quarta-feira, 4 de abril de 2018

No 50.º aniversário do martírio do sonhador Martin Luther King


Já lá vão cinco décadas sobre o singular martírio pela igualdade racial. Em resultado dum ignóbil assassinato, o mundo perdeu, a 4 de abril de 1968, um sonhador e um corifeu da igualdade. Porém, no 50.º aniversário desta heroica imolação, as suas palavras continuam a ser inspiradoras para os defensores da igualdade de direitos, qualquer que seja a condição pessoal.
I have a dream (Eu tenho um sonho) será a frase colada à memória de Martin Luther King evocativa do seu famoso discurso e do seu grande sonho: negros e brancos a viver em paz uns com os outros, liberdade e justiça desfrutadas por todos os americanos e os filhos a morar num país onde serão julgados não pela cor da pele, mas pelo caráter e comportamentos subsequentes. Com este ideário, Luther King ganhou um lugar relevante na história. Centenas de milhares de norte-americanos, incluindo brancos, acompanharam seu discurso pronunciado na Marcha sobre Washington, a 23 de agosto de 1963, com o objetivo de fortalecer os direitos dos negros e chamar atenção para os problemas que eles enfrentavam no quotidiano. E, com o discurso e as ideias nele contidas ou que o emolduravam, King inspirou os cidadãos e estimulou-os a conceber e a concretizar a coexistência justa entre negros e brancos.  
Ele próprio vivenciou desde cedo a segregação racial. Nascido em 15 de janeiro de 1929, em Atlanta, na Geórgia, sob o nome de Michael King Jr., filho dum pastor batista e duma professora, passou grande parte da infância a brincar com dois vizinhos brancos – até que um dia os pais deles o proibiram de ver os amigos. Todavia, King não se resignou. Tanto na escola como nos estudos de Sociologia e na Teologia, sobressaiu como um luminar, embora, tenha vindo postumamente ao de cima a estranha informação de que plagiara partes de sua tese de doutoramento. Aos 17 anos, tornou-se pastor assistente do pai em Atlanta. E pai e filho alimentavam e manifestavam profunda fé em Deus, o que acabou por ficar espelhado nos nomes. Com efeito, em 1934, o pai participou, em Berlim, no Congresso Mundial Batista. Durante a viagem prévia ao evento, estudou e aprendeu muito sobre Martinho Lutero, tendo ficado fascinado pelo reformador. Ao voltar, King Pai mudou o seu nome e o nome do filho para Martin Luther King.
O filho, além do interesse por literatura religiosa, lia também Aristóteles, Platão e Marx e gostava particularmente dos escritos de Mahatma Gandhi, vindo a descobrir (como revelou), através do foco de Gandhi no amor e na não violência, o método de reforma social que buscava. Em 1953, casou com Coretta Scott Williams, com quem teve quatro filhos.
King comprometeu-se efetivamente pela primeira vez em intervenção pública depois de Rosa Parks, ativista negra dos direitos civis, ter sido presa em 1955 por se recusar a dar lugar a um homem branco num transporte público (autocarro) em Montgomery, no Alabama. Durante mais de um ano, King e outros ativistas boicotaram autocarros de transporte público. A resistência foi bem-sucedida: em 1956, o Supremo Tribunal proibiu a segregação racial no transporte público de Montgomery. No ano seguinte, King fez dezenas de discursos e escreveu um livro sobre as suas experiências na cidade.
Apoiou os integrantes das Freedom Rides (Viagens da Liberdade) na Geórgia em que os negros se manifestavam em pequenos grupos, de modo pacífico contra a segregação no espaço público. Por fim, acabaram por surtir efeito em todo o país os protestos da população negra. Em junho de 1963, o Presidente John F. Kennedy apresentou a Lei dos Direitos Civis, que previa igualdade ampla e nacional. Um ano depois, após o assassinato de Kennedy, o novo Presidente, Lyndon B. Johnson, ratificou a lei.
Apesar dos desdobramentos políticos, King e outros líderes de vários movimentos de direitos civis não desistiram da manifestação em Washington, agendada para 28 de agosto de 1963. A verificar-se a desistência, provavelmente nunca teria sido proferido o famoso discurso “I have a dream” (Eu tenho um sonho) de Martin Luther King em frente ao Lincoln Memorial.
Um ano depois, King foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz. Mas a sua luta pela igualdade de direitos não cessou, porquanto a igualdade racional existia apenas no papel, motivo por que organizou em 1965 as Marchas de Selma a Montgomery, no Alabama, a chamar a atenção para a desigualdade entre brancos e negros quanto ao direito ao voto. As marchas foram reprimidas pela polícia por diversas vezes, mas acabaram por alcançar a cidade vizinha. Na sequência dos acontecimentos, o presidente Lyndon Johnson mudou de ideias e mostrou-se favorável a nova lei eleitoral, vindo a Lei dos Direitos de Voto a ser aprovada pelo Congresso no verão de 1965.
A par disso, organizavam-se grupos violentos sobretudo em cidades da Califórnia e nos Estados do Norte, pois consideravam o progresso muito lento. Desilusão e deceção alastraram até que Malcolm X e o Partido dos Panteras Negras colocaram em xeque as ideias não violentas de Martin Luther King. Todavia, King não se resignou. A exemplo de Lutero, após um discurso em 1966, fixou 48 teses na porta da Prefeitura de Chicago. De início, também ali houve resistência a King, que não deveria interferir nos interesses negros em Chicago. Mas permaneceu firme. Nem as mais de 30 detenções o desviaram um milímetro das suas convicções.
Martin Luther King não encontrou rejeição apenas entre a população. Durante anos, teve um relacionamento difícil com o FBI, o principal órgão investigativo do Departamento de Justiça, que o interrogou e considerou comunista. Além disso, os investigadores ameaçaram publicar informações privadas do ativista, incluindo suas infidelidades, se ele não parasse de fazer campanha pelos direitos civis dos negros. Em contrapartida, King acusou, não se intimidando com a chantagem, o FBI de não fazer nada ante da violência contra os negros.

Não conseguiu o FBI interromper o trabalho do ativista, mas James Earl Ray viria a consegui-lo. O racista, diversas vezes condenado, alvejou King a tiro (um rifle Remington-Peters) no dia 4 de abril de 1968 na varanda dum hotel em Memphis, Tennessee. King tinha 39 anos de idade.

O assassinato provocou revoltas ruidosas em muitas cidades dos EUA. Foram mortos 39 manifestantes foram mortos e presos cerca de 10 mil.
King é considerado herói na história norte-americana e o sonho do pioneiro no ativismo pela igualdade acompanha os negros nos Estados Unidos (e não só), incluindo a neta Yolanda Renee King (de 9 anos), que só apareceu a público, a 24 de março pp, na marcha pelas nossas vidas (em Washington), onde disse o seu sonho, não longe do lugar onde o avô realizou o famoso discurso:
Meu avô sonhou que seus quatro netos não seriam julgados pela cor da pele, mas pelo caráter deles. Eu tenho um sonho de que já basta. De que este deveria ser um mundo livre de armas e ponto.”.
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Hoje, o Vatican News recorda Martin Luther King, morto a 4 de abril de 1968, sublinhando a “grande sintonia” entre a sua figura e a do Papa Francisco. E refere em síntese:
Luther King, pastor protestante, foi o Prémio Nobel da Paz de 1964; 4 anos mais tarde, foi assassinado em Memphis, no Estado de Tennessee (EUA), ao promover uma campanha em defesa dos trabalhadores negros”.
A Conferência Episcopal dos EUA assinala a data em mensagem que elogia o testemunho de não violência de Luther King, alertando para a persistência de fenómenos de racismo. E diz:
Apesar de ter sido feito um progresso significativo na remoção da nódoa do racismo e do ciclo da violência com ele relacionado, ainda temos muito a fazer”.
A morte do “indefeso e cristão profeta da integração racial” foi condenada logo no dia 7 de abril de 1968, Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, por Paulo VI, antes de rezar o Angelus na Praça São Pedro. Transcreve-se a alocução pelo que mostra de preocupação do Papa Montini e pela leitura dolorosa e confiante que faz do evento pascal e dos acontecimentos coevos:
Devemos hoje elevar para Cristo o ramo de oliveira para sua glória e nossa paz. O símbolo do humilde ramo manifesta hoje a nossa fé em Cristo, nosso Salvador, e a nossa esperança Nele, verdadeiro e sumo princípio da paz entre os homens. Mas o nosso gesto, antes de ser consolador, faz-nos sentir a dor da paz ainda a sangrar no mundo: no Vietname; no Médio Oriente; na África, especialmente na Nigéria; e, depois, nos Estados Unidos da América, onde o assassinato dum inerme e cristão profeta da integração racial, Martin Luther King, denuncia um profundo e quase implacável conflito de vontades e de interesses.
Mas a oliveira ainda verde parece abrir-se a uma primavera de aspirações e promessas que nos permite esperar – e hoje mas do que nunca – a vitória da paz. O nosso gesto torna-se presságio e oração, que a proximidade da Páscoa faz ardente e confiante. De facto, se Cristo está connosco, não podemos desesperar da paz: devemos, antes, esperar o prodígio que transforma a dor em redenção, o sangue em amor. Não nos faltam indícios deste prodígio; nós o esperamos, nós o invocamos.”.  
O Papa Francisco falou de Martin Luther King no seu discurso ao Congresso dos EUA, em setembro de 2015:
Penso na marcha que guiou de Selma a Montgomery, há cinquenta anos, como parte da campanha para conseguir o seu ‘sonho’ de plenos direitos civis e políticos para os afro-americanos. Aquele sonho continua a inspirar-nos.”.
O Pontífice apelou então a “uma cultura que permita às pessoas ‘sonhar’ com plenos direitos para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King”.
Já na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2017, o Papa recordou o papel do ativista “contra a discriminação racial”. E, a 12 de março, recebeu em audiência a filha de Luther King, Bernice Albertine King.
D. Ivan Jurkovic, observador permanente da Santa Sé nos organismos das Nações Unidas com sede em Genebra (Suíça), disse ao portal ‘Vatican News’ que Luther King iniciou um “período novo” na democracia. Expressou-se nestes termos o prelado diplomata:
Martin Luther King fez a defesa dos Direitos Humanos da população afro-americana; o Papa apresenta uma nova visão da Igreja. Tudo isso representa dois princípios típicos da inspiração cristã: a não violência e a fraternidade universal.”.
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Pela pena de Jan Martínez Ahrens, o El País de hoje sustenta que “a chuva que matou Martin Luther King continua caindo sobre os EUA”. E contextualiza, conforme a síntese a que, a seguir, se procede:
É mais exato dizer que foi a chuva que o matou, essa água tenaz que, às vezes, cai em Memphis (Tennessee) e que originou a greve de lixeiros negros que o pastor decidira apoiar. O conflito revelava mais um caso da divisão racial que assolava os EUA. Em dias de tempestade, a coleta de lixo era suspensa ali. Porém, enquanto os trabalhadores brancos ganhavam pelas horas sem trabalho, os negros ficavam sem pagamento. A ‘flagrante discriminação’ desencadeou uma onda de protestos em que fora assassinado um jovem afro-americano. King, temendo um banho de sangue, foi defender os seus. Como tantas outras vezes, ficaria à frente da manifestação e desafiaria os adversários com a desobediência civil. Preparando-se para essa jornada, hospedou-se no pequeno Motel Lorraine. Primeiro andar, quarto 306. Tranquilo, preparava-se para jantar com um grupo de amigos quando, ao sair na sacada do quarto, teve o pescoço atravessado pelo disparo de um rifle Remington-Peters.
E o articulista, depois do seu longo artigo, insere uma nota que dá conta da hodierna situação estadunidense (reproduz-se parcialmente o texto com alterações e reduções):
Passados 50 anos, o tiro que matou Luther King ecoa nos ouvidos da América. Sucederam-se guerras e presidentes, epidemias e prodígios, mas a questão racial permanece viva. Quem nasce negro tem o dobro de risco do branco em cair na pobreza e terá uma vida, na maioria dos casos, mais difícil. Os afro-americanos sofrem três vezes mais expulsões e suspensões escolares, a sua renda familiar média é apenas metade da dos brancos e, embora constituam 13% da população, respondem por 40% das detenções por tráfico de drogas. A discriminação é flagrante e, segundo um estudo do Pew Research Center, 61% da população (88% no caso dos negros, 55% no dos brancos) admite que ainda não foi alcançada a igualdade.
Nesse sinuoso caminho, nem sequer a eleição dum Presidente negro foi suficiente. Barack Obama representou a culminação do sonho, mas não o fim da história. Continuam os crimes raciais, floresce a guerra de símbolos e Trump, com a sua terrível equidistância no crime de Charlottesville, mostra-se incapaz de apagar o ódio. A este respeito, o pensador afro-americano Ta-nehisi Coates escreveu:
O poder simbólico da presidência de Obama e a demonstração de que ser branco não bastava para evitar que os criados ocupassem o castelo abalaram as noções mais enraizadas do supremacismo branco e instalou o medo entre seus defensores. E foi este medo o que deu a Donald Trump os símbolos que o tornaram presidente.”.
Trump, segundo os observadores, é parte do problema que a comunidade negra enfrenta: não é solução. O republicano só obteve 8% do voto afro-americano, fratura que emerge onde quer que se pergunte. Christine, uma afro-americana de 38 anos, diz de Trump que mais do que racista, “é um ignorante, um sujeito de uma época anterior a Martin Luther King”.
A mesma Christine, secretária e mãe duma criança de 7 anos, que foi, numa sexta-feira de março, visitar o monumento a King em Washington, não estava sozinha: o local estava lotado de brancos e negros. Ali emergiu Lia, de 23 anos que afirma que “os abusos são constantes”, pois “faltam líderes”. E, para ela, “tanto faz a raça que tenham”, mas que precisam de “alguém com estatura suficiente para pôr fim à discriminação”.
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Enfim, a luta pela igualdade é muito linda, mas a hipocrisia e o egoísmo deixam-na sepultada no papel. E um Estado que se limite a legislar só cumpre um terço da sua missão.
2018.04.04 – Louro de Carvalho

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