terça-feira, 24 de março de 2020

Um Governo de Salvação Nacional (com Costa e Rio)


João Lemos Esteves, secundado por outros “arquitetos” da opinião pública, escreveu na edição online do semanário “Sol”, a 22 de março, um artigo em que sustenta a necessidade da formação dum governo de salvação nacional, invocando a circunstância da pandemia do Covid-19, que, a continuar a liquidar inocentes, espalha o medo e torna o pânico o sentimento dominante nas comunidades, bem como o facto de, a 1 de janeiro próximo futuro, se iniciar o semestre da presidência portuguesa da UE.
Começa por contestar as várias críticas à autoquarentena de Marcelo na residência particular (assacável à Ministra da Saúde), cujo ato constituiu uma sobreposição da suscetibilidade pessoal do Presidente (a badalada hipocondria) aos seus deveres funcionais, em especial a asserção de Adolfo Mesquita Nunes de que, no momento em que o país mais precisava dum líder, nos saiu apenas um cidadão com os seus receios e limitações. Sem contestar a legitimidade das críticas, o articulista refere que elas são exageradas, pois, a seu ver, o Presidente da República tem adotado uma postura correta na gestão da presente crise. Com efeito, mesmo na pendência da quarentena no domicílio pessoal em Cascais, “esteve em permanente articulação com o Primeiro-Ministro” e outros Ministros, incluindo Augusto Santos Silva, “forçando mesmo, em algumas ocasiões, António Costa a tomar iniciativa”. Não o desminto, mas poderia fazer o seu retiro a partir de Belém, onde tem condições de habitabilidade e donde poderia supervisionar o Estado.
Aduz que, se não fosse a pressão permanente exercida por Marcelo, Costa não teria aparecido tanto e com tanto domínio da situação nestas últimas duas semanas, sendo que a reação deste, a princípio, terá sido atabalhoada deixando o ónus da responsabilidade da ação e explicação ao país à Ministra da Saúde e à Diretora-geral da Saúde. Depois, a sua reação passou a ser a correta, mas o articulista porfia que o mérito do Governo – nesta fase de reação ao medonho vírus – é também mérito de Marcelo. Disso não duvido.
Quanto à declaração de emergência, regista que, na asserção de Francisco Pinto Balsemão, conselheiro de Estado, já havia um estado de emergência de facto, pelo que a não emissão do decreto presidencial teria consequências socialmente mais desastrosas do que a declaração. Na verdade, as opções políticas são, essencialmente, gestão de expectativas; e a expectativa dos portugueses era que o Presidente declarasse rapidamente e em força o estado de emergência.
Como observação crítica, de entre as aduzíveis, destaca “a bizarria constitucional de decretar uma situação democrática patológica para promover a certeza e a segurança jurídicas” (para o Estado se escapulir de obrigações jurídicas eventuais futuras). E refere que o estado de emergência “foi pensado para situações políticas de rutura e não para acautelar efeitos jurídicos”. E sustentando que, ao invés do que se diz em programas televisivos, o argumento do risco do precedente não é infantil, interroga-se sobre “se a justificação do estado de emergência foi essencialmente jurídica, para exonerar o Estado de responsabilidade civil, como garantir que o poder político não recorrerá ao mesmo instrumento em situações futuras, estando em causa a preservação da irresponsabilidade patrimonial do Estado”. Por isso, preconiza a urgência de garantir que a limitação do poder político ao Direito não se torna em mero artifício retórico, sempre na disponibilidade do próprio poder político diretamente interessado.
A seguir, aborda o que diz ser o ponto mais premente, neste momento, e que tem passado ao lado das discussões políticas nacionais. E, aduzindo que “as razões justificativas do estado de emergência” avançadas pelo Presidente têm necessariamente de produzir um resultado político lógico, preconiza a formação, de imediato, de um governo de emergência nacional. Com efeito, as situações de emergência, enquanto manifestações de “estados de exceção”, correspondem a compromissos políticos alargados entre as forças políticas mais representativas do povo. Assim, não se compreende, em seu entender, que um estado de emergência seja executado por um governo dum só partido, “sem maioria absoluta e cuja representatividade corresponde apenas a 36% dos eleitores portugueses votantes”. Ora, em emergência nacional, diz, “teremos de ter um governo que reflita tal circunstância excecional: no mínimo, um governo que represente mais de metade dos portugueses”, ou seja, um governo com maioria absoluta para garantir a absoluta legitimidade das medidas que terão de ser decretadas. Assim, em seu entender, terá – e diz saber que o Presidente assim o fará nos próximos tempos – que exigir a formação de um Governo de Salvação Nacional, constituído pelo PS e pelo PSD de Rui Rio, até porque o próprio Presidente da República admitiu que esta situação “é uma situação de guerra” e, em situação de guerra, não se vai combater com base num governo de 36% do povo nacional, mas num governo de ampla representatividade nacional.
E o articulista estriba-se em duas razões que acrescem para que o Presidente provoque, o mais breve possível, a constituição dum governo de estado de emergência, constituído, pelo menos, por PS e PSD. Este Governo tem sido marcado pela permanente instabilidade e necessidade de estabelecer equilíbrios sucessivos e conjunturais no Parlamento para a viabilização das suas políticas. E o estado de emergência necessita dum governo forte, estável, com apoio maioritário no Parlamento, sem necessidade de negociações permanentes. Depois, no início de 2021, Portugal assumirá a presidência da UE, um encargo que representa enorme responsabilidade para o governo em exercício, que terá de dispersar o seu foco entre as prementes questões nacionais e os compromissos assumidos a nível europeu.
Ora, as presidências da UE têm acentuado o desgaste político interno dos Governos. Para o Primeiro-Ministro, será “uma tarefa de enorme responsabilidade e especialmente hercúlea – e, desta feita, sê-lo-á em termos especialmente agravados”. Efetivamente, Portugal irá presidir a uma UE exangue, em risco de iminente colapso, ainda em luta contra as consequências do Covid-19. Como, a seguir ou ainda concomitante à crise sanitária, virá o inferno económico por que inexoravelmente passaremos, não podemos ter um Primeiro-Ministro em part-time, especialmente com um governo debilitado, cansado e sem energia, mercê da decisão de Costa de encarar esta XIV Legislatura apenas como a continuação da anterior.
Pensa o articulista que o atual executivo do PS não tem músculo político para aguentar as provações que se avizinham nos próximos meses “de ultrachumbo”, pelo que precisamos dum governo com vitalidade, maioria e uma estabilidade à prova de bala, com dedicação a tempo inteiro às questões nacionais. E, se Marcelo pensa que há razões para decretar o estado de emergência, se Costa terá desafios de enorme complexidade – a nível nacional e europeu – que exigem uma energia visível na atual composição governamental e se estamos numa guerra a um inimigo invisível, os portugueses não perceberão que Marcelo não exija um Governo de Salvação Nacional, pelo menos, até ao final de 2021/início de 2022.
E Lemos Esteves vê nessa hipotética omissão uma contradição política lógica: “decreta-se o estado de exceção, sem se exigir um governo de exceção constitucional”. Assim, segundo o ilustre opinante, Marcelo tem de ser consequente e, segundo diz, assim o fará nos próximos tempos: ou seja, o Presidente da República quer, até ao verão, um governo de coligação PS/PSD, com Rui Rio como Vice-Primeiro-Ministro. E o articulista opina que nem Costa se poderá opor, nem Rio poderá declinar tal solução de Salvação Nacional. Costa não se poderá opor, pois já afirmou que não há o partido do vírus e o partido do antivírus, não quer assumir as responsabilidades de liderar a resposta à crise, simultaneamente, a nível nacional e a nível europeu e avalizou declaração do estado de emergência, dada a gravidade da situação nacional.
E Rui Rio não se poderá opor, pois, tendo concordado com todas as medidas, afirmou que o PSD não será oposição nestes tempos de adversidade e que estará com o Governo a cem por cento – discurso dum verdadeiro Vice-Primeiro-Ministro de Governo de Salvação Nacional.
***
A opção de Lemos Esteves parece óbvia. No entanto, à luz da Constituição, não se vê como o Chefe de Estado possa querer ou forçar um governo de salvação ou unidade nacional. Segundo a alínea f) do art.º 133.º (competência quanto a outros órgãos), compete ao Presidente da República “nomear o Primeiro-Ministro, nos termos do n.º 1 do artigo 187.º”. E este estabelece:
“1. O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais.
“2. Os restantes membros do Governo são nomeados pelo Presidente da República, sob proposta do Primeiro-Ministro.”.
À luz destas disposições constitucionais, cabe aos partidos propor a solução governativa. O Presidente pode querer e sugerir, mas não a pode exigir (É o Primeiro-Ministro quem propõe os outros membros do Governo). Recorde-se que, após a vigência da Junta de Salvação Nacional e durante os seus primeiros tempos, os seis governos provisórios, embora legítimos, eram tudo, menos de salvação ou de unidade nacional; os ditos governos de iniciativa presidencial, que Ramalho Eanes nomeou e empossou, aconselhado por constitucionalistas da praça, tiveram sorte efémera: o de Nobre da Costa viu o programa rejeitado no Parlamento; o de Mota Pinto caiu por rejeição, pela segunda vez, das Grandes Opções do Plano; e o de Lourdes Pintasilgo cumpriu a sua missão, porque foi constituído com o aval dos partidos com vista à preparação eleições intercalares. Com a revisão constitucional de 1982, os constitucionalistas deixaram de admitir governos de iniciativa presidencial.
O articulista em referência parece confundir governo de salvação nacional ou de unidade nacional com governo de coligação – um governo inicialmente apontado por Lemos Esteves é constituído, não com base em partidos, mas em cidadãos idóneos – e optar por uma coligação PS/PSD, bloco central, cuja experiência (1983-1985) foi voluntariamente interrompida pelo PSD.
Por falarmos de representação da maioria dos eleitores votantes na governança, essa pode ser viabilizada tanto por PS/PSD (E porque não PS/PSD?) como por PS/BE/CDU/PAN, tendo que se exigir, em qualquer solução, um compromisso de estabilidade, podendo ou não a solução passar tanto pela integração do Governo como pelo compromisso de incidência governamental.
Percebo que se entenda que BE e CDU não sejam solução por só tolerarem a UE, mas o eleitorado não deu a nenhum partido maioria, que não pode ser forçada agora; e não é exigível uma maioria de 2/3 para a governação, embora seja de exigir o compromisso de consenso no combate às crises. E a mostra no atinente ao estado de emergência mostra que tal consenso é possível, mas sem se eclipsar a função crítica. Se toda a carga pende para o mesmo lado, tomba.
2020.03.24 – Louro de Carvalho


A Páscoa – fruto da bendita e venerável árvore-cruz


Ao – ora vivo, ora melancólico – tempo outonal de amarelada e acastanhada degradação, com as folhas caídas ou a esvoaçar nos ares pela força do vento, sucede o rigor do frio invernal manifesto na gelidez necrótica da terra e das águas ou na aridez natural da paisagem onde sobressaem polimorfas árvores nuas, algumas das quais decrépitas. Podem destemperadamente as ruas ficar alagadas e os caminhos serem esventrados pela chuva copiosa ou o manto branco das neves isolar tugúrios ou cidades. Este cenário de constrição desoladora e, por vezes, de inerte abandono, cede o passo, no alvor da primavera, à policromia da paisagem, à multiplicação disseminadora das flores nos montes, nos prados e nos jardins, por vezes, fustigada pelas nevascadas de abril e pelas trovoadas de maio. Emaranham-se de folículos os arbustos, enroupam-se de folhagens as árvores mais humildes ou mais opulentas, sobretudo as que sofreram a poda de fevereiro-março, vestem-se de alegria homens e mulheres, crianças e jovens, adultos e idosos, alternando a roupa de trabalho com as fatiotas domingueiras. Tudo respira de vida, tudo impa de pujança, tudo ostenta jovialidade, tudo ferve e referve de alegria. É o rebentar da exuberância a clamar a natural maturação do fruto, pela queda das inutilidades. Analogamente, a sociedade consumista, perdida na futilidade do ter, desviada de Deus, acena ao homem moderno com a superafirmação de si, mesmo em detrimento dos semelhantes.
Porém, a cultura do espiritual e do cultural e cultual não desiste de se inculcar nas mentes, corações e atitudes das pessoas e das comunidades, abrindo-as à transcendência e ao cultivo ebulitivo dos valores universais e acalentador dos valores específicos de cada comunidade. 
Criam-se assimetrias sociais, cava-se o fosso entre poderosos e serviçais, orgulhosos ou soberbos e humildes, ricos e pobres. Escondem-se os valores que dignificam o homem e valorizam as sociedades. E o panorama exibe a indiferença, a mediocridade e a falta de sentido na vida. O rei vai nu nas más ou dúbias políticas de condução dos povos, é grosseira a gestão de tantas empresas e serviços, campeia a criminalidade na urbe ou no ermo, pululam as guerras sob pretextos diversos, promovem-se ou provocam-se os surtos migratórios descontrolados, com a concomitante exploração oportunista, criam-se e mantêm-se estruturas e mecanismos de descarte, espezinhamento e tráfico humano, desenvolvem-se esquemas de egoísmo feroz e as pessoas perdem-se no stresse ou na depressão. Se não vale a pena atirar com a culpa para a atitude ambiciosa do primeiro par humano, protótipo da insensatez do homem que se adora a si próprio, na inconsciência das suas limitações, é salutar atender à voz de Espírito, que, pairando sobre as águas como no princípio do mundo, sopra onde quer para renovar a face da Terra. E, assim – a par dum capitalismo desenfreado e sem rosto, alimentado pelos sistemas financeiros e por alguns trânsfugas da reta economia – multiplicam-se as propostas de postura e atividade generosas e solidárias; alicerça-se a edificação das estruturas de justiça social, por vezes, iluminada pela caridade evangélica; tenta-se a mitigação das desigualdades, relevando o valor social da propriedade e apregoando o destino universal dos bens, sem se desvalorizar a iniciativa e propriedade privadas; combatem-se as estruturas económicas e sociais de pecado; exalta-se a visualização do rosto de Deus presente naqueles que sofrem como naqueles que abnegadamente trabalham na prevenção, contenção e cura das doenças, mormente aquando dos diversos surtos epidémicos e mesmo pandémicos, como aquele por que passamos; e dá-se o devido valor àqueles e àquelas que zelam o bem comum com espírito dedicado e fraterno.   
E aqueles e aquelas que se dão ao cuidado de acalentar em si a Palavra de Deus, feita semente da VIDA que frutifica, perscrutando à sua volta, na atenção aos sinais dos tempos, encontrarão os germes da renovação, as motivações da fé, as razões da esperança, o fermento da caridade. Vale a pena mergulhar no largo mar dos valores, esvoaçar pelo esperançoso céu azul dos ideais, planar pelo vasto mundo das necessidades do próximo, firmar-se na terra firme da solidariedade humana e cristã e agarrar o vertiginoso júbilo da Páscoa! Coroa temporal da marcha imparável de Deus pelos caminhos dos homens, inaugurada com aquele passo natalício e alimentada pelos ensinamentos da vida de Cristo Mestre, é sustentada preventivamente pela Quaresma da austeridade e da nudez do homem perante o seu Deus, à voz da Igreja – Mãe e Mestra da Verdade – no propósito de construção do mundo novo, de fraternidade, justiça e paz.
E aquela frondosa árvore da ciência do bem e o mal, em que o homem se deixou enrolar pelo canto e encanto da sereia tentadora, cede perante a grandeza e visibilidade da Árvore da Vida, centrada, já não no ameno e fértil paraíso terreal, mas no âmago vital do magnânimo coração humano e no complexo cruzamento dos dinamismos comunitários – o verdadeiro éden da modernidade. E essa árvore da vida, abundantemente regada pelo sangue gorgolejante do Messias Senhor, é a cruz através da qual Ele uniu terra e céu e abraçou o mundo inteiro, de cidadãos dispersos pelas terrificamente sedutoras forças do mal, construindo o traço de união entre Céu e Terra, entre geografias diversas, etnias diferentes, histórias e pulsões ao mesmo tempo iguais e diversificadas. Essa árvore da vida de cujo cultor nasceu a Igreja, serva de Deus, testemunha do mundo de contradições e sacramento de salvação universal, apresenta-se na Páscoa da Ressurreição vazia do corpo desnudo de Deus, mas pejada de flores amadurecidas em frutos, não tangíveis pelas mãos carnais, não degustados pela fisicidade das bocas, não sujeito às maquias dos intermediários ou ao fisco dos Estados, mas saciantes e retemperadores das almas, alentadores das comunidades e geradores de intenso e imparável trabalho apostólico, construtor da autêntica liberdade e da excelsa dignidade da pessoa humana. É a árvore-cruz a lançar a sementeira discreta, mas irreversível, da renovação equitativa da humanidade. Deus o quer e os pobres, que não podem esperar, o anseiam!
É de esperar que a Páscoa de 2020, preparada e vivenciada a partir das nossas casas e com uma presença reduzida, simbólica e vicária de ministros ordenados e de ministros laicais no templo, sem compasso e sem osculações, não deixe de ser frutífera, generosa, solidária, comunicante e comungante. Pode mesmo acontecer que a Páscoa resultante da provação redunde em alegria merecida, em abolição do medo, em novo ardor para o envio apostólico, em movo espaço para o perdão de Deus, em redobrado reforço do sentido comunitário.
Faremos bem em pensar que a agonia orante no horto das oliveiras, a repentina detenção do Senhor, o julgamento no sinédrio e no pretório, a dolorosa caminhada para o calvário, a redentora crucifixão e morte, a afetuosa sepultura e a prometida ressurreição foram tudo menos expressão de comunidade. Não obstante, contêm em si e para nós a semente da comunidade, a força da Páscoa, o brado da ressurreição, base certa da nossa fé, e garantia segura da nossa própria ressurreição. É assim rico e contraditório, mas saboroso, eficaz e salutar o indizível fruto da bendita e veneranda árvore-cruz.
2020.03.24 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 23 de março de 2020

Celebrações da Semana Santa e da Páscoa em tempo de Covid-19


Tendo em conta o tempo difícil que o mundo está a atravessar, em razão da pandemia de Covid-19, e verificando-se o prolongado impedimento de celebrar comunitariamente a liturgia nas igrejas, tal como os bispos o têm indicado para os territórios da sua jurisdição, chegaram à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos consultas atinentes às próximas solenidades pascais.
Assim, para dar resposta que sirva de critério a observar comummente, a predita Congregação emitiu, com data do passado dia 19 de março, solenidade de São José, Padroeiro da Igreja Universal, um decreto, por mandato do Sumo Pontífice apenas para este ano de 2020 – assinado pelo Prefeito, cardeal Sarah, e pelo secretário, arcebispo Arthur Roche – cujo teor é o seguinte:
Sendo a Páscoa a “coroação do ano litúrgico”, não uma festa como as outras, mas “celebrada no arco de três dias, o Tríduo Pascal, precedida pela Quaresma e coroada pelo Pentecostes”, a sua data não é transferível.
Já no concernente à Missa crismal e, avaliando o caso concreto nos diversos países, o Bispo diocesano “tem a faculdade de a adiar para data posterior”.
Em relação ao Tríduo Pascal, onde a autoridade civil e eclesial impôs restrições, o decreto dá as seguintes indicações:
O Bispos dará indicações, de acordo com a Conferência Episcopal, para que na Igreja Catedral e nas Igrejas paroquiais, mesmo sem a participação dos fiéis, o bispo e os párocos celebrem os mistérios litúrgicos do Tríduo Pascal, avisando os fiéis da hora de início de modo que se possam unir em oração a partir das respetivas habitações, constituindo, neste caso, uma ajuda “os meios de comunicação telemática em direto, não gravada”. E devem a Conferência Episcopal e cada Diocese oferecer subsídios para ajudar a oração familiar e pessoal.  
Em Quinta-Feira Santa, nas Igrejas catedrais e paroquiais, na medida da real possibilidade, os sacerdotes da paróquia podem concelebrar a Missa na Ceia do Senhor, concedendo-se a título excecional a todos os sacerdotes a faculdade de celebrar neste dia, em lugar adequado, a Missa sem o povo. Omite-se o lava-pés, que já era facultativo. No termo da Missa na Ceia do Senhor, omite-se a procissão e guarda-se no Sacrário o Santíssimo Sacramento. Os sacerdotes que não têm a possibilidade de celebrar a Missa, em vez dela, rezarão as Vésperas (cf Liturgia Horarum).
Em Sexta-Feira Santa, nas igrejas catedrais e paroquiais, na medida da real possibilidade, o Bispo / o pároco celebra a Paixão do Senhor. Para a oração universal, o Bispo Diocesano terá o cuidado de estabelecer uma intenção especial pelos doentes, pelos defuntos e pelos doridos que sofreram alguma perda (cf Missal Romano, pg. 253, n. 12).
A Vigília Pascal celebra-se apenas nas igrejas catedrais e paroquiais, na medida da real possibilidade. Para o “Início da vigília ou Lucernário” omite-se o acender do fogo, acende-se o círio e, omitindo a procissão, passa-se ao “Exsultet”, precónio pascal. Segue-se a “Liturgia da Palavra”. Para a “Liturgia batismal”, apenas se renovam as promessas batismais (cf Missal Romano, pg. 320, n. 46). E avança-se com a “Liturgia eucarística”. Quem não pode unir-se à Vigília Pascal reza o Ofício de Leituras do Domingo de Páscoa (cf Liturgia Horarum).
Para os mosteiros, os seminários e as comunidades religiosas, o Bispo diocesano decidirá.
As procissões e demais expressões de piedade popular, que enriquecem estes dias, a juízo do Bispo diocesano, podem ser transferidas para outros dias (por exemplo, 14 e 15 de setembro).
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Em suma, o competente dicastério romano emitiu um decreto, unicamente para o ano corrente, sobre as celebrações da Semana Santa e do Tríduo Pascal, aplicável nos países afetados pela pandemia do Covid-19. Admite a possibilidade de adiamento da Missa Crismal, celebrada habitualmente na manhã de Quinta-feira Santa, que reúne o bispo e o clero da diocese, com a renovação das promessas sacerdotais e a bênção dos Santos Óleos – dos catecúmenos (a aplicar antes do Batismo), do crisma (a aplicar depois do Batismo das crianças, no Sacramento da Confirmação, na Ordenação Presbiteral e na Ordenação Episcopal, na Sagração do Altar…) e da unção dos doentes (a aplicar na ministração deste Sacramento).
Sobre as expressões de piedade popular e as procissões desta época, a Santa Sé admite o seu adiamento para outras datas “convenientes”, indicando como alternativas as datas de 14 e 15 de setembro, respetivamente, festa da Exaltação da Cruz e memória de Nossa Senhora das Dores.
O decreto apoia o recurso aos meios de comunicação e às novas tecnologias para a transmissão das celebrações, “considerando o impedimento de celebrar a liturgia comunitariamente”. No entanto, adverte para a necessidade da transmissão em direto das celebrações e não a exibição gravada ou a sua apresentação em diferido
Na Quinta-feira Santa, a Missa vespertina in Coena Domini pode ser celebrada por mais de um sacerdote, respeitando as normas sanitárias de cada país, nas várias igrejas paroquiais e sem presença de fiéis; omite-se, este ano, o tradicional gesto do lava-pés, bem como a procissão do Santíssimo Sacramento, no final da celebração.
Para a Sexta-feira Santa, dispõe-se que a celebração da Paixão do Senhor decorra sem a presença de assembleia, com uma intenção especial de oração “pelos doentes, os mortos e quem sofreu alguma perda”, sobretudo no contexto da pandemia.
A Vigília Pascal, a celebração mais importante do ciclo litúrgico, deve ser celebrada com a mesma disposição, quanto à ausência de fiéis, omitindo-se o ritual do fogo e a procissão inicial.
O decreto sublinha que, devido ao seu caráter específico, a data da Páscoa “não pode ser transferida” para outra altura.
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Nem por isso se deve deixar de ter em conta, quando celebrada integralmente, a riqueza e o significado da Vigília Pascal, a mãe de todas as vigílias.
A Igreja Católica celebra, nas últimas horas de Sábado Santo e nas primeiras de Domingo de Páscoa o principal e mais antigo momento do ano litúrgico, a Vigília Pascal, assinalando a ressurreição de Jesus. Esta é uma celebração mais longa do que habitual, em que são proclamadas mais passagens da Bíblia do que as três habitualmente proclamadas aos domingos, continuando com uma celebração batismal e a comunhão.
A vigília começa com um ritual do fogo e da luz que evoca a ressurreição de Jesus; o círio pascal é abençoado, antes de o presidente da celebração inscrever a primeira e a última letra do alfabeto grego – alfa e ómega –, e inserir cinco grãos de incenso em memória das cinco chagas da crucifixão de Cristo, bem como o ano em curso.
A inscrição das letras e do ano no círio são acompanhadas pela recitação da fórmula em latim:
Christus heri et hodie, Principium et Finis, Alpha et Omega. Ipsius sunt tempora et sæcula. Ipsi gloria et imperium per universa æternitatis sæcula” (Cristo ontem e hoje, princípio e fim, alfa e ómega. Dele são os tempos e os séculos. A Ele a glória e o poder por todos os séculos, eternamente).
O ‘Aleluia’, suprimido no tempo da Quaresma, reaparece em vários momentos da missa como sinal de alegria.
A celebração articula-se em quatro partes: a Liturgia da Luz ou “lucernário”; a Liturgia da Palavra; a Liturgia Batismal; a Liturgia Eucarística.
A Liturgia da Luz consiste na bênção do fogo, na preparação do círio e na proclamação do precónio pascal.
A Liturgia da Palavra propõe sete leituras do Antigo Testamento – seguidas do respetivo salmo responsorial e oração – que recordam “as maravilhas de Deus na história da salvação” (Gn 1,1-22; Gn 22,1-18; Ex 14,15 – 15,1; Is 54,5-14; Is 55,1-11; Br 3,9-15.32 – 4,4; e Ez 36,16-17a.18-28), após o que se canta o Gloria in excelsis Deo, e duas do Novo Testamento: Rm 6,3-11 (leitura apostólica sobre o Batismo cristão), após o que se canta solenemente o Aleluia, e o anúncio da Ressurreição segundo os três Evangelhos sinóticos (Mateus 28,1-10, no Ano A; Marcos 16,1-7; Ano B; e Lucas 24,1-12, no Ano C).
A Liturgia Batismal é parte integrante da celebração, pelo que, mesmo não havendo ministração do Batismo, se faz a bênção da fonte batismal e a renovação das promessas do Batismo. Do programa ritual consta, ainda, o canto da ladainha dos santos, a bênção da água, a aspersão de toda a assembleia com a água benta e a oração universal.
Por fim, segue a Liturgia Eucarística nos termos habituais, mas com o Prefácio Pascal I e a bênção solene adequada. E a despedida é aleluiática.
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Já se referiu que os crentes estão novamente em catacumbas, mercê da pandemia, com a diferença de que as catacumbas são as casas de cada um, ficando os templos quase vazios. Talvez seja de estabelecer também o paralelo entre o cenário litúrgico de agora e o que se passou a viver desde que o povo deixou de perceber o latim, língua em que se vertiam o textos litúrgicos, até ao tempo do movimento litúrgico e do movimento bíblico, alguns dos precursores do Concílio Vaticano II. Então, sacerdote e ministros, habitualmente de costas para o povo, tornavam-se representantes e intérpretes da comunidade e, quando se voltavam para saudar a assembleia ou para lhe explicar a Palavra de Deus, a que não tinha acesso direto, eram mensageiros de Deus. Era o sacerdócio de mediação. Na altura, o povo tinha de estar presente para cumprir o preceito, mas alheado do mistério, que não percebia, e talvez ocupado com práticas devocionais, algumas de forte espiritualidade, enquanto de vez em quando havia culto luzidio com ministros adequadamente preparados, boa cantoria e música de órgão: agora o povo não pode ir ao templo, mas acompanha a celebração a partir de casa, porque percebe, tem livros, rádio, televisão e internet, com os ministros ordenados e ministros laicais no templo, embora guardando entre si a distância regulamentar. Não são apenas representantes do povo ou mensageiros de Deus, mas comunicadores à distância, que se faz curta, e tornam-nos coparticipantes na celebração dos santos mistérios. E faz-se a comunhão espiritual.
Valetete, o tempora, o mores. Viva a reforma conciliar na totalidade!
2020.03.23 – Louro de Carvalho      

O significado da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41)


Decididamente o Evangelho de João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar o Homem Novo. O chamado “Livro dos Sinais(cf Jo 4,1-11,56) recorre aos sinais da água, do pão, da luz, do pastor e da vida para uma série de catequeses em torno da ação criadora do Messias. E o capítulo 9.º do 4.º Evangelho constitui, no contexto da festa das colheitas (Festa da Sukkot – com a iluminação dos 4 grandes candelabros do átrio das mulheres, no Templo de Jerusalém), a catequese da luz para caraterizar a ação criadora e vivificadora do Mestre.
A cura do cego de nascença ocorre somente em João e a sensação provocada pela leitura deste episódio suscita a nossa admiração pelo modo como o presente Evangelho se furta a um desfile de milagres avulsos, antes valorizando um elenco reduzido de ocorrências milagrosas dotadas de forte coesão significativa. E a narrativa destes 41 versículos que preenchem todo o capítulo desagua na afirmação de Jesus para um juízo: “vim eu a este mundo para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos” (v. 39) e liga-se a uma das grandes temáticas joânicas, a dialética da luz/escuridão, categoricamente assumida por Jesus, que declara: “Enquanto estiver no mundo, Eu sou a luz do mundo” (v. 4). De certo modo, todo este capítulo funciona como sucedâneo e ilustração da asserção emitida no capítulo 8.º: “Eu sou a luz do mundo(Jo 8,12).     
Protagonizam o episódio, Jesus e um cego de nascença. Os cegos pertenciam ao grupo dos excluídos – esta como outras deficiências, segundo a teologia oficial, resultava do pecado dos próprios ou dos pais (nos caso dos deficientes natos, pecado cometido pela criança no seio materno ou pelos pais) –, mas um dos objetivos da vinda do Messias era dar vista aos cegos (cf Lc 4,18).
A cegueira, enquanto doença impeditiva do homem de estudar a Lei, era resultado de pecado extremamente grave. Considerada uma enorme maldição de Deus por excelência, impedia o paciente de servir de testemunha no tribunal e de participar nos ritos no Templo.
Este capítulo não é reportagem ou história sobre a cura dum cego, mas uma catequese sobre Jesus, a luz que veio iluminar o caminho dos homens. O cego simboliza os homens e mulheres que vivem privados da luz, prisioneiros das cadeias que os impedem de chegar à plenitude.
Num primeiro quadro (vv. 2-5), Jesus apresenta-se como “a luz do mundo”. Perante o cego de nascença, os discípulos ficam preocupados em saber se foi o cego que pecou ou se foram os pais (mentalidade retribucionista). Jesus, negando a relação entre pecado e sofrimento, invalida-lhes a preocupação e a pergunta. E, sendo a ocasião propícia par avançar, mostra que a missão que o Pai lhe confiou é ser “a luz do mundo” e encher de luz a vida de quem vive na escuridão.
Num segundo quadro (vv. 6-7), Jesus prepara-se para dar a “luz” ao cego. Começa por cuspir no chão, faz barro com a saliva e unge com o barro os olhos do cego – evocação do gesto criador de Deus que amassou o barro e plasmou o homem (Ireneu, Contra as heresias, 5.15.2). Só João e Marcos põem Jesus a cuspir, o que nos causa admiração, visto que Lucas e Mateus, tendo bebido na fonte de Marcos, eliminam este gesto do Mestre. Quanto ao barro, a palavra grega aqui empregue é “pêlós”, usada por Job quando diz a Deus: “Lembra-te de que me plasmaste com o barro(Jb 10,9). Mas, segundo a versão dos LXX, em Génesis (Gn 2,7), a palavra utilizada para “pó” é “khous” quando Deus plasmou (éplasen) Adão. A saliva, que se pensava transmitir a força ou energia vital equivale ao sopro de Deus, que deu vida a Adão (cf Gn 2,7). Assim, Jesus juntou ao barro a sua própria energia vital, repetindo o gesto criador de Deus, pois a missão de Jesus é criar o Homem Novo, animado pelo Espírito Santo, o dom de Deus.
É de registar que a cura não foi imediata, mas requereu a cooperação do paciente, que obedeceu, começando a trilhar pela obediência a via da fé. A referência ao banho na piscina do “Enviado” (o Evangelista informa que Siloé significa “enviado”) alude à água de Jesus (o enviado do Pai), a água do Espírito Santo, prometida à samaritana (Jo 4,10.13-14) e, depois, aos judeus, que torna os homens novos, livres das trevas/escravidão. A interpretação eclesial, inspirada no sentir da comunidade joânica vê aqui uma alegoria do Batismo (pela unção e banho: “lavei-me e comecei a ver), o “sacramento da iluminação”, pois quem quiser sair das trevas para viver na luz, como Homem Novo, tem de aceitar a água do Batismo, para nascer de novo, como exigia Jesus na conversa com Nicodemos (Jo 3,1-21) – isto é, tem de optar por Jesus e acolher a sua oferta de salvação.
A seguir, o evangelista põe em cena várias personagens, que, representando vários papéis, assumem atitudes diversas face à cura do cego no decurso da investigação sobre a cura.
Os vizinhos e conhecidos do cego, que, vendo o dependente e inválido transformado em homem livre e independente, se interrogam e percebem que de Jesus vem o dom da vida, mas não ousam dar o passo para ter acesso à luz, representam os que percebem a novidade e sabem que a proposta é libertadora, mas vivem na inércia, sem disposição de sair da zona de conforto.
Ao grupo dos fariseus, que sabem perfeitamente que Jesus oferece a luz, mas a recusam, interessa continuar com o esquema das trevas. Estes representam os que têm conhecimento da novidade de Jesus, mas não se dispõem a acolhê-la, confortáveis que estão nos seus mecanismos de autossuficiência e não dispostos a renunciar às trevas. Opõem-se à luz e não aceitam que alguém queira sair da escravidão para a liberdade. Ao verificarem que o homem curado por Jesus não está disposto a regressar aos esquemas de escravidão, expulsam-no da sinagoga: entre as trevas e a luz não pode haver meio-termo. Acresce que a cura ocorrera ao sábado. Parece ser sempre ao sábado que Jesus é apanhado em situações destas. No capítulo 10.º Jesus afirma que “a Escritura não pode ser anulada” (Jo 10,35), mas abre exceções, como se vê pelas asserções bombásticas no Evangelho de Marcos: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. O Filho do Homem até do sábado é Senhor(Mc 2,27-28). Assim, Jesus refuta a asserção de que a não observância do sábado implica a pena de morte (cf Nm 15,35-36).
E os pais do cego limitam-se a constatar o acontecimento: o filho nasceu cego e agora vê. Porém, não se comprometem. É o medo de quem é escravo e não tem coragem de passar das trevas para a luz: “tinham medo de ser expulsos da sinagoga”. Embora o medo dos judeus seja recorrente no Evangelho de João, no caso dos pais do cego de nascença, ora curado, o medo explica-se pelo facto de vir a ser expulso da sinagoga quem afirmasse que Jesus era o Cristo, pois, nos sinóticos, tal asserção era apanágio dos demónios (Mc 1,24; 3,11; Lc 4,34), pelo menos até à profissão de fé de Pedro em Cesareia de Filipe (vd Mt 16,13-20; Mc 8,27-30; Lc 9,18-20). João, porém, dá-nos outra perspetiva: as pessoas que entravam em contacto com Jesus ficavam aptas a reconhecê-lo como o Cristo; e, para fazer face a tal situação, as autoridades judaicas já tinham determinado que, se alguém o fizesse, seria expulso da sinagoga. “Sinagoga” designava tanto o local do encontro da comunidade israelita como comunidade do Povo de Deus. Ser expulso da sinagoga implicava a excomunhão, com a declaração de herege e apóstata, caindo na solidão, ridículo, descrédito e marginalidade. Assim, aqueles pais preferem a segurança da ordem estabelecida aos riscos da vida livre. Representam quem, por medo, prefere a escravidão, não provocando os chefes ou a opinião pública, a correr o risco da transformação salvadora.
Por fim, temos de considerar o percurso do homem curado por Jesus. Antes de se encontrar com Jesus, é um homem dependente e limitado, prisioneiro das trevas. Depois, recebe a luz. Tanto assim é que, perante as dúvidas se este homem era ele mesmo o cego ou outro parecido com ele, afirma categoricamente: “Sou eu”. Veem alguns nesta expressão grega “egô eimi”, tantas vezes ouvida da boca de Jesus, a convicção do ex-cego a dizer “sou eu pós-Jesus”. Com Jesus não se passa apenas da escuridão para a luz, mas também e sobretudo de “não ser” para “ser”.
O relato descreve, com simplicidade, a progressiva transformação por que vai passando o homem. Nos momentos imediatos à cura, não tem ainda certezas, pois, quando lhe perguntam por Jesus, responde que não sabe; mas, quando lhe perguntam quem é Jesus, responde: “É um profeta (excetuando Elias e Eliseu, os profetas no At não se destacam como taumaturgos). Entretanto, a luz vai-o amadurecendo progressivamente. Assim, interpelado pelos dirigentes e intimado a renegar a luz e a liberdade, torna-se o homem das certezas e das convicções argumentando com agilidade e inteligência e, fazendo uso da ironia, recusa-se a regressar à escravidão. Mostra-se o homem livre, sem medo, dando aos interlocutores lições sobre Jesus e sobre quem teme a Deus:
Sabemos que Deus não ouve pecadores, mas ouve o homem temente a Deus e pratica a sua vontade. Ninguém jamais ouviu que os olhos de um cego de nascença tivessem sido abertos. Se esse homem não fosse de Deus, não poderia fazer coisa alguma.” (Jo 9,31-33).
Na expressão “temente a Deus”, repare-se no adjetivo “theosebês” (derivado do verbo “sébomai”, adorar, venerar, respeitar, honrar), que unicamente aparece aqui em todo o NT.
Finalmente, temos o desfecho do drama, com a descrição do estádio final da caminhada: a adesão plena a Jesus (vv. 35-38) da parte do beneficiário da misericórdia divina. Encontrando o que fora cego, Jesus convida-o explicitamente à fé no Filho do Homem. E a resposta é de adesão total: “Creio, Senhor”. “Senhor” (kyrios) era o título com que a comunidade cristã primitiva designava Jesus, o Senhor glorioso. Depois, como refere o texto, o que fora cego prostrou-se e adorou Jesus. Ora, adorar Jesus significa reconhecê-Lo como o portador do projeto de Homem Novo que Deus apresenta aos homens.
Neste percurso está simbolizado o caminho do catecúmeno. O primeiro passo é o encontro com Jesus; depois, o catecúmeno manifesta a sua adesão à luz e vai amadurecendo a sua descoberta. Torna-se, progressivamente, um homem livre, confiante; e esse caminho desemboca na adesão total a Jesus, acreditando que Ele conduz a história e é o salvador do homem. Depois, ao cristão nada mais interessa do que seguir Jesus, disponibilizando-Lhe o coração.
A missão de Jesus é, pois, a criação do Homem Novo. Deus criou o homem para a liberdade e felicidade, mas o egoísmo e a autossuficiência, dominando o coração do homem e prenderam-no na cegueira humana, de quem não quer ver, e frustraram o projeto de Deus. A missão de Jesus consiste em destruir a cegueira, libertar o homem, abrir-lhe o coração e fazê-lo viver na luz. É a nova criação, é o nascimento do Homem Novo, que vive na liberdade rumo à plenitude.
Refira-se que o tema da recuperação da vista é típico de Isaías (vd Is 29,18; 35,5) e cegar quem vê ocorre no mesmo livro (vd Is 6,10; 42,19). João claramente quer ensinar que receber Jesus é receber a luz do mundo e rejeitá-Lo é rejeitar a luz, fechando os olhos. Assim, os seus contemporâneos, se fossem cegos, não teriam pecado, mas, como estão convictos de que veem, o seu erro é maior e inamovível. É, pois, necessário despirmo-nos da cegueira e acorrer à Luz.
2020.03.22 – Louro de Carvalho

domingo, 22 de março de 2020

Cuidado psicológico durante o tempo de quarentena – II



Na sequência do texto “Cuidado psicológico durante o tempo de quarentena –I”, com base na publicação da agência Ecclesia, que transcreve um conjunto de orientações da Equipa de Vida Religiosa e Sacerdotal da Unidade Clínica de Psicologia (UNINPSI) da Universidade Pontifícia de Comillas e que sintetizei e adaptei para uso também de leigos, cumpre dar conta da série de recomendações do foro psicológico e exercícios físicos de relaxamento que a mesma UNINPSI propõe na mesma peça que divulgou. Na verdade, não podemos esquecer o fenómeno da interação psicossomática e a necessidade da sua valorização.
É normal que a quarentena ofereça diferentes momentos e estados emocionais: stresse, ansiedade, solidão, frustração, tédio, aborrecimento, sentimentos de medo e falta de esperança, etc. – efeitos que podem prolongar-se depois do isolamento ou aparecer depois dele.
Importa cuidar dos próprios atos, pensamentos e sentimentos para lograr a resposta adequada aos períodos em que possa faltar o ânimo e cresça a sensação de incerteza ou desassossego.
Há quem se  encontre em isolamento, embora não esteja afetado pela doença, e está a sentir, de forma persistente ou com grande intensidade, alguma das seguintes emoções: nervosismo, agitação ou tensão, com sensação de perigo iminente e/ou pânico; pensamento obsessivo na doença ou preocupação de vir a ficar infetado(a); necessidade constante de estar a ver ou ouvir informações sobre este tema e dificuldade em se interessar por outras questões; dificuldade excessiva de concentração nos serviços quotidianos, custando imenso a realização do trabalho e ficando como que paralisado(a) pelo medo; estado de alerta, analisando continuamente as próprias sensações corporais e interpretando-as como sintomas de doença, mesmo sem serem sinais patológicos; dificuldade de controlo da própria preocupação e formulação constante de perguntas às pessoas que estão por perto sobre o estado de saúde, advertindo-as sobre os graves perigos que correm devido à situação atual; rejeição exagerada do contacto com outras pessoas, com medo de contágio; perceção dum aumento do ritmo cardíaco, da respiração acelerada, de transpiração ou tremuras sem causa justificada; dificuldade em manter um sono reparador; e agravamento ou reaparecimento dos problemas emocionais.
Nesse caso, recomenda-se a real identificação dos pensamentos causadores do mal-estar; o reconhecimento e aceitação das emoções; o questionamento do que se está a viver e procura de provas da realidade; o combate à saturação de informação; a consulta das fontes oficiais; a serena verificação da informação que se partilha, especialmente a usada nas redes sociais; a recusa do contributo para a difusão de boatos e notícias falsas; a prática dos cuidados de higiene adequados, recomendados pelas autoridades de saúde, mas tendo em conta que não é a única coisa a fazer ao longo do dia; a procura de outros assuntos de conversa; a procura de apoio nos membros da comunidade – sacerdotes, religiosos(as), familiares, colaboradores da obra de apostolado, etc.; a ajuda quem está perto a manter a calma e a desenvolver um pensamento adaptado a cada situação; o esforço por fazer vida o mais normal possível e continuar com as rotinas habituais, dentro da situação em que nos encontramos e reorganizar o horário próprio para os contextos em que não for possível mantê-las; e o cuidado com as atitudes de rejeição, estigma e discriminação.
De facto, pensar constantemente na doença pode levar a que apareçam ou se acentuem os sintomas que façam crescer o mal-estar. E a alternativa é falar sobre o que entusiasma. Talvez seja bom falar da própria situação, partilhando-a com as pessoas mais próximas – merecedoras de confiança – para encontrar a ajuda e o apoio necessário, pois as pessoas que nos apreciam sentir-se-ão melhor se souberem como estamos.
Considerando que, a partir de alguns fóruns, podem estar a ser transmitidas imagens alarmistas e excessiva informação a partir duma perspetiva negativa, engrandecendo o fenómeno e criando a perceção de ameaça maior que o normal, há que reconhecer os factos, confiar na informação dada pelos meios científicos oficiais, confirmada e veiculada por especialistas: Ministério da Saúde, Direção Geral de Saúde, Ordem dos Médicos, Organização Mundial de Saúde, outros organismos oficiais, etc. E viver constantemente conectado(a) não vai fazer com que se fique mais informado(a); só aumentará desnecessariamente a sensação de risco e nervosismo.
É bom não alimentar o próprio medo nem o dos outros. O medo pode levar-nos a comportar-nos de forma impulsiva, rejeitando ou discriminando certas pessoas. Ora, se alguém, nestes dias, se alguém se sentiu vítima de alguma destas atitudes, deve entender que há pessoas que estão ainda mais nervosas e que isto é, em princípio, fruto do próprio mal-estar.
Quem pertence a um grupo de risco tem de seguir as recomendações e medidas de prevenção ordenadas pelas autoridades de saúde e confiar nelas; informar-se de maneira realista e seguir as linhas sugeridas acima; não banalizar o próprio risco para tentar afastar a sensação de medo ou apreensão, agindo como se não estivesse a acontecer nada (uma forma natural que temos para nos protegermos face ao que nos provoca angústia ou muita preocupação), mas falar do que preocupa ou provoca medo, para poder encará-lo, sem necessidade de o esconder; não empolar o próprio risco, sendo precavido(a) e prudente sem alarmes, mas sabendo que, por vezes, o exagero serve para nos aliviarmos e protegermos do que nos assusta; não realizar ações que nos comprometam, com a pretensão pouco realista de ser invulnerável, evitando comportamentos que favoreçam atitudes de vício; e ser objetivo(a) e adotar uma perspetiva global, tendo em conta que há muitos cientistas a trabalhar nisto pelo mundo fora e que estão a dar-nos conselhos para resolver esta situação da melhor forma possível.
Quem está infetado com a doença deve seguir as recomendações anteriores e, além disso, observar o seguinte: tendo em conta que quanto mais desconhecida é uma doença, mais inquietação pode causar, deve procurar controlar os pensamentos invasivos, não imaginando o pior por antecipação; não se alarmar de forma desnecessária, sendo realista, já que os dados disponíveis apontam que a maioria das pessoas está a conseguir ficar curada; e, perante o medo, apoiar-se na experiência de situações parecidas em que houve êxito pessoal.
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No atinente a exercícios de relaxamento, é de considerar que há diversas variantes e diferentes modalidades e cada pessoa encontra benefícios em técnicas diferentes. Aqui apresentam-se três, praticamente por transcrição: controlo da respiração; respiração diafragmática; e visualização.
Controlo da respiração
Constitui uma técnica simples contra a sensação de ansiedade, de que um dos sintomas é a respiração superficial. Pode ser posta em prática em qualquer lugar:
1. Inspirar pelo nariz em vez de respirar pela boca;
2. Respirar suave e profundamente, várias vezes;
3. Notar como o abdómen incha quando se inspira e desincha quando se expira;
4. Fazer algumas inspirações profundas pelo nariz, seguidas de expirações lentas e suaves pela boca.
Respiração diafragmática
Precisa de um pouco mais de treino e dum lugar tranquilo em que a pessoa se possa concentrar:
1. Colocar-se numa posição cómoda e tentar relaxar os músculos;
2. Colocar uma mão no peito e outra no abdómen;
3. Apanhar ar lentamente pelo nariz, levando-o até à mão que se tem em cima do abdómen, devendo ficar parada a mão do peito;
4. Quando se conseguir levar o ar até ao abdómen, retê-lo lá durante uns segundos;
5. Soltar o ar pouco a pouco pela boca, de modo que se sinta que o abdómen se vai abatendo, devendo a mão do peito continuar parada;
6. Repetir várias vezes este exercício.
Visualização
Combina as técnicas de relaxamento com as de meditação:
1. Procurar um lugar cómodo e sem interrupções;
2. Iluminar o espaço de forma suave e agradável;
3. Pôr música relaxante, mas com volume não muito alto, apenas o suficiente para que se possa escutar, mas sem perturbar nem distrair;
4. Fechar os olhos e concentrar-se na respiração, sentindo o ar que entra pelo nariz e sai pela boca;
5. Pensar num céu azul, percebendo a energia que dá o sol e centrando a atenção no sentimento que os dias assim provocam em nós;
6. Desfrutar da visão do céu durante uns minutos;
7. Juntar agora o mar à visão que se está a ter, escutando o som das ondas;
8. Inundar o cérebro com esta visão e concentrar-se nos sentimentos que ela provoca;
9. Estar cada vez mais relaxado(a) e, quando o conseguir, ver-se a si mesmo(a), nessa paisagem, caído(a) sobre a relva ou na areia da praia, sem mais ninguém à volta;
10. Durante uns minutos, desfrutar da sensação de relaxamento e paz que inunda;
11. Ver-se a si mesmo(a) a levantar-se na paisagem e começar a esticar os músculos do corpo, pouco a pouco e sem abrir os olhos;
12. À medida que for esticando, ir também tomando consciência de novo da música que envolve e, quando estiver preparado(a), abrir os olhos lentamente, sem pressas, com tranquilidade.
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Enfim, ter cuidados, mas também uma calma e uma serenidade inspiradoras. Deus não está longe nem a dormir ou de férias. Ele está connosco e ouve-nos quando O invocamos.
2020.03.22 – Louro de Carvalho

Cuidado psicológico durante o tempo de quarentena - I

A agência Ecclesia publicou, a 21 de março, um conjunto de orientações da Equipa de Vida Religiosa e Sacerdotal da Unidade Clínica de Psicologia (UNINPSI) da Universidade Pontifícia de Comillas para religiosos e sacerdotes no tempo de isolamento profilático, que podem ser úteis para todos, pelo que se dão aqui em síntese e com as adaptações ao seu uso também por leigos.
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Considerando que a situação que estamos a enfrentar é nova e implica mudança de rotinas, atividade e abordagem da missão, tem cada pessoa de se adaptar a esta realidade nem sempre fácil de gerir, mas que pode ser vivida “a partir do Espírito e da confiança, como oportunidade de crescimento e de criatividade”, de modo que “possamos continuar a cuidar uns dos outros – dos de perto e dos de longe – e que possa cada um sentir-se acompanhado nas suas necessidades médicas, psicológicas e espirituais”.
No preâmbulo, sustenta-se a importância de compreender do melhor modo esta realidade  e adaptar-se a ela, reconhecendo a situação (pessoal, comunitária, social, eclesial) em que nos encontramos, sem gerar dinâmicas alarmistas infundadas; manter-se informado de forma suficiente e verídica, sem defeito e excesso; e seguir as recomendações dos organismos oficiais e os seus planos de ação, com especial atenção se se viver com pessoa que tenha sintomas de infeção, cujos testes tenham resultado positivo ou que precise de isolamento.
No âmbito da vida em comum, é de referir que esta situação constitui uma oportunidade para viver a partir da fraternidade e da união das almas, o que requer atenção, para que o cenário de convivência seja lugar de encontro, sossego, proximidade e liberdade.
Porque não temos a mesma reação face a uma situação de tensão, devemos compreender as reações dos outros e aceitar as nossas sem culpabilizações, procurar momentos de serenidade para falar do que se passa, de forma madura e honesta, e encontrar motivos para conversas alternativas e fomento do diálogo espiritual e do sentido do humor.
Tem de se colaborar na planificação da nova situação da comunidade ou das pessoas com quem se vive, dando espaço à criatividade: atividades de tipo celebrativo, oração em comum, lazer partilhado (filmes, jogos de mesa, recomendações de leitura, etc.), cozinha e outros serviços domésticos.
Há que manter horários comunitários que favoreçam o intercâmbio e o diálogo observando sempre as recomendações sanitárias e dar especial atenção aos nossos encargos e serviços na comunidade, instituição ou família a que pertencemos, respeitando os espaços comuns e os tempos de silêncio, bem como recebendo e transmitindo as mensagens e a informação acerca da pandemia, da quarentena e de outras circunstâncias do COVID-19 com prudência e de forma construtiva, sem murmurações, rumores sem fundamento ou comentários isolados acerca do tema para não favorecer tensões desnecessárias nem situações comunitárias de dificuldade.
Em termos da vida pessoal, porque a vida continua, é de elaborar um horário de planificação pessoal, reajustável, que induza rotinas e anime a manutenção dum certo nível de atividade; usar o tempo livre, que agora abunda, para atividades que ajudem a suscitar pensamentos e emoções positivas – leitura, aprofundamento dalgum tema de interesse, tomada de notas pessoais, reflexão, etc.; fazer exercício físico em casa e algum trabalho manual; ter cuidado com a alimentação, pois “a ansiedade vai direita ao estômago”; dedicar algum tempo diário a exercícios de relaxamento, que possam ser úteis no momento de diminuir as consequências da quarentena; respeitar o espaço e o tempo pessoal, para momentos de solidão, silêncio e exercício de autonomia pessoal; evitar ou suavizar, em nome da paz comunitária, os conflitos que surjam; e cuidar dos irmãos mais frágeis, sobretudo pessoas idosas, pessoas doentes ou que precisam de uma atenção especial, bem como comunicar aos outros com quem vivemos as nossas necessidades de ajuda.
No quadro da vida de oração e celebração, esta paragem forçada aproxima-nos duma maior interiorização da vida e do que nela acontece. Assim, é bom encarar o momento com profundos olhos de fé e considerá-lo como tempo favorável. Ao tempo litúrgico da Quaresma, proposto pela Igreja une-se o da quarentena, tornando conveniente a oração, o jejum e a penitência. Assim, é-nos dado o ensejo de fortalecer a leitura espiritual, a reflexão pessoal e a vida de oração. Este é um tempo favorável para ler (uma das melhores maneiras de vincular sonhos, pensamentos e sentimentos, porque os livros ajudam-nos a ir para além de nós mesmos e a conectar-nos com o que há de mais profundo em nós); fazer reflexão orante, pessoal e profunda sobre a situação especial que estamos a viver; orar pessoal e comunitariamente, de forma mais criativa; apresentar ao Senhor, com especial atenção, a vida de quem está a sofrer de forma mais dolorosa a doença; pedir pelos nossos familiares, que talvez nem possamos acompanhar como gostaríamos; e orar por tantos profissionais (no campo da saúde e noutros âmbitos) que dão o melhor no trabalho pelo bem comum.
Não sendo possível participar na celebração comunitária da Eucaristia e de outros sacramentos, é tempo para rezar juntos e saborear a Liturgia das Horas; criar espaços de diálogo espiritual, que nos leva a que, embora estejamos rodeados de menos pessoas, a sentirmo-nos apoiados e acompanhados pela oração de toda a Igreja; viver o kairós (tempo favorável), em que a verdadeira penitência e jejum têm a ver com o cuidado de quem está ao nosso lado; e utilizar as plataformas digitais, oferecidas pelos mais variados âmbitos e instituições eclesiais, que podem ajudar a viver este momento através das redes sociais, desde que não nos levem a isolar-nos.
Neste último aspeto, a agência Ecclesia refere que, no contexto português, não faltam emissões online, no Facebook ou no Youtube, para as mais variadas sensibilidades, destacando a programação da Ecclesia (agencia.ecclesia.pt), com transmissões de celebrações religiosas a partir do Santuário de Fátima, de comunidades religiosas e de outras instituições eclesiais, mas também com um amplo arquivo de programas de cultura religiosa e de catequese. Não se pode esquecer também a proposta dinamizada pela Companhia de Jesus, através da Rede Mundial de Oração do Papa, com as plataformas digitais Click to Pray clicktopray.org (que propõe três momentos de oração diários com o Papa)Passo-a-rezar passoarezar.net (com propostas de oração para cada dia), bem como  o trabalho do Secretariado Nacional de Liturgia (que  tem disponibilizado alguns subsídios acessíveis em liturgia.pt) e, por exemplo, a arquidiocese de Braga, que transmite online e no Youtube diariamente a celebração da Missa e semanalmente, à sexta-feira, a catequese do Bispo auxiliar Dom Nuno Almeida.
A situação de isolamento não impede de continuar a participar nos apostolados e na missão, mas terá de se encontrar um modo diferente do habitual, dada a importância que isso tem para pessoas que não vivem connosco.
Assim, devem-se utilizar as tecnologias para nos mantermos unidos às pessoas que são mais queridas e que mais precisam, conversando com elas sobre a forma como se está a encarar esta nova realidade e como se está a viver interiormente este tempo, mas evitando criar inquietação, medos, incertezas obscuras e alarmismos desnecessários. E a realização de videochamadas em que as pessoas se veem reciprocamente é uma forma de compensar a ausência de contacto físico, bem como de produzir serenidade e calma.
É de continuar ligado(a) às pessoas vulneráveis, sobretudo às mais idosas que, nestes momentos, são as mais frágeis, devido à sua solidão e debilidade física, e manter contacto com os companheiros(as) de missão apostólica, partilhando situações específicas da instituição ou da paróquia e criando uma rede de colaboração entre diferentes pessoas ou instituições próximas: grupos de apoio a pessoas vulneráveis, uso partilhado das redes sociais para informação útil e precisa acerca da evolução, espaços virtuais de oração, formação, etc.
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Enfim, enquanto estamos a passar por esta situação de quarentena e isolamento, flui o caminho quaresmal. Nestas semanas de recolhimento há muito mais que quarenta dias de resistência. No meio de tudo isto, podemos intuir a presença – contínua, misteriosa e desconcertante – do nosso Deus, que não fecha as suas portas a nada nem a ninguém. São muitas as imagens bíblicas que nos vêm à mente e se tornam fortes na nossa oração: deserto, combate, sede, desejo, paixão… todavia, queremos continuar a manter o olhar fixo n’Aquele em quem confiamos: o Senhor Jesus, que por nós foi crucificado e ressuscitou. É Ele a água que nos mata a sede, é a luz no meio da perplexidade, é a vida que – no profundo da falta de sentido – mostra o paradoxo da luta por brotar.
Também nós precisamos de nos cuidar. Fazemos parte duma Igreja plural onde cada um tem uma missão que vem de Deus. Continuamos o compromisso de serviço e ajuda, mas precisamos de aprender que não podemos fazê-lo sem cuidar dos outros. A vida contemplativa possui forças intensas e intuições muito mais profundas que nos podem iluminar.
A situação em que nos encontramos dependerá muito do lugar onde estamos: um mosteiro, um convento, um apartamento, uma moradia, uma paróquia, uma residência, uma enfermaria, um colégio, uma casa de acolhimento, um hospital, uma comunidade de inserção, um seminário ou uma casa de formação. E por mais as orientações ofereçamos ou recebamos, não responderemos a todas as inquietação que nos possam surgir, tendo em conta o concreto da realidade em que se encontra cada um. Porém, se nada fizermos, se nada refletirmos, se nada rezarmos, se em nada nos dedicarmos é que não encontraremos nem daremos nenhuma resposta.
Deus é grande e não deixa de cuidar de nós. Depois da tempestade, virá a bonança.
2020.03.22 – Louro de Carvalho