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domingo, 24 de novembro de 2019

A cruz de Jesus como trono redentor


O Ano Litúrgico termina com a celebração da Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo. E, no Ano C, é proclamada e comentada, na Liturgia da Palavra, a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 23,35-43) em que a realeza do Senhor é reconhecida precisamente no alto da cruz, que no topo sustentava o letreiro em que se lia (em hebraico, grego e latim): “Este é o Rei dos Judeus”.
O letreiro, como era hábito, indicava a razão por que o supliciado fora condenado à morte de cruz, modalidade de morte reservada, no Império Romano, a malfeitores (e) escravos. Assim, deveria concluir-se que Jesus fora crucificado por ser o Rei dos Judeus ou por se ter arrogado essa condição. Na verdade, parece não ser assim. Apresentado ao Sinédrio pelos que, às ordens dos chefes judaicos, O manietaram, reiterou a declaração de que é o Filho de Deus, o que levou a que O considerassem réu de morte. Mas esta era uma declaração inócua para os romanos. Por isso, havia que aproveitar, da pregação que Jesus fazia às multidões sobre o Reino que anunciava e de que se apresentava como titular na linha davídica, o móbil de acusação junto do tribunal romano. E então a acusação de que se valem é que se dizia o Rei dos Judeus, o que Pilatos não reconhecia como motivo para condenação à morte. Até O interrogou e Ele lhe disse que tinha um reino que não é deste mundo. E Pilatos, que não via motivo para O mandar crucificar, mandou açoitá-Lo para acalmar a fúria da multidão e levá-la a desistir do pedido de morte para Aquele que não tinha cometido crime algum.
Porém, ante a multidão ululante (bem ensaiada) que dizia a Pilatos que, se não crucificasse Jesus de Nazaré, não era amigo de César, o único soberano que reconheciam, o Governador imperial, temendo a eventual ira de César, entregou Jesus para a crucifixão e proveu a guarda e algozes para a execução da sentença da pena capital.        
***
Assim, em dia de Cristo Rei, somos convidados a contemplar a cruz do Senhor e interrogarmo-nos sobre o que ali vemos e sobre o que nos pode hoje dizer a cruz.
Vemos pendente do madeiro Jesus, que passou pelo fundo fazendo o bem a todos os que Dele se aproximavam e anunciando o Reino de Deus, cujo núcleo central é a o perdão dos pecados. Está desnudo e com a pele esbatida por exangue, depois da flagelação, da coroação de espinhos – mantém na cabeça a coroa que foi bem calcada pelas batedelas dos soldados – e da apresentação ao povo com um manto de púrpura e uma cana a servir de cetro. Aquele que é Rei, mas cujo reino não é deste mundo, foi tratado ao pé da letra do que disse a Pilatos: com objetos conotados com a realeza, mas dela desligados pela pobreza de materiais, pela adoração em chacota e pela dor torturante que infligiam em vez de servirem de motivo de adorno e expressão de grandeza.
O Senhor está na cruz, despojado e exangue. Mas isso não chega. Os chefes do povo, para lá do sofrimento que lhe infligiram, ainda gozam satisfeitos: “Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito”. Os soldados, que repartiram entre si as vestes do crucificado e sortearam a túnica, troçavam d’Ele e, aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: “Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo”. Até um dos malfeitores, que sofria o mesmo suplício O provocava desafiando: Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós.”. Temos em torno do crucificado aqueles que têm medo de perder o poder, o estatuto e que, levados pela inveja ou pela insegurança, perseguem, torturam, matam e, depois, gozam o panorama. Temos aqueles que, dominados pelo dinheiro que lhes possam dar ou pela subserviência, torturam e matam, desculpando-se com o cumprimento de ordens vindas de cima. Não foi assim que se defendeu o Marquês de Pombal no tempo da Viradeira? E temos aqueles que, tendo praticado crimes horrendos, desafiam os justos a interceder por eles e os acusam de fracos, passivos ou incompetentes. 
Porém, o Evangelho de Lucas não nos deixa marinar neste olhar para a cruz. Quer que vejamos o outro lado. Depois de nos mostrar a oração de Jesus ao Pai a rogar que lhes perdoe, porque não sabem o que fazem (cf Lc 23,34) e antes de evidenciar a oração de entrega ao Pai, “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46), e antes de nos dar da reação de fé do centurião, Verdadeiramente, este homem era justo!” (Lc 23,47), explicita a cena nuclear do espetáculo da cruz. O malfeitor arrependido repreendeu o outro, assumindo que os dois estavam a pagar pelos crimes que praticaram, mas que este é inocente, nada fez de mal. E, não satisfeito com a repreensão ao outro, passa à súplica: “Jesus, lembra-te de mim quando estiveres ao teu Reino”. E o Senhor, porque o seu Reino não ocupa espaço como os reinos mundanos nem tem, como eles, limites no tempo, garantiu: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”. 
Que vemos, pois, na cruz, que nos diz a cruz? Disse hoje, dia 24, na homilia da Missa em Nagasáqui, o Papa Francisco:  
No último domingo do Ano Litúrgico, unimos as nossas vozes à do malfeitor que, crucificado com Jesus, O reconheceu e proclamou rei. Lá, no momento menos triunfal e glorioso, no meio dos gritos de zombaria e humilhação, aquele delinquente foi capaz de levantar a voz e fazer a sua profissão de fé. (…) Por um instante, o passado tortuoso do ladrão parece ganhar um novo significado: acompanhar de perto o suplício do Senhor; e este instante limita-se a corroborar a vida do Senhor: oferecer sempre e por toda a parte a salvação.”.
Assim, o Calvário, “perante a morte do inocente, transforma-se, graças à atitude do bom ladrão, numa palavra de esperança para toda a humanidade”. É o local do arrependimento e do perdão, que tem de ser transferido para as nossas vidas. E a cruz é o trono da redenção, que tem de se instalar no nosso coração de pessoas e no centro nevrálgico da comunidade eclesial, para atrair todos ao coração de Cristo, de modo que, por Ele, subam até ao Pai. Por isso, o convite da cruz é a que todos olhem para Aquele que trespassaram e, até que Ele volte, anunciemos a sua morte e proclamemos a sua ressurreição. E, nesta linha, estão os mártires e confessores de antanho como os mártires e confessores da fé, de hoje, que são muitíssimos, embora poucos os notem.
2019.11.24 – Louro de Carvalho

domingo, 3 de novembro de 2019

Não lhe puxou as orelhas nem lhe pregou um sermão


Na homilia da missa das 12 horas do 31.º domingo do Tempo Comum no Ano C, na igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, o Padre Porfírio Sá comentava o Evangelho assumido para a Liturgia da Palavra que narra a história do encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19,1-10) e, ao falar do encontro destas duas personagens, sublinhava que não foi Zaqueu quem tomou a iniciativa de falar a Jesus e convidá-lo a ir a sua casa, mas que foi Jesus quem olhou para Zaqueu e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”.
Referia o sacerdote passionista que Jesus falou como se fosse devedor para com Zaqueu e não como credor. E, ao entrar em casa de Zaqueu, não aproveitou a oportunidade para lhe dar um forte puxão de orelhas, pôr toda vida do pecador em evidência ou pregar-lhe um incontornável e solene sermão. Não, o Mestre dos mestres utilizou o seu olhar de empatia e misericórdia.
Zaqueu vivia em Jericó, o oásis situado nas margens do mar Morto, a cerca de 34 quilómetros de Jerusalém. Era a última etapa dos peregrinos que, da Pereia e da Galileia, se dirigiam a Jerusalém para as grandes festividades (o “caminho de Jerusalém”, que Jesus vem a percorrer, segundo Lucas, está a chegar ao fim). Jericó uma cidade próspera (sobretudo graças à produção de palmeiras e bálsamo), com grandes e belos jardins e palácios (por ação de Herodes, o Grande, e seu filho Arquelau, que fizeram desta cidade a sua residência de inverno). Sita em lugar privilegiado de importante rota comercial, era espaço de oportunidades e grandes negócios (e de negócios “duvidosos”).
Segundo Flávio Josefo, Jericó possuía um importante polo de produção de palmeiras e bosques de bálsamo. E o unguento derivado deste bálsamo de Jericó era muito desejado na época. Isto significa que aquela área era uma fonte muito significativa de impostos, uma das três principais coletorias de impostos da Palestina, e Zaqueu era um dos principais responsáveis por essa arrecadação.
O nome hebraico de Zankkaîos (Zaqueu) é contração de Zacarias, a significar “aquele de quem Yahweh se lembra” ou “aquele que é justo” (o antípoda da vida que levava). E ele era um “chefe de publicanos”, portanto, um homem que o judaísmo considerava um pecador público, um explorador dos pobres, um colaboracionista ao serviço dos opressores romanos e, portanto, um excluído da comunidade da salvação. Como os demais publicanos servia-se do cargo para enriquecer de modo ilícito (exigia impostos muito acima do fixado pelos romanos e arrecadava para si a diferença). E, se os publicanos eram considerados ladrões, então o chefe seria um superladrão.
A designação de “chefe de publicanos” traduz o grego arkhitelónês e indica que ele era um subcontratante de outros coletores. Portanto, tinha a supervisão de alguns responsáveis por arrecadar os impostos indiretos para o império romano, pelo que era um homem importante, uma pessoa proeminente na região. Por isso, o texto bíblico completa a informação dizendo que era um homem rico. Era, pois, um pecador público sem hipótese de perdão, excluído do convívio com as pessoas decentes e sérias, um marginal, considerado amaldiçoado por Deus e desprezado pelos homens. A sua pequena estatura – mais que indicação de caráter físico – pode significar a sua pequenez e insignificância do ponto de vista sociomoral.
Porém, este pecador procurava ver Jesus. Ora, este ver indicará aqui mais do que a simples curiosidade: a procura, a vontade firme de encontro com algo novo, talvez o desejo de fazer parte dessa comunidade de salvação que Jesus anunciava. Entretanto, o Mestre parecer-lhe-ia distante e inacessível, rodeado dos “puros” e “santos” que desprezavam os marginais. O subir “a um sicómoro” indica o desejo de encontro com Jesus, desse por onde desse, muito mais forte do que o medo do ridículo ou das vaias da multidão.
Jesus lança o olhar para o homem que espreita o Mestre do meio dos ramos do sicómoro. E incute o seu interesse em entrar em comunhão com Ele, estabelecer laços de familiaridade. Parece, em quadro escandaloso, esquecer-se dos “puros” que O rodeiam e O escutam, que agora ficam como que suspensos à espera do que vai acontecer naquela casa de pecador e marginal.
É a concretização do “deixar as noventa e nove ovelhas para ir à procura da que estava perdida”. É o espelho da fragilidade do coração de Deus que, ante o pecador que busca a salvação, deixa tudo para ir ao seu encontro.
Obviamente a multidão reage murmurando: “Foi hospedar-se em casa de um pecador”. É a postura de quem se considera “justo” e despreza os outros, de quem vive das suas certezas, de quem está convicto de que a lógica de Deus é a lógica de castigo, marginalização, exclusão. No entanto, Jesus mostra que a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e que a oferta de salvação que Deus faz não exclui nem marginaliza ninguém; é mesmo para todos.
Tudo termina com um banquete, onde está Zaqueu, o chefe dos publicanos, que simboliza o “banquete do Reino”. Assim, Jesus mostra que os pecadores têm lugar no “banquete do Reino”, que Deus os ama, que quer integrá-los na sua família e estabelecer com eles laços de comunhão e de amor. Jesus mostra que Deus não exclui nem marginaliza nenhum dos seus filhos – mesmo os pecadores – mas a todos oferece a salvação.
Dizia o Padre Porfírio Sá que não houve da parte do hospedeiro do Senhor um formal ato de contrição, uma demonstração, por palavras, do arrependimento que se exige. Mas a troca de olhares iniciada por Jesus provocou as condições de aceitação do Reino, da conversão: dar metade dos bens aos pobres e restituir o quádruplo de quanto terá roubado. E Zaqueu, feita a experiência do amor de Deus, acolhe o dom de Deus, converte-se ao amor, torna-se generoso. A repartição dos bens pelos pobres e a restituição de tudo o que foi roubado em quádruplo, vai muito além do que a lei judaica exigia; é sinal da transformação do coração. O amor de Deus não se derramou sobre Zaqueu depois de ele ter mudado de vida, mas foi o amor de Deus – que Zaqueu experimentou quando ainda era pecador – que provocou a conversão e que converteu o egoísmo em generosidade e levou o pecador a seguir Jesus. Assim se conclui que só a lógica do amor pode transformar o mundo e os corações dos homens.
É interessante notar que, apesar da ansiedade de Zaqueu em querer ver Jesus, ele parece ter ficado surpreendido pelo facto de a iniciativa do contacto entre eles ter partido do próprio Senhor, e não dele. Isto sugere que Zaqueu desejava vê-Lo, mas era Jesus quem estava à procura dele. Além disso, Jesus não pediu permissão a Zaqueu para entrar e permanecer em sua casa. E este também não propôs uma possibilidade de encontro. Literalmente o Senhor simplesmente disse: hoje eu vou ficar em sua casa.
Face à atitude de Jesus, a multidão começou a reclamar. Ficaram indignados porque Jesus havia dito que visitaria a casa de Zaqueu e não a de outrem. Os judeus odiavam os publicanos: e agora emergiu a inveja à mistura com o ódio. Consideravam os coletores de impostos como ladrões, extorquidores e traidores. Mas Jesus havia decidido ficar na casa do principal desses coletores, pois estava em busca de um dos homens mais detestados da cidade, pois todos têm lugar no Reino de Deus.
No encontro com Jesus, Zaqueu demonstrou realmente um arrependimento genuíno, que não ficou na teoria ou em palavras vazias. Revelou o arrependimento na prática ao declarar a doação aos pobres. Não estava a tentar obter a salvação com as boas obras, mas a entregar diante de Jesus a sua oferta de ação de graças. Mas não parou neste ponto: comprometeu-se ainda a devolver em quádruplo qualquer quantia com que tivesse defraudado alguém.
Normalmente a Lei Mosaica exigia que numa restituição fosse acrescentado um quinto do valor como um tipo de juros (Lv 6,1-5; Nm 5,7). Zaqueu, no entanto, decidiu fazer ainda mais do que isso. Não ofereceu um quinto de acréscimo na restituição, mas quatro vezes mais.
Considerando o facto de ter doado metade dos seus bens aos pobres e de ter declarado na presença de todos uma restituição tão generosa, é de inferir que Zaqueu tinha sido desonesto ao longo da sua vida. Direta ou indiretamente, o chefe dos cobradores de impostos havia permitido e também feito uma cobrança excessiva.
Muitos tentam provar que Zaqueu não teria sido um extorquidor, como se Cristo não pudesse jamais ter olhado para um corrupto. Todavia, o contexto da história de Zaqueu aponta noutra direção. Naquele dia, Jesus mostrou compaixão para com alguém que certamente não a merecia. É caso parecido com o da eleição de Mateus para o seguimento de Jesus, como se lê em Mateus:
Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: ‘Segue-me!’ E ele levantou-se e seguiu-O.  
“Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e os seus discípulos. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: ‘Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?’
“Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores’.” (Mt 9,9).
Zaqueu pôde ouvir de Jesus as doces palavras: Hoje a salvação entrou nesta casa, porque até este homem é um filho de Abraão (Lc 19,9). Jesus não disse que havia entrado na casa de Zaqueu um mero conforto, uma alegria superficial ou uma prosperidade terrena e passageira. Foi claro ao dizer que a salvação, não menos que isto, havia entrado naquela casa. Zaqueu e as demais pessoas daquele lar estavam diante da maior bênção que poderiam receber.
Consequentemente, Jesus declarou que Zaqueu era filho de Abraão. Obviamente o objetivo de Jesus não era dizer que o publicano era um descendente biológico do grande patriarca (não podia ser). Mas, ao dizer que também ele era um filho de Abraão, vincava o sentido espiritual. Zaqueu estava a juntar-se, pela fé no Filho de Deus, à verdadeira descendência de Abraão (cf GL 3,9.29).
A história termina com a confirmação por parte de Jesus de que havia sido Ele quem encontrou o chefe dos publicanos, e não o contrário. Ele disse: Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10). Jesus buscou, encontrou e salvou Zaqueu. O Bom Pastor encontrou uma das suas ovelhas perdidas (Lc 15,1-7). Poucos dias depois, Aquele a quem Zaqueu recebeu em casa, derramaria o seu sangue e entregaria a sua vida também em seu favor.
***
Também o Papa Francisco comentou esta perícopa evangélica antes da recitação do Angelus com os fiéis e peregrinos concentrados na Praça de São Pedro. E, exortando a que, a exemplo de Zaqueu, nos deixemos converter pelo olhar misericordioso de Jesus, observou:
Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu”.
E, ao concluir a sua alocução, pediu que a Virgem Maria obtenha para nós a graça de sempre sentirmos sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para então, com misericórdia, irmos ao encontro dos que praticam o mal. Com efeito, como referiu, “o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade”.
O fio condutor da reflexão papal foi a conversão de Zaqueu, que muda radicalmente de mentalidade pela atenção e acolhimento que recebe de Jesus e que, ao encontrar o Amor e descobrir que é amado, se torna capaz de amar os outros, restituindo quatro vezes mais a quem havia prejudicado. Diz o Pontífice que este chefe de “publicanos”, isto é, dos judeus cobradores de impostos “era rico não devido a ganhos honestos, mas por exigir a gratificação adicional (Como o império lhes pagava mal, eles cobravam em excesso), o que aumentava o desprezo por ele”. Mas, ao saber da passagem de Jesus por ali, fica curioso em ver quem era Ele, pois ouvira  dizer coisas extraordinárias a seu respeito. Sendo de baixa estatura, sobe a uma árvore. Mas é Jesus quem, entre tantos rostos que o cercavam, “olha para cima e o vê”. E diz o Papa:
Isso é importante: o primeiro olhar não é de Zaqueu, mas de Jesus, que entre os muitos rostos que o cercam, procura exatamente aquele. O olhar misericordioso do Senhor alcança-nos antes mesmo que nós percebamos que temos necessidade de sermos salvos.”.
E foi precisamente com esse olhar do divino Mestre – salienta o Santo Padre – que  se iniciou “o milagre da conversão do pecador”. Jesus chama-o pelo nome e pede que desça depressa, pois quer estar com ele em sua casa. E, como dizia o Padre Porfírio Sá, também Francisco enfatiza que Jesus não censura Zaqueu, não lhe faz um ‘sermão’, mas mostra-lhe que deve ir até ele: ‘deve’, porque é a vontade do Pai”. As pessoas murmuram por Jesus optar pela entrada na casa de um pecador público, desprezado por todos. E o Pontífice comentou:
Nós também teríamos ficado escandalizados com esse comportamento de Jesus. Mas o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão que isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade. Em vez disso, Deus condena o pecado, mas tenta salvar o pecador, vai procurá-lo para trazê-lo de volta ao caminho reto. (…) Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu.”.
Frisou o Santo Padre que a atenção de Jesus e a forma como foi acolhido levaram Zaqueu a uma mudança de mentalidade. Naquele instante percebeu quanto é mesquinha uma vida movida pelo dinheiro, à custa de roubar os outros e ser desprezado por eles”. E o Bispo de Roma vincou:
Ter o Senhor ali, em sua casa, faz com que ele veja tudo com olhos diferentes, também com um pouco da ternura com que Jesus olhou para ele. E muda também o seu modo de ver e de usar o dinheiro: substitui o gesto do extorquir pelo de dar. De facto, decide dar metade do que possui aos pobres e restituir quatro vezes mais àqueles de quem roubou. Zaqueu descobre de Jesus que é possível amar gratuitamente: até agora ele era avarento, agora torna-se generoso; gostava de acumular, agora alegra-se em distribuir. (…) Encontrando o Amor, descobrindo que é amado apesar dos seus pecados, torna-se capaz de amar os outros, fazendo do dinheiro um sinal de solidariedade e de comunhão.”.
Por fim, formulou o desejo de que “a Virgem Maria nos obtenha a graça de sempre sentir sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para sairmos com misericórdia ao encontro dos que fizeram mal, para que possam acolher Jesus, que “veio buscar e salvar o que estava perdido”. 
***
E, após a oração do Angelus e o apelo pelas vítimas da violência na Etiópia, o Papa agradeceu à Prefeitura e à Diocese de San Severo (na Puglia), a assinatura do Protocolo de Intenções, de 28 de outubro, “que permitirá aos trabalhadores dos assim chamados guetos da Capitanata, na região de Foggia, obter uma residência em paróquias e o registo no cartório municipal”. E frisou:
A possibilidade de ter documentos de identidade e de residência oferecer-lhes-á nova dignidade e permitir-lhes-á sair de uma condição de irregularidade e de exploração”.
Muitos trabalhadores são explorados nas plantações por pessoas de má-fé, que se aproveitam da sua condição irregular. Mal remunerados, sem nenhum direito ou garantia, vivendo em galpões sem as mínimas condições de uma vida digna, são os novos marginalizados que urge acolher.
2019.11.03 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
***
Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
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Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
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Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
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Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 20 de junho de 2019

“Comeram e ficaram saciados”


Era a frase lapidar que se lia na Igreja Seminário Santa Cruz, dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, como tema deste Dia da Eucaristia na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, no Ano C, citando da perícopa do Evangelho de Lucas (Lc 9,11b-17), proclamada na Liturgia, o seu versículo 17. 
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Segundo a reflexão de Dom António Couto, Bispo de Lamego, publicada a 19 no “Jornal da Madeira”, a Liturgia da Palavra abre com um trecho do Génesis (Gn14,18-20), que delineia a rota que passa pelo Salmo 110, em que Deus consagra o Messias Senhor como “sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (malkî-tsedeq) – rei e sacerdote de Shalem, a futura Jerusalém, yerûshalaim (cidade da paz – shalôm –, embora o seu nome signifique ‘Shalem a edificou’) – consagração que ressoa na Carta aos Hebreus, que exalça Jesus como “sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (5,6.10; 6,20; 7,11.15.17), que “trouxe a Abraão, pão e vinho, paz e bênção”, e cujo sacerdócio não tem fim, pelo que pode salvar para sempre quem se aproxima de Deus, porque Se ofereceu (anaphérô) a Si próprio de uma vez por todas (ephápax) (Heb 7,24-25.27). Melquisedec aparece em Gn 14, no Salmo 110 (com a adição do segmento para sempre) e na Carta aos Hebreus, lá onde o sacerdócio de Jesus é para sempre, segundo a ordem de Melquisedec, e não segundo a de Aarão e Levi, em que os sacerdotes se sucediam e se fiavam nos sacrifícios dos animais.
E, tendo em conta a “lex orandi lex credendi”, é de notar que no Cânone Romano, a Igreja reza:
Olhai com benevolência e agrado para esta oferenda, e dignai-vos aceitá-la, como aceitastes os dons do justo Abel, vosso servo, o sacrifício de Abraão, nosso pai na fé, e a oblação pura e santa do sumo-sacerdote Melquisedec”.
Mas, como diz António Couto, “esta avenida bela e florida passa também pelo Cenáculo, e transparece no belo hino intitulado Lauda Sion Salvatorem [= «Louva, Sião, o Salvador»], em que cantamos assim: “Eis aqui o pão dos anjos,/ feito pão dos peregrinos,/ que não deve profanar-se.// Em figuras proclamado,/ como Isaac hoje imolado,/ é Cordeiro e maná puro.”.
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O Bispo do Porto, sublinhando a importância da celebração desta Solenidade, aliou-lhe, na sua homilia, na Igreja da Trindade, os deveres do cristão de adorar o Sacramento, de comungar o Corpo e o Sangue de Cristo, fazendo da celebração da Eucaristia o centro da vida, mas também a rampa de lançamento para a atenção solidária para com aqueles que mais precisam – à semelhança de Jesus e dos discípulos.
Jesus acolheu as multidões que O seguiram e pôs-se a falar-lhes do Reino de Deus, curando os que necessitavam. Porém, como dia chegava ao fim, os discípulos antevendo a necessidade de comer da multidão, ficaram preocupados e sugeriram ao Mestre que despedisse a multidão para que pudessem as pessoas arranjar pão nas redondezas.
Ao invés, Jesus, assinalando a responsabilidade do cuidado dos corpos famintos inerente à pregação, prescreveu que lhe dessem de comer os discípulos. E estes, como só tinham consigo 5 pães e 2 peixes, dispunham-se a ir comprar comida para este povo. Mas Jesus tinha a solução, porque os discípulos estavam dispostos a resolver o problema e a partilhar o que tinham e o que poderiam vir a ter, e decidiu:
Disse aos discípulos: ‘Mandai-os sentar por grupos de cinquenta’. Assim procederam e mandaram-nos sentar a todos. Tomando, então, os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem à multidão. Todos comeram e ficaram saciados; e, do que lhes tinha sobrado, ainda recolheram doze cestos cheios.”.
Dom Manuel Linda chamou a atenção para a importância da partilha e para a ação de Deus que vem em auxílio do pouco valor que possa ter a ação dos homens, desde que se mobilize totalmente, de acordo com as suas possibilidades. E referiu que se alimentaram e se saciaram cinco mil homens e acrescentou – o que Lucas não diz expressamente, mas que Mateus o faz – sem contar as mulheres e as crianças. E tem razão, pois Lucas fala em “hôsei ándres pentakiskhílioi” (em grego) ou “fere viri quinque milia” (em latim), ou seja, quase cinco mil varões (não se diz ánthropoi ou homines).
Por consequência, lançando o olhar para o mundo atual e a degradação do devir civilizacional, denunciou dois casos graves. O primeiro é o do matemático português, que arrisca 20 anos de prisão por ser apanhado a salvar vidas de refugiados no Mediterrâneo, em virtude da nova lei italiana, que proíbe o apoio aos refugiados. E lamenta-se o prelado portuense, dizendo que é como se, ao invés do que é razoável, fôssemos premiados por deixar morrer as pessoas, quando já se tinha avançado no reconhecimento do dever de socorrer quem está em perigo e que se tornou plausível. Por outro lado, expôs, baseado em dados do INE, as centenas de milhares de desempregados que habitam o território português, de que duas centenas de milhares estão em risco de cair na pobreza, e referiu os casos de pessoas que vivem magramente dum trabalho que as deixa muito aquém da satisfação das necessidades pessoais e familiares e das suas capacidades de trabalho, por exemplo, em limpezas e alguns consertos.
E, por tudo isto, alertou os cristãos para a obrigação de, alinhados com o Evangelho e a Eucaristia, proverem a estas situações sociais num mundo em que impera o deus bem-estar.
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Por seu turno, o Bispo de Lamego, comentando este passo evangélico, rejeita a tese da multiplicação dos pães e aponta a divisão e partilha dos pães, dizendo que só Jesus sabe de uma divisão fazer uma multiplicação, não se tratando de aumentar a quantidade do pão e do peixe (“que permanece a mesma”), mas de abrir os olhos aos discípulos e a nós que “só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuitidade” do Pai. Ora, esta lógica leva a crer no dom, a estar em saída e a ir por este mundo a partir o pão e a partilhá-lo, com a certeza de que “onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos (“todos comeram e foram saciados”), como se instaura também o ‘excesso’, a superabundância da graça, caraterística fundamental do Reino de Deus (os discípulos encheram doze cestos).
O prelado lamecense frisa que aquele dia da vida de Jesus “se situa imediatamente a seguir ao regresso dos Doze da sua primeira missão e aponta, por tópicos, as notas fundamentais do seu diário do dia: “Jesus acolhia toda a gente (1), explicava a todos o Reino de Deus (2), curava os necessitados (3).”. Isto era “todo o afazer de Jesus”, a envolver “as pessoas todas no manto da ternura de Deus”, a ponto de “nem Jesus nem as pessoas” se aperceberem de que “o tempo passa e começa a cair a noite”. Todavia, os Doze, apercebendo-se, “intervêm e ditam a Jesus indicações, senão mesmo ordens, precisas”. A réplica de Jesus estonteia-os (Dai-lhes vós de comer!”) e “respondem às apalpadelas” (mais duro e talvez mais realista que o Bispo do Porto):
Primeiro esboço: ‘Só temos cinco pães e dois peixes’, que é como quem diz, mal chegam para nós… Segundo esboço: ‘A menos que vamos nós mesmos comprar comida para eles’…” (Lc 9,14).
Porque as considera desajustadas, o Mestre não equaciona “as indicações dos Doze”, mas “dá e faz ordens novas e surpreendentes, como faz sempre Deus”. E os apóstolos devem ter pensado: mandá-los reclinar à mesa (kataklínô), neste lugar ermo, “para comer o quê?!”.
Tal como Dom António Augusto Azevedo, Bispo eleito de Vila Real, na Igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, Dom António Couto, aponta a “Ação Eucarística de Jesus”:
Tendo recebido os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos para o céu (gesto de oração), pronunciou a bênção, partiu-os e dava aos discípulos para servirem à multidão”.
E diz o Bispo de Lamego:
Salta à vista que os gestos que Jesus faz naquele entardecer são um claro decalque daqueles que fará um ou dois anos mais tarde no interior da sala do Cenáculo na última tarde da sua vida terrena. Basta apenas acostar aqui o relato Eucarístico do Cenáculo: ‘Jesus recebeu o pão, deu graças, partiu-o e deu-o a eles’ (Lc 22,19a). O novo nesta Ceia do Cenáculo é o dizer de Jesus sobre o pão partido e a eles dado: ‘Isto é o meu corpo dado por vós. Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19b). E sobre o vinho: ‘Este é o cálice da nova aliança no meu sangue, por vós derramado’ (Lc 22,20).”.
Dom António Azevedo dizia que a celebração da Eucaristia – adorante e comungante – postula a redescoberta da centralidade da Eucaristia (para ela nos dirigimos da vida de cada dia e dela partimos para a vida) na vida da Igreja e na de cada cristão e apontava a força anímica do levantar os olhos ao céu e do abençoar, tal como a do partir o pão e partilhá-lo. Por outro lado, em Ano Missionário, sublinha que importa perceber as duas dimensões da Eucaristia: a espiritual, que nos leva a orar, saborear e adorar; e a missionária, testemunhando que Jesus, que morreu e ressuscitou, está vivo e vive entre nós; que, por Si e através de nós, continua a pregar o Reino de Deus, a compadecer-se e a colmatar as necessidades do mundo dos homens.     
Dom António Couto vê, na perícopa em referência, “o lado subversivo do Evangelho”:
Jesus não se contenta, nem quando nós nos propomos comprar pão para alimentar os outros. Para Jesus não é compreensível que uns tenham mais, outros menos e outros nada, e que esta situação se possa amenizar pontualmente. Dar tudo é a medida de Deus e a lógica do Evangelho. Por isso, Jesus diz: ‘Isto é o meu corpo dado por vós. Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19b); ‘Este é o cálice da nova aliança no meu sangue, por vós derramado’ (Lc 22,20). Vida partida, repartida e dada por amor. Eis o inteiro programa de Jesus. Eis tudo o que devemos fazer, imitando-o.”.
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O Bispo de Lamego considera a graça de hoje podermos “escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor”, que foi assumido como 2.ª leitura. E traduziu:
O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton), e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim’. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: ‘Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim’. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)”. (1Cor 11,23-26).”.
E, sublinhando que “a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro”, fixa os verbos que perpassam o relato: receber, dar graças e partirpartilhar o pão. De receber diz que “é a base da nossa vida, vocação e missão sempre de Deus recebidas”. Pensa dar graças como fundamental porque só reconhecendo “que a Graça tomou conta de nós”, é que “podemos e sabemos dar graças” e o percebemos e assumimos como “atitude que transforma a nossa vida”. E ensina que partirpartilhar o pão implica saber que nada é nosso nem a vida, pelo que “tudo é para partilhar com alegria com tantos irmãos”.
Depois, assenta em que é preciso agir eucaristicamente em memória de Jesus ou ao jeito de Jesus porque Ele está “no centro da nossa da nossa vida e das nossas atitudes”; e que anunciar a morte do Senhor não é “chorar ou de vestir de luto”, mas “saber ver bem a Cruz de Jesus e o caminho da Cruz de Jesus”. Na verdade, trata-se de anunciar que “Jesus viveu e morreu para a dar a vida por amor, para sempre e para todos”.
Jesus sintetizou em Si o sacrifício de Melquisedeque, no pão e no vinho, e o de Aarão, no sacrifício de animais. Qual imaculado cordeiro pascal, entregou-Se no patíbulo da cruz, mas depois de Se entregar na Ceia sob as espécies de pão e de vinho. Na cruz, fez-se ponto de atração redentora; na Ceia, fez-se banquete tornando-se o “Pão repartido para a vida do mundo”.  
A Eucaristia cumpre em pleno a figura veterotestamentária do banquete de carnes gordas e vinhos finos preparado sobre o monte pelo Senhor dos Exércitos (cf Is 25,6), para o qual a Sabedoria manda anunciar nos pontos altos da cidade: “Vinde, comei do meu pão, bebei do vinho que preparei” (Pr 9,5) – “banquete que se entrevê na carne preparada em abundância e nos 60 quilos de farinha que, lado a lado, Sara e a mãe de família do Evangelho, metem ao forno (Gn 18,6-7; Mt 13,33; Lc 13,21)”.
E Dom António Couto, tal como Dom António Azevedo, salientou o significado da procissão pelas ruas da Cidade como presidência e bênção facultadas pela presença do Senhor da nossa vida, que decide caminhar connosco. Mas faz um aporte interessante sobre o pálio (pallium), referindo que “o pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos, sobretudo os mais sofridos e marginalizados” – aspeto em que as mensagens dos Bispos do Porto e de Lamego se tocam.
E, citando um autor italiano, desenvolve:
Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo e no nosso meio todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior, que nos envolve e nos salva em todas as situações” (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004).
Enfim, temos, pois, que aprender as lições que nos traz a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Com efeito, vivendo unidos e reunidos, em Igreja, à volta do Senhor, “que por nós parte e reparte a sua vida”, capacitar-nos-emos para a partilha solidária com todos e semearemos a esperança num mundo egoísta negativamente competitivo, em que “os pobres não podem esperar” (Dom António Francisco dos Santos) e são espezinhados por aqueles que os exploram e cinicamente os acusam de serem eles os culpados da sua própria pobreza.
Que Deus perdoe os males que fazemos e nos dê a sabedoria para apreciarmos o mistério e nos empenharmos na missão.  
2019.06.20 – Louro de Carvalho