sexta-feira, 28 de abril de 2017

O jogo “Baleia Azul” terá chegado a Portugal

Uma jovem de 18 anos, residente em Albufeira, automutilou-se e atirou-se de um viaduto junto a uma linha férrea. O episódio, ocorrido na madrugada do dia 27, é atribuído ao perigoso jogo online conhecido como “Baleia Azul
A predita jovem foi encontrada caída na linha férrea da estação de comboios de Ferreiras, em Albufeira, pelas 2 horas da madrugada, e socorrida pelos Bombeiros de Albufeira, tendo sido imediatamente transportada para o Hospital de Faro.
Segundo o JN, trata-se duma portuguesa filha de pais de nacionalidade ucraniana. Já esteve institucionalizada, mas não há registo de tentativas de suicídio anteriores. Agora, tinha a palavra “sim” escrita na coxa direita com uma faca e “F57” escrito na palma da mão esquerda. E, de acordo com fonte hospitalar, tem uma fratura na perna e vários ferimentos. Está internada no serviço de ortopedia e já recebeu a visita da mãe.
Também um adolescente, de 15 anos, de Sines foi transportado para o Hospital de Setúbal por cortes no braço (e uma baleia “desenhada”), que fontes dos bombeiros e da GNR relacionam com o esquema do jogo “Baleia Azul”, que estimula a automutilação e o suicídio.
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O jogo “Baleia Azul” terá surgido pela primeira vez na Rússia, país onde 130 jovens se suicidaram, pelos vistos, devido ao jogo que é disputado nas redes sociais e em que os participantes, muito jovens, são desafiados por um mentor a cumprir até 50 desafios violentos, culminando com a morte por suicídio.
No Brasil, a polícia, que está a investigar a morte de dois jovens ocorrida este mês, pensa que a origem destes dois episódios esteja neste mortífero jogo. Também em Inglaterra, na Roménia e em França o fenómeno está a causar viva preocupação, tendo sido acionadas campanhas de informação e prevenção sobretudo junto das escolas.
Segundo Leonid Bershidsky, da Bloomberg, o surgimento do jogo “Baleia Azul” é explicado pelo caos socioeconómico que grassa na Rússia. Para este colunista da Folha de São Paulo, trata-se duma espécie de “jogo do suicídio” que, surgido na Rússia, está a espalhar-se entre os adolescentes do planeta e provoca as mesmas questões urgentes em toda parte. E as duas pertinentes questões levantadas são: Quem é responsável? E como impedir que ele avance?
Para já, as redes sociais e o poder legislativo da Rússia pretendem eliminar estes “grupos de morte”, mas podem, na verdade, estar a lutar contra uma lenda urbana de difícil controlo. E a ameaça está bem estabelecida: os elevados índices de suicídios encontrados em países que enfrentam problemas desde a queda da URSS resultam de males sociais muito mais amplos.
O jogo, que traz sérias preocupações a pais e autoridades, chama-se, em português, “Baleia Azul” (tradução direta do nome original russo, Siniy Kit) – designação que advém duma canção da banda de rock russa Lumen. Os versos iniciais são: “porque gritar / quando ninguém ouve / o que estamos dizendo?”; e a letra diz: “uma grande baleia azul” que “não consegue romper a rede”.
O público russo descobriu o jogo e suas diversas variantes em maio de 2016, quando Galina Mursaliyeva, do “Novaya Gazeta”, jornal conhecido pela sua oposição ao Kremlin, descreveu a cultura do que descreveu como “grupos de morte” ao relatar a experiência de uma mãe cuja filha de 12 anos se havia suicidado, após o que a mãe investigou as atividades online da filha, que desembocaram na tragédia, e sentiu-se compelida a revelar o resultado da investigação a fim de evitar novos casos. A história causou sensação, chegando a desencadear apelos à restrição do acesso de adolescentes à Internet.
Ao postarem mensagens com determinados hashtags em redes sociais ou ao aderirem a certos grupos, os adolescentes (em geral, com idades dos 10 aos 14 anos) são selecionados por “curadores” que, averiguadas as informações do potencial participante, estabelecem listas com até 50 tarefas diárias para cada um, tarefas que vêm a culminar na missão mais importante do jogo: o suicídio.
As tarefas envolvem a assunção de riscos, como, por exemplo, que o participante se corte. Nos 10 dias finais do jogo, o participante precisa de acordar bem cedo pela madrugada, ouvir música e pensar na morte. Os que se assustam e decidem tentar sair do jogo recebem ameaças, em muitos casos, a de que os pais serão assassinados.
Muitos adolescentes sabem praticamente tudo sobre o “Baleia Azul”, falando dele em tom calmo e zombeteiro e mencionando casualmente que têm amigos que, embora não se disponham a pular pela janela dum edifício alto, gostam de se cortar, porque isso chama a atenção e faz com que se sintam especiais. Como o jogo se difundiu largamente, há adolescentes russos que buscam os “curadores” e os zoam online.
O caso-tipo é: Em diálogo hilariante, o curador pede a uma menina que “corte uma baleia”. Em vez disso, ela corta um gato de papel duma história em quadrinhos no jornal (as palavras russas para “gato” e “baleia” – “kot” e “kit” – são parecidas). Se perceber que a menina não leva a sério o jogo de suicídio, o administrador, zangado, ameaça enviar-lhe agressores. Ela responde:
“Vou descer para esperar na rua – o elevador não está a funcionar e eles podem não ter energia para me matar se tiverem que subir oito andares de escada”.
É claro que não aparece nenhum agressor, mas a ameaça fica a marinar na mente da menina.
Em novembro, Filipp Budeykin, um dos primeiros “curadores”, foi detido pelo crime de incitação ao suicídio. Os apartamentos de outros administradores do jogo foram alvo de revistas policiais. Budeykin, que alegadamente sofre de distúrbio bipolar e teve uma infância infeliz, de sofrimento e abusos, aguarda julgamento.
Este ano, ressurgiu a discussão sobre os “grupos de morte”. Há informações sobre a participação de adolescentes na Estónia, no Cazaquistão, na Ucrânia e noutros países da era pós-soviética.
Irina Yarovaya, vice-presidente da assembleia legislativa russa e uma das integrantes da linha mais dura do Parlamento, disse em fevereiro que o número de suicídios de adolescentes na Rússia havia subido de 461, em 2015, para 720, em 2016. E declarou estar a ser travada uma guerra “contra as crianças”. Não referindo quem a estava a travar, assegurou que “essa é uma verdadeira atividade criminosa, organizada, propositada e com consequências”.
Para obviar à situação, apresentou um projeto de lei que torna crime a administração de “grupos de morte” e a participação em jogos como o “Baleia Azul”, com a moldura penal de seis anos de prisão para os envolvidos – iniciativa legislativa que mereceu a aprovação parlamentar.
Por sua vez, o Vkontakte e o Instagram, dois dos serviços online mais visitados pelos adolescentes russos, também vêm tentando combater a ameaça, por meio da remoção de posts que contenham hashtags associados ao “Baleia Azul”. E o Instagram também envia mensagens aos responsáveis pelos posts, sugerindo busca de terapia e oferecendo ajuda. Mas o ponto fraco deste controlo é a inexistência de provas. Adolescente que pense no suicídio buscará contacto com pessoas que pensem como ele, e as redes sociais são o lugar mais fácil para tal busca.
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Possivelmente, o jogo e os “grupos de morte” causaram elevação no número de suicídios. As pessoas, sobretudo os adolescentes, tendem a matar-se em “aglomerados espácio-temporais”, em termos do comportamento mimético. Mesmo assim, de acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), o índice de suicídio entre os adolescentes da Rússia é superior à média desta organização há muito tempo. Ele só fica atrás dos números da Nova Zelândia, onde jovens das comunidades indígenas carentes elevam o número de suicidas.
Embora nenhuma organização internacional acompanhe especificamente os números do suicídio de crianças de entre 10 e 15 anos – população-alvo do “”Baleia Azul” –, é seguramente de presumir que a Rússia esteja entre os líderes mundiais, nesse cômputo.
Antes de se falar neste fator de suicídio, os pesquisadores atribuíam a prevalência do suicídio adolescente na Rússia à disfunção generalizada na vida familiar (a Rússia tem um dos índices de divórcio mais elevados do planeta) e à disponibilidade fácil e aceitação social do uso do álcool. E há pressões adicionais, como a de viver num sistema corrupto e semicapitalista sem caminho seguro de sucesso para as crianças de famílias falhas de conexões políticas e profissionais. É difícil vislumbrar se, de futuro, um indivíduo crescerá em bloco de apartamentos populares encardido, na periferia de cidade industrial, com pais bêbados, belicosos ou ausentes e uma escola que não oferece qualquer alívio – dúvida que precede o suicídio dum adolescente russo.
Há indicações de que os jovens russos buscam ativamente maneiras de extravasar as suas frustrações. Estudantes secundaristas e universitários são a principal força que esteve por trás dos recentes protestos nacionais contra a corrupção. Mas nem todos se interessam por atividades políticas e, na Rússia, elas podem terminar tão mal como um jogo de suicídio.
O governo russo vem adotando leis mais duras contra conteúdo de Internet relacionado com o suicídio e chega a fechar sites pela simples menção a suicídio. E a justiça será mais rigorosa quanto os “grupos de morte” forem caraterizados como atividade criminosa. Contudo, não cairá o índice de suicídio de adolescentes se não forem enfrentadas suas causas, além dos sintomas.
Apesar de tudo, o índice de suicídios na Rússia é menor hoje do que nos anos 90, quando a maioria da população do país sofria com os sérios problemas da economia. Porém, é preciso reduzi-lo mais. Para tal é preciso criar incentivos para as famílias não se dissolverem, combater o consumo descontrolado do álcool e das drogas e apresentar aos jovens uma visão de futuro mais convincente. Porém, o governo de Putin está mais preocupado na promoção da alta no índice de natalidade, algo sobre o que o Presidente jamais perde o ensejo de se vangloriar.
Entretanto, o “Baleia Azul”, com a sua exploração da autopiedade e do apego dos adolescentes a fazer drama, continuará a avançar pelo planeta. O jogo não precisa do feio cenário da Rússia para prosperar: a miséria adolescente não tem fronteiras. Têm, pois, os governos que estar muito atentos, bem como os diversos setores da sociedade civil.
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O “Baleia Azul” é, como se disse, um jogo composto por 50 desafios enviados a partir da troca de mensagens entre adolescentes e organizadores, os “curadores”, que tem preocupado os países nos últimos dias. Com tarefas específicas – desde a visualização de filmes de terror até à automutilação – o jogo incita os participantes ao suicídio. Evidentemente que o jogo em si é uma consequência de algo que já não vai bem na vida do adolescente. Não surge de súbito. E, segundo Ana Suy Sesarino Kuss, professora do curso de Psicologia no Centro Universitário Autónomo do Brasil (Unibrasil), cabe aos pais provocar a conversa diária com o adolescente, sem imposição alguma, falando sobre coisas simples como um livro, a escola, um filme e até a vida dos vizinhos. Com efeito, há que “perceber durante a fala se há sentido para ele em viver”, pois “ele não é um objeto e está numa fase de construção de uma lógica própria”.
As mudanças de comportamento caraterísticas desta idade devem ser acompanhadas de perto pelos pais para entenderem como ter essa abertura para a conversa. É importante ficar com atenção a alguns sinais; e, no momento, em que um jogo perigoso como este tenha ganhado proporções policiais, é imprescindível o cuidar.
Eis alguns dos sinais que podem auxiliar a perceber se o adolescente está envolvido no “Baleia Azul”: automutilação (alguns com desenhos de baleia); mudança de comportamento; isolamento do convívio familiar (por exemplo, muito tempo trancado no quarto); filmes de terror como a opção mais frequente; saída de casa em horários incomuns, como na madrugada; conectação à Internet durante muito tempo; e inclusão de contactos desconhecidos no telemóvel e nas redes sociais.
Segundo internautas que tiveram contacto com “curadores”, estes são hackers, investigam toda a vida dos participantes e usam a informação para ameaçar de morte as famílias dos jovens, caso o jogador abandone os desafios. Por isso, se encarece a importância do diálogo reforçado com os filhos e da denúncia às autoridades policiais.
Ainda de acordo com informações dos preditos internautas, a lista dos 50 desafios:
1) À navalha, escrever “F57” na mão e enviar foto ao curador; 2) acordar às 4,20 horas AM e visualizar vídeos psicadélicos e assustadores enviados pelo curador; 3) cortar braço com lâmina ao longo das veias, mas não muito profundo, apenas 3 cortes, e enviar foto ao curador; 4) desenhar uma baleia numa folha de papel e enviar foto ao curador; 5) escrever “sim” na pena, no caso de estar pronto para se tornar uma baleia, ou cortar-se muitas vezes, no caso de não estar pronto; 6) tarefa com uma cifra; 7) escrever “F40” na mão e enviar foto ao curador; 8) escrever “#i_am_whale” no seu status do VKontakte (rede social russa); 9) obrigação de superar o medo; 10) acordar às 4,20 horas AM e ir para um telhado (quanto mais alto, melhor); 11) desenhar uma baleia na mão à navalha e enviar foto ao curador; 12) visualizar vídeos psicadélicos e de horror o dia todo; 13) ouvir música que “eles” (curadores) enviam; 14) cortar o lábio; 15) furar a mão com agulha muitas vezes; 16) fazer algo doloroso para si mesmo, ficar doente; 17) ir para o telhado mais alto que encontrar, ficar na borda por algum tempo; 18) ir para uma ponte e sentar-se na borda; 19) subir um guindaste ou, pelo menos, tentar; 20) verificação pelo curador se o participante é de confiança; 21) assistir a palestra “com uma baleia” (com outro jogador ou com um curador) no Skype; 22) ir para um telhado e apoiar-se na borda com as pernas penduradas; 23) outra tarefa com uma cifra; 24) tarefa secreta; 25) reunião com uma “baleia”; 26) informação da data da morte do participante pelo curador, cuja aceitação é obrigatória; 27) acordar às 4,20 horas AM e ir para os trilhos (visitar qualquer estrada de ferro que puder encontrar); 28) não falar com ninguém o dia todo; 29) fazer um voto de que o participante “é uma baleia”; 30) a 49) acordar, todos os dias, às 4,20 horas AM, visualizar vídeos de terror, ouvir música que “eles” enviam, fazer um corte no corpo por dia, falar “com uma baleia”, durante o intervalo dos desafios entre 30 e 49; e 50) acabar com a sua própria vida.”.
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Enfim, redobrada atenção, cuidado e medidas adequadas da parte dos governos, polícias e pais!

2017.04.28 – Louro de Carvalho

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