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sábado, 20 de julho de 2019

A 50 anos da alunagem


A alunagem, após 4 dias de viagem de Amstrong, Aldrin e Collins a bordo do Apolo 11, foi um dos momentos divisores da História. A missão espacial estadunidense iniciou-se alguns anos antes, em plena Guerra Fria, na corrida frenética entre EUA e a URSS pela conquista do espaço.
Agora, o momento de frenesim com que mais de meio bilião de expectadores em todo o mundo acompanharam pela TV a admirável façanha humana representava uma conquista da ciência e da técnica, uma consagração do génio humano e da sua capacidade de tornar realidade a ficção científica, um ponto de não retorno, quase como uma promessa de que, após aquele momento excecional, a humanidade jamais seria a mesma.
A 20 de julho de 1969, três homens fizeram História. O dia e a Apollo 11 ficaram na memória das pessoas e dos povos. Há memória da 1.ª bandeira dos EUA na Lua, das pegadas e da frase de Neil Amstrong: “um pequeno passo para o Homem, um salto gigante para a Humanidade”.
***
Entretanto, Rui Casanova, no Observador, dá conta de alguns aspetos curiosos, de que o público não sabe. Aqui ficam alguns de forma sintética, no seguimento do predito colunista:
As fatiotas que permitiram aos astronautas sobreviver às temperaturas extremamente baixas e à falta de ar na Lua foram desenhadas pela Playtex, uma marca de sutiãs, contratada pela NASA, que a pôs trabalhar sob a supervisão da empresa aeroespacial Hamilton Standard. Na verdade, foi aquela empresa que desenhou o primeiro fato, que foi rejeitado. Porém, quando, mais tarde, os funcionários da Playtex entraram na Hamilton Standard, recuperaram o design da marca de lingerie, voltaram a submetê-lo e o fato ganhou o contrato.
Os fatos, que importaram em 100 mil dólares, eram constituídos por várias camadas de fibras de plástico, borracha, várias peças de metal e tecido (cosido à mão).
No atinente a salários, apesar de Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Mike Collins fazerem, na altura, o trio mais famoso do planeta (eram os únicos que tinham saído para outro planta e voltado), o salário não condizia com a proeza e a aura de que vinham revestidos aquando do regresso: ganhavam, como os demais astronautas do programa Apollo, entre 17 e 20 mil dólares por ano – menos que, por exemplo, os jornalistas que estavam a cobrir a alunagem.
Nem tudo foi acautelado pela NASA nem pela administração federal. Os três astronautas conheciam os riscos da viagem e tinham consciência de que era elevada a possibilidade de não voltarem à Terra. Não tendo seguro de vida, tomaram medidas para o caso de não regressarem. Os riscos seriam partilhados entre as famílias de Aldrin, Armstrong e Collins. E os três norte-americanos decidiram capitalizar a fama. Assim, antes do embarque, assinaram centenas de envelopes comemorativos da Apollo 11, com um design especial e a data prevista da alunagem. O objetivo, se a História tivesse sido diferente, era as mulheres venderem os envelopes e, com o dinheiro, garantirem alguma estabilidade e pagarem a educação dos filhos.
Richard Nixon tinha um discurso preparado para o caso de os astronautas terem morrido. Em caso de desastre na Lua” era o título do texto de condolências e louvor, solicitado pelo Presidente, a 18 de julho de 1969, ao seu speechwritter, William Safire e que dizia:
Ordenou o destino que os homens que foram à Lua para a explorar em paz, vão ficar na Lua a descansar em paz. Estes corajosos homens, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, sabem que não há esperança na sua recuperação. Mas vão saber que há esperança na humanidade devido ao seu sacrifício..
Nixon escreveu que os astronautas seriam homenageados “pelas suas mulheres, nação, mundo e Terra Mãe”. Havia indicações explícitas para chamar um padre e contactar as viúvas antes da leitura do discurso, pois se as coisas corressem mal, não havia hipótese de recuperação dos astronautas, que morreriam sozinhos na Lua, de fome, falta de ar ou suicídio. As esposas seriam informadas da situação e seriam de imediato cortadas todas as comunicações. Mais tarde, seria feito um funeral simbólico no mar. A mensagem, nunca lida por Nixon, está nos Arquivos Nacionais dos EUA para ilustrar este lado não realizado da História.
A missão dos três astronautas, que não eram propriamente amigos, partiu do Cabo Canaveral, na Florida, às 9,32 horas de 16 de julho de 1969, e implicou que passassem 8 dias dentro duma cápsula à deriva no Espaço e protagonizassem um dos maiores feitos do Homem. Não obstante, era fria e distante a relação entre eles. Mike Collins descreveu a tripulação como “amigos desconhecidos”. Naturalmente cada um queria ser o primeiro a pôr os pés no solo lunar, o que não era pacífico. No plano inicial, a NASA estabeleceu que seria Aldrin a pisar pela 1.ª vez na História a Lua, por ser o piloto. Mas, 4 meses antes da descolagem, a NASA mudou o programa e escolheu Armstrong para protagonizar o feito, nunca tendo explicado a razão da mudança.
E a citada frase de Armstrong One small step for man, a giant leap for mankind” não terá sido dita assim. Segundo alguns peritos, há uma sílaba, aliás uma palavra, em falta. Na verdade, Armstrong terá dito: One small step for a man”, ou seja, “um pequeno passo para um homem”.
Há quem diga que o astronauta se inspirou no livro de 1937 “The Hobbit”, de J.R.R. Tolkien, em que, o autor, ao descrever o momento em que o protagonista, Bilbo Baggins, se torna invisível e salta por cima do vilão, diz: “Not a great leap for a man, but a leap in the dark”.  
Como, em 1969, a cobertura de eventos em direto não era comum nem garantida – mas realizou-se a cobertura da alunagem – para animar aquelas horas intermináveis de transmissão, foi escolhida a banda inglesa dos Pink Floyd, formada apenas 4 anos antes, que fez um jam sessionem direto para a BBC a acompanhar a chegada à Lua. O resultado foi a canção “Moonhead”, que não foi lançada oficialmente. Sobre o evento, disse David Gilmour, o guitarrista dos Pink Floyd:
Estávamos num estúdio de televisão da BBC a improvisar temas durante a alunagem. Era uma transmissão ao vivo e estava um painel de cientistas de um lado do estúdio e nós do outro. Eu tinha 23 anos. Foi fantástico pensar que estávamos a fazer uma música, enquanto os astronautas estavam a pisar a Lua. Não me parece possível que isso acontecesse na BBC hoje em dia.” .
A bandeira utilizada pelos EUA para reclamar a Lua custou 5,5 dólares. A esta quantia é de somar a referente aos tubos de metal usados para erguer a bandeira de nylon, que aparenta estar ao vento (que não existe na Lua). Os engenheiros da NASA encomendaram uma bandeira por um catálogo do Governo, três meses antes do início da missão, juntamente com os preditos tubos. Mas há quem diga que foi efetivamente comprada por uma secretária da NASA num armazém da Sears, em Houston, como há quem diga que fora costurada pela portuguesa Maria Isilda, numa fábrica americana. Porém, não há só uma, mas 6 bandeiras norte-americanas na Lua, que terão perdido a cor, graças aos raios UV, sendo provável que sejam hoje apenas panos brancos. No entanto, estão de pé, com exceção da bandeira da Apollo 11 – a que pode ter sido comprada numa loja – que já terá caído, segundo o que pôde ser visto por imagens recentes dum satélite.
Esteve prestes a acontecer que a primeira bandeira a fixar na Lua fosse a das Nações Unidas. Os dirigentes da NASA discutiram a questão e chegaram a interrogar-se se a bandeira dos EUA seria a mais adequada por temerem que tal símbolo representasse a reclamação da posse da Lua para os Estados Unidos, o que acabou por acontecer. Mas o feito foi de americanos.
Assim que chegaram à Terra após a amaragem, Buzz, Neil e Michael foram obrigados a completar um período de isolamento. Afinal, acabavam de completar uma viagem ao Espaço e ninguém sabia o que ia acontecer. O objetivo foi proteger a Terra de possíveis “germes lunares”. Os três ficaram instalados numa “unidade de quarentena móvel”. Primeiro, estiveram a bordo do navio USS Hornet e, depois, passaram para a base Pearl Harbor, no Hawai. Nixon chegou a visitar os “isolados” e a foto do Presidente dos EUA a observar os três colados à janela tornou-se icónica. Collins diria mais tarde que esta medida foi “uma farsa”, já que, se estivessem contagiados, os micróbios ter-se-iam fixado na Terra assim que abriram a cápsula à chegada.
JoAnn Morgan foi uma das primeiras engenheiras de sempre a trabalhar na NASA. E fez história tal como os três homens referidos. Tinha 28 anos em 1969 e era a única mulher na sala de comandos da missão. Tinha a seu cargo 21 canais de comunicação, bem como a função de garantir a segurança e bom funcionamento de todos os sistemas de monitorização do Saturn 5, o foguete que levou a Apollo para o Espaço. Disse recentemente à BBC a este respeito:
Foi uma experiência fantástica. Os homens conheciam-me e confiavam em mim. E o facto de ter estado presente no lançamento fez-me sentir bastante integrada e isso fez, literalmente, a minha carreira na NASA..
A engenheira, que tem o sonho de um dia ir ao Espaço e que, se por lá ficar, não há problema, revelou que foi vítima de alguns episódios de sexismo, desde comentários nos elevadores a chamadas obscenas, mas afirma que sempre se sentiu bem-vinda na agência e parte da equipa.
Os doze astronautas que já foram à Lua estão de acordo: há ali um odor estranho. Buzz Aldrin foi o primeiro a testemunhá-lo. Mas, devido aos fatos e aos capacetes, só foi detetado quando regressou à nave e removeu a roupa. É que o cheiro é tão forte que se impregna nos tecidos, como material pegajoso. É cheiro a cinzas e a pólvora. E Aldrin explicou:
Cheira a carvão queimado, a cinzas numa chaminé… principalmente quando se lhes deita água em cima”.
E Charlie Duke, piloto da Apollo XVI, disse:
A Lua tem um odor realmente forte. O cheiro é igual a pólvora.”.
As amostras do solo trazidas para a Terra perderam o cheiro e não puderam ser testadas. O engenheiro da Estação Espacial Internacional, Donald Petit, explica o facto com a exposição à humidade e com o processo de oxidação que extrai odores do terreno lunar.
Uma boa alimentação era essencial em tantas horas de viagem. E a comida que os astronautas levaram na nave foi variada, mas muito pouco… espacial. A ementa incluiu bacon, bifes, bolachas, pêssegos, sumo de ananás e café. Mas antes de tudo isso, houve uma “refeição” mais especial. Aldrin é extremamente religioso e quis celebrar a ocasião de forma simbólica e de acordo com a sua crença. Para tal, comungou em plena Lua e tomou uma hóstia como representação do corpo de Cristo. Esta é vista como a primeira refeição da História na Lua.
A nível dos vestígios da Terra deixados na Lua, é de referir que não foi apenas a bandeira americana nem as pegadas que Armstrong e Aldrin deixaram na Lua. Ficaram lá, na verdade, mais de 100 objetos. Alguns foram deixados para poupar peso na viagem de regresso; outros foram levados de propósito com a intenção de ficarem para sempre no nosso satélite natural. No segundo caso, incluem-se medalhas comemorativas e que homenageiam astronautas que morreram na época e uma placa com mensagens de paz assinada por 96 países. Mas esta placa quase que vinha de volta para a Terra. Neil e Buzz estavam já a subir o escadote para voltarem para a nave quando se aperceberam do esquecimento. E lançaram do escadote a placa. Mas a história dos vestígios não se reveste só de ouro e glória. Os astronautas também deixaram na Lua sacos de fezes, 2 coletores de urina, 1 saco de vómito, embalagens de refeições e ainda partes do rover. E, como “lembrança”, trouxeram 380 quilos de pedaços da Lua.
Quanto ao bigode de Collins, foram vistas as imagens do astronauta a fazer a barba no Espaço. No momento da partida, não tinha barba; mas, no regresso, tinha bigode. Para conspiracionistas é a prova de que o Homem nunca foi à Lua, tendo tudo ficado reduzido a uma encenação, pois, interrogam-se se Collins fazia a barba, como é que houve tempo para o bigode crescer.
São históricas as fotografias do Homem em solo lunar e, para muitos, uma das provas de que lá estiveram os astronautas.  Mas desde a bandeira que não devia ter movimento à ausência de estrelas no horizonte, são muitas as teorias e questões levantadas ao longo dos anos com base na análise das fotos. E há uma que a NASA admitiu ter sido editada. Trata-se da AS11-40-5903. A fotografia foi feita por Armstrong e mostra Aldrin na Lua. A foto tornou-se simbólica, pois no visor do capacete de Aldrin é possível ver o reflexo de Armstrong, da nave espacial e da Terra. A NASA alterou o enquadramento, colocando Aldrin mais ao centro da imagem, tornou o céu mais escuro e omitiu a antena do fato de Buzz Aldrin e um suporte do módulo lunar da parte inferior. Mas afirma que essa foi a única imagem a sofrer alterações e que o fez para tornar a foto mais “bonita” para a comunicação social.
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Entretanto, no cinquentenário da missão da Apollo 11, replicada por outras expedições posteriores, quando os EUA e outros países têm vastos programas de comemorações científicas e de efeméride, dizem querer retomar os programas de navegação interplanetária e a chegada a outros planetas, entre os quais se conta o badalado Marte, sabe-se que o chileno Jenaro Gajardo Vera comprara a Lua por 42 pesos, pelo que Nixon houve por bem pedir-lhe permissão para a alunagem. O advogado do chileno consentiu, devido à cortesia do Presidente dos EUA.
Com efeito, em 1954, Gajardo Vera foi ao notário e registou a Lua em seu nome. Achou que estava a fazer “um ato poético” que lhe daria direito a “uma possível intervenção” na seleção dos futuros selenitas, pois queria criar um mundo mais pacífico. E, antes de morrer, deixou em testamento a Lua ao seu povo. Hoje a Lua, com a sua permissão, pertence a uma centena de países que assinaram um acordo pelo qual nenhum, individualmente, tomaria posse do satélite.
O lado negro da vida dos astronautas pós-Apollo 11 é marcado por alcoolismo, depressão, três casamentos falhados e lutas legais com os filhos. Aldrin divorciou-se de Joan Archer, em 1974. O 2.º casamento durou três anos e o 3.º durou de 1988 até 2012. Processou dois dos três filhos e uma empresária, que terão tentado controlar os bens da sua empresa e fundação de caridade.
Para Armstrong (falecido a 25 de agosto de 2012), o silêncio é a reposta. “É um homem muito solitário”, disse Janet, a esposa, de quem se divorciou em 1994, “apagando uma luz que nem a Lua conseguiria iluminar”.
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Há 50 anos, São Paulo VI abençoou o “grande empreendimento espacial”. “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade! Honra a vós homens, artífices do grande empreendimento espacial”. Foi esta a mensagem que o Papa enviou aos astronautas norte-americanos, depois de assistir ao evento pela televisão.
Segundo o Vatican News, a 20 de julho de 1969, Paulo VI assistiu à chegada dos astronautas à Lua no Observatório do Vaticano, onde ouviu os profissionais da NASA a anunciar ao mundo inteiro “The Eagle has landed” (“A águia aterrou”). E, horas antes de a expedição ter alunado, convidava “a meditar sobre esse extraordinário e admirável evento”, a “meditar sobre o cosmos” e sobre um novo mundo, “misterioso, no imenso quadro dos inúmeros séculos e dos espaços sem limites”. Nesse domingo, desafiando os peregrinos e turistas presentes na Praça de São Pedro, para recitação do Angelus, a pensar no “engenho prodigioso” do homem e na sua “coragem temerária”, afirmou:
Faremos bem meditar sobre o homem, sobre seu engenho prodigioso, sobre sua coragem temerária, sobre seu progresso fantástico. Dominado pelo cosmos como um ponto impercetível, o homem domina-o com o pensamento. E quem é o homem? Quem somos nós, capazes de tanto? Faremos bem meditar sobre o progresso.”.
Paulo VI questionou se a eficiência e o progresso científico se transformam em “vantagem” para a pessoa humana, tendo por fundamento a liberdade do “coração do homem”. E advertia:
É preciso absolutamente que o coração do homem se torne mais livre, melhor, mais religioso, quanto maior e perigosa é a potência das máquinas, das armas, dos instrumentos que o homem coloca à sua própria disposição”.
E, face ao festejo que os homens faziam do triunfo da investigação sobre o cosmos, referia um “dia histórico para a humanidade” e que o verdadeiro progresso é a fraternidade e a paz.
Uma semana antes de se concretizar a Missão Apolo 11, o Papa afirmava que “o homem é mais misterioso do que a Lua”. Assim, a 13 de julho, também aquando da recitação do Angelus, na Praça de São Pedro, Paulo VI referiu-se ao pensamento que estava na mente de todos, nessa semana: a expedição dos astronautas americanos. Para o Papa, estava em causa um “pensamento que vai além da descrição desse facto singularíssimo e maravilhoso”. A este respeito, afirmou:
O homem, esta criatura de Deus, ainda mais do que misteriosa que a Lua, no centro deste empreendimento, revela-se! Mostra-se gigante. Mostra-se divino, não em si mesmo, mas no seu princípio e no seu destino. Honra ao homem, honra à sua dignidade, ao seu espírito, à sua vida.”.
Naquele domingo de 20 de julho de 1969, no Angelus, horas antes daquele primeiro passo no solo lunar, o Papa falou da missão espacial, como já havia feito no domingo precedente (13 de julho) convidando “a meditar sobre esse extraordinário e admirável evento, a meditar sobre o cosmos, que se nos abre diante de seu rosto mudo, misterioso, no imenso quadro dos inúmeros séculos e dos espaços sem limites”. Mas, na empolgação e entusiasmo daquele dia, “verdadeiro triunfo dos meios produzidos pelo homem, para o domínio do cosmos”, exortava a não esquecer os dramas que a atormentavam a humanidade e, que passado meio século, são de grandíssima atualidade. E, apelando à consciência crítica da humanidade, apontava as três guerras de então, no Vietname, na África e no Oriente Médio, acrescentando uma quarta com milhares de vítimas entre El Salvador e Honduras, sem deixar de evidenciar a fome de populações inteiras.
Passado meio século, a humanidade vive hoje o que o Papa Francisco chama de uma espécie terceira guerra mundial em fragmentos: são conflitos ao redor do mundo que começam a equivaler a uma terceira guerra mundial, que ocorre aos poucos por meio de crimes, massacres e destruição. Nestes 50 anos, a ciência deu passos gigantescos, em praticamente todos os campos do conhecimento, mas o flagelo da fome continua a humilhar a humanidade, pois enquanto houver – mesmo que seja um só ser humano, mas os famintos são muitíssimos – alguém a padecer de fome, necessidade e miséria, toda a humanidade estará humilhada na sua dignidade. Enquanto milhões de seres humanos estiverem à margem do progresso, excluídos dos benefícios do desenvolvimento, e persistirem as desigualdades e a injustiças sociais, a paz permanecerá uma quimera, um bem inalcançável. E a paz (dizia o Papa Montini) é o verdadeiro progresso da humanidade ou, como refere a encíclica Populorum Progressio, de 1967, é o fruto do desenvolvimento integral de todas as pessoas.
2019.07.20 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Não há umas vidas mais valiosas do que outras


Sabem-no aqueles e aquelas que apostam em preservar a vida e promover o reconhecimento do seu valor. Sabem-no todos os profissionais de saúde – médicos, paramédicos, enfermeiros, maqueiros, socorristas, farmacêuticos – os bombeiros, os nadadores-salvadores, os homens-rãs, os psicólogos, os gerontologistas, os cientistas que tentam encontrar e validar todos os apoios à vida e à vida de qualidade. Sabem-no, sentem-no e vivem-no sobretudo os que que fizeram o juramento de Hipócrates, os paladinos da Cruz Vermelha ou os do Crescente Vermelho, os sacerdotes, religiosos e missionários e todos aqueles e aquelas para quem a vida humana é o valor supremo pelo qual tudo vale a pena arriscar. Sabem-nos os verdadeiros pais, educadores e professores. E o Senhor da Vida deu a vida para que todos tenham a vida e a tenham em abundância (cf Jo 10,10).
A cada passo se ouvem ou leem notícias de atentados à vida humana ou à sua dignidade e respeitabilidade. É o tráfico de pessoas, a perseguição por motivos políticos, religiosos e étnicos; é a violação e violência sexual; é o assalto, o sequestro, o rapto; é o engano, o dolo, a trapacice; é o mexerico, a insídia, a cilada; é a mutilação, o assassinato, o genocídio; é a repressão, a exploração, o burnout laboral; é escravização, a servilização, a exploração, carnalização e comercialização do corpo humano; é a escravização, a violência doméstica, a violência conjugal, a violência no namoro; é a migração forçada, a guerra, a fome, a dependência da droga; é o tráfico de estupefacientes e de órgãos humanos; é o assédio sexual, o assédio moral, o assédio laboral, a chantagem; é o fanatismo religioso, político e desportivo. Tudo isto faz parecer que a perversidade humana e a falta  de respeito não têm fim.
É pouco dizer que é repugnante. É mais que repugnante ver, ouvir e ler sobre as condições a que seres humanos são forçados por pessoas que não entendem o valor da vida. Essas más pessoas não têm ideia de que cada um de nós tem o mesmo valor perante os olhos de Deus. Na verdade, Deus não tem um sistema de classes. Para Ele, os pobres que dormem em cima  de  papelões são iguais aos que dormem em realezas nos melhores colchões. Entretanto, há seres humanos com necessidade extrema, gente que dorme no chão, na selva, gente que dorme em celas minúsculas e sujas ou em esteiras exíguas e ásperas, pessoas enterradas em tumbas sem nome, mortas em cativeiros. Todas elas  deixaram de ter poder sobre a sua própria vida.  Encontram-se à mercê de quem lhes provoca mal-estar e até doenças, de quem exerce sobre elas poder iníquo tipo de poder prescrito sobre eles.  E, muitas vezes, as pessoas de quem  deviam receber ajuda são corruptas ou, pelo menos, servem-se da posição que têm para se governarem. A polícia e a justiça nem sempre funcionam com equidade, eficácia e brevidade.
O mundo não tem um recheio determinista. Há biliões de pessoas e Deus tem um amor pessoal por cada uma. Quer que prosperemos (Jr 29,11). Cada um de nós tem os fios dos seus cabelos contados (Mt 10,30). E os de uns não são mais bem monitorados que os da cabeça de outros.
Quem nasceu num mundo onde se sente seguro e amado, não pode deixar de se sentir responsável pelo sofrimento que os demais devem suportar, mas deve desinstalar-se e tentar fazer tudo o que pode para erradicar ou, ao mesmo, minorar esse sofrimento alheio. Alinhar na preocupação de Deus, que é amor (1Jo 4,8) e justo (Gn 18,25). Não podemos duvidar disso sob pena de estarmos a duvidar da nossa própria existência. Ora, quando vemos os muitos e imensos dramas humanos que se disseminam e engrossam pelo mundo, não podemos atribui-los a Deus, mas a fatores humanos pecaminosos e a estruturas políticas, sociais e económicas de pecado. Têm origem em pessoas impelidas pelo poder, prestígio e dinheiro, que tratam os outros como animais, levadas pelo egoísmo e pelo desamor. Deus não controla ninguém; cada ação nossa decorre da nossa própria vontade. As pessoas de rédeas soltas dão expressão às suas paixões e desejos, deixando-se guiar por Satanás para infligirem pesados sofrimentos aos inocentes.
Deus está mais consternado do que nós sobre o que acontece no mundo, e não vai deixar que essas condições continuem para sempre. Deu-nos a sua palavra em seu Filho Jesus para nos mostrar o modo de vivermos sem pecado, na justiça do Reino, na misericórdia, no amor. Através de Jesus e da Igreja, o pecado será completamente derrotado e o julgamento final mostrará como Satanás é o insidioso espírito do mal e pai da mentira. Será definitivamente cumprida a vontade de Deus. Deus destruirá o velho mundo e criará “um mundo outro”, completamente novo e livre de pecado. Ninguém pensará oprimir outrem e ninguém se lembrará da miséria e  do sofrimento.
Como podemos considerar uma pessoa menos valiosa do que nós, uma vida humana menos valiosa que a nossa?
***
Miguel Duarte, voluntário português que participou, em 2016, em 4 missões de resgate de pessoas no mar Mediterrâneo (cerca de 3 semanas cada, num ano), a bordo do navio ‘Iuventa’ falou a Lígia Silveira, da agência Ecclesia, dos 84 dias que lhe mudaram a vida e que o levam a enfrentar 20 anos de prisão supostamente por auxílio à imigração ilegal, segundo a nova lei italiana. Não obstante, afirma-se um privilegiado porque, ao invés das 14 mil pessoas que ele e a tripulação conseguiram salvar, não esquece as pessoas anónimas às quais, diz, chegaram tarde.
Quanto a imagens sobre os refugiados, referiu que, em 2015 e 2016, quem na Europa lesse as notícias ficava completamente a par da situação e do sofrimento das pessoas nas fronteiras da Europa, tanto no Mediterrâneo como nos campos de refugiados. E, em termos pessoais, vincou:
O que senti na altura foi provavelmente indignação por viver num continente, numa União Europeia (UE) que pregava certos valores de direitos humanos e que nada parecia estar a fazer que efetivamente resultasse na preservação dos direitos destas pessoas. Víamos sofrimento que parecia não acabar e milhares e milhares de pessoas que tinham de seguir viagem para chegar à Europa”.
No atinente à autoperceção da responsabilidade pessoal, confessou:
Um jovem europeu, de certa forma privilegiado, sem grandes responsabilidades, sem filhos para cuidar, por aí adiante, tinha alguma responsabilidade de fazer alguma coisa, contribuir com o pouco que pudesse. E, portanto, foi nesse sentido. Foi com isso em mente que comecei à procura de projetos onde pudesse ser útil.”.
Já tinha participado em projetos sociais em Portugal, mas nada propriamente humanitário: integrou associação “Gambozinhos”, foi animador nos campos de férias, trabalho em que participou no trabalho ao longo do ano. Porém, a missão em setembro de 2016 mudou-lhe a vida. E ele explica:
Não há nada propriamente que nos prepare para o que vamos ver ali, para a emoção, para o sofrimento humano e para as situações que encontramos de facto quando nos vemos frente a frente com essas pessoas. Uma coisa é ver os vídeos e ler as notícias, outra é estar ali e ser propriamente a ponte que liga estas pessoas à vida. Para muita gente, infelizmente ou felizmente, depende do ponto de vista, nós fomos a única barreira entre eles e a morte, isso é uma responsabilidade enorme e penso que me mudou a vida pelo sentimento de utilidade que tive. Acho que foram as duas semanas, até aquele momento, mais úteis da minha vida. E, muito embora tenhamos perdido pessoas (houve pessoas para quem chegamos tarde), conseguimos de qualquer forma salvar muita gente e isso não tem preço.”.
E mais do que as pessoas que salvou, ficam-lhe na retina da memória as que perdeu, sem dúvida, pois fala alto o sentimento da responsabilidade no sentido de que “ficamos sempre a pensar que podíamos ter sido mais rápidos”, que, “podíamos ter feito mais”. E, mais do que a emoção, Miguel Duarte insiste na responsabilidade que reparte por várias entidades: Estados europeus, Governos nacionais e sociedade civil:
É uma responsabilidade moral dos europeus fazer alguma coisa em relação a isto. Primeiramente é uma responsabilidade dos Estados Europeus, tem de haver resgate marítimo. Resgate marítimo é uma responsabilidade legal dos Estados Europeus, e, portanto, a responsabilidade moral é primeiramente dos governos porque têm os meios para fazer isso. [E], perante a inação governamental, a responsabilidade recai sobre a sociedade civil, que tem de fazer alguma coisa e tem de se indignar pelo facto de os Estados não estarem a fazer anda.”.
E este cidadão do mundo, que não estabelece ordens de prioridades entre nacionais de vários países e continentes – porque “não há vidas mais valiosas do que outras”, sendo “isso que temos de ter em mente quando falamos de migrações” – sentiu que não podia, com a sua idade, experiência e oportunidades, calar o que sabe e que “o pouco que pudesse dar tinha de contribuir para que esta injustiça toda diminuísse ligeiramente”
Sobre a organização alemã que o acolheu para participar nas ações de resgate, revelou:
Há muitas coisas que nos ligam, mas a coisa mais abrangente e que liga toda a gente que ali está é um respeito enorme pela vida. Estamos ali porque damos um valor sem preço à vida humana, queremos salvar vida. Acaba por ser o primeiro e mais fundamental objetivo das pessoas que fazem o resgate marítimo ou qualquer tipo de trabalho humanitário. O objetivo é salvar pessoas. Depois, muitas outras coisas nos ligam, acabamos por viver situações muito tristes e situações muito felizes juntas, são situações de emoções muito fortes, são situações muito intensas, e inevitavelmente isso liga-nos.”.
Questionado se o número de 423 pessoas salvas em duas semanas significa uma esperança que se lhe renova interiormente, disse com simplicidade e realismo:
Nós resgatamos muitas pessoas ao longo desse ano, a tripulação do ‘Iuventa’ participou no resgate de 14 mil pessoas ao longo de um ano. Vejo esse número com mais indignação do que esperança, na verdade. Se uma equipa de 15 voluntários de cada vez consegue resgatar 14 mil pessoas ao longo de um ano alguma coisa está fundamentalmente errada no que está a ser feito para que estas pessoas não percam a vida.”.
Embora considere coisa muito boa o número de pessoas resgatadas, acha-o “sintomático de um problema fundamental que não está a ser abordado como devia”. E, ante uma geração a crescer com a crise dos refugiados, frisa o dever de encarar esta crise humanitária por parte de cada um de nós e de lutar para que ela seja debelada e não venha a repetir-se, desenvolvendo:
Esta crise humanitária é a crise da nossa geração. Se os nossos avós nos anos 70 tiveram de lutar pela liberdade, nós temos de lutar por isto. Sinto que é a grande crise, é isto que vai aparecer nos livros de História, estão neste momento a acontecer grandes acontecimentos que dependem da nossa inação ou da nossa ação. (…) Vamos ter de explicar aos nossos netos como é que deixamos morrer dezenas de milhares de pessoas ao longo de 5, 6 ou 7 anos e eu sei de que lado é que quero estar. E acho que é uma responsabilidade que cada um de nós tem de aceitar e cada um de nós tem de encontrar a melhor forma de contribuir pessoalmente para que isto não se volte a passar, que esta catástrofe tenha um fim.”.
No atinente à sua situação de porta-voz de tudo isto, esclarece-a pela urgência ditada injustiça da criminalização da ajuda humanitária e a atitude hostil por parte de vários governos da UE:
Nós queríamos fazer resgate marítimo, não queríamos fazer comunicação. O que sabemos fazer é tirar pessoas de dentro e água, é muito simples e foi isso que fizemos. As circunstâncias, esta injustiça da criminalização da ajuda humanitária e a atitude hostil por parte de vários governos da União Europeia, em relação à solidariedade demonstrada pela sociedade civil, é que nos [puseram] nesta situação em que somos obrigados a ser o porta-voz e temos que aprender a fazer este tipo de trabalho que é completamente diferente daquilo que fazíamos antigamente.”.
Preferiam continuar a fazer o que faziam em 2016 ou 2017, porque isso é preciso e importante: “é preciso tirar as pessoas de uma situação de perigo porque elas continuam a vir”. Mas, como estão impossibilitados de o fazer porque não têm navio, sente a responsabilidade pessoal de passar a palavra, de “ser um bocadinho mais uma voz a falar por estas pessoas”. E, sobre o caso legal da criminalização expressa na nova lei italiana, esclarece:
Quando nós falamos sobre este caso legal e esta injustiça, não estamos só a tentar garantir a nossa liberdade pessoal, mas a falar pelos verdadeiros desprivilegiados nesta situação. Estamos a falar de milhares que pessoas que morrem afogados no Mediterrâneo sem voz e que depois vão parar a listas anónimas de estatísticas de mortes no mediterrâneo.”.
Aquele mar traz-lhe muitas recordações e fá-lo sentir que ali viveu “o melhor e o pior da vida”:
[Es]tive muito em contacto com o desespero das pessoas, mas também com a esperança e entreajuda e vi atos de heroísmo que não pensei que fossem possíveis. Vi pessoas a pôr em risco a sua própria vida para salvar outras e isso já ninguém me tira.” – diz .
Relativamente ao que dizia às pessoas quando as puxava para o navio, narra:
O que tentávamos fazer era acalmá-las. Em geral as pessoas vêm numa situação de pânico, só querem segurança para si e para os seus filhos. E o que é preciso dizer nesse momento é: ‘está tudo bem, somos uma equipa de resgate e o nosso objetivo é tirar-vos desta situação e pôr-vos em segurança’. É esse o nosso papel, é ser a primeira plataforma onde as pessoas podem descansar numa situação de meses e meses, ou anos a fio, em tenção constante.”.
Em relação às críticas contra o local aonde faziam aportar as pessoas, responde com clareza:
Quando se resgatam pessoas em águas internacionais, para já somos obrigados por lei a resgatá-las e por lei a levá-las a um porto seguro. A Líbia, não é preciso argumentar, não é um porto seguro. Podia-se argumentar que se poderiam trazer as pessoas para a Tunísia, que não assinou a convenção de Genebra nos anos 50, em que se definia refugiado e, como se sabe, as pessoas que foram no passado entregues à Tunísia foram depois devolvidas pelas autoridades à Líbia. E isso constitui uma violação da lei internacional e não podemos deixar que isso aconteça. (…) Todo o nosso trabalho era feito em coordenação com as autoridades italianas e, na esmagadora maioria dos casos que atendemos, as pessoas eram passadas para bordo de navios italianos, que os levavam depois a terra italiana. Não éramos nós que fazíamos essa decisão, a decisão era das autoridades italianas que tinham a responsabilidade de coordenar o resgate marítimo.”.
Assim, a ação judicial de que é objeto foi uma surpresa. Com efeito, sabiam da existência de vozes influentes que não gostavam do que eles faziam e representavam, mas nunca pensaram na possibilidade da utilização de meios legais “para criminalizar a ajuda humanitária que é não só protegida por lei como é um direito fundamental das pessoas”.
Não sabendo o que se vai passar a seguir, adverte que “é muito importante que haja este tipo de resposta por parte da sociedade civil” (Portugal e o resto da Europa). E considera:
Em Portugal houve uma resposta muito consensual sobre este problema e isso é muito importante, ter tanta gente a proferir declarações de apoio, tão diretamente em relação a nós e ao nosso trabalho. Mas não pode ficar por aí. Já houve várias instituições governamentais, e não só, que declararam publicamente o apoio à nossa causa, isso é importante, mas é o mínimo que se espera de um estado democrático, que se espera de um pais que respeita da declaração universal dos direitos humanos, mas é preciso fazer mais.”.
E explana, quanto ao absurdo de pretenderem fazer regressar os migrantes à Líbia:
O problema está muito além de nós próprios, o problema das migrações e das mortes no mediterrâneo vai continuar a acontecer. As autoridades líbias, se é que podemos chamar de tal coisa, põem em risco a vida de milhares de pessoas, com a conivência e o apoio explícito da UE e dos estados membros e é contra isso que precisamos lutar. não podemos lutar pelas duas coisas. Dizer que respeitamos os direitos humanos e, por outro lado, apoiar quem viola os direitos humanos, quem acaba por intercetar estes barcos e levá-lo de volta à Líbia em condições horrorosas em que estas pessoas vivem nos campos de detenção.”.
Sobre uma hipotética intervenção da comunidade internacional nos países de origem com vista a uma estabilização para as pessoas não terem de fugir, diz que é “problema que está longe de ser simples”, não havendo “uma medida que resolva o problema”, mas sendo preciso um conjunto de medidas coordenadas. E indica medidas no momento e medidas a montante:
São precisos resgates marítimos, sistemas de acolhimento eficiente, mais humanitários que consigam trazer estas pessoas de forma segura para a Europa sem terem de se pôr em barcos sem condições nenhumas e pouca probabilidade de sobreviver, só para chegar à Europa e pedir asilo. O ideal é que não haja resgate marítimo, não haja necessidade de resgate, o ideal é que as pessoas não tenham de sair dos países; e aqui, se calhar, é mais urgente do que uma intervenção de estabilização de qualquer situação que se passe nos países de origem, eu diria que é preciso moderar alguma intervenção que os países ditos ocidentais têm tido. Os maiores exportadores de armas no mundo são os EUA e vários estados membros europeus.”.
Ora, antes das “ajudas para o desenvolvimento”, é preciso pôr em causa “a venda de armas em situações de conflito”, pois os migrantes “estão a fugir das bombas que são criadas em solo europeu”, pelo que não podemos “fechar-lhes as portas quando estão a fugir de armas produzidas por nós”. A este respeito e no atinente ao que se pode fazer em Portugal Miguel Duarte não deixa de dizer:
O que é preciso fazer neste momento, na minha opinião, é continuar a indignar-se, informar-se criticamente sobre esta situação, sobre as migrações. E não só. E é preciso fazer pressão sobre as entidades que têm poder para fazer alguma coisa em relação a isto. É preciso garantir que os nossos representantes sabem que estamos atentos e que a forma como a UE está a tratar os migrantes e refugiados não é aceitável, e nós não aceitamos isso num estado democrático.”.
Sobre o andamento do processo judicial em que está envolvido, referiu:
Fomos constituídos arguidos há um ano e estamos à espera de uma acusação formal ou que o caso seja arquivado. Qualquer um pode acontecer e neste momento não conseguimos prever.”.
Voltaria ao Mediterrâneo “amanhã se pudesse” e, sobre a sua atual ocupação, conta:
Neste momento, o trabalho que tenho feito é maioritariamente este trabalho de comunicação, de dar voz a este problema, trazer atenção para isto, nunca esquecendo que o foco é num problema muito maior, nunca esquecendo que nós, que enfrentamos uma possibilidade de 20 anos na prisão por ajuda humanitária, ainda conseguimos ser os privilegiados no meio desta situação, porque há pessoas que todos os dias arriscam a vida simplesmente à procura de segurança e é nessas pessoas e situação que temos de focar. E é com isso que temos de nos indignar mais.”.
Considerando que um processo judicial “mexe com vidas mas não com princípios”, clarifica:
O processo legal aumenta a nossa indignação, [mas] não nos faz questionar no que acreditamos. Acreditamos que a vida humana tem um valor incalculável e é isso que tentamos defender e vai ser isso que vamos continuar a defender. Se a nossa luta é a comunicação e não o resgate marítimo, então vamos lutar.”.
Por fim, o voluntário português diz sonhar “com uma Europa mais humana que permita que as pessoas vivam com dignidade, todas as pessoas, não só os europeus”.
***
Esta é uma excelente forma de martírio, segundo o sentido originário das palavras gregas “martyría, as” (testemunho, depoimento duma testemunha), “mártys, ros” (testemunha, mártir) e “mártyros, ou” (testemunha, protetor). Ainda há muitos mártires “no bom sentido”, como disse o Arcebispo Primaz na homilia da missa da festa de São Torcato, no passado dia 7 de julho.
2019.07.09 – Louro de Carvalho

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Parlamento vai homenagear três deputados mortos na I Guerra Mundial


O grupo parlamentar do PS quer homenagear os três deputados que morreram na I Guerra Mundial. Nesse sentido, os Deputados, Diogo Leão, Carlos César, Marcos Perestrello, Pedro Delgado Alves, Ascenso Simões, Wanda Guimarães, Maria Augusta Santos, Catarina Marcelino, Isabel Santos, João Soares, Miguel Coelho e Hugo Carvalho fizeram chegar ao Presidente da Assembleia da República, no passado dia 11, o Projeto de Resolução n.º 1935/XIII/4.ª, que pretende consagrar a memória dos três membros do Congresso da República Portuguesa mortos em consequência de combates na Grande Guerra de 1914-18.
A fundamentação da iniciativa tem a ver com o facto de a Assembleia da República configurar “um local de celebração da memória coletiva do povo português”. Na verdade, em termos artísticos ou vocativos, “celebra e consagra vultos e figuras da nossa História”, como “chefes de Estado” e “homens de Estado, conselheiros, ministros e legisladores, construtores do liberalismo em Portugal”, bem como “os tribunos, oradores e parlamentares de excelência”.
Efetivamente, em muitos dos seus espaços físicos, “a Assembleia da República reúne memórias legadas por diferentes regimes e períodos enquanto testemunho da passagem das eras políticas e sociais”. E prossegue, como “corpo representativo do povo português, a dispensar atenção para o reconhecimento público, debate político e abertura à problematização académica e opinião democrática sobre os fenómenos históricos” por que Portugal passou e com que “se empenhou ao longo da História Contemporânea”.
Nesta perspetiva, emerge como “fenómeno de relevância nacional” a participação de Portugal na Grande Guerra de 1914-1918, “com motivações e consequências” em debate no “campo historiográfico e das ciências sociais”. Ora, como a Assembleia promoveu, no âmbito do centenário da I Grande Guerra, diversificadas evocações (“de formas diversas e plurais”) “num contributo ativo e valioso para o esclarecimento público e para a consagração da memória nacional em torno deste conflito na sua frente europeia da Flandres e nos teatros africanos”, neste momento do epílogo dessas evocações, cabe-lhe “consagrar, em nome e para honra do parlamentarismo português, os nomes de três ilustres parlamentares que sacrificaram a vida no decurso de combates decorrentes da Grande Guerra”.
Assim, evoca-se a memória “do capitão de infantaria João Francisco de Sousa, senador da República eleito em 1915 pelo círculo de Ponta Delgada, morto no combate da Môngua, a 19 de agosto de 1915, no sul de Angola”; a “do major de artilharia José Afonso Palla, ilustre republicano e herói do movimento revolucionário de 5 de outubro de 1910, deputado à Assembleia Nacional Constituinte em 1911 e reeleito deputado em 1915 por Lisboa, falecido a 8 de setembro de 1915, em consequência de fatais ferimentos recebidos” no aludido combate da Môngua; e a “do primeiro-tenente da Marinha José Botelho de Carvalho Araújo, deputado à Assembleia Nacional Constituinte e reeleito deputado ao Congresso da República em 1915, que como comandante do caça-minas NRP Augusto de Castilho, sacrificou a vida no combate com um submarino alemão para proteger o vapor São Miguel, em 14 de outubro de 1918”.
Tem, pois, a Assembleia da República “a oportunidade de prestar mais um relevante serviço à História do parlamentarismo português, reconhecendo perpetuamente o sacrifício da vida dos três ilustres parlamentares no conflito mundial de 1914-1918”, em concreto, através do descerramento, no Palácio de São Bento, de uma placa evocativa, “ou outro monumento comemorativo que perpetue os seus nomes e memória” na História do nosso parlamentarismo.
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A este respeito, Miguel Marujo publicou no DN, a 4 de janeiro, faz uma resenha histórica do episódio que envolveu Carvalho Araújo, de que se retomam alguns dados.
O vapor caça-minas São Miguel (que, antes de ser requisitado pela Marinha em junho de 1916, era um arrastão de pesca, o Elite, da empresa de Lisboa Parceria Geral de Pescarias, Lda., propriedade da Bensaúde & Cia) já navegava, a 14 de outubro de 1918, com mais de 200 pessoas a bordo (206 passageiros e 54 tripulantes), entre Funchal e Ponta Delgada. Sendo os submarinos alemães, os U-Boot, ameaça permanente aos barcos que cruzavam o Atlântico, o caça-minas NRP Augusto de Castilho zarpou do porto da Madeira para fazer escolta àquele paquete. Saiu-lhe ao caminho o U-139 comandado por Lothar von Arnauld de la Perière, ás dos ases dos submarinos. Apesar do “poder de fogo muitíssimo inferior ao do inimigo”, Carvalho Araújo, comandante do NRP Augusto de Castilho, decidiu interpor-se entre o São Miguel e o submarino alemão, para o paquete ganhar tempo e “se afastar ileso”.
E, acabadas as caixas de fumo lançadas para procurar cobrir o vapor, o comandante fê-lo avançar em direção ao submarino, sendo que do fogo da artilharia alemã de, pelo menos, duas horas de duração resultou a morte de seis homens. E um último tiro disparado do U-Boot acabou por matar também Carvalho Araújo.
Paquete imobilizado, ausência de máquinas de telégrafo para comunicar, artilharia danificada e munições no fim azaram a ordem do imediato, o guarda-marinha Armando Ferraz, para abandono da embarcação. 
O NRP Augusto de Castilho terá sido saqueado pelos alemães, que o afundaram depois com cargas de demolição. No navio estavam os portugueses mortos, entre os quais Carvalho Araújo.
Foi um relatório do comandante alemão, publicado em 1920, com elogios ao primeiro-tenente da Marinha portuguesa, que levou o Parlamento a reconhecer o sacrifício de Carvalho Araújo e a conceder uma pensão à viúva. E é o mesmo Parlamento que reconheceu, em 14 de outubro passado, nos 100 anos da morte do comandante, o seu ato “heroico” que agora lhe quer dar honras parlamentares no edifício da Assembleia da República. Afinal, Carvalho Araújo, nascido em São Nicolau, no Porto, e com infância passada em Vila Real, foi deputado constituinte e deputado eleito em 1915 ao Congresso da República, bem como Governador do Distrito de Inhambane, em Moçambique, por dezoito meses.
O DN de 14 de janeiro passado refere que o DN de 17 de outubro de 1918 traz uma única foto ao centro da densa mancha de texto noticioso a mostrar o “comandante do caça-minas Augusto de Castilho”. A notícia, a terminar abruptamente com um espaço em branco, denuncia uma parte de texto censurada (era a presidência sidonista) e refere que do ataque dos submarinos inimigos ao São Miguel, pouco mais se sabe do que o até então noticiado.
A informação, ainda imprecisa, falava do ataque de duas embarcações inimigas ao vapor São Miguel, quando era só uma afinal. Porém, segundo, Miguel Marujo, sublinha a interposição do caça-minas Augusto de Castilho, comandado por Botelho de Carvalho Araújo, “antigo deputado democrático, oficial que regressara havia pouco da África Oriental, onde exercera o cargo de governador do distrito de Inhambane [Moçambique], dando-lhe combate”. Depois, acrescenta que, tendo-se sabido do “ocorrido no porto próximo, partiram para o ponto onde se travara o combate” (a 35°35'N, 22°10'W) navios de guerra aliados, em perseguição dos submarinos.
No voto de saudação a Carvalho Araújo, a 14 de outubro de 2018, assinado por deputados do PS, a que se associou um socialdemocrata, defende-se:
O seu ato é heroico e de algum modo vitorioso, porque alcançou o seu objetivo que, de certa forma, reparava Portugal do trauma de La Lys, acontecido uns meses antes.
Para os atuais deputados, esta homenagem consensual é o corolário das evocações promovidas, “ao longo destes 100 anos, por diversas vezes e com pretextos vários, a Carvalho Araújo”, incluindo o facto de 45 localidades, de 34 municípios portugueses, terem consagrado o nome do marinheiro nas respetivas toponímias”.
Nesta nova iniciativa parlamentar, o grupo parlamentar do PS pretende homenagear este marinheiro e outros dois militares do exército – um capitão de infantaria e um major de artilharia que morreram ao serviço de Portugal na I Guerra Mundial. João Francisco de Sousa e José Afonso Palla perderam a vida na sequência de combates em Môngua, no sul de Angola: o primeiro em batalha, o segundo semanas mais tarde, por via dos ferimentos sofridos.
Como consta do site Portugal 14-18 (iniciativa do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dedicada à “memória da participação portuguesa no conflito de 1914-1918”), nos dias 18, 19 e 20 de agosto de 1915, “as forças expedicionárias comandadas pelo general Pereira d’Eça dispersaram um ataque contra os depósitos de água de Môngua, que haviam sido ocupadas no dia 17 de agosto”.
E, no DN de 21 de agosto desse mesmo ano de 1915, escreve-se ao fundo da 1.ª página sob o título “As operações militares em África”, que o Ministro das colónias lera, na véspera, na Câmara dos Deputados, um telegrama do governador-geral de Angola a referir o ataque com muita violência “pela gente do Cuanhama, na Môngua, a 45 quilómetros de N’Xiva e a 60 quilómetros do Huambo, pelas 9.30 horas de 18, durando o fogo duas horas e meia, sendo o inimigo repelido e perseguido pela cavalaria”.
Ao contrário da notícia do ataque do submarino alemão, as baixas foram contabilizadas no DN três anos antes daquela:
Tivemos 30 feridos dos quais 6 oficiais, 6 praças europeias mortas e outras tantas indígenas mortas [sic]. A muita violência do fogo originou um grande consumo de munições que devido à falta de água e à dificuldade de abastecimento a coloca em situação grave, exigindo demora na Môngua para prosseguir.”.
E o governador apela: “Urgentíssimo venha tudo quanto tenho pedido para automóveis sob pena de a situação ser desesperada”.
Entre os oficiais mortos estava, como reza o predito projeto de resolução, o capitão de infantaria e senador eleito da República em 1915 pelo círculo de Ponta Delgada, João Francisco de Sousa, que morreu em combate a 19 de agosto de 1915, naquela que o historiador Filipe Ribeiro de Menezes descreve como “uma das maiores batalhas campais entre tropas africanas e europeias” e que o historiador francês René Pélissier descreve como “a única vitória franca e decisiva do Exército Português metropolitano em África”. E José Afonso Palla, outro dos oficiais que sucumbiram, era um “ilustre republicano e herói do movimento revolucionário de 5 de outubro de 1910”, como explica o PS na sua nota evocativa, deputado à Assembleia Constituinte em 1911 e reeleito deputado em 1915 por Lisboa, e morreu a 8 de setembro de 1915, em consequência de combate, gravemente ferido na batalha de Môngua.
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2019.01.15 – Louro de Carvalho