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segunda-feira, 22 de abril de 2019

Páscoa da liberdade, abundância, universalidade e indefetibilidade


Obviamente a Páscoa é a festa da fé cristã que tem a sua base na Ressurreição de Cristo, que, falando do templo do seu corpo (Jo 2,21), desafiara os contemporâneos que teimavam em não O aceitar:Destruí este templo e eu, em três dias, o reedificarei” (Jo 2,19).
Comentando a perícopa do Evangelho de João (Jo 20,1-10) proclamada na missa da manhã da Páscoa, o Bispo do Porto indica as pistas que levam à certeza da ressurreição e à aceitação do mistério: a perceção de Maria Madalena, a pedra de acesso ao túmulo retirada, as ligaduras no chão, o sudário enrolado”. E, admitindo a insuficiência destes sinais para muitos por impossibilidade de demonstração laboratorial ou matemática, considera-os “plenamente reveladores para quem os vive a partir da experiência da proximidade, da fé e do amor”.
Assim, o discípulo que chegou ao túmulo em primeiro lugar “viu e acreditou”. Assenta o prelado portucalense que João (“porventura apelidado de louco pelos comerciantes da estreita rua que, da cidade velha de Jerusalém, saía em direção ao monte Calvário”), o mais jovem dos Apóstolos, fora o único a viver de perto “os dramas do julgamento, crucifixão e sepultura do Senhor”, ou seja, “fez-se ‘próximo’ de Jesus, quando os outros se afastaram”, movido por amor do “Amigo” e da “Mãe do Amigo”, recebendo d’Ele “o sagrado encargo de amparar a Mãe, já viúva e, a partir daquele momento, sem ninguém para cuidar dela”. E terá sido “esta contínua presença junto do Amigo” que a fé na ressurreição “se tornou um dado quase natural” para o “discípulo amado”. Assim, “viu a partir do olhar da afetividade e acreditou confiadamente ou com a naturalidade com que uma criança acredita na mãe” – disse Dom Manuel Linda. Embora a razão não compreendesse tudo, garante o prelado diocesano, “o amor ajudou o coração a abrir-se e a ver” – “intuição amorosa e de proximidade” que lhe permitiu “ver e acreditar antes de todos os outros”. Dito de outro modo, em João, “a alegria pascal maturou sobre uma base de amor fiel”, que “nada nem ninguém pode quebrar ou pôr em causa”. E é a via da proximidade existencial e amorosa com o Senhor que garante o acesso ao mistério central da nossa fé: a ressurreição de Cristo. Com efeito, “comendo e bebendo com Ele”, como invocava Pedro no discurso em Casa de Cornélio, a fé de que “Deus O ressuscitou dos mortos” e “O constituiu juiz dos vivos e dos mortos” torna-se uma “absoluta certeza” – dizia o Bispo do Porto aludindo à perícopa dos Atos dos Apóstolos (At 10, 34a.37-43), assumida como 1.ª leitura da Liturgia da Páscoa, e acrescentava: 
Certeza pregável a ‘toda a casa de Israel’, mais familiarizada com a crença na ressurreição, mas também pregável ao ainda pagão Cornélio e sua família, o qual, curiosamente, o chamou à cosmopolita Cesareia marítima, porque se impressionou com esse testemunho e se dispôs a ser batizado”.
***
Este discurso homilético, que envolve a ressurreição com dinamismo da fé e com o amor que se faz próximo, abre para a libertação da descrença, dos germes da destruição, do erro e da morte. E a homilia de Manuel linda na Vigília Pascal, sob o signo “Salvação e luz”, garantia a libertação das trevas, do medo e da tristeza para a luz, para a fortaleza e para a alegria incontida. Por isso, a maior iluminação é a que surge dentro da alma e que se descreve “como alegria, que não pudemos calar e exprimimos com uma luz acesa na nossa mão”, dando por nós “a cantar um aleluia festivo, genuíno e emotivo”. Mas esta alegria pascal postula o testemunho em saída e a comunicação a todos. Aponta para a universalidade. E, se a homilia do prelado portucalense no dia de Páscoa aponta a universalidade da salvação no gesto de Cornélio (a pedir o Batismo a Pedro), pois todo aquele que acredita em Jesus – judeu ou pagão – recebe pelo seu nome a remissão dos pecados (cf At 10,43), a homilia da Vigília Pascal é mesmo apostólica e universalista, como se vê pelo quadro seguinte, concluído a partir dos Evangelhos:   
As mulheres são enviadas a comunicar o facto a Pedro e aos outros discípulos. E é este dado que faz com que a ressurreição do Senhor deixe de ser uma experiência privada, pessoal, sujeita à ilusão, e se torne um acontecimento de toda a Igreja e vivido como celebração e festa coletiva.”.
O homiliante prossegue fazendo a atualização:
Assim tem de acontecer hoje. Páscoa não rima com experiência individual. Tem de ser facto difundido e comunicado a todos. E no ato de se comunicar, de falar dele, de lhe pronunciar o significado, verifica-se a dupla vertente da fé: a transmissão a quem, porventura, andará mais esquecido e o aumento em quem a anuncia. Se pensarmos bem, damo-nos conta de que, quase sempre, na nossa vida, aconteceu uma situação que nos gerou fé ou, pelo menos, nos ‘prendeu’ à fé.”.
E, colocando-nos na situação dos outros, interpela-nos:  
Uma comunicação da nossa experiência de fé não poderia gerar neles uma interrogação e consequente adesão à fé? Então, porque não anunciamos aos outros alguma manifestação do Senhor nas nossas vidas? A nossa fé na ressurreição obriga-me a comunicá-la, tal como às mulheres de que fala o Evangelho?”.
Por fim, exortava:
Nesta Páscoa, ide dizer a todos que, por amor de Deus, ‘não busquem entre os mortos Aquele que está vivo’.”.
***
 Porém, na Missa da manhã da Páscoa, o prelado encarece a relevância atual do testemunho “dado por aqueles que vivem a tal proximidade amorosa com o Senhor” em contraponto à “nova cultura de massas, por vezes de base materialista e hedonista, e assegura:
É preciso apresentar o grande ‘sinal’ histórico: ao longo de dois milénios, milhões e milhões de cristãos afinaram a sua existência pela ‘ressurreição’ e celebraram-na ininterruptamente no próprio dia semanal em que aconteceu: no primeiro dia da semana ou domingo. De tal forma que fé em Jesus Cristo, crença na ressurreição, guarda do Domingo como dia absolutamente diferente e celebração festiva [se] aglutinaram numa mesma unidade, qual marca identitária da cultura ocidental humanista.”.
Verificando que esta marca está a perder-se “em detrimento da dignidade pessoal e dos direitos humanos”, denuncia “o novo esclavagismo da laboração contínua, ‘legalmente’ imposta pelos novos senhores do mundo que dominam a economia e, por esta, os governos”. E exemplifica com “os critérios dos ‘turnos’, em setores onde, para [lá] da ganância, nada os justifica, a par dos graves transtornos psicológicos do trabalhador e do fracionamento dos encontros familiares”, o que “está a gerar a ‘morte do Domingo’, o fim dos ritmos semanais, a abolição dos verdadeiros momentos celebrativos e o fracionamento da família e das relações de amizade”. De igual modo, acusa a abertura dominical dos supermercados e centros comerciais como “expressão de um certo subdesenvolvimento humano e mesmo económico”. Tudo isto, na ótica do nosso Bispo, contribui para “gerar uma civilização fria, sem alma, individualista, sem profundidade de relações” e sem outros contactos “que não sejam os da realidade virtual”. E o pregão libertador soa concreto, dirigido aos cristãos, mas tendo todos como destinatários:
Caros cristãos, convoco-vos para esta tarefa urgente de trazer nova alma à nossa cultura mediante a inserção nela da crença profunda na ressurreição. Dizei-o a todos e vivei-a convictamente a partir da proximidade amorosa com o Senhor Jesus. A Páscoa é a alegria do céu que irrompe sobre a terra. A Páscoa é a luz da esperança que desfaz as nossas trevas e angústias. A Páscoa é a forma de percebermos uma nova comunhão entre as pessoas. Jesus está vivo! Brilhe em todos nós a alegria da ressurreição.”.
***
No fim da tarde da Páscoa, a RTP1 passou o filme “Ressurreição”, com realização de Kevin Reynolds, segundo argumento seu e de Paul Aiello, um filme dramático que relata a morte e ressurreição de Cristo. O elenco conta, entre outros, com Joseph Fiennes, Tom Felton, Peter Firth e Cliff Curtis.
Depois do controlo da revolta de zelotes liderada por Barrabás, que lutava contra o domínio de Roma, Pôncio Pilatos incumbiu o tribuno Clavius (interpretado por Joseph Fiennes), poderoso militar romano, e o seu assistente Lucius (interpretado por Tom Felton) de investigarem o mistério do sucedido com Yeshua (Jesus) nas semanas subsequentes à crucificação, a fim de desmentir os rumores sobre o ressurgimento do Messias e impedir uma provável rebelião popular em Jerusalém. Para tanto, teriam de localizar o corpo desaparecido. Ora, após buscas intensivas em todos os lugares e sepulturas sem conseguir encontrar o corpo, Clavius procura os seguidores de Jesus, que lhe mostram as razões da sua crença. Clavius, de natureza cética, tendo visto com os próprios olhos o Ressuscitado, vê-se numa luta interior ao tentar conciliar o que lhe dizem os sentidos com o que sempre acreditou ser possível. Pilatos descobre a traição de Clavius e envia um contingente de tropas romanas para o capturar e matar todos os discípulos de Cristo.
Aquando da sua estreia no Brasil, alguns líderes cristãos pronunciaram-se sobre a importância do argumento, considerando-o uma forma de lembrar a importância e significado do sacrifício de Jesus na Cruz. E destacavam a originalidade de os factos terem sido abordados sob o olhar do perseguidor romano, o que é inédito em relação a outras produções que já apresentaram os factos, mas descritos na narrativa bíblica sobre a crucificação e ressurreição de Cristo pelo olhar dos apóstolos ou de Jesus.
O pastor Russell Sheed, doutor em teologia com pós-doutoramento em Novo Testamento, afirmava que a história do filme deve impactar muitas vidas e discorria:
É excelente ter um filme como esse em cartaz. ‘Ressurreição’ conta uma história verídica ontem e hoje que vai impactar muitas vidas, com certeza!”.
Já o pastor Flávio Valvassoura, da Igreja do Nazareno de Campinas, São Paulo, enfatizava:
Esse filme traz a verdadeira e extraordinária mensagem do evangelho que nos motiva e baseia a nossa fé na vida de Cristo em nós”.
Para lá dos líderes evangélicos, homens do catolicismo como Dom Devair Araújo, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, também pronunciaram. E este bispo comentava:
Ressurreição apresenta os evangelhos de forma muito bem contada. Além disso, o filme parte da morte de Jesus e de uma série de factos que levantam um questionamento profundo até nos dias atuais, falar de Jesus hoje é falar da fé. Então, diante da Ressurreição cada um de nós [é chamado] a professar a nossa fé.”.
E Dom Tarcisio Marques, Bispo Auxiliar da Região Episcopal Belém, dizia:
O filme conseguiu abordar, de forma muito muito humanizada, um dos temas mais importantes do Cristianismo, a Ressurreição, com uma história apaixonante. Para nós que somos católicos é uma verdadeira catequese bíblica que vale a pena ser seguida.”.
Mickey Liddel, um dos produtores do filme, assegurando que sempre quis representar a classe cristã no cinema, observou:
Sempre quis contar uma história como essa, que parece um grande filme de Hollywood, mas quero que os cristãos que irão assistir ao filme se sintam representados de forma correta”.
Na verdade, a produção tem um visual espetacular, cenas de ação viscerais e abordagem de mistério de série de investigação policial, que pretende ressoar entre os espectadores cristãos e incrédulos de uma forma impactante. Enquanto se mantém fiel aos ensinamentos do Novo Testamento, Ressurreição conserva um tom atual e, ao mesmo tempo, a sensibilidade para mostrar os conflitos de um homem incrédulo ao se deparar com o inexplicável.
Vi o filme e chamaram-me a atenção a pesca milagrosa com a aparição de Jesus na margem do lago de Tiberíades (Jo 21,1-14) e a missão pastoral de Pedro (Jo 21,15-23).
À ordem de Jesus que aparecera (mas sem = reconhecerem) e pedira algo de comer, que não tinham, os apóstolos lançaram a rede “e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar”. E foi na superabundância que o discípulo que Jesus amava O reconheceu e disse a Pedro: “É o Senhor!”. O Ressuscitado faz e testemunha o mistério da abundância do Reino, como o fez em Caná quando Se autorrevelou na transformação da água em vinho bom e muito (vd Jo 2,1-12). Recorde-se que esse episódio do vinho também aconteceu “ao terceiro dia”. E, ao invés do que sucedeu na pesca milagrosa relatada por Lucas em que a rede se rompeu (Lc 5,6-7), agora a rede – quando Jesus mandou que levassem os peixes que apanharam e Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes – “apesar de serem tantos, a rede não se rompeu”. Não esqueçamos o v 13 a referir que “Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe”. É o gesto eucarístico essencial ao ser e missão da Igreja, que celebra e festeja o Corpo do Senhor no mistério do pão e dele faz dádiva!  
Assim, além da abundância, é de concluir pela indefetibilidade do povo pascal. Com efeito, a pesca milagrosa tem acentuado valor simbólico aludindo à missão da Igreja no mundo: Jesus na praia e os discípulos (“pescadores de homens”: Mc 1,17; Lc 5,10) no mar, com Pedro à frente. Assim, com a não rutura da rede, parece aludir-se à unidade da Igreja e à sua indefetibilidade e a grande quantidade de peixes realçará, além da abundância, a universalidade. O número de 153 peixes é o número simbólico da totalidade. Por outro lado, esta gematria evoca a índole da Igreja como comunidade de amor.
Assim, o amor que o Bispo do Porto realça – e muito bem – em João, agora emerge na tríplice confissão petrina de amor a Jesus Cristo. E, se em Mateus 16,16-18, a base de apoio da firmação da Igreja em Pedro é a fé messiânica e em Lucas 22,32 é a oração de Cristo, aqui em João é o amor de Simão Pedro que suporta o apascentar dos cordeiros e das ovelhas de Cristo. E repare-se que, enquanto Jesus requer um amor divino, profundo intelectual e fator de comunidade, perguntando “agapâs me – amas-me?”, Pedro responde com amor de simples afeição amizade, “Philô se – gosto de ti”. E a tristeza de Pedro por Jesus o questionar uma terceira vez (e, desta feita, perguntando como Simão Pedro o entendia, “phileîs me?”) dever-se-á à conexão que subjetivamente terá feito com a tríplice negação e ao reconhecimento da imperfeição do seu amor.
***
Em suma, se a fé é capaz de mover montanhas, o amor total e vivenciado a Cristo e às pessoas em que se encontra presente Cristo (doentes, pobres, oprimidos, explorados, descartados…) moverá corações (o que naturalmente se torna mais difícil) em prol da Páscoa da liberdade e da libertação, da abundância e da unidade, da universalidade e da totalidade, da indefetibilidade e da persistência.
E as portas do inferno não prevalecerão contra ela (a Igreja), porque Jesus Se mantém na praia. Non praevalebunt contra eam. Kai pýlai hadou ou katiskhýsousin autês. (Mt 16,18).
Santa Páscoa!
2019.04.21 – Louro de Carvalho   

sábado, 20 de abril de 2019

Boa, feliz, rica e santa Páscoa!


Não, não me esqueci dos amigos e amigas e da obrigação e gosto de fazer votos de boa, feliz, rica (não avara) e santa Páscoa para todos e todas. Todavia, tenho de confessar que senti a necessidade de ler mais, e mais devagar, nestes dias e que os dois últimos textos que escrevi me deram bastante mais trabalho do que estava a pensar. Por outro lado, aproveitei para ir refletindo até me perder, por vezes, nas leituras que a obrigação de citar e de verificar me levava a fazer.
***
O dia de hoje, Sábado Santo, é considerado pelos peritos da liturgia como dia alitúrgico, não sei se com grande exatidão. Com efeito, não é permitida a celebração da Missa e dos demais sacramentos, a não ser em caso de manifesta urgência (como é o caso da Santa Unção e do Viático). Por outro lado, há nubentes que pedem a celebração do matrimónio neste dia e não vi quem opusesse óbice. Não obstante, a mesma Liturgia prescreve a recitação ou canto do Ofício de Leituras, da Hora de Laudes, da Hora Intermédia, da Hora de Vésperas e da Hora de Completas (evidentemente que a Missa da Vigília, que se deve iniciar após o pôr do sol, já é liturgia da Páscoa, que não do sábado e os que nela participam estão dispensados do Ofício de Leituras).
Ora, a Liturgia das Horas, embora possa e deva ser prática pessoal quando não há comunidade que a faça, é de sua natureza oração comunitária e oração oficial da Igreja, pelo que a atribuição de índole alitúrgica a este dia me parece inexata. Porém, é de aceitar no contexto da análise contrastiva em relação aos outros dias.
Hoje, os redimidos são instados a meditar no sinal de Jonas. Como refere o Evangelho de Lucas (vd Lc 11,29-32), as multidões afluíam em massa e Jesus começou a dizer:
Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas. Pois, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o será também o Filho do Homem para esta geração. A rainha do Sul há de levantar-se, na altura do juízo, contra os homens desta geração e há de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; ora, aqui está quem é maior do que Salomão! Os ninivitas hão de levantar-se, na altura do juízo, contra esta geração e hão de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; ora, aqui está quem é maior do que Jonas.”.
Ora, o novo Jonas é Jesus Cristo. Ele é o sinal de Jonas atualizando e atuante. Não se esperava que Jonas, engolido pelo grande peixe, sobrevivesse, pelo que era dado como morto. Porém, Jonas orou com esperança em Deus, crendo que seria libertado de seu “sepultamento” (Jn 2,6-7), e Deus mandou que o peixe vomitasse Jonas em terra firme e ele sobreviveu. Também, mesmo que os apóstolos se tenham esquecido de que Jesus prometera ressuscitar ao terceiro dia, Ele levantou-Se do túmulo e lembrou-lhes a missão de que os incumbira. Se os homens não crerem no sinal de Jonas, nenhum sinal lhes será suficiente, dada a dureza dos corações. E, como refere o Evangelho de Lucas, o Senhor havia de afirmar, na parábola do rico epulão: “Não crerão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos” (Lc 16,31). Mesmo com a ressurreição de Lázaro, os pontífices e os fariseus reagiram: “Que faremos? Este homem multiplica os milagres. Se o deixarmos proceder assim, todo crerão nele” (Jo 11,47-48). Ora, não foi por falta de sinais e ensinamentos que não acreditaram.  
A história de Jonas era muito conhecida pelo público de Jesus. Na tradição judaica, o profeta era célebre mais pela sua libertação miraculosa do que pelo seu conhecido trabalho missionário em Nínive. Jesus valeu-se disso para pré-anunciar a sua própria ressurreição, que seria o maior de todos os sinais por Ele realizados até então. Depois da sua morte completa e definitiva, depois de ser retirado da cruz, depois de ser sepultado num túmulo novo cavado em rocha, depois da colocação de uma pesada pedra sobre a boca do sepulcro, depois da instalação dum selo de segurança na pedra, depois da colocação de uma escolta policial dia e noite junto ao túmulo e depois de três dias de espera – o Senhor ressuscitou dentre os mortos. Era o espetacular “sinal de Jonas” que Jesus havia prometido.
Porém, os escribas e fariseus viram a pedra que servia de tampa removida, o túmulo vazio, as faixas de linho, bem como o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus dobrado à parte; viram o próprio Senhor, as suas mãos e pés onde estavam as cicatrizes deixadas pelos cravos; viram-No comer um pedaço de peixe assado e viram a ascensão de Jesus até que uma nuvem o encobriu. Ouviram a sua voz. Poderiam ter tocado o seu corpo, se o quisessem ou se o sentissem necessário. Viram o Senhor ressuscitado muitas vezes, com muitas provas, em lugares e situações diferentes por um período de 40 dias, entre a ressurreição e a ascensão. O povo de Jerusalém viu a mudança ocorrida nos discípulos de Jesus devido graças à ressurreição. Queriam ver um sinal vindo do céu e acabaram por ver o “sinal de Jonas”, o maior de todos os sinais que indicam que o Reino chegou.
Os escribas e fariseus viram, não naquele dia, mas pouco depois. Se não viram, pelo menos ficaram sabendo do “sinal de Jonas”, pois as mulheres da Galileia viram, Pedro e João viram, os Doze viram, mais de 500 irmãos viram, Tiago viu e, depois de todos, Saulo viu (1Cor 15,5-8).
Por outro lado, por uma questão de arrumação teológica, o Sábado Santo é o dia, concebido à maneira humana, como aquele em que Jesus desce à mansão dos mortos a garantir que a sua Paixão e Morte também os redimiu – isto para sabermos que os méritos da redenção, obtida por Cristo, beneficiam todos os que esperaram a redenção, os que a esperam e os que a hão de esperar – em todos os tempos e lugares, pois Deus não faz aceção de pessoas.       
Entretanto, o Sábado Santo exprime na liturgia, a desolação pela morte de Cristo e o silêncio do sepulcro, a dor de Maria, a que se associa a dor da Igreja reunida ou na diáspora em saída às periferias, mas os redimidos mantêm-se em atitude de espera até que possam entoar os “aleluias” da Páscoa. Da soledade de Maria, acompanhada pela piedade cristã discipular, e da inexcedível dor de Cristo vai passar-se ao júbilo pela nova Criação operada por Cristo, pela exposição do banho pascal ao dispor dos crentes. Rebenta o verde “aleluia” e ressalta alvura das vestes pascais nas igrejas, nas ruas, nos montes e vales, nos campos e nas florestas; cantam as almas, consolida-se a Igreja no seu ser e missão; estende-se a salvação aos pobres, aos que se esvaziam de si próprios; e ganham para todos e cada um o pão nosso de cada dia e que Deus quer dar de bom grado a todos e cada um.
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Neste contexto, peço a Deus para todos os amigos e amigas uma Páscoa boa, que responda aos seus sonhos de vida, satisfaça os seus projetos pessoais, familiares, profissionais, sociais ou políticos; feliz, que dê tranquilidade, paz, gosto de viver e de conviver; rica (não avara), de modo que todos e todas tenham o pão de cada dia, a que têm direito, sem terem de o mendigar, e que possam fazer alguma acumulação para proverem a tempos em que a saúde, o cansaço ou a incapacidade façam exigências especiais e para que possam partilhar do que têm com os semelhantes numa linha de solidariedade, baseada na caridade de Jesus Cristo, e almejando a realização da justiça, de modo que todos sejam recompensados justamente pelo trabalho que fazem e todos tenham aquilo de que precisam, mesmo que não possam trabalhar; e santa, pela qual desejo que o reforço da fé dos amigos e amigas crentes, a consolidação da sua vivência de fé com consequências na vida da comunidade; e pela qual espero que os/as não crentes aja, sempre segundo os ditames da sua consciência, cada vez mais apurada, de olhos e ouvidos abertos ao espírito, à cultura e às necessidades dos demais e tenham uns lábios bendizentes, um coração sempre benéfico, umas mãos de afeto e trabalho, uns pés de mensageiros de paz e um perfil global de serenidade e amizade.
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Em suma, votos de boa, feliz, rica e santa Páscoa para todos e todas – amigos e amigas.
2019.04.20 – Louro de Carvalho

domingo, 24 de março de 2019

O “risus paschalis” e a teoagapia


Nota prévia
A crónica de Dom José Tolentino de Mendonça no Expresso deste sábado, dia 23, com o título “O humor do cardeal”, na rubrica semanal “Que coisa são as nuvens?”, refere a prática do ‘risus paschalis’, um pouco a justificar o humor do Cardeal Arcebispo de Boston Seán O’Malley, oriundo da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, expresso no retiro que orientou aos bispos portugueses em Fátima e no seu livro “Procura-se amigos e lavadores de pés”.
A predita crónica chamou-me a atenção para algo que desconhecia ou de que me não lembrava. E verifiquei não haver muito sobre o tema em português. Não obstante, encontrei uma bela pérola histórico-teológica no artigo “a teoagapia do risus paschalis: a risada e o perdão na liturgia”, de Helio Aparecido Campos Teixeira, publicado pela Tear On line (em linha: http://periodicos.est.edu.br/index.php/tear/article/view/2627/0), bem como uma boa referência no texto “O riso pascal” no blogue de Marcelo Pinto (http://doutorrisadinha.blogspot.com/2009/04/o-riso-pascal.html).
O riso pascal exprime a alegria pelo perdão que nos advém da redenção obtida pela morte de Cristo, validada pela ressurreição, base da nossa fé e garantia da nossa ressurreição. Tudo isto é fruto do amor divino fruído por cada pessoa e festivamente tornado público na comunidade eclesial. É a teoagapia (Théos – Deus + agapê – amor) que se manifesta no perdão.
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Uma visão sincrética da questão
Marcelo Pinto, anotando que a Igreja Católica trata do riso com excessivo rigor descobriu com surpresa a festa tradicional “Risus Paschalis”, que perdurou na Igreja por mais de mil anos. Afirma que o costume, surgido na Baviera no século XV, remonta a 852 em Reims, na França, se estendeu pelo Norte da Europa, Itália e Espanha, e perdurou até 1911 na Alemanha. O sacerdote, a celebrar a alegria da Ressurreição sobre a Morte, contava anedotas na celebração, que se utilizava da moral dessas historietas para realizar com humor as pregações, assumindo a cultura dos fiéis em seu jeito popularesco, plebeu e até obsceno. E, para expressar a vida nova inaugurada pela Ressurreição, apelava-se à fonte física donde nasce a vida humana: a sexualidade com o prazer com ela conexo. Com efeito, a cada passo damos publicamente graças a Deus pelo dom da vida, mas esquecemos publicamente o contributo dos nossos progenitores que ousaram cooperar com Deus para que a via surgisse e se alimentasse – o que não deixa de causar prazer e originar alegria e festa. A este propósito, recordo que em muitos adereços de nossos templos se visualiza a nudez de anjos, o vigor de espécies vegetais – mormente da vide e das uvas, como do trigo em espiga ou em pão –, a pujança de alguns animais (como o cordeiro, a pomba ou a águia). E é de registar que na cachorrada norte da capela-mor da igreja matriz de Sernancelhe, segundo a narrativa de Monsenhor Cândido de Azevedo, um dos cachorros apresenta uma mulher em trabalho de parto, outro a criança nascida e outro ao homens alegres a levantar ao alto um pipo de vinho – um verdadeiro hino à vida.  
E Marcelo Pinto menciona o teólogo Leonardo Boff para dizer que a festa do “Risus Paschalis significa a presença do prazer sexual no espaço do sagrado, na celebração da Páscoa, a maior festa cristã desde sempre E, para ilustrar essa tradição positiva da sexualidade, evoca a teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli, que estudou o facto no livro “O Riso Pascal e o Fundamento Teológico do Prazer Sexual” (Il risus paschalis e il fondamento teologico del piacere sessuale) publicado em Brescia, Itália, em 1990, pela Editrice Queriniana. Ora, no livro, Jacobelli afirma que, para provocar a explosão de alegria da Páscoa em contraposição à tristeza da Quaresma, o sacerdote na missa da manhã de Páscoa suscitava o riso no povo. E fazia-o recorrendo a diversos meios, em que sobressaía o imaginário sexual. Contava piadas picantes, usava expressões eróticas e encenava gestos obscenos, dramatizando relações sexuais. E o povo ria. Entretanto, porque muitos, ao fazerem as piadas, envolviam excessiva e desnecessariamente o tema da sexualidade, acabava por ficar ofuscada a Palavra de Deus. Por isso, a tradição foi interrompida, na sequência do Concílio de Trento (que optou pela solenidade grandiosa do culto e pela rejeição das práticas aparentemente ofensivas do que se entendia por moral), por proibição do Papa Clemente X, no século XVII, e do arquiduque Maximillian III e dos bispos da Baviera, no século XVIII. Assim, porque alguns padres não observavam os limites do humor, a Igreja perdeu o “Risus Paschalis”. Seria muito divertido presenciarmos missas nas quais os padres se mostrassem divertidos e contadores de piadas, que não necessitariam de ser picantes, mas que trouxessem a descontração para este momento de paz e saúde espiritual. Assim, os cristãos, sob a capa da gravidade, passaram a dar tristes santos (o espírito triste seca os ossos). Tiveram que vir Paulo VI e Francisco, com as exortações apostólicas “Gaudete in Domino” e “Evangelii Gaudium”, respetivamente.
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Alguns dados antropológicos e eclesiais
Por sua vez, H. Teixeira, refletindo sobre este rito medieval, regista que, “por sua especificidade e extravagância, descortina a perceção da tendência à gravidade e ao siso nas celebrações litúrgicas das igrejas”. Agora, a alegria é expressa por leves sorrisos, efeito visual de civilidade ou cordialidade. Até há pouco tempo, era escandaloso o aplauso nas igrejas, fosse para o sermão, fosse para Deus. No entanto, uma paróquia reagiu muito bem, em 1979, quando na procissão pascal pedi uma salva de palmas para o Senhor Ressuscitado presente na Hóstia sagrada para nossa alegria e salvação e hoje os aplausos são frequentes.
Como rito litúrgico, o “Risus Pachalis” – diz Teixeira – é muito antigo, embora não se saiba exatamente quando surgiu essa forma cómica de dramaturgia, no tocante às forças da inumanidade e degeneração das relações entre os grupos sociais. E o teólogo reflete sobre a sua relevância numa liturgia assente na alegria que o perdão suscita na consciência de quem participa na comunidade de fé, sendo que o riso é próprio do ser humano servindo para lidar com as incoerências da existência. O próprio salmista dá asas a essa expressão do ser humano:
Então a nossa boca encheu-se de riso e a nossa língua de cânticos; então dizia-se entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor a estes. (Sl 126,2).
Sendo o sorriso e o riso canais de comunicação e constituindo uma estética do visual-auricular (um visual e outro mais audível), surgem como são fenómenos sociais (Raramente um pessoa sorri ou ri para si própria). Rir (e sorrir) é fenómeno coletivo. O riso é audível, ao passo que o sorriso é fenómeno visual em que “a face é esteticamente envolvida na reprodução de sinais que emitem um código, podendo ser de aprovação, reprovação ou mesmo de ameaça”, havendo o sorriso de indiferença e como expressão de prazer. Embora, Aristóteles e Tomás de Aquino tenham visto a risada como própria do ser humano e importante para a vida, muitos pensadores (vg: São João Crisóstomo e Santo Agostinho) compreenderam-na como própria de indivíduos à margem da civilidade, pelo que foi tolhida como expressão de incivilidade desde a Antiguidade. Enquanto as regras monásticas “condenavam o riso fácil e jocoso”, autores irónicos fizeram dele armas contra a contradição dos que, considerando-se graves prestavam culto ao normativo. Assim, Petrónio, Nietzsche e Heine fizeram do humor a sua epistemologia. Na Idade Moderna, a risada foi incluída no processo de adequação higiénica de civilização que a ciência trouxe para o Ocidente, rir alto tornou-se rude e falta de decoro. E, apesar de, ao longo da Idade Média, a risada ter sido combatida, isso não impediu os grupos sociais de debochar e chistar das situações. Diz Teixeira que a carnavalização da existência implica o riso ambivalente face a muitas situações da vida: suspende a seriedade de situação imposta como verdade; é um modo de ver o mundo; organiza a resistência a realidade desejada estanque, normativa e grave. Banida dos círculos oficiais que prezavam a gravidade, a risada foi relegada para a praça pública (para o Carnaval) e a risadinha para reagir a surpresas. E a festa popular celebra a vida de muitas formas. Os ciclos vitais estão presentes, mesmo quando comemorados face proibições e permanecem na liturgia popular e na encenação de mistérios. E o Renascimento tem nas manifestações populares abundante material para dialogar com a sacralidade da comunicação por meio da encenação dramática.
A risada, a risadinha e o riso, possuindo uma função fisiológica, geram efeitos massageadores no corpo, relaxamento e equilíbrio diante de tensões. Combinam a respiração e a alegria. Já no século XIX Spencer sustentava que a risada era um dispositivo autónomo do corpo tal como o espirro e a tosse. E Bergson diz que se trata de fenómeno especialmente humano.
Não há comicidade fora do que é próprio do homem. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia, porém jamais risível. Riremos de um animal, mas porque teremos surpreendido nele uma atitude de homem ou certa expressão humana. Riremos dum chapéu, mas no caso o cómico não será um pedaço de feltro ou palha, senão a forma que alguém lhe deu. (…) Já se definiu o homem como ‘um animal que ri’. Poderia também ter sido definido como um animal que faz rir, pois se outro animal o conseguisse, ou algum objeto inanimado, seria por semelhança com o homem, pela caraterística impressa pelo homem ou pelo uso que o homem dele faz.” (Bergson, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cómico. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 7.)
A risada (a gargalhada em especial) põe todo o nosso organismo em movimento. É um dispositivo de defesa do corpo, um completo exercício massageador dos músculos da face e de outras partes do corpo e, dada a sua índole contagiosa, é expressão coletiva.
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O rito do “Risus Paschalis” foi uma prática cultual herdada da antiguidade que sobreviveu na liturgia das Igrejas ocidentais e resistiu, em alguns contextos, até ao início do século XX. Nesse rito, o liturgo escarnecia do diabo e forças opostas à ação de Deus na história referenciando amplamente o facto de a Ressurreição ter “enganado” tais forças. Essa liturgia pascal era elaborada a partir da risada em estilo responsorial em que o oficiante usava “alguma jocosidade de ordem sexual”, respondendo os participantes na celebração com risadas e gargalhadas, o que, segundo Bremmer, produzia um efeito libertador após a temporada de profunda gravidade que a Quaresma carregava ante o sepultamento do Salvador. O “Risus Paschalis” (ou Dominica gaudii) era uma festividade carnavalesca medieval com elementos de burla e, por vezes, de blasfémia. Para Bakhtin, o “Risus Paschalis” continha, como outras festas (vg: “Festa dos Tolos” e“Festa do Asno”), formas de inversão da lógica quotidiana. Resnick diz que a documentação antiga e medieval mostra tensão entre o conceito filosófico de riso e o cristão de penitência. Os monges, não negando o riso como valor humano, abjuraram do seu abuso frívolo e agitador e julgaram não ter sentido na vida penitente, pois o penitente aguarda a vida definitiva para gozar tranquila e alegremente dos bens celestes. E Virginia Woolf disse que “a comédia representava as fraquezas da natureza humana e a tragédia retratava os homens como maiores do que eles são”. Porém, vai mais longe:  
O riso puro, tal como o ouvimos nos lábios das crianças e de mulheres bobas, anda em descrédito. (…) É um riso que não passa mensagem, que não transmite informação; é um som inarticulado como o latido de um cão ou o balir de um carneiro, e exprimir-se assim é indigno de uma espécie que se dotou de linguagem.” (Woolf, Virginia. O Valor do Riso e Outros Ensaios. São Paulo: Cosac & Naify, 2014. p. 35.)
Para a escritora, o ser humano tem no riso a perceção das próprias falhas, sendo o dom da risada um jeito de se dar conta de tal ambiguidade. Lutero chamou ao “Risus Paschalis” tagarelice tola e ridícula. Johannes Oecolampadius não poupou críticas ao rito dizendo que eram praticadas obscenidades, os pregadores tratavam na igreja das coisas praticadas na intimidade. Wolfgang Capito queixou-se contra os pregadores da alegria pascal pela algazarra que se fazia na igreja com leigos que se vestiam de monges e fingiam dar à luz um bezerro, além de realizarem pilhérias com o clero. Para lá da proibição eclesiástica, a “religião nos limites da razão” contribuiu para o seu cerceamento e exclusão da liturgia. Porém, o “Risus Paschalis” estava na liturgia desde o tempo da Igreja dos primeiros séculos. Gregório de Nisa desenha um retrato vívido das multidões jubilosas que, pelas vestes e participação devota, faziam honra ao festival. Cessava o trabalho, eram suspensas as negociações, fechavam os tribunais, dava-se esmola aos pobres, libertavam-se os escravos. Era tempo favorável para o Batismo. O Domingo de Páscoa era a Dominica gaudii (Domingo da Alegria). Em reação à austeridade da Quaresma, as pessoas entregavam-se ao gozo da dança popular, desporto, entretenimento e fanfarronice. Em alguns lugares, o clero, para aumentar a alegria, recitava desde o púlpito histórias engraçadas e lendas com vista a excitar o “Risus Paschalis” ou “sorriso da Páscoa”. É de recordar que o IV domingo da Quaresma (ainda hoje dito Domingo da Alegria) já lampejava antecipadamente esta folia.
Contudo, o “Risus Paschalis” não era o único rito de humor da Igreja ocidental. Havia outras práticas que envolviam a risada abundante. A risada litúrgica integrava o calendário das Igrejas como escape para as tensões experimentadas ao longo do ano e do período sisudo quaresmal.
E a risada foi abolida da liturgia dando lugar à introspecção e ao elemento estético grave. E, se há momentos de carisma em denominações pentecostais, todavia, fora duma suposta ação do Espírito, a risada é proibida e fala mais alto a sisudez e a gravidade ditadas pelas regras do claustro. O humor como parte da celebração restringe-se a poucos momentos de quebra de protocolo por parte do liturgo ou pregador, que faz alguma graçola por conta do seu carisma.
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Ora, o riso significa a alegria cósmica universal e reveste-se de sentido filosófico exprimindo um ponto de vista peculiar sobre a experiência, a vitória sobre o medo e tornando grotesco o que aterroriza e distancia. Triunfa, assim, sobre o pânico sobrenatural e a morte, e propicia a queda simbólica da hierarquia sufocante. Assim, para lá dos recorrentes convites e manifestações de alegria presentes na Bíblia, é de salientar que, no AT (Antigo Testamento), o riso surge em momentos de remissão. Assim é o riso de Abraão e Sara, que riram com a promessa dum filho na velhice de Sara (cf Gn 17,17); o sorriso do Senhor é sinal de bênção (cf Nm 6,25); o coração alegre é remédio contra as doenças (cf Pr 17,22); as festas devem ser regradas por risadas efusivas (cf 1Rs 1,40); e a alegria transforma-se em exultação pela salvação (cf Hab 3,18), pois a risada do Senhor “é a vossa força” (Ne 8,10). E, no NT (Novo Testamento), a orientação é “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos” (Fl 4,4); e o sinal da bênção é para quem testemunha que “os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo” (At 13,52).
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A expressão da teoagapia no “Risus Paschalis
No “Risus Paschalis” esplende a teoagapia refletida na alegria que a perceção do perdão dos pecados confere aos que participam da vida cristã, participação que se dá liturgicamente após o período da Quaresma, tempo de reflexão sobre a vida e ação de Jesus e sua paixão pelas ovelhas dispersas. Essa teoagapia, expressa na liturgia, é reflexo da consequente práxis de Jesus, uma dramatização da vitória sobre as forças subjetivas de uma vivência calcada numa moralidade apologética do status quo. Todavia, a teoagapia não é só a realização de ações dum samaritano que socorre as vítimas na estrada, mas, segundo Teixeira, “a própria experiência de ser-no-mundo como cura, como ser finito em-relação-com-outros na tomada de conscientização da sua ocupação e projeto, assimilado desde um modo de ser-com na assunção da sua projeção como ser-mais”. Assim, pelo poder divino (teoisquiria) amalgamado como amor (teoagapia), que se manifesta sobretudo na compaixão e perdão, “Deus faz-nos entrarmos em nós mesmos”; e, dando-nos a conhecer a nós, “faz com que nos conheçamos a nós mesmos” e, na qualificada conscientização dos processos vitais, percebemos a necessidade da comunhão e do espírito fraterno. É na superação dum amor erótico que busca a segurança na disposição de objetificação do outro, como modo de permanecer intacto diante da insegurança existencial, é que o ser humano entende Deus como Ágape; só quem “abandonar toda a segurança encontrará a verdadeira segurança”.
A teoagapia do “Risus Paschalis” é a superação duma liturgia estribada na lógica da sisudez e da gravidade, dá largas à alegria efusiva do perdão, que esteticamente redunda na gargalhada contra a constante tentativa de não aceitar “o erro como condição da vida humana”. A índole paradoxal da vida humana exprime-se na própria tentativa de retirar do culto o que traz as coisas da intimidade para a dramaticidade cúltica e quer esconder, pela teatralidade litúrgica, a realidade quotidiana cuja veracidade se encontra especificamente na dialética erro/verdade, pecado/graça, malícia/bondade, vindicta/misericórdia. A liturgia confere ao culto cristão a dramaturgia duma corte em que o liturgo, às vezes, parece oficiar num tribunal.
O culto cristão na modernidade, sob a lógica da ordem e discrição, eliminou os elementos de distúrbio vistos segundo a ótica da racionalidade iluminista. O culto cristão como dramaturgia da práxis de Jesus passou a valorizar a introspecção, a sisudez do mosteiro, em detrimento da alegria no Senhor.
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Concluindo
Após este excursus, é pertinente questionar porque é que a celebração da Páscoa não gera a alegria efusiva e estonteante no quadro litúrgico ou por que motivo a boa nova da ressurreição não cria a liturgia do contentamento e do extravasamento da graça percebida ou quais as razões que levam os fiéis à introspeção cúltica na liturgia pascal.
O “Risus Paschalis” foi gradualmente retirado da liturgia da maior parte das Igrejas cristãs, sobrevivendo muito diminutamente em alguns contextos. O seu escopo era comemorar – sob gargalhada – a vitória de Jesus sobre as forças do mal numa dramaturgia do riso, em que o oficiante conduzia o rito por meio de falas chistosas e cómicas recebendo responsorialmente as risadas como louvor a Deus. Talvez o sentimento de culpa inoculado pelas liturgias de poder, na modernidade, se tenha sobreposto demasiadamente à alegria inerente ao perdão, experimentado na ressurreição de Jesus, embora o Aleluia continue a rebentar um pouco por toda a parte.
Não obstante, quem vive experiência de celebração comunitária da Reconciliação com confissão pessoal dos pecados integrada na Missa, sabe aquilatar da diferença entre o volume sonoro da oração e cântico antes da confissão e o, por vezes quase explosivo, manifestado na liturgia eucarística, mormente depois da comunhão.
E não se diga que não são desopilantes, belas e edificantes as dramatizações que de vez em quando invadem as liturgias! O mesmo se diga das manifestações litúrgicas infantis e juvenis (por vezes, mesmo explosivas) e de algumas liturgias com idosos (bem simpáticas) ou da diversidade de instrumentos musicais que acompanham diversas realizações corais litúrgicas.   
Se calhar, devia dar-se mais gás ao momento festivo que ao momento penitencial (necessário). Enfim, somos mais cara de Semana Santa que de Páscoa. E cruz sem ressurreição não tem sentido, como ressurreição sem cruz não é possível. Do nascimento à cruz e da cruz à Páscoa!    
2019.03.23 – Louro de Carvalho

domingo, 8 de abril de 2018

Dia da Divina Misericórdia 2018

A Igreja festeja neste II Domingo de Páscoa, a Festa da Divina Misericórdia, instituída por São João Paulo II no dia 30 de abril do ano 2000, por ocasião da canonização da Beata Faustina Kowalska.
O Papa polaco pretendeu que este domingo da Oitava da Páscoa ou Domingo in Albis (porque, neste dia, os batizados na noite da Vigília Pascal depois de passarem pela preparação catecumenal davam, ainda revestidos da veste branca imposta a seguir ao Batismo, público testemunho da sua fé) constituísse um convite a experimentar esta misericórdia que vem do coração de Cristo, pois a misericórdia divina atinge os homens através do Coração de Cristo crucificado ora revelado pelo mesmo Cristo ressuscitado. Cristo derrama, segundo afirmação do Santo Papa, esta misericórdia sobre a humanidade mediante o envio do Espírito que, na Trindade, é a Pessoa-Amor.
E o Papa Francisco chamou pela segunda vez os missionários da misericórdia, instituídos no Ano Jubilar há dois anos. Este encontro começou a 8 de abril, com a Missa na Praça São Pedro, durará até à próxima quarta-feira, dia 11.
De entre as diversas atividades como as catequeses que escutarão e as confissões que atenderão e que também serão convidados a fazer, os missionários dedicar-se-ão principalmente à humilde narrativa das suas experiências pastorais como embaixadores da misericórdia, coração deste ministério especial confiado pelo Santo Padre.
Na sua homilia da Missa no início do Jubileu da Misericórdia, com abertura da Porta Santa a 8 de dezembro de 2015, na Solenidade da Imaculada Conceição, Francisco disse que, na sua cidade, na sua casa, no local de trabalho... em qualquer lugar onde houver uma pessoa, a Igreja é chamada a ir lá ter com ela para levar a alegria do Evangelho e levar a Misericórdia e o Perdão de Deus. Este deve ser o testemunho de quem primeiramente experimentou a misericórdia de Deus: conduzir também os demais irmãos ao caminho da reconciliação e da paz. Fala-se tanto de paz em nossos dias, mas devemos recordar que dizia Santa Faustina que a humanidade não encontrará paz enquanto não se voltar com confiança para a misericórdia divina. Com efeito, a humanidade precisa de aprender a ter este olhar misericordioso, pois só nesta perspetiva poderemos repetir diversas vezes esta cena relatada na primeira leitura da Missa:
A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia mas, entre eles, tudo era comum.” (At 4,32).
É, pois, necessário que as comunidades se deixem moldar por um estilo afetuoso e efetivo de relações de partilha, onde se concretizem as obras de misericórdias, espirituais e corporais. A misericórdia torna-se concreta ao fazer-se próxima, sobretudo dos mais necessitados, à maneira do bom samaritano.
As pessoas têm enormes dificuldades em reconhecerem os seus erros, pedirem perdão, perdoarem, perdoarem-se e deixarem-se curar pelo amor de Deus. Ora, pessoas feridas podem também ferir outras e um coração doente e cheio de rancores e tristezas pode levar a divisões.
É necessário que a humanidade de hoje se recolha de vez em quando para acolher no cenáculo da história Cristo Ressuscitado, que mostra as feridas da sua crucifixão e nos repete: A paz seja convosco! É preciso que a humanidade se deixe atingir e penetrar pelo Espírito que Jesus ressuscitado lhe dá. É o Espírito que nos cura as feridas do coração, abate as barreiras que nos separam de Deus e nos dividem entre nós, restitui ao mesmo tempo a alegria do amor do Pai e a da unidade fraterna.
No dia 9 de abril, será apresentada ao mundo a sua nova Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, sobre o chamamento à santidade no mundo contemporâneo. Ora, cada vez mais somos convidados a recordar, neste mundo agitado e difícil, que o amor misericordioso de Deus nos quer santos e nos convida ao testemunho como convidou os que nos precederam neste percurso de santidade, olhando a própria história, reconhecer-se necessitado, perdoado e amado. Só um coração reconciliado com Deus, consigo mesmo com o próximo e com a criação, poderá alcançar a paz tão desejada.
Assim, com coragem, mesmo com medo ou indignidade, nos aproximaremos deste Pai misericordioso que nos ama e Lhe diremos como Santa Faustina: Jesus Cristo, confio em Ti!
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O Papa Francisco, no Domingo da Divina Misericórdia, falou, na homilia da Missa, sobre o perdão, afirmando que face às passagens que parecem bloqueadas da vergonha, da resignação e do nosso pecado, justamente ali “Deus faz maravilhas”, pois Ele adora entrar através das portas fechadas”, pois para Ele, “nada é intransponível”.
Dirigindo-se aos 50 mil fiéis presentes na Praça de São Pedro, frisou que os discípulos reconheceram Jesus pelas suas chagas. E, inspirando-se no Evangelho do dia que releva a incredulidade de Tomé diz que acreditar somente se puser “o dedo nas marcas dos pregos” e  “a mão no seu lado”, o Pontífice disse que “temos de agradecer a Tomé, pois a ele não bastou ouvir dizer dos outros que Jesus estava vivo e tampouco de vê-Lo em carne e osso, mas quis ver dentro, tocar com a mão nas suas chagas, os sinais do seu amor”. Disse Tomé:
Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”.

Vemos Jesus pelas suas chagas. Ora, neste aspeto Tomé, o Dídimo, “é verdadeiramente nosso irmão gémeo, pois também a nós não basta saber que Deus existe”. Queremos ver para crer:

Um Deus ressuscitado, mas longínquo, não nos preenche a nossa vida; não nos atrai um Deus distante, por mais que seja justo e santo. Não. Nós também precisamos “ver a Deus”, de “tocar com a mão” que Ele tenha ressuscitado por nós.”.