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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

“Igreja em saída” não é uma expressão de moda que o Papa inventou


É Francisco quem o assegura no livro-entrevista de Gianni Valente, publicado pela LEV (Livraria Editora Vaticana) e Edições São Paulo, que está nas livrarias desde 5 de novembro e que pretende assinalar a conclusão do mês missionário extraordinário. Aí o Pontífice aponta formulações essenciais do ser cristão, do ser e estar em Igreja, tais como:Sem Jesus não podemos fazer nada”; e “A Igreja ou é anúncio ou não é Igreja”.
Recorda-nos o autor a Exortação Apostólica Evangelii gaudium, que este Papa mandou publicar 8 meses depois o Conclave que o elegeu Sucessor de Pedro, e que se inicia com a afirmação de que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus”. Com efeito, este documento programático do pontificado incitava à ressintonização, por parte de todos, de cada ato, reflexão e iniciativa eclesial “sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual”. Passados quase 6 anos, Francisco anunciou o Mês Missionário Extraordinário e a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos dedicada à Região Amazónica para sugerir novas rotas de anúncio do Evangelho no “pulmão verde”, martirizado pelo sofrimento predatório que violenta e fere os irmãos e também a nossa irmã terra.
Entretanto, o magistério papal vem disseminando insistentemente referências à natureza da missão da Igreja no mundo. Assim, vem repetindo que anunciar o Evangelho não é “proselitismo”, que a Igreja cresce “por atração” e por “testemunhos” – expressões que sugerem qual há de ser o dinamismo para cada obra apostólica e qual pode ser a sua fonte.
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Com base na antecipação de textos que a Agência Fides apresentou pode fazer-se ideia do conteúdo do livro-entrevista.
Uma curiosidade é que Bergoglio, quando era jovem, queria ser missionário no Japão, mas não sabe responder à pergunta provocatória se “é um missionário não completo”. Diz ter entrado para os jesuítas por o impressionar a vocação missionária deles e por “sempre procurarem novas fronteiras”. E, embora na época não pudesse ir ao Japão, sempre sentiu que “anunciar Jesus e o seu Evangelho quer dizer sair e colocar-se a caminho.
Quanto à possibilidade de a expressão Igreja em saída”, tantas vezes relançada, se tornar um slogan de que abusam os que passam o tempo a dar lições à Igreja sobre como deveria ser ou não ser, Francisco diz com humilde determinação, citando o Evangelho de Marcos:
Igreja em saída não é uma expressão de moda que eu inventei. É um mandamento de Jesus, que no Evangelho de Marcos (Mc 16,15) pede aos seus discípulos que vão pelo mundo inteiro e anunciem o Evangelho a ‘toda criatura’. A Igreja ou é em saída ou não é Igreja. Ou é em anúncio ou não é Igreja. Se a Igreja não sai corrompe-se, perde a sua natureza. Torna-se outra coisa.”.
E discorre chamando-lhe, no caso de não ser em saída e de não ser anúncio, uma associação espiritual, uma multinacional para lançar iniciativas e mensagens de conteúdo ético-religioso. E, embora não seja coisa má, contudo, não é a Igreja. E, ao mesmo tempo, adverte que é um risco de qualquer organização estática na Igreja, terminando por “domesticar Cristo”: 
Não se dá mais testemunho da ação de Cristo, mas fala-se de uma certa ideia de Cristo. Uma ideia possuída e adomesticada por você mesmo. Você organiza as coisas, torna-se um pequeno empresário da vida eclesial, onde tudo acontece segundo o programa pré-estabelecido, isto, é, seguindo apenas as instruções. Mas o encontro com Cristo não se repete mais. Não se repete o encontro que tinha tocado o seu coração no início.”.
Todavia, o Papa avisa que “a missão, a ‘Igreja em saída’, não são um programa, uma intenção para a ser realizada por boa vontade”. Ao invés, “é Cristo que faz a Igreja sair de si mesma”, pois, na missão de anunciar o Evangelho, movemo-nos porque o Espírito Santo nos impele e leva. E quando nós chegamos, damo-nos conta de que Ele chegou antes e está à nossa espera. Ele previne, também para preparar o nosso caminho, e já está em ação.
O autor entrevistador sublinha que o Pontífice sugeriu num encontro com as Pontifícias Obras Missionárias a leitura dos Atos dos Apóstolos e não a dum manual de estratégia missionária moderna. E a resposta não se fez esperar, surgindo com a frescura do Espírito:
O protagonista dos Atos dos Apóstolos não são os apóstolos. O protagonista é o Espírito Santo. Os Apóstolos são os primeiros que o reconhecem e o confirmam. Quando comunicam aos irmãos de Antioquia as indicações estabelecidas pelo Concílio de Jerusalém, escrevem: ‘Decidimos, o Espírito Santo e nós’. Eles reconheciam com realismo o facto de que era o Senhor que adicionava todos dias à comunidade ‘os que estavam salvos’, e não os esforços de persuasão dos homens.”.
No atinente à diferença entre aquela época e a nossa, Francisco aponta que “a experiência dos Apóstolos é como um paradigma que vale para sempre”. Assim, nos Atos dos Apóstolos, as coisas sucedem gratuitamente, sem artifícios, porque “os discípulos chegam sempre depois do Espírito Santo que age por primeiro”. É Ele que “prepara e trabalha os corações”. E, “quando chegam os problemas e as perseguições, o Espírito Santo trabalha ali também, de maneira ainda mais surpreendente, com o seu conforto, o seu consolo”. E o Papa desenvolve:
Inicia-se [após o martírio de Estêvão] um tempo de perseguição, e muitos discípulos fogem de Jerusalém, vão para a Judeia e Samaria. E ali, enquanto estão espalhados e fugitivos, começam a anunciar o Evangelho, mesmo se estão sozinhos e sem os Apóstolos, que ficaram em Jerusalém. São batizados, e o Espírito Santo lhes dá a coragem apostólica. Ali se vê pela primeira vez que o batismo é suficiente para se tornarem anunciadores do Evangelho. (…) Precisa apenas de se pedir que se faça novamente em nós a experiência para que possamos dizer: decidimos, o Espírito Santo e nós.”.
E, se não houver esta experiência, sem o Espírito, a missão torna-se “um projeto de conquista, pretensão de uma conquista feita por nós, uma conquista religiosa, ou talvez ideológica, talvez feita com boas intenções, mas é uma outra coisa”.
Instado a explicar o sentido da afirmação de que a Igreja cresce por atração, responde que são palavras de Jesus no Evangelho de João: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32); e “Ninguém vem a mim, se não for atraído pelo Pai que me mandou” (Jo 6,44). Assim, a Igreja sempre viu nesta a forma de todo o lema que aproxima a Jesus e ao Evangelho, não na convicção, raciocínio, tomada de consciência, pressão ou constrição. Já o profeta Jeremias rezava: “Tu me seduziste e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Isto vale para os apóstolos e missionários. E o Santo Padre não deixa de insistir, observando:  
O mandato do Senhor de sair e anunciar o Evangelho vem de dentro, por paixão, por atração amorosa. Não se segue Jesus e muito menos se torna anunciador d’Ele e do seu Evangelho por uma decisão prática, uma militância autoinduzida. O próprio impulso missionário só pode ser fecundo se acontece dentro desta atração e que se transmite aos outros.”.
Por consequência, ao invés, quem pensa ser protagonista ou empresário da missão, com todos os bons propósitos e declarações de intenção muitas vezes termina por não atrair ninguém.
Com efeito, prossegue o Pontífice, a missão não é um projeto empresarial bem organizado, nem um espetáculo organizado com a contabilização dos participantes mercê da nossa propaganda. “O Espírito Santo age como quer, quando e onde quiser”. E o cume da liberdade repousa “neste deixar-se levar pelo Espírito, renunciado a calcular e controlar tudo”. Nisto “imitamos o próprio Cristo, que no mistério da sua Ressurreição aprendeu a repousar na ternura dos braços do Pai”. Assim, a fecundidade da missão não consiste nas nossas intenções, métodos, lançamentos e iniciativas, mas repousa “na vertigem que se adverte diante das palavras de Jesus, quando diz Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Depois, a atração para Cristo e para o Evangelho faz-se testemunho em nós. Ora, a testemunha comprova o que a obra de Cristo e do seu Espírito realizaram na sua vida. Mais: após a Ressurreição, o próprio Cristo nos torna visível aos apóstolos. É ele a sua testemunha. E o testemunho não é um desempenho próprio, pois mostra as obras do Senhor.
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O autor entrevistador estranha que o Papa fale tanto em chave negativa: a Igreja não cresce por proselitismo e a missão da Igreja não é fazer proselitismo. E pergunta se “é para manter as boas relações com as outras Igrejas e o diálogo com as tradições religiosas”. Mas Francisco esclarece que o problema do proselitismo não é só contradizer o caminho ecuménico e o diálogo inter-religioso, mas ser uma tentação recorrente e explana:
Há proselitismo em todos os lugares, há a ideia de fazer com que a Igreja cresça deixando de lado a atração de Cristo e da obra do Espírito, apostando tudo nos chamados ‘discursos sábios’. (…) O proselitismo tira o próprio Cristo e o Espírito Santo da missão, mesmo quando quer agir em nome de Cristo, de maneira nominalista. O proselitismo é sempre violento pela sua natureza, mesmo quando é dissimulado ou feito ‘com luvas de pelica’. Não suporta a liberdade e a gratuitidade com que a fé se pode transmitir, pela graça, de pessoa a pessoa. Por isso o proselitismo não é apenas o do passado, dos tempos do antigo colonialismo, ou das conversões forçadas ou compradas com a promessa de vantagens materiais. Hoje também pode haver proselitismo, nas paróquias, nas comunidades, nos movimentos, nas congregações religiosas.”.
Ao invés, o anúncio do Evangelho consiste em entregar com palavras sóbrias e claras o próprio testemunho de Cristo como fizeram os apóstolos. O anúncio do Evangelho, que até pode ser sussurrado, passa sempre pela força arrebatadora do escândalo da cruz e segue o caminho indicado na 1.ª Carta de Pedro, que consiste em dar razão aos outros da própria esperança (cf 1Pe 3,15), “esperança que permanece escândalo e tolice aos olhos do mundo” (1Cor 1,23).
Nestes termos, é caraterístico do missionar cristão o ser facilitador e não controlador da fé. É preciso tornar fácil (e não lhe pôr obstáculos) o desejo de Jesus de abraçar, curar e salvar a todos, sem seleções e sem “triagens pastorais”, não fazendo parte dos que se põem à porta para controlar se os que se aproximam têm requisitos para entrar. E o Papa argentino conta:
Recordo os párocos e as comunidades que em Buenos Aires tinham colocado em campo várias iniciativas para facilitar o acesso ao Batismo. Deram-se conta de que, nos últimos anos, estava a aumentar o número dos que não eram batizados por vários motivos, mesmo sociológicos, e queriam recordar a todos que ser batizado é uma coisa simples, que todos podem pedir para si e para seus próprios filhos. O caminho que os párocos e aquelas comunidades tomaram era um só: não complicar, não pretender nada, eliminar todas as dificuldades de caráter cultural, psicológico ou prático que poderiam levar as pessoas a adiar ou perder a intenção de batizar os seus próprios filhos.”.
Relativamente à discussão dos missionários, na América, no início da evangelização, sobre quem seria “digno” de receber o Batismo, Francisco recorda que o Papa Paulo III recusou a teoria que sustentava serem os índios por natureza “incapazes” de acolher o Evangelho e confirmou a escolha dos que lhes facilitavam o Batismo. E comenta: 
Parecem coisas passadas, mas ainda hoje há círculos e setores que se apresentam como ‘ilustrados’, iluminados, e sequestram o anúncio do Evangelho nas suas lógicas distorcidas que dividem o mundo entre ‘civilização’ e ‘barbárie’. A ideia de que o Senhor tenha entre os seus preferidos muitas ‘cabecitas negras’ irrita-os, deixa-os de mau humor. Consideram boa parte da família humana como se fosse uma entidade de classe inferior, inadequada a alcançar, segundo os seus padrões, níveis decentes de vida espiritual e intelectual.”.
Ora, neste contexto antropossocial, pode-se desenvolver um desprezo pelos povos considerados de segundo nível. E este tema veio à tona por ocasião do Sínodo dos Bispos para a Amazónia.
Quanto à tendência hodierna de colocar em alternativa dialética o anúncio claro da fé e as obras sociais, não sendo alegadamente preciso fazer missão para sustentar as obras sociais, Francisco sublinha que “tudo o que está dentro do horizonte das Bem-Aventuranças e das obras de misericórdia está de acordo com a missão, já é anúncio, já é missão”. E reitera o que tantas vezes proclama aos quatro ventos:  
A Igreja não é uma ONG, a Igreja é uma outra coisa. Mas a Igreja é também um hospital de campo, onde se acolhe todos, assim como são, cuidando das feridas de todos. E isso faz parte da sua missão. Tudo depende do amor que move o coração dos que atuam. Se um missionário ajuda a escavar um poço em Moçambique, porque se deu conta de que é fundamental para os que ele batizou e aos quais prega o Evangelho, como se pode dizer que a obra é separada do anúncio?”.
E, sobre as novas atenções e sensibilidades a exercer nos processos destinados a tornar fecundo o anúncio do Evangelho, nos vários contextos sociais e culturais, frisa que “o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural”. E citando São João Paulo II, vinca:
Permanecendo plenamente si mesmo, na total fidelidade ao anúncio evangélico e à tradição eclesial, o cristianismo carregará também o rosto das várias culturas e dos vários povos nos quais foi acolhido e enraizado”.
Com efeito, na conjugação da diversidade com a unidade, “o Espírito Santo embeleza a Igreja, com as expressões novas das pessoas e das comunidades que abraçam o Evangelho”, pelo que “a Igreja, assumindo os valores das várias culturas, torna-se sponsa ornata monilibus suis(“a esposa ornada de suas joias”), de que fala o profeta Isaías (cf Is 61,10). Ora, se algumas culturas foram construídas em estreito liame com a pregação do Evangelho e com o desenvolvimento de um pensamento cristão, também hoje “se torna ainda mais urgente considerar que a mensagem revelada não se identifica com nenhuma cultura”. Por outro lado, “no encontro com novas culturas ou com culturas que não acolheram a pregação cristã, não se deve tentar impor uma determinada forma cultural junto com a proposta evangélica”. E sugere o Papa que hoje, “na obra missionária convém mais do que nunca, não carregar bagagem pesada”.
Por fim, surge uma palavra reflexiva quanto à relação entre a missão e o martírio. E Francisco aponta que o martírio e a proclamação do Evangelho a todos têm a mesma origem: o amor de Deus derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo a doar força, coragem e consolação. E diz que “o martírio é a máxima expressão do reconhecimento e do testemunho feito a Cristo, que representam o cumprimento da missão, da obra apostólica”. Exemplifica com os coptas trucidados na Líbia a pronunciar em voz baixa o nome de Jesus ao serem degolados ou com as Irmãs de Santa Madre Teresa que, no Iémen, ao serem mortas enquanto cuidavam dos pacientes muçulmanos duma casa de idosos com deficiências, estavam com o avental de trabalho sobre o hábito religioso. E conclui que “são todos vencedores, não vítimas”, e que “o seu martírio, até ao derramamento de sangue, ilumina o martírio que todos podem sofrer na vida todos os dias, com o testemunho dado a Cristo todos os dias”, o que se pode ver na visita a asilos de idosos missionários, por vezes debilitados pela vida que levaram, a ponto de alguns perderem a memória, não recordando nada do bem que fizeram. Porém, como dizia um missionário, “disso o Senhor se recorda muito bem”.
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Um livro cuja leitura será útil para oportuna e pertinente reflexão sobre o ser da Igreja, entendido à luz da Palavra de Deus, e a forma genuína de encarar a missão e o testemunho, quer no martírio extremo, quer no martírio paulatino do quotidiano – na certeza de que o Espírito previne, guia e ajuda, embora peça a nossa devotada cooperação, no entusiasmo da Boa Nova, mas no respeito pela liberdade do outro, que merece, não o tempo da desistência ou do anátema, mas a bondade do diálogo, o tempo e a paciência da espera e a força da esperança.  
2019.11.06 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

“Cada um de nós tem, melhor, é uma missão nesta terra”


É a grande asserção que o Papa Francisco proferiu quase no final da homilia da Missa a que presidiu na Basílica de São Pedro, hoje, dia 20 de outubro, Dia Mundial das Missões, no contexto do Mês Missionário Extraordinário. 
A celebração caraterizada pela comunhão dos povos na Basílica de São Pedro foi especialmente animada pela genuína participação do coro e orquestra “Palmarito e Urubichà”, da Bolívia.
A emoldurar teologicamente o mandato da Igreja em saída, plasmado no enunciado que tem o imperativo do verbo “ir” à cabeça – “Ide e ensinai todas as nações” –, o Santo Padre quis tomar, da Liturgia da Palavra desta Missa pela Evangelização dos Povos (Is 2,1-5; 2Tm 2,1-8; Mt 29,19a-20b), três classes gramaticais de palavras: o nome “monte”, o verbo “subir” e o pronome quantificador “todos”. Fê-lo para encorajar o testemunho de milhares de missionários no mundo e convocar-nos a todos para a missão.
Do monte fala Isaías quando profetiza que todas as nações acorrerão ao monte do Templo do Senhor, que se erguerá sobre no cimo das montanhas e se elevará no alto das colinas. E o monte surge no Evangelho após a Ressurreição na Galileia dos gentios, habitada por muitas populações diferentes. E disse o Pontífice que “o monte parece ser o lugar onde Deus gosta de marcar encontro com toda a humanidade” e connosco em concreto. É o caso do Sinai, onde Deus comunica os mandamentos como suporte da Aliança; do Carmelo, onde Elias desafiou os sacerdotes de Baal e fez descer fogo do céu contra soldados inimigos a soldo do rei Acaz ou onde  a mulher sunamita que perdera o filho foi encontrar-se com o profeta Eliseu; do lugar onde Jesus proclamou as Bem-aventuranças; do Tabor, onde Se transfigurou; do Gólgota, onde deu a vida; do monte das Oliveiras onde rezou antes de padecer; e do monte onde abençoou os discípulos, lhes deu o mandato missionário e se despediu para subir ao Céu.
No dizer de Francisco, o monte diz-nos que “somos chamados a aproximar-nos de Deus e dos outros”, no silêncio e na oração, afastando-nos das “maledicências e boatos poluentes”. Ali, os irmãos, “vistos do monte, aparecem-nos noutra perspetiva, a de Deus que chama todos os povos”, ou seja, vistos de cima, “aparecem-nos no seu todo e descobre-se que a harmonia da beleza só é dada pelo conjunto”. E orador pontifício prosseguiu:
O monte lembra-nos que os irmãos e as irmãs não devem ser selecionados, mas abraçados com o olhar e sobretudo com a vida. O monte liga Deus e os irmãos num único abraço, o da oração. (…) A missão começa no monte: lá se descobre aquilo que conta.”.
A luz deste ensinamento, o Papa Francisco quer que se interrogue cada um de nós “no coração deste mês missionário”:
Para mim, o que é que conta na vida? Quais são as altitudes para onde tendo?”.
Depois, anota que à palavra “monte” vem associado o verbo “subir. Com efeito, Isaías exorta: “Vinde, subamos à montanha do Senhor” (2,3). Na verdade, nós “nascemos para chegar às alturas encontrando Deus e os irmãos”. Para tanto, é preciso subir, deixando uma vida horizontal, lutando contra a força de gravidade do egoísmo, realizando um êxodo do próprio ‘eu’ – o que “requer esforço, mas é a única maneira para ver tudo melhor”, pois o único modo possível para abarcar monte é seguir a vereda sempre em subida.
Ora, para subir, é preciso alijar o que não serve – porque não subimos carregados de coisas – e há na nossa vida tantas coisas que são ninharias e empecilho para a caminhada e, sobretudo, para a subida. E Bergoglio extrapola daqui o segredo da missão:
Para partir é preciso deixar, para anunciar é preciso renunciar. O anúncio credível é feito, não de bonitas palavras, mas de vida boa: uma vida de serviço, que sabe renunciar a tantas coisas materiais que empequenecem o coração, tornam as pessoas indiferentes e as fecham em si mesmas; uma vida que se separa das inutilidades que atafulham o coração e encontra tempo para Deus e para os outros.”.
Em consonância, sugere a autointerrogação:
Como procede a minha subida? Sei renunciar às bagagens pesadas e inúteis do mundanismo para subir ao monte do Senhor? Faço a minha estrada subindo à minha custa ou trepando sobre os outros?”.
E passa ao pronome “todos”, a terceira palavra selecionada, que em Dia Mundial das Missões ressoa como a mais forte e que prevalece nas Leituras assumidas para a liturgia desta efeméride: “todas as nações”, diz Isaías (2,2); “todos os povos”, repetimos no Salmo 98 (2b); Deus “quer que todos os homens sejam salvos”, escreve Paulo (1Tm 2,4); “ide, fazei discípulos de todos os povos”, pede Jesus (Mt 28,19). E comenta o Bispo de Roma:
O Senhor obstina-Se a repetir este ‘todos’. Sabe que somos teimosos a repetir ‘meu’ e ‘nosso’: as minhas coisas, a nossa nação, a nossa comunidade... e Ele não Se cansa de repetir ‘todos’. Todos, porque ninguém está excluído do seu coração, da sua salvação; todos, para que o nosso coração ultrapasse as alfândegas humanas, os particularismos baseados nos egoísmos que não agradam a Deus. Todos, porque cada qual é um tesouro precioso e o sentido da vida é dar aos outros este tesouro. Eis a missão: subir ao monte para rezar por todos, e descer do monte para se doar a todos.”.
Subir implica vir a descer e tornar a subir. Neste sentido, Francisco diz-nos que “o cristão está sempre em movimento, em saída”, o mandato evangélico é “ide”. E ir implica não esperar retorno nem compensação, como implica ir “ao encontro de todos, e não apenas dos seus, do seu grupinho”. “O cristão vai ter com os outros” – afirma o Pastor Supremo, que explicita:
A testemunha de Jesus nunca se sente em crédito do reconhecimento de outros, mas em dívida de amor com quem não conhece o Senhor. A testemunha de Jesus vai ao encontro. Jesus diz também a ti: ‘Vai; não percas a ocasião de testemunhar!’. Irmão, irmã, o Senhor espera de ti o testemunho que ninguém pode dar em tua vez. ‘Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a tua vida (...), e assim a tua preciosa missão não fracassará’ (Gaudete et exsultate, 24).”.
Por outro lado, para ir ao encontro de todos, segundo as instruções do Senhor, uma só e muito simples e necessária: fazer discípulos, mas “discípulos d’Ele, não nossos”. Por isso, a homilia papal vinca:
A Igreja só anuncia bem, se viver como discípula. E o discípulo segue dia a dia o Mestre e partilha com os outros a alegria do discipulado. Não conquistando, obrigando, fazendo prosélitos, mas testemunhando, colocando-se ao mesmo nível – discípulo com os discípulos –, oferecendo amorosamente o amor que recebemos.”.
É preciso mostrar, antes de mais e acima de tudo, que “Deus ama a todos e não se cansa jamais de ninguém”. E este testemunho diz respeito a todos e cada um de nós, pois “cada um de nós tem, melhor, é uma missão nesta terra” (Evangelii gaudium, 273). E o Papa concluiu encorajando a cada um dos cristãos – bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas, leigos e leigas:
Estamos aqui para testemunhar, abençoar, consolar, erguer, transmitir a beleza de Jesus. Coragem! Ele espera muito de ti! O Senhor prova uma espécie de ânsia por aqueles que ainda não sabem que são filhos amados pelo Pai, irmãos pelos quais deu a vida e o Espírito Santo. Queres acalmar a ânsia de Jesus? Vai com amor ao encontro de todos, porque a tua vida é uma missão preciosa: não é um peso a suportar, mas um dom a oferecer. Coragem! Sem medo, vamos ao encontro de todos!”.
De facto, a não é um peso a suportar, mas um dom a oferecer.
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Concluída a celebração da Santa Missa, às 12 horas, o Santo Padre dirigiu-se à janela do seu gabinete no Palácio Apostólico para recitar o Angelus com os fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro.
Nesta altura, a sua alocução sobre o Dia Mundial das Missões partiu dos textos da Liturgia da Palavra deste 29.º domingo do Tempo Comum no Ano C e não dos da Missa celebrada na Basílica. Assim, referiu que a 2.ª Leitura (2Tm 3,14 – 4,2) nos propõe a exortação de Paulo ao seu fiel colaborador Timóteo:
Proclama a Palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta com toda a magnanimidade e doutrina”. 
Vincando que este Dia Mundial das Missões é ocasião propícia para cada batizado tomar mais viva consciência da necessidade de cooperar na proclamação da Palavra, no anúncio do Reino de Deus com um renovado empenho, evocou a centenária Carta Apostólica Maximum illud, do Papa Bento XV, que deu novo impulso à responsabilidade missionária de toda a Igreja. Nela, o 258.º Papa da Igreja Católica “advertiu para a necessidade de requalificar evangelicamente a missão no mundo de modo que fosse purificada de qualquer incrustação colonial e livre dos condicionamentos das políticas expansionistas das nações europeias”.  
Tal advertência tem hoje, segundo Francisco, plena atualidade e “estimula a superar a tentação de todo o fechamento autorreferencial e toda a forma de pessimismo pastoral, para nos abrir à jubilosa novidade do Evangelho”.
Disse o Santo Padre que, num tempo de globalização – que devia ser solidária e respeitadora da particularidade dos povos, mas que, ao invés, quer impor a homogeneização e sofre dos velhos conflitos de poder que alimentam guerras e fragilizam o planeta – os crentes são chamados a levar doravante, com novo vigor, a boa notícia de que “em Jesus a misericórdia vence o pecado, a esperança vence o medo, a fraternidade vence a hostilidade”, pois “Cristo é a nossa paz e n’Ele é superada toda a divisão, só Ele é a salvação de todo o homem e de todo o povo”.
Mas o Pontífice não se esqueceu de alertar para o suporte da vida cristã e, consequentemente, a condição indispensável de toda a missão: a oração, que implica, no dizer do Padre José Gregório Valente, missionário passionista, a escuta de Deus, a escuta dos homens, a escuta do coração. E Francisco, ancorado na 1.ª Leitura (Ex 17, 8-13) e no Evangelho (Lc 18,1-8) propõe “uma oração fervorosa e incessante”, segundo o ensinamento de Jesus na parábola “sobre a necessidades rezar sempre, sem desfalecimento. E sustenta:
A oração é o primeiro sustentáculo do povo de Deus para os missionários, rica de afeto e de gratidão para a sua difícil tarefa de anunciar e dar a luz e a graça do Evangelho àqueles e àquelas ainda não o receberam. É ainda uma bela ocasião para nos interrogarmos: ‘Eu rezo pelos missionários? Rezo pelos que vão a longes terras para levar a Palavra de Deus com o seu testemunho?”.
Por fim, rogou a Maria, Mãe de todos os povos, que acompanhe e proteja sempre os missionários do Evangelho.
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Após o Angelus, evocou a beatificação do mártir Alfredo Cremonesi, sacerdote missionário do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras, morto na Birmânia, em 1953. Foi um infatigável apóstolo de paz e zelosa testemunha do Evangelho, até ao derramamento de sangue. Que o seu exemplo nos torne agentes de fraternidade e missionários corajosos em todos os ambientes e a sua intercessão sustente quantos se afadigam hoje a semear o Evangelho no mundo.
Saudou os peregrinos provenientes da Itália e de vários outros países. E mencionou, em particular: a comunidade peruana de Roma, congregada em torno da imagem do Senhor dos Milagres; as Irmãs Enfermeiras da Addolorata (Nossa Senhora das Dores), que celebraram o seu Capítulo Geral; os que participam na marcha “Restiamo umani” (continuemos a ser humanos), tendo percorrido, nos últimos meses, cidades e territórios da Itália a promover um confronto construtivo sobre inclusão e acolhimento; e os jovens da Ação Católica italiana, por ocasião dos 50 anos da ACR. A estes pediu que sejam protagonistas alegres e generosos na evangelização, sobretudo entre os seus coetâneos e garantiu que a Igreja confia neles e nelas.
2019.10.20 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Deus envia-nos a testemunhar o seu Reino


É o que está evidenciado no Evangelho do 14.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 10,1-12.17-20), que, apresentando o número simbólico “72” dos discípulos enviados, nos quer dizer que a sua missão envolve todos os escolhidos e se dirige a todos os seres humanos, a todos os povos. É de si mobilizadora de todos os que são discípulos (pelo batismo e, nalguns casos, por vocação especial confirmada pelo sacramento da Ordem) e um destino universal.
Com efeito, aquele episódico envio em missão (exclusivo de Lucas), que tem de ser entendido em relação com Gn 10 (na versão grega do AT), onde o número se refere à totalidade das nações que habitam a terra, é antecipação do mandato confiado aos discípulos no fim do texto evangélico (cf Lc 24,47-48; Mc 16,15-18; Mt 28,1-20) e é lido à luz da Ressurreição e dos dons messiânicos. Se na perícopa em referência o conteúdo fundamental da pregação é “A paz esteja nesta casa… O Reino de Deus já está próximo de vós”, nos aludidos textos dos sinóticos, fala-se expressamente em ir por todo o mundo, fazer discípulos de todas as nações, ser testemunhas em toda a parte, pregar o arrependimento e o perdão dos pecados, provocar a conversão aos valores do Reino…  
Lucas, assinalando que os discípulos foram enviados dois a dois, assegura que o testemunho deles tem valor jurídico (cf Dt 17,6; 19,15) e que o anúncio do Evangelho é tarefa comunitária, não por iniciativa pessoal e própria, mas por mandato de Jesus e em comunhão com os irmãos. E, indicando que os discípulos são enviados às aldeias e localidades aonde Jesus “devia de ir”, quer dizer que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho d’Ele.
Depois, o evangelista descreve o modo de concretização missão. Primeiro, temos o aviso sobre a dificuldade: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (v. 3), com reporte à imagem que, no AT (Antigo Testamento), descreve a situação do justo, perdido no meio dos pagãos (cf Sir 13,17; nalgumas versões, a imagem aparece em 13,21). Aqui, é a situação do discípulo fiel ante a hostilidade do mundo. A seguir, vem a exigência de pobreza e simplicidade: os discípulos não levam consigo bolsa, alforge ou sandálias; não se detêm a saudar ninguém pelo caminho (v. 4); não saltaricam de casa em casa (v. 7). Estas indicações sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força libertadora da Palavra; indicam a urgência da missão, que não permite aos discípulos deterem-se nas intermináveis saudações peculiares da cortesia oriental, sob pena de o essencial – o anúncio do Reino – ser adiado; e querem dizer que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não o encontro duma hospitalidade mais confortável.
Os discípulos devem começar por desejar “a paz” (vv 5-6), não só como saudação normal entre os judeus, mas significando a paz messiânica que preside ao Reino e configurando o anúncio do mundo novo da fraternidade, da harmonia com Deus, consigo próprio, com os outros e com a criação, do bem-estar, da felicidade, enfim de tudo quanto significa a palavra hebraica “shalom”. E esse anúncio tem de ser acompanhado por gestos concretos de libertação, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (v. 9), tal como disse Jesus, segundo Marcos:
Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados. (…) Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.” (Mc 16, 17-18.20).
Em Lucas, o Senhor diz:
E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.” (Lc 24,49).
E, em Mateus, garante:
E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28,20).
A ameaça às cidades que recusem o acolhimento da mensagem (vv. 10-11), que não deve ser tomada à letra, é uma forma de dizer que a rejeição do Reino trará consequências nefastas à vida de quem escolhe continuar em caminhos de egoísmo, orgulho e autossuficiência.
E Lucas (vv. 17-20) refere o resultado daquela ação missionária dos discípulos. As palavras com que Jesus acolhe os discípulos evocam os sinais da presença do Reino enquanto realidade libertadora. Assim, as serpentes e escorpiões, frequentemente tidos como símbolos das forças do mal que escravizam o homem, mas aqui dominados, e a “queda de Satanás” significam que o reino do mal começa a desfazer-se em confronto com o Reino de Deus. Porém, não obstante o êxito da missão, Jesus alerta os discípulos contra o orgulho pela obra feita: não devem ficar contentes pelo poder que lhes foi confiado, mas porque os seus nomes estão “inscritos no Céu”. Anote-se que a imagem dum livro onde estão inscritos os nomes dos eleitos é frequente nesta época, particularmente na literatura apocalíptica (cf Dn 12,1; Ap 3,5; 13,8; 17,8; 20,12.15; 21,27).
Como se pode facilmente verificar, Lucas continua a situar-nos no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém. É mais uma etapa catequética, esta exclusiva do relato lucano, do “caminho espiritual”, em que Jesus vai oferecendo aos discípulos a revelação do Pai e os prepara para continuarem, após a sua partida, a missão de levar o Evangelho a todos os homens.
Nesta catequese, Lucas ensina que o cristão tem de continuar no mundo a missão de Jesus, tornando-se testemunha, para todos os homens, da proposta de salvação que Ele veio trazer.
***
A perícopa tomada para 1.ª leitura (Is 66,10-14c) insere-se no quadro desenhado pelos capítulos 56-66 do Livro de Isaías (designados como “Tritoisaías”), atribuídos pela maior parte dos estudiosos a diversos autores, vinculados espiritualmente ao Deuteroisaías (o autor dos capítulos 40-55) e que apresentaram a sua mensagem nos últimos anos do século VI e primeiros do século V a.C. Em Jerusalém, vários anos após o regresso do Exílio da Babilónia, a reconstrução é muito lenta e penosa; a maioria da população mergulha na miséria; os inimigos, atacando continuamente, põem em causa o esforço da reconstrução; e a esperança definha, com o Povo a perguntar “quando é que Deus vai realizar as promessas que fez, ainda na Babilónia”. Por isso, os profetas apresentam uma mensagem de salvação e alimentam a esperança para que o Povo recobre forças e confie em Deus. É neste contexto que se situa o hino que a perícopa em referência contém: o profeta apresenta um quadro de restauração (cf Is 66,7-14) e convoca os seus habitantes para a alegria. Neste quadro, o objetivo fundamental do profeta é “consolar” o Povo sofrido, que não vê perspetivas de futuro. Todo o quadro gravita em torno de Jerusalém como mãe. Depois de dar à luz o filho (o povo), sem esforço e antes do tempo (cf Is 66,7), Jerusalém alimenta-o com o leite abundante e reconfortante (cf Is 66,11). A referência à sucção do leite “até à saciedade”, ao “seio glorioso” evoca a imagem da fecundidade e da vida em abundância. No entanto, o profeta está consciente de que é Deus quem está por detrás desta corrente de vida e de fecundidade que a mãe-cidade dispensa ao filho-povo. Por isso, põe Deus a fazer chegar à cidade/mãe a paz e a riqueza das nações, para que ela as distribua pelo filho/povo. A paz (“shalom”) inclui aqui a saúde, fecundidade, prosperidade, amizade com Deus e com os outros – enfim, a felicidade total, que Deus Se propõe oferecer em abundância ao Povo. E é sugestiva a forma como se fala de Deus. É o pai que dá ao filho-povo a vida plena, o acaricia e consola como faz a mãe. O profeta apresenta a este Povo um Deus que ama e que, em cada dia, vem ao encontro dos homens para lhes trazer a salvação. Daí o insistente convite à alegria.
Assim, Deus é a esperança, a alegria, a consolação e a paz.
O convite de Isaías à alegria, à exultação e ao júbilo, depois de termos participado no pranto de Jerusalém, resulta da capacidade e vontade consoladoras e esperançosas de Deus. Na palavra do profeta, Deus mostra consolar o Seu Povo a partir de imagens tiradas da vida familiar, sobretudo da relação mãe-filho. Compara-nos à criança que chora faminta e desconsolada e a quem a mãe se esforça por consolar. E, nesta visão profética, o Senhor promete bens que contrastam com a situação atual do Povo. O clima humano em que vive contrasta com o ambiente inseguro e triste em que se encontrava nos tempos do cativeiro de Babilónia. Veja-se como era dantes:
Nas margens dos rios da babilónia sentamo-nos a chorar, lembrando-nos de Sião. / Nos salgueiros daquela terra, pendurávamos as nossas harpas, / porque os que nos tinham deportado pediam-nos um cântico. / Os nossos opressores exigiam de nós um hino de alegria: Cantai-nos um dos cânticos de Sião. / Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor em terra estranha? / Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! /Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.” (Sl 137,1-7).
Ora, importa que aceitemos os dons que o Senhor nos oferece na Sua Igreja. Se teimássemos em procurar teimosamente o prazer dos sentidos, estaríamos na situação de quem procura matar a sede com água salgada. Com efeito, para termos verdadeira alegria, precisamos de mudar de mentalidade, convertermo-nos às promessas de Deus. Ele será a nossa alegria e conforto.
Porque assim fala o Senhor: ‘Farei correr para Jerusalém a paz como um rio e a riqueza das nações como torrente transbordante’.”. Ora, a verdadeira paz é tranquilidade na ordem. Com efeito, há tranquilidade na desordem quando ela é fruto do medo, da prepotência de alguns que nos mantêm imobilizados. Mas é mais que tranquilidade na ordem: é a força anímica de crescer harmonicamente, conviver de forma saudável e partilhar; é servir e aceitar o serviço dos outros; é o exercício em concreto da fraternidade. Assim, a paz é um dom de Deus e nasce de uma consciência que, secundando o dom, procura conhecer e seguir a Sua vontade.
É curioso notar que, no mundo político – quando todos deveríamos estar à procura de uma melhoria de vida para todos, cada grupo reivindica o próprio interesse, mesmo que não seja justo. Ora, ao invés, é necessário reconhecer que pertencemos todos à mesma família dos filhos de Deus na terra, que somos irmãos uns dos outros e vamos todos a caminho do Céu. Se não alcançássemos esta meta, seríamos as mais desgraçadas de todas as pessoas, participando para sempre no ódio e tristeza de Satanás. Por isso, é tempo de parar com os gritos, os amuos, as formas de agressividade ou os entretenimentos egoístas, e fazer a aposta no sorriso e interajuda.
A falta de paz vem da falta de segurança interior em que muitas pessoas vivem porque, no fundo, sabem que estão enganadas e querem sufocar a voz da consciência para não ouvirem os seus gritos a pedir mudança radical de vida. Ora, Deus será a nossa paz, se O deixarmos entrar no nosso coração, para aí a derramar como um bálsamo confortante. É preciso lutar contra a desordem, os falsos deuses que entronizámos na nossa vida, para que a paz possa reinar.
Como a mãe que anima o filho, também Eu vos confortarei: em Jerusalém sereis consolados”.
Constitui uma verdade axial da nossa fé a filiação divina. Deus ama-nos tanto que nos torna Seus filhos pela morte e ressurreição de Cristo, em quem nos incorporamos pelo Batismo. Não somos filhos segundo a natureza, porque não somos deuses, mas não podemos reduzir a nossa filiação divina à simples filiação adotiva, que é uma ficção jurídica: a pessoa arvora-se em pai ou em mãe, mas não há uma verdadeira comunicação da riqueza contida em cada natureza. Os pais adotivos não podem fazer correr o seu próprio sangue nas veias do filho adotado. Na filiação divina é diferente. Pedro afirma, na sua primeira carta, que nós somos “participantes da natureza divina”. E Isaías, ao transmitir-nos a mensagem do Senhor, recorre a imagens da vida familiar: a criança que chora com desconforto – como os regressados do cativeiro de Babilónia – e a mãe que faz apelos ao seu carinho para a confortar. É a segurança dos braços da mãe e o calor do seu afeto que dá à criança a alegria de que precisa. Assim procede Deus para connosco. Deus faz-nos seus verdadeiros filhos e é por isso que o Ressuscitado trata aos discípulos por irmãos. E, na Carta aos Gálatas (é a única), o termo “irmãos” aparece na saudação final: é grito de angústia e de confiança, apelo à comunhão, expressão da esperança na fraternidade total.
E isto traz consequências. Não podemos viver uma vida esquizofrénica, acreditando, dentro do templo, na filiação divina, para logo a seguir, nos deixarmos mergulhar num pessimismo sem horizontes. A única coisa que o Senhor recusa fazer (porque é o melhor dos pais) é satisfazer-nos todos os caprichos, porque muitas vezes são maus e não nos resolvem os problemas.
Por outro lado, uma das consequências da nossa filiação divina é testemunhar e irradiar fraternidade. Deus quer agir no mundo para resolver os problemas que nos afligem, mas precisa da nossa cooperação. Sem esse pequeno nada que podemos fazer, Deus não agirá.
Designou o Senhor 72 discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir”. Jesus enviou, pois, à Sua frente os discípulos, para uma missão bem definida: preparar o acolhimento a Jesus Cristo. Todo o apostolado que fazemos se concretiza não na afirmação pessoal ou num projeto individual, mas na preparação do acolhimento a Jesus Cristo pela conversão pessoal. Quando somos enviados aos outros, não há uma separação física entre nós e Jesus, mas levamo-Lo presente. O Espírito Santo faz que Ele fale pela nossa boca. Não é a nossa eloquência que faz mudar as pessoas, mas a ação misteriosa e eficaz da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade presente em cada pessoa. É uma grande honra e um grande dever dar visibilidade a Jesus Cristo no mundo, restituir-Lhe o lugar a que Ele tem direito, na família, no trabalho, nos divertimentos e nas leis. Para isso precisamos de apostar na identificação com a vontade de Deus e na coerência de vida.
Identificação com a vontade de Deus. É preciso purificar a nossa mente e desprendê-la de interesses pessoais; e querer o que Deus quer, sem forçar a verdade teológica e moral para os nossos gostos e interesses. Mas, para querermos o que Deus quer, temos de saber o que Ele quer, ou seja, requer-se formação doutrinal e pedagógica. Aliás, podemos dar conselhos que, em vez de ajudar as pessoas, as afastam de Jesus Cristo e as levam a não O acolher.
Coerência. Deus não pede que nos tornemos santos antes de começarmos a fazer apostolado, mas que estejamos sinceramente dispostos a cumprir o que aconselhamos aos outros.
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Enfim, somos enviados a testemunhar o Reino de Deus, a sua força e dinamismo. E o Reino merece tudo: empenhamento total, atenção aos seus sinais no mundo, seguimento das pegadas do Mestre, docilidade ao Espírito Santo, doação à comunidade e serviço aos que mais precisam – dando o rosto sempre que necessário, sabendo optar pela discrição quando ela convir ao desenvolvimento do Reino e sempre cantando “A terra inteira aclame o Senhor”.
2019.07.07 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 20 de junho de 2019

“Comeram e ficaram saciados”


Era a frase lapidar que se lia na Igreja Seminário Santa Cruz, dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, como tema deste Dia da Eucaristia na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, no Ano C, citando da perícopa do Evangelho de Lucas (Lc 9,11b-17), proclamada na Liturgia, o seu versículo 17. 
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Segundo a reflexão de Dom António Couto, Bispo de Lamego, publicada a 19 no “Jornal da Madeira”, a Liturgia da Palavra abre com um trecho do Génesis (Gn14,18-20), que delineia a rota que passa pelo Salmo 110, em que Deus consagra o Messias Senhor como “sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (malkî-tsedeq) – rei e sacerdote de Shalem, a futura Jerusalém, yerûshalaim (cidade da paz – shalôm –, embora o seu nome signifique ‘Shalem a edificou’) – consagração que ressoa na Carta aos Hebreus, que exalça Jesus como “sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (5,6.10; 6,20; 7,11.15.17), que “trouxe a Abraão, pão e vinho, paz e bênção”, e cujo sacerdócio não tem fim, pelo que pode salvar para sempre quem se aproxima de Deus, porque Se ofereceu (anaphérô) a Si próprio de uma vez por todas (ephápax) (Heb 7,24-25.27). Melquisedec aparece em Gn 14, no Salmo 110 (com a adição do segmento para sempre) e na Carta aos Hebreus, lá onde o sacerdócio de Jesus é para sempre, segundo a ordem de Melquisedec, e não segundo a de Aarão e Levi, em que os sacerdotes se sucediam e se fiavam nos sacrifícios dos animais.
E, tendo em conta a “lex orandi lex credendi”, é de notar que no Cânone Romano, a Igreja reza:
Olhai com benevolência e agrado para esta oferenda, e dignai-vos aceitá-la, como aceitastes os dons do justo Abel, vosso servo, o sacrifício de Abraão, nosso pai na fé, e a oblação pura e santa do sumo-sacerdote Melquisedec”.
Mas, como diz António Couto, “esta avenida bela e florida passa também pelo Cenáculo, e transparece no belo hino intitulado Lauda Sion Salvatorem [= «Louva, Sião, o Salvador»], em que cantamos assim: “Eis aqui o pão dos anjos,/ feito pão dos peregrinos,/ que não deve profanar-se.// Em figuras proclamado,/ como Isaac hoje imolado,/ é Cordeiro e maná puro.”.
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O Bispo do Porto, sublinhando a importância da celebração desta Solenidade, aliou-lhe, na sua homilia, na Igreja da Trindade, os deveres do cristão de adorar o Sacramento, de comungar o Corpo e o Sangue de Cristo, fazendo da celebração da Eucaristia o centro da vida, mas também a rampa de lançamento para a atenção solidária para com aqueles que mais precisam – à semelhança de Jesus e dos discípulos.
Jesus acolheu as multidões que O seguiram e pôs-se a falar-lhes do Reino de Deus, curando os que necessitavam. Porém, como dia chegava ao fim, os discípulos antevendo a necessidade de comer da multidão, ficaram preocupados e sugeriram ao Mestre que despedisse a multidão para que pudessem as pessoas arranjar pão nas redondezas.
Ao invés, Jesus, assinalando a responsabilidade do cuidado dos corpos famintos inerente à pregação, prescreveu que lhe dessem de comer os discípulos. E estes, como só tinham consigo 5 pães e 2 peixes, dispunham-se a ir comprar comida para este povo. Mas Jesus tinha a solução, porque os discípulos estavam dispostos a resolver o problema e a partilhar o que tinham e o que poderiam vir a ter, e decidiu:
Disse aos discípulos: ‘Mandai-os sentar por grupos de cinquenta’. Assim procederam e mandaram-nos sentar a todos. Tomando, então, os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem à multidão. Todos comeram e ficaram saciados; e, do que lhes tinha sobrado, ainda recolheram doze cestos cheios.”.
Dom Manuel Linda chamou a atenção para a importância da partilha e para a ação de Deus que vem em auxílio do pouco valor que possa ter a ação dos homens, desde que se mobilize totalmente, de acordo com as suas possibilidades. E referiu que se alimentaram e se saciaram cinco mil homens e acrescentou – o que Lucas não diz expressamente, mas que Mateus o faz – sem contar as mulheres e as crianças. E tem razão, pois Lucas fala em “hôsei ándres pentakiskhílioi” (em grego) ou “fere viri quinque milia” (em latim), ou seja, quase cinco mil varões (não se diz ánthropoi ou homines).
Por consequência, lançando o olhar para o mundo atual e a degradação do devir civilizacional, denunciou dois casos graves. O primeiro é o do matemático português, que arrisca 20 anos de prisão por ser apanhado a salvar vidas de refugiados no Mediterrâneo, em virtude da nova lei italiana, que proíbe o apoio aos refugiados. E lamenta-se o prelado portuense, dizendo que é como se, ao invés do que é razoável, fôssemos premiados por deixar morrer as pessoas, quando já se tinha avançado no reconhecimento do dever de socorrer quem está em perigo e que se tornou plausível. Por outro lado, expôs, baseado em dados do INE, as centenas de milhares de desempregados que habitam o território português, de que duas centenas de milhares estão em risco de cair na pobreza, e referiu os casos de pessoas que vivem magramente dum trabalho que as deixa muito aquém da satisfação das necessidades pessoais e familiares e das suas capacidades de trabalho, por exemplo, em limpezas e alguns consertos.
E, por tudo isto, alertou os cristãos para a obrigação de, alinhados com o Evangelho e a Eucaristia, proverem a estas situações sociais num mundo em que impera o deus bem-estar.
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Por seu turno, o Bispo de Lamego, comentando este passo evangélico, rejeita a tese da multiplicação dos pães e aponta a divisão e partilha dos pães, dizendo que só Jesus sabe de uma divisão fazer uma multiplicação, não se tratando de aumentar a quantidade do pão e do peixe (“que permanece a mesma”), mas de abrir os olhos aos discípulos e a nós que “só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuitidade” do Pai. Ora, esta lógica leva a crer no dom, a estar em saída e a ir por este mundo a partir o pão e a partilhá-lo, com a certeza de que “onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos (“todos comeram e foram saciados”), como se instaura também o ‘excesso’, a superabundância da graça, caraterística fundamental do Reino de Deus (os discípulos encheram doze cestos).
O prelado lamecense frisa que aquele dia da vida de Jesus “se situa imediatamente a seguir ao regresso dos Doze da sua primeira missão e aponta, por tópicos, as notas fundamentais do seu diário do dia: “Jesus acolhia toda a gente (1), explicava a todos o Reino de Deus (2), curava os necessitados (3).”. Isto era “todo o afazer de Jesus”, a envolver “as pessoas todas no manto da ternura de Deus”, a ponto de “nem Jesus nem as pessoas” se aperceberem de que “o tempo passa e começa a cair a noite”. Todavia, os Doze, apercebendo-se, “intervêm e ditam a Jesus indicações, senão mesmo ordens, precisas”. A réplica de Jesus estonteia-os (Dai-lhes vós de comer!”) e “respondem às apalpadelas” (mais duro e talvez mais realista que o Bispo do Porto):
Primeiro esboço: ‘Só temos cinco pães e dois peixes’, que é como quem diz, mal chegam para nós… Segundo esboço: ‘A menos que vamos nós mesmos comprar comida para eles’…” (Lc 9,14).
Porque as considera desajustadas, o Mestre não equaciona “as indicações dos Doze”, mas “dá e faz ordens novas e surpreendentes, como faz sempre Deus”. E os apóstolos devem ter pensado: mandá-los reclinar à mesa (kataklínô), neste lugar ermo, “para comer o quê?!”.
Tal como Dom António Augusto Azevedo, Bispo eleito de Vila Real, na Igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, Dom António Couto, aponta a “Ação Eucarística de Jesus”:
Tendo recebido os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos para o céu (gesto de oração), pronunciou a bênção, partiu-os e dava aos discípulos para servirem à multidão”.
E diz o Bispo de Lamego:
Salta à vista que os gestos que Jesus faz naquele entardecer são um claro decalque daqueles que fará um ou dois anos mais tarde no interior da sala do Cenáculo na última tarde da sua vida terrena. Basta apenas acostar aqui o relato Eucarístico do Cenáculo: ‘Jesus recebeu o pão, deu graças, partiu-o e deu-o a eles’ (Lc 22,19a). O novo nesta Ceia do Cenáculo é o dizer de Jesus sobre o pão partido e a eles dado: ‘Isto é o meu corpo dado por vós. Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19b). E sobre o vinho: ‘Este é o cálice da nova aliança no meu sangue, por vós derramado’ (Lc 22,20).”.
Dom António Azevedo dizia que a celebração da Eucaristia – adorante e comungante – postula a redescoberta da centralidade da Eucaristia (para ela nos dirigimos da vida de cada dia e dela partimos para a vida) na vida da Igreja e na de cada cristão e apontava a força anímica do levantar os olhos ao céu e do abençoar, tal como a do partir o pão e partilhá-lo. Por outro lado, em Ano Missionário, sublinha que importa perceber as duas dimensões da Eucaristia: a espiritual, que nos leva a orar, saborear e adorar; e a missionária, testemunhando que Jesus, que morreu e ressuscitou, está vivo e vive entre nós; que, por Si e através de nós, continua a pregar o Reino de Deus, a compadecer-se e a colmatar as necessidades do mundo dos homens.     
Dom António Couto vê, na perícopa em referência, “o lado subversivo do Evangelho”:
Jesus não se contenta, nem quando nós nos propomos comprar pão para alimentar os outros. Para Jesus não é compreensível que uns tenham mais, outros menos e outros nada, e que esta situação se possa amenizar pontualmente. Dar tudo é a medida de Deus e a lógica do Evangelho. Por isso, Jesus diz: ‘Isto é o meu corpo dado por vós. Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19b); ‘Este é o cálice da nova aliança no meu sangue, por vós derramado’ (Lc 22,20). Vida partida, repartida e dada por amor. Eis o inteiro programa de Jesus. Eis tudo o que devemos fazer, imitando-o.”.
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O Bispo de Lamego considera a graça de hoje podermos “escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor”, que foi assumido como 2.ª leitura. E traduziu:
O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton), e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim’. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: ‘Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim’. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)”. (1Cor 11,23-26).”.
E, sublinhando que “a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro”, fixa os verbos que perpassam o relato: receber, dar graças e partirpartilhar o pão. De receber diz que “é a base da nossa vida, vocação e missão sempre de Deus recebidas”. Pensa dar graças como fundamental porque só reconhecendo “que a Graça tomou conta de nós”, é que “podemos e sabemos dar graças” e o percebemos e assumimos como “atitude que transforma a nossa vida”. E ensina que partirpartilhar o pão implica saber que nada é nosso nem a vida, pelo que “tudo é para partilhar com alegria com tantos irmãos”.
Depois, assenta em que é preciso agir eucaristicamente em memória de Jesus ou ao jeito de Jesus porque Ele está “no centro da nossa da nossa vida e das nossas atitudes”; e que anunciar a morte do Senhor não é “chorar ou de vestir de luto”, mas “saber ver bem a Cruz de Jesus e o caminho da Cruz de Jesus”. Na verdade, trata-se de anunciar que “Jesus viveu e morreu para a dar a vida por amor, para sempre e para todos”.
Jesus sintetizou em Si o sacrifício de Melquisedeque, no pão e no vinho, e o de Aarão, no sacrifício de animais. Qual imaculado cordeiro pascal, entregou-Se no patíbulo da cruz, mas depois de Se entregar na Ceia sob as espécies de pão e de vinho. Na cruz, fez-se ponto de atração redentora; na Ceia, fez-se banquete tornando-se o “Pão repartido para a vida do mundo”.  
A Eucaristia cumpre em pleno a figura veterotestamentária do banquete de carnes gordas e vinhos finos preparado sobre o monte pelo Senhor dos Exércitos (cf Is 25,6), para o qual a Sabedoria manda anunciar nos pontos altos da cidade: “Vinde, comei do meu pão, bebei do vinho que preparei” (Pr 9,5) – “banquete que se entrevê na carne preparada em abundância e nos 60 quilos de farinha que, lado a lado, Sara e a mãe de família do Evangelho, metem ao forno (Gn 18,6-7; Mt 13,33; Lc 13,21)”.
E Dom António Couto, tal como Dom António Azevedo, salientou o significado da procissão pelas ruas da Cidade como presidência e bênção facultadas pela presença do Senhor da nossa vida, que decide caminhar connosco. Mas faz um aporte interessante sobre o pálio (pallium), referindo que “o pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos, sobretudo os mais sofridos e marginalizados” – aspeto em que as mensagens dos Bispos do Porto e de Lamego se tocam.
E, citando um autor italiano, desenvolve:
Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo e no nosso meio todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior, que nos envolve e nos salva em todas as situações” (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004).
Enfim, temos, pois, que aprender as lições que nos traz a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Com efeito, vivendo unidos e reunidos, em Igreja, à volta do Senhor, “que por nós parte e reparte a sua vida”, capacitar-nos-emos para a partilha solidária com todos e semearemos a esperança num mundo egoísta negativamente competitivo, em que “os pobres não podem esperar” (Dom António Francisco dos Santos) e são espezinhados por aqueles que os exploram e cinicamente os acusam de serem eles os culpados da sua própria pobreza.
Que Deus perdoe os males que fazemos e nos dê a sabedoria para apreciarmos o mistério e nos empenharmos na missão.  
2019.06.20 – Louro de Carvalho