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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Festa de Maria, festa de Cristo, festa da Igreja, festa do crente


A solenidade litúrgica da Assunção de Nossa Senhora mostra que Deus antecipou em Maria tudo o que deseja realizar em nós. Basta que sejamos livres como Maria para acolher a sua vontade. Para tanto, deveremos ultrapassar a nossa condição de prisioneiros do nosso desejo de nos afirmarmos ante dos outros e ante Deus, ou da resignação às dificuldades, e obtermos a graça de vivermos plenamente a liberdade dos filhos de Deus, à imagem de Maria.
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A perícopa bíblica do Apocalipse (Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab) tomada como 1.ª leitura da Liturgia da Palavra, dá-nos, em visão simbólica, a chave de leitura da Solenidade da Assunção. No dragão, cuja cauda varria um terço das estrelas do céu, que luta contra a mulher – vestida de sol, coroada de estrelas e com a Lua sob os seus pés – e que pretende capturar-lhe o filho que acabou de dar à luz, estão representadas as ideologias que hoje nos dizem que é absurdo pensar em Deus ou cumprir os seus mandamentos e os atrativos mundanos que tentam desviar-nos da rota do Evangelho. Ora, a mulher que acreditou que iria cumprir-se tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor e que se fez a serva da Palavra, a discípula da fé, a mestra dos apóstolos, sentiu que em si o Senhor fez maravilhas e, na sua alta autoestima que lhe foi segredada pelo Pai da Bondade e da Misericórdia, previu que todas as gerações a proclamariam bem-aventurada, como acontece.
Nossa Senhora, a do “sinal grandioso”, a fiel que foi dizendo o “sim” inabalável ao leque das possibilidades de Deus, participa da glória do Ressuscitado como prémio pela sua autenticidade e generosidade. Coroada de doze estrelas, também ela diz: “Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus”.
Recorde-se que as visões do Apocalipse se exprimem em linguagem codificada. Revelam que Deus arranca os fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, pode ser aplicada a Maria a visão do sinal grandioso. Proclamando esta mensagem na Assunção, reconhecemos que, no seguimento de Jesus e na pessoa de Maria, a nova humanidade já é acolhida junto de Deus.
Esta é a festa de Maria. Com efeito, a Mãe de Deus, que foi imune do pecado por graça de Deus que a inundou do seu favor e que a fez sua mãe pela geração do Verbo de Deus encarnado e pelos cuidados nutrícios e educacionais, depois de terminada a sua missão terrena, é elevada aos Céus em corpo e alma – privilégio singular que faz de Maria modelo do nosso caminhar.
Deus fez nesta simples criatura tão humilde algo parecido com o que fez com seu Filho Jesus: ressuscitou-a do túmulo, não a deixando incorrer na corrupção tumular, e elevou-a ao Céu, à plenitude em todo o seu ser, corpo e alma. Revemo-la na mulher do Apocalipse, quando os Céus se abriram e ficou patente a Arca da Aliança e ressaltou a mulher coroada e iluminada, que deu à luz o Filho que o Céu arrebatou para que o Dragão o não devorasse.
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Porém, como ficou entredito, o que se passou com Maria não tem origem nela, mas em Deus e no seu Cristo. Quem a coroou, a iluminou e lhe sujeitou a Lua foi o Cristo – morto e ressuscitado – e que subiu ao Céu. É Ele o protagonista desta festa, pois é pela sua Paixão, Ressurreição e Ascensão que Ele pode introduzir na glória e coroar de glória a crente singular, a discípula discreta, mas modelar, a apóstola basilar do apostolado orante, atento e dedicado, em verdadeira saída. E, revestindo-a da glória como a revestiu da graça, torna-a nossa intercessora, junto de Si como em Caná no segmento do “Não têm vinho”, e sua mensageira e missionária junto de nós, como em Caná no segmento do “Fazei tudo o que Ele vos disser”.  E Caná inicia o itinerário especial para a Cruz e para o Cenáculo em que Ela se faz a Mãe dos discípulos.     
Não é a morte o destino comum e final de tudo quanto vive, como dizem os pagãos, os descrentes ou os sábios segundo o mundo. O nosso destino é a vida, o nosso ponto final é a glória no coração de Deus: glória no corpo, na alma, em tudo que somos. Foi isso que Deus nos preparou – Bendito seja ele para sempre! Vemo-lo em Maria na sua proximidade junto de nós, que, estando presente nas horas de Deus, está presente em todas as nossas horas. E vemo-lo no Cristo do Gólgota, do túmulo vazio, no aparecido aos discípulos a quem passou a chamar irmãos, no Cristo da Ascensão. 
A presente solenidade é, então, primeiramente, exaltação da glória de Cristo: Nele está a vida e a ressurreição; Nele, a esperança de libertação definitiva. Por isso, na esteira da 1.ª Carta aos Coríntios (1Cor 15,20-27), diremos que todo aquele que crê em Jesus e é batizado no seu Espírito Santo no sacramento do Batismo morrerá com Cristo e com Cristo ressuscitará. Imediatamente após a morte, a nossa alma será glorificada e estaremos para sempre com o Senhor. Quanto ao nosso corpo, será destruído e, no final dos tempos, quando Cristo nossa vida aparecer, será também ressuscitado em glória e unido à nossa alma. Será assim com todos nós. Mas não foi assim com a Virgem Maria. Aquela que não teve pecado não foi tocada pela corrupção da morte. Imediatamente após a sua passagem para Deus, foi ressuscitada, glorificada em corpo e alma, foi elevada ao céu. Podemos, portanto, exclamar seguindo a pedagogia de Isabel Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o fruto do teu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu!”.
Esta, sendo a grande festa de Cristo, é também a festa de plenitude de Maria, a sua chegada a glória, no seu destino pleno de criatura. Nela aparece clara a obra da salvação que Cristo realizou Ela é aquela Mulher vestida do sol, que é Cristo, pisando a instabilidade deste mundo, representada pela lua inconstante, toda coroada de doze estrelas, número de Israel e da Igreja. A leitura da mencionada passagem do Apocalipse mostra-nos tudo isto; mas termina com a grande proclamação: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus e o poder do seu Cristo!. Enfim, a plenitude da Virgem é a realização da obra e da vitória de Cristo nela.
A Assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. Tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência duma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão.
Todo o capítulo 15 da 1.ª Carta aos Coríntios é uma longa apologia da ressurreição. No texto de hoje, o apóstolo apresenta uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, o princípio da nova humanidade. Eis porque o apóstolo o designa como o novo Adão, mas que se distingue absolutamente do primeiro Adão; este tinha levado a humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz aqueles que o seguem para a vida. O apóstolo não evoca Maria, mas, se proclamamos esta leitura na Assunção, é porque reconhecemos o lugar eminente da Mãe de Deus no grande movimento da ressurreição.
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Mas é preciso considerar que o livro do Apocalipse foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem Igreja, ainda tão frágil, mas já o fermento da nova humanidade a que preside Cristo ou o novo Israel de que Cristo é a Cabeça: a Igreja. Assim, numa linguagem codificada, em que os animais terrificantes designam os perseguidores, vem o profeta neotestamentário evocar estes acontecimentos. A Mulher em que se vê a figura de Maria é o protótipo da Igreja, pelo que pode representar a Igreja, onovo Israel, o que sugere o número doze (as estrelas). O seu nascimento é o do batismo na cruz; a sua conceção é o banquete da noite pascal da Última Ceia; o seu espelho e horizonte é o Céu da Ascensão e o mundo que é preciso evangelizar, segundo a missão que o redentor redivivo lhe confiou; e a sua capacidade de caminhar acontece no Pentecostes. Esta igreja, nascida do lado de Cristo e instituída em Pedro, deve dar à terra a nova humanidade. O Dragão é o perseguidor que põe tudo em ação para destruir o recém-nascido. Mas o destruidor não terá a última palavra, pois o poder de Deus está em ação para proteger o seu Filho. A mulher, protótipo da Igreja, é levada para o deserto para se livrar do Dragão e de lá o esmagar com toda a força e, no caso da Igreja dos homens e mulheres, para se purificar.
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Ora, Deus não veio ao mundo, não escolheu Maria como Mãe, não se deixou crucificar em função dum belo espetáculo. Em causa estava a salvação do homem. Foi por nós homens e por nossa Salvação que desceu dos Céus, encarnou, passou pelo mundo fazendo o bem, ressuscitou. E, ressuscitando, fez-se fundamento da nossa fé e garantia da nossa ressurreição. Subindo aos Céus, mostrou-nos o caminho da glória a que somos chamados e Maria tornou-se a primeira a trilhá-lo com a visibilidade que a economia da Salvação requer.
Por isso, esta é a festa do crente, a nossa festa. Como seres pascais, temos de aspirar às coisas do Alto e afeiçoar-nos a elas. E, como a Ascensão de Cristo, a Assunção da Virgem aponta-nos o Alto, onde Cristo está sentado à direita do Pai, de modo que, no momento em que Jesus Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, nós nos havemos de manifestar com Ele na glória.      
E estaremos bem avisados se tivermos em conta que a devoção à Mãe de Deus é uma grande força da nossa vivência cristã a apontar-nos a força do Alto, porque, longe de desviar a nossa atenção de Cristo, ela nos integra no plano de salvação proposto por Deus e realizado por seu Filho único, Jesus Cristo, que se encarnou e veio ao mundo por meio dela.
Nós celebramos Maria porque é Mãe de Deus, porque nos deu o Salvador e se tornou, de facto e de direito, a corredentora da humanidade e a nossa Mãe. E foi Deus que assim o quis. Foi Ele que, em sua infinita sabedoria e bondade, estabeleceu que a redenção da humanidade acontecesse através de seu Filho único nascido de uma virgem; e a virgem escolhida foi Maria. Ora, se Deus, o Senhor de todas as coisas não se envergonhou de escolher Maria e a fez Cheia de Graça, para ser a Mãe de seu Filho, não faz sentido nós, simples mortais, recusarmo-nos a ter para com ela uma devoção toda especial. A Assunção de Maria é a preciosa antecipação da nossa ressurreição e baseia-se na de Cristo, que transformará o nosso corpo corrutível, fazendo-o semelhante ao seu corpo glorioso. Por isso Paulo recorda-nos que, “se a morte veio por um homem (pelo pecado de Adão), também por um homem, Cristo, veio a ressurreição. Por Ele, todos retornarão à vida, mas cada um a seu tempo: como primícias, Cristo; em seguida, quando Ele voltar, todos os que são de Cristo; depois, os últimos, quando Cristo devolver a Deus Pai o seu reino. Dessa vinda de Cristo, de que fala o Apóstolo, disse São João Paulo II:
Não devia por acaso cumprir-se, neste único caso (o da Virgem), de modo excecional, por dizê-lo assim, imediatamente, quer dizer, no momento da conclusão da sua vida terrena? Esse final da vida que para todos os homens é a morte, a Tradição, no caso de Maria, chama-o com mais propriedade dormição.  Para nós, a Solenidade de hoje é como uma continuação da Páscoa, da Ressurreição e da Ascensão do Senhor.  E é, ao mesmo tempo, o sinal e a fonte da esperança da vida eterna e da futura ressurreição.”.
Maria é causa de nossa alegria! Pois foi através dela que nos veio a alegria, Jesus Cristo, e é nela que nós vemos o que seremos: gloriosos com a glória que tomará conta do nosso corpo e da nossa alma no dia eterno, no qual ela, gloriosamente, em corpo e alma, já nos precedeu.
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Pela Visitação que teve lugar na Judeia (Lc 1,39-56) e onde se encontra a legitimidade da devoção a Maria, Maria levava Jesus pelos caminhos da terra. Pela Dormição e Assunção, é Jesus quem leva a Mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para a Visitação definitiva. Nesta festa, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a humanidade a juntar-se a Ele pelo caminho da ressurreição. Em Maria, Ele realizou a sua obra na totalidade; com ela, nós proclamamos: “dispersou os soberbos, exaltou os humildes”. Os humildes são os que creem no cumprimento da palavra de Deus e se põem a caminho, os que acolhem até ao mais íntimo do ser a Vida nova, Cristo, para o levar ao mundo. Deus debruça-se sobre eles e faz maravilhas.
A humilde disponibilidade de Maria tornou-a nossa intercessora junto de Jesus.
E a Assunção deveria servir também para purificação de hábitos e linguagem. Assim, em vez de rezar a Maria, deveríamos rezar por intermédio de Maria, pois a oração cristã dirige-se a Deus, ao Pai, ao Filho e ao Espírito: só Deus atende a oração. Os irmãos protestantes que, ao invés do que se pretende por vezes, têm fé na Virgem Maria Mãe de Deus, recordam-nos que Maria é e se diz Ela própria a Serva do Senhor. Rezar por intermédio de Maria é pedir que Ela reze por nós: “Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte!” A sua intervenção maternal em Caná resume a sua intercessão por nós: “Eles não têm vinho!”. E é nossa conselheira: “Fazei tudo o que Ele vos disser! Depois, é preciso rezar com Maria. Ela, como no Cenáculo, está ao nosso lado para nos levar na oração, como uma mãe sustenta a palavra balbuciante do filho. Na glória de Deus, na qual nós a honramos hoje, ela prossegue a missão que Jesus lhe confiou sobre a Cruz: “Eis o teu Filho!”. Rezar com Maria, mais que ajoelhar-se diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus. Por último, é preciso rezar como Maria. Aprendemos junto de Maria os caminhos da oração. Na escola daquela que “guardava e meditava no seu coração” os acontecimentos do nascimento e da infância de Jesus, meditamos o Evangelho e, à luz do Espírito Santo, avançamos nos caminhos da verdade. A nossa oração torna-se alegria e ação de graças no eco ao Magnificat. Pomos os nossos passos nos passos de Maria para dizer com ela na confiança: “Que tudo seja feito segundo a tua Palavra, Senhor!”. O cântico de Maria descreve o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que ele prosseguiu em Maria e que cumpre agora na Igreja, para todos os tempos.
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Por dizer que Maria está nas horas de Deus e em todas as nossas horas, recordo que hoje Ela é celebrada em muitos lugares e sob muitos títulos (é sempre a única Senhora), que até fazem esquecer o mistério de hoje. Mas é nessa abundância de títulos que Ela mostra estar nas horas de Deus (as suas qualidades e privilégios vêm-lhe de Deus) e nas horas dos homens; necessidades, circunstâncias, saúde, ar, terra, mar, luz, etc. E apraz-me salientar uma curiosidade. No Douro Sul é orago em muitas localidades, mas sucede não raro que tem um título na igreja paroquial e outro no cimo do monte ou colina. Assim, em Lamego é Senhora da Assunção na Sé e Senhora dos Remédios no Santo Estêvão, Santa Maria Maior em Almacave e Senhora da Serra, no Poio; Senhora da Corredora na igreja de Caria e Senhora da Guia na colina; Senhora do Amial na igreja da Vila da Ponte e Senhora das Necessidades e Senhora do encontro na Borralheira; Senhora da Assunção na igreja de Fonte Arcada e Senhora da Saúde na colina; Senhora das Neves na igreja de Granjal e Senhora da Aparecida no monte. Enfim, quanto mais alta, mais próxima!
2019.08.15 – Louro de carvalho

domingo, 2 de junho de 2019

Enquanto os abençoava, afastou-Se deles e foi elevado ao Céu


A Ascensão do Senhor, solenidade agendada pela Igreja para a quinta-feira que perfaz os 40 dias do tempo pascal (contados à maneira hebraica e romana) ou para o domingo seguinte, nos países em que a predita quinta-feira não é feriado, reporta-se ao mistério de Cristo que se relaciona com a pessoa e a missão do Filho de Deus. Este, fazendo-Se homem, “por nós homens e para nossa salvação” (do símbolo niceno-constantinoplitano), veio morar com os homens durante algum tempo na visibilidade da condição humana. Chegada a hora que o Pai fixara, voltou para Ele, mas passando pelo sofrimento, morte e ressurreição (trilogia que Lucas sintetiza com o verbo “paskheîn”) para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância (cf Jo 10,10). Por isso, este mistério diz respeito a toda a humanidade, ao mundo inteiro, a cada homem e a cada mulher.
Para referirmos a Ascensão de Jesus, recorremos a imagens da fisicidade (elevou-se, subiu, foi para o alto…). São expressões não tomandas à letra, mas que significam só que Jesus está na glória com o Pai, como diz a fé, a oferecer-nos os inefáveis benefícios que a exaltação de Cristo traz ao mundo – bens celestes que procedem do Espírito Santo prometido por Cristo que subiu ao Céu.  
No Ano C, o episódio da Ascensão é lido no final do 3.º Evangelho (Lc 24,46-53) e no início dos Atos dos Apóstolos (At 1,1-11). Enquanto o 3.º Evangelho reporta a um só dia a ressurreição e a ascensão, o livro dos Atos separa as duas vertentes do mistério por 40 dias (número simbólico da perfeição) a designar o tempo da duração do inteiro ensinamento do Ressuscitado aos discípulos, cujo tema central é o Reino de Deus, como referem várias passagens dos Evangelhos (sobretudo os sinóticos) – tempo simbólico que remete para o dos grandes acontecimentos da economia da salvação, por exemplo, os 40 anos da travessia do Sinai e os 40 dias e as 40 noites da passagem de Jesus pelo deserto, levado pelo Espírito Santo, antes de iniciar a sua pública pregação.    
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O livro dos Atos dos Apóstolos dirige-se, na década de 80 (cerca de 50 anos após a morte de Jesus) a comunidades que vivem em contexto de crise. Passara a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o Reino e uma certa desilusão apoderou-se das comunidades cristãs. Além disso, surge alguma confusão resultante de questões doutrinais; e da monotonia resulta uma vida cristã pouco empenhada e pouco entusiasmante, o que induz as comunidades a instalarem-se na mediocridade. Com efeito, continua igual o mundo, como continua adiada a esperada intervenção vitoriosa de Deus. E os cristãos interrogam-se sobre quando se concretiza plena e inequivocamente o plano divino de salvação. E neste quadro psicossocial se insere o texto tomado para 1.ª leitura (At 1,1-11) na Liturgia da Palavra da Solenidade da Ascensão, curiosamente comum a cada um dos três anos do ciclo (Anos A, B e C).
Não levando à letra as expressões tiradas da fisicidade e tendo em conta o número simbólico dos 40 dias, verificamos que Lucas, funcionando como catequista, adverte que o desenvolvimento do projeto de salvação em Cristo passa (após a ida de Jesus para junto do Pai onde intercede por nós) para as mãos da Igreja, animada e guiada pelo Espírito. Longe de estar concluída a edificação do “Reino”, ela é uma tarefa que é preciso concretizar na história e que exige o empenho contínuo de todos os crentes, com a orientação das lideranças. Os cristãos, quais discípulos chamados ao seguimento de Jesus e ao apostolado, são instados a redescobrir o seu papel para se tornarem capazes de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.
O trecho em referência inicia-se com um prólogo (vv. 1-2) que relaciona os “Atos” com o 3.º Evangelho na referência ao mesmo Teófilo a quem foi endereçado o Evangelho e na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3.º Evangelho). E o prólogo apresenta os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos (ambos vinculados com Jesus) – e menciona o facto de Jesus ter sido arrebatado ao Céu. Na verdade, tal como prometera o envio do Espírito Santo, também apareceu vivo aos apóstolos depois da sua Paixão, deu-lhes várias provas da ressurreição e falou-lhes do Reino de Deus.
Depois do prólogo, surge o tema da despedida de Jesus (vv. 3-8). Lucas, na sua catequese, começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos acerca do Reino de Deus. Como foi dito, número 40 é um número simbólico, o número que define o tempo necessário para um discípulo aprender e repetir as lições do mestre, definindo aqui o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado, levando à releitura do ensinamento anterior à Paixão, mas agora à luz e segundo os critérios da ressurreição, pelo a impertinente (e atual) tentação do messianismo político e espetacular (“É agora que vais restaurar o reino de Israel?”) é rejeitada liminarmente por Cristo.
As palavras de despedida de Jesus (vv. 4-8) sublinham duas vertentes: a vinda do Espírito e o testemunho (em grego “martýrion”) que os discípulos são chamados a dar “até aos confins do mundo”. Está aqui sintetizada a experiência missionária da comunidade lucana: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, de Jerusalém a Roma, atingindo diversas paragens. É o programa que Lucas desenvolve ao longo do livro, posto na boca do Ressuscitado. O autor mostra com o livro que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.
O último tema é a Ascensão (vv. 9-11), passagem que deve ser interpretada de modo que, pela roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a clareza.
Em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao Céu (v. 9a). Não se trata de descolagem da terra por parte da pessoa de Jesus, mas dum facto teológico (não de reportagem): na verdade, a ascensão é um modo de afirmar que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supraterrenas; é o modo literário de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que “reentra”, por assim dizer, na glória da comunhão com o Pai. Depois, temos a nuvem (v. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Ora, a nuvem, pairando entre o céu e a terra, é, no Antigo Testamento, um símbolo da presença de Deus (cf Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Por outro lado, ao mesmo tempo, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não vê, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, sombra e luz, divino e humano, são dimensões agora sugeridas a propósito do Ressuscitado elevado à glória do Pai, mas que se mantém na caminhada com os discípulos.
Por sua vez, os discípulos ficam pasmados a olhar para o céu (v. 10a), o que significa a expectativa da comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar a cabo o projeto de libertação do homem e do mundo. Mas talvez seja precisa ação.
Talvez por isso e por fim, surgem dois homens vestidos de branco (v. 10b). Na brancura que sugere o mundo de Deus, indica-se que o testemunho destes homens vem de Deus, tal como o testemunho dos discípulos, pois têm de branquear as suas túnicas no sangue do Cordeiro (cf Ap 7,14). Recordo, a este respeito, que o Padre Laureano Alves, passionista, frisou hoje, em Santa Maria da Feira, a vertente grega do conceito de martírio: o mártir é não só aquele que dá a vida, com o derramamento de sangue por causa de Cristo e do seu Evangelho, mas também aquele que, seguindo-O, dá testemunho de Cristo ressuscitado pela palavra, atitudes e comportamentos, podendo, se necessário for, chegar ao martírio ou testemunho pelo sangue. Na verdade, entre os gregos, “mártyros” era quem, tendo visto e ouvido, não podia deixar de prestar o seu depoimento, correndo os riscos que isso comportava.      
Então os referidos homens de branco instam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; pois, agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, com a esperança na segunda e definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da Ascensão não é a contemplação cómoda ou supina da elevação de Jesus, mas o apelo ao seguimento das pegadas de Jesus – Caminho, Verdade e Vida –, olhando para o futuro com entrega inequívoca à concretização do seu plano salvador no mundo.
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O Evangelho da Ascensão no Ano C (Lc 24,46-53) situa-nos no dia da Ressurreição. Cristo já se manifestara aos discípulos de Emaús (cf Lc 24,13-35) e aos onze, reunidos no cenáculo (cf Lc 24,36-43). Agora, seguem-se as últimas instruções de Jesus (cf Lc 24,44-49) e a Ascensão (cf Lc 24,50-53).
Ao invés de “Atos”, ressurreição, aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos e ascensão são postas no mesmo dia, o que será mais adequado em termos teológicos. Com efeito, Ressurreição e Ascensão não se podem diferenciar; são modos humanos de falar da passagem da morte à vida junto de Deus. Todavia, como “Atos” é posterior, Lucas aprimora o discurso na linha temporal das exigências da aprendizagem discipular e na perspetiva da necessidade de os corações se preparem para a livre receção do dom de Deus a culminar na infusão e efusão do Espírito Santo.  
Também este trecho final do livro (como o trecho inicial de “Atos”) está organizado em dois momentos: despedida dos discípulos (vv. 46-49) e ascensão (vv. 50-53).
No primeiro momento, temos as palavras de despedida. Os discípulos, feita a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado, são agora convocados para a missão: Jesus envia-os como testemunhas a pregar a “metanoia” – conversão, transformação radical da vida (mentalidade, coração, valores, atitudes, comportamentos) – e o perdão dos pecados. Não se prega a condenação, a ruína, o anátema, mas prega-se, em nome do Messias, como estava escrito no Antigo Testamento, o arrependimento e o perdão dos pecados. Ou seja, anuncia-se que Deus ama todos os homens e os convida a deixar o egoísmo, o orgulho e a autossuficiência para terem a vida de Homens Novos. Para esta enorme tarefa, os discípulos contam com a força do Alto, isto é, a ajuda e a assistência do Espírito. Estão, nas palavras de Jesus, todos os dados do que é a missão da Igreja: o testemunho apostólico tem como tema central a morte e ressurreição de Jesus, ou seja, a ação do Messias libertador anunciado pelas escrituras (vv. 44.46). De Jerusalém, este testemunho chegará a todas as nações – “percurso” que é explicitado no livro dos “Atos”.
No segundo momento, Lucas descreve a Ascensão, que situa em Betânia, havendo que realçar duas indicações de Lucas: a bênção que Jesus dá aos discípulos antes de ir para junto do Pai, bênção que sugere um dom que vem de Deus e que atinge positivamente toda a vida e toda a ação dos discípulos, capacitados para a missão pela força de Deus; e a alegria dos discípulos, alegria que é o grande sinal messiânico e escatológico e que indica o início do mundo novo, pois o projeto salvador e libertador de Deus está em marcha.
O mencionado Padre Laureano Alves chamou a atenção dos participantes na celebração da Missa para o facto de Lucas ter colocado a Ascensão em Betânia, para onde Jesus conduziu os discípulos – Betânia, terra onde estava Maria, Marta e Lázaro, que, ressuscitado por Jesus, serviu de garantia visível de que o Pai glorificaria o Filho e se glorificaria no Filho, amigos de Jesus. Assim, a Ascensão dá-se, não no Calvário, lugar de ignomínia, mas em terra de amigos, de família constituída a partir da Palavra de Jesus e do seguimento do Caminho, Verdade e Vida. Depois, enfatizou o fator da bênção e fez a remissão para a primeira bênção de que fala a Bíblia (vd Gn 1,28): tendo criado o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, como coroa de toda a criação, “abençoando-os, Deus disse-lhes: Crescei, multiplicai-vos, enchei e submetei a terra…”. E tem razão o sacerdote, porquanto, sendo a ação de Cristo uma nova criação, segundo a qual o Filho de Deus, desceu para que o homem (todos os homens) se eleve como Ele Se eleva, esta criação mereceu a nova bênção dada por Jesus ao novos promotores da nova humanidade: têm de crescer (ou seja, receber a força do Alto) e multiplicar-se (ir por todo mundo, desde Jerusalém ao confins da Terra, fazendo discípulos em todas as nações). Se a missão de Jesus tem em Jerusalém o ponto de chegada, a missão dos discípulos tem ali o ponto de partida (para os confins).
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Por fim, o trecho da Carta aos Efésios na 2.ª leitura (Ef 1,17-23) aparece na 1.ª parte da carta, que é talvez um dos exemplares duma “carta circular” enviada às igrejas da Ásia, quando Paulo está na prisão (em Roma, provavelmente), através de Tíquico, cerca dos anos 58/60. Veem alguns nela uma síntese da teologia paulina, num momento em que a missão do apóstolo está praticamente terminada na Ásia. O texto em causa integra uma ação de graças, em que Paulo agradece a Deus a fé dos Efésios e a caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé.
A esta ação de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus para que os destinatários da carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (v. 18). E a prova de que o Pai pode realizar essa esperança, ou seja, conferir aos crentes a vida eterna como herança, é o que ele fez com Jesus: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (v. 20), exaltou-O e deu-Lhe soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo acautela-os da tendência de alguns em dar importância exagerada aos anjos, colocando-os, até, acima de Cristo – cf Cl 1,6). Tal soberania estende-se, à Igreja – o corpo do qual Cristo é a cabeça, o que é deveras significativo para afastar a Igreja da autorreferência. De facto, a ideia de que a comunidade cristã é corpoo corpo de Cristo – formado por muitos membros, já aparece nas grandes cartas, acentuando-se sobretudo a relação dos vários membros do corpo com a Cabeça e entre si (cf Rm 12,3-8; 1Cor 6,12-20;10,16-17;12,12-27), mas nas cartas do cativeiro, Paulo retoma a noção de corpo de Cristo para vincar a relação existente entre a comunidade e Cristo e entre os diversos membros da comunidade.
Neste texto, em concreto, há dois conceitos significativos que definem a relação entre Cristo e a Igreja: o de cabeça (em grego, “kephalê”) e o de plenitude (em grego, “pleroma”). Chamar a Cristo cabeça da Igreja quer dizer que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre eles comunhão total de vida e destino; que Jesus é o centro à volta do qual o corpo se articula, a partir do qual e em direção ao qual o corpo cresce, se orienta e constrói (é a origem e o fim desse corpo); e que a Igreja/corpo se submete à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência. E chamar à Igreja a plenitude de Cristo quer dizer que nela reside a totalidade de Cristo, sendo ela o recetáculo (a habitação) onde Cristo Se torna presente para o mundo: é através desse corpo (em que todos são livres e interdependentes) onde reside que Jesus continua todos os dias a realizar o projeto de salvação em prol dos homens. A partir desse corpo, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo, até que Cristo “seja tudo em todos” (v. 23).
Por isso, este corpo (a crescer e a multiplicar-se) tem a bênção e o acompanhamento de Jesus, uma bênção concomitante ao gesto “eucarístico” e pelo qual os discípulos reconheciam o Senhor!
2019.06.02 – Louro de carvalho

domingo, 28 de abril de 2019

As credenciais do Ressuscitado


Jesus ressuscitou, o que significa para os crentes que triunfou da morte, do pecado e da morte. A verdade que Jesus é no sentido mais vital e existencial triunfou sobre a mentira cujo pai é o demónio, que é também o autor do mal e da escravização. E, possuidor destas arras de triunfo, o Senhor Jesus desceu à morada dos mortos a oferecer a salvação a todos aqueles que a esperavam consciente ou inconscientemente. Isto para dizer que a ação redentora de Cristo não se aplica apenas aos que se aproximassem do mistério apenas depois de Ele ter entregado o seu espírito nas mãos do Pai, mas a todos e todas, em qualquer tempo ou lugar em que vivam. 
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Porém, com que sinais Se mostra o Ressuscitado? Ou seja, quais são as credenciais ou os recursos instrumentais que o Senhor mostra para que acreditemos?
Os evangelistas apontam o túmulo vazio, mas o Evangelho de João aponta, além disso, a boa ordem espelhada nos panos de linho espalmados no chão e no “lenço que […] tivera em volta da cabeça” e que “não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição” (vd Jo 20,4.7). Mas, quando apareceu a Maria Madalena, ela só O reconheceu quando Ele disse o nome “Maria”. E Jesus incumbiu-a de uma tarefa: “Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: ‘Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus’.” (cf Jo 20,16.17-18).
O Evangelho de Marcos apresenta um jovem de túnica branca a dizer às mulheres que não se assustassem e fossem dizer a Pedro e aos outros discípulos que Ele ressuscitou e que os precede na Galileia (vd Mc 16,6-7).    
O Evangelho de Mateus apresenta o terramoto como aquando da morte na cruz e um anjo resplandecente, que anuncia a ressurreição; e o Mestre que usa da palavra a saudar as mulheres que tinham ido ao túmulo, lhe estreitaram os pés, quando Se lhes deu a conhecer, se prostraram diante d’Ele e a quem mandou: “Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão” (cf Mt 28,9.10).
Por sua vez, Lucas apresenta dois homens de trajes resplandecentes, que lembram às mulheres o teor da promessa: “Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia, dizendo que o Filho do Homem havia de ser entregue às mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia” (Lc 24,6-7).
Para já, apontamos como sinais do Ressuscitado: o sepulcro vazio; a boa ordem dos elementos deixados no túmulo; o resplendor de anjo, jovem e homens (Quem não se lembra da transfiguração a prenunciar a ressurreição gloriosa?); a palavra; o apelo ao abandono do medo, quer por parte de Jesus, quer por parte dos que testemunharam a ressurreição junto das mulheres; o terramoto; a promessa da ressurreição; a pronúncia do nome da interlocutora (Deus conhece o nome de cada um de nós e chama-nos pelos nossos nomes); a referência à Galileia, onde tudo começou e aonde é preciso voltar para refazer a caminhada à luz da nova realidade; e a afirmação da fraternidade entre Jesus e os discípulos (ide, ou vai, dizer aos meus irmãos; o meu Pai que é vosso Pai… Antes, os discípulos eram servos; na Ceia, passaram a ser amigos; e, com a ressurreição, passaram a ser irmãos). 
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Mas há mais. O Evangelho de Lucas apresenta-nos o episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-34). Ao caminharem abatidos e circunspectos, apareceu-lhes Jesus, que lhes explicou tudo o que havia de acontecer ao Messias, “começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas”. Porém, eles, apesar de lhes arder o coração, quando Ele lhes falava pelo caminho e lhes explicava com detalhe as Escrituras, não O reconheceram. Só O reconheceram quando “se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, lho entregou”.      
E, segundo Lucas, quando apareceu aos Onze (Lc 24,36-43), além de os saudar com a paz, para que O reconhecessem, mostrou as marcas da sua Paixão e Morte, dizendo:
Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho. 
E comeu diante deles um pedaço de peixe assado que Lhe deram.
Por seu turno, João, no capítulo 21 do seu Evangelho, apresenta Jesus que aparece aos discípulos na margem do lago. Foi João que O reconheceu ao ver a enorme quantidade de peixes (a pesca que resultou foi lançada à ordem do aparecido, lembrando a pesca milagrosa de outrora em que Simão Pedro era vocacionado para a pesca de homens). E todos O reconheceram quando “ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão” – reconhecimento corroborado quando Ele “Se aproximou, tomou o pão e lho deu, fazendo o mesmo com o peixe”.      
E a segunda parte do capítulo 20 do Evangelho de João (Jo 19,20-29) tem uma súmula especial das marcas com que o Ressuscitado Se apresentou: pôs-Se no meio dos discípulos (que estavam em casa com as portas fechadas); saudou-os desejando-lhes a paz; mostrou-lhes as mãos e o peito; renovou o desejo de paz; proferiu o envio; insuflou o sopro do Espírito Santo; e confiou-lhes o encargo da oferta do perdão dos pecados.
Fica bem claro que o Ressuscitado aparece e fala. Explica, faz o milagre como dantes, come com os discípulos, pronuncia a bênção como na Ceia, dá a paz, mostra as marcas da Paixão. E, como a Páscoa não pode ficar realidade privativa dum grupo, envia-os a seguir as moções do Espírito Santo (rezando e falando) e a oferecer o dom pelo qual veio ao mundo, o do perdão.    
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Há, porém, uma outra marca do Ressuscitado: a compaixão pelo homem que não entende a generosa liberalidade de Deus. Coitado de quem se recusa a acreditar ou lança desafios a Deus que seriam intoleráveis na lógica do Antigo Testamento!
Tomé não estava com eles quando Jesus veio. E, quando os outros diziam ter visto o Senhor, respondeu que, se não visse o sinal dos pregos nas suas mãos e não metesse o dedo nesse sinal dos pregos e a mão no seu peito, não acreditaria. Mas Jesus respondeu ao desafio da incredulidade. Oito dias depois, estando as portas fechadas, veio, pôs-se no meio deles, saudou-os como na visita anterior e disse a Tomé: “Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.”.
Foi quando Tomé, caindo em si, exclamou: “Meu Senhor e meu Deus!”. Ao que Jesus replicou: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que creem sem terem visto!”.
Não é, pois, sem razão, que o II domingo da Páscoa é denominado o Dia da Divina Misericórdia. Com efeito, como o pastor zeloso é capaz de deixar as 99 ovelhas no deserto e vai à procura da ovelha perdida e, carregando-a ao ombro, chega ao pé dos amigos e insta-os à alegria pelo encontro, ou como o bom samaritano se abeirou do homem ferido e prostrado na valeta, também o Ressuscitado vem à procura do incrédulo para lhe mostrar a realidade da ressurreição através das marcas da Paixão e desafiando-o a ver e palpar.
Por isso, o Padre Laureano Alves dizia hoje na Igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, que as marcas da Morte do Senhor perduram para depois ressurreição. E eu acrescento “como dados instrumentais do apelo à fé e como garantia da certeza da nossa futura ressurreição. Na verdade, o Ressuscitado não é um fantasma nem outro homem que não o Crucificado, o que andou pelo mundo fazendo o bem. E, se o sinal eucarístico – da toma do pão, bênção e partilha – dado pelo Ressuscitado é eloquente, não podemos esquecer que esse sinal tem a marca da morte e da ressurreição, porque é corpo do Senhor entregue por nós e o seu sangue derramado por nós e pela multidão. E, não podemos deixar de vincar que, se a morte do Senhor causou o medo e a dispersão, o facto da ressurreição gera a alegria porque o Senhor está connosco.     
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Triunfando das limitações terrenas, o Ressuscitado aparece aos discípulos, agora irmãos, dando-lhes, na efusão do Espírito Santo, a paz e a alegria da salvação e a missão do anúncio a todos os homens.
No I domingo da Páscoa, a festa baseava-se nas notícias trazidas pelas mulheres que foram ao túmulo e nos apóstolos que foram verificar o fenómeno do túmulo vazio, tendo o discípulo amado visto e acreditado. Ouvimos o anúncio da Ressurreição do Senhor e com toda a Igreja deixamo-nos invadir pela alegria.

No II domingo, a festa baseia-se na realidade vivenciada pelo coletivo apostólico e na confissão de Tomé a quem Jesus condescendeu em mostrar as chagas pelas quais fomos curados.
Depois, temos a visão apocalíptica (Ap 1,9-19), em que João reconhece o Ressuscitado no Filho de homem vestido com longa túnica cingida de cinta de ouro. Ouve o Senhor dizer-lhe “Eu sou Aquele que vive. Aquele que possui a vida que domina a morte e liberta quem quer”. É o Rei, o Sacerdote, Aquele em quem e por quem somos ensinados. Por isso, a Igreja proclama com toda a certeza a ressurreição de Cristo, mostrando com a perícopa dos Atos dos Apóstolos (At 5,12-16) que, no cumprimento do que diz o Evangelho de Marcos, “o Senhor cooperava com eles [os apóstolos], confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam”, se juntavam em massa “homens e mulheres, acreditando no Senhor, a ponto de trazerem os doentes para as ruas e os colocarem em enxergas e catres, a fim de que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles; e a multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos, e todos eram curados”.
Porém, o Evangelho de João, ao mostrar-nos Tomé quer dizer-nos que nós somos como ele: temos muita dificuldade em acreditar sem ver, sem experimentar. Como Ele, queremos ter sinais de que o Senhor está vivo. Dificilmente nos basta a fé que vem pelo ouvido. Ora, é bom que recordemos a frase sentenciosa do Senhor: “Felizes aqueles que creem mesmo sem terem visto”.
O Evangelho diz-nos que, oito dias depois da primeira aparição de Jesus aos discípulos no dia da Sua Ressurreição, estando Tomé com eles, Jesus reaparece, saúda-os e aproxima-Se de Tomé como se viesse propositadamente para o convencer, lembrando-lhe as suas exigências, a sua necessidade de experimentar, propondo-lhe que o faça. Tomé reconhece-O imediatamente e prostra-se diante d’Ele, dizendo: “Meu Senhor e meu Deus” – um belo ato de adoração.
O incrédulo sincero não precisou de tocar o corpo de Cristo, bastou-lhe que Ele Se apresentasse e lhe propusesse fazê-lo para ficar convencido da realidade. O que convenceu Tomé não foi a experiência de meter as mãos nas chagas do Senhor, mas o modo modesto, humilde e cheio de dignidade como Jesus Se apresentou, uma presença muito particular do Senhor em que se estabeleceu a mútua comunicação pessoal, o encontro que deixa marcas no coração.
E o encontro com o Senhor capacita o apóstolo para, animado pelo Espírito Santo, rezar e ir ao encontro dos homens a pregar e a oferecer o perdão como o grande fruto da Páscoa!
2019.04.28 – Louro de Carvalho

domingo, 24 de março de 2019

O “risus paschalis” e a teoagapia


Nota prévia
A crónica de Dom José Tolentino de Mendonça no Expresso deste sábado, dia 23, com o título “O humor do cardeal”, na rubrica semanal “Que coisa são as nuvens?”, refere a prática do ‘risus paschalis’, um pouco a justificar o humor do Cardeal Arcebispo de Boston Seán O’Malley, oriundo da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, expresso no retiro que orientou aos bispos portugueses em Fátima e no seu livro “Procura-se amigos e lavadores de pés”.
A predita crónica chamou-me a atenção para algo que desconhecia ou de que me não lembrava. E verifiquei não haver muito sobre o tema em português. Não obstante, encontrei uma bela pérola histórico-teológica no artigo “a teoagapia do risus paschalis: a risada e o perdão na liturgia”, de Helio Aparecido Campos Teixeira, publicado pela Tear On line (em linha: http://periodicos.est.edu.br/index.php/tear/article/view/2627/0), bem como uma boa referência no texto “O riso pascal” no blogue de Marcelo Pinto (http://doutorrisadinha.blogspot.com/2009/04/o-riso-pascal.html).
O riso pascal exprime a alegria pelo perdão que nos advém da redenção obtida pela morte de Cristo, validada pela ressurreição, base da nossa fé e garantia da nossa ressurreição. Tudo isto é fruto do amor divino fruído por cada pessoa e festivamente tornado público na comunidade eclesial. É a teoagapia (Théos – Deus + agapê – amor) que se manifesta no perdão.
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Uma visão sincrética da questão
Marcelo Pinto, anotando que a Igreja Católica trata do riso com excessivo rigor descobriu com surpresa a festa tradicional “Risus Paschalis”, que perdurou na Igreja por mais de mil anos. Afirma que o costume, surgido na Baviera no século XV, remonta a 852 em Reims, na França, se estendeu pelo Norte da Europa, Itália e Espanha, e perdurou até 1911 na Alemanha. O sacerdote, a celebrar a alegria da Ressurreição sobre a Morte, contava anedotas na celebração, que se utilizava da moral dessas historietas para realizar com humor as pregações, assumindo a cultura dos fiéis em seu jeito popularesco, plebeu e até obsceno. E, para expressar a vida nova inaugurada pela Ressurreição, apelava-se à fonte física donde nasce a vida humana: a sexualidade com o prazer com ela conexo. Com efeito, a cada passo damos publicamente graças a Deus pelo dom da vida, mas esquecemos publicamente o contributo dos nossos progenitores que ousaram cooperar com Deus para que a via surgisse e se alimentasse – o que não deixa de causar prazer e originar alegria e festa. A este propósito, recordo que em muitos adereços de nossos templos se visualiza a nudez de anjos, o vigor de espécies vegetais – mormente da vide e das uvas, como do trigo em espiga ou em pão –, a pujança de alguns animais (como o cordeiro, a pomba ou a águia). E é de registar que na cachorrada norte da capela-mor da igreja matriz de Sernancelhe, segundo a narrativa de Monsenhor Cândido de Azevedo, um dos cachorros apresenta uma mulher em trabalho de parto, outro a criança nascida e outro ao homens alegres a levantar ao alto um pipo de vinho – um verdadeiro hino à vida.  
E Marcelo Pinto menciona o teólogo Leonardo Boff para dizer que a festa do “Risus Paschalis significa a presença do prazer sexual no espaço do sagrado, na celebração da Páscoa, a maior festa cristã desde sempre E, para ilustrar essa tradição positiva da sexualidade, evoca a teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli, que estudou o facto no livro “O Riso Pascal e o Fundamento Teológico do Prazer Sexual” (Il risus paschalis e il fondamento teologico del piacere sessuale) publicado em Brescia, Itália, em 1990, pela Editrice Queriniana. Ora, no livro, Jacobelli afirma que, para provocar a explosão de alegria da Páscoa em contraposição à tristeza da Quaresma, o sacerdote na missa da manhã de Páscoa suscitava o riso no povo. E fazia-o recorrendo a diversos meios, em que sobressaía o imaginário sexual. Contava piadas picantes, usava expressões eróticas e encenava gestos obscenos, dramatizando relações sexuais. E o povo ria. Entretanto, porque muitos, ao fazerem as piadas, envolviam excessiva e desnecessariamente o tema da sexualidade, acabava por ficar ofuscada a Palavra de Deus. Por isso, a tradição foi interrompida, na sequência do Concílio de Trento (que optou pela solenidade grandiosa do culto e pela rejeição das práticas aparentemente ofensivas do que se entendia por moral), por proibição do Papa Clemente X, no século XVII, e do arquiduque Maximillian III e dos bispos da Baviera, no século XVIII. Assim, porque alguns padres não observavam os limites do humor, a Igreja perdeu o “Risus Paschalis”. Seria muito divertido presenciarmos missas nas quais os padres se mostrassem divertidos e contadores de piadas, que não necessitariam de ser picantes, mas que trouxessem a descontração para este momento de paz e saúde espiritual. Assim, os cristãos, sob a capa da gravidade, passaram a dar tristes santos (o espírito triste seca os ossos). Tiveram que vir Paulo VI e Francisco, com as exortações apostólicas “Gaudete in Domino” e “Evangelii Gaudium”, respetivamente.
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Alguns dados antropológicos e eclesiais
Por sua vez, H. Teixeira, refletindo sobre este rito medieval, regista que, “por sua especificidade e extravagância, descortina a perceção da tendência à gravidade e ao siso nas celebrações litúrgicas das igrejas”. Agora, a alegria é expressa por leves sorrisos, efeito visual de civilidade ou cordialidade. Até há pouco tempo, era escandaloso o aplauso nas igrejas, fosse para o sermão, fosse para Deus. No entanto, uma paróquia reagiu muito bem, em 1979, quando na procissão pascal pedi uma salva de palmas para o Senhor Ressuscitado presente na Hóstia sagrada para nossa alegria e salvação e hoje os aplausos são frequentes.
Como rito litúrgico, o “Risus Pachalis” – diz Teixeira – é muito antigo, embora não se saiba exatamente quando surgiu essa forma cómica de dramaturgia, no tocante às forças da inumanidade e degeneração das relações entre os grupos sociais. E o teólogo reflete sobre a sua relevância numa liturgia assente na alegria que o perdão suscita na consciência de quem participa na comunidade de fé, sendo que o riso é próprio do ser humano servindo para lidar com as incoerências da existência. O próprio salmista dá asas a essa expressão do ser humano:
Então a nossa boca encheu-se de riso e a nossa língua de cânticos; então dizia-se entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor a estes. (Sl 126,2).
Sendo o sorriso e o riso canais de comunicação e constituindo uma estética do visual-auricular (um visual e outro mais audível), surgem como são fenómenos sociais (Raramente um pessoa sorri ou ri para si própria). Rir (e sorrir) é fenómeno coletivo. O riso é audível, ao passo que o sorriso é fenómeno visual em que “a face é esteticamente envolvida na reprodução de sinais que emitem um código, podendo ser de aprovação, reprovação ou mesmo de ameaça”, havendo o sorriso de indiferença e como expressão de prazer. Embora, Aristóteles e Tomás de Aquino tenham visto a risada como própria do ser humano e importante para a vida, muitos pensadores (vg: São João Crisóstomo e Santo Agostinho) compreenderam-na como própria de indivíduos à margem da civilidade, pelo que foi tolhida como expressão de incivilidade desde a Antiguidade. Enquanto as regras monásticas “condenavam o riso fácil e jocoso”, autores irónicos fizeram dele armas contra a contradição dos que, considerando-se graves prestavam culto ao normativo. Assim, Petrónio, Nietzsche e Heine fizeram do humor a sua epistemologia. Na Idade Moderna, a risada foi incluída no processo de adequação higiénica de civilização que a ciência trouxe para o Ocidente, rir alto tornou-se rude e falta de decoro. E, apesar de, ao longo da Idade Média, a risada ter sido combatida, isso não impediu os grupos sociais de debochar e chistar das situações. Diz Teixeira que a carnavalização da existência implica o riso ambivalente face a muitas situações da vida: suspende a seriedade de situação imposta como verdade; é um modo de ver o mundo; organiza a resistência a realidade desejada estanque, normativa e grave. Banida dos círculos oficiais que prezavam a gravidade, a risada foi relegada para a praça pública (para o Carnaval) e a risadinha para reagir a surpresas. E a festa popular celebra a vida de muitas formas. Os ciclos vitais estão presentes, mesmo quando comemorados face proibições e permanecem na liturgia popular e na encenação de mistérios. E o Renascimento tem nas manifestações populares abundante material para dialogar com a sacralidade da comunicação por meio da encenação dramática.
A risada, a risadinha e o riso, possuindo uma função fisiológica, geram efeitos massageadores no corpo, relaxamento e equilíbrio diante de tensões. Combinam a respiração e a alegria. Já no século XIX Spencer sustentava que a risada era um dispositivo autónomo do corpo tal como o espirro e a tosse. E Bergson diz que se trata de fenómeno especialmente humano.
Não há comicidade fora do que é próprio do homem. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia, porém jamais risível. Riremos de um animal, mas porque teremos surpreendido nele uma atitude de homem ou certa expressão humana. Riremos dum chapéu, mas no caso o cómico não será um pedaço de feltro ou palha, senão a forma que alguém lhe deu. (…) Já se definiu o homem como ‘um animal que ri’. Poderia também ter sido definido como um animal que faz rir, pois se outro animal o conseguisse, ou algum objeto inanimado, seria por semelhança com o homem, pela caraterística impressa pelo homem ou pelo uso que o homem dele faz.” (Bergson, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cómico. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 7.)
A risada (a gargalhada em especial) põe todo o nosso organismo em movimento. É um dispositivo de defesa do corpo, um completo exercício massageador dos músculos da face e de outras partes do corpo e, dada a sua índole contagiosa, é expressão coletiva.
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O rito do “Risus Paschalis” foi uma prática cultual herdada da antiguidade que sobreviveu na liturgia das Igrejas ocidentais e resistiu, em alguns contextos, até ao início do século XX. Nesse rito, o liturgo escarnecia do diabo e forças opostas à ação de Deus na história referenciando amplamente o facto de a Ressurreição ter “enganado” tais forças. Essa liturgia pascal era elaborada a partir da risada em estilo responsorial em que o oficiante usava “alguma jocosidade de ordem sexual”, respondendo os participantes na celebração com risadas e gargalhadas, o que, segundo Bremmer, produzia um efeito libertador após a temporada de profunda gravidade que a Quaresma carregava ante o sepultamento do Salvador. O “Risus Paschalis” (ou Dominica gaudii) era uma festividade carnavalesca medieval com elementos de burla e, por vezes, de blasfémia. Para Bakhtin, o “Risus Paschalis” continha, como outras festas (vg: “Festa dos Tolos” e“Festa do Asno”), formas de inversão da lógica quotidiana. Resnick diz que a documentação antiga e medieval mostra tensão entre o conceito filosófico de riso e o cristão de penitência. Os monges, não negando o riso como valor humano, abjuraram do seu abuso frívolo e agitador e julgaram não ter sentido na vida penitente, pois o penitente aguarda a vida definitiva para gozar tranquila e alegremente dos bens celestes. E Virginia Woolf disse que “a comédia representava as fraquezas da natureza humana e a tragédia retratava os homens como maiores do que eles são”. Porém, vai mais longe:  
O riso puro, tal como o ouvimos nos lábios das crianças e de mulheres bobas, anda em descrédito. (…) É um riso que não passa mensagem, que não transmite informação; é um som inarticulado como o latido de um cão ou o balir de um carneiro, e exprimir-se assim é indigno de uma espécie que se dotou de linguagem.” (Woolf, Virginia. O Valor do Riso e Outros Ensaios. São Paulo: Cosac & Naify, 2014. p. 35.)
Para a escritora, o ser humano tem no riso a perceção das próprias falhas, sendo o dom da risada um jeito de se dar conta de tal ambiguidade. Lutero chamou ao “Risus Paschalis” tagarelice tola e ridícula. Johannes Oecolampadius não poupou críticas ao rito dizendo que eram praticadas obscenidades, os pregadores tratavam na igreja das coisas praticadas na intimidade. Wolfgang Capito queixou-se contra os pregadores da alegria pascal pela algazarra que se fazia na igreja com leigos que se vestiam de monges e fingiam dar à luz um bezerro, além de realizarem pilhérias com o clero. Para lá da proibição eclesiástica, a “religião nos limites da razão” contribuiu para o seu cerceamento e exclusão da liturgia. Porém, o “Risus Paschalis” estava na liturgia desde o tempo da Igreja dos primeiros séculos. Gregório de Nisa desenha um retrato vívido das multidões jubilosas que, pelas vestes e participação devota, faziam honra ao festival. Cessava o trabalho, eram suspensas as negociações, fechavam os tribunais, dava-se esmola aos pobres, libertavam-se os escravos. Era tempo favorável para o Batismo. O Domingo de Páscoa era a Dominica gaudii (Domingo da Alegria). Em reação à austeridade da Quaresma, as pessoas entregavam-se ao gozo da dança popular, desporto, entretenimento e fanfarronice. Em alguns lugares, o clero, para aumentar a alegria, recitava desde o púlpito histórias engraçadas e lendas com vista a excitar o “Risus Paschalis” ou “sorriso da Páscoa”. É de recordar que o IV domingo da Quaresma (ainda hoje dito Domingo da Alegria) já lampejava antecipadamente esta folia.
Contudo, o “Risus Paschalis” não era o único rito de humor da Igreja ocidental. Havia outras práticas que envolviam a risada abundante. A risada litúrgica integrava o calendário das Igrejas como escape para as tensões experimentadas ao longo do ano e do período sisudo quaresmal.
E a risada foi abolida da liturgia dando lugar à introspecção e ao elemento estético grave. E, se há momentos de carisma em denominações pentecostais, todavia, fora duma suposta ação do Espírito, a risada é proibida e fala mais alto a sisudez e a gravidade ditadas pelas regras do claustro. O humor como parte da celebração restringe-se a poucos momentos de quebra de protocolo por parte do liturgo ou pregador, que faz alguma graçola por conta do seu carisma.
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Ora, o riso significa a alegria cósmica universal e reveste-se de sentido filosófico exprimindo um ponto de vista peculiar sobre a experiência, a vitória sobre o medo e tornando grotesco o que aterroriza e distancia. Triunfa, assim, sobre o pânico sobrenatural e a morte, e propicia a queda simbólica da hierarquia sufocante. Assim, para lá dos recorrentes convites e manifestações de alegria presentes na Bíblia, é de salientar que, no AT (Antigo Testamento), o riso surge em momentos de remissão. Assim é o riso de Abraão e Sara, que riram com a promessa dum filho na velhice de Sara (cf Gn 17,17); o sorriso do Senhor é sinal de bênção (cf Nm 6,25); o coração alegre é remédio contra as doenças (cf Pr 17,22); as festas devem ser regradas por risadas efusivas (cf 1Rs 1,40); e a alegria transforma-se em exultação pela salvação (cf Hab 3,18), pois a risada do Senhor “é a vossa força” (Ne 8,10). E, no NT (Novo Testamento), a orientação é “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos” (Fl 4,4); e o sinal da bênção é para quem testemunha que “os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo” (At 13,52).
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A expressão da teoagapia no “Risus Paschalis
No “Risus Paschalis” esplende a teoagapia refletida na alegria que a perceção do perdão dos pecados confere aos que participam da vida cristã, participação que se dá liturgicamente após o período da Quaresma, tempo de reflexão sobre a vida e ação de Jesus e sua paixão pelas ovelhas dispersas. Essa teoagapia, expressa na liturgia, é reflexo da consequente práxis de Jesus, uma dramatização da vitória sobre as forças subjetivas de uma vivência calcada numa moralidade apologética do status quo. Todavia, a teoagapia não é só a realização de ações dum samaritano que socorre as vítimas na estrada, mas, segundo Teixeira, “a própria experiência de ser-no-mundo como cura, como ser finito em-relação-com-outros na tomada de conscientização da sua ocupação e projeto, assimilado desde um modo de ser-com na assunção da sua projeção como ser-mais”. Assim, pelo poder divino (teoisquiria) amalgamado como amor (teoagapia), que se manifesta sobretudo na compaixão e perdão, “Deus faz-nos entrarmos em nós mesmos”; e, dando-nos a conhecer a nós, “faz com que nos conheçamos a nós mesmos” e, na qualificada conscientização dos processos vitais, percebemos a necessidade da comunhão e do espírito fraterno. É na superação dum amor erótico que busca a segurança na disposição de objetificação do outro, como modo de permanecer intacto diante da insegurança existencial, é que o ser humano entende Deus como Ágape; só quem “abandonar toda a segurança encontrará a verdadeira segurança”.
A teoagapia do “Risus Paschalis” é a superação duma liturgia estribada na lógica da sisudez e da gravidade, dá largas à alegria efusiva do perdão, que esteticamente redunda na gargalhada contra a constante tentativa de não aceitar “o erro como condição da vida humana”. A índole paradoxal da vida humana exprime-se na própria tentativa de retirar do culto o que traz as coisas da intimidade para a dramaticidade cúltica e quer esconder, pela teatralidade litúrgica, a realidade quotidiana cuja veracidade se encontra especificamente na dialética erro/verdade, pecado/graça, malícia/bondade, vindicta/misericórdia. A liturgia confere ao culto cristão a dramaturgia duma corte em que o liturgo, às vezes, parece oficiar num tribunal.
O culto cristão na modernidade, sob a lógica da ordem e discrição, eliminou os elementos de distúrbio vistos segundo a ótica da racionalidade iluminista. O culto cristão como dramaturgia da práxis de Jesus passou a valorizar a introspecção, a sisudez do mosteiro, em detrimento da alegria no Senhor.
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Concluindo
Após este excursus, é pertinente questionar porque é que a celebração da Páscoa não gera a alegria efusiva e estonteante no quadro litúrgico ou por que motivo a boa nova da ressurreição não cria a liturgia do contentamento e do extravasamento da graça percebida ou quais as razões que levam os fiéis à introspeção cúltica na liturgia pascal.
O “Risus Paschalis” foi gradualmente retirado da liturgia da maior parte das Igrejas cristãs, sobrevivendo muito diminutamente em alguns contextos. O seu escopo era comemorar – sob gargalhada – a vitória de Jesus sobre as forças do mal numa dramaturgia do riso, em que o oficiante conduzia o rito por meio de falas chistosas e cómicas recebendo responsorialmente as risadas como louvor a Deus. Talvez o sentimento de culpa inoculado pelas liturgias de poder, na modernidade, se tenha sobreposto demasiadamente à alegria inerente ao perdão, experimentado na ressurreição de Jesus, embora o Aleluia continue a rebentar um pouco por toda a parte.
Não obstante, quem vive experiência de celebração comunitária da Reconciliação com confissão pessoal dos pecados integrada na Missa, sabe aquilatar da diferença entre o volume sonoro da oração e cântico antes da confissão e o, por vezes quase explosivo, manifestado na liturgia eucarística, mormente depois da comunhão.
E não se diga que não são desopilantes, belas e edificantes as dramatizações que de vez em quando invadem as liturgias! O mesmo se diga das manifestações litúrgicas infantis e juvenis (por vezes, mesmo explosivas) e de algumas liturgias com idosos (bem simpáticas) ou da diversidade de instrumentos musicais que acompanham diversas realizações corais litúrgicas.   
Se calhar, devia dar-se mais gás ao momento festivo que ao momento penitencial (necessário). Enfim, somos mais cara de Semana Santa que de Páscoa. E cruz sem ressurreição não tem sentido, como ressurreição sem cruz não é possível. Do nascimento à cruz e da cruz à Páscoa!    
2019.03.23 – Louro de Carvalho