sábado, 14 de abril de 2018

No dia da posse canónica do Bispo do Porto


Dom Manuel Linda tomou posse canónica como Bispo do Porto hoje, sábado, dia 14 de abril, às 10 horas, perante o Colégio dos Consultores, tendo sido saudado e tendo-lhe sido entregue oficialmente a diocese por Dom António Taipa, o Bispo Auxiliar mais antigo, que assumiu funções de Administrador Diocesano desde o falecimento de Dom António Francisco dos Santos a 11 de setembro de 2017.
A seguir a este ato formal, teve, às 10,30 horas, um encontro com os jornalistas no Auditório do Paço Episcopal, constituindo este o seu primeiro ato oficial, enaltecendo a profissão deles, a sua importância e o contributo dado à sociedade. A este respeito, disse:
Quis que o primeiro ato de relação com a nova, para mim nova diocese do Porto, fosse por intermédio de vocês, jornalistas na certeza que no tempo de hoje a procura, descoberta e também a transmissão da verdade passa muito pelo jornalismo e jornalismo criterioso. Valorizo muito, muito a vossa profissão e o vosso contributo para a sociedade.”.
Nesse encontro, dirigiu ainda uma palavra de apreço ao “núcleo duro da diocese”, a que chamou os “três heróis”: uma palavra para Dom António Taipa, Dom Pio Alves e Dom António Augusto e também para o vigário geral e todos os que trabalham diretamente a partir deste serviço central”. Comparando este núcleo, como um dos componentes duma célula, sublinhou que só faz sentido o trabalho em equipa e em equipa alargada. E explicitou:
Estes 2 milhões e 200 mil pessoas que vivem, fazem a sua vida nesta área da diocese do Porto, muitos se reveem na dimensão religiosa e outros que caíram no desânimo e indiferença  serão para nós pessoas com quem nos relacionaremos na plenitude do que é humano”.
O Bispo do Porto disse ainda, numa última palavra aos jornalistas, que o seu ministério vai ser exercido na “simplicidade que carateriza a Igreja” procurando que o caraterize também “na amabilidade, simpatia e coração grande”, o que “pode ser documentado” a partir do seu antecessor, Dom António Francisco, “aquele que, na realidade da vida como era, mostrou estas mesmas características”. Mas avisou que “não há cópias”, pois, cada um tem uma personalidade própria, mas que “estas dimensões são balizas que não podemos ultrapassar”.
Aos jornalistas o prelado assegurou, por princípio, a continuidade dos responsáveis pelas diversas áreas da diocese e, no âmbito da relação com a comunicação, alertou que os “padres são profissionais do segredo da confissão” e há âmbitos que não é possível transigir
O novo responsável pela diocese Porto, cujo lema episcopal é Sede alegres na esperança’, assenta no “serviço da Igreja – anúncio da verdade, celebração de culto e exercício da caridade” – mas, entendendo que há que sujar as mãos e denunciar situações, mostrou-se disponível para, “se necessário”, fazer intervenção “política” e “denúncia” pelos desfavorecidos. E vincou:
O exercício da caridade implica sujar as mãos na realidade do dia a dia. Pode haver situações em que, mais do que isso, tenha de haver também a denúncia. Se for necessário, evidentemente que o farei.”.
Registe-se que, na Conferência Episcopal Portuguesa, o Bispo do Porto preside à Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização e é vogal da comissão para a Pastoral Social e Mobilidade Humana.
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O antigo Bispo das Forças Armadas e de Segurança e seu Administrador Apostólico, que sucede a António Francisco dos Santos na Diocese do Porto, falava numa conferência de imprensa em que respondeu a perguntas sobre os ataques com mísseis à Síria, o celibato dos padres, a ordenação de mulheres e a lei que permite a mudança de género a partir dos 16 anos.
As declarações foram feitas, como se referiu, logo após a tomada de posse, porque o novo Bispo quis que o seu “primeiro ato de relação com a nova diocese fosse por intermédio dos jornalistas”, porque, “no tempo de hoje, a procura e a descoberta da verdade passa pelo jornalismo criterioso”.
Anotou que a Igreja não está em crise nem vive “o fim da linha”, estando no “princípio de uma nova era”. “Não estamos aqui como administradores de insolvência para encerrar a causa”.
Preocupado com a situação na Síria, Dom Manuel Linda alertou para os perigos do populismo e admitiu o receio de que sejam dados “passos mal dados em razão da busca política pela afirmação pessoal dos líderes”. Disse a este respeito:
Tenho medo de que a afirmação pessoal, com os meios modernos que temos de guerra, numa tentativa primeira de desafiar o inimigo, este desafio atinja dimensões irrecuperáveis e não seja possível voltar para trás, tenho medo que haja passos mal dados”.
Chamou a atenção para a dimensão humana e para a necessidade de rezar a Deus pelos condutores dos povos”. E citou ainda o Papa Francisco que, “com a sabedoria que o carateriza e a informação que lhe chega”, fala há já um ano numa “terceira guerra mundial por episódios”. E formulou o seguinte voto sobre o ataque dos liados à Síria:
Oxalá que não venha num episódio quase definitivo.
Questionado sobre o celibato dos padres, disse que, “nesta fase, ainda se justifica plenamente”, mas aclarando que “esta questão não é dogmática ou de natureza imutável”, alertando ser “coisa diferente” a ordenação de mulheres.
Disse ser “100% contra a eutanásia, mas que não irá “para a praça pública arregimentar tropas” (mais que a praça pública interessa o testemunho, o empenho e a formação). Porém, manifestará sempre a posição da Igreja na “formação de consciências” e frisou tratar-se de um “tema humano”, que ultrapassa o âmbito religioso. E afirmou: “Apressar a morte é algo que me choca”.
Quanto à lei aprovada na sexta-feira no Parlamento que permite a mudança de género a partir dos 16 anos, considera que, “naquela idade, a pessoa não tem maturidade psicológica” para a decisão, pelo que pensa ser “um contrassenso permitir uma decisão tão importante a pessoas que não têm o seu temperamento ainda formado”.
Dom Manuel não identificou o maior desafio à frente da Diocese – a segunda maior diocese portuguesa em número de paróquias (477, menos 74 do que Braga) –, mas apontou um “grande”, o de “ser portuense no meio dos portuenses”, sendo este “o primeiro esforço que vai fazer.
Ao ser nomeado, a 15 de março, pelo Papa Francisco para dirigir a diocese do Porto, esclareceu que esta “sempre se distinguiu pela cultura dos seus membros, zelo missionário, santidade operante e sadia presença na sociedade”. Por conseguinte, propôs-se:
“Trabalharei no Porto como tenho feito até aqui: ‘com Pedro e sob Pedro’. Mas também ‘à maneira de Pedro’. Isto é, pretendo ser um ‘missionário da misericórdia’, um pastor com ‘o cheiro das ovelhas’, um pai dos Padres, um irmão dos mais pobres e um fomentador do espírito ecuménico e de diálogo. […] Procurarei reconduzir a Igreja a uma tal simplicidade evangélica que a constitua referencial ético para o mundo atual.”.
O Bispo do Porto referia-se também a uma Igreja “semper reformanda” e “sensível aos sinais dos tempos”.
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A página web da diocese apresenta hoje a leitura das Armas de Fé Episcopais do novo prelado:
De azul com asna de ouro, acompanhado, na parte central do chefe, de um besante de ouro carregado de uma rosa do deserto, assim chamada pela sua resistência às agruras do clima e, na ponta, do esquema geométrico da rosácea da Catedral Portucalense, indicativo da missão de “levar” a Igreja do Porto até Deus.
A rosa do deserto constitui-se como metáfora da alegria da Esperança evocada na legenda “Spe Gaudentes” e da invocação “Rosa Mística” a Nossa Senhora.
Ornato superior feito com a cruz e o chapéu preto de seda de copa redonda e abas direitas, forrado a verde, com seis nós de cada lado, a rematar o campo oval do brasão.
O azul significa fidelidade a Deus e ao seu povo, que o esquema geométrico da rosácea concretiza na Diocese do Porto.  O ouro significa uma fidelidade até à morte e a prata: humildade, sabedoria e proteção dos mais fracos como os órfãos e viúvas.
O círculo do besante pode ainda ser interpretado como referência da divindade e evoca também o cosmos e o mundo.”.
No entanto, em rodapé vem o seguinte esclarecimento:
As armas de Fé Episcopais não querem manifestar ou advogar, para quem as possui, honras e ou privilégios na hierarquia social, mas testemunham, antes, um programa de vida, assumindo-se como compromisso público desse programa”.
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Em entrevista à agência Ecclesia, hoje publicada, o novo Bispo do Porto indica as prioridades para o trabalho episcopal que inicia este domingo na diocese mais populosa de Portugal, diz que a questão económica diocesana “não é um drama”, aponta o diálogo e a proximidade como atitudes do quotidiano e afirma que “não há oposição entre os bispos, em Portugal.
Diz não estar para ditar normas, mas para caminhar e estar com as pessoas. Preocupa-o a falta de capacidade de nos unirmos para anunciar o Evangelho. Diz que a Igreja deve ser especialista em andragogia, em ter uma linguagem própria para a formação dos adultos. Foi esta linha que foi buscar a Dom António Ferreira Gomes, particularmente na vertente voltada para a dimensão da vida em sociedade.
Entende que a liturgia deve espelhar a vida da Igreja pelo lado da interiorização da participação e que a Igreja deve ser criativa na caridade e na ação social sem estar à espera do Estado.
Avança que a sua preocupação com os frágeis e a ligação com os jovens serão duas prioridades mentais. Mas ainda “vamos conseguir equacionar isto no dia a dia”. De qualquer forma, procurará ter estes dois setores nos seus olhos.
Olha a atual situação política com respeito, como legítima, embora alguns eleitores não a tivessem previsto, reconhece melhorias, sem se pronunciar a quem se devem e que as pessoas têm oportunidade de julgar as opções políticas aquando das eleições.
Sabe do peso dos bispos do Porto até este momento no todo nacional. A sua preocupação não é continuar esse peso institucional, mas sabe que as pessoas olham para o Bispo do Porto como alguém que terá o seu peso... Tentará não desmerecer dos seus antecessores.
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Por tudo, espera-se que o Bispo do Porto tenha o maior êxito na condução desta Igreja, que seja sempre bem acolhido e que não perca a solicitude por todas as outras Igrejas. E seja bem-vindo no dia 15 de abril e parabéns pelos 62 anos de idade!
2018.04.14 – Louro de Carvalho

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