quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Nova administração da CGD assumirá a governança do banco público

Aguardava-se, há meses o veredicto do BCE (Banco Central Europeu), o ora árbitro e supervisor da grande banca nos países do euro.
O governo, como acionista único da CGD (Caixa Geral de Depósitos) queria um conselho de administração com 19 elementos – 12 não executivos e 7 a constituir a comissão executiva – sendo que o presidente a comissão executiva acumularia a presidência desta com as funções de presidente do conselho de administração. Porém, como diz o colunista do Expresso, Pedro Santos Guerreiro, o empresário “queria jogar com 19”, mas o árbitro só deixa jogar com 11, ou seja, o BCE exclui 8 administradores, não pela identidade pessoal, mas por serem muitos e por excederem o limite de cargos em órgãos sociais de outras sociedades. A justificação pública foi apresentada pelo Ministério das Finanças, que pretende que eles sejam mais tarde admitidos que eles voltem a ser admitidos. Com efeito, Mourinho Félix, Secretário de Estado Adjunto, do Tesouro e das Finanças, coloca o impedimento no RGICSF (Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras), pelo que faz avançar a intenção da sua revisão para com isso poder alargar o conselho de administração e voltar a convidar os administradores que afinal não podem ser.
Tal intenção, que já foi contestada pelos partidos à esquerda do PS, que ajudam a formar a maioria parlamentar que apoia o Governo, pode não passar duma tentativa de resolver o problema, mas seguramente é a forma de desviar a atenção do assunto, ora tornado embaraçoso, para explicar a razão por que o Executivo tem de “desconvidar” alguns dos que tinha convidado um a um, porque ou eram detentores de conhecimento e/ou experiência bancária ou eram figuras públicas de renome ou representavam setores significativos da sociedade civil.   
Dos 12 indigitados para administradores não executivos ficam 4, como confirmou o Ministério das Finanças. Entre os que se encontram em vias de serem desconvidados estão, segundo o Jornal de Negócios, Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud, Carlos Tavares, líder do grupo Peugeot Citroen, e Ângelo Paupério, copresidente executivo da Sonae, e Bernardo Trindade, que foi Secretário de Estado do Turismo nos governos de Sócrates.
Por outro lado, António Domingues, que terá de deixar a administração da “Nós”, só poderá acumular as funções de presidente da comissão executiva (CEO) com as de presidente do conselho de administração (Chairman) durante os primeiros 6 meses. Mais: o conselho de administração tem de integrar na sua composição 30% de mulheres e um máximo de 60%.
Porém, o pior de tudo, do meu ponto de vista, é a exigência feita pelo BCE de que 3 dos sete administradores executivos sejam obrigados a frequentar o curso de Gestão Bancária Estratégica do INSEAD (The Business School for the World). Assim, João Tudela Martins, Paulo Rodrigues da Silva e Pedro Leitão têm de, primeiro, ir estudar para poderem, depois, gerir o banco do Estado.
Quem foi mesmo aceite sem reservas, a não ser a da acumulação (dentro e fora do banco) foi António Domingues. Falta, da parte da CGD, a data para a tomada de posse da equipa e, da parte da Comissão Europeia, a aprovação explícita para o aumento de capital necessário.
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É certo que que em si mesma a estrutura da governança da CGD foi aceite pelo BCE. A este respeito, um comunicado do Ministério das Finanças diz do BCE que aprovou a estrutura de governação proposta pelo Governo, que integra um conselho de administração alargado, em que os administradores não executivos terão funções de controlo da comissão executiva através de comissões especializadas e um conselho fiscal com funções de fiscalização, que terá assento, por inerência, na comissão de auditoria e controlo interno. Além disso, atestou a “adequação e a idoneidade de 7 administradores-executivos propostos, de 4 administradores não-executivos e dos 4 membros do conselho fiscal”.
António Domingues, o nome proposto para presidente do conselho de administração e da comissão executiva dispõe apenas dum período de 6 meses em que poderá acumular tais funções e “que o Governo utilizará para analisar” a questão com o BdP e com o BCE.
Segundo o Governo, o processo de conformidade total levaria a “uma maior morosidade do processo de nomeação”. Assim, avança o comunicado do Ministério das Finanças:
“A nomeação dos restantes administradores não-executivos será feita num curto espaço de tempo já que não houve sobre estes qualquer objeção relativamente à adequação ou idoneidade, nem foram identificados quaisquer conflitos de interesses impeditivos”.
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Quem se mostrou verdadeiramente surpreendida com o veto do BCE ao seu nome foi a ex-ministra da Saúde de Cavaco Silva, Leonor Beleza. A presidente da Fundação Champalimaud declarou à agência Lusa:
“Fui surpreendida hoje pelas notícias veiculadas pela comunicação social sobre o processo de apreciação da minha possível nomeação como administradora não executiva da Caixa Geral de Depósitos”.
E explicitou as condições em que aceitou:
“Disponibilizei-me para fazer um esforço suplementar de trabalho e colaborar com uma equipa independente na condução de uma instituição vital para o país, tendo tornado claríssimo desde o princípio deste processo para mim, em abril passado, que não aceitaria receber por isso qualquer remuneração”.
Ora, a ex-ministra da Saúde e presidente da Fundação Champalimaud estaria, desde o início, disponível para colaborar, mas sem pôr em causa ou diminuir de intensidade o envolvimento como presidente da Fundação. E garante que prosseguirá no cumprimento dessa missão.
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Quanto à pretensão do BCE de querer pelo menos 30% de mulheres no conselho de administração da CGD – para garantir de forma adequada o objetivo de diversidade de género estabelecido na respetiva política de seleção e avaliação de adequação – o Ministério das Finanças confirma que até 2018 essa regra será cumprida.
No concernente à imposição de três administradores executivos terem de frequentar a formação no INSEAD, deve dizer-se que é uma exigência inédita. É a primeira vez que o BCE pretende que administradores de banca frequentem ações de formação profissional relacionadas com atividade financeira. E começa logo pela CGD. Obriga-os a tirarem vários cursos no estrangeiro e a terem formação interna sobre o próprio funcionamento da CGD; exige saber se os cursos foram efetivamente frequentados e se os formandos os concluíram com êxito.
Tais exigências constam de carta do BCE, enviada ao BdP e à CGD a 17 de agosto, sobre a aceitação da proposta da nova administração do banco público, documento confidencial a que o Expresso diz que teve acesso. É uma carta assinada pelo próprio presidente do BCE, Mario Draghi, que exige, desde logo, que três dos sete administradores executivos sejam obrigados a frequentar o curso de Gestão Bancária Estratégia do INSEAD ou outro programa com conteúdos similares. Tal formação terá de ser feita seis meses após a tomada de posse destes administradores executivos e o BCE exige que lhe sejam reportadas pela CGD as informações sobre a conclusão e o sucesso na frequência da formação. Estão em causa, como se disse, os administradores executivos João Tudela Martins, Paulo Silva e Pedro Leitão. Todavia, a João Tudela Martins é exigido, adicionalmente, que frequente um curso de gestão de risco bancário, também do INSEAD, e um outro curso de Risco Financeiro e Regulação, ministrado pela Associação Global de Profissionais de Risco, ou programa equivalente. Os outros membros da comissão executiva (António Domingues, Emídio Pinheiro, Tiago Marques e Henrique Cabral Menezes) estão dispensados destas ações de formação.
Além disso, o BCE exige que a CGD disponibilize a todos os 11 novos administradores um programa de formação básica que cubra, pelo menos, as seguintes áreas: organigramas, área de negócio, responsabilidades e funções das diferentes áreas, processos de reporte ao topo da hierarquia, código de conduta, políticas de compliance (cumprimento de regras), controlo interno e matérias de regulação e supervisão. Também, em relação a este ponto, a CGD deverá depois informar o BCE da realização e conclusão com sucesso desta formação.
E à lista de exigências “curriculares” acrescenta-se o facto de o banco público dever também providenciar a todos os membros do conselho de administração uma formação contínua com um enfoque especial em regras prudenciais e gestão de risco – exigência que já foi acordada entre o BCE, supervisor europeu, e o Estado Português, acionista único da CGD.
Os quatro administradores não executivos que foram aceites pelo supervisor europeu são: Rui Vilar, Pedro Norton, Angel Corcostegui e Herbert Walterin.
A nova administração da CGD tomará posse nos próximos dias, depois de ter passado pelo crivo de Mario DRaghi, que, depois de saçaricar, não pôde deixar passar tudo nem tudo reter.
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Para já o futuro próximo da CGD está nas mãos de António Domingues e mais três executivos, mas sobretudo dele, que durante 6 meses acumulará as funções de CEO e de Chairman. O banco público conta com este economista, de 59 anos, 27 dos quais foram ao serviço do BPI, donde saiu como vice-presidente, com a responsabilidade na área financeira, experiência considerada relevante, uma vez que a CGD tem em curso um processo de recapitalização. É bem visto nos círculos socialistas e, no BPI (Banco Português de Investimento), foi colega de Vítor Constâncio, ora vice-presidente do BCE. Antes do BPI, passou pelo BdP e pelo BPA (Banco Português do Atlântico).
A exigência daquela formação específica e com as condições acima referidas é humilhante. Das duas, uma: ou significa que será exigida a todos os gestores bancários, e tal exigência começou da pior maneira; ou pode querer dizer que a CGD nunca terá cuidado dela e os seus gestores terão sido escolhidos pelo visual político, e o banco do Estado andou ao sabor da maré.
Mas pode querer dizer que alguns dos escolhidos não têm perfil. E não percebo por que motivo Rui Vilar – que integrou os quadros diretivos do BPA, foi Ministro da Economia, Ministro dos Transportes e Comunicações, Presidente da CGD, Presidente do BESCL, vice-governador do BdP, presidente do Grupo Europeu dos Bancos de Poupança e presidente do CA da Fundação Calouste Gulbenkian – precisa assim de formação.
E eu, se pertencesse ao grupo dos executivos obrigados àquela formação, sobretudo se fosse o que tem de fazer mais cursos, declinaria o convite. A exigência tem de conhecer limites.

2016.08.18 – Louro de Carvalho

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