sexta-feira, 27 de abril de 2018

A força da representação imagética de Cristo pelos cristãos


O teólogo espanhol Juan Arias publicou, no passado dia 31 de março, um curioso artigo no jornal El País a explicar o motivo por que os primeiros cristãos não gostavam da imagem de Jesus crucificado, o que trouxe para o debate a questão de saber qual seria a verdadeira “face” de Cristo, com a emissora BBC a tentar uma reconstituição da figura de Jesus como um homem baixinho, com feições mais africanas que semíticas, contrariando a ideia que as tradições assaram de um homem bem constituído e com cerca de 1,90 m de altura.
A histórica representação das primeiras imagens do Crucificado era ofensiva. Chamado de “grafito de Alexámenos”, o desenho esculpido em gesso numa parede (datado de entre os séculos I e III), figura um homem com cabeça de burro numa cruz, com a inscrição: “Alexámenos adora o seu deus”. Acredita-se que este era um modo de caçoar da fé dos cristãos na época, como esse identificado como  Alexámenos. A figura hoje está no Museu Antiquarium Palatino de Roma.
Como refere Juan Arias, nas catacumbas romanas, Cristo aparece na imagem do Bom Pastor ou a celebrar a Última Ceia com os apóstolos, nunca morto. Isto pode remeter para a convicção de que os primeiros cristãos não gostavam da imagem de Jesus crucificado.
A imagem de Jesus crucificado só começou a ser venerada séculos depois da Sua morte, com o Concílio de Niceia, no ano 325, a autorizar oficialmente a imagem do Crucifixo tal como o usamos hoje. Os crentes em Jesus dos primeiros séculos tentavam não mostrar nem ad intra nem ad extra a imagem que lhes recordava a morte atroz que os romanos infligiam aos grandes criminosos e escravos. A homens livres, em caso de crime, aplicava-se outro tipo de suplício, nomeadamente a decapitação. A crucifixão era infligida a escravos ou a homens desnudados do estatuto de cidadãos. E, desde que Paulo de Tarso declarou que “Se Cristo não ressuscitou [...] é vã a nossa fé” (1 Cor 15,14), interessava mais aos cristãos o Jesus ressuscitado que o sacrificado num madeiro como um assassino e entre dois salteadores. Daí que, nos primeiros séculos do cristianismo, não existissem pinturas nem esculturas de Jesus crucificado, só um Cristo glorioso.
Nas catacumbas romanas, tanto nas de Santa Priscila como nas de São Calixto, onde se ocultavam os cristãos para fugir da perseguição romana, não há pinturas de Jesus na cruz. O líder dos discípulos aparece ou na imagem do Bom Pastor na celebração da Última Ceia com os apóstolos ou, ainda, em criança nos braços de Sua mãe.
Lembra Juan Arias que, no Instituto Bíblico de Roma, o jesuíta Follet, seu professor de idioma ugarítico, explicava essa ausência da imagem do Crucifixo entre os primeiros cristãos, dizendo:
Se o seu pai tivesse sido condenado à cadeira elétrica ou à guilhotina, certamente, por mais inocente que tivesse sido, vós não transportaríeis no pescoço uma efígie desses instrumentos de morte”.
 E Follet acrescentava:
Ninguém conserva fotos dos seus familiares ou amigos quando mortos, e sim vivos e felizes”.
Assim se compreende como isso era o que sucedia com os cristãos: à recordação do crucificado preferiam a de Jesus em vida ou glorificado depois da morte.
***
O sinal de identificação dos cristãos dos primeiros séculos era o peixe. Além do motivo referido da relutância em apresentar o Crucificado (o crucifixo ou o crucificado é o Cristo pregado na cruz: a cruz sozinha ou o todo – cruz e Cristo – só são crucifixo por metonímia ou por sinédoque), havia outro motivo.
Segundo os relatórios recorrentemente publicados, o cristianismo foi e continua a ser a religião mais perseguida do planeta. Considerando que o próprio Cristo foi crucificado, é fácil imaginar que os inícios da fé cristã não tenham sido fáceis. E não o foram: as perseguições já eram frequentes e brutais nos três primeiros séculos do cristianismo, quando a fé em Cristo precisava de ser vivida praticamente na clandestinidade por grande parte dos conversos. Ora, mesmo num contexto tão cruel, os cristãos tinham de saber quem é que também professava esta fé.
Além de tomar as devidas precauções, como informar-se sobre a outra pessoa previamente sempre que possível, os primeiros cristãos utilizavam “códigos secretos” para confirmarem se estavam mesmo diante de um irmão da mesma crença. Um desses códigos era o “Ichthys” ou “Ichthus” (ἰχθύς, em minúsculas; ΙΧΘΥΣ, em maiúsculas), termo que, em grego antigo, significava “peixe”. A pronúncia correta dessa palavra grega não é fácil para quem fala português, já que as letras χ (ch) e θ (th) não têm correspondência na nossa língua; no entanto, para facilitar, é aceita a pronúncia simplificada “ictís”.
A hipótese mais levantada é a de que o cristão, quando supunha estar diante de outro cristão clandestino, desenhava uma curva ou meia-lua no chão. Se o potencial interlocutor desenhasse outra meia-lua justaposta à dele e em convergência com ela, completando assim a figura de um peixe, seria muito maior a probabilidade de que se tratasse mesmo de um seguidor de Jesus, pois conhecia o “código secreto” cristão.
A razão da escolha do peixe é que as letras que formam a palavra que significa “peixe” em grego, quando escritas em maiúsculas (ΙΧΘΥΣ), formam um acrónimo com as iniciais da expressão “Iēsous Christos Theou Yios Sōtēr“, que significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” (em grego antigo: Ἰησοῦς Χριστός, Θεοῦ ͑Υιός, Σωτήρ).
O peixe veio a tornar-se, desta forma, um dos primeiros símbolos cristãos, juntamente com a imagem do Bom Pastor e, posteriormente, com o Crucifixo.
O Ichthys também era usado para indicar as catacumbas cristãs durante as perseguições contra a comunidade, de modo que apenas os próprios cristãos soubessem quais eram os túmulos dos seus companheiros de fé. Assim, o peixe, além de código para se reconhecerem nos tempos de clandestinidade, o anagrama era uma proclamação de fé!
***
Curiosamente foi um imperador romano, o pagão Constantino, o Grande, quem introduziu a representação da cruz, mas sem o corpo de Jesus. Foi quando aceitou o cristianismo, depois dum sonho junto à Ponte sobre o Milvius, antes da batalha contra Magêncio, em que viu uma cruz e ouviu uma voz que dizia: “Com este signo vencerás” (“In Hoc signo vinces”). O Império Romano estava na fase de declínio, e o imperador percebeu a força dos cristãos que se deixavam matar em vez de adorar os deuses pagãos. Constantino quis conquistar aquela gente, e o cristianismo passou de açoitado a ser religião tolerada, como todas as outras, com o édito de Milão, em 313 – tornou-se a religião oficial do Império com o imperador Flávio Teodósio ou Teodósio I, o Grande (pelo édito de Tessalónica, a 27 de fevereiro de 380). O imperador Constantino ganhou a batalha, converteu-se ao cristianismo (embora tenha adiado o Batismo para a hora da morte), intitulou-se “bispo de fora”, para poder estar nos concílios alegadamente para manter a ordem; e sacralizou-se o sinal da cruz, que foi aceite como símbolo cristão pelo Concílio de Niceia no ano 325.
***
Mesmo assim, com Constantino e o Concílio de Niceia, tratava-se apenas da cruz nua, sem o corpo de Cristo. Os primeiros crucifixos com o Jesus agonizante ou morto aparecem só no século V, e com muitas polémicas. Os cristãos continuavam com a preferência pela imagem de Jesus vivo ou ressuscitado. Apenas na Idade Média, mais de mil anos depois da morte de Jesus, apareceram as primeiras representações dos crucifixos com o corpo dele mostrando os sinais de dor, sangrando pelas mãos, os pés e nas laterais.
A única pintura do crucifixo que aparece já no século I, considerada como a “primeira blasfémia cristã”, como já ficou dito, é um grafito numa parede de gesso em Roma, ridicularizando os cristãos e Jesus. O crucificado aparece com a cabeça de asno e a inscrição: “Alexamenos, adorando o seu deus”. Era uma zombaria com os primeiros cristãos, cujo deus os romanos haviam matado como um criminoso comum.
Isso significava que, sob a influência da conversão de Constantino, a Igreja começou a criar uma hierarquia rígida e a revestir-se com os símbolos do poder mundano, em forte contraponto com o carisma dos anacoretas, eremitas, estilitas e os cenobitas, bem como os mosteiros, mais tarde. Na verdade, fez-se política e até drama com a crucificação para se fomentar a teologia da cruz e do pecado, em detrimento da teologia da ressurreição, da alegria e da esperança.
Consta que o rei dos Francos, Clóvis, se converteu ao cristianismo com todos os seus homens. E, quando ouviu ler a Paixão de Cristo pela primeira vez, terá exclamado: “Se eu lá estivesse com os meus homens, isso não teria acontecido”. Ora, talvez Cristo lhe dissesse o que disse a Pedro:  Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens!” (Mt 16,22).
Lendo as teses de Lutero, percebe-se que o reformador insiste na inabilidade do homem em cumprir a lei de Deus. Por consequência, com a sua doutrina evangélica inovadora, Lutero enfatiza o papel da graça de Deus como salvadora. O teólogo da cruz prega o que parece tolo para o mundo (1Cor 1,18), prega que os humanos não podem, de forma alguma, merecer a retidão (ou justiça), nada acrescentando à retidão da cruz, e que qualquer retidão concedida à humanidade vem de “fora de nós” (extra nos). Em contraste, segundo Lutero, o teólogo da glória prega que o homem tem o poder de fazer o bem que está dentro de si (quod in se est), que restou, depois da queda original, alguma capacidade de escolher o bem e que o homem não pode ser salvo sem cooperar com a retidão concedida por Deus.
Para Lutero, estas duas teologias partiam de pontos de partida radicalmente opostos: tinham diferentes epistemologias sobre como as pessoas conheciam Deus e o mundo. Para o teólogo da glória, a razão e os sentidos humanos devem ser aplicados para aumentar o conhecimento sobre Deus e o mundo. Assim, se uma ação parece ser boa, ela deve ser boa. Para o teólogo da cruz, é apenas através da autorrevelação de Deus que as pessoas podem conhecer Deus e a sua relação com Ele; e a mais perfeita autorrevelação de Deus é o Verbo de Deus encarnado, Jesus, o Cristo. Assim, mesmo se uma ação parecer boa, ainda assim Cristo morreu na cruz pelos pecados humanos e pela natureza pecaminosa do homem e, portanto, a ação não é, só por si, tão boa como parece. No sermão de Lutero “Dois Tipos de Retidão” (ou “Justiça”), refere-se à teologia da cruz como a “retidão estrangeira” e à teologia da glória como a “retidão propriamente dita” (por sua origem na perceção da pessoa que presume ter-se justificado por si próprio ou por suas obras).
Por seu turno, o parágrafo 2015 do Catecismo da Igreja Católica (CIC) descreve o caminho da perfeição como passando pelo caminho da cruz
Não há santidade sem renúncia e sem uma batalha espiritual. O progresso espiritual implica ascese e mortificação que gradualmente levam à vida em paz e à alegria as beatitudes..
Não podemos esquecer que São Paulo da Cruz fez voto de se consagrar a promover a memória da Paixão de Jesus Cristo e fundou a congregação dos chamados Passionistas.
Por outro lado, é de considerar que sem a cruz não teria havido a ressurreição. E o Cristo ressuscitado, quando aparece aos discípulos mostra as chagas e o lugar dos cravos e até desafia Tomé a meter os dedos nos sítios dos cravos e a mão no lado (vd Jo 20,19-29). E Jesus, quando anunciava a Paixão, recorrentemente juntava a morte e a ressurreição (vd Mc 8,31; 9,31; 10,33-34).
Por isso, os cristãos devem aceitar tanto o Crucificado como o Ressuscitado: “Anunciamos, Senhor a Tua morte, proclamamos a Tua Ressurreição, até que venhas”.
***
E, sabendo que Ele está no rosto dos pobres, doentes, explorados e descartados, temos de ver a crucifixão nestes irmãos e nas agruras que a vida nos traz a cada um e completar em nossa carne o que falta à Paixão de Cristo (vd Cl, 1,14). Quando alguém se levanta do pecado ou sai duma situação de injustiça ou desprezo, cantaremos a ressurreição. E na celebração eucarística, celebramos, em festa e piedade, a morte e ressurreição do senhor e a sua entrega no mistério do Pão e do Vinho.
Para a Teologia da Libertação, por exemplo, a crucifixão é o símbolo de todos os torturados e assassinados injustamente na história da humanidade; e a ressurreição é a grande esperança de todos os excluídos. Esta teologia, enraizada na América Latina, tentou ser um regresso ao cristianismo primitivo, no qual se destacava a imagem do Bom Pastor em vez da do crucificado. Entretanto, a Igreja, que até há pouco se revestia com os símbolos do poder dos imperadores, preferiu inculcar a teologia do medo do inferno. A mudança começou, em termos mentais, com João XXIII, acentuou-se com Paulo VI e revigorou-se agora com o Papa Francisco.
Juan Arias assegura que “a Igreja do poder nunca se incomodou com o Jesus morto”. Ao invés, temeu mais o Jesus vivo e encarnado, solidário com essa parte da humanidade que, como nos tempos do profeta crucificado, sempre acaba abandonada à sua própria sorte.
Aceitemos e professemos o Cristo morto que ressuscitou e o Cristo ressuscitado que morreu na cruz – o Cristo total. Apreciemos a cruz como instrumento e sinal de salvação, derrotando a infâmia e a intriga, e a ressurreição de Cristo como consumação da glorificação de Cristo, garantia da reconciliação com Deus, com os irmãos, connosco próprios e com a criação e como rampa de lançamento para a nossa ressurreição.
2018.04.27 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário