domingo, 30 de abril de 2017

A dimensão pascal do discurso de Francisco no Egito, a mãe do Universo

Esta dimensão é explícita na visita de cortesia ao Papa Twadros II, na homilia da missa no Estádio Aeronáutica Militar, no Cairo, e no encontro de oração com os sacerdotes, religiosos e seminaristas, no Seminário Patriarcal em Maadi, no Cairo. Mas todas as comunicações de Francisco, com exceção do discurso a Twadros II, se iniciaram com a saudação pascal de Jesus Ressuscitado: “Al Salamò Alaikum! – A paz esteja convosco (Lc 24,36; Jo 20,19.26).
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Na visita a Twadros II, o Papa saudando “Al Massih kam, bilhakika kam!” (O Senhor ressuscitou; ressuscitou verdadeiramente), evoca a recente ocorrência da solenidade da Páscoa, este ano celebrada no mesmo dia, o que propicia o ensejo da proclamação uníssona do “anúncio da Ressurreição”, revivendo “a experiência dos primeiros discípulos”, que “se encheram de alegria por verem o Senhor” (Jo 20,20) – alegria pascal “enriquecida pelo dom de adorarmos, juntos, o Ressuscitado na oração e por trocarmos novamente, em seu nome, o ósculo santo e o abraço de paz”.
No comum reconhecimento de que Cristo é “perfeito Deus”, quanto à divindade, e “perfeito homem”, quanto à humanidade e na confissão da fé em “Nosso Senhor e Deus e Salvador e Rei de todos nós, Jesus Cristo”, nós professamos que pertencemos a Jesus e que Ele é o nosso tudo”.
Compreendendo que, “sendo seus, já não podemos pensar em avançar cada um pela sua estrada, porque trairíamos a sua vontade”, que os seus “sejam todos um só (...), para que o mundo creia” (Jo 17,21), não podemos esconder-nos em desculpas de divergências de interpretação, nem em séculos de história e tradições que nos tornaram estranhos. Com efeito, “a nossa comunhão no único Senhor Jesus Cristo, no único Espírito Santo e no único Batismo já representa uma realidade profunda e essencial”. Assim, há não só um ecumenismo de gestos, palavras e compromisso, “mas uma comunhão já efetiva, que cresce dia a dia no relacionamento vivo com o Senhor Jesus”, enraizada na fé professada e fundada no Batismo, que nos tornou n’Ele “novas criaturas” e de que “havemos de partir sempre de novo, para apressar o dia tão desejado em que estaremos em comunhão plena e visível no altar do Senhor”.
Por consequência, juntos,
“Somos chamados a testemunhá-Lo, a levar ao mundo a nossa fé, antes de tudo segundo o modo que é próprio da fé: vivendo-a, porque a presença de Jesus transmite-se com a vida e fala a linguagem do amor gratuito e concreto”.
Depois, o Papa aponta a caridade fraterna e comunhão de missão como o núcleo do que nos confia a Palavra divina e marca as nossas origens – “as sementes do Evangelho”, que na alegria continuamos a regar e, com a ajuda de Deus, a fazer crescer juntos (cf 1Cor 3,6-7). E, assim, a maturação do caminho ecuménico é sustentada, de modo misterioso, também por um verdadeiro e próprio ecumenismo do sangue nesta terra, pois, desde os primeiros séculos do cristianismo, muitíssimos mártires “viveram a fé heroicamente e até ao extremo, preferindo derramar o sangue a negar o Senhor e ceder às adulações do mal ou mesmo só à tentação de responder ao mal com o mal”. E, ainda há pouco, “o sangue inocente de fiéis inermes foi cruelmente derramado”. É sangue inocente que nos une, pois, “assim como é única a Jerusalém celeste, assim também é único o nosso martirológio”. Por isso, trabalharemos “por nos opor à violência, pregando e semeando o bem”, fazendo pela concórdia e unidade e rezando a fim de que “tantos sacrifícios abram o caminho para um futuro de plena comunhão entre nós e de paz para todos”.
Mas, para Francisco a história de santidade do Egito não é peculiar só no martírio, mas também no monaquismo como impulso à vivência cristã, atestando a fecundidade espiritual do Egito:
“Logo que terminaram as perseguições antigas, surgiu uma forma nova de vida que, doada ao Senhor, nada retinha para si: no deserto, começou o monaquismo. Assim, aos grandes sinais que antigamente Deus realizara no Egito e no Mar Vermelho (cf Sl 106/105,21-22), seguiu-se o prodígio duma vida nova, que fez o deserto florir de santidade. Com veneração por este património comum, vim como peregrino a esta terra, onde o próprio Senhor gosta de vir: aqui, glorioso, desceu sobre o Monte Sinai (cf Ex 24,16); aqui, humilde, encontrou refúgio quando era criança (cf Mt 2,14).”
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Na homilia da missa, o Pontífice comentou o Evangelho do itinerário dos discípulos de Emaús que deixaram Jerusalém (Lc 24,13-35), em torno de três palavras: morte, ressurreição e vida.
- Morte. Os discípulos voltam à vida quotidiana desiludidos: porque o Mestre morreu, é inútil esperar. Agora, o caminho “é um voltar atrás”, afastando-se da “experiência dolorosa do Crucificado”. A Cruz “parece ter sepultado todas as suas esperanças”. E o Papa exclama:
“Quantas vezes o homem se autoparalisa, recusando-se a superar a sua ideia de Deus, um deus criado à imagem e semelhança do homem! Quantas vezes se desespera, recusando-se a crer que a omnipotência de Deus não é omnipotência de força, de autoridade, mas é apenas omnipotência de amor, de perdão e de vida!”.
Mas o Pontífice adverte que estes discípulos reconheceram Jesus no ato de “partir o pão” (Lc 24,35), na Eucaristia, e que nós, “se não deixarmos romper o véu que ofusca os nossos olhos” pelos preconceitos e pelo endurecimento do coração, nunca reconheceremos “o rosto de Deus”.
- Ressurreição. No mais escuro da noite do “desespero mais desconcertante”, Jesus aproxima-Se e caminha pela estrada dos discípulos, “para que possam descobrir que Ele é o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6); “transforma o seu desespero em vida, porque, quando desaparece a esperança humana, começa a brilhar a divina”, pois, “quando o homem toca o fundo do fracasso e da incapacidade, quando se despoja da ilusão de ser o melhor”, Deus vem estender-lhe “a mão para transformar a sua noite em alvorada, a sua tristeza em alegria, a sua morte em ressurreição”. É o “regresso à vida e à vitória da Cruz” (cf Heb 11,34). Assim, “depois de terem encontrado o Ressuscitado, os dois discípulos retornam cheios de alegria, confiança e entusiasmo, prontos a dar testemunho”.
- Vida. Com efeito “o encontro com Jesus ressuscitado transformou a vida daqueles dois discípulos, porque encontrar o Ressuscitado transforma toda a vida e torna fecunda qualquer esterilidade”. E o Papa, apoiado na palavra de Paulo (1Cor 15,14) – “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a nossa fé” – adverte que “a Ressurreição não é uma fé nascida na Igreja, mas foi a Igreja que nasceu da fé na Ressurreição”. De facto, ensina o Papa:
“O Ressuscitado desaparece da vista deles para nos ensinar que não podemos reter Jesus na sua visibilidade histórica: ‘Felizes os que creem sem terem visto!’ (Jo 21,29; cf 20, 17). A Igreja deve saber e acreditar que Ele está vivo com ela e vivifica-a na Eucaristia, na Sagrada Escritura e nos Sacramentos. Os discípulos de Emaús compreenderam isto e voltaram a Jerusalém para partilhar com os outros a sua experiência: ‘Vimos o Senhor... Sim, verdadeiramente ressuscitou!’ (cf Lc 24,32).”.
Com os discípulos de Emaús aprendemos que “não vale a pena encher os lugares de culto, se os nossos corações estiverem vazios do temor de Deus e da sua presença” e “não vale a pena rezar, se a nossa oração dirigida a Deus não se transformar em amor dirigido ao irmão”, pois Deus “detesta a hipocrisia” (cf Lc 11,37-54; At 5,3.4). Para Ele, “é melhor não acreditar do que ser um falso crente, um hipócrita”.
E, nas palavras de Francisco a fé tem consequências: torna-nos mais caridosos, misericordiosos, honestos e humanos; anima-nos os corações levando-nos “a amar a todos gratuitamente, sem distinção nem preferências”; leva-nos “a ver no outro, não um inimigo a vencer, mas um irmão a amar, servir e ajudar”; induz-nos “a espalhar, defender e viver a cultura do encontro, do diálogo, do respeito e da fraternidade”; incita à “coragem de perdoar a quem nos ofende, a dar a mão a quem caiu, a vestir o nu, a alimentar o faminto, a visitar o preso, a ajudar o órfão, a dar de beber ao sedento, a socorrer o idoso e o necessitado (cf Mt 25,31-45). Por conseguinte:
“A verdadeira fé é a que nos leva a proteger os direitos dos outros, com a mesma força e o mesmo entusiasmo com que defendemos os nossos. Na realidade, quanto mais se cresce na fé e no seu conhecimento, tanto mais se cresce na humildade e na consciência de ser pequeno.”
Por fim, vem o apelo à coerência de vida com o Evangelho e as necessidades do mundo:
“Como os discípulos de Emaús, voltai à vossa Jerusalém, isto é, à vossa vida diária, às vossas famílias, ao vosso trabalho e à vossa amada pátria, cheios de alegria, coragem e fé. Não tenhais medo de abrir o vosso coração à luz do Ressuscitado e deixai que Ele transforme a vossa incerteza em força positiva para vós e para os outros. Não tenhais medo de amar a todos, amigos e inimigos, porque, no amor vivido, está a força e o tesouro do crente.”.
E o vibrante e consolador anúncio pascal:
    Al Massih kam; bilhakika kam (Cristo ressuscitou; ressuscitou verdadeiramente)!
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O predito encontro de oração começa com um genuíno pregão pascal: Este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos n’Ele! Cristo venceu a morte para sempre, alegremo-nos n’Ele!
A seguir, Francisco saúda, através dos presentes, “o pequeno rebanho católico no Egito – o ‘fermento’ que Deus prepara para esta terra abençoada, para que, juntamente com os nossos irmãos ortodoxos, cresça nela o seu Reino (cf Mt 13,33).
Agradecendo o testemunho e o bem que fazem “trabalhando no meio de muitos desafios” e “poucas consolações”, encoraja-os a não temerem “o peso do dia a dia” e “as circunstâncias difíceis” que alguns têm de atravessar. Com efeito, “veneramos a Santa Cruz, instrumento e sinal da nossa salvação” e sabemos que “quem escapa da cruz, escapa da Ressurreição”. Porém, o “pequenino rebanho” não teme, porque aprouve ao Pai “dar-lhe o Reino” (cf Lc 12,32).
E trata-se de este pequenino rebanho “crer, testemunhar a verdade, semear e cultivar sem esperar pela colheita”, pois “nós recolhemos os frutos de muitos outros” que “generosamente trabalharam na vinha do Senhor”. Diz-lhes o Papa: ‘A vossa história está cheia deles’! E pede:
“No meio de muitos motivos de desânimo e por entre tantos profetas de destruição e condenação, no meio de numerosas vozes negativas e desesperadas, sede uma força positiva, sede luz e sal desta sociedade; sede a locomotiva que faz o comboio avançar para a meta; sede semeadores de esperança, construtores de pontes, obreiros de diálogo e de concórdia”.
No entanto, alerta para as tentações que podem assolar a vida dos trabalhadores do Reino, enunciadas pelos Padres do Deserto e que Francisco sintetiza em sete tentações:
- 1. Deixar-se arrastar e não guiar. Se “o bom pastor tem o dever de guiar o rebanho” (cf Jo 10,3-4) e de o levar a pastagens verdejantes até à nascente das águas (cf Sl 23/22,2), “não pode deixar-se arrastar pelo desânimo e o pessimismo”. Ao invés, “aparece sempre cheio de iniciativas e de criatividade”, como fonte que “jorra mesmo quando vem a seca” e “sempre oferece a carícia da consolação”, qual “pai quando os filhos o tratam com gratidão, mas sobretudo quando não lhe são agradecidos” – sendo que fidelidade ao Senhor não deve depender da gratidão humana.
- 2. Lamentar-se continuamente. Embora seja fácil acusar os outros (“as faltas dos superiores, as condições eclesiais ou sociais, as escassas possibilidades…”), deve considerar-se que o consagrado “é alguém que, pela unção do Espírito Santo, transforma cada obstáculo em oportunidade” e “quem se lamenta sempre é uma pessoa que não quer trabalhar”. Por isso, o Senhor diz:
Levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos enfraquecidos” (Heb 12,12; cf Is 35,3).
- 3. A crítica e a inveja. Diz o Papa que o perigo é sério, quando o consagrado, “em vez de ajudar os pequenos a crescer e alegrar-se com os sucessos dos irmãos”, se deixa dominar pela inveja “tornando-se numa pessoa que fere os outros com a crítica”; se contra o seu esforço por crescer, começa a destruir os que estão a crescer; e, se, em vez de seguir os bons exemplos, os julga e diminui o seu valor. De facto, a inveja é o cancro que arruína qualquer corpo em pouco tempo. E Francisco adverte que não esqueçamos que “por inveja do diabo é que a morte entrou no mundo” (Sab 2,24) e que “a crítica é o seu instrumento e a sua arma”.
- 4. Comparar-se com os outros. Residindo a riqueza “na diferença e na unicidade de cada um”, a comparação com os que estão melhor pode levar-nos ao rancor; e a comparação com os que estão pior pode levar-nos à soberba e à preguiça. A tendência “a comparar-se com os outros” acaba por levar à paralisação. Por isso, devemos aprender de Pedro e de Paulo “a viver a diferença dos carateres, dos carismas e das opiniões na escuta e docilidade ao Espírito Santo”.
- 5. O ‘faraonismo’. “Endurecer o coração e fechá-lo ao Senhor e aos irmãos” faz-nos sentir acima dos outros e submetê-los por vanglória; e leva à “presunção de ser servido em vez de servir”. Trata-se de uma tentação comum. Logo no início, os discípulos, “no caminho, tinham discutido uns com os outros, sobre qual deles era o maior” (Mc 9,34). Ora o remédio é: “Se alguém quiser ser o primeiro, há de ser o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,35).
- 6. O individualismo. “É a tentação dos egoístas que, ao caminharem, perdem a noção do objetivo e, em vez de pensarem nos outros, pensam em si mesmos”. Sendo a Igreja “a comunidade dos fiéis, o corpo de Cristo, onde a salvação de um membro está ligada à santidade de todos (cf 1Cor 12, 12-27; LG,7), “o individualista é motivo de escândalo e conflitualidade”.
- 7. Caminhar sem bússola nem objetivo. O consagrado perde a identidade e começa a “não ser carne nem peixe”. Reparte o coração entre Deus e a mundanidade. E, caminhando sem rumo, ao invés de guiar os outros, dispersa-os. Ora, a identidade dos filhos da Igreja é sentirem-se radicados nas suas raízes nobres e antigas, sentirem-se “católicos”, ou seja parte da Igreja una e universal: “árvore que quanto mais enraizada está na terra tanto mais alta se eleva no céu”.
Consciente de que “não é fácil resistir a estas tentações, mas possível, se estivermos enxertados em Jesus”, o Papa utiliza as palavras apelativas de Cristo:
“Permanecei em Mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em Mim (Jo 15,4).”.
Justificando:
“Quanto mais enraizados estivermos em Cristo, tanto mais vivos e fecundos seremos. Só assim pode a pessoa consagrada conservar a capacidade de maravilhar-se, a paixão do primeiro encontro, o fascínio e a gratidão na sua vida com Deus e na sua missão. Da qualidade da nossa vida espiritual depende a da nossa consagração.”.
E, recordando o contributo do Egito “para enriquecer a Igreja com o tesouro inestimável da vida monástica” exorta “a beber do exemplo de São Paulo o Eremita, de Santo Antão, dos Santos Padres do deserto, dos numerosos monges que abriram, com a sua vida e o seu exemplo, as portas do céu a muitos irmãos e irmãs”. Assim, assegura que, a exemplo destes:
“Vós podereis ser luz e sal, isto é, motivo de salvação para vós próprios e para todos os outros, crentes e não crentes, e de modo especial para os últimos, os necessitados, os abandonados e os descartados”.
E termina com o pregão pascal: “Este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos n’Ele!”.
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É claro que o Papa prega no horizonte do Evangelho da Páscoa e com os olhos postos na realidade local. Porém, as advertências e os incitamentos valem para todo o Orbe e muito para a Europa cansada e de mentes anquilosadas, mas ansiosa de Páscoa. Pela força da vida lá iremos!

2017.04.30 – Louro de Carvalho  

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