao Japão e à Tailândia, no próximo mês, e às canonizações que hoje, dia 13, tiveram lugar em Roma, nomeando, pela “particular atualidade”, os nomes da Irmã Dulce Lopes Pontes, que se distinguiu pelas suas obras sociais em favor dos mais pobres, e o Cardeal Dom John Henry Newman, percursor e inspirador do Concílio Vaticano II.
Por seu turno, o Reitor do Santuário destacou a ida da Imagem Peregrina ao Panamá como um dos momentos altos da dinâmica pastoral do Santuário em 2018-2019 e deixou um balanço prévio do presente ano pastoral, relevando a continuidade da estabilização do número de peregrinos em Fátima, ao apresentar dados que revelam a participação de cerca de 4,5 milhões de peregrinos nas celebrações do Santuário nos primeiros 9 meses de 2019. E, sobre a dinâmica pastoral na Cova da Iria em 2018-2019, o Padre Carlos Cabecinhas destacou como um dos momentos mais marcantes a ida da Imagem Peregrina de Nossa Senhora ao Panamá, à Jornada Mundial da Juventude, lembrando o programa paralelo que levou a Virgem Peregrina aos lugares mais periféricos daquele país, como foi o caso da visita a uma prisão, a um hospital oncológico e a um bairro degradado. A este propósito, revelou:
Um dos frutos desta visita vai ser anunciado amanhã (hoje, dia 13) pelo senhor Arcebispo do Panamá: a construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima, na cidade do Panamá”.
E vincou que um o núcleo desse santuário será uma réplica da Capelinha das Aparições.
Sobre o presente ano pastoral, o Padre Cabecinhas destacou ainda o incremento que o Santuário levou a cabo nas ações de formação, nomeando algumas das iniciativas que concretizam esta aposta: as diversas propostas formativas, de caráter espiritual e de aprofundamento da mensagem de Fátima, oferecidas pela Escola do Santuário; e a promoção de atividades de reflexão e estudo sobre Fátima, quer nos espaços do Santuário, quer fora dele, na participação de fóruns de reflexão mais alargados.
Por fim, destacou a “especial atenção que o Santuário deu ao acolhimento dos peregrinos mais frágeis” neste ano, nomeadamente através dos retiros de doentes, das férias para pais de filhos com deficiência, da peregrinação dos idosos e da aposta no acolhimento inclusivo através de propostas para a comunidade surda portuguesa. E concluiu:
Procuramos que o Santuário seja, cada vez mais, lugar de acolhimento da fragilidade, na linha daquilo que tem defendido o Papa Francisco”.
***
No momento da saudação à Virgem, na tarde do dia 12, o Cardeal Dom António Marto renovou o pedido de Nossa Senhora aos pastorinhos, desafiando os peregrinos a rezarem o terço todos os dias pela paz nas famílias, nos países e no mundo, em especial na Coreia e na Síria, vincando:
Neste mês de outubro comemoramos Nossa Senhora como a Senhora do Rosário. Foi assim que Ela se apresentou aos Pastorinhos pedindo-lhes que rezassem o terço todos os dias. Também nós, hoje, queremos apelar à oração pela paz nas famílias, nos países e no mundo, mas em especial na Coreia e na Síria.”.
Em sintonia com o Santo Padre, disse que, “nesta peregrinação de outubro, mês missionário extraordinário, queremos ter em intenção esta vontade do Papa para que o sopro do espírito frutifique no coração dos homens” e sublinhou “o afeto e comunhão” com os cristãos católicos da Coreia e de toda Ásia que “aqui vêm em número tão expressivo”. Disse que a presença do cardeal sul-coreano nos alegra muito e permite exprimir o afeto e comunhão com os cristãos católicos da Coreia e de toda a Ásia” e assegurou que o caminho que faz cada se peregrino torna “uma expressão viva da peregrinação interior”, que, por mais dolorosa que seja, se faz “sempre com esperança porque sabemos que, no termo do caminho, alguém nos espera e espera por nós”.  
E rematou com a afirmação de que “a peregrinação é uma viagem com fé”.
Por sua vez, o prelado asiático garantiu:
Eu sou peregrino como vós, também venho em peregrinação ao encontro da Mãe. Vamos rezar e pedir a Nossa Senhora de Fátima pela paz no mundo e pela nossa conversão.”.
Um manto de luz voltou a cobrir o Santuário de Fátima este sábado à noite, durante a recitação do terço (em que a oração de alguns dos mistérios foi assegurada pelo menos por três línguas asiáticas: indonésio, coreano e tagalog) e na Procissão das Velas.
E, na homilia da Missa da vigília – concelebrada por 178 sacerdotes, 6 bispos e dois cardeais e em que a oração dos fiéis teve uma prece em coreano, centrada na questão da Paz – o Cardeal Arcebispo de Seul recordou a história do país, marcada pela “provação” ao longo do século XX, para assinalar que, apesar de todas as perseguições e “tragédias”, a fé do povo coreano não esmoreceu, como nunca é destruída a fé de um povo, se ela for entendida como uma missão. Pediu a paz e a reconciliação para a Península Coreana e rezou “pelo fim dos conflitos e das divisões”, apelando:
Peço as vossas orações pela paz e pela reconciliação na Península Coreana, pelos vossos irmãos e irmãs na fé, geograficamente distantes, mas unidos pela presença de Deus. Orai connosco pelo fim dos conflitos e das divisões na península.”.
E, em dado momento, observou:
A fé, a missão como povo de Deus, continua, não obstante a tragédia da destruição do templo e do exílio da comunidade. O templo foi, durante muitos séculos, central para o culto de Israel, mas não é essencial. Deus permanece connosco.”.
Sublinhando a importância do Santuário como “o verdadeiro centro da comunidade”, disse:
 Cada geração tem celebrado a presença de Deus refletindo a sua própria história de salvação”.
Sobre as sombras da história do seu povo, vincou: 
Foi um período de provação para a nossa nação e a nossa comunidade de fé. A combinação do colonialismo japonês e dos comunismos vizinhos da Rússia e da China marcou a entrada da Coreia numa era turbulenta de dominação estrangeira. Logo após a libertação colonial em 1945, a nação viu-se dividida: Norte versus Sul, comunista versus capitalista. (…) Cinco anos depois, a guerra devastou a península por três longos anos, causando morte, destruição e a divisão de muitas famílias. Infelizmente, a guerra trouxe uma divisão ainda mais profunda e hostilidade mútua entre o Norte e o Sul. Passadas sete décadas, desde 1950, a nação continua dividida e a reconciliação permanece inalcançável.”.
Lembrando que é também administrador apostólico de Pyong-yang, capital da Coreia do Norte, país que nunca foi autorizado a visitar, confidenciou:
Acredito que Nossa Senhora de Fátima, que apareceu há 100 anos, nos instaria hoje a trabalharmos e a orarmos pela paz neste nosso século. (…) Ela representa para nós a grande medianeira, apoiando a nossa jornada de fé até ao Senhor. Além disso, a nossa Santa Mãe não está apenas a orar por nós, mas está também a ensinar-nos: ‘Fazei tudo o que ele vos disser’ (Jo 2,5). As palavras de Santa Maria chegam-nos como um convite para sermos ‘abertos na presença de Deus’, tal como os israelitas que celebraram a reconstrução do templo.”.
***
Hoje, dia 13, na homilia da Missa Internacional Aniversária, concelebrada por 2 cardeais, 11 bispos e 232 presbíteros, Dom Andrew Yeom Soo-jung salientou a importância do louvor a Deus e apresentou a oração, a Eucaristia e a evangelização como expressões de agradecimento a Deus pela “dádiva da salvação”. Disse ele:
No Evangelho, ouvimos a narrativa de São Lucas acerca da cura dos dez leprosos. Estes leprosos gritaram a oração que deveria ecoar no nosso coração: ‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós’. Como reagimos a esta dádiva de uma nova vida? Nós fomos perdoados. A nossa lepra foi purificada. Precisamos de seguir o exemplo de Naamã e do leproso samaritano. Precisamos de dar meia-volta e dar graças a Deus.”.
Bem podia ser este o legado da peregrinação:Dar meia-volta e dar graças a Deus”. Com efeito, é preciso confiar na Misericórdia de Deus, pedir perdão e agradecer o perdão.
Ao evocar o Milagre do Sol, ocorrido na Aparição de 13 de outubro de 1917, como sinal da intervenção de Deus “nas leis da natureza” e “na luta contra o Mal”, o prelado apresentou os ensinamentos da Bíblia e o acontecimento de Fátima como garantia da presença inequívoca de Deus na vida de cada homem, garantindo:
As aparições de Nossa Senhora em Fátima dizem-nos que, apesar das dificuldades, nunca estamos sós. Aprendemos que, se as dificuldades existem, Nosso Senhor e Nossa Senhora estarão presentes para nos ajudarem nas nossas necessidades. Não nos esqueçamos de que na nossa Santa Mãe encontramos a ajuda e o apoio necessários para enfrentarmos os muitos desafios que inevitavelmente enfrentamos enquanto seres humanos.”.
Tomando como exemplo o fiat de Maria: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segunda a vossa palavra” – que foi tema da última Jornada Mundial da Juventude, no Panamá –, o cardeal sul-coreano exortou os peregrinos a responder com “humildade, confiança e coragem” às graças, bênçãos e misericórdia com que Deus reconforta a humanidade. E, perspetivando a Jornada Mundial da Juventude de 2022, em Lisboa, como uma ocasião para “proporcionar aos jovens uma visão de um mundo melhor e encorajá-los a encarnar Cristo no nosso tempo”, o Cardeal Arcebispo de Seul incentivou a assembleia a participar naquele encontro, pedindo, no final da homilia, a oração pela paz e reconciliação das Coreias.
***
Na palavra dirigida aos doentes, durante o momento de Adoração ao Santíssimo Sacramento, o Padre José Nuno Silva apresentou o acontecimento de Fátima como a resposta compassiva de Deus ao sofrimento humano. Começou por interrogar:
Quem não conhece a sensação íntima de sofrimento que faz o coração lançar-se para Deus: ‘tem compaixão de nós, tem compaixão de mim?’.”.
Depois, apresentando Deus como lugar certo para recorrer no sofrimento e estabelecendo um paralelo com o episódio da cura dos leprosos, narrado no Evangelho, garantiu:
Quando Deus aconteceu maternalmente em Fátima, nas aparições da Sua e nossa Mãe, veio responder a esta prece: ‘tem compaixão de nós’. A todos, a cada um, ele quer oferecer a experiência de se sentir salvo no seu sofrimento.”.
E prosseguiu, identificando Fátima como lugar que “ensina a voltarmo-nos para Deus”:
Ainda que não vejamos a cura, somos salvos, como atesta a resposta que Jesus deu ao único leproso que se voltou para ele não apenas para suplicar, mas para agradecer. Voltar-se para Deus no sofrimento – eis o que salva e nos permite sentir a salvação: voltar-se para Deus no sofrimento.”.
Evocou o sofrimento voluntário dos pastorinhos e o seu contributo para a causa de Deus e disse:
Voltar-se para Deus no sofrimento salva, diz Fátima. E não salva apenas o que sofre. Aprendemo-lo com São Francisco e Santa Jacinta Marto. Ofereceram-se a Deus e transformaram cada sofrimento num ato missionário. (…) Sem saírem de Fátima, como Santa Teresinha sem sair do Carmelo e, no entanto, proclamada padroeira das missões, foram missionários universais no sofrimento e pelo sofrimento.”.
Ao lembrar o mês de outubro dedicado às missões, o sacerdote desafiou os doentes a participar na missão da Igreja, apesar da doença:
A doença coloca-vos na fonte e no coração da missão da igreja: no sofrimento, podeis escolher ser páscoa, podeis decidir viver em Páscoa e podeis voluntariamente anunciar a Páscoa, com a autoridade das testemunhas, que só o sofrimento oferecido dá”.
E exortou os doentes que recebiam a bênção do Santíssimo Sacramento a “transformarem o sofrimento em ato de amor missionário para a salvação da humanidade”.
***
Por fim, o Cardeal Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, deixou a última palavra enaltecendo a coragem e a fé dos peregrinos de várias nacionalidades que, apesar do frio e da chuva, encheram o Recinto de Oração. Agradeceu a presença do Cardeal Dom Andrew Yeom Soo-jung e elogiou o testemunho “belo” de fé que o povo coreano tem dado ao longo da sua caminhada em Igreja, destacando o papel que Nossa Senhora de Fátima tem assumido como fonte de conforto neste percurso de fé. E assegurou que Fátima é conforto para o povo Coreano, dizendo:
No meio das provações, o povo cristão da Coreia encontrou apoio, ajuda e conforto na Santa Mãe Celeste e na Mensagem de Fátima”.
E concluiu dirigindo uma saudação final aos peregrinos, em especial aos doentes ali presentes, a quem se uniu espiritualmente em oração.
***
É Fátima no seu melhor, no dinamismo evangelizador que inspira o ser e a missão do Santuário!
2019.10.13 – Louro de Carvalho

domingo, 6 de outubro de 2019

Por e com os irmãos na Amazónia, caminhemos juntos


É o apelo de Francisco deixado na missa inaugural da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, celebrada na manhã deste domingo, dia 6 de outubro, na Basílica de São Pedro, na profunda convicção de que “muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja”. Por isso, é imperativo o caminho conjunto por eles e com eles.
A missa foi precedida de longa procissão de entrada e concelebrada com os treze novos cardeais, criados no Consistório presidido pelo Santo Padre no sábado à tarde e com os 185 padres sinodais (58 do Brasil); e, na assembleia, estavam representantes de comunidades indígenas.
É de recordar que o tema deste Sínodo, que terminará a 27 deste mês, é “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
Dirigindo-se aos padres sinodais, bispos provenientes não só da região pan-amazónica, mas também de outras regiões, e tendo presente a 2.ª carta de São Paulo a Timóteo proposta nesta liturgia do XXVII Domingo do Tempo Comum, no Ano C, Francisco, salientou que o apóstolo Paulo, o maior missionário da história da Igreja, nos ajuda a ‘fazer Sínodo’, a ‘caminhar juntos’; e observou que o recado “parece dirigido a nós, Pastores ao serviço do povo de Deus, aquilo que escreve a Timóteo”. 
Depois, vincou que é preciso fazer Sínodo, ou seja, caminhar juntos. A sinodalidade é um dom que recebemos para sermos dom – disse o Pontífice, que explicitou:
Um dom não se compra, não se troca nem se vende: recebe-se e dá-se de prenda. Se nos apropriarmos dele, se nos colocarmos a nós no centro e não deixarmos no centro o dom, passamos de Pastores a funcionários: fazemos do dom uma função e desaparece a gratuitidade; assim acabamos por nos servir a nós mesmos, servindo-nos da Igreja.”.
E, prosseguindo o discurso sobre o dom, acentuou que “a nossa vida, dom recebido, é para servir”, pelo que toda a nossa alegria a colocamos em servir, “porque fomos servidos por Deus”, que Se fez nosso servo. Assim, exortou a que nos sintamos chamados para servir, “colocando no centro o dom de Deus” e não a nós próprios.
Ainda na perspetiva do dom, o Papa Francisco disse que “o dom que recebemos é amor ardente a Deus e aos irmãos”, é chamamento ao serviço, chamamento à missão. E, assumindo a ótica paulina, enfatizou que, para sermos fiéis a este chamamento, à nossa missão, “São Paulo lembra-nos que o dom deve ser reacendido”. E explicitou o sentido deste verbo fascinante: “reacender é, literalmente, dar vida a uma fogueira”. Assim, “o dom que recebemos é um fogo, é amor ardente a Deus e aos irmãos”, um fogo que “não se alimenta sozinho”, que “morre se não for mantido vivo”, que se apaga “se a cinza o cobrir”.
Aplicando este dinamismo ao Sínodo que acabou de ser inaugurado, o Pontífice explicou o sentido do reacender e que se trata duma graça do Espírito Santo. Eis as suas palavras:
Reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada. E ser fiéis à novidade do Espírito é uma graça que devemos pedir na oração. Ele, que faz novas todas as coisas, nos dê a sua prudência audaciosa; inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazónia, para que não se apague o fogo da missão.”.
Não deixou o Santo Padre de fazer uma premente exortação aos Pastores a serviço do povo de Deus no sentido de se passar da pastoral de manutenção a uma pastoral missionária:
A Igreja não pode de modo algum limitar-se a uma pastoral de ‘manutenção’ para aqueles que já conhecem o Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial. Jesus veio trazer à terra, não a brisa da tarde, mas o fogo. O fogo que reacende o dom é o Espírito Santo, doador dos dons.”.
Verificando e lamentando o erro histórico do colonialismo em relação ao dom, disse que “o fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome”, que é “um fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora”. E, pondo o dedo na ferida, frisou: “Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo”. E exclamou:
Contudo, quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos.”.
Aplicando ao caso da Amazónia o fenómeno da colonização em vez da evangelização, vincou:
O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazónia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros.”.
E exortou a reacender o dom; receber a prudência audaciosa do Espírito, fiéis à sua novidade, acrescentando que o anúncio do Evangelho é o critério primeiro para a vida da Igreja.
Por fim, na certeza de que os irmãos amazónicos aguardam a consolação do Evangelho, convidou a olhar juntos para Jesus Crucificado, para o seu coração aberto por nós, fez mais uma exortação, a exortação mais emblemática e em que ele mesmo se sente comprometido:
Muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos.”.
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Em complemento do que desenvolveu na homilia da missa de inauguração do Sínodo, o Papa, aquando da recitação da oração mariana do Angelus com os fiéis peregrinos reunidos na Praça São Pedro, pediu a todos queacompanhem com a oração este importante evento eclesial, a fim de que seja vivido na comunhão fraterna e na docilidade ao Espírito Santo”. E explicou aos peregrinos ali reunidos:
Durante três semanas os Padres sinodais, reunidos em torno do Sucessor de Pedro, refletirão sobre a missão da Igreja na Amazónia, sobre a evangelização e sobre a promoção de uma ecologia integral. Peço-vos que acompanheis com a oração este importante evento eclesial, a fim de que seja vivido na comunhão fraterna e na docilidade ao Espírito Santo, que sempre mostra os caminhos para o testemunho do Evangelho.”.
Na alocução que precedeu a susodita oração mariana, Francisco ateve-se ao Evangelho deste XXVII Domingo do Tempo Comum (Lc 17,5-10), cuja página evangélica apresenta o tema da fé: “Aumentai a nossa fé!” – pediam os apóstolos. “Uma bonita oração que devemos fazer muito durante o dia: Senhor, aumentai a minha fé!” – disse o Santo Padre.
Se na missa abordou a temática do dom e do serviço, desta vez, navegou pelo ângulo da fé e da humildade para desembocar no serviço.
Jesus responde ao pedido dos apóstolos de que lhes aumentasse a fé com as seguintes palavras: “Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘arranca-te e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”. E observou:
A fé comparável a um grão de mostarda é uma fé que não é soberba e segura de si, não finge ser um grande crente e muitas vezes acaba a fazer bobagem, não! (…) É uma fé que na sua humildade sente uma grande necessidade de Deus e na sua pequenez se abandona a Ele com plena confiança. (…) É a fé que nos dá a capacidade de olhar com esperança as vicissitudes alternas da vida, que nos ajuda a aceitar também as derrotas, os sofrimentos, conscientes de que o mal jamais terá a última palavra.”.
Ora, se o revestimento da fé é a humildade, a sua medida é o serviço. E a este respeito, o Pontífice interroga-se: “Como podemos entender se temos realmente fé, ou seja, se a nossa fé, mesmo minúscula é genuína, pura, sincera?”. E avançou com a resposta:
Jesus explica-nos indicando qual é a medida da fé: o serviço. E fá-lo com uma parábola que no primeiro impacto resulta de certo modo desconcertante, porque apresenta a figura de um proprietário prepotente e indiferente. Mas propriamente desse modo de fazer do proprietário ressalta aquilo que é o verdadeiro centro da parábola, ou seja,  a atitude de disponibilidade do servo. Jesus quer dizer que assim é o homem de fé diante de Deus: coloca-se completamente à sua vontade, sem cálculos ou pretensões.”.
Depois, Francisco destacou o que Jesus ensina nesta passagem evangélica: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer”. Com efeito, a expressão “servos inúteis”, que evangelicamente significa servidores “sem pretensões de ser agradecidos, sem reivindicações”, é, no dizer do Sumo Pontífice, uma expressão de humildade, disponibilidade que faz muito bem à Igreja e evoca a atitude justa para trabalhar nela: o serviço humilde, do qual Jesus deu exemplo, lavando os pés dos discípulos”.
Por fim, evocando a festa de Nossa Senhora do Rosário que se celebra amanhã, dia 7, e volvendo o seu olhar para a Virgem Mãe, exprimiu o voto de que “a Virgem Maria, mulher de fé, nos ajude a seguir neste caminho”.
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Constituirá o discurso do dom e do serviço, da fé e da humildade, do fogo e do amor, da oração e da sinodalidade uma resposta consolidada às críticas dos opositores do pontificado de Francisco e, em especial, ao Sínodo pan-amazónico?
2019.10.06 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A “Mãe da Alegria”


Foi com este sugestivo título que Dom Rui Valério, Bispo das Forças Armadas e de Segurança, que presidiu à peregrinação evocativa da 5.ª Aparição da Virgem do Rosário na Cova da Iria, desafiou peregrinos a testemunharem Cristo pela alegria. Na Cova da Iria, neste dia 13, o venerando Ordinário Castrense olhou para Nossa Senhora como “Mãe da Alegria”, que aponta para o Redentor que salva a humanidade da tristeza da escassez do amor.
Para esta peregrinação, inscreveram-se 87 grupos de peregrinos, de 23 países a saber: Portugal, Alemanha, Austrália, Brasil, Cabo Verde, Coreia do Sul, Eslováquia, Espanha, EUA, França, Holanda, Indonésia, Irlanda, Itália, Polónia, Singapura, Burkina Faso, Canadá, China, República Checa, Filipinas, África do Sul e Reino Unido.
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A peregrinação iniciou-se na tarde do dia 12 com a habitual Saudação a Nossa Senhora na Capelinha das Aparições, com as presenças do presidente da Peregrinação e do Bispo de Leiria-Fátima, o Cardeal Dom António Marto.
Nesse momento, Dom Rui Valério quis interpelar os peregrinos desafiando-os a fazer de Fátima “um lugar de vida” e lembrou que a peregrinação a Fátima é sinónimo da “alegria de encontrar alguém que nos ama, nos recebe, nos acolhe e nos dirige um sorriso”. Por isso, convidou os peregrinos participantes neste momento de oração a encontrarem “essa mãe” e na “intimidade do coração” a escutarem a sua mensagem. E sublinhou:
Ela mostra-nos Cristo, acolhe as nossas preces e ensina-nos a fazer o que Ele quer. Acolhamos Maria no nosso coração para que ele seja morada do Senhor e do Espírito Santo.”.
Por seu turno, Dom António Marto sublinhou a importância do silêncio em Fátima como “a expressão mais bela e apropriada” da homenagem que os peregrinos fazem a Nossa Senhora quando chegam à Capelinha das Aparições e, diante da imagem, rezam em silêncio. E vincou:
É a reação mais profunda de quem chega. Todos ficamos em silêncio junto Dela, na contemplação do seu rosto, sentindo e experimentando a sua proximidade.”.
Para o prelado leiriense-fatimita, é neste silêncio que “sintonizamos o nosso coração com o coração imaculado de Maria, que nos conduz até Deus”. Com efeito, “o silêncio favorece o clima de oração que aqui se torna diálogo íntimo com a mãe; no silêncio interior queremos fazer chegar até Ela a nossa voz, em ação de graças ou com súplicas” – disse o Cardeal, frisando que, nesse silêncio, Maria faz chegar a cada um “o bom conselho para que vivamos na luz, verdade e amor de Deus, amor fraterno e solidário sem distinções ou discriminações”.
E, pedindo aos peregrinos que rezassem pelo Papa, pela Igreja e pela Paz no Mundo, concluiu:
Seja-nos dada a graça de escutarmos esta voz, a voz da Mãe do Senhor, pois todos nós precisamos dessa consolação. É uma palavra de encorajamento para a vida em Cristo, para a nossa participação na vida da Igreja e uma voz de advertência maternal que nos convida a fazer um exame sério de consciência e a pôr em ordem a nossa vida cristã. Escutemo-la e confiemo-nos a Ela.”.
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Durante a homilia da Missa da Vigília da Peregrinação Internacional Aniversária de setembro, no dia 12, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança afirmou que a sociedade moderna vive “encerrada em si mesma” sem soluções de paz porque o homem dispensou Deus. E o prelado sustentou que a autossuficiência do homem é um obstáculo à Paz.
Todas as vezes que o ser humano procura encontrar em si mesmo a solução para os seus problemas, contando só consigo e confiando apenas nas suas capacidades, que faz ele senão uma forte violência a si próprio?” – interpelou Dom Rui Valério, que explicitou detalhadamente o seu pensamento sobre a paz:
De facto, em todo o género de conflito seja bélico ou familiar, existencial, profissional ou pessoal deparamo-nos sempre com o mesmo cenário da pessoa centrada sobre si, fechada dentro do seu mundo, entregue somente aos seus recursos e projetando tudo a partir de si e do ponto de vista dos seus interesses pessoais. Pelo contrário, a paz é a bem-aventurança da aventura ao outro, da desfocalização e descentração e esta atitude germina e floresce na comunhão com o Senhor, vivida na oração autêntica.”.
Perante os milhares de peregrinos que participaram na Eucaristia que se seguiu à Procissão das Velas, o presidente da celebração apontou que não é de estranhar “se hoje nos deparamos, mais uma vez, com uma sociedade demasiado encerrada em si mesma, sem janelas para a eternidade” e porfiou que “só onde há oração há abertura a Deus e aos outros e só onde esta abertura existir será possível construir ou reparar todos os dias os delicados alicerces da paz”. E esclareceu:
A paz tem na oração não só a sua génese e o seu mais profícuo caminho, como também a sua principal medida e a sua mais justa dimensão. Rezar, viver o encanto do encontro com o Senhor não só é a principal ferramenta para destronar a guerra, mas é o passo decisivo para se construir a paz.”.
O prelado, invocando o exemplo de Maria na proximidade a Deus e na comunhão com Ele, frisou que foi esta atitude que fez Dela a construtora de uma “nova Humanidade” e ensinou:
A abertura de Nossa Senhora a Deus e à sua santa vontade abriu novos horizontes à humanidade, outrora bloqueados pela maldade e pelo pecado, quando Adão e Eva avistaram o fruto e, numa mera criatura, num simples objeto, quiseram ver o belo, o bom e o verdadeiro, atributos que só a Deus pertencem”.
E, concluindo que o mundo “só será salvo em Cristo”, o Prelado Castrense observou:
No Éden, o olhar da humanidade, pelos olhos de Eva, ficou fechado na idolatria. Mas, agora, pelos olhos de Maria, a nova Eva, a humanidade redescobre, incessantemente, a Beleza, a Bondade e a Verdade de Deus.”.
Por fim, Dom Rui Valério explicitou o itinerário do caminho que cada peregrino deve fazer para alcançar a verdadeira comunhão com Deus: acolhimento do outro tal como é, capacidade para aceitar o mistério deixando-se surpreender, disponibilidade para o serviço e abertura à missão. E, considerando que “sair ao encontro dos outros é a outra face do encontro com o Senhor”, o insigne Bispo exortou:
Sejamos, com Maria, coerentes com a nossa fé, capazes de nos admirarmos com as surpresas de Deus, de permanecermos disponíveis para fazer a sua vontade através do acolhimento dos outros e da atenção solícita para respondermos aos seus apelos”.
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Na manhã deste dia 13, na homilia da Missa Internacional Aniversária de Setembro (concelebrada, além do cardeal Dom António Marto, por 3 bispos e 123 sacerdotes), Dom Rui Valério apelou aos peregrinos a que deem testemunho vivo da alegria salvífica de Deus, através de uma concretização missionária do Evangelho na vida quotidiana.
A partir do relato da 5.ª Aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, na Cova da Iria, em que a Mãe do Céu “vem falar da alegria de Deus”, o presidente da celebração começou por dar conta da esperança da presença incessante de “um Deus vivo, que conhece e experimenta o doce sabor da alegria que irrompe sempre que o ser humano se deixa resgatar e é salvo”. E lembrou:
A Boa Nova que Nossa Senhora trouxe e que proclamou precisamente neste lugar é que o mundo não está perdido. (…) Maria Santíssima é a Mensageira dessa alegria e da salvação do mundo. Foi-o aqui em Fátima, como o tinha sido quando visitou a sua prima Isabel para lhe comunicar a boa nova da iminente vinda do Redentor.”.
Depois, olhou para Nossa Senhora como “Mãe da alegria” a partir do relato das Bodas de Canaã, proclamado no Evangelho.
Numa interpretação teológica do episódio de Caná, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança apontou o vinho que Jesus ali oferece, a partir de água, como símbolo da “alegria do amor” de Deus, e as talhas de pedra vazias como “o coração e a vida das pessoas privadas de sentido e de razões de viver”. E, tendo em conta que “o vazio indica a tristeza e nada esvazia tanto o coração humano como a escassez do amor”, alertou para a “embriaguez do consumo” com que o ser humano tenta colmatar este vazio e apontando para o amor de Deus como resposta a este “consumismo afetivo e espiritual”. A seguir, garantindo que “a pessoa não se salva por intermédio das coisas efémeras” e, evocando a fundação da “nova Aliança fundada no amor” que Jesus institui com o seu povo nas Bodas de Caná, sublinhou:
Só o amor nos salva e nos preenche, construindo e reconstruindo a vida redimida a partir das ruínas em que tantas vezes nos encontramos. (…) E só Cristo, nosso Redentor, pode realizar essa obra de salvação.”.
O presidente da Peregrinação Internacional Aniversária reforçou, depois, o “valor salvífico” dos sacrifícios dos Pastorinhos, fundado num “excesso de amor abundante”, para enumerar três ações para alcançar a alegria salvífica que Deus oferece à humanidade: acolher Maria no coração, sendo Sua morada; escutar a Palavra do Senhor, pondo-A em prática; e, a partir da comunhão irmãos, assumir a missão evangélica de testemunhar, na vida quotidiana, a alegria da comunhão com Cristo. E, concluindo, desafiou:
Seja esta a nossa proposta para o mundo: mostrar a nossa pessoal experiência de vida com Cristo, testemunhá-la na vida quotidiana para que todos os que observarem a nossa alegria e a forma como vivemos de amor se sintam atraídos e fascinados com a vida cristã que na Igreja transparece”.
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É também de realçar a palavra dirigida aos doentes, durante o momento de Adoração ao Santíssimo Sacramento, por Pedro Santa Marta, da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, que perspetivou a vida como um Rosário, convidando os peregrinos a ser exemplo de “alegria e esperança na aceitação do sofrimento” e desenvolvendo:
Nem sempre Deus nos cura ou nos alivia. Não porque não goste de nós – porque Deus nunca nos abandona – mas porque, através desse sofrimento, nos oferece uma oportunidade para nos purificarmos ou, então, porque se quer servir de nós para ajudar os outros na sua conversão. E, se o soubermos e quisermos aceitar, com alegria e muita esperança, estaremos a ser um instrumento de Deus na conversão dos pecadores, tal como Nossa Senhora aqui o pediu em maio de 1917.”.
E formulou o seguinte voto:
Que a nossa vida seja como um rosário: as contas serão as nossas boas ações, ligadas por uma corrente feita das nossas orações e do nosso amor a Deus e a quem nos rodeia” – afirmou o responsável pelos Servitas de Fátima.
***
Como é habitual, a última palavra da celebração coube ao Bispo de Leiria-Fátima, que reforçou a tonalidade da alegria (a alegria de Deus por nós e a nossa alegria em Deus) enunciada na homilia por Dom Rui Valério, a quem agradeceu a presença e a mensagem “bela e calorosa”. E afirmou:
Deus alegra-se connosco, e a nossa alegria em Deus, no amor, na ternura, na misericórdia, no perdão e na vida nova que nos oferece. A alegria da qual Nossa Senhora fez eco aqui, em Fátima, aos Pastorinhos... Uma alegria que é um dom de Deus e que levamos no nosso coração para dar testemunho dela na vida quotidiana.”.
No dia em que em que se iniciam as aulas para muitas crianças, o Prelado de Leiria-Fátima enviou uma bênção aos “pequenitos e pequenitas” para este início de ano letivo, deixou uma palavra de conforto aos doentes e saudou os peregrinos, que vieram à Cova da Iria, provenientes de várias geografias do mundo.
Por fim, Dom António Marto lembrou os bombeiros portugueses e o seu esforço no combate aos incêndios, convidando a assembleia a rezar uma Ave-Maria por estes soldados da paz.
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E aí está Fátima na sua força da bem-aventurança evangelizadora e como espaço da vida e da alegria em Deus e por Deus.
2019.09.13 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

“Um dos maiores cartões de apresentação da Igreja do Porto”


É um adequado epíteto com que Dom Manuel Linda, Bispo do Porto, caraterizou o seu antecessor Dom António Francisco na homilia da Missa a que presidiu na Sé Catedral do Porto, pelas 19 horas do dia 11, pelos bispos, sacerdotes e diáconos da diocese falecidos, e que marcou o segundo aniversário da morte do saudoso prelado, a 11 de setembro de 2017.
Na predita celebração, estiveram presentes: Dom Pio Alves, Bispo auxiliar, Dom António Taipa, Bispo auxiliar emérito e Dom Vitorino Soares, Bispo auxiliar nomeado pelo Papa Francisco e que será ordenado no próximo domingo dia 29 de setembro, e muitos sacerdotes.
Na homilia, o prelado portuense, comentando as bem-aventuranças, salientou cinco aspetos que julga essenciais: caraterizam o verdadeiro discípulo; assinalam uma dificuldade do presente que será alegria de futuro; definem o conceito de “justo” dizendo que “justo” é aquele que cumpre as bem-aventuranças; são a carta magna do reino de Deus, pois, o reino do mundo é de violência (Neste particular, recordou o 18.º aniversário do ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque e o recente homicídio da Irmã Antónia, religiosa da Congregação das Servas de Maria, que vivia o carisma de missionária dos enfermos); e são a certeza que Deus não esquece os sofredores.
De Dom António Francisco dos Santos frisou Dom Manuel Linda que foi exemplo da vivência das bem-aventuranças através de uma “simplicidade” contagiante e atrativa. Assinalou que a “simplicidade” é aquilo que “cativa”, enquanto “a soberba afasta”. Afirmou três caraterísticas que Dom António Francisco soube levar a todos os trabalhos e missões que serviu, em particular, na diocese do Porto: a doçura, a mansidão e a misericórdia. E, fazendo memória de todos os ministros ordenados que serviram a diocese, nesta celebração que os recordou particularmente, declarou ser Dom António Francisco um verdadeiro exemplo desse serviço.
E evocando o lema episcopal de Dom António Francisco dos Santos, “In manus Tuas”, o presidente da celebração declarou, no final da sua homilia, que o antigo bispo do Porto é “um dos maiores cartões de apresentação da Igreja do Porto”.
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Esta efeméride ficou marcada também pela segunda edição do Prémio Dom António Francisco, no valor de 75 mil euros, que vai ser atribuído, desta feita, à APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), segundo anunciaram os promotores do galardão. Como se lê num comunicado enviado à agência Ecclesia, “o projeto selecionado representa uma causa que merece sempre a maior atenção e cuidado de toda a sociedade” e “o trabalho desenvolvido por esta associação cumpre de forma exemplar os objetivos deste prémio”.
Na verdade, a APAV é uma instituição particular de solidariedade social, pessoa coletiva de utilidade pública, que tem como objetivo promover (e contribuir para) a informação, proteção e apoio aos cidadãos vítimas de infrações penais, uma organização sem fins lucrativos e de voluntariado que apoia, de forma individualizada, qualificada e humanizada, vítimas de crimes, através da prestação de serviços gratuitos e confidenciais.
O júri do Prémio Dom António Francisco é constituído pelo presidente da Associação Comercial do Porto, pelo presidente da Irmandade dos Clérigos e pelo provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que o atribuíram nesta segunda edição à associação fundada a 25 de junho de 1990 e que tem sede em Lisboa, mas que é de âmbito nacional.
Pelo segundo ano consecutivo, na data que assinala dois anos do falecimento de Dom António Francisco dos Santos (11 de setembro de 2017) foi atribuído este prémio “em homenagem a um homem que deixa uma enorme saudade”, o Bispo do Porto, desde 2014, que faleceu aos 69 anos, na Casa Episcopal da diocese, na sequência de um problema cardíaco.
Com um valor de 75 mil euros, o Prémio Dom António Francisco é uma iniciativa solidária da Associação Comercial do Porto, da Irmandade dos Clérigos e da Santa Casa da Misericórdia do Porto que se destina a apoiar cidadãos e projetos que se distingam na “promoção e defesa da dignidade da pessoa humana, na defesa e promoção dos direitos humanos, no diálogo inter-religioso e ecuménico e na promoção da paz”.
Na sua primeira edição foram distinguidos projetos de apoio aos refugiados e população desfavorecida na cidade do Porto – Centro de São Cirilo e o trabalho do Serviço Jesuíta aos Refugiados na Unidade Habitacional de Santo António, dos Jesuítas.
A data da cerimónia de entrega do prémio “será anunciada oportunamente”.
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A Diocese do Porto encontrou ainda outra forma de fazer memória do Bispo que vem homenageando. Assim, às 21 horas do dia 11, no auditório do Palácio da Bolsa, procedeu-se à apresentação do livro “Caminhando com Dom António Francisco dos Santos, a propósito de um monumento em Tendais”, da autoria de Bernardo Corrêa d’Almeida.
A apresentação foi confiada ao Cónego Jorge Teixeira da Cunha, presidente do Cabido da Sé e Professor de Teologia Moral da Universidade Católica. A obra reuniu a colaboração de várias pessoas, entre as quais Dom António Taipa, Bispo auxiliar emérito do Porto, que prefaciou o livro e o pintor António Bessa, autor da imagem da capa e de retratos de António Francisco.
No próximo domingo, dia 15 de setembro, a mesma publicação vai ser apresentado às 16 horas na biblioteca da Câmara Municipal de Cinfães, de onde era natural Dom António Francisco, mais concretamente da Paróquia de Tendais (Diocese de Lamego), paróquia para quem revertem os lucros do novo livro, já que foi ela que se responsabilizou pela edição.
Falando na apresentação do livro dedicado ao seu antecessor, o Bispo do Porto disse que Dom António Francisco dos Santos, falecido em 2017, fez com que muitas instituições “começassem a ver a Igreja doutra maneira”. E explicitou:
Na sua forma simpática, cordial, dialogante, sorridente, com aquela ternura que não é um artifício, mas é algo que brota de uma coração trabalhado, ele foi capaz de colocar-se como ponto de atração, a que as pessoas não resistiam”.
Mais reiterou que o falecido bispo é “um cartão de apresentação da diocese” e “um exemplo de candura”. E, segundo a ‘Voz Portucalense’, Dom Manuel Linda recordou o sorriso, a simpatia e capacidade de diálogo do prelado natural da Diocese de Lamego.
O autor do novo livro Frei Bernardo Corrêa D’Almeida, professor de Exegese e Teologia Bíblica na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, agradeceu os testemunhos das diversas personalidades que apresenta na publicação e lembrou a atitude dócil do antigo bispo diocesano.
O presidente do Cabido da diocese portuense, que apresentou o livro, destacou a “memória de alguém que marcou a cidade do Porto” e referiu-se a Dom António Francisco como o “amigo bispo inesquecível”, “uma figura de homem de Deus, caraterizada pela sua bondade, um avaliador fino e justo das pessoas, que se gastou depressa ao serviço de todos nós”.
Para o presidente da Associação Comercial do Porto, Nuno Botelho, que recebeu este evento, Dom António Francisco dos Santos foi alguém “que se aproximou de forma muito rápida do coração” e percebeu “a importância do tecido empresarial na construção do que é a nossa rede social”, marcando “de forma indelével a vida da associação e da cidade”.
A Rádio Renascença destacou a presença de Pinto da Costa que disse que o antigo Bispo do Porto “era um grande amigo”. “Quando falava, sentíamos que estávamos a falar na terra com um santo”, afirmou o presidente do FC Porto à margem da apresentação de ‘Caminhando com Dom António Francisco dos Santos – A propósito de um monumento em Tendais’.
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Por fim, é de salientar o testemunho do Padre José Pedro Azevedo, que foi chefe de gabinete de Dom António Francisco e que a Voz Portucalense’ acaba de publicar.
Pressupondo que nos arriscamos “a deixar de existir”, se prescindirmos da memória do tempo, que “somos hoje o que os outros nos deixaram como legado e que é com a memória que construímos o futuro”, aplica a Dom António Francisco as seguintes palavras do profeta Zacarias: “Assim fala o Senhor do Universo: Virão de novo a Jerusalém povos e habitantes de grandes cidades” (Zc 8,20). E diz que tais palavras “proféticas e carregadas de esperança se concretizarão no Porto pela semente lançada à terra em tempo oportuno” pelo Bispo de saudosa memória, sendo que a sociedade portuense lho reconhece, “crentes e menos crentes, todos”.
Se “nenhuma vida surge ao acaso”, em Dom António “esta verdade era evidente”, pois “tocou o coração de todos os que com ele se encontraram”. E o sacerdote confessa:
Atingiu profundamente o meu coração como uma ‘seta que voa de dia’ (Sl 91,5) e alargou-o à medida maior da dor e do amor, porque todos nós precisamos de sinais para chegar a Jerusalém, à cidade santa, à Casa de Deus. Todos precisamos de quem nos dê a direção e aplane o caminho. Isto só acontece na simplicidade e na humildade que Jesus um dia referiu em relação às crianças.”.
Do cristão desafiante e fascinante, que “não defraudou a quem procura o Senhor” e que “nos deixa o odor da santidade”, o Padre José Pedro evoca três traços caraterísticos.
- Crente, cuja “vida partia de Deus e acabava em Deus”. Qualquer saída de casa e qualquer chegada a casa passava pela capela; qualquer preocupação era colocada sob o manto protetor de Nossa Senhora (“tantos papelinhos naquela Imagem!”); e “a oração era sempre o seu combustível e era a sua única força”, segundo o princípio inaciano “Reza como se tudo dependesse de Deus, mas trabalha como se tudo dependesse de ti”.
- Testemunha incansável do amor de Deus. “Não havia ninguém doente e que ele soubesse, a ficar por visitar, mesmo nos dias mais difíceis, nem que para isso tivesse de não jantar”.
- Bondade, com “um coração como o coração de Jesus, onde todos cabiam e onde ninguém, mas mesmo ninguém podia ficar de fora”, lutando todos os dias “para que a única medida fosse a misericórdia, sempre e em todas as circunstâncias” e tendo a sua vida toda sido “um magnífico compêndio duma teologia da bondade”, que valia a pena estudar.
E o Padre Azevedo assegura:
A Oração, a Caridade e a Bondade são imprescindíveis para todo o cristão, a chave para continuarmos a subir a Jerusalém, caminho da Cruz e porta da Ressurreição e para cumprirmos o testamento que Dom António Francisco em Fátima nos deixou: ‘Igreja do Porto: Vive esta hora, que te chama, guiada pelas mãos de Maria, a ir ao encontro de Cristo e a partir de Cristo a anunciar com renovado vigor e acrescido encanto a beleza da fé e a alegria do Evangelho. Viver em Igreja esta paixão evangelizadora é a nossa missão. A vossa e a minha missão’!”.
E conclui:
Passam dois anos do fim da sua santa viagem, mas a sua vida não terminou, porque não cabe no tempo e enquanto não nos virmos rezo como o salmista: “Ensina-nos a contar assim os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração” (Sl 90,12).
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São testemunhos espirituais, académicos e sociais que dão conta da inquestionável respiração evangélica e do odor de santidade que perpassa a vida e a memória deste santo prelado, honra da Igreja e orgulho dos colegas.
2019.09.12 – Louro de Carvalho