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domingo, 22 de setembro de 2019

O Livro do Profeta Amós: palavras de Amós, que foi pastor de Técua


A 1.ª leitura da Liturgia da Palavra do 25.º domingo do Tempo Comum no Ano C é uma passagem do livro do profeta Amós (Am 8,4-7) que denuncia os comerciantes sem escrúpulos, preocupados em ampliar cada vez mais as suas riquezas, que pensam em explorar a miséria e o sofrimento dos pobres. E Amós avisa que Deus não está do lado de quem, pela obsessão do lucro, escraviza os irmãos. Ou seja, a exploração e a injustiça não passam em claro aos olhos de Deus.
Dada a pertinência do livro hoje e porque tem réplicas atualizadas no 3.º Evangelho e na Carta de Tiago, propõe-se uma reflexão sobre a intenção e o conteúdo do Livro de Amós.
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O Profeta
Amós pertence ao conjunto do chamado “livro dos doze”, expressão usada para referir os doze profetas menores da Bíblia Hebraica. Vem a seguir Joel (que vem depois de Oseias) e antes de Abdias. O Seu nome é único no Antigo Testamento (AT): 'āmos. E ocorre 7 vezes (1,1; 7,8.10.11.12.14; 8,2). Não deve ser confundido com o Amós ('āmôs), pai do profeta Isaías (2Rs 19,2.20). A identificação com o Leão – metáfora que aponta para a ferocidade da palavra que exige mudança irrevogável – aparece mais de uma vez no livro (1,1; 3,4.8.12; 5,19) e parece indicar ora a palavra de Deus, ora a palavra do profeta.
Era natural de Técua, localidade situada no deserto do reino de Judá, a 8 km a sudeste de Belém. Em 1,1 diz-se que era pastor e, em 7,14 reafirma-se esta profissão e afirma-se que também cultivava sicómoros. O mister de pastor faz dele um homem pobre e alegadamente sem cultura. Mas o livro mostra que conhece bem a geografia e certos acontecimentos dos países vizinhos, a História sagrada do seu povo e toda a problemática social, política e religiosa de Israel.
Economicamente, não deveria ser um assalariado; provavelmente guardava os rebanhos e cultivava os terrenos que eram propriedade sua. Não era um profeta convencional e profissional; não tinha qualquer relação com a profecia e com os grupos proféticos. Não narrando o livro diretamente a sua vocação, faz-lhe referência em 7,14-15. O Senhor enviou-o a profetizar Israel, isto é, ao Reino do Norte, não se sabe quando, mas foi em tempos do rei Jeroboão II (século VIII a. C.), quando o rei de Judá era Juzias, provavelmente entre os anos 760-750 a.C. Chamado por Deus, deixa a sua terra e parte para o reino vizinho para gritar à classe dirigente a sua denúncia profética. A rudeza de discurso, aliada à integridade e afoiteza da fé, traz algo do ambiente duro do deserto e contrasta com a indolência e o luxo da sociedade israelita da época. Deve ter pregado em várias localidades do reino do Norte até chocar com a oposição dos dirigentes em Betel (7,10-13), nomeadamente Amacias, o que lhe dificultou o exercício da ação profética.
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A época
Após a divisão dos dois reinos, a seguir à morte de Salomão, o reino do Norte viveu períodos de grande instabilidade, sujeito aos constantes ataques dos reinos arameus do Norte, às lutas internas e à consequente perda de territórios e influência. A situação alterou-se no início do século VIII: quando a Assíria começou a expandir-se, atacou Damasco, o que permitiu a Israel recuperar alguns territórios e reorganizar-se internamente.
Governava então em Israel Joás e, logo a seguir, Jeroboão II, seu filho, em cujo reinado houve um certo progresso social e económico e tranquilidade política: as conquistas de Jeroboão II alargaram consideravelmente os limites do reino e permitiram a entrada de tributos dos povos vencidos; a população aumentou; os recursos agrícolas cresceram; o comércio e a indústria (sobretudo a mineira e a têxtil) desenvolveram-se significativamente; as construções da burguesia urbana atingiram um luxo e magnificência até então desconhecidos (os palácios eram luxuosos). Amós dá-nos conta deste progresso.
No entanto, a melhoria económica tem o seu reverso da medalha. A prosperidade e o bem-estar das classes favorecidas contrastam com a miséria das classes baixas. O sistema de distribuição estava nas mãos de comerciantes sem escrúpulos que, aproveitando o bem-estar económico, especulavam com os preços, diminuíam as medidas e falseavam as balanças. Com o aumento dos preços dos bens essenciais, as famílias de menores recursos endividavam-se e acabavam por se ver espoliadas das suas terras em favor dos grandes latifundiários. O pequeno proprietário via-se sufocado pelos interesses dos poderosos. A classe dirigente, rica e poderosa, dominava os tribunais e subornava os juízes, impedindo que o tribunal fizesse justiça aos mais pobres e defendesse os direitos dos menos poderosos. Acentuava-se a divisão entre ricos e pobres e a ambição dos ricos não conhecia fronteiras: geravam-se injustiças sociais gritantes e os pobres ficavam à mercê dos que detinham o poder. Empréstimos com juros, hipotecas, serviço como escravo, falsificação dos pesos e das medidas no comércio, corrupção nos tribunais, luxo desmedido dos ricos...
Tudo isto continua, com as mesmas ou com novas modalidade, no nosso século XXI com a contrafação na produção, desvio da distribuição de produtos essenciais, tráfico de influências, especulação financeira e imobiliária e esmagamento dos trabalhadores com baixíssimos salários e aumento do custo de vida. E Amós, que denunciava todas estas situações, teria muito que fazer hoje entre nós.
Com a decomposição social, vem a corrupção religiosa: santuários pagãos, falsidade do culto (tanto se adorava o Senhor como outras divindades; praticava-se o culto para encobrir as injustiças sociais), falsa segurança e complexo de superioridade por pertencer ao povo escolhido. É nesta situação de prosperidade económica e política, de injustiças e desigualdades sociais, de paganismo e corrupção religiosa que atua o profeta. O objeto da palavra do profeta são as injustiças sociais.

O livro
O livro de Amós desenvolve-se em 9 capítulos e o modo como o livro se organiza reflete um longo processo de composição. Não obstante, uma análise mais profunda deixa aparecer a vastidão do problema. São muitos os modos dos estudiosos para dividir o livro. Pela sua relevância, apresentam-se duas. A divisão em quatro partes; e a divisão em três secções.

A divisão em quatro partes
Depois do título (1,1) e de um breve prólogo (1,2), o livro de Amós divide-se em quatro partes:
I. Oráculos contra sete nações vizinhas de Israel e contra Judá e Israel (1,3-2,16).
II. Oráculos contra Israel (3,1-6,14). Nesta parte encontram-se as principais críticas de Amós à corrupção social e religiosa e o anúncio do castigo (3,13-15; 5,1-3.16-20; 6,8-14).
III. Castigos divinos (7,1-9,10). São cinco visões, das quais as primeiras quatro começam com a mesma fórmula e a quinta é diferente. No meio das visões encontra-se a narração da expulsão de Amós do santuário de Betel (7,10-17) e outros oráculos (8,1-14; 9,7-10).
IV. Esperança messiânica como oráculo de salvação (9,11-15):
Virão dias em que o lavrador seguirá de perto o ceifeiro e o que pisa os cachos seguirá o semeador. Os montes destilarão mosto; todas as colinas se derreterão. Restaurarei o meu povo de Israel. Hão de reconstruir e habitar as cidades devastadas. Plantarão vinhas e beberão do seu vinho, cultivarão pomares e comerão dos seus frutos. Hei de plantá-los na sua terra e nunca mais serão arrancados da terra que lhes dei!”. 
No livro predomina o tom poético, excetuando o v. 1 do cap. 1, todo o cap. 7 e os três primeiros versículos do cap. 8. Lê-lo como poema e ter alma de poeta ajudam à sua interpretação.
O tema dominante do livro de Amós, segundo alguns, é a denúncia o castigo. Nas duas primeiras visões vê-se que o profeta intercede e pede perdão pelo povo; mas, nas outras três, já não há remédio e que a catástrofe é iminente. No entanto, dá a solução e aponta a esperança.
Segundo Amós, são contrários ao plano de Deus na História o luxo e a ostentação da riqueza, a exploração dos pobres e dos oprimidos, a fraude e todo o tipo de injustiças sociais, o culto sem o necessário compromisso ético, o sincretismo religioso e as falsas seguranças apoiadas na eleição de Israel. E, como Deus não tolera estes abusos, a única forma de fazer o povo sentir estes males é o castigo por meio da invasão militar. Ora, dizer isto em tempos de Jeroboão II, numa época de prosperidade económica, pareceria obra de louco. Porém, décadas mais tarde (em 722), as tropas assírias conquistam a Samaria e o Reino de Israel desapareceu do mapa.
Amós não se limita a anunciar o castigo; explica porque é que ele vai acontecer, e aponta a única saída possível: buscar o Senhor para viver (vd 5,6); buscar o bem e não o mal (vd 5,14). Lutar por uma sociedade mais justa é, para o profeta, o meio de escapar do castigo. E é notável a sua descrição do Dia do Senhor, apresentado como um dia de trevas e de calamidade, mesmo para o povo eleito (8,8-14) – parecido com Joel e diferente de Abdias (este anuncia o triunfo de Israel). Os evangelistas e, com eles, a Igreja Apostólica interpretam o martírio de Cristo, o Eleito de Deus, à luz destes textos de Amós (Mt 27,45-46; Mc 15,33-41; Lc 23,44-49; Jo 19,36-37).

Na perspetiva das três secções
Secção A (1,3-2,16). Parece que um dos principais critérios para tal afirmação parte da observação de que uma fórmula é repetida nesses textos: 1,3.6.9.11.13; 2,1.4.6 – “Assim falou o Senhor”. Assim, em hebraico, kōh 'āmar Yhwh (assim falou YHWH) 'āl she lōshāh pîshe 'ēy (por três pecados de) w e 'al ’ar e bā'āh (por quatro).
Secção B (3,1-6,14). Os autores observam que os oráculos são bem marcados com a presença do verbo ouvir, em hebraico a raiz shāma‘: Ouvi esta palavra que YHWH falou contra vós, filhos de Israel (3,1). Ouvi esta palavra, vacas de Basã (4,1). Ouvi esta palavra que eu sentencio sobre vós, como lamento, casa de Israel (5,1). Com a expressão “vacas de Basã” o profeta refere ironicamente as mulheres de Samaria que não se preocupam com os pobres. Ainda nesta secção, é notável o uso da interjeição “ai” que se constitui, em exegese bíblica, como indicativo de um género literário de condenação ou juízo. Encontra-se em 5,18 e 6,1.
Secção C (7,1-9,15). Apresenta 5 relatos de visões do profeta (7,1-3; 7,4-6; 7,6-9; 8,1-3 e 9,1-4) e a promessa de restauração final (9,11-15).
Como se vê, a diferença na divisão do livro fica-se aqui pela junção de duas partes da anterior divisão na secção C. O importante é que no livro de Amós as distancias se encurtam.
No livro fica bem patente a preocupação social do profeta. A situação dos habitantes de Israel no século VIII a.C. acusa uma despreocupação com os pobres e isso é motivo da condenação desencadeada pelo profeta. Note-se que a divisão do livro não funciona apenas como motivo literário: é uma espécie de funil a atingir os destinatários da mensagem de castigo.
Cabe agora ver as particularidades de cada uma destas secções. Com efeito, de um lado, há um grande número de géneros literários no livro: notas biográficas, oráculos contra nações vizinhas de Israel e oráculos contra o próprio Israel, lamentos e convites ao arrependimento, relatos de visões, mensagens de esperança e algumas passagens que parecem ser fragmentos de hinos. Por outro lado, uma série de termos e expressões marcam mudanças de tonalidade e obrigam a perceber novas formas e novos modos de expressão da palavra do profeta.
Na secção A, a primeira informação, no v. 1, parece funcionar como um título geral do livro, pois menciona os dois elementos principais: palavras e visão. Traz algumas referências pessoais e informações sobre Amós. São comuns entre os profetas notas como essa (vg.: Os 1,1; Is 1,1 e Jr 1,1). Nesta secção, fica patente a preocupação principal do profeta com os crimes cometidos pelas nações vizinhas de Israel e pelo próprio Israel. A lista referente aos crimes e castigos faz desfilar aos nossos olhos a índole beligerante das palavras de Amós contra tais crimes cometidos contra a pessoa humana. Há exceção apenas para Judá (2,4-5) cujo crime é não ter seguido a lei (Torah) de YHWH. Todavia, há coerência na palavra de Amós, visto que seguir a lei é, sobretudo, resgatar a importância e o valor do ser humano.
Surge nestas linhas uma curiosa numerologia bíblica: pode ser identificada nos oráculos contra as nações (2,6-8) uma lista de 7 transgressões, bem como 7 anúncios de castigo (2,14-16). Há 7 anúncios de acusação e 7 de castigo. E os oráculos dirigidos às 7 nações sugerem o clímax (7+1) para a oitava nação, isto é, Israel. Estes oráculos contra as nações parecem refletir os “famosos textos egípcios de execração, onde se quebravam vasos que traziam a inscrição dos nomes dos inimigos”, o que denota a origem cultual dos oráculos.
A Secção B mostra um conjunto de oráculos contra Israel com palavras muito duras. É de anotar que o processo de afunilamento começa a ficar visível na obra, dado que a última nação citada, na secção anterior, foi Israel. Nesta altura, o profeta denuncia a corrupção do ambiente social e a do culto. Nota-se, numa extremidade do texto, a marcação com o verbo ouvir (3,1; 4,1; 5,1) e, na outra, com a interjeição “ai” (5,18; 6,1). O centro (5,1-17) pode ser identificado como elo entre as ditas extremidades. Assim, o destaque de 3,1-4,13 é o mandato de ouvir a palavra do Senhor. A parte intermediária é, assim, o ponto central e culminante da secção.
O profeta olha em perspetiva negativa todas as ações de Israel: é Israel que pratica a violência e a opressão (3,9-10); e é traçada com palavras excessivamente hostis (3,14-15; 4,4-5) a corrupção cultual. Israel vira suas costas ao convite de volta e arrependimento (4,6-11), o que leva a um ato final do julgamento terrivelmente ameaçador: “Portanto, prepara-te para encontrar teu Deus, Israel” (4,12). É ameaça àqueles que odeiam a justiça e a sinceridade (5,10).
A secção C é marcada pelo ciclo das 5 visões, que aparecem, respetivamente, em 7,1-3 (sobre os gafanhotos); 7,4-6 (sobre o fogo); 7,7-9 (sobre o fio de prumo); 8,1-3 (sobre o cesto de frutos maduros); e 9,1-4 (destruição do santuário). Uma das principais questões desta parte da obra é a busca de resposta para a dimensão e alcance do juízo presente nas 5 visões, mais terrível na última. E a hipótese é a de que pode ser encontrado, nos textos que antecedem o relato visionário (7,1-8,14), o motivo ou motivos para o juízo anunciado em 9,1-4. Seriam motivos ligados exatamente ao descuido com o pobre e à prática da injustiça social e cultual.
Nesta secção encontra-se o confronto, com narrativa em 3.ª pessoa, entre o profeta e o sacerdote Amacias, sacerdote de Betel (7,10-17). É, como se viu, a segunda nota biográfica do livro (a primeira em 1,1-2), que se impõe com grande importância. Um ponto de destaque na neste texto é o seu posicionamento entre a 3.ª visão e a 4.ª, posicionamento que gera perguntas pelo facto de se tratar de um texto narrativo que interrompe a série de visões desta secção. Parece pertencer ao conjunto geral do livro face aos muitos pontos de contacto com o material à sua volta no ciclo das visões.  
Após as 4 primeiras visões, vêm alguns oráculos (8,4-14), aos quais se segue a 5.ª visão (9,1-4). Em 9,5-6, temos uma doxologia, um fragmento de hino, que se harmoniza com 4,13 e 5,8-9. Vêm, em 9,7-10, palavras de juízo. E o último texto do livro (9,11-15) apresenta fortes traços de redação muito posterior ao tempo de Amós cuja análise tem sido tema de debate.
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Concluindo 
A destruição vertical de Israel, ou seja, a que parte das forças diretivas do povo, induz a desestruturação do poder social. O contexto histórico de tranquilidade e expansão de Israel no século VIII a. C. pode lançar luzes importantes. A religiosidade do povo e a certeza do olhar favorável de Deus (4,4; 5,5.21-23) deixa transparecer que tudo está correto. Todavia esse bem-estar e pretensa paz têm as suas raízes na injustiça social: a indiferença à situação de pobreza e a provocação do seu aumento, com a ausência de perspetiva moral e ética da parte do poder.
Amós dirige-se, em 8,4-14, a um grupo de difícil identificação. Porém, nota-se que esse grupo é distinto daquela categoria que abrange os indigentes, pobres e fracos. E esta observação induz que muitos pontos têm de ser levados em conta tendo em vista a perspetiva social que não privilegiava os pobres da terra. A apropriação ilícita e o acúmulo de bens merecem ataque decidido e ferrenho por parte do profeta. Certamente que a opressão ao pobre constitui o ponto central da pregação condenatória de Amós.
Os comerciantes lamentam-se por terem que esperar a passagem do sábado e das festas porque perdem dinheiro (8,5), que poderia ser ganho com a exploração. Em lugar do culto a Deus, o que está em jogo é o enriquecimento ilícito às custas dos pequenos. Mais uma vez se observa a ligação do culto com a exploração social. E há uma particular acusação contra os que compram e necessitados com prata e o pobre com um par de sandálias (8,6). Já se havia condenado os que vendem o justo (2,6). Parece tratar-se de um comércio de escravos e, se a interpretação é procedente, é significativo que uma das possibilidades de fuga, na 5.ª visão, seja o cativeiro (shebî). Para lá são levados os prisioneiros que perdem, como os escravos, os seus direitos. Deus não tolera a exploração humana que chega ao ponto do comércio de vidas, ao engano de incautos e indefesos, à repressão de opostos.
O livro aponta para o desenvolvimento e condenação da injustiça, injustiça que alastra gerando a miséria e a morte, enquanto se erguem cânticos de festa no santuário. A palavra profética procura pôr termo a esta estrutura de pecado e exploração que, como uma cárie, corrói o povo. Isso não está tão distante do século XXI, pelo contrário, parece até refleti-lo com luzes ainda mais brilhantes. E os profetas de agora – não tão frequentes como é desejável – ou não são ouvidos ou são escarnecidos. E, em muitos lugares, são torturados e mortos, às vezes até por quem se diz amigo de Cristo, cujo sacrifício parece teimar em não chegar, por culpa dos homens, a todas as pessoas, lugares e tempos.

(cf 25.º Domingo do Tempo Comum – Ano C, https://www.dehonianos.org/portal/25o-domingo-do-tempo-comum-ano-c0/; Altamir Celio de Andrade, A Estrutura Literária do Livro de Amós,

2019.09.22 – Louro de Carvalho

sábado, 14 de setembro de 2019

“Se a esperança é fechada numa cela, não há futuro para a sociedade”


Foi a grande advertência do Papa Francisco no encontro que teve hoje, dia 14 de setembro, na Praça de São Pedro, com cerca de 11 mil membros da Polícia Penitenciária, pessoal ligado à Administração Penitenciária e ao Tribunais de menores e de comunidades e pessoal que trabalha nas prisões. Na sua alocução, o Santo Padre sustentou que ninguém deve ser privado do direito de recomeçar, pois “a prisão perpétua não é a solução para os problemas, mas um problema a ser resolvido”.
Em torno de três palavrasobrigado”, “em frente” e “coragem” – o discurso papal exprimiu a gratidão da Igreja a quem profissionalmente cumpre uma das grandes obras de misericórdia, cuidar dos reclusos; encorajou o serviço pastoral de ministros ordenados, religiosos e leigos; e estimulou a esperança daqueles e daquelas que se veem sem a liberdade pessoal que sentem ser-lhes tão cara, mas perdida.
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Francisco começou por dizer obrigado para agradecer o trabalho da Polícia Penitenciária e do pessoal administrativo: “um trabalho escondido, muitas vezes difícil e mal pago, mas essencial”. E, sublinhando o significado deste trabalho não apenas “como uma vigilância necessária, mas como um apoio àqueles que são fracos”, observou:
Sei que não é fácil, mas quando, além de serdes guardiões da segurança, sois uma presença próxima daqueles que caíram nas redes do mal, vós tornais-vos construtores do futuro, lançais as bases para uma convivência mais respeitosa e, portanto, para uma sociedade mais segura. Obrigado porque, ao fazerdes isso, vos tornais, dia após dia, artesãos de justiça e esperança”.
Citando a passagem da Epístola aos Hebreus “Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis juntamente com eles na prisão” (Heb 13,3), o Papa recordou que estes agentes se encontram na mesma situação, “ao atravessarem os limiares de tantos locais de dor todos os dias, enquanto passam muito tempo entre os diversos setores, enquanto se comprometem a garantir a segurança sem nunca perder o respeito pelos seres humanos”. E, face à necessidade de reconhecer a dignidade diante da humanidade ferida, exortou:
Por favor, não esqueçais o bem que podeis fazer todos os dias. O vosso comportamento, as vossas atitudes, os vossos olhares são preciosos. Sede pessoas que, diante de uma humanidade ferida e muitas vezes devastada, reconhecem nela, em nome do Estado e da sociedade, a dignidade irreprimível.”.
O Papa reconhece que os agentes não são apenas vigias; mas são sobretudo protetores das pessoas que lhes são confiadas, porque, ao tomarem consciência do mal praticado, acolhem as perspetivas de renascimento para o bem de todos. Enfim, são vocacionados a “ser ponte entre a prisão e a sociedade”, pelo que o Pontífice explicitou contra os medos e a indiferença:
Vós sois assim chamados a ser uma ponte entre a prisão e a sociedade civil: com o vosso serviço, exercitando uma reta compaixão, vós podeis contornar os medos recíprocos e o drama da indiferença”.
Depois, exortou-os a não perderem a motivação, mesmo diante das tensões que possam surgir nos centros de detenção e prisões, recordando a importância do apoio das famílias, o incentivo recíproco e a partilha entre os colegas, o que permite enfrentar as dificuldades e ajudar a enfrentar as deficiências, como o “problema da superlotação nas instituições penitenciárias, que faz aumentar em todos a sensação de fraqueza e mesmo de exaustão”. E Francisco enfatizou:
Quando as forças diminuem, a desconfiança aumenta”. Por isso, apontou que “é essencial garantir condições de vida decentes”, para que as prisões não se tornem “depósitos de raiva em vez de locais de recuperação”. De facto, a prisão não pode esgotar-se na punição, pois, não é um mecanismo de vingança, mas um instrumento de regeneração e de recuperação da liberdade. É a dignidade humana que está em jogo, apesar dos erros e crimes. Os reclusos não perdem a face humana, apesar de temporariamente privados da liberdade pessoal.
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A todos quantos trabalham na pastoral penitenciária – capelães, religiosas, religiosos e voluntários que trabalham nas prisões –, a palavra do Santo Padre foi: “Em frente”. E vincou, de modo anafórico, as diversas circunstâncias em que essa determinação de seguir em frente se torna necessária, oportuna e eficaz, compartilhada e solidária: 
Em frente, quando entrais nas situações mais difíceis com a única força de um sorriso e de um coração que escuta, em frente quando carregais os fardos dos outros e os levais na oração. Em frente quando, em contacto com a pobreza que encontrais, vedes a vossa própria pobreza. É um bem, porque é essencial antes de tudo reconhecer-se necessitado de perdão. Então as próprias misérias tornam-se recetáculos da misericórdia de Deus; então, perdoados, tornam-se testemunhas credíveis do perdão de Deus, caso contrário corre-se o risco de levar a si mesmo e as próprias presumidas autossuficiências. Em frente, porque com a vossa missão vós ofereceis consolo. E é tão importante não deixar sós aqueles que se sentem sozinhos.”.
E aos religiosos, pacientes semeadores da Palavra e verdadeiros pastores das ovelhas fracas, veio um “Em frente” específico:
Em frente então com Jesus e no sinal de Jesus, que vos chama a serdes pacientes semeadores da sua Palavra, buscadores incansáveis daquilo que está perdido, anunciadores da certeza de que cada um é precioso para Deus, pastores que carregam as ovelhas mais fracas nos próprios ombros. Em frente com generosidade e alegria: “com o vosso ministério, consolais o coração de Deus”.
Como se pode ver, Francisco fez a ponte entre o consolo dado aos reclusos e o consolo que se dá a Deus, que a todos sorri, apesar da miséria humana tantas vezes manifesta na pobreza, no erro e no sofrimento.
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E a terceira e última palavra – “coragem” – foi dirigida aos reclusos. Diz o Papa que a palavra “coragem” vem de “coração” (no latim, “cor, cordis”, que deu “coraticum). E é palavra que o próprio Jesus diz a quem está preso, porque estes estão “no coração de Deus”, “são preciosos aos seus olhos” e mesmo que se sintam perdidos e indignos, não podem desanimar, pois “são importantes para Deus”, que quer realizar maravilhas neles. E Francisco exortou:
Nunca vos deixeis aprisionar na cela escura de um coração sem esperança, não cedais à resignação. Deus é maior do que qualquer problema e espera por vós para vos amar. Colocai-vos diante do Crucifixo, sob o olhar de Jesus: diante d’Ele, com simplicidade, com sinceridade.”.
Considerou em jeito de justificação:
Dali, da coragem humilde daqueles que não mentem para si mesmos, renasce a paz, floresce novamente a confiança de ser amados e a força para seguir em frente. Eu imagino-me a olhar para vós e ver a deceção e a frustração em vossos olhos, enquanto no coração bate ainda a esperança, muitas vezes ligada à recordação dos vossos entes queridos.”.
E reforçou o apelo à coragem:
Coragem, nunca sufoqueis a pequena chama da esperança”.
Convicto de que nunca é lícito privar alguém do direito de recomeçar, o Santo Padre falou do dever que incumbe a todos de “reavivar esta pequena chama”. E desenvolveu:
Cabe a toda a sociedade alimentá-lo, fazer de forma que a penalidade não comprometa o direito à esperança, que sejam garantidas perspetivas de reconciliação e de reintegração. Enquanto os erros do passado são remediados, não se pode cancelar a esperança no futuro.”.
Pronunciou-se claramente contra a prisão perpétua:
A prisão perpétua não é a solução para os problemas, mas um problema a ser resolvido. Porque se a esperança é fechada numa cela, não há futuro para a sociedade. Nunca privar do direito de recomeçar!”.
E concluiu:
Vós, queridos irmãos e irmãs sois testemunhas desse direito com o vosso trabalho e o vosso serviço: o direito à esperança, o direito de recomeçar. Renovo-vos o meu ‘obrigado’. Em frente, coragem, com as bênçãos de Deus, guardando os que vos foram confiados. Rezo por vós e também peço que rezeis por mim.”.
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A pari, entre nós,
A coordenação nacional da Pastoral Penitenciária esteve hoje na sua peregrinação ao Santuário de Fátima, entre as 11 horas e as 16,30, com o tema ‘Peregrinos Missionários: Todos, Tudo, Sempre!’, sob a presidência de Dom Joaquim Mendes, bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa e membro da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.
O tema da peregrinação surge no contexto do Ano Missionário promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa e do Mês Missionário Extraordinário proposto a toda a Igreja pelo Papa para o próximo mês de outubro. E o coordenador deste setor pastoral disse, em declarações à agência Ecclesia, que “é sempre importante que as pessoas se encontrem e convivam descontraidamente”. Segundo o padre João Gonçalves, quando se fala em Pastoral Penitenciária, é em “três dimensões”: “a prisão, a prevenção e a reinserção social”.
Em relação à prevenção, referiu que “há um trabalho imenso a fazer, que ultrapassa em muito aqueles que estão nas prisões – paróquias, associações religiosas, congregações religiosas, e com as comunidades, que devem procurar ocupar crianças e jovens para que não entrem em caminhos da criminalidade ou próximos disso”.
No âmbito da reinserção social, exemplificou com as pessoas que saem das prisões, que procuram “acompanhá-los” e um dos trabalhos que têm neste momento, “é realojar naquelas saídas imediatas em que muitos não têm para onde ir” e querem dar uma resposta imediata”, num protocolo entre a Direção Geral dos Serviços Prisionais e a Cáritas Portuguesa.
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A 4.ª peregrinação nacional da Pastoral Penitenciária a Fátima começou com o acolhimento, às 11 horas, no Parque 5 do Santuário, de onde se partiu em peregrinação simbólica até à Capelinha das Aparições, para rezar a oração do Terço (12 horas) e participar na Eucaristia (12,30 horas). Almoçaram, depois, no parque, em regime de piquenique, partilha, convívio. Houve quem tocasse guitarra e cantaram-se canções.
Do programa destaca-se, às 15,30 horas, no auditório do Hotel Santo Amaro, uma “pequenina sessão muito simbólica só para sublinhar” os 10 anos do Decreto-Lei n.º 252/2009, de 23 de setembro, sobre a ‘Assistência Espiritual e Religiosa nos Estabelecimentos Prisionais’, que “regulamenta” esta “presença nas prisões”.
Nesta iniciativa da Pastoral Penitenciária de Portugal, participaram reclusos (eram “elegíveis” os que se encontrem em condições de beneficiarem de licença de saída jurisdicional ou de licença de saída de curta duração) e seus familiares, ex-reclusos e seus familiares, assistentes espirituais e religiosos prisionais e colaboradores, voluntários, dirigentes das prisões, guardas prisionais, técnicos que trabalham nas prisões, familiares de todos estes agentes e todos os simpatizantes deste setor da Igreja Católica. Segundo a carta-convite, de 28 de junho, os destinatários eram:
Reclusos e seus familiares, ex-reclusos e seus familiares, assistentes espirituais e religiosos prisionais e seus colaboradores, voluntários, candidatos a voluntários, dirigentes das prisões, guardas prisionais, técnicos que trabalham nas prisões, familiares de todos estes agentes e todos os simpatizantes da Pastoral Penitenciária que desejem estar presentes”.
Em relação à participação de reclusos, eram “elegíveis”:
Os que se encontrem em condições de beneficiarem de licença de saída jurisdicional ou de licença de saída de curta duração, ou seja, em situação de ‘precária’ (dependente do seu processo e da respetiva autorização judicial). Para tal, recomenda-se uma articulação próxima entre os respetivos reclusos e o assistente espiritual e religioso de cada Estabelecimento Prisional.”.
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Enfim, enquanto há vida, há esperança e ninguém a pode aniquilar! E o Estado tem de o saber.
2019.09.14 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Francisco pede a Moçambique que não deixe roubar a esperança


Com a missa no estádio nacional Zimpeto, na periferia de Maputo, o Papa concluiu a sua visita a Moçambique. A chuva e o frio não diminuíram o entusiasmo dos milhares de fiéis que aguardavam a chegada do Pontífice com cantos e danças tradicionais.
Na homilia, Francisco refletiu sobre uma passagem (Lc 6,27-36) do Sermão da Planície, contida no Evangelho de Lucas. Depois de escolher os seus discípulos e ter proclamado as Bem-aventuranças, Jesus prega: “Digo-vos a vós que Me escutais: Amai os vossos inimigos”» (Lc 6,27). E o Pontífice explica:
Jesus não é um idealista, que ignora a realidade; está a falar do inimigo concreto, do inimigo real, que descrevera na Bem-aventurança anterior (6,22): aquele que nos odeia, expulsa, insulta e rejeita como infame”.
Portanto, como assegurou o Papa, Jesus não nos convida a um amor abstrato, etéreo ou teórico, redigido em escrivaninhas para discursos, mas convida-nos a seguir o seu exemplo, pois amou aqueles que o traíram e o mataram. Propõe, sim, a primeira regra de ouro ao alcance de todos: fazer aos outros aquilo que gostaríamos fizessem a nós, o que significa reciprocidade e implica amar-se e ajudar-se sem esperar nada em troca.
Sabe-se como é difícil falar de reconciliação quando ainda estão vivas as feridas causadas durante tantos anos de discórdia, mas Jesus Cristo convida a amar e a fazer o bem. Isso vai além de simplesmente ignorar o nosso inimigo, mas implica também abençoá-lo e rezar por ele. “Alta é a medida que o Mestre nos propõe!” – diz o Papa argentino, que observa:
Com tal convite, Jesus – longe de ser um obstinado masoquista – quer encerrar para sempre a prática tão usual, ontem como hoje, de ser cristão e viver sob a lei de talião. Não se pode pensar o futuro, construir uma nação, uma sociedade sustentada na ‘equidade’ da violência. Não posso seguir Jesus, se a ordem que promovo e vivo é ‘olho por olho, dente por dente’. Nenhuma família, nenhum grupo de vizinhos ou uma etnia e menos ainda um país tem futuro, se o motor que os une, congrega e cobre as diferenças é a vingança e o ódio.”.
Depois de abjurar da lei de talião, encaixa no quadro do mandamento do amor, mesmo aos inimigos, o dinamismo da misericórdia face ao paradoxo humano. Constata amargamente que “o mundo desconhecia – e continua sem conhecer – a virtude da misericórdia, da compaixão, matando ou abandonando deficientes e idosos, eliminando feridos e enfermos, ou divertindo-se com os sofrimentos dos animais”. E, olhando para a situação histórica de Moçambique nos últimos decénios, aponta:
Superar os tempos de divisão e violência supõe não só um ato de reconciliação ou a paz entendida como ausência de conflito, mas o compromisso diário de cada um de nós. Trata-se de uma atitude, não de fracos, mas de fortes, uma atitude de homens e mulheres que descobrem que não é necessário maltratar, denegrir ou esmagar para se sentirem importantes; antes, pelo contrário...”.
E chama a atenção para o paradoxo de Moçambique: um território cheio de riquezas naturais e culturais, mas com uma quantidade enorme da sua população abaixo do nível de pobreza. E, apesar disso, “por vezes parece que aqueles que se aproximam com o suposto desejo de ajudar, têm outros interesses”, o que é triste sobretudo “quando isto se verifica entre irmãos da mesma terra, que se deixam corromper”. Ora, “é muito perigoso aceitar que a corrupção seja o preço que temos de pagar pela ajuda externa”, pois “agir a serviço de interesses políticos ou pessoais é ser ideológico”. Este é o termómetro, disse o Papa, que garante:
Se Jesus for o árbitro entre as emoções em conflito do nosso coração, entre as decisões complexas do nosso país, então Moçambique tem garantido um futuro de esperança”.
Como se disse, a missa no estádio Zimpeto foi o último compromisso do Papa em Moçambique. E, antes de deixar o estádio, Francisco fez sua saudação final em que reconheceu e agradeceu o sacrifício que todos fizeram em participar nestas atividades desejando que a chuva caída seja água de bênção, pois Moçambique tem razões para acalentar a esperança. E não deixou de agradecer também a quantos não puderam comparecer em consequência dos recentes ciclones, referindo que sentiu de igual modo o seu apoio e clamou: Por favor, guardai a esperança; não deixeis que vo-la roubem! Mantende-vos unidos para que todos os motivos que sustentam esta esperança se reforcem cada vez mais para um futuro de reconciliação e de paz em Moçambique.”.
Da sala que fez de sacristia, o Pontífice dirigiu-se diretamente para o aeroporto internacional de Maputo para a cerimónia de despedida. A próxima etapa é a capital malgaxe, Antananarivo, onde Francisco chegou depois de três horas de voo.
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Antes da missa, o Papa Francisco visitou o hospital de Zimpeto, que atende pacientes com AIDS e onde afirmou:
A solicitude dos fiéis não pode limitar-se a uma forma de assistência – embora necessária e providencial num primeiro momento –, mas requer aquela atenção amiga que aprecia o outro como pessoa e procura o seu bem”.
O hospital de Zimpeto é uma estrutura inaugurada há pouco mais de um ano e que atende cerca de dois mil pacientes. Em especial, dentro do hospital funciona um centro – chamado Dream – para pessoas com AIDS/HIV, administrado pela Comunidade de Santo Egídio.
Perante funcionários, médicos, enfermeiros e pacientes, Francisco pronunciou o seu discurso inspirando-se na parábola do Bom Samaritano. E disse:
Este Centro mostra-nos que houve quem parou e sentiu compaixão, quem não cedeu à tentação de dizer ‘não há nada a fazer’, ‘é impossível combater esta praga’ e se animou a buscar soluções”.
Os pobres não precisam de ser delegados a alguém, mas precisam do envolvimento pessoal de quem ouve o seu clamor.
Para falar do trabalho dos voluntários, Francisco citou novamente a Parábola do Bom Samaritano. São as pessoas que, curadas “com dignidade na sua dignidade, transmitem esperança a muitas outras pessoas”.
A visita ao hospital concluiu-se com a saudação do Papa a 20 doentes e conhecendo duas repartições do Centro de tratamento a pessoas com AIDS.
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Importa ainda recordar que, no dia 5, antes de se encontrar com as pessoas de vida consagrada, seminaristas, catequistas e animadores na Catedral da Imaculada Conceição em Maputo, o Papa Francisco recebeu na Nunciatura uma delegação da Diocese de Xai-Xai, com a qual havia feito um intercâmbio quando era arcebispo de Buenos Aires.
Efetivamente, quando era arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio instituiu uma geminação entre a sua arquidiocese e a diocese de Xai-Xai. Agora a delegação desta diocese foi chefiada pelo seu Bispo, Dom Lucio Andrice Muandula, acompanhado pelo Bispo emérito, Cardeal Julio Duarte Langa.
Após uma breve saudação de Dom Muandula, o Papa recordou as origens da relação entre as dioceses e como o intercâmbio entre as duas fortaleceu os sacerdotes, religiosos e seminaristas na sua missão, abrindo-os a uma perspetiva apostólica. Depois, enfatizou a importância da oração de uns pelos outros e o valor das crianças, riqueza de uma nação, e dos idosos, vincando: “As crianças e os idosos são o tesouro de um povo e a maneira como cuidamos deles, revelam a grandeza de um povo”.
Refira-se que a comunidade de Xai-Xai era conhecida até à independência em 1975 como João Belo. Xai-Xai é a capital da Província de Gaza, com cerca de 143 mil habitantes. É uma cidade portuária, a segunda após a capital Maputo, e localiza-se entre o Oceano Índico e o Rio Limpopo. Distante 224 km ao norte de Maputo, a construção da estrada EN1 (em 1970) – que liga a capital moçambicana com o restante do país – contribuiu de forma determinante para o desenvolvimento de Xai-Xai, tranquila cidade provincial e centro comercial.
Em fevereiro de 2000, chuvas intermitentes que atingiram Moçambique fizeram com que o rio Limpopo, deixando a cidade submersa por cerca de 3 metros de água e lodo.
Após recuperar-se deste trágico evento com muito trabalho, as suas praias e os seus grandes hotéis são hoje uma alavanca para o turismo nacional e internacional. 
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Enfim, no pouco tempo da sua permanência em Moçambique, cingido praticamente à cidade de Maputo, o Papa não deixou de tocar os aspetos essenciais e de estar em encontros vitais para a Igreja e para a conjuntura social. E falou, de paz, reconciliação e esperança.
2019.09.06 – Louro de Carvalho

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Bem-aventurados os pobres, que não a pobreza em si


Lucas, num dos trechos do seu evangelho (Lc 6,17.20-26), declara os pobres bem-aventurados, sem especificar, como faz Mateus, os pobres em espírito, tal como considera felizes os que têm fome, os que choram e os que sofrem perseguição, o insulto ou a infamação. Terão o reino de Deus como herança, serão saciados, hão de rir de alegria e terão a recompensa no Céu.
A razão por que o evangelista, ao invés de Mateus, não acentua os pobres que o são no seu íntimo, terá a ver com o facto de Lucas colocar o discurso de Jesus dirigido aos seus discípulos (olhou-os, falou-lhes) ali presentes e à multidão que ali acorrera para o Ouvir. É certo que o Mestre invetiva os ricos por contraste. Alguns dos discípulos presentes eram ricos e alguns mesmo estavam de coração apegado às riquezas. Tanto assim é que o apostolo Judas Iscariotes, o homem da bolsa, era ladrão e não se coibiu de vender o Senhor por trinta moedas de prata.
A exaltação do pobre, que não da pobreza, sobretudo se constituir um estilo que prostra a pessoa na miséria donde é difícil sair como de prisão de alta segurança, tem o grande significado de que o pobre está recetivo à novidade, ao segredo de Deus, à promessa de bem-estar; não tem quem ou o que o entretenha ou aprisione definitivamente; e está despojado para poder entrar no dinamismo do Reino.  
Algo de semelhante se passa com aquele que chora lágrimas que podem ser purificadoras e preparatórias do consolo; algo parecido sucede com aquele que tem fome e sede, ou seja, a insatisfação com a penúria ou com a falsa abundância, pois tem a capacidade de sonhar com a mudança, de desejar um futuro melhor para si e para os seus (e seus podem vir a ser todos os homens e mulheres); e algo similar ocorre com o perseguido, insultado ou infamado por causa do Evangelho, pois sentir-se-á compensado por ser tratado como os autênticos profetas de outrora.
Na segunda parte do trecho evangélico, Jesus dirige-se aos ricos denunciando a consolação egoísta e avara de que desfrutaram perdidos no labirinto dos bens materiais: mais quiseram ter que ser. Dirige-se aos saciados, que já não querem mais nada, nada anseiam, nada esperam, pois, estando a matar o futuro, podem estiolar e ter fome e sede e não saber onde encontrar a saciedade para a sua penúria. Dirige-se aos que estão contentes, aos que mergulham no folguedo esquecidos dos demais ou então considerando-os o inferno neste mundo, na linha concetual de Nietzsche, a servir de tormento a todos, pois hão de ser vítimas das suas distrações e folguedos, bem como da rejeição que fazem dos semelhantes que nem para rir têm jeito. E dirige-se aos que são elogiados por todos, pois são fúteis, egocentristas e hipócritas, assemelhando-se aos antigos falsos profetas que hoje estão reeditados um pouco por toda a parte a pregar a sua doutrina e não a do Evangelho da paz. Com estas inventivas alinha Tiago ao advertir os ricos, cuja riqueza degrada, impede de cumprir a justiça e leva à condenação do inocente à morte:
Vós, ó ricos, chorai em altos gritos por causa das desgraças que virão sobre vós. As vossas riquezas estão podres e as vossas vestes comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem servirá de testemunho contra vós e devorará a vossa carne como o fogo. Entesourastes, afinal, para os vossos últimos dias! Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo! Tendes vivido na terra, entregues ao luxo e aos prazeres, cevando assim os vossos apetites… para o dia da matança! Condenastes e destes a morte ao inocente, e Deus não vai opor-se?” (Tg 5,1-6).
Por outro lado, o afogamento na riqueza e a paixão pelo ter e por ser superior originam rixas:
Donde vêm as guerras e lutas que há entre vós? Não vêm das vossas paixões que se servem dos vossos membros para fazer a guerra? Cobiçais, e nada tendes? Então, matais! Roeis-vos de inveja, e nada podeis conseguir? Então, lutais e guerreais-vos!” (Tg 4,1-2). 
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O texto em referência situa-se na parte do Evangelho de Lucas que aborda a “atividade de Jesus na Galileia” (Lc 4,14–9,50), em que o evangelista Lucas pretende apresentar um primeiro anúncio sobre Jesus e definir, a partir da sinagoga de Nazaré, o programa libertador que o Messias vai cumprir em favor dos pobres e oprimidos: “o Espírito do Senhor está sobre Mim porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos…” (Lc 4, 18-19). E as bem-aventuranças lucanas inserem-se no quadro pautado por esta linha condutora: a libertação chegou com Jesus e dirige-se aos pobres e aos débeis. Numa planície (ao invés de Mateus, que situa o discurso das bem-aventuranças numa montanha), rodeado dos discípulos e pela multidão “que acorrera para O ouvir e ser curada dos seus males” (Lc 6,18), Jesus proclama as bem-aventuranças e as correspondentes invetivas.
As quatro bem-aventuranças do “discurso da planície” equivalem às nove da montanha e têm como destinatários os pobres, os que têm fome, os que choram, os que são perseguidos. É de reparar que tanto Lucas como Mateus colocam à cabeça das bem-aventuranças os pobres.
O vocábulo grego utilizado por Lucas e por Mateus para “pobres” (ptôchói) traduz os termos hebraicos (‘anawim, dallim, ebionim) que, no Antigo Testamento, definem a classe de pessoas sem bens, à mercê da prepotência e da violência dos ricos e poderosos: os desprotegidos, os explorados, os pequenos e sem vez e voz, as vítimas da injustiça, que a arbitrariedade dos poderosos recorrentemente priva dos seus direitos e atenta contra a sua dignidade. Por isso, têm fome, choram e são perseguidos. E, embora a oferta libertadora de Deus não seja exclusivamente para um grupo social, são os pobres e oprimidos, os desprotegidos, os explorados, os pequenos, sem vez e sem voz os destinatários preferidos da boa nova da salvação de Deus, por estarem numa situação intolerável de debilidade e necessitam de que Deus, na sua bondade, derrame sobre eles a sua bondade e misericórdia. A salvação de Deus dirige-se preferencialmente a estes porque, na sua simplicidade e despojamento, estão mais abertos a acolher a oferta que Deus lhes faz em Jesus.
As bem-aventuranças fazem sair do círculo limitado da sinagoga o programa do Messias, agora proclamado aos apóstolos, discípulos e multidão. Ele é enviado do Pai ao mundo dos oprimidos, pequenos, privados de direitos e de dignidade, simples e humildes, que Ele ama de uma forma especial e com insólita deferência, como se vê noutro capítulo do Evangelho lucano:
Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho.’. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: ‘Felizes os olhos que veem o que estais a ver. Porque – digo-vos – muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram’! (Lc 10,21-24).
As invetivas aos ricos são o reverso da medalha. Denunciam a lógica do opressor, do instalado, do avaro, do poderoso, do que pisa os outros, do orgulhoso, do autossuficiente do indisponível para acolher a novidade subversiva do “Reino”. Já nada têm a esperar, pois têm o futuro assegurado no mundo. Deus, no entanto, tem para eles a mesma oferta de salvação, mas eles, se persistirem na lógica do egoísmo, prepotência, injustiça e autossuficiência, não têm lugar no “Reino”. “É difícil para quem tem riquezas entrar no Reino de Deus! Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (Lc 18,24-25).
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Todavia, a pobreza não pode continuar a ser estatuto de ninguém, a não ser a pobreza que despoja para deixar a pessoa livre para o serviço do Reino. Ou seja, uma pessoa pode querer abraçar a pobreza, mas não pode ser condenada à pobreza. É urgente erradicar a pobreza situacional – a miséria – que deprime e asfixia o ser humano, degrada a vida social e não permite a construção da comunidade, mas há que deixar liberdade para abraçar a virtude instrumental da pobreza para a defesa das grandes causas, para a luta pelo Reino de Deus.
A virtude da pobreza eleva, ao passo que a situação de pobreza pode aniquilar, ofuscar e imunizar contra a abertura à novidade se os pobres caírem na atitude resignatária e fatalista. Aí urgirá a tarefa da conscientização e da criação da convicção da capacidade para sair do labirinto da miséria e da situação de desumanidade.
A felicidade de que fala Jesus está inscrita nos rostos dos discípulos. É a olhá-los que os declara “felizes”, e não, como em Mateus, a falar de quem é feliz. Repare-se que, em Mateus, a última bem-aventurança é dirigida aos discípulos na 2.ª pessoa do plural: “Felizes sereis vós…” (Mt 5,11-12). E eles já são felizes, porque são pobres: deixaram tudo, família e o barco ou o telónio, a fim de estarem livres para a inauguração com Jesus do seu Reino e para pregarem em nome Dele a sua carta magna. São felizes porque são já cidadãos do Reino. São felizes porque são, como o Mestre, rejeitados, insultados por causa do seu discurso que tem de incomodar, porque insta a uma mudança, a um regresso a Deus, pois amar é sair de si mesmo.
Os critérios do mundo proclamam “feliz” quem tem dinheiro, mesmo quando esse resulta da exploração dos pobres, na linha duma economia que mata e duma finança sem rosto; que tem poder, mesmo que esse seja exercido de forma prepotente e arbitrária, não em prol do bem comum, mas em prol do titular do poder; quem influencia, mesmo que essa influência seja obtida à custa da corrupção e de meios ilícitos. Ao invés, a lógica de Deus exalta os pobres, os desfavorecidos, os débeis. E o anúncio libertador que Jesus traz enche de alegria os corações amargurados, os marginalizados, os oprimidos. Com o “Reino” de Deus estabelece-se um mundo de irmãos e de irmãs, que bane a prepotência, o egoísmo, a exploração e a miséria e dá um lugar aos pobres que assumem o estatuto de filhos iguais e amados de Deus. É o sinal e o cume da fraternidade, a alegria da filiação comum, o sabor da herança do Céu.
Resta saber se nós, testemunhas e arautos de Jesus, conseguimos passar aos pobres e aos marginalizados essa oferta libertadora e se temos dado conta desta obrigação testemunhal e pregoeira com suficiente convicção e radicalidade, de forma a criar um impacto real na história dos homens ou se, ao invés, nos temos limitado a guardar a sete chaves o depósito da fé e deixar que só os pretensamente “dignos” tenham acesso a ele. É preciso crer e dar; ter a pobreza suficiente para receber; e fazer crer e fazer dar e receber – com alegria, generosidade, dedicação e esperança.  
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Talvez seja adequada, para a releitura da perícopa evangélica referenciada no início, a leitura dum trecho de Jeremias (Jr 17,5-8), que censura “quem confia no homem e põe na carne toda a sua esperança, afastando o seu coração do Senhor” e bendiz “quem põe a sua confiança no Senhor e Nele assenta a sua esperança”. São palavras ao jeito das máximas sapienciais, através das quais o profeta, recorrendo a antíteses, desenvolve o tema da confiança/esperança.
O reinado de Joaquim (609-597 aC) desenvolve uma política aventureirística de alianças com potências estrangeiras e confia a segurança do povo, não a Jahwéh, mas aos exércitos egípcios. E o profeta ataca essa política enquanto grave sintoma de infidelidade ao Deus da Aliança, pois já não coloca a sua confiança e esperança em Deus, mas sim nos homens.
Jeremias denuncia o homem que se apoia noutro homem e prescinde de Deus. Tal denúncia não postula que não confiemos em quem nos rodeia – Com efeito, quem não confia no irmão que vê, como confia em Deus, a quem não vê? –, mas constitui a censura da autossuficiência dos homens que julgam que não precisam de Deus. Aliás, quem não confia em Deus, como pode confiar noutro homem? Depois, prescindir de Deus e não contar com Ele significa construir uma existência efémera e raquítica, a que falta o essencial, como o cacto ou o arbusto plantados no deserto, condenados previamente à morte precoce.
A seguir, o profeta sustenta imageticamente o estilo de vida daquele que põe em Deus a sua confiança e a sua esperança. É o arbusto plantado à beira da água a mergulhar as raízes bem fundo. A imagem sublinha a segurança, a solidez, a paz, a fecundidade, a abundância de vida. Se Israel confiasse unicamente em Deus, lançaria as suas raízes de forma permanente na Terra Prometida e não experimentaria a trágica aventura do exílio.
A experiência da confiança frustrada pode invadir-nos nalguns momentos da vida e pode criar-nos a sensação de que o mundo se abate sobre nós. Ora, se é certo que tudo o que é humano é efémero e finito, também é certo que em Deus encontramos o rochedo forte e o abrigo acolhedor que não falham e que não dececionam.
É fácil espantarmo-nos com a evolução e as maravilhas da ciência, da arte e da técnica, com as comodidades civilizacionais de que dispomos e com o acesso fácil ao dinheiro, ao poder ou ao protagonismo. Porém, se, prescindindo de Deus, viermos a sentir na pele a efemeridade, e até a monstruosidade, de tudo isso, ficaremos vazios e sem norte.
Se calhar, é útil espiritualmente refletir a mensagem do Salmo 1, o dos dois caminhos que o Senhor nos põe à frente para opção – meditação, com claras conotações éticas, a mostrar que o livro dos Salmos, que abre com o termo “feliz”, para lá de ser uma antologia de orações pessoais e litúrgicas, constitui um espelho de vida e de moral, sublinhando a polarização de caminhos ou comportamentos, que representam dois modos de vida com resultados diferentes (Dt 30,15-18).
Se o caminho da impiedade torna o homem como palha, que o vento leva, e atira com ele para a perdição, o caminho da justiça garante a felicidade porque inculca a confiança no Senhor, radica Nele a esperança humana, que assegura o futuro com Deus e em Deus. O homem pobre e desnudado diante de Deus, sujeito ao juízo de Deus, não segue o caminho da iniquidade, mas é como árvore plantada à beira das águas: dá fruto no devido tempo, a sua folhagem não murcha e tudo quanto fizer terá pleno sucesso. Feliz, pois, o homem que pôs a sua esperança no Senhor!
2019.02.17 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Esta Viagem apostólica fez parte das ‘surpresas’ de Deus


O último compromisso do Papa nos Emirados Árabes Unidos foi a celebração da Missa no estádio Zayed, em Abu Dhabi, com a homilia papal, para milhares de fiéis, sobre as Bem-aventuranças como “um mapa de vida”, já que “não são para super-homens”, mas para quem procura e tenta realizar a santidade diariamente. Nela emergiu com força a asserção do Pontífice, citando São Francisco de Assis, de que “o cristão parte armado apenas com a sua fé humilde e o seu amor concreto”, o apelo à comunidade católica da Península Arábica a que seja oásis de paz e a exortação a que os cristãos “sejam felizes”.
O local, com capacidade para receber 45 mil pessoas, ficou pequeno para tantos fiéis – caldeus, coptas, greco-católicos, greco-melquitas, latinos, maronitas, sírio-católicos, siro-malabarenses e siro-malancareses – tanto que foram distribuídos cerca de 135 mil bilhetes para que a cerimónia fosse acompanhada do lado de fora, por telões. As autoridades locais informaram que no total estavam presentes na celebração (dentro e fora do estádio), cerca de 180 mil pessoas. Foi a vertente interna da viagem: confirmar os irmãos na fé (vd Lc 22,32), pela palavra, oração e festa.
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A homilia da Missa em Abu Dhabi
A homilia, proferida em italiano pelo Pontífice e traduzida simultaneamente em árabe, realçou o conselho fundamental para se viver como cristão: ser feliz – a mensagem basilar de Jesus, que não é prescrição para se cumprir, nem um complexo de doutrinas a conhecer, mas estilo de vida a abraçar. Porém, para Jesus, a felicidade consegue-se segundo os critérios do Evangelho e não segundo a pautação do mundo, ou seja, são felizes os pobres, os mansos, os que permanecem justos, não os ricos, os poderosos e os violentos. E, tendo-se interrogado a si mesmo o Bispo de Roma sobre quem tem razão, Jesus ou o mundo, discorreu:
Para compreender, vejamos como viveu Jesus: pobre de coisas e rico de amor; curou muitas vidas, mas não poupou a sua. Veio para servir e não para ser servido; ensinou que não é grande quem tem, mas quem dá. Justo e manso, não opôs resistência e deixou-Se condenar injustamente. E, assim, Jesus trouxe o amor de Deus ao mundo. Só assim derrotou a morte, o pecado, o medo e o próprio mundanismo: unicamente com a força do amor divino.”.
E, em consequência, exortou:
“Peçamos hoje, aqui juntos, a graça de voltar a descobrir o encanto de seguir Jesus, de O imitar, de nada mais procurar senão a Ele e ao seu amor humilde. Com efeito, é na comunhão com Ele e no amor pelos outros que está o sentido da vida na Terra. Acreditais nisso?”.
Francisco, descrevendo e agradecendo o modo como é vivida, nos Emirados Árabes Unidos, a “polifonia da fé” dos católicos, “que edifica a Igreja”, frisou que seguir o caminho de Jesus não significa estar sempre alegre e reconhece que não é fácil “viver longe de casa e talvez sentir, além da falta das afeições mais queridas, a incerteza do futuro”. Porém, a provação pode fazer-nos ver que não estamos sozinhos”, pois, nesses momentos, o Senhor “caminha ao nosso lado”, “é especialista em fazer coisas novas, sabe abrir caminhos mesmo no deserto” (cf Is 43,19).
Assegurando que a vivência profunda das Bem-aventuranças não postula necessariamente “feitos extraordinários”, bastando realizar a “única obra de arte, possível a todos, a da nossa vida”, o Papa explanou o seu pensamento sobre o dinamismo da vida em bem-aventurança:
As Bem-aventuranças são um mapa de vida: não pedem ações sobre-humanas, mas a imitação de Jesus na vida de cada dia. Convidam-nos a manter puro o coração, a praticar a mansidão e a justiça venha o que vier, a ser misericordiosos com todos, a viver a aflição unidos a Deus. É a santidade da vida diária, que não precisa de milagres nem de sinais extraordinários. As Bem-aventuranças não são para super-homens, mas para quem enfrenta os desafios e provações de cada dia. Quem as vive à maneira de Jesus torna puro o mundo. É como uma árvore que, mesmo em terra árida, diariamente absorve ar poluído e restitui oxigénio.”.
E fez votos para que aqueles cristãos sejam bem enraizados em Jesus e prontos a fazer o bem a quem está perto deles e que aquelas suas comunidades sejam “oásis de paz”.
Por fim, Francisco deteve-se em duas das bem-aventuranças: a da mansidão e a da paz.
No quadro da bem-aventurança da mansidão, “Felizes os mansos, porque possuirão a terra (Mt 5,5), exortou à não-agressão e à manutenção da mansidão, mesmo diante dos acusadores. E, citando São Francisco de Assis, proclamou:
Nem lutas nem disputas: naquele tempo em que muitos partiam revestidos de pesadas armaduras, São Francisco lembrou que o cristão parte armado apenas com a sua fé humilde e o seu amor concreto. É importante a mansidão: se vivermos no mundo à maneira de Deus, vamos tornar-nos canais da sua presença; caso contrário, não daremos fruto.”.
Sobre a bem-aventurança da paz, “Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9), incentivou a promover a paz, começando pela comunidade em que vivemos, pois uma Igreja que persevera na palavra de Jesus e no amor fraterno produz frutos. E o Papa vincou:
Para vós, peço a graça de preservar a paz, a unidade, de cuidardes uns dos outros numa bela fraternidade, onde não haja cristãos de 1.ª classe e de 2.ª. Jesus, que vos chama ‘felizes’, conceda a graça de caminhardes sempre diante sem vos desencorajardes, crescendo no amor ‘uns para com os outros e para com todos’ (1 Ts 3,12).”.
Na verdade, Jesus, como disse Francisco, “não deixou nada escrito, não construiu nada de imponente”; e, “quando nos disse como viver, não pediu que erguêssemos grandes obras ou nos salientássemos realizando feitos extraordinários”, mas que assumíssemos a cruz da vida e O seguíssemos na santidade orante e no bem-fazer.  
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A apreciação da viagem a partir da audiência geral do dia 6, pelo ‘Vatican News’
No seu 5.º encontro do ano com os fiéis em audiência geral de quarta-feira, a 6 de fevereiro, o Papa recebeu 7 mil pessoas na Sala Paulo VI e com elas, compartilhou os principais momentos da viagem acabada de realizar aos Emirados Árabes Unidos. Foi, na sua perspetiva, uma visita breve, mas muito importante, pois, na sequência do encontro de 2017 em Al-Azhar, no Egito, “escreveu uma nova página na história do diálogo entre cristianismo e islamismo e no compromisso de promover a paz no mundo a partir da fraternidade humana”.
Referindo que foi a primeira vez que um Papa foi à Península Arábica e ocorreu justamente 800 anos depois da visita de São Francisco de Assis ao Sultão al-Malik al-Kamil, confessou:
Muitas vezes pensei em São Francisco durante esta viagem: ele ajudou-me a conservar no coração o Evangelho, o amor de Jesus Cristo, enquanto eu vivia os vários momentos da visita; no meu coração estava o Evangelho de Cristo, a oração ao Pai por todos os seus filhos, especialmente pelos mais pobres, pelas vítimas da injustiça, da guerra, da miséria...; a oração para que o diálogo entre Cristianismo e Islamismo seja um fator decisivo para a paz no mundo de hoje”.
Depois de agradecer às autoridades do país, a Dom Paul Hinder, Vigário Apostólico da Arábia do Sul, à comunidade católica em geral, ao Príncipe Herdeiro e ao Conselho Muçulmano de Anciãos, Francisco definiu como ponto culminante da viagem o encontro inter-religioso no Memorial do Fundador dos EAU, Xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan. E revelou ter conhecido o sacerdote mais idoso do país, que aos 92 anos, na cadeira de rodas e cego, continua o seu trabalho, sempre de sorriso no rosto.
Também lembrou o Papa a histórica Declaração conjunta sobre a Fraternidade Humana:
Afirmamos juntos a vocação comum de todos os homens e mulheres a serem irmãos como filhos e filhas de Deus, condenamos todas as formas de violência, especialmente aquela revestida de motivos religiosos, e comprometemo-nos a difundir valores autênticos e a paz no mundo”.
O Pontífice ressaltou que, numa época como a nossa, em que há a forte tentação de ver um choque entre civilizações cristãs e islâmicas e de considerar as religiões como fontes de conflito, os dois líderes religiosos em presença quiseram dar este sinal claro e decisivo do encontro, do respeito e do diálogo:
É possível encontrar-se, respeitar-se e dialogar entre si; e, apesar da diversidade de culturas e tradições, o mundo cristão e o mundo islâmico valorizam e protegem valores comuns: vida, família, sentido religioso, honra para com os idosos, educação dos jovens e outros”.
Outro momento significativo da viagem apostólica foram os dois encontros com a comunidade católica local, formada por trabalhadores de vários países da Ásia, na Catedral de São José, e para a Eucaristia, no estádio de Abu Dhabi, quando se rezou, de modo especial pela paz e pela justiça, com especial intenção para o Oriente Médio e o Iémen.
Com efeito, naquele oásis multiétnico e multirreligioso que são os EAU, existe um bom número de cristãos, trabalhadores originários de vários países, para quem o Pontífice celebrou a Santa Missa no Estádio da cidade, anunciando-lhes o “Evangelho das Bem-aventuranças” e do louvor a Deus. E o Papa terminou o discurso da audiência geral com satisfação, dizendo:
Esta viagem pertence às ‘surpresas’ de Deus, por isso O louvamos a Ele e à sua providência e rezamos para que as sementes dispersas produzam frutos segundo a sua santa vontade”.
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A autoanálise da viagem na conferência de imprensa no voo de regresso ao Vaticano
Em termos genéricos, o Papa considerou a viagem importante, ao dizer aos jornalistas:
Foi uma viagem muito breve, mas para mim foi uma experiência grande. Penso que toda a viagem seja histórica e também que cada dia nosso seja para escrever a história quotidiana. Nenhuma história é pequena. Toda a história é grande e digna. E, mesmo se for feia, a dignidade está escondida e sempre pode emergir.”.
Questionado sobre os resultados da viagem, começou por apontar a modernidade do país, o seu acolhimento, a aposta no futuro pela educação, realçando a transformação da água do mar e a da humidade em água potável e a noção de que o petróleo faltará. E, no âmbito religioso, destacou:   
É um Islão aberto, de diálogo, um Islão fraterno, de paz, […] não obstante os problemas de algumas guerras na área. Para mim, foi muito tocante o encontro com os sábios do Islão, um encontro profundo. Eram de diferentes lugares e de várias culturas. Isto também indica a abertura desse país a um diálogo regional, universal e religioso. Fiquei impressionado com a conferência inter-religiosa: foi um forte evento cultural. Mencionei isso no discurso, o que fizeram ali, no ano passado, sobre a proteção das crianças na Internet!”.
Quanto às honras militares e a movimentação e colorido nos ares, esclareceu:
Interpreto todos os gestos de boas-vindas como gestos de boa vontade. Cada um realiza-os segundo as próprias culturas. Encontrei um acolhimento muito grande […] sentiam que a visita do Papa era uma coisa boa. Alguém disse até ‘uma bênção’, Deus sabe. Queriam fazer sentir que eu era bem-vindo. Sobre o problema das guerras, […] sei que é difícil dar uma opinião depois de dois dias e depois de ter falado sobre o assunto com poucas pessoas. Digo que encontrei boa vontade em iniciar processos de paz.”.
No atinente ao modo como será aplicada a Declaração sobre a fraternidade, depois de confessar ter sido preparada com muita reflexão e oração de ambas as partes, advertiu quanto aos perigos:
Para mim existe somente um grande perigo neste momento: a destruição, a guerra, o ódio entre nós. Se nós, fiéis, não somos capazes de nos dar as mãos, abraçar-nos, beijar-nos e também rezar, a nossa fé será vencida. Esse documento nasce da fé em Deus, que é Pai de todos e Pai da paz. Condena toda a destruição, todo o terrorismo, desde o primeiro terrorismo da história, o de Caim. É um documento que se desenvolveu em quase um ano, com ida e volta, orações. Ficou para amadurecer, um pouco confidencial, para não dar à luz a criança antes do tempo. Para que seja maduro.”.
Interpelado sobre se o documento dos dois líderes religiosos, tão ambicioso quanto à educação, pode influenciar os fiéis, disse:
Ouvi dizer a alguns muçulmanos que deveria ser estudado nas universidades, pelo menos em Al-Azhar certamente, e nas escolas. Deve ser estudado, não imposto.”.
No atinente às consequências da Declaração no mundo islâmico e entre os católicos, até porque acusam o Papa de se deixar instrumentalizar pelos muçulmanos, depois de admitir que é acusado de se deixar instrumentalizar por todos, até pelos jornalistas, referiu que, do ponto de vista católico, “não foi um milímetro além do Concílio Vaticano II” e revelou:
Antes de tomar a decisão […], pedi que um teólogo e também o Teólogo da Casa Pontifícia, que é um dominicano com a bela tradição dominicana, […] encontrasse a coisa justa. E ele aprovou. Se alguém se sente mal, eu compreendo, não é algo de todos os dias e não é um retrocesso. É um passo avante que vem de 60 anos atrás, o Concílio que se deve desenvolver. Os históricos dizem que, para que um Concílio tenha consequências na Igreja, são necessários 100 anos, estamos na metade do caminho. Aconteceu também comigo. Li uma frase do documento que me surpreendeu e disse a mim mesmo: não sei se é segura. Ao invés, era uma frase do Concílio!”. 
E em relação ao mundo Islâmico, indicou sem ilusões:
Existem vários pareceres, alguns mais radicais, que outros. Ontem, no Conselho dos sábios, havia pelo menos um xiita, e falou bem. Haverá discrepâncias entre eles… mas é um processo, os processos devem amadurecer, como as flores, como a fruta.”.
Sobre o encontro com os anciãos, depois de salientar que “são realmente sábios”, contou:
O Grande Imame falou primeiro, depois cada um deles, começando pelo mais ancião […] até ao mais jovem, que é o secretário, mas disse tudo em vídeo. […]. As palavras-chave são ‘sabedoria’ e ‘fidelidade’. Depois, enfatizaram um caminho de vida no qual esta sabedoria cresce e a fidelidade se torna forte, e daí nasce a amizade entre os povos. Um deles era xiita, outros com diferentes cambiantes. O caminho de sabedoria e fidelidade leva a construir a paz, que é verdadeira obra de sabedoria e fidelidade. Fiquei com a impressão de estar entre verdadeiros sábios.”.
Tendo-lhe sido recordado que uma menina passou por entre as barreiras e correu até ao Papa para lhe entregar uma carta, disse que ainda não tivera tempo de a ler, mas acrescentou:
Aquela menina é uma menina corajosa! Essa menina tem futuro e eu ouso dizer: Pobre marido! Corajosa, gostei. E, depois, outra menina seguiu-a! Que bonito...”.
Posto ante o facto de o grande Imame ter abordado o tema da Islamofobia e Francisco não ter falado na Cristianofobia e a perseguição aos cristãos, disse que falou disso, mas não naquele momento, e que tem falando disso com frequência. No entanto, sobre o documento, adiantou:
Eu acredito que o documento fosse mais de unidade e de amizade. Mas ele condena a violência e alguns grupos que se dizem islâmicos – mesmo que os sábios digam que isso não é islamismo – e perseguem os cristãos.”.
E relatou um episódio de há anos:
Lembro-me daquele pai em Lesbos com os seus filhos. Trinta anos de idade. Chorava e disse-me: eu sou muçulmano, a minha esposa era cristã e vieram os terroristas do ISIS, viram a sua cruz, pediram-lhe que se convertesse e, depois da sua recusa, degolaram-na na minha frente. Este é o pão quotidiano dos grupos terroristas: a destruição da pessoa. É por isso que o documento foi de forte condenação.”.
Tendo-lhe sido apontado que fala de liberdade religiosa, que esta vai além da liberdade de culto e que fez uma visita a um país dito tolerante, mas que muitos católicos presentes no estádio, pela primeira vez desde que chegaram aos Emirados, puderam celebrar abertamente a sua fé, disse que todo o processo tem princípio, existe um antes e um depois, mas sem parar”.
E evocou um episódio de há anos, em Roma:
Um adolescente de 13 anos com quem estive em Roma disse-me: ‘Algumas coisas que o senhor diz parecem-me interessantes, mas eu quero dizer-lhe que sou ateu. O que devo fazer como ateu para me tornar um homem de paz?’. Eu disse-lhe: ‘Faça o que você sente, falei com ele um pouquinho’. Eu gostei da coragem dele.”.
E acrescentou:
Ele é ateu, mas busca o bem, e isso também é um processo. Devemos respeitar e acompanhar todos os processos, sejam das cores que forem. Eu acredito que estes são passos avante.”.
Em suma, do meu ponto de vista, o Papa Francisco sabe que é tentador aproveitarem-se da sua vontade de diálogo, procura dizer tudo o que é preciso dizer, mas sem queimar etapas ou sem estragar antecipada e desnecessariamente e resultados, e respeita a dinâmica dos processos. Roma e Pavia não se fizeram num dia. É a semente do Reino a germinar para crescer imenso! 
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A confirmação das previsões do Cardeal Secretário de Estado quanto a esta viagem
Confirma-se a expectativa e previsão do Cardeal Secretário de Estado previamente entrevistado pelo Vatican News, sobre a visita do Papa aos EAU como um novo capítulo na relação de fraternidade entre as religiões”, com os dois momentos marcantes: o encontro inter-religioso no Memorial do Fundador e a Missa no estádio de Zayed.
Segundo o entrevistador Roberto Piermarini, o Cardeal Parolin define os Emirados Árabes Unidos como uma ponte entre o Oriente e o Ocidente e uma terra multicultural, multiétnica e multirreligiosa. E a mensagem papal seria “para todos os líderes e membros das religiões, para que se empenhem em trabalhar juntos para construir a unidade, a paz e a harmonia no mundo, para redescobrir as raízes de nossa fraternidade, em vista de uma luta clara e explícita contra qualquer tipo de fundamentalismo e radicalismo que leve a conflitos e contraposições”. Por outro lado, a viagem apostólica levaria o Papa “a encontrar numerosos católicos presentes no país, para os encorajar a continuar a dar seu testemunho cristão e a contribuir para a construção da sociedade e, de maneira mais geral, para a paz e a reconciliação”.
Enfatizando ser a primeira vez que um Papa vista os Emirados Árabes Unidos e mesmo a Península Arábica, Pietro Parolin vincou a situação de ponte daquele país como escala de passagem aérea e a sua índole multicultural, multiétnica e multirreligiosa”. Assim, iria ser dado ao Pontífice o ensejo de confirmar “o conceito da fraternidade” e o compromisso pela paz, bem como o de encontrar “uma comunidade cristã, uma comunidade católica”, sendo que, “em relação a esses irmãos e irmãs na fé”, a presença papal seria de “conforto e encorajamento” para seguirem “o seu testemunho cristão”.
Questionado sobre a participação de Francisco no Encontro inter-religioso a ser realizado em Abu Dhabi e sobre o papel do evento num mundo ferido pelo fundamentalismo, o purpurado sublinhou a afirmação da fraternidade universal e a redescoberta das suas raízes – em vista duma luta clara e explícita contra todo tipo de fundamentalismo, de radicalismo “que possa levar a conflitos e contraposições, e em vista de construir caminhos de reconciliação e de paz”. E, antecipando a imagem do deserto utilizada pelo Papa Bergoglio, frisou:
Poderíamos usar uma imagem, já que lá há muito deserto: muitas vezes os caminhos do deserto são cobertos de areia, as tempestades fazem-nos desaparecer. Trata-se de os redescobrir e de começar a percorrê-los, todos juntos, de forma tal a oferecer verdadeiramente uma esperança ao nosso mundo tão dividido e fragmentado.”.
Sobre a celebração eucarística no estádio da capital, considerou o número de cristãos que ali vivem, provenientes dos países vizinhos e de outras partes do mundo, que ali acorreram “para encontrar oportunidades de emprego”. E a presença deles  torna-se “experiência de encontro com o outro”, sendo que as autoridades desses Estados se empenham em que eles “se tornem modelos de coexistência e de colaboração entre os vários componentes”. E disse:
Esperamos que os cristãos que estão ali presentes possam continuar a dar a sua contribuição também para a construção daquela sociedade, mas de modo mais geral, para a paz e a reconciliação no mundo. E às irmãs e aos irmãos católicos que encontram dificuldades e também fazem tantos sacrifícios para viver sua fé, gostaria de dizer neste momento que somos próximos a eles, que realmente nos sentimos ligados a eles por uma fraternidade  cristã e que fazemos de tudo para os ajudar com os meios que estão à nossa disposição.”.
Por fim, evocando a sua ida ao país em 2015, onde inaugurou uma igreja dedicada ao Apóstolo São Paulo, Parolin falou daquela comunidade eclesial como uma Igreja numerosa, compósito-laboratorial (feita de fiéis pertencentes a diferentes culturas com diversas línguas e diversos ritoslaboratório de unidade e de comunhão na diversidade) e dinâmica (cheia de vitalidade dentro de si). E observou:
Não faltam desafios e dificuldades e, às vezes, também há tensões. Mas parece-me que realmente há um esforço por parte de todos, sob a orientação dos pastores locais, de viver uma autêntica comunhão. […] Bastaria participar (e o Papa o fará porque celebrará a Missa) nas celebrações desta comunidade para ver como são realmente comunidades vibrantes, que participam plenamente das celebrações litúrgicas - e ao mesmo tempo também empenhada em testemunhar no ambiente em que se encontra e a colocar-se a serviço da sociedade junto à qual vive e trabalha.”.
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Nada ficou por dizer e tudo está em rota do processo de cumprimento, não sem dificuldades. É a esperança em marcha!
2019.02.06 – Louro de Carvalho