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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Invocar, caminhar e agradecer, três marcas do cristão em Igreja


Foi em torno destes três verbos que o Papa desenvolveu a sua homilia da Missa de canonização, a 13 de outubro, na Basílica de São Pedro, do Cardeal John Henry Newman, das religiosas Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e da leiga Margarida Bays.
Partindo do episódio dos 10 leprosos de que fala o texto do Evangelho de Lucas (Lc 17,11-19) assumido para o 28.º domingo do Tempo Comum no Ano C, Francisco salientou que a palavra do Senhor ao leproso que, tal como os outros, indo de caminho mostrar-se aos sacerdotes, se sentiu curado da lepra e deu meia volta para vir agradecer, “A tua fé te salvou” “é o ponto de chegada” do Evangelho que mostra o caminho da fé. Com efeito, por um lado, o caminho da fé espelha-se no percurso que Jesus fez com os discípulos para Jerusalém, onde ia ser sujeito à Paixão em que o Pai o glorificaria e Se glorificaria n’Ele, sendo a ressurreição dos mortos o certificado da glorificação de Cristo. Um caminho para o qual Jesus convida quem o quiser seguir e que implica renúncia e andar sem olhar para trás. Por outro lado, este percurso de fé mostra-nos três momentos significativos vincados pelos leprosos, sendo que apenas um – e estrangeiro – executou o 3.º momento: invocar, caminhar e agradecer.
Naqueles tempos, os leprosos sofriam a doença que os afligia (ainda hoje presente e a exigir combate) e sofriam o estigma da exclusão social em razão do perigo de contágio, pelo que deviam estar isolados do resto do mundo e gritar a quem pressentissem aproximar-se: Impuro, impuro! Também à passagem de Jesus, aqueles 10 leprosos gritaram, não o pregão estabelecido na Lei, mas o da confiança. Vão ter com Jesus, mas mantêm-se à distância e invocam-No. Vencem as exclusões ditadas pelos homens e invocam o Filho de Deus, que não exclui. Não se contentaram com o que ouviram dizer que Jesus fez a outrem; acreditavam que Jesus os podia curar. Isto faz dizer ao Santo Padre que “a salvação não é beber um copo de água para estar em forma, mas é ir à fonte, que é Jesus”. Na verdade, “só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida”. Os leprosos foram à fonte.
Ora, nós não podemos dizer que isso não nos diz respeito, pois todos nós necessitamos de cura, Precisamos da cura sobre a pouca confiança em nós mesmos, na vida, no futuro; sobre os medos que nos paralisam; sobre os vícios que nos escravizam; sobre a nossa autossuficiência, eu nos isola dos demais; sobre os fechamentos, dependências e apegos ao jogo, ao dinheiro, à televisão, ao telemóvel, às opiniões alheias. O Senhor liberta e cura o coração, se O invocarmos. Ora, invocar remete para a oração que nos leva a chamar a Deus pelo seu nome, o que é sinal de confidência, de que o Senhor gosta e que faz crescer a fé. Com a invocação confiante da fé, levando a Jesus o que somos, sem esconder as nossas misérias, sabemos que Deus salva. Isto é rezar, é mostrar fé. A fé salva e a oração, que “é a porta da fé”, é “o remédio do coração”.
Depois, é preciso atentar no facto de os leprosos terem sido curados, não quando estavam diante de Jesus, mas enquanto caminhavam às ordens de Jesus para se mostrarem aos sacerdotes, como diz o Evangelho: “Enquanto iam a caminho, ficaram purificados” (17,14). Foram curados enquanto caminhavam para Jerusalém palmilhando uma estrada a subir. Também nós somos purificados no caminho da vida, um caminho frequentemente a subir, porque leva para o alto. A fé requer um caminho, uma saída e só acontece o milagre, diz o Papa, “se sairmos das nossas cómodas certezas, se deixarmos os nossos portos serenos, os nossos ninhos confortáveis”. E o Sumo Pontífice recordou que também o Profeta a Naaman, general sírio que pedia a cura da sua lepra, indica a tarefa de caminhar até ao rio Jordão para se banhar sete vezes. Naaman, que esperava o espetáculo da cura milagrosa pelas rezas e toques do homem de Deus, fica desapontado, pois tinha na sua terra rios melhores que o Jordão. E foi um servo que o aconselhou a fazer aquela coisa tão simples que o Profeta lhe recomendara. E ficou curado, o que leva o Sumo Pontífice a dizer:
A fé aumenta com o dom e cresce com o risco. A fé atua, quando avançamos equipados com a confiança em Deus. A fé abre caminho através de passos humildes e concretos, como humildes e concretos foram o caminho dos leprosos e o banho de Naaman no rio Jordão (cf 2 Re 5, 14-17). O mesmo se passa connosco: avançamos na fé com o amor humilde e concreto, com a paciência diária, invocando Jesus e prosseguindo para diante.”.
Em contexto sinodal, Francisco sublinha o facto de os leprosos ficarem curados quando se moviam juntos. O Evangelho refere, no plural, que “iam a caminho” e “ficaram purificados”, pelo que se deduz que “a fé é também caminhar juntos, jamais sozinhos”. E o Papa Bergoglio anota que, uma vez curados, nove continuam pela sua estrada e apenas um regressa para agradecer. E Jesus desabafa a sua mágoa perguntando pelos outros nove. Esqueceram que é tarefa dos homens agradecer. E isto faz-se de forma eminente na Eucaristia, que nos leva a “ocuparmo-nos de quem deixou de caminhar, de quem se extraviou”, pois “somos guardiões dos irmãos distantes, todos nós”, somos intercessores por eles, somos responsáveis por eles, isto é, chamados a responder por eles, a tê-los a peito”.
Agradecer é a última etapa do percurso. E só àquele que agradece é que Jesus diz: “A tua fé te salvou”. E é de notar que “não se encontra apenas curado; também está salvo”. Isto quer dizer que “o ponto de chegada não é a saúde, não é o estar bem, mas o encontro com Jesus”. Quando o homem encontra Jesus, brota dele espontaneamente o “obrigado”, porque descobre o mais importante da vida: “não o receber uma graça nem o resolver um problema, mas abraçar o Senhor da vida”. E o Papa desenvolve:
É encantador ver como aquele homem curado, que era um samaritano, manifesta a alegria com todo o seu ser: louva a Deus em voz alta, prostra-se, agradece (cf 17,15-16). O ponto culminante do caminho de fé é viver dando graças. Podemos perguntar-nos: Nós, que temos fé, vivemos os dias como um peso a suportar ou como um louvor a oferecer? Ficamos centrados em nós mesmos à espera de pedir a próxima graça, ou encontramos a nossa alegria em dar graças?”.
Depois, enuncia os efeitos do agradecimento a Deus:
Quando agradecemos, o Pai deixa-Se comover e derrama sobre nós o Espírito Santo. Agradecer não é questão de cortesia, de etiqueta, mas questão de fé. Um coração que agradece, permanece jovem. Dizer ‘obrigado, Senhor’, ao acordar, durante o dia, antes de deitar, é antídoto do envelhecimento do coração, porque o coração envelhece e se habitua mal.”.
***
Do episódio dos leprosos, o Pontífice passa ao episódio da canonização, a que procedeu, dos cinco beatos. Também eles invocaram o Senhor, para se purificarem das tentações de autossuficiência, dos medos paralisantes, dos vícios que os espreitavam. E nós agora invocamo-los como intercessores. Também eles caminharam na fé em conjunto com os irmãos e irmãs. E nós agora queremos associá-los à nossa caminhada conjunta assumindo-os como luzeiros da doutrina, da fé, da Eucaristia, da caridade e da misericórdia. Também eles souberam agradecer os benefícios de que Deus os cumulou, os dons que o Senhor lhes dispensou para benefício da Igreja e da humanidade. E o Papa sintetiza em breves palavras as suas vidas:  
Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela, na sua humildade, o esplendor da Páscoa. Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman quando diz: ‘O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (...) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (...) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum’ (Parochial and Plain Sermons, V, 5).”.
E terminou exortando e rezando:
Peçamos para ser, assim, ‘luzes gentis’ no meio das trevas do mundo. Jesus, ‘ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros’ (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.
***
O Vatican News em português realça, de entre os cinco beatos canonizados, a Irmã Dulce Pontes, a primeira santa brasileira, a devotada aos pobres. Assim, enfatiza:
Irmã Dulce é santa. A celebração litúrgica com o rito da canonização reuniu cerca de 50 mil pessoas na Praça São Pedro. Com o “Anjo bom da Bahia”, foram canonizados também João Henrique Newman, Josefina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, e Margarida Bays.”.
Depois, relata em três pontos:
A cerimónia teve início com o rito da canonização: o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Becciu, acompanhado dos postuladores, foi junto do Santo Padre e pediu que se procedesse à canonização dos beatos.
O Cardeal apresentou brevemente a biografia de cada um deles, que foram então declarados santos. Seguiu-se a ladainha dos santos e o Pontífice leu a fórmula de canonização.
O prefeito da Congregação, sempre acompanhado dos postuladores, agradeceu ao Santo Padre e o coro entoou o canto do Glória.”.
E refere que, “na homilia, o Papa Francisco comentou o Evangelho deste 28.º Domingo do Tempo Comum, que narra a cura de 10 leprosos”, como já foi desenvolvido, em torno dos verbos invocar, caminhar e agradecer.
***
Antes de concluir a celebração eucarística da canonização, o Santo Padre rezou com os fiéis a oração mariana do Angelus e fez dois apelos: ao Médio Oriente e ao Equador.
Formulou uma saudação e um agradecimento a todos, nomeadamente aos cardeais, bispos, sacerdotes, monjas, religiosos e religiosas de todo o mundo, em especial aos que pertencem às famílias espirituais dos novos Santos, e aos fiéis leigos ali reunidos.
Saudou as delegações oficiais de vários países e, em particular o Presidente da República Italiana e o Príncipe de Gales, pois, com o seu testemunho evangélico, estes Santos fomentaram o crescimento espiritual e social nas respetivas nações. E dirigiu uma saudação especial aos delegados da Comunhão anglicana, com profunda gratidão pela sua presença.
Saudou todos os peregrinos, bem como todos os que seguiram aquela Missa através da rádio e da televisão. E dirigiu uma saudação especial aos fiéis da Polónia que celebravam o Dia do Papa: agradeceu as suas orações e o seu constante afeto.
Os seus pensamentos dirigiram-se uma vez mais para o Médio Oriente, em particular, para a amada e martirizada Síria, de donde voltam a chegar notícias dramáticas sobre o destino das populações do nordeste do país, obrigadas a abandonar os seus lugares por causa das ações militares: entre estas populações há também muitas famílias cristãs. E renovou o seu apelo a todos os atores envolvidos e à comunidade internacional no sentido de se comprometerem com sinceridade honestidade e transparência no caminho do diálogo para buscar soluções eficazes.
Referiu que, juntamente com todos os membros do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, especialmente os equatorianos, seguia com preocupação o que tem vindo a suceder no Equador nas últimas semanas. Encomendou o país à oração comum e à intercessão dos novos Santos, unindo-se à dor pelos mortos, feridos e desaparecidos. Animou-o a buscar a paz social, com especial atenção às populações mais vulneráveis, aos pobres e aos direitos humanos.
E, por fim, exortou a que todos se dirigissem à Virgem Maria, modelo de perfeição evangélica, para que nos ajude a seguir o exemplo dos novos Santos, que são nossos intercessores e luzeiros nesta nossa caminhada de fé, de oração, de testemunho evangélico e de caridade na justiça.
2019.10.14 – Louro de Carvalho

domingo, 13 de outubro de 2019

Em Fátima, paz foi a intenção central da Peregrinação de outubro de 2019


Foi a intenção da paz que levou Dom Andrew Yeom Soo-jung, Cardeal sul-coreano e Arcebispo de Seul, a aceitar o convite para vir a Fátima presidir à Peregrinação Internacional Aniversária da 6.ª Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria, para a qual se inscreveram no Santuário 157 grupos de mais de três dezenas de países, entre eles muitos da Ásia. Disse o purpurado asiático na conferência de imprensa que antecedeu o início da peregrinação na tarde do dia 12, no final de uma intervenção que percorreu a história da evangelização da Coreia do Sul:
Na Coreia, a oração pela paz é diária. Vim a Fátima, sob o manto de Maria, trazer essa intenção pelos que sofrem e são torturados, na península coreana.”.
A paz é também uma das preocupações que traz a esta Peregrinação o prelado de Leiria-Fátima, que lembrou a ameaça da nova frente de guerra iniciada contra os curdos, na Síria (já morreram pelo menos 440 combatentes curdos das Forças Democráticas Sírias). 
Tanto Dom Andrew Yeom Soo-jung como Dom António Marto apontaram a paz como primeira intenção para as celebrações destes dois dias (12 e 13), na Cova da Iria. A respeito da paz e do Santuário, o prelado fatimita afirmou:
A presença do arcebispo de Seul quer ser um sinal da atenção que o Santuário de Fátima dedica à paz, bem como ao crescente número de peregrinos que aqui afluem vindos da Coreia do Sul e de toda a Ásia”.
Porém, o Cardeal Dom António Marto não esqueceu o que se passou a 6 de outubro e alertou para a importância de uma maior consciência democrática. Debruçando-se sobre a atualidade nacional, o purpurado congratulou-se com a “maneira cívica” como decorreram as eleições legislativas do passado fim-de-semana, mostrando-se, no entanto, preocupado com os “níveis tão elevados de abstenção” e a “crescente onda de populismos”, que, em sua opinião, exigem uma “elevação da qualidade da atividade política” e uma maior consciência democrática.
É preciso responder às questões de fundo da sociedade. A classe política deve mostrar que tem classe!” – afirmou deixando votos para que a nova legislatura traga “paz social; estabilidade; uma maior atenção à solidariedade social, para com os mais pobres, frágeis e vulneráveis e para com as instituições de solidariedade que a eles se dedicam”.
No âmbito da Igreja universal, Dom António Marto sublinhou a “especial importância para a Igreja” do Sínodo sobre a Amazónia, que está a decorrer no Vaticano, dizendo:
Podemos dizer que a Amazónia é um lugar concreto onde se centram e manifestam os grandes desafios globais do nosso tempo e onde se retomam as grandes linhas pastorais do Santo Padre”.
Ao nível da Igreja em Portugal, lembrou o encerramento do Ano Missionário, convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa – dentro do mês missionário extraordinário, proclamado pelo Papa – que acontecerá a 20 de Novembro, no Santuário de Fátima, evocando o seu propósito:
A finalidade deste Ano Missionário era dar um abanão à Igreja, para reavivar o ardor e a paixão pela missão de Jesus e reacender o dinamismo missionário de uma Igreja em saída da sua zona de conforto e da sua autorreferencialidade”.
Na sua intervenção, o purpurado português referiu-se ainda à viagem apostólica que o Papa vai fazer ao Japão e à Tailândia, no próximo mês, e às canonizações que hoje, dia 13, tiveram lugar em Roma, nomeando, pela “particular atualidade”, os nomes da Irmã Dulce Lopes Pontes, que se distinguiu pelas suas obras sociais em favor dos mais pobres, e o Cardeal Dom John Henry Newman, percursor e inspirador do Concílio Vaticano II.
Por seu turno, o Reitor do Santuário destacou a ida da Imagem Peregrina ao Panamá como um dos momentos altos da dinâmica pastoral do Santuário em 2018-2019 e deixou um balanço prévio do presente ano pastoral, relevando a continuidade da estabilização do número de peregrinos em Fátima, ao apresentar dados que revelam a participação de cerca de 4,5 milhões de peregrinos nas celebrações do Santuário nos primeiros 9 meses de 2019. E, sobre a dinâmica pastoral na Cova da Iria em 2018-2019, o Padre Carlos Cabecinhas destacou como um dos momentos mais marcantes a ida da Imagem Peregrina de Nossa Senhora ao Panamá, à Jornada Mundial da Juventude, lembrando o programa paralelo que levou a Virgem Peregrina aos lugares mais periféricos daquele país, como foi o caso da visita a uma prisão, a um hospital oncológico e a um bairro degradado. A este propósito, revelou:
Um dos frutos desta visita vai ser anunciado amanhã (hoje, dia 13) pelo senhor Arcebispo do Panamá: a construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima, na cidade do Panamá”.
E vincou que um o núcleo desse santuário será uma réplica da Capelinha das Aparições.
Sobre o presente ano pastoral, o Padre Cabecinhas destacou ainda o incremento que o Santuário levou a cabo nas ações de formação, nomeando algumas das iniciativas que concretizam esta aposta: as diversas propostas formativas, de caráter espiritual e de aprofundamento da mensagem de Fátima, oferecidas pela Escola do Santuário; e a promoção de atividades de reflexão e estudo sobre Fátima, quer nos espaços do Santuário, quer fora dele, na participação de fóruns de reflexão mais alargados.
Por fim, destacou a “especial atenção que o Santuário deu ao acolhimento dos peregrinos mais frágeis” neste ano, nomeadamente através dos retiros de doentes, das férias para pais de filhos com deficiência, da peregrinação dos idosos e da aposta no acolhimento inclusivo através de propostas para a comunidade surda portuguesa. E concluiu:
Procuramos que o Santuário seja, cada vez mais, lugar de acolhimento da fragilidade, na linha daquilo que tem defendido o Papa Francisco”.
***
No momento da saudação à Virgem, na tarde do dia 12, o Cardeal Dom António Marto renovou o pedido de Nossa Senhora aos pastorinhos, desafiando os peregrinos a rezarem o terço todos os dias pela paz nas famílias, nos países e no mundo, em especial na Coreia e na Síria, vincando:
Neste mês de outubro comemoramos Nossa Senhora como a Senhora do Rosário. Foi assim que Ela se apresentou aos Pastorinhos pedindo-lhes que rezassem o terço todos os dias. Também nós, hoje, queremos apelar à oração pela paz nas famílias, nos países e no mundo, mas em especial na Coreia e na Síria.”.
Em sintonia com o Santo Padre, disse que, “nesta peregrinação de outubro, mês missionário extraordinário, queremos ter em intenção esta vontade do Papa para que o sopro do espírito frutifique no coração dos homens” e sublinhou “o afeto e comunhão” com os cristãos católicos da Coreia e de toda Ásia que “aqui vêm em número tão expressivo”. Disse que a presença do cardeal sul-coreano nos alegra muito e permite exprimir o afeto e comunhão com os cristãos católicos da Coreia e de toda a Ásia” e assegurou que o caminho que faz cada se peregrino torna “uma expressão viva da peregrinação interior”, que, por mais dolorosa que seja, se faz “sempre com esperança porque sabemos que, no termo do caminho, alguém nos espera e espera por nós”.  
E rematou com a afirmação de que “a peregrinação é uma viagem com fé”.
Por sua vez, o prelado asiático garantiu:
Eu sou peregrino como vós, também venho em peregrinação ao encontro da Mãe. Vamos rezar e pedir a Nossa Senhora de Fátima pela paz no mundo e pela nossa conversão.”.
Um manto de luz voltou a cobrir o Santuário de Fátima este sábado à noite, durante a recitação do terço (em que a oração de alguns dos mistérios foi assegurada pelo menos por três línguas asiáticas: indonésio, coreano e tagalog) e na Procissão das Velas.
E, na homilia da Missa da vigília – concelebrada por 178 sacerdotes, 6 bispos e dois cardeais e em que a oração dos fiéis teve uma prece em coreano, centrada na questão da Paz – o Cardeal Arcebispo de Seul recordou a história do país, marcada pela “provação” ao longo do século XX, para assinalar que, apesar de todas as perseguições e “tragédias”, a fé do povo coreano não esmoreceu, como nunca é destruída a fé de um povo, se ela for entendida como uma missão. Pediu a paz e a reconciliação para a Península Coreana e rezou “pelo fim dos conflitos e das divisões”, apelando:
Peço as vossas orações pela paz e pela reconciliação na Península Coreana, pelos vossos irmãos e irmãs na fé, geograficamente distantes, mas unidos pela presença de Deus. Orai connosco pelo fim dos conflitos e das divisões na península.”.
E, em dado momento, observou:
A fé, a missão como povo de Deus, continua, não obstante a tragédia da destruição do templo e do exílio da comunidade. O templo foi, durante muitos séculos, central para o culto de Israel, mas não é essencial. Deus permanece connosco.”.
Sublinhando a importância do Santuário como “o verdadeiro centro da comunidade”, disse:
 Cada geração tem celebrado a presença de Deus refletindo a sua própria história de salvação”.
Sobre as sombras da história do seu povo, vincou: 
Foi um período de provação para a nossa nação e a nossa comunidade de fé. A combinação do colonialismo japonês e dos comunismos vizinhos da Rússia e da China marcou a entrada da Coreia numa era turbulenta de dominação estrangeira. Logo após a libertação colonial em 1945, a nação viu-se dividida: Norte versus Sul, comunista versus capitalista. (…) Cinco anos depois, a guerra devastou a península por três longos anos, causando morte, destruição e a divisão de muitas famílias. Infelizmente, a guerra trouxe uma divisão ainda mais profunda e hostilidade mútua entre o Norte e o Sul. Passadas sete décadas, desde 1950, a nação continua dividida e a reconciliação permanece inalcançável.”.
Lembrando que é também administrador apostólico de Pyong-yang, capital da Coreia do Norte, país que nunca foi autorizado a visitar, confidenciou:
Acredito que Nossa Senhora de Fátima, que apareceu há 100 anos, nos instaria hoje a trabalharmos e a orarmos pela paz neste nosso século. (…) Ela representa para nós a grande medianeira, apoiando a nossa jornada de fé até ao Senhor. Além disso, a nossa Santa Mãe não está apenas a orar por nós, mas está também a ensinar-nos: ‘Fazei tudo o que ele vos disser’ (Jo 2,5). As palavras de Santa Maria chegam-nos como um convite para sermos ‘abertos na presença de Deus’, tal como os israelitas que celebraram a reconstrução do templo.”.
***
Hoje, dia 13, na homilia da Missa Internacional Aniversária, concelebrada por 2 cardeais, 11 bispos e 232 presbíteros, Dom Andrew Yeom Soo-jung salientou a importância do louvor a Deus e apresentou a oração, a Eucaristia e a evangelização como expressões de agradecimento a Deus pela “dádiva da salvação”. Disse ele:
No Evangelho, ouvimos a narrativa de São Lucas acerca da cura dos dez leprosos. Estes leprosos gritaram a oração que deveria ecoar no nosso coração: ‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós’. Como reagimos a esta dádiva de uma nova vida? Nós fomos perdoados. A nossa lepra foi purificada. Precisamos de seguir o exemplo de Naamã e do leproso samaritano. Precisamos de dar meia-volta e dar graças a Deus.”.
Bem podia ser este o legado da peregrinação:Dar meia-volta e dar graças a Deus”. Com efeito, é preciso confiar na Misericórdia de Deus, pedir perdão e agradecer o perdão.
Ao evocar o Milagre do Sol, ocorrido na Aparição de 13 de outubro de 1917, como sinal da intervenção de Deus “nas leis da natureza” e “na luta contra o Mal”, o prelado apresentou os ensinamentos da Bíblia e o acontecimento de Fátima como garantia da presença inequívoca de Deus na vida de cada homem, garantindo:
As aparições de Nossa Senhora em Fátima dizem-nos que, apesar das dificuldades, nunca estamos sós. Aprendemos que, se as dificuldades existem, Nosso Senhor e Nossa Senhora estarão presentes para nos ajudarem nas nossas necessidades. Não nos esqueçamos de que na nossa Santa Mãe encontramos a ajuda e o apoio necessários para enfrentarmos os muitos desafios que inevitavelmente enfrentamos enquanto seres humanos.”.
Tomando como exemplo o fiat de Maria: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segunda a vossa palavra” – que foi tema da última Jornada Mundial da Juventude, no Panamá –, o cardeal sul-coreano exortou os peregrinos a responder com “humildade, confiança e coragem” às graças, bênçãos e misericórdia com que Deus reconforta a humanidade. E, perspetivando a Jornada Mundial da Juventude de 2022, em Lisboa, como uma ocasião para “proporcionar aos jovens uma visão de um mundo melhor e encorajá-los a encarnar Cristo no nosso tempo”, o Cardeal Arcebispo de Seul incentivou a assembleia a participar naquele encontro, pedindo, no final da homilia, a oração pela paz e reconciliação das Coreias.
***
Na palavra dirigida aos doentes, durante o momento de Adoração ao Santíssimo Sacramento, o Padre José Nuno Silva apresentou o acontecimento de Fátima como a resposta compassiva de Deus ao sofrimento humano. Começou por interrogar:
Quem não conhece a sensação íntima de sofrimento que faz o coração lançar-se para Deus: ‘tem compaixão de nós, tem compaixão de mim?’.”.
Depois, apresentando Deus como lugar certo para recorrer no sofrimento e estabelecendo um paralelo com o episódio da cura dos leprosos, narrado no Evangelho, garantiu:
Quando Deus aconteceu maternalmente em Fátima, nas aparições da Sua e nossa Mãe, veio responder a esta prece: ‘tem compaixão de nós’. A todos, a cada um, ele quer oferecer a experiência de se sentir salvo no seu sofrimento.”.
E prosseguiu, identificando Fátima como lugar que “ensina a voltarmo-nos para Deus”:
Ainda que não vejamos a cura, somos salvos, como atesta a resposta que Jesus deu ao único leproso que se voltou para ele não apenas para suplicar, mas para agradecer. Voltar-se para Deus no sofrimento – eis o que salva e nos permite sentir a salvação: voltar-se para Deus no sofrimento.”.
Evocou o sofrimento voluntário dos pastorinhos e o seu contributo para a causa de Deus e disse:
Voltar-se para Deus no sofrimento salva, diz Fátima. E não salva apenas o que sofre. Aprendemo-lo com São Francisco e Santa Jacinta Marto. Ofereceram-se a Deus e transformaram cada sofrimento num ato missionário. (…) Sem saírem de Fátima, como Santa Teresinha sem sair do Carmelo e, no entanto, proclamada padroeira das missões, foram missionários universais no sofrimento e pelo sofrimento.”.
Ao lembrar o mês de outubro dedicado às missões, o sacerdote desafiou os doentes a participar na missão da Igreja, apesar da doença:
A doença coloca-vos na fonte e no coração da missão da igreja: no sofrimento, podeis escolher ser páscoa, podeis decidir viver em Páscoa e podeis voluntariamente anunciar a Páscoa, com a autoridade das testemunhas, que só o sofrimento oferecido dá”.
E exortou os doentes que recebiam a bênção do Santíssimo Sacramento a “transformarem o sofrimento em ato de amor missionário para a salvação da humanidade”.
***
Por fim, o Cardeal Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, deixou a última palavra enaltecendo a coragem e a fé dos peregrinos de várias nacionalidades que, apesar do frio e da chuva, encheram o Recinto de Oração. Agradeceu a presença do Cardeal Dom Andrew Yeom Soo-jung e elogiou o testemunho “belo” de fé que o povo coreano tem dado ao longo da sua caminhada em Igreja, destacando o papel que Nossa Senhora de Fátima tem assumido como fonte de conforto neste percurso de fé. E assegurou que Fátima é conforto para o povo Coreano, dizendo:
No meio das provações, o povo cristão da Coreia encontrou apoio, ajuda e conforto na Santa Mãe Celeste e na Mensagem de Fátima”.
E concluiu dirigindo uma saudação final aos peregrinos, em especial aos doentes ali presentes, a quem se uniu espiritualmente em oração.
***
É Fátima no seu melhor, no dinamismo evangelizador que inspira o ser e a missão do Santuário!
2019.10.13 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A “Mãe da Alegria”


Foi com este sugestivo título que Dom Rui Valério, Bispo das Forças Armadas e de Segurança, que presidiu à peregrinação evocativa da 5.ª Aparição da Virgem do Rosário na Cova da Iria, desafiou peregrinos a testemunharem Cristo pela alegria. Na Cova da Iria, neste dia 13, o venerando Ordinário Castrense olhou para Nossa Senhora como “Mãe da Alegria”, que aponta para o Redentor que salva a humanidade da tristeza da escassez do amor.
Para esta peregrinação, inscreveram-se 87 grupos de peregrinos, de 23 países a saber: Portugal, Alemanha, Austrália, Brasil, Cabo Verde, Coreia do Sul, Eslováquia, Espanha, EUA, França, Holanda, Indonésia, Irlanda, Itália, Polónia, Singapura, Burkina Faso, Canadá, China, República Checa, Filipinas, África do Sul e Reino Unido.
***
A peregrinação iniciou-se na tarde do dia 12 com a habitual Saudação a Nossa Senhora na Capelinha das Aparições, com as presenças do presidente da Peregrinação e do Bispo de Leiria-Fátima, o Cardeal Dom António Marto.
Nesse momento, Dom Rui Valério quis interpelar os peregrinos desafiando-os a fazer de Fátima “um lugar de vida” e lembrou que a peregrinação a Fátima é sinónimo da “alegria de encontrar alguém que nos ama, nos recebe, nos acolhe e nos dirige um sorriso”. Por isso, convidou os peregrinos participantes neste momento de oração a encontrarem “essa mãe” e na “intimidade do coração” a escutarem a sua mensagem. E sublinhou:
Ela mostra-nos Cristo, acolhe as nossas preces e ensina-nos a fazer o que Ele quer. Acolhamos Maria no nosso coração para que ele seja morada do Senhor e do Espírito Santo.”.
Por seu turno, Dom António Marto sublinhou a importância do silêncio em Fátima como “a expressão mais bela e apropriada” da homenagem que os peregrinos fazem a Nossa Senhora quando chegam à Capelinha das Aparições e, diante da imagem, rezam em silêncio. E vincou:
É a reação mais profunda de quem chega. Todos ficamos em silêncio junto Dela, na contemplação do seu rosto, sentindo e experimentando a sua proximidade.”.
Para o prelado leiriense-fatimita, é neste silêncio que “sintonizamos o nosso coração com o coração imaculado de Maria, que nos conduz até Deus”. Com efeito, “o silêncio favorece o clima de oração que aqui se torna diálogo íntimo com a mãe; no silêncio interior queremos fazer chegar até Ela a nossa voz, em ação de graças ou com súplicas” – disse o Cardeal, frisando que, nesse silêncio, Maria faz chegar a cada um “o bom conselho para que vivamos na luz, verdade e amor de Deus, amor fraterno e solidário sem distinções ou discriminações”.
E, pedindo aos peregrinos que rezassem pelo Papa, pela Igreja e pela Paz no Mundo, concluiu:
Seja-nos dada a graça de escutarmos esta voz, a voz da Mãe do Senhor, pois todos nós precisamos dessa consolação. É uma palavra de encorajamento para a vida em Cristo, para a nossa participação na vida da Igreja e uma voz de advertência maternal que nos convida a fazer um exame sério de consciência e a pôr em ordem a nossa vida cristã. Escutemo-la e confiemo-nos a Ela.”.
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Durante a homilia da Missa da Vigília da Peregrinação Internacional Aniversária de setembro, no dia 12, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança afirmou que a sociedade moderna vive “encerrada em si mesma” sem soluções de paz porque o homem dispensou Deus. E o prelado sustentou que a autossuficiência do homem é um obstáculo à Paz.
Todas as vezes que o ser humano procura encontrar em si mesmo a solução para os seus problemas, contando só consigo e confiando apenas nas suas capacidades, que faz ele senão uma forte violência a si próprio?” – interpelou Dom Rui Valério, que explicitou detalhadamente o seu pensamento sobre a paz:
De facto, em todo o género de conflito seja bélico ou familiar, existencial, profissional ou pessoal deparamo-nos sempre com o mesmo cenário da pessoa centrada sobre si, fechada dentro do seu mundo, entregue somente aos seus recursos e projetando tudo a partir de si e do ponto de vista dos seus interesses pessoais. Pelo contrário, a paz é a bem-aventurança da aventura ao outro, da desfocalização e descentração e esta atitude germina e floresce na comunhão com o Senhor, vivida na oração autêntica.”.
Perante os milhares de peregrinos que participaram na Eucaristia que se seguiu à Procissão das Velas, o presidente da celebração apontou que não é de estranhar “se hoje nos deparamos, mais uma vez, com uma sociedade demasiado encerrada em si mesma, sem janelas para a eternidade” e porfiou que “só onde há oração há abertura a Deus e aos outros e só onde esta abertura existir será possível construir ou reparar todos os dias os delicados alicerces da paz”. E esclareceu:
A paz tem na oração não só a sua génese e o seu mais profícuo caminho, como também a sua principal medida e a sua mais justa dimensão. Rezar, viver o encanto do encontro com o Senhor não só é a principal ferramenta para destronar a guerra, mas é o passo decisivo para se construir a paz.”.
O prelado, invocando o exemplo de Maria na proximidade a Deus e na comunhão com Ele, frisou que foi esta atitude que fez Dela a construtora de uma “nova Humanidade” e ensinou:
A abertura de Nossa Senhora a Deus e à sua santa vontade abriu novos horizontes à humanidade, outrora bloqueados pela maldade e pelo pecado, quando Adão e Eva avistaram o fruto e, numa mera criatura, num simples objeto, quiseram ver o belo, o bom e o verdadeiro, atributos que só a Deus pertencem”.
E, concluindo que o mundo “só será salvo em Cristo”, o Prelado Castrense observou:
No Éden, o olhar da humanidade, pelos olhos de Eva, ficou fechado na idolatria. Mas, agora, pelos olhos de Maria, a nova Eva, a humanidade redescobre, incessantemente, a Beleza, a Bondade e a Verdade de Deus.”.
Por fim, Dom Rui Valério explicitou o itinerário do caminho que cada peregrino deve fazer para alcançar a verdadeira comunhão com Deus: acolhimento do outro tal como é, capacidade para aceitar o mistério deixando-se surpreender, disponibilidade para o serviço e abertura à missão. E, considerando que “sair ao encontro dos outros é a outra face do encontro com o Senhor”, o insigne Bispo exortou:
Sejamos, com Maria, coerentes com a nossa fé, capazes de nos admirarmos com as surpresas de Deus, de permanecermos disponíveis para fazer a sua vontade através do acolhimento dos outros e da atenção solícita para respondermos aos seus apelos”.
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Na manhã deste dia 13, na homilia da Missa Internacional Aniversária de Setembro (concelebrada, além do cardeal Dom António Marto, por 3 bispos e 123 sacerdotes), Dom Rui Valério apelou aos peregrinos a que deem testemunho vivo da alegria salvífica de Deus, através de uma concretização missionária do Evangelho na vida quotidiana.
A partir do relato da 5.ª Aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, na Cova da Iria, em que a Mãe do Céu “vem falar da alegria de Deus”, o presidente da celebração começou por dar conta da esperança da presença incessante de “um Deus vivo, que conhece e experimenta o doce sabor da alegria que irrompe sempre que o ser humano se deixa resgatar e é salvo”. E lembrou:
A Boa Nova que Nossa Senhora trouxe e que proclamou precisamente neste lugar é que o mundo não está perdido. (…) Maria Santíssima é a Mensageira dessa alegria e da salvação do mundo. Foi-o aqui em Fátima, como o tinha sido quando visitou a sua prima Isabel para lhe comunicar a boa nova da iminente vinda do Redentor.”.
Depois, olhou para Nossa Senhora como “Mãe da alegria” a partir do relato das Bodas de Canaã, proclamado no Evangelho.
Numa interpretação teológica do episódio de Caná, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança apontou o vinho que Jesus ali oferece, a partir de água, como símbolo da “alegria do amor” de Deus, e as talhas de pedra vazias como “o coração e a vida das pessoas privadas de sentido e de razões de viver”. E, tendo em conta que “o vazio indica a tristeza e nada esvazia tanto o coração humano como a escassez do amor”, alertou para a “embriaguez do consumo” com que o ser humano tenta colmatar este vazio e apontando para o amor de Deus como resposta a este “consumismo afetivo e espiritual”. A seguir, garantindo que “a pessoa não se salva por intermédio das coisas efémeras” e, evocando a fundação da “nova Aliança fundada no amor” que Jesus institui com o seu povo nas Bodas de Caná, sublinhou:
Só o amor nos salva e nos preenche, construindo e reconstruindo a vida redimida a partir das ruínas em que tantas vezes nos encontramos. (…) E só Cristo, nosso Redentor, pode realizar essa obra de salvação.”.
O presidente da Peregrinação Internacional Aniversária reforçou, depois, o “valor salvífico” dos sacrifícios dos Pastorinhos, fundado num “excesso de amor abundante”, para enumerar três ações para alcançar a alegria salvífica que Deus oferece à humanidade: acolher Maria no coração, sendo Sua morada; escutar a Palavra do Senhor, pondo-A em prática; e, a partir da comunhão irmãos, assumir a missão evangélica de testemunhar, na vida quotidiana, a alegria da comunhão com Cristo. E, concluindo, desafiou:
Seja esta a nossa proposta para o mundo: mostrar a nossa pessoal experiência de vida com Cristo, testemunhá-la na vida quotidiana para que todos os que observarem a nossa alegria e a forma como vivemos de amor se sintam atraídos e fascinados com a vida cristã que na Igreja transparece”.
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É também de realçar a palavra dirigida aos doentes, durante o momento de Adoração ao Santíssimo Sacramento, por Pedro Santa Marta, da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, que perspetivou a vida como um Rosário, convidando os peregrinos a ser exemplo de “alegria e esperança na aceitação do sofrimento” e desenvolvendo:
Nem sempre Deus nos cura ou nos alivia. Não porque não goste de nós – porque Deus nunca nos abandona – mas porque, através desse sofrimento, nos oferece uma oportunidade para nos purificarmos ou, então, porque se quer servir de nós para ajudar os outros na sua conversão. E, se o soubermos e quisermos aceitar, com alegria e muita esperança, estaremos a ser um instrumento de Deus na conversão dos pecadores, tal como Nossa Senhora aqui o pediu em maio de 1917.”.
E formulou o seguinte voto:
Que a nossa vida seja como um rosário: as contas serão as nossas boas ações, ligadas por uma corrente feita das nossas orações e do nosso amor a Deus e a quem nos rodeia” – afirmou o responsável pelos Servitas de Fátima.
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Como é habitual, a última palavra da celebração coube ao Bispo de Leiria-Fátima, que reforçou a tonalidade da alegria (a alegria de Deus por nós e a nossa alegria em Deus) enunciada na homilia por Dom Rui Valério, a quem agradeceu a presença e a mensagem “bela e calorosa”. E afirmou:
Deus alegra-se connosco, e a nossa alegria em Deus, no amor, na ternura, na misericórdia, no perdão e na vida nova que nos oferece. A alegria da qual Nossa Senhora fez eco aqui, em Fátima, aos Pastorinhos... Uma alegria que é um dom de Deus e que levamos no nosso coração para dar testemunho dela na vida quotidiana.”.
No dia em que em que se iniciam as aulas para muitas crianças, o Prelado de Leiria-Fátima enviou uma bênção aos “pequenitos e pequenitas” para este início de ano letivo, deixou uma palavra de conforto aos doentes e saudou os peregrinos, que vieram à Cova da Iria, provenientes de várias geografias do mundo.
Por fim, Dom António Marto lembrou os bombeiros portugueses e o seu esforço no combate aos incêndios, convidando a assembleia a rezar uma Ave-Maria por estes soldados da paz.
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E aí está Fátima na sua força da bem-aventurança evangelizadora e como espaço da vida e da alegria em Deus e por Deus.
2019.09.13 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Papa em Moçambique, recebido com satisfação, compreende e exorta


No quadro da sua viagem apostólica de 4 a 10 de setembro a Moçambique, Madagáscar e Maurícias, Francisco chegou à tarde do dia 4 a Maputo, em cujo aeroporto decorreu a cerimónia de boas-vindas, permanecendo na cidade até ao final da manhã do dia 6.
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Após a visita de cortesia ao Presidente da República no Palácio da Ponta Vermelha, o Pontífice encontrou-se com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático.
No seu discurso, sentiu-se feliz por iniciar a viagem apostólica “por este país, tão abençoado pela sua beleza natural como pela sua grande riqueza cultural que traz à provada alegria de viver do vosso povo a esperança num futuro melhor” e que “abre as suas portas para alimentar um renovado futuro de paz e reconciliação”.
Dirigiu “palavras de proximidade e solidariedade” aos que sentiram as pesadas consequências dos ciclones Idai e Kenneth, partilhando “a angústia e sofrimento” de quem foi atingido e “o compromisso da comunidade católica para fazer frente a tão dura situação” e pedindo “a solicitude de todos os atores civis e sociais que, pondo a pessoa no centro, sejam capazes de promover a necessária reconstrução”.
Saudou o esforço de paz e reconciliação desenvolvido sob a égide da comunidade internacional como “o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e desafios” que Moçambique tem como nação, destacando o acordo de cessação definitiva das hostilidades militares entre irmãos moçambicanos assinado recentemente na Serra da Gorongosa – um marco plantado na senda da paz que parte do Acordo Geral de 1992 em Roma. São esforços que sustentam a esperança e dão confiança para que o modo de escrever a história não seja “a luta fratricida”, mas “a capacidade de se reconhecerem como irmãos, filhos duma mesma terra, administradores dum destino comum”. É a coragem da paz, “uma coragem de alta qualidade: não a da força bruta e da violência, mas aquela que se concretiza na busca incansável do bem comum”.
Assegurando que os moçambicanos conheceram “o sofrimento, o luto e a aflição”, mas sem deixarem que “o critério regulador das relações humanas fosse a vingança ou a repressão” ou que “o ódio e a violência tivessem a última palavra”, citou São João Paulo II para observar:
Com a guerra ‘muitos homens, mulheres e crianças sofrem por não terem casa onde habitar, alimentação suficiente, escolas onde se instruir, hospitais para tratar a saúde, igrejas onde se reunir para rezar e campos onde empregar as forças de trabalho. Muitos milhares de pessoas são forçadas a deslocar-se à procura de segurança e de meios para sobreviver; outras refugiam-se nos países vizinhos.’ (...) Não à violência e sim à paz!” (Discurso de Chegada, 16 de setembro de 1988, n. 3).
Reconhecendo que o povo, ao longo dos anos, sentira que a busca da paz – missão que envolve a todos – “exige um trabalho árduo, constante e sem tréguas”, pois a paz é “como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência”, disse que é preciso continuar a afirmar, com determinação mas sem fanatismo, com coragem mas sem exaltação, com tenacidade mas de maneira inteligente: não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.
Mais que a ausência de guerra, a paz é “o empenho incansável”, especialmente dos que ocupam um cargo de maior responsabilidade, em “reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os principais protagonistas do destino da própria nação”, pois, “sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão”. Ora, se a sociedade “abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”.
Depois, Francisco salientou alguns dos aspetos de desenvolvimento que a paz possibilitou, como a educação e a saúde, e encorajou a prossecução do trabalho de “consolidar as estruturas e instituições necessárias” para que “ninguém se sinta abandonado”, especialmente os jovens, que formam grande parte da população e que “são o presente que interpela, busca e precisa de encontrar canais dignos que lhes permitam desenvolver todos os seus talentos; e são um potencial para semear e desenvolver a tão desejada amizade social”.
E frisou que, no quadro da cultura de paz, “o caminho há de ser aquele que favoreça a cultura do encontro e dela fique todo impregnado: reconhecer o outro, estreitar laços, lançar pontes”; e, por outro lado, torna-se “imprescindível manter viva a memória como caminho que abre futuro; como caminhada, que leve a procurar metas comuns, valores compartilhados, ideias que favoreçam superar interesses setoriais, corporativos ou partidários para que as riquezas da nação sejam colocadas ao serviço de todos, especialmente dos mais pobres”. E exortou:
Tendes uma corajosa e histórica missão a cumprir: não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra... Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.”.
E, após ter afirmado as condições-base da subsistência condigna – terra, teto e trabalho –, o Santo Padre inscreveu na rota da paz o olhar pela Casa Comum e disse que, nesta ótica, “Moçambique é uma nação abençoada”, sendo os moçambicanos “especialmente convidados a cuidar desta bênção”. A seguir, explanou:
A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, não é cultivada sequer por pessoas que habitam estas terras, nem é motivada pelo bem comum do vosso povo. Uma cultura de paz implica um desenvolvimento produtivo, sustentável e inclusivo, onde cada moçambicano possa sentir que este país é seu, e no qual possa estabelecer relações de fraternidade e equidade com o seu vizinho e com tudo o que o rodeia.”.
Por fim, disse que todos são “os construtores da obra mais bela a ser realizada: um futuro de paz e reconciliação como garantias do direito ao futuro dos vossos filhos” e expressou o desejo de, em comunhão com os irmãos bispos e “a Igreja Católica que peregrina nesta terra”, contribuir para que “a paz, a reconciliação e a esperança reinem definitivamente” no povo moçambicano.
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Numa festa inter-religiosa e culturalmente rica da juventude, Francisco pronunciou o segundo discurso do dia em Maputo, neste dia 5. Os jovens foram a expressão da paz e da reconciliação do país, através de cantos, apresentações artísticas e tradições religiosas, sempre encorajados pelo Pontífice que incentivou a não se resignarem diante das provações e terem cautela com a ansiedade que pode criar barreiras para realizar os sonhos.
O Papa encontrou os jovens no Pavilhão do Clube de Desportos do Maxaquene, conhecido como Maxaca – uma sociedade com tradição no futebol, tanto que já ganhou cinco títulos nacionais. Hoje o espaço acolheu mais de 4 mil jovens cristãos, muçulmanos e hinduístas para um grande encontro inter-religioso.
Em cerca de uma hora com a juventude de Moçambique, o Papa conseguiu conhecer um pouco da realidade local das diferentes confissões religiosas que se apresentaram, através da arte do canto e de coreografias especiais, demonstrando diferentes temas e motivos de preocupação dos jovens do país. E foi interpretado um hino comum às denominações religiosas antes do discurso do Pontífice, em que destacou no quadro da consciência da importância dos jovens:
O que há de mais importante para um pastor do que encontrar-se com os seus jovens? Vós sois importantes! Precisais de saber disso, precisais de acreditar nisso: vós sois importantes! Mas com humildade porque não sois apenas o futuro de Moçambique ou da Igreja e da humanidade; vós sois o presente de Moçambique! Com tudo o que sois e fazeis, já estais a contribuir para ele com o melhor que hoje podeis dar.”.
O Papa começou por enaltecer a expressão tão autêntica da alegria que carateriza o povo de Moçambique, vincando:
É uma alegria que reconcilia e se torna o melhor antídoto capaz de desmentir todos aqueles que querem dividir, fragmentar ou contrapor. Como faz falta, em algumas regiões do mundo, a vossa alegria de viver!.
Também foi elogiada pelo Pontífice a presença das diferentes confissões religiosas no local, demonstrando a união familiar através do “desafio da paz”, da esperança e da reconciliação. Com essa experiência, disse ele, é possível perceber que “todos somos necessários: com as nossas diferenças, mas necessários”. E apontou:
Vós, jovens, caminhais com dois pés como os adultos, mas, ao contrário dos adultos que os mantêm paralelos, vós colocais um atrás do outro, pronto a arrancar, a partir. Vós tendes tanta força, sois capazes de olhar com tanta esperança! Sois uma promessa de vida, que traz em si um certo grau de tenacidade (cf Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 139), que não deveis perder nem deixar que vos roubem.”.
Procurando responder a duas perguntas dos jovens sobre como realizar os sonhos da juventude e como contribuir para solucionar os problemas que afligem o país, a indicação do Pontífice veio do caminho de riqueza cultural apresentado pelos jovens, através da arte, expressão “de parte dos sonhos e realidades”, sempre regada de esperança e de ilusões. E Francisco voltou a insistir com os jovens para não deixarem que “roubem a sua alegria”, para não deixarem de cantar e se expressarem conforme as tradições de casa.
Depois alertou para a cautela com “duas atitudes que matam os sonhos e a esperança: a resignação e a ansiedade”.
São grandes inimigas da vida, porque normalmente nos impelem por um caminho fácil, mas de derrota; e a porta que pedem para passar é muito cara… (…) Paga-se com a própria felicidade e até com a própria vida. Resignação e ansiedade: duas atitudes que roubam a esperança. Quantas promessas de felicidade vazias que acabam por mutilar vidas! Certamente conheceis amigos, conhecidos – ou pode mesmo ter acontecido convosco – que, em momentos difíceis, dolorosos, quando parece que tudo cai em cima de vós, ficais prostrados na resignação. (…) Quando tudo parece estar parado e estagnante, quando os problemas pessoais nos preocupam, as dificuldades sociais não encontram as devidas respostas, não é bom dar-se por vencido’. ”.
Inspirado no desporto, deu o exemplo do futebolista Eusébio da Silva, o “pantera negra”, que começou a carreira no clube de Maputo, acentuando que o atleta não se resignou ante as graves dificuldades económicas da família e a morte prematura do pai, sendo que o futebol o ajudou a perseverar. E, fazendo a analogia com o jogo em equipa, falou da importância do empenho pelo país com a tática da união e independentemente do que diferencia as pessoas, frisando:
Como é importante não esquecer que ‘a inimizade social destrói. E uma família se destrói pela inimizade. Um país se destrói pela inimizade. O mundo se destrói pela inimizade. E a inimizade maior é a guerra porque são incapazes de se sentar e falar, de se sentar e falar. Sede capazes de criar a amizade social!”.
E o Papa lembrou o provérbio africano conhecido e citado mundialmente para “sonhar juntos”, que diz: “Se quiseres chegar depressa, caminha sozinho; se quiseres chegar longe, vai acompanhado”. Mas é preciso afastar a ansiedade que é inimiga dos sonhos da juventude por um país melhor, pois – diz o Pontífice – “eles são conquistados com esperança, paciência e determinação, renunciando às pressas”.
A seguir, veio o exemplo de Maria Mutola, que aprendeu a perseverar, apesar de ter perdido a medalha de ouro nos três primeiros Jogos Olímpicos que disputou. O título dourado veio na quarta tentativa, quando a atleta dos 800 m venceu nas Olimpíadas de Sidney. “A ansiedade não a deixou absorta em si mesma, ao conseguir nove títulos mundiais”, disse Francisco.
No âmbito da importância dos idosos e da Casa Comum, o Papa exortou a não esquecerem o apoio dos idosos, que podem ajudar a realizar sonhos sem que “o primeiro vento da dificuldade” venha a impedir. Com efeito, escutar as pessoas mais experientes, valorizando as tradições e fazendo a própria síntese, como aconteceu com a música (o ritmo tradicional de Moçambique: da marrabenta nasceu o pandza, com toque moderno). Por outro lado, o Papa argentino lembrou o comprometimento com o cuidado da Casa Comum num país com tamanha beleza natural, mas que também já sofreu com o embate de dois ciclones, pois o desafio de proteger o meio ambiente é uma forma de permanecer unidos para ser “artesãos da mudança tão necessária”.
Por fim, o Papa Francisco encorajou os jovens a encontrarem novos caminhos de paz, liberdade, entusiasmo e criatividade, e “com o gosto da solidariedade”, para responderem às provações e problemas vividos no país, dado que é grande “o poder da mão estendida e da amizade” para que a solidariedade cresça e se torne na melhor arma para transformar a história. E Francisco concluiu apelando aos jovens que não esqueçam quanto Jesus os ama:
[É o amor do Senhor que se entende mais de levantamentos que de quedas, mais de reconciliação que de proibições, mais de dar nova oportunidade que de condenar, mais de futuro que de passado (Ibid., 116). Eu sei que vós acreditais nesse amor que torna possível a reconciliação.]”.
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No encontro em Maputo, na catedral da Imaculada Conceição, com bispos, sacerdotes, religiosos, seminaristas, consagrados, catequistas e animadores, o Papa exortou:
Reavivemos o nosso chamamento vocacional e que o nosso sim comprometido proclame as grandezas do Senhor e alegre o espírito do nosso povo em Deus nosso Salvador. E encha de esperança, paz e reconciliação o vosso país, nosso querido Moçambique.”.
Sugeriu que voltar a Nazaré pode ser o caminho para enfrentar a crise de identidade, para nos renovarmos como pastores-discípulos-missionários. E disse:
Não podemos correr atrás daquilo que redunda em benefícios pessoais; os nossos cansaços devem estar mais relacionados com ‘a nossa capacidade de compaixão: são compromissos nos quais o nosso coração estremece e se comove’.
“Para nós, sacerdotes – acrescentou o Santo Padre –, as histórias do nosso povo não são um noticiário: conhecemos a nossa gente, podemos adivinhar o que se passa no seu coração”. “E, assim, a nossa vida sacerdotal se vai doando no serviço, na proximidade ao povo fiel de Deus…, etc., o que sempre, sempre cansa.”.
Falando aos jovens que se interrogam ou que se sentem chamados à vida consagrada, disse:
Tu que ainda te interrogas ou tu que já estás a caminho duma consagração definitiva dar-te-ás conta de que ‘a ansiedade e a velocidade de tantos estímulos que nos bombardeiam fazem com que não haja lugar para aquele silêncio interior onde se percebe o olhar de Jesus e se ouve o seu chamamento’.”.
Depois, aconselhou:
Procura, antes, aqueles espaços de calma e silêncio que te permitam refletir, rezar, ver melhor o mundo ao teu redor e então sim, juntamente com Jesus, poderás reconhecer qual é a tua vocação nesta terra.”.
E concluiu vincando que a Igreja em Moçambique é convidada a ser a Igreja da Visitação: “não pode ser parte do problema das competências, menosprezos e divisões de uns contra os outros, mas porta de solução, espaço onde sejam possíveis o respeito, o intercâmbio e o diálogo”.
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Seguiu-se a visita privada à “Casa Mateus 25” e espera-se pelo que, após a visita ao hospital de Zimpeto, vai dizer na Missa do dia 6, no Estádio de Zimpeto.
O Papa não para de ouvir, compreender e levantar a sua voz – ora ternurenta ora interpelante – de profeta, apóstolo e missionário.
2019.09.05 – Louro de Carvalho

sábado, 20 de julho de 2019

A 50 anos da alunagem


A alunagem, após 4 dias de viagem de Amstrong, Aldrin e Collins a bordo do Apolo 11, foi um dos momentos divisores da História. A missão espacial estadunidense iniciou-se alguns anos antes, em plena Guerra Fria, na corrida frenética entre EUA e a URSS pela conquista do espaço.
Agora, o momento de frenesim com que mais de meio bilião de expectadores em todo o mundo acompanharam pela TV a admirável façanha humana representava uma conquista da ciência e da técnica, uma consagração do génio humano e da sua capacidade de tornar realidade a ficção científica, um ponto de não retorno, quase como uma promessa de que, após aquele momento excecional, a humanidade jamais seria a mesma.
A 20 de julho de 1969, três homens fizeram História. O dia e a Apollo 11 ficaram na memória das pessoas e dos povos. Há memória da 1.ª bandeira dos EUA na Lua, das pegadas e da frase de Neil Amstrong: “um pequeno passo para o Homem, um salto gigante para a Humanidade”.
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Entretanto, Rui Casanova, no Observador, dá conta de alguns aspetos curiosos, de que o público não sabe. Aqui ficam alguns de forma sintética, no seguimento do predito colunista:
As fatiotas que permitiram aos astronautas sobreviver às temperaturas extremamente baixas e à falta de ar na Lua foram desenhadas pela Playtex, uma marca de sutiãs, contratada pela NASA, que a pôs trabalhar sob a supervisão da empresa aeroespacial Hamilton Standard. Na verdade, foi aquela empresa que desenhou o primeiro fato, que foi rejeitado. Porém, quando, mais tarde, os funcionários da Playtex entraram na Hamilton Standard, recuperaram o design da marca de lingerie, voltaram a submetê-lo e o fato ganhou o contrato.
Os fatos, que importaram em 100 mil dólares, eram constituídos por várias camadas de fibras de plástico, borracha, várias peças de metal e tecido (cosido à mão).
No atinente a salários, apesar de Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Mike Collins fazerem, na altura, o trio mais famoso do planeta (eram os únicos que tinham saído para outro planta e voltado), o salário não condizia com a proeza e a aura de que vinham revestidos aquando do regresso: ganhavam, como os demais astronautas do programa Apollo, entre 17 e 20 mil dólares por ano – menos que, por exemplo, os jornalistas que estavam a cobrir a alunagem.
Nem tudo foi acautelado pela NASA nem pela administração federal. Os três astronautas conheciam os riscos da viagem e tinham consciência de que era elevada a possibilidade de não voltarem à Terra. Não tendo seguro de vida, tomaram medidas para o caso de não regressarem. Os riscos seriam partilhados entre as famílias de Aldrin, Armstrong e Collins. E os três norte-americanos decidiram capitalizar a fama. Assim, antes do embarque, assinaram centenas de envelopes comemorativos da Apollo 11, com um design especial e a data prevista da alunagem. O objetivo, se a História tivesse sido diferente, era as mulheres venderem os envelopes e, com o dinheiro, garantirem alguma estabilidade e pagarem a educação dos filhos.
Richard Nixon tinha um discurso preparado para o caso de os astronautas terem morrido. Em caso de desastre na Lua” era o título do texto de condolências e louvor, solicitado pelo Presidente, a 18 de julho de 1969, ao seu speechwritter, William Safire e que dizia:
Ordenou o destino que os homens que foram à Lua para a explorar em paz, vão ficar na Lua a descansar em paz. Estes corajosos homens, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, sabem que não há esperança na sua recuperação. Mas vão saber que há esperança na humanidade devido ao seu sacrifício..
Nixon escreveu que os astronautas seriam homenageados “pelas suas mulheres, nação, mundo e Terra Mãe”. Havia indicações explícitas para chamar um padre e contactar as viúvas antes da leitura do discurso, pois se as coisas corressem mal, não havia hipótese de recuperação dos astronautas, que morreriam sozinhos na Lua, de fome, falta de ar ou suicídio. As esposas seriam informadas da situação e seriam de imediato cortadas todas as comunicações. Mais tarde, seria feito um funeral simbólico no mar. A mensagem, nunca lida por Nixon, está nos Arquivos Nacionais dos EUA para ilustrar este lado não realizado da História.
A missão dos três astronautas, que não eram propriamente amigos, partiu do Cabo Canaveral, na Florida, às 9,32 horas de 16 de julho de 1969, e implicou que passassem 8 dias dentro duma cápsula à deriva no Espaço e protagonizassem um dos maiores feitos do Homem. Não obstante, era fria e distante a relação entre eles. Mike Collins descreveu a tripulação como “amigos desconhecidos”. Naturalmente cada um queria ser o primeiro a pôr os pés no solo lunar, o que não era pacífico. No plano inicial, a NASA estabeleceu que seria Aldrin a pisar pela 1.ª vez na História a Lua, por ser o piloto. Mas, 4 meses antes da descolagem, a NASA mudou o programa e escolheu Armstrong para protagonizar o feito, nunca tendo explicado a razão da mudança.
E a citada frase de Armstrong One small step for man, a giant leap for mankind” não terá sido dita assim. Segundo alguns peritos, há uma sílaba, aliás uma palavra, em falta. Na verdade, Armstrong terá dito: One small step for a man”, ou seja, “um pequeno passo para um homem”.
Há quem diga que o astronauta se inspirou no livro de 1937 “The Hobbit”, de J.R.R. Tolkien, em que, o autor, ao descrever o momento em que o protagonista, Bilbo Baggins, se torna invisível e salta por cima do vilão, diz: “Not a great leap for a man, but a leap in the dark”.  
Como, em 1969, a cobertura de eventos em direto não era comum nem garantida – mas realizou-se a cobertura da alunagem – para animar aquelas horas intermináveis de transmissão, foi escolhida a banda inglesa dos Pink Floyd, formada apenas 4 anos antes, que fez um jam sessionem direto para a BBC a acompanhar a chegada à Lua. O resultado foi a canção “Moonhead”, que não foi lançada oficialmente. Sobre o evento, disse David Gilmour, o guitarrista dos Pink Floyd:
Estávamos num estúdio de televisão da BBC a improvisar temas durante a alunagem. Era uma transmissão ao vivo e estava um painel de cientistas de um lado do estúdio e nós do outro. Eu tinha 23 anos. Foi fantástico pensar que estávamos a fazer uma música, enquanto os astronautas estavam a pisar a Lua. Não me parece possível que isso acontecesse na BBC hoje em dia.” .
A bandeira utilizada pelos EUA para reclamar a Lua custou 5,5 dólares. A esta quantia é de somar a referente aos tubos de metal usados para erguer a bandeira de nylon, que aparenta estar ao vento (que não existe na Lua). Os engenheiros da NASA encomendaram uma bandeira por um catálogo do Governo, três meses antes do início da missão, juntamente com os preditos tubos. Mas há quem diga que foi efetivamente comprada por uma secretária da NASA num armazém da Sears, em Houston, como há quem diga que fora costurada pela portuguesa Maria Isilda, numa fábrica americana. Porém, não há só uma, mas 6 bandeiras norte-americanas na Lua, que terão perdido a cor, graças aos raios UV, sendo provável que sejam hoje apenas panos brancos. No entanto, estão de pé, com exceção da bandeira da Apollo 11 – a que pode ter sido comprada numa loja – que já terá caído, segundo o que pôde ser visto por imagens recentes dum satélite.
Esteve prestes a acontecer que a primeira bandeira a fixar na Lua fosse a das Nações Unidas. Os dirigentes da NASA discutiram a questão e chegaram a interrogar-se se a bandeira dos EUA seria a mais adequada por temerem que tal símbolo representasse a reclamação da posse da Lua para os Estados Unidos, o que acabou por acontecer. Mas o feito foi de americanos.
Assim que chegaram à Terra após a amaragem, Buzz, Neil e Michael foram obrigados a completar um período de isolamento. Afinal, acabavam de completar uma viagem ao Espaço e ninguém sabia o que ia acontecer. O objetivo foi proteger a Terra de possíveis “germes lunares”. Os três ficaram instalados numa “unidade de quarentena móvel”. Primeiro, estiveram a bordo do navio USS Hornet e, depois, passaram para a base Pearl Harbor, no Hawai. Nixon chegou a visitar os “isolados” e a foto do Presidente dos EUA a observar os três colados à janela tornou-se icónica. Collins diria mais tarde que esta medida foi “uma farsa”, já que, se estivessem contagiados, os micróbios ter-se-iam fixado na Terra assim que abriram a cápsula à chegada.
JoAnn Morgan foi uma das primeiras engenheiras de sempre a trabalhar na NASA. E fez história tal como os três homens referidos. Tinha 28 anos em 1969 e era a única mulher na sala de comandos da missão. Tinha a seu cargo 21 canais de comunicação, bem como a função de garantir a segurança e bom funcionamento de todos os sistemas de monitorização do Saturn 5, o foguete que levou a Apollo para o Espaço. Disse recentemente à BBC a este respeito:
Foi uma experiência fantástica. Os homens conheciam-me e confiavam em mim. E o facto de ter estado presente no lançamento fez-me sentir bastante integrada e isso fez, literalmente, a minha carreira na NASA..
A engenheira, que tem o sonho de um dia ir ao Espaço e que, se por lá ficar, não há problema, revelou que foi vítima de alguns episódios de sexismo, desde comentários nos elevadores a chamadas obscenas, mas afirma que sempre se sentiu bem-vinda na agência e parte da equipa.
Os doze astronautas que já foram à Lua estão de acordo: há ali um odor estranho. Buzz Aldrin foi o primeiro a testemunhá-lo. Mas, devido aos fatos e aos capacetes, só foi detetado quando regressou à nave e removeu a roupa. É que o cheiro é tão forte que se impregna nos tecidos, como material pegajoso. É cheiro a cinzas e a pólvora. E Aldrin explicou:
Cheira a carvão queimado, a cinzas numa chaminé… principalmente quando se lhes deita água em cima”.
E Charlie Duke, piloto da Apollo XVI, disse:
A Lua tem um odor realmente forte. O cheiro é igual a pólvora.”.
As amostras do solo trazidas para a Terra perderam o cheiro e não puderam ser testadas. O engenheiro da Estação Espacial Internacional, Donald Petit, explica o facto com a exposição à humidade e com o processo de oxidação que extrai odores do terreno lunar.
Uma boa alimentação era essencial em tantas horas de viagem. E a comida que os astronautas levaram na nave foi variada, mas muito pouco… espacial. A ementa incluiu bacon, bifes, bolachas, pêssegos, sumo de ananás e café. Mas antes de tudo isso, houve uma “refeição” mais especial. Aldrin é extremamente religioso e quis celebrar a ocasião de forma simbólica e de acordo com a sua crença. Para tal, comungou em plena Lua e tomou uma hóstia como representação do corpo de Cristo. Esta é vista como a primeira refeição da História na Lua.
A nível dos vestígios da Terra deixados na Lua, é de referir que não foi apenas a bandeira americana nem as pegadas que Armstrong e Aldrin deixaram na Lua. Ficaram lá, na verdade, mais de 100 objetos. Alguns foram deixados para poupar peso na viagem de regresso; outros foram levados de propósito com a intenção de ficarem para sempre no nosso satélite natural. No segundo caso, incluem-se medalhas comemorativas e que homenageiam astronautas que morreram na época e uma placa com mensagens de paz assinada por 96 países. Mas esta placa quase que vinha de volta para a Terra. Neil e Buzz estavam já a subir o escadote para voltarem para a nave quando se aperceberam do esquecimento. E lançaram do escadote a placa. Mas a história dos vestígios não se reveste só de ouro e glória. Os astronautas também deixaram na Lua sacos de fezes, 2 coletores de urina, 1 saco de vómito, embalagens de refeições e ainda partes do rover. E, como “lembrança”, trouxeram 380 quilos de pedaços da Lua.
Quanto ao bigode de Collins, foram vistas as imagens do astronauta a fazer a barba no Espaço. No momento da partida, não tinha barba; mas, no regresso, tinha bigode. Para conspiracionistas é a prova de que o Homem nunca foi à Lua, tendo tudo ficado reduzido a uma encenação, pois, interrogam-se se Collins fazia a barba, como é que houve tempo para o bigode crescer.
São históricas as fotografias do Homem em solo lunar e, para muitos, uma das provas de que lá estiveram os astronautas.  Mas desde a bandeira que não devia ter movimento à ausência de estrelas no horizonte, são muitas as teorias e questões levantadas ao longo dos anos com base na análise das fotos. E há uma que a NASA admitiu ter sido editada. Trata-se da AS11-40-5903. A fotografia foi feita por Armstrong e mostra Aldrin na Lua. A foto tornou-se simbólica, pois no visor do capacete de Aldrin é possível ver o reflexo de Armstrong, da nave espacial e da Terra. A NASA alterou o enquadramento, colocando Aldrin mais ao centro da imagem, tornou o céu mais escuro e omitiu a antena do fato de Buzz Aldrin e um suporte do módulo lunar da parte inferior. Mas afirma que essa foi a única imagem a sofrer alterações e que o fez para tornar a foto mais “bonita” para a comunicação social.
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Entretanto, no cinquentenário da missão da Apollo 11, replicada por outras expedições posteriores, quando os EUA e outros países têm vastos programas de comemorações científicas e de efeméride, dizem querer retomar os programas de navegação interplanetária e a chegada a outros planetas, entre os quais se conta o badalado Marte, sabe-se que o chileno Jenaro Gajardo Vera comprara a Lua por 42 pesos, pelo que Nixon houve por bem pedir-lhe permissão para a alunagem. O advogado do chileno consentiu, devido à cortesia do Presidente dos EUA.
Com efeito, em 1954, Gajardo Vera foi ao notário e registou a Lua em seu nome. Achou que estava a fazer “um ato poético” que lhe daria direito a “uma possível intervenção” na seleção dos futuros selenitas, pois queria criar um mundo mais pacífico. E, antes de morrer, deixou em testamento a Lua ao seu povo. Hoje a Lua, com a sua permissão, pertence a uma centena de países que assinaram um acordo pelo qual nenhum, individualmente, tomaria posse do satélite.
O lado negro da vida dos astronautas pós-Apollo 11 é marcado por alcoolismo, depressão, três casamentos falhados e lutas legais com os filhos. Aldrin divorciou-se de Joan Archer, em 1974. O 2.º casamento durou três anos e o 3.º durou de 1988 até 2012. Processou dois dos três filhos e uma empresária, que terão tentado controlar os bens da sua empresa e fundação de caridade.
Para Armstrong (falecido a 25 de agosto de 2012), o silêncio é a reposta. “É um homem muito solitário”, disse Janet, a esposa, de quem se divorciou em 1994, “apagando uma luz que nem a Lua conseguiria iluminar”.
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Há 50 anos, São Paulo VI abençoou o “grande empreendimento espacial”. “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade! Honra a vós homens, artífices do grande empreendimento espacial”. Foi esta a mensagem que o Papa enviou aos astronautas norte-americanos, depois de assistir ao evento pela televisão.
Segundo o Vatican News, a 20 de julho de 1969, Paulo VI assistiu à chegada dos astronautas à Lua no Observatório do Vaticano, onde ouviu os profissionais da NASA a anunciar ao mundo inteiro “The Eagle has landed” (“A águia aterrou”). E, horas antes de a expedição ter alunado, convidava “a meditar sobre esse extraordinário e admirável evento”, a “meditar sobre o cosmos” e sobre um novo mundo, “misterioso, no imenso quadro dos inúmeros séculos e dos espaços sem limites”. Nesse domingo, desafiando os peregrinos e turistas presentes na Praça de São Pedro, para recitação do Angelus, a pensar no “engenho prodigioso” do homem e na sua “coragem temerária”, afirmou:
Faremos bem meditar sobre o homem, sobre seu engenho prodigioso, sobre sua coragem temerária, sobre seu progresso fantástico. Dominado pelo cosmos como um ponto impercetível, o homem domina-o com o pensamento. E quem é o homem? Quem somos nós, capazes de tanto? Faremos bem meditar sobre o progresso.”.
Paulo VI questionou se a eficiência e o progresso científico se transformam em “vantagem” para a pessoa humana, tendo por fundamento a liberdade do “coração do homem”. E advertia:
É preciso absolutamente que o coração do homem se torne mais livre, melhor, mais religioso, quanto maior e perigosa é a potência das máquinas, das armas, dos instrumentos que o homem coloca à sua própria disposição”.
E, face ao festejo que os homens faziam do triunfo da investigação sobre o cosmos, referia um “dia histórico para a humanidade” e que o verdadeiro progresso é a fraternidade e a paz.
Uma semana antes de se concretizar a Missão Apolo 11, o Papa afirmava que “o homem é mais misterioso do que a Lua”. Assim, a 13 de julho, também aquando da recitação do Angelus, na Praça de São Pedro, Paulo VI referiu-se ao pensamento que estava na mente de todos, nessa semana: a expedição dos astronautas americanos. Para o Papa, estava em causa um “pensamento que vai além da descrição desse facto singularíssimo e maravilhoso”. A este respeito, afirmou:
O homem, esta criatura de Deus, ainda mais do que misteriosa que a Lua, no centro deste empreendimento, revela-se! Mostra-se gigante. Mostra-se divino, não em si mesmo, mas no seu princípio e no seu destino. Honra ao homem, honra à sua dignidade, ao seu espírito, à sua vida.”.
Naquele domingo de 20 de julho de 1969, no Angelus, horas antes daquele primeiro passo no solo lunar, o Papa falou da missão espacial, como já havia feito no domingo precedente (13 de julho) convidando “a meditar sobre esse extraordinário e admirável evento, a meditar sobre o cosmos, que se nos abre diante de seu rosto mudo, misterioso, no imenso quadro dos inúmeros séculos e dos espaços sem limites”. Mas, na empolgação e entusiasmo daquele dia, “verdadeiro triunfo dos meios produzidos pelo homem, para o domínio do cosmos”, exortava a não esquecer os dramas que a atormentavam a humanidade e, que passado meio século, são de grandíssima atualidade. E, apelando à consciência crítica da humanidade, apontava as três guerras de então, no Vietname, na África e no Oriente Médio, acrescentando uma quarta com milhares de vítimas entre El Salvador e Honduras, sem deixar de evidenciar a fome de populações inteiras.
Passado meio século, a humanidade vive hoje o que o Papa Francisco chama de uma espécie terceira guerra mundial em fragmentos: são conflitos ao redor do mundo que começam a equivaler a uma terceira guerra mundial, que ocorre aos poucos por meio de crimes, massacres e destruição. Nestes 50 anos, a ciência deu passos gigantescos, em praticamente todos os campos do conhecimento, mas o flagelo da fome continua a humilhar a humanidade, pois enquanto houver – mesmo que seja um só ser humano, mas os famintos são muitíssimos – alguém a padecer de fome, necessidade e miséria, toda a humanidade estará humilhada na sua dignidade. Enquanto milhões de seres humanos estiverem à margem do progresso, excluídos dos benefícios do desenvolvimento, e persistirem as desigualdades e a injustiças sociais, a paz permanecerá uma quimera, um bem inalcançável. E a paz (dizia o Papa Montini) é o verdadeiro progresso da humanidade ou, como refere a encíclica Populorum Progressio, de 1967, é o fruto do desenvolvimento integral de todas as pessoas.
2019.07.20 – Louro de Carvalho