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quarta-feira, 24 de julho de 2019

Novas tecnologias ao serviço do conhecimento


Segundo conta o “educare.pt”, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) pôs a sua atenção no Colégio Monte Flor, em Carnaxide, escola privada do 1.º Ciclo do Ensino Básico, fundada em 1973, que se tornou estudo de caso e exemplo internacional. Com efeito, os alunos estão no centro de tudo e dispõem dos recursos digitais como uma ferramenta importante para conhecer e entender o mundo, para aumentar o conhecimento.
Neste sentido, aquele colégio português, constituído em referência internacional na utilização dos recursos tecnológicos na aprendizagem das crianças, defende e propõe uma aprendizagem individualizada, pois sabe que cada aluno tem talentos que devem ser valorizados, e integra as novas tecnologias nas aprendizagens diárias.  
A este respeito, o seu diretor pedagógico, Rui Lima, refere que o grande desafio não é ter alunos excecionais na utilização das tecnologias, mas alunos criativos e colaborativos, com espírito crítico, capazes de resolverem problemas reais. E faz um balanço altamente positivo ao dizer:
O processo de incorporação das novas tecnologias na aprendizagem já está amplamente disseminado em toda a comunidade educativa e apresenta uma maturidade que permite a inclusão das mesmas na generalidade das atividades desenvolvidas. Alunos, professores e encarregados veem a sua utilização como algo extremamente positivo e estas são encaradas por todos como uma ferramenta essencial à implementação de projetos e na aquisição de conhecimento e competências para o futuro”. 
O Colégio tem um historial de implementação de dinâmicas que envolvem o recurso às novas tecnologias educativas e a abordagens ativas no processo de aprendizagem, no quadro duma cultura escolar concretizada na forma de pensar, de estar e de agir dos diversos intervenientes no processo educativo, com a mira na adequada resposta da abordagem pedagógica à diversidade de talentos, capacidades e ritmos de aprendizagem. E o mundo digital não fica à porta, ao invés, faz parte integrante do processo educativo enformando a aprendizagem e, por conseguinte, alguns dos instrumentos de avaliação. Não obstante, o domínio das tecnologias não é um fim educativo, mas um meio para tornar os alunos “mais capazes e preparados para um mundo que pula e avança muito rapidamente”. 
Rui Lima sustenta a inconcebibilidade a ideia de ‘One Size Fits All’, “na medida em que cada ser humano evidencia caraterísticas muito peculiares, tanto no atinente às “suas habilidades” como “na forma de se relacionar com os outros e com o mundo e evidenciando até diferentes estilos de aprendizagem”. Na verdade, uma abordagem única para todos os casos não permitirá alcançar os objetivos pretendidos; não existe apenas um método correto nem uma solução adaptável a todas as situações, uma resposta cabal para todas as questões, necessidades e anseios; as respostas iguais para todos não servem de nada. Ao invés, a ‘Orga Systems’ fornece soluções que transcendem a abordagem do tamanho único e traz agilidade e dinamismo aos processos humanos. Assim, no horário semanal, há uma hora de tarefa para cada aluno por dia, com proposta de atividades individuais geridas pelas crianças que definem em que dia da semana as realizará cada uma delas, na lógica do “aprender a qualquer hora, aprender em qualquer lugar”. E o diretor pedagógico sublinha:
O caminho da Escola tem de ser este, em que o professor não pode querer que todos realizem as mesmas tarefas ao mesmo tempo e que aprendam todos ao mesmo ritmo. A escola tem de disponibilizar ferramentas de aprendizagem que permitam aos alunos a aquisição de conhecimentos ao seu próprio ritmo, mas desafiando-os a desenvolverem projetos onde esses conhecimentos possam ser aplicados.”. 
Considerando que as crianças de hoje – os chamados nativos digitais – estiveram, estão e estarão constantemente rodeadas de tecnologia, sabemos que afastá-las desse mundo é retirá-las do mundo em que vivem e isso não resulta. Não obstante, Rui Lima adverte para uma ideia feita não correspondente à realidade, discorrendo:
Também há uma ideia, quanto a mim errada, de que os alunos dominam todas estas ferramentas digitais. Isso não é verdade, apesar de haver, de facto, uma enorme facilidade por parte das crianças em assimilarem a forma de utilizar os dispositivos. Mas dominar os dispositivos não significa dominar as ferramentas. É necessário os alunos saberem como utilizar os tais dispositivos para a realização de tarefas do dia-a-dia, ou para promoveram a sua aprendizagem e aumentarem a sua produtividade.”. 
De facto, como algumas vezes me foi dado observar, as crianças e adolescentes sabem mexer na ferramentas digitais devido à curiosidade, que leva a mexer, ao proveito que podem tirar do seu usufruto e do entretenimento que possa resultar da sua utilização. Assim, na maior parte dos casos, os apetrechos servem para conversação, jogos, envio de mensagens de conteúdo e forma bem criticáveis, ouvir música. Mas só em casos raros é que os preditos utilizadores, mesmo alunos de informática, resolvem situações complexas a pedido de adultos. E estão à vontade, porque, se estragarem material, o encarregado de educação manda arranjar e paga. É óbvio que há exceções e alguns dominam as ferramentas e até fazem programação.     
Por isso, é pertinente que os alunos saibam que ferramentas usar para resolver determinado problema ou para a criação dum determinado produto. Têm de estar preparados para transitarem rapidamente duma tecnologia para outra mais avançada. E devem ser “capazes de refletir acerca do impacto destas tecnologias e da permanente mudança nas nossas vidas e na sociedade, contribuindo individual ou colaborativamente para um mundo melhor” diz Rui Lima vinca:
No fundo, o desafio não é ter alunos excecionais na utilização da tecnologia, mas sim ter alunos criativos e colaborativos, capazes de revelarem espírito crítico, adaptabilidade, capacidade de resolução de problemas reais e conscientes de que a tecnologia desempenha um papel muito importante nas nossas vidas”.
***
Há efetivamente o risco de considerar as novas tecnologias como um fim em si mesmas e não meios adequados e úteis para atingir os nossos objetivos, designadamente os respeitantes ao conhecimento e, neste âmbito, ao saber ser, ao saber estar, ao saber fazer, à acumulação dos saberes teóricos, práticos e teórico-práticos, à atitude crítica e cooperante, ao desenvolvimento de capacidades, competências e habilidades. Sempre assim sucedeu. Por exemplo, sempre se considerava, na ótica de alguns, mais importante passar a escrever no caderno de uma linha ou no caderno diário do que o teor do que se escrevia; sempre se pensou mais importante saber ler e escrever (fazer ditado, cópia…) do que ter em conta os conteúdos. E sempre se considerou como o melhor e quase único, para uns, o método global da leitura e, para outros, o método analítico.         
Assim, também hoje mal se sabe escrever a lápis e caneta ou desenhar à mão – com mesa, papel, lápis, régua, carro e candeeiro. O computador, com programas de escrita, cor, posições, desenho e audiovisual, serve para tudo e tudo substitui. Até usamos a assinatura digital!  
Ora, as tecnologias são uma poderosa ferramenta na Educação do século XXI. Automação, inteligência artificial, nanotecnologia, são conceitos que fazem parte da linguagem corrente, já não são inacessíveis ou fechados num mundo de ficção científica. Muito se mudou no mundo.
O referido diretor pedagógico defende que é preciso acordar para esta realidade, sustentando:
A Escola não pode permanecer fechada em si mesma, agarrada a um modelo que se baseia única e exclusivamente na transmissão e memorização de conhecimentos. O conhecimento continua a ser extremamente importante, mas devemos desafiar os alunos a utilizarem a tecnologia para investigarem, para resolverem problemas, para criarem produtos finais de um determinado projeto.”.
O Colégio escolheu várias ferramentas de trabalho que incorpora no dia-a-dia da aprendizagem. A utilização do OneNote e da Escola Virtual permitem, por um lado, partilhar com os alunos recursos que se ajustem às suas caraterísticas e capacidades, garantindo também uma maior autonomia no processo de aprendizagem. A utilização, por exemplo, dum bloco de notas digital possibilita a exploração de diferentes recursos, uns mais interativos, outros menos, cabendo ao aluno a decisão de explorar os que se ajustem melhor ao seu estilo de aprendizagem. E a utilização duma plataforma como a Escola Virtual faculta ao aluno um maior nível de autonomia, podendo aprender os vários conteúdos de forma independente, com recursos apelativos, bem como permite ao professor a avaliação e a monitorização das aprendizagens que o aluno está a fazer. 
Parece não se aplicar ao Colégio em referência o aforismo “primeiro estranha-se e depois entranha-se”, como não se aplica em relação à utilização das tecnologias, muito menos na utilização de abordagens pedagógicas mais centradas no aluno.
A este respeito, deve dizer-se que Maria Albertina Vidal, fundadora do Colégio, há 46 anos, tinha já uma visão voltada para a inovação, para a mudança e para a permanente articulação da escola com o mundo. Na verdade, como confessa, o processo de inovação acontece com naturalidade. E Susana Vidal, diretora do Colégio, diz, com regularidade, que são sempre as pessoas que podem diferenciar a escola, não a utilização da tecnologia ou as metodologias inovadoras. Com efeito, o que faz a diferença é a existência generalizada de alunos empenhados, pais participativos, professores e auxiliares dispostos a fazer sempre melhor.
O mundo está em permanente mudança, está cada vez mais tecnológico, está cada vez mais digital. As competências nesse campo são hoje fundamentais e a escola não pode ignorar essa realidade. E Rui Lima conclui:
Tendo a Escola como uma das suas principais funções a preparação para a vida ativa na sociedade, manter a criança afastada da tecnologia durante o tempo em que está na escola é, usando um termo também ele muito tecnológico, desconectar a criança do mundo real. No entanto, trabalhar com as novas tecnologias não significa colocar as tecnologias no centro de todo o processo, mas sim usá-las como poderosa ferramenta de auxílio aprendizagem. E é precisamente esta distinção que é preciso fazer.”.
De facto, o mundo mudou e está em permanente mudança, mas as pessoas mantêm as mãos e os dedos, os pés, os olhos e os ouvidos; o mercado mantém as canetas, os lápis e as borrachas, os compassos, os esquadros e os transferidores, os papéis, os livros, os jornais e as revistas, os diversos instrumentos musicais – um conjunto de recursos que podem constituir uma alternativa possível à ditadura das novas tecnologias, com outro sabor e a travar quer a obstipação tecnológica, quer a diarreia tecnológica.
Também a escola tem o papel relevante de impedir que as tecnologias escravizem as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos. Tão má é a infoexclusão como a elefantíase tecnológica.
Aliás, a escola tem de pôr os alunos a pensar e a ser livres de tudo e de todos. Pouco importa se os alunos estão no centro de tudo (Hoje essa bandeira já diz pouco!), se é o currículo ou os professores. Não podemos passar da iliteracia tecnológica para a hipertrofia tecnológica, até porque daqui por uns anos pode muito bem acontecer que mais e melhores novas tecnologias sejam inventadas ou que se retorne, pelo menos em parte, às antigas tecnologias: também eram tecnologias! Não me digam que os antigos engenheiros e arquitetos não eram tecnólogos ou que as técnicas de arar com charrua e arado de pau não implicavam um saber técnico da parte dos utilizadores e tecnológico da parte dos inventores, construtores e consertadores. Não convocavam conhecimentos de grande complexidade o trabalhar e assentamento da pedra nos castelos e nas catedrais e a tomada de juntas com a areia fina e a cal hidráulica?
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O “educare.pt” postou, a 19 de julho, artigo com teor a que se assemelha o presente texto. Logo no dia 20, o Prof. Raul Guerreiro, fez ao texto um comentário sob a epígrafe “Mundo em permanente mudança”.
Diz o eminente pedagogo quealguns passos no texto demonstram a falácia subjacente, que pretende ostentar um óbvio ululante, a fim de defender algo como um brilho filosófico-científico” ironizando a mudança apregoada como se fora novidade:
Também podíamos lembrar, com a mesma ênfase e seriedade, que a terra está em permanente rotação, que os dias e as noites se sucedem permanentemente, que o mundo translada ao redor do sol permanentemente, e as quatro estações se sucedem também permanentemente, etc.”.
E, sobre a asserção de que “o mundo está cada vez mais tecnológico, cada vez mais digital”, como se isso fosse “um destino universal inevitável”, aduz:
Vai-se aqui buscar um recanto da realidade materialista tecno-industrial para definir uma suposta necessidade imperativa da educação, vinda puramente da instrumentação tecnológica. Ora, em termos de ‘cada vez mais’ podíamos também salientar coisas mais avassaladoras e científicas: o mundo está cada vez mais deteriorado na sua constituição física e fundamental para a vida – o meio ambiente; o mundo está cada vez mais inundado por violência, imoralidade e degradação da empatia inter-humana chamada civilização; a qualquer momento, em algum laboratório no mundo, será criado o primeiro ser humano originado de uma retorta; o mundo está cada vez mais mergulhado em estados psíquicos patológicos que afetam milhões de seres humanos; os habitantes do mundo estão todos (não interessa a cultura, religião, língua e situação geográfica ou económica) cada vez mais confrontados com um aflitivo estado de alma coletivo marcado por um ateísmo doentio, insegurança quanto à razão de se ter nascido e viver, e desorientação perante todas as perspetivas para o futuro.”.
Não me parece que o diretor pedagógico do Colégio em referência queira inferir que a educação só se consiga a partir do uso das novas tecnologias ou que o seu uso tenha de ser um imperativo universal em educação. Por outro lado, não creio que Rui Lima ignore as outras mudanças e situações que perpassam o mundo e que não lamente algumas delas, mas a adução da inundação tecnológica apenas quer dizer que seria um erro não aproveitar as vantagens que as novas tecnologias podem trazer à educação e ao conhecimento e que, afastando-se a educação e o conhecimento de tais poderosos recursos, ficaria a escola a falar sozinha e as crianças e jovens viveriam entretidos até às últimas, sem orientação e de costas voltadas para a escola.  
É certo que o diretor pedagógico, ao dar a cara pelas novas tecnologias, parece fazer pouco caso dos outros recursos e esquecer que as outras escolas também apostam no conhecimento e nos valores. Porém, não tem que se dizer tudo para se estar aberto a tudo.        
Porém, é verdade, com diz o comentador, que as que elenca “são as realidades maiores que deveriam ditar os passos para o mundo educacional”, o que não quer dizer, do meu ponto de vista, que, “em vez disso” se vá cantando o fado ao mundo digital (“uma irrealidade de natureza eletrónica” – diz o comentador) “num delírio de busca de soluções oportunistas”. Mas não é verdade que haja uma dicotomia funda e fraturante entre o produto humano do mundo digital e o do mundo analógico. Todavia, concordo – e dei-o a entender em comentários que fiz acima – “dentro de algumas décadas, após se constatar que espécie de cidadãos robóticos e autistas resultaram desta escravatura a uma verdadeira tecno-ideologia combinada com interesses multinacionais da ordem de biliões de euros”, se venha a lamentar a “maravilhosa digitalização dos jardins de infância e escolas básicas” como um pesadelo semelhante às ditaduras que já assolaram (e continuam a assolar) o mundo”.
Ora, mais do que tudo, importa eliminar o analfabetismo, não a mascará-lo, e levar as pessoas a pensar por si mesmas com autonomia e sentido crítico e de responsabilidade.  
2019.07.23 – Louro de Carvalho

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Bento Domingues é Doutor Honoris Causa pela Universidade do Minho


Frei Bento Domingues OP (Basílio de Jesus Gonçalves Domingues, nome de nascimento), primeiro diretor da Licenciatura em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, foi agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Minho (UM), no dia 15 de fevereiro.
Como refere o site 7MARGENS, a base desta distinção é, segundo Moisés Lemos Martins, diretor do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da UM: “Frei Bento é, por certo, o maior teólogo da Igreja Católica em Portugal e é uma voz grande da cultura portuguesa”.
Figura marcante da nossa sociedade, Bento não desistiu da atitude interventiva, questionadora e inquietante. Quando em 2012, Julieta Mendes Dias e Paulo Mendes Pinto levaram a cabo um volume de homenagem a este teólogo, o título foi: “Frei Bento Domingues e o incómodo da coerência (Paulinas Editora). É, de facto, incómodo e é coerentemente incómodo.
Seria longo o historial das suas atitudes e atividades. Na década de década de 90, foi convidado pelo padre Isidro Alves, então reitor da UCP (Universidade Católica Portuguesa) para professor da Faculdade de Teologia e membro da equipa da revista teológica Communio. Mas, porque o reitor disse “não” ao pedido de garantia de que teria plena liberdade de ensino, não aceitou o convite, pois, se fosse, corria o risco de perder um amigo, o que não desejava de todo. E, porque a liberdade de pensamento e de consciência é a ferramenta da sua coerência, diz que teve sempre relação com universidades, mas as não confessionais.
Assim, quando a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em 1997, lhe pediu a que dirigisse o projeto de Ciência das Religiões, fê-lo na plena consciência de quem tinha à frente. Com uma vida cívica de mais de 40 anos e um caminho teológico na mesma escala, Frei Bento era uma figura ímpar da cultura portuguesa, pelo que “a marca a deixar no projeto seria inevitavelmente forte”. A liberdade de pensamento dele e do Pastor Dimas de Almeida, seu companheiro no arranque do projeto, perduram até hoje como marca no ADN daquela Universidade. Por esse projeto, a Lusófona atribuiu-lhe a Medalha de Ouro de Reconhecimento e Mérito, a 19 de janeiro de 2005. (cfhttps://www.ulusofona.pt/noticias/ciencia-religioes-doutoramento-honoris-causa).
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Nascido há 84 anos (1934) em Travassos, Terras de Bouro, Frei Bento Domingues entrou para a Ordem dos Pregadores, em 1953. Estudou Filosofia e Teologia em Fátima, Salamanca (Espanha), Roma (Itália) e Toulouse (França).
Como assistente da Juventude da Igreja de Cristo Rei, no Porto, coordenou a exposição “O Mundo Interroga o Concílio”, que o levou à expulsão pela PIDE, em 1963. Regressado a Portugal, dedicou-se ao ensino e à investigação no Studium Sedes Sapientiae, de Fátima, no Instituto de São Tomás de Aquino, no Centro de Reflexão Cristã, no Instituto de Psicologia Aplicada e no Instituto Superior de Estudos Teológicos, onde assumiu cargos de direção.
Durante a ditadura participou na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, no Comité Português Pró-Amnistia Geral no Brasil e no Conselho de Imprensa, bem como no lançamento da publicação clandestina “Direito à Informação” e na organização do primeiro colóquio ecuménico no país. E, a partir de 1980, lecionou em Angola, Peru, Chile e Colômbia. Foi ainda diretor do curso de Ciência das Religiões e do Centro de Teologia e Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Lisboa e membro do Conselho Geral da Universidade do Porto, da Assembleia do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e do Conselho de Ética do ISPA – Instituto Universitário. Foram-lhe atribuídos o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade, pela Presidência da República, o Prémio dos Direitos Humanos, pela Assembleia da República, o Prémio Ângelo d’Almeida Ribeiro, pela Comissão dos Direitos Humanos. (cf https://ominho.pt/uminho-atribui-doutoramento-honoris-causa-a-alvaro-laborinho-lucio-e-a-frei-bento-domingues/)
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Há mais de 25 anos e numa época em que a Igreja ainda andava às voltas com o debate sobre a evangelização nos meios de comunicação, trouxe a Teologia para os jornais. Voz incómoda no clero português, defende a ordenação de mulheres, a comunhão de divorciados e afirma que o ser humano é todo sexual. E, apesar de ser frade dominicano a viver num convento no Alto dos Moinhos, não se esconde atrás da clausura. Em outubro de 2014 conversou com o jornal i  por ocasião do sínodo extraordinário sobre “os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização. E o monge teólogo e cronista não receia afirmar que “o sexo não é só procriação” e critica os interesses instalados na política e no mundo empresarial, dizendo que “isto não é mundo que se apresente”. Dessa conversa se destacam os conteúdos mais vincados.
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Sobre o sínodo de 2014 dizia que tinha um efeito muito concreto: “dar a palavra”. Embora considere o modelo coxo, por a reflexão estar centrada nos bispos e terem sido convidadas poucas famílias, “o facto de existir recetividade para abrir a discussão já é positivo”, pois “há muitas coisas, sobre a ética sexual e reprodutiva, que estão entorpecidas e encalhadas desde Paulo VI” e “é preciso que a Igreja faça uma redescoberta no campo da sexualidade”.
Sobre a comunhão de divorciados, tem o posicionamento de concordância, justificando:
Então podem ir à missa, mas não podem comungar? É como se eu convidasse uma pessoa para jantar – porque o modelo de eucaristia que Jesus escolheu foi uma ceia, é essa a simbólica da eucaristia – e não a deixasse comer. Isso não faz qualquer sentido.”.
Quanto à quebra de compromisso para toda a vida, aduz a existência de situações irreversíveis e que a fé e a caminhada dessas pessoas necessitam de ser acompanhadas.
Em relação à passagem de Mateus em que se lê “o que Deus uniu não pode ser separado pelo homem”, refere, em jeito de pergunta, que a Eucaristia, desde o começo, é um pedido de perdão e que a própria consagração é pela remissão dos pecados; que o pai-nosso contém o pedido de perdão e que a palavra mais importante para Deus, na Bíblia, é “misericórdia”. E avança:
Jesus foi criticado, no seu tempo, por atender as pessoas que tinham estragado as suas vidas e por andar com aqueles que estavam classificados como pecadores. É com eles que Jesus come.”.
Relativamente aos homossexuais e ao acolhimento na Igreja, diz terem-se dado alguns passos na Igreja (e na sociedade) e, recordando que atendeu pessoas, em confissão, angustiadíssimas, julga que “também neste campo a Igreja deve dizer o que é autenticamente humano e acolher bem as pessoas”, mas que “não se faça da homossexualidade um cartão de visita”.
Depois, fala das uniões de facto, dizendo que os padres que trabalham na preparação do matrimónio sabem que a maioria dos casais vive em união de facto antes do casamento. E à questão se essas pessoas estão em pecado responde:
O casamento é uma realidade que vai sendo – o gerúndio é propositado – e há um momento em que o casal decide fazer a grande festa do grande compromisso. Estas questões são fenómenos das sociedades. E, às vezes, até há muitos divórcios porque não houve uma descoberta verdadeira antes do matrimónio e, a seguir ao casamento, as pessoas percebem que não funciona. Viver juntos não é garantia de que o relacionamento depois bata certo. Mas a Igreja e os cristãos – porque a Igreja são os cristãos, servidos e ajudados pela hierarquia – tem de debater estas novas realidades. Sem tabus.”.
Entende que muitas pessoas fazem coisas porque dizem que são mandamento de Deus. Ora, Tomás de Aquino diz que “se faço algo só porque foi mandado por Deus, talvez corra o risco de estar enganado, pois talvez tenha sido eu a inventar”. Com efeito, diz Frei Bento, “só sou livre e verdadeiramente pessoa humana se tiver consciência de que faço uma coisa porque compreendo que ela é boa e evito outra porque percebo que é má”. Aliás, Jesus resumiu os mandamentos em dois: amar a Deus e ao próximo.
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Sobre a hierarquia das verdades assenta que é preciso compreender o que é principal e o que é secundário, quando tem acontecido que o secundário tem ocupado o espaço todo.
E, no atinente à redescoberta da sexualidade que Igreja deve fazer, explicita:
Todos os homens e mulheres são sexuais e o episcopado também nasceu de famílias. O problema é descobrir a importância da sexualidade na vida humana. No sexo não se trata só de procriação.”.
Mais diz que, sendo essencial à vida humana o prazer, há que obstar à anarquia dos sentidos. De facto, quando se faz algo porque apetece, mesmo implique uma desgraça para outrem, isso não é prazer, é egoísmo. E isso pode existir na sexualidade sob a forma de dominação. E o prazer é a comunhão de toda a sensibilidade, que é humana, mesmo intelectual, e não afeto desligado, pois o ser humano é todo ele sexual. Essa redescoberta do valor da sexualidade tem de ser feita, pois não podemos olhar para a relação sexual como um pecado. Com efeito, a sexualidade é uma questão de antropologia, que leva a descobrir o ser humano nas suas múltiplas facetas.
Não dá lições aos jovens católicos que lhe confessam que são sexualmente ativos apesar de não serem casados, porque “o problema não é esse”. E explicita:
O problema é perceber se o jovem ou a jovem têm uma vida sexual desorganizada, se andam a magoar outras pessoas, a fazer promessas que depois não cumprem. Aí, sim, está o pecado. O pecado na sexualidade, em jovens ou em adultos, é muitas vezes as pessoas servirem-se da sedução para enganar o outro e ter apenas umas horas de prazer.
Sustenta que “se fez da virgindade, que é uma questão biológica, um problema ético”, quando “a moral não é um tratado de fisiologia ou biologia”. Assim, uma das coisas que a Igreja tem de fazer “é ajudar os casais, os jovens e os grupos a compreender” que a pessoa tem de ser responsável pela sua vida sexual, sem se querer aproveitar do outro ou da outra e sem magoar.
É certo que a questão da virgindade é importante para a Igreja. Porém, segundo Frei Bento, o Evangelho não fala claramente da conceção e parto virginais de Jesus. Para isto, aduz:
O que os evangelhos da infância pretenderam transmitir é a ideia de que, se este homem foi tão excecional na sua vida adulta, essa excecionalidade era de nascença. E construíram-se narrativas. Mesmo as genealogias são teológicas, são interpretações. Para no final se concluir que Jesus é fora de série.”.
Também se descobriu que Maria é fora de série. E o pior foi transformar os evangelhos da infância numa questão biológica, “quando o que queriam dizer”, em linguagem simbólica, “é que Jesus não era mais um na série humana”, que “era tão de Deus que foi logo um fruto do Espírito Santo”. O teólogo não se preocupa se Maria e José tiveram sexo ou não. E confessa:
Maria aparece como uma mulher totalmente dedicada a Jesus e que não o entende. Teve de fazer muitas transformações na sua vida, de entrar na loucura do seu filho e aparece, também ela, no meio dos discípulos à espera do Pentecostes. Maria tem de se tornar cristã, discípula do seu filho. […] As mulheres nos evangelhos nunca pedem nada e acompanharam os discípulos, [sobretudo] quando começaram a andar junto da cruz, e foram ao sepulcro fazer as celebrações que se faziam aos mortos e é a elas que Jesus aparece.”.
Critica a negação da ordenação presbiteral e episcopal às mulheres, quando “a luta das mulheres conseguiu muitas transformações na sociedade, mas na Igreja isso não aconteceu porque se disse que era contrário ao mandamento de Deus”, o que não é verdade. E o teólogo vinca:
A mudança de mentalidades é difícil. A vida humana é uma vida longa. A nossa vida, individualmente, é que é muito curta. O que eu acho é que cada geração deve abrir novas possibilidades às seguintes e não fechá-las. Há pessoas que querem sempre fechar o caminho: isto é irreformável, isto é dogmático, isto não se pode mexer. Ao fim e ao cabo, isto é cortar a liberdade a Deus e dizer-lhe: ou passas por aqui ou não passas.”.
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Nunca teve qualquer problema com o episcopado português, a não ser com Cerejeira, que não o deixava pregar. Mas, depois do 25 de Abril, não teve mais problemas. Nunca lhe passou pela cabeça ocupar um cargo importante na hierarquia, não gosta da ideia de ser ou parecer superior e detesta o carreirismo. Diz nada ter “contra os bispos ou os cardeais” e que só quer “que os seus cargos sejam para servir”. Não tem problema nenhum em não quererem que pregue neste ou naquele lugar por causa das suas ideias peculiares, como não sabe lidar com homenagens, pois acha que “a pessoa que gosta de ser lisonjeada está estragada”.
Não gosta de escrever, gosta é de ler e de debater. E diz que “as crónicas foram uma grande aventura”, que muitas pessoas interpretavam “como uma espécie de homilia de domingo”.
Começou-as, porque não havia muita coisa. O padre Rego tinha algo no DN e o padre Rui Osório, que era jornalista, escrevia no JN. Havia muitas iniciativas em França, na Alemanha e noutros países que revelavam “uma certa descoberta dos meios de comunicação enquanto veículos de fé”. Porém, ligada à pregação vem a ideia do sermão sempre a insistir no que é proibido e no que se deve fazer e no que não se deve fazer (arte “moraleja” – diz). E “a pregação não é isso, nem é propaganda”. Para o frade dominicano, pregar
É dar voz aos anseios das pessoas e àquilo que, na tradição cristã, interpretamos como o projeto de Jesus, dando sentido à vida através dele; é assumir, em cada época, segundo os povos e as culturas, esse projeto que, “no fundo, é fazer do mundo uma fraternidade”.
Sabe que, se Jesus vivesse no nosso tempo, “pregaria em todo o lado”, mas não sabe se escreveria nos jornais, pois “não temos nada escrito por Jesus”. Todavia, “temos escritos de representantes de comunidades”. E observa Frei Bento:
É uma escrita plural. São Paulo tinha mais essa vocação de jornalista, de comunicação, estava sempre em ligação com as comunidades. Escrevendo, escrevendo... Jesus foi o projeto de dizer: é preciso mudar. Este mundo não é mundo que se apresente. Começou a pregar, anunciando que até então reinava a opressão das pessoas e que era preciso o reinado da libertação das pessoas. É este o projeto.”.
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Assegura que temos hoje imensos profetas e que a profecia de que precisamos é a da dignidade humana. E explica, na ótica da crise de valores e de juízo:
Vivemos num país em que faltam crianças, em que os mais velhos, que sustentavam as famílias, viram os seus rendimentos cortados... O primado que existe no mundo contemporâneo, e não é só em Portugal, é o primado da finança e não o do bem-estar das pessoas. […] Todos os dias ouvimos falar de como as coisas funcionam ao nível da banca e no mundo dos negócios, os milhões que se ganham e com que se mexe. Não se ouve falar dos milhões de pessoas que estão na miséria. Dignidade humana é perceber que o ser humano tem o direito e o dever de poder viver, sob o ponto de vista do ensino, da saúde, da solidariedade, da constituição da família. E quem tem os meios tem também o dever de ajudar os outros e de construir um país em que o bem de todos venha antes do bem só de alguns magnatas.”.
À política de hoje, que só olha ao poder, contrapõe que o verdadeiro poder é as pessoas terem saúde, poderem estudar, investigar, terem recursos para levar uma vida digna”, que “a democracia é para dar poder a todos” e que “é necessário discernimento político”, ou seja, “saber discernir prioridades e perceber onde podemos encontrar meios”.
É certo que há decisões que não competem só aos agentes políticos nacionais. Por isso, “é preciso trabalhar no diálogo político” e dar voz aos profetas. E sustenta:
Profeta é, no sentido bíblico, o Homem clarividente. Estamos perante uma situação em que, em vez de as pessoas se calarem e fecharem os olhos, é preciso parar e dizer: quais são as causas da atual situação? E como poderemos inverter este caminho? Diz-se que não existem alternativas. Como é que se sabe que não há? Já se experimentou? O profeta é alguém que interpreta os sinais dos tempos. Há um problema de falta de clarividência, com os interesses de grupos, de empresas a serem mais importantes no lucro que alguns vão ter. Mas a prazo não vão ter lucros, vai ser um desastre.”.
Acusa o facto de as Igrejas se retraírem muito para que não se diga que se estão a meter no que é da política”, o que redunda em carência de profecia, “quando a Igreja, hoje, para ser profética, não pode desvalorizar a política, a economia, a finança”. E o teólogo explicita:
Tem de servir de mediação, dar direção, ajudar a perceber que há caminhos que levam ao desastre e outros que ajudam a tornar a vida mais feliz. Mas, ainda assim, vai havendo essas vozes proféticas. Há um profetismo enorme nos bairros... as pessoas que se ocupam daqueles que não têm nada para viver, os que se organizam civilmente, os voluntários que servem refeições a quem não tem o que comer. Há vozes, pessoas que compreendem que se pode fazer de outra maneira e que se substituem ao Estado, que tinha essa obrigação. Isto é um profetismo de bases, por assim dizer. Mas há vozes. O Papa Francisco apareceu como uma voz mundial.”.
Sobre os casos de corrupção que vão sendo descobertos, situa-os no problema dos valores, que não é abstrato. E, citando Kant, assegura que o ser humano não tem preço: só tem valor. Não pode ser um meio para ser algo melhor do que ele. As coisas têm é de estar ao seu serviço. E verifica:
As pessoas corrompem-se porque têm apetites desgarrados. Pensam que, fazendo este ou aquele golpe, vão ser ricos e ser rico, hoje, significa tudo. É esta ideia louca de que sendo rico tenho todas as hipóteses.”.
Considerando que dificilmente se pensa no que se deve fazer para desenvolver as próprias capacidades intelectuais, afetivas e relacionais, comenta:
Se desde a escola, desde a família, se incutisse nas crianças a honestidade, o sentido do dever, da solidariedade, a importância do desenvolvimento das capacidades individuais para criar um ambiente bom para todos... Mas o pensamento, hoje, é outro: como é que eu posso ser melhor do que o outro? Como posso ir à frente de toda a gente? Estamos a criar uma cultura tecnológica em que as crianças são desde logo habituadas a lidar com ipads, mas que não sabem olhar para a natureza, para o mundo e para os outros. E esta é a maior corrupção: a corrupção das relações humanas. Os pais com os filhos, o marido com a mulher, violência em casa. É-se corrupto porque se tem a inteligência e os desejos e gostos distorcidos.”.
Porém, conclui que não é mau ter desejos, desde que se deseje o que vale a pena: antes de mais, o nosso desenvolvimento com o desenvolvimento dos outros. O mundo como está não é mundo que se apresente e, como dizia Paulo, não nos devemos conformar com o mundo como ele está.
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Enfim, Frei Bento Domingues sublinhou em Tomás de Aquino, que ainda o lê só no latim: Se faço uma coisa porque está mandado, mesmo que seja por Deus, não sou livre, só sou livre quando faço, ou deixo de fazer, porque é mal ou é bem”. Quis ser um homem livre. Tinha pó a Salazar. Deu-se bem com Sá Carneiro e Salgado Zenha. Acolheu membros das Brigadas Revolucionárias na clandestinidade. Vive num convento em Benfica. Nasceu em 1934 numa terra onde se “plantam carvalhadas (palavrões), se trocam os “v” por “b”,
Este é Frei Bento mesmo no tempo em que ainda não era Frei Bento, mas Basílio, o que nasceu nas Terras de Bouro, creu em bodes e bruxas no cruzamento de caminhos, leu às ovelhas orações em latim. É o que fez discursos ditos subversivos, que foi apontado como persona non grata nos anos 60, que andou por África e pela América Latina. É este o Frei Bento com quem muitos se enfureceram porque defendeu a ordenação de mulheres e que esteve de costas para um baile porque um padre não podia assistir a um baile. Um heterodoxo. Colunista do Público. Conversador fascinante. Parece mais novo do que é. Fala com sofreguidão. Espírito livre. 
Confessou as mazelas físicas próprias da vida sedentária. Tudo coisas normais. Tudo coisas que fazem parte da vida, tal como faz parte da vida deste frade-padre São Tomás de Aquino.
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Apesar de não gostar de escrever, como diz, publicou, além das crónicas:
A Religião dos Portugueses, Porto: Figueirinhas, 1988; A Humanidade de Deus, Porto: Figueirinhas, 1995; A Igreja e a Liberdade, Porto: Figueirinhas, 1997; A Religião e a Política face aos Desafios do Fim de Século (com Jean-Marc Ferry), Actas dos Encontros de Abrantes, 20-22 de Novembro de 1997, Abrantes: Palha de Abrantes, 1998; As Religiões e a Cultura da Paz, com prefácio de Jorge Sampaio, Porto: Figueirinhas, 2002; As Religiões e a Cultura da Paz, 2.º Volume, com prefácio de Lídia Jorge, Porto: Figueirinhas, 2004; Um Mundo que Falta Fazer, Lisboa: Temas e Debates, 2014; A Insurreição de Jesus, Lisboa: Temas e Debates, 2014; e O Bom Humor de Deus e Outras Histórias, Lisboa: Temas e Debates, 2015.
 2019.02.24 – Louro de Carvalho

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Bem-aventurados os pobres, que não a pobreza em si


Lucas, num dos trechos do seu evangelho (Lc 6,17.20-26), declara os pobres bem-aventurados, sem especificar, como faz Mateus, os pobres em espírito, tal como considera felizes os que têm fome, os que choram e os que sofrem perseguição, o insulto ou a infamação. Terão o reino de Deus como herança, serão saciados, hão de rir de alegria e terão a recompensa no Céu.
A razão por que o evangelista, ao invés de Mateus, não acentua os pobres que o são no seu íntimo, terá a ver com o facto de Lucas colocar o discurso de Jesus dirigido aos seus discípulos (olhou-os, falou-lhes) ali presentes e à multidão que ali acorrera para o Ouvir. É certo que o Mestre invetiva os ricos por contraste. Alguns dos discípulos presentes eram ricos e alguns mesmo estavam de coração apegado às riquezas. Tanto assim é que o apostolo Judas Iscariotes, o homem da bolsa, era ladrão e não se coibiu de vender o Senhor por trinta moedas de prata.
A exaltação do pobre, que não da pobreza, sobretudo se constituir um estilo que prostra a pessoa na miséria donde é difícil sair como de prisão de alta segurança, tem o grande significado de que o pobre está recetivo à novidade, ao segredo de Deus, à promessa de bem-estar; não tem quem ou o que o entretenha ou aprisione definitivamente; e está despojado para poder entrar no dinamismo do Reino.  
Algo de semelhante se passa com aquele que chora lágrimas que podem ser purificadoras e preparatórias do consolo; algo parecido sucede com aquele que tem fome e sede, ou seja, a insatisfação com a penúria ou com a falsa abundância, pois tem a capacidade de sonhar com a mudança, de desejar um futuro melhor para si e para os seus (e seus podem vir a ser todos os homens e mulheres); e algo similar ocorre com o perseguido, insultado ou infamado por causa do Evangelho, pois sentir-se-á compensado por ser tratado como os autênticos profetas de outrora.
Na segunda parte do trecho evangélico, Jesus dirige-se aos ricos denunciando a consolação egoísta e avara de que desfrutaram perdidos no labirinto dos bens materiais: mais quiseram ter que ser. Dirige-se aos saciados, que já não querem mais nada, nada anseiam, nada esperam, pois, estando a matar o futuro, podem estiolar e ter fome e sede e não saber onde encontrar a saciedade para a sua penúria. Dirige-se aos que estão contentes, aos que mergulham no folguedo esquecidos dos demais ou então considerando-os o inferno neste mundo, na linha concetual de Nietzsche, a servir de tormento a todos, pois hão de ser vítimas das suas distrações e folguedos, bem como da rejeição que fazem dos semelhantes que nem para rir têm jeito. E dirige-se aos que são elogiados por todos, pois são fúteis, egocentristas e hipócritas, assemelhando-se aos antigos falsos profetas que hoje estão reeditados um pouco por toda a parte a pregar a sua doutrina e não a do Evangelho da paz. Com estas inventivas alinha Tiago ao advertir os ricos, cuja riqueza degrada, impede de cumprir a justiça e leva à condenação do inocente à morte:
Vós, ó ricos, chorai em altos gritos por causa das desgraças que virão sobre vós. As vossas riquezas estão podres e as vossas vestes comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem servirá de testemunho contra vós e devorará a vossa carne como o fogo. Entesourastes, afinal, para os vossos últimos dias! Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo! Tendes vivido na terra, entregues ao luxo e aos prazeres, cevando assim os vossos apetites… para o dia da matança! Condenastes e destes a morte ao inocente, e Deus não vai opor-se?” (Tg 5,1-6).
Por outro lado, o afogamento na riqueza e a paixão pelo ter e por ser superior originam rixas:
Donde vêm as guerras e lutas que há entre vós? Não vêm das vossas paixões que se servem dos vossos membros para fazer a guerra? Cobiçais, e nada tendes? Então, matais! Roeis-vos de inveja, e nada podeis conseguir? Então, lutais e guerreais-vos!” (Tg 4,1-2). 
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O texto em referência situa-se na parte do Evangelho de Lucas que aborda a “atividade de Jesus na Galileia” (Lc 4,14–9,50), em que o evangelista Lucas pretende apresentar um primeiro anúncio sobre Jesus e definir, a partir da sinagoga de Nazaré, o programa libertador que o Messias vai cumprir em favor dos pobres e oprimidos: “o Espírito do Senhor está sobre Mim porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos…” (Lc 4, 18-19). E as bem-aventuranças lucanas inserem-se no quadro pautado por esta linha condutora: a libertação chegou com Jesus e dirige-se aos pobres e aos débeis. Numa planície (ao invés de Mateus, que situa o discurso das bem-aventuranças numa montanha), rodeado dos discípulos e pela multidão “que acorrera para O ouvir e ser curada dos seus males” (Lc 6,18), Jesus proclama as bem-aventuranças e as correspondentes invetivas.
As quatro bem-aventuranças do “discurso da planície” equivalem às nove da montanha e têm como destinatários os pobres, os que têm fome, os que choram, os que são perseguidos. É de reparar que tanto Lucas como Mateus colocam à cabeça das bem-aventuranças os pobres.
O vocábulo grego utilizado por Lucas e por Mateus para “pobres” (ptôchói) traduz os termos hebraicos (‘anawim, dallim, ebionim) que, no Antigo Testamento, definem a classe de pessoas sem bens, à mercê da prepotência e da violência dos ricos e poderosos: os desprotegidos, os explorados, os pequenos e sem vez e voz, as vítimas da injustiça, que a arbitrariedade dos poderosos recorrentemente priva dos seus direitos e atenta contra a sua dignidade. Por isso, têm fome, choram e são perseguidos. E, embora a oferta libertadora de Deus não seja exclusivamente para um grupo social, são os pobres e oprimidos, os desprotegidos, os explorados, os pequenos, sem vez e sem voz os destinatários preferidos da boa nova da salvação de Deus, por estarem numa situação intolerável de debilidade e necessitam de que Deus, na sua bondade, derrame sobre eles a sua bondade e misericórdia. A salvação de Deus dirige-se preferencialmente a estes porque, na sua simplicidade e despojamento, estão mais abertos a acolher a oferta que Deus lhes faz em Jesus.
As bem-aventuranças fazem sair do círculo limitado da sinagoga o programa do Messias, agora proclamado aos apóstolos, discípulos e multidão. Ele é enviado do Pai ao mundo dos oprimidos, pequenos, privados de direitos e de dignidade, simples e humildes, que Ele ama de uma forma especial e com insólita deferência, como se vê noutro capítulo do Evangelho lucano:
Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho.’. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: ‘Felizes os olhos que veem o que estais a ver. Porque – digo-vos – muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram’! (Lc 10,21-24).
As invetivas aos ricos são o reverso da medalha. Denunciam a lógica do opressor, do instalado, do avaro, do poderoso, do que pisa os outros, do orgulhoso, do autossuficiente do indisponível para acolher a novidade subversiva do “Reino”. Já nada têm a esperar, pois têm o futuro assegurado no mundo. Deus, no entanto, tem para eles a mesma oferta de salvação, mas eles, se persistirem na lógica do egoísmo, prepotência, injustiça e autossuficiência, não têm lugar no “Reino”. “É difícil para quem tem riquezas entrar no Reino de Deus! Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (Lc 18,24-25).
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Todavia, a pobreza não pode continuar a ser estatuto de ninguém, a não ser a pobreza que despoja para deixar a pessoa livre para o serviço do Reino. Ou seja, uma pessoa pode querer abraçar a pobreza, mas não pode ser condenada à pobreza. É urgente erradicar a pobreza situacional – a miséria – que deprime e asfixia o ser humano, degrada a vida social e não permite a construção da comunidade, mas há que deixar liberdade para abraçar a virtude instrumental da pobreza para a defesa das grandes causas, para a luta pelo Reino de Deus.
A virtude da pobreza eleva, ao passo que a situação de pobreza pode aniquilar, ofuscar e imunizar contra a abertura à novidade se os pobres caírem na atitude resignatária e fatalista. Aí urgirá a tarefa da conscientização e da criação da convicção da capacidade para sair do labirinto da miséria e da situação de desumanidade.
A felicidade de que fala Jesus está inscrita nos rostos dos discípulos. É a olhá-los que os declara “felizes”, e não, como em Mateus, a falar de quem é feliz. Repare-se que, em Mateus, a última bem-aventurança é dirigida aos discípulos na 2.ª pessoa do plural: “Felizes sereis vós…” (Mt 5,11-12). E eles já são felizes, porque são pobres: deixaram tudo, família e o barco ou o telónio, a fim de estarem livres para a inauguração com Jesus do seu Reino e para pregarem em nome Dele a sua carta magna. São felizes porque são já cidadãos do Reino. São felizes porque são, como o Mestre, rejeitados, insultados por causa do seu discurso que tem de incomodar, porque insta a uma mudança, a um regresso a Deus, pois amar é sair de si mesmo.
Os critérios do mundo proclamam “feliz” quem tem dinheiro, mesmo quando esse resulta da exploração dos pobres, na linha duma economia que mata e duma finança sem rosto; que tem poder, mesmo que esse seja exercido de forma prepotente e arbitrária, não em prol do bem comum, mas em prol do titular do poder; quem influencia, mesmo que essa influência seja obtida à custa da corrupção e de meios ilícitos. Ao invés, a lógica de Deus exalta os pobres, os desfavorecidos, os débeis. E o anúncio libertador que Jesus traz enche de alegria os corações amargurados, os marginalizados, os oprimidos. Com o “Reino” de Deus estabelece-se um mundo de irmãos e de irmãs, que bane a prepotência, o egoísmo, a exploração e a miséria e dá um lugar aos pobres que assumem o estatuto de filhos iguais e amados de Deus. É o sinal e o cume da fraternidade, a alegria da filiação comum, o sabor da herança do Céu.
Resta saber se nós, testemunhas e arautos de Jesus, conseguimos passar aos pobres e aos marginalizados essa oferta libertadora e se temos dado conta desta obrigação testemunhal e pregoeira com suficiente convicção e radicalidade, de forma a criar um impacto real na história dos homens ou se, ao invés, nos temos limitado a guardar a sete chaves o depósito da fé e deixar que só os pretensamente “dignos” tenham acesso a ele. É preciso crer e dar; ter a pobreza suficiente para receber; e fazer crer e fazer dar e receber – com alegria, generosidade, dedicação e esperança.  
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Talvez seja adequada, para a releitura da perícopa evangélica referenciada no início, a leitura dum trecho de Jeremias (Jr 17,5-8), que censura “quem confia no homem e põe na carne toda a sua esperança, afastando o seu coração do Senhor” e bendiz “quem põe a sua confiança no Senhor e Nele assenta a sua esperança”. São palavras ao jeito das máximas sapienciais, através das quais o profeta, recorrendo a antíteses, desenvolve o tema da confiança/esperança.
O reinado de Joaquim (609-597 aC) desenvolve uma política aventureirística de alianças com potências estrangeiras e confia a segurança do povo, não a Jahwéh, mas aos exércitos egípcios. E o profeta ataca essa política enquanto grave sintoma de infidelidade ao Deus da Aliança, pois já não coloca a sua confiança e esperança em Deus, mas sim nos homens.
Jeremias denuncia o homem que se apoia noutro homem e prescinde de Deus. Tal denúncia não postula que não confiemos em quem nos rodeia – Com efeito, quem não confia no irmão que vê, como confia em Deus, a quem não vê? –, mas constitui a censura da autossuficiência dos homens que julgam que não precisam de Deus. Aliás, quem não confia em Deus, como pode confiar noutro homem? Depois, prescindir de Deus e não contar com Ele significa construir uma existência efémera e raquítica, a que falta o essencial, como o cacto ou o arbusto plantados no deserto, condenados previamente à morte precoce.
A seguir, o profeta sustenta imageticamente o estilo de vida daquele que põe em Deus a sua confiança e a sua esperança. É o arbusto plantado à beira da água a mergulhar as raízes bem fundo. A imagem sublinha a segurança, a solidez, a paz, a fecundidade, a abundância de vida. Se Israel confiasse unicamente em Deus, lançaria as suas raízes de forma permanente na Terra Prometida e não experimentaria a trágica aventura do exílio.
A experiência da confiança frustrada pode invadir-nos nalguns momentos da vida e pode criar-nos a sensação de que o mundo se abate sobre nós. Ora, se é certo que tudo o que é humano é efémero e finito, também é certo que em Deus encontramos o rochedo forte e o abrigo acolhedor que não falham e que não dececionam.
É fácil espantarmo-nos com a evolução e as maravilhas da ciência, da arte e da técnica, com as comodidades civilizacionais de que dispomos e com o acesso fácil ao dinheiro, ao poder ou ao protagonismo. Porém, se, prescindindo de Deus, viermos a sentir na pele a efemeridade, e até a monstruosidade, de tudo isso, ficaremos vazios e sem norte.
Se calhar, é útil espiritualmente refletir a mensagem do Salmo 1, o dos dois caminhos que o Senhor nos põe à frente para opção – meditação, com claras conotações éticas, a mostrar que o livro dos Salmos, que abre com o termo “feliz”, para lá de ser uma antologia de orações pessoais e litúrgicas, constitui um espelho de vida e de moral, sublinhando a polarização de caminhos ou comportamentos, que representam dois modos de vida com resultados diferentes (Dt 30,15-18).
Se o caminho da impiedade torna o homem como palha, que o vento leva, e atira com ele para a perdição, o caminho da justiça garante a felicidade porque inculca a confiança no Senhor, radica Nele a esperança humana, que assegura o futuro com Deus e em Deus. O homem pobre e desnudado diante de Deus, sujeito ao juízo de Deus, não segue o caminho da iniquidade, mas é como árvore plantada à beira das águas: dá fruto no devido tempo, a sua folhagem não murcha e tudo quanto fizer terá pleno sucesso. Feliz, pois, o homem que pôs a sua esperança no Senhor!
2019.02.17 – Louro de Carvalho