Mostrar mensagens com a etiqueta . Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta . Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Invocar, caminhar e agradecer, três marcas do cristão em Igreja


Foi em torno destes três verbos que o Papa desenvolveu a sua homilia da Missa de canonização, a 13 de outubro, na Basílica de São Pedro, do Cardeal John Henry Newman, das religiosas Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e da leiga Margarida Bays.
Partindo do episódio dos 10 leprosos de que fala o texto do Evangelho de Lucas (Lc 17,11-19) assumido para o 28.º domingo do Tempo Comum no Ano C, Francisco salientou que a palavra do Senhor ao leproso que, tal como os outros, indo de caminho mostrar-se aos sacerdotes, se sentiu curado da lepra e deu meia volta para vir agradecer, “A tua fé te salvou” “é o ponto de chegada” do Evangelho que mostra o caminho da fé. Com efeito, por um lado, o caminho da fé espelha-se no percurso que Jesus fez com os discípulos para Jerusalém, onde ia ser sujeito à Paixão em que o Pai o glorificaria e Se glorificaria n’Ele, sendo a ressurreição dos mortos o certificado da glorificação de Cristo. Um caminho para o qual Jesus convida quem o quiser seguir e que implica renúncia e andar sem olhar para trás. Por outro lado, este percurso de fé mostra-nos três momentos significativos vincados pelos leprosos, sendo que apenas um – e estrangeiro – executou o 3.º momento: invocar, caminhar e agradecer.
Naqueles tempos, os leprosos sofriam a doença que os afligia (ainda hoje presente e a exigir combate) e sofriam o estigma da exclusão social em razão do perigo de contágio, pelo que deviam estar isolados do resto do mundo e gritar a quem pressentissem aproximar-se: Impuro, impuro! Também à passagem de Jesus, aqueles 10 leprosos gritaram, não o pregão estabelecido na Lei, mas o da confiança. Vão ter com Jesus, mas mantêm-se à distância e invocam-No. Vencem as exclusões ditadas pelos homens e invocam o Filho de Deus, que não exclui. Não se contentaram com o que ouviram dizer que Jesus fez a outrem; acreditavam que Jesus os podia curar. Isto faz dizer ao Santo Padre que “a salvação não é beber um copo de água para estar em forma, mas é ir à fonte, que é Jesus”. Na verdade, “só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida”. Os leprosos foram à fonte.
Ora, nós não podemos dizer que isso não nos diz respeito, pois todos nós necessitamos de cura, Precisamos da cura sobre a pouca confiança em nós mesmos, na vida, no futuro; sobre os medos que nos paralisam; sobre os vícios que nos escravizam; sobre a nossa autossuficiência, eu nos isola dos demais; sobre os fechamentos, dependências e apegos ao jogo, ao dinheiro, à televisão, ao telemóvel, às opiniões alheias. O Senhor liberta e cura o coração, se O invocarmos. Ora, invocar remete para a oração que nos leva a chamar a Deus pelo seu nome, o que é sinal de confidência, de que o Senhor gosta e que faz crescer a fé. Com a invocação confiante da fé, levando a Jesus o que somos, sem esconder as nossas misérias, sabemos que Deus salva. Isto é rezar, é mostrar fé. A fé salva e a oração, que “é a porta da fé”, é “o remédio do coração”.
Depois, é preciso atentar no facto de os leprosos terem sido curados, não quando estavam diante de Jesus, mas enquanto caminhavam às ordens de Jesus para se mostrarem aos sacerdotes, como diz o Evangelho: “Enquanto iam a caminho, ficaram purificados” (17,14). Foram curados enquanto caminhavam para Jerusalém palmilhando uma estrada a subir. Também nós somos purificados no caminho da vida, um caminho frequentemente a subir, porque leva para o alto. A fé requer um caminho, uma saída e só acontece o milagre, diz o Papa, “se sairmos das nossas cómodas certezas, se deixarmos os nossos portos serenos, os nossos ninhos confortáveis”. E o Sumo Pontífice recordou que também o Profeta a Naaman, general sírio que pedia a cura da sua lepra, indica a tarefa de caminhar até ao rio Jordão para se banhar sete vezes. Naaman, que esperava o espetáculo da cura milagrosa pelas rezas e toques do homem de Deus, fica desapontado, pois tinha na sua terra rios melhores que o Jordão. E foi um servo que o aconselhou a fazer aquela coisa tão simples que o Profeta lhe recomendara. E ficou curado, o que leva o Sumo Pontífice a dizer:
A fé aumenta com o dom e cresce com o risco. A fé atua, quando avançamos equipados com a confiança em Deus. A fé abre caminho através de passos humildes e concretos, como humildes e concretos foram o caminho dos leprosos e o banho de Naaman no rio Jordão (cf 2 Re 5, 14-17). O mesmo se passa connosco: avançamos na fé com o amor humilde e concreto, com a paciência diária, invocando Jesus e prosseguindo para diante.”.
Em contexto sinodal, Francisco sublinha o facto de os leprosos ficarem curados quando se moviam juntos. O Evangelho refere, no plural, que “iam a caminho” e “ficaram purificados”, pelo que se deduz que “a fé é também caminhar juntos, jamais sozinhos”. E o Papa Bergoglio anota que, uma vez curados, nove continuam pela sua estrada e apenas um regressa para agradecer. E Jesus desabafa a sua mágoa perguntando pelos outros nove. Esqueceram que é tarefa dos homens agradecer. E isto faz-se de forma eminente na Eucaristia, que nos leva a “ocuparmo-nos de quem deixou de caminhar, de quem se extraviou”, pois “somos guardiões dos irmãos distantes, todos nós”, somos intercessores por eles, somos responsáveis por eles, isto é, chamados a responder por eles, a tê-los a peito”.
Agradecer é a última etapa do percurso. E só àquele que agradece é que Jesus diz: “A tua fé te salvou”. E é de notar que “não se encontra apenas curado; também está salvo”. Isto quer dizer que “o ponto de chegada não é a saúde, não é o estar bem, mas o encontro com Jesus”. Quando o homem encontra Jesus, brota dele espontaneamente o “obrigado”, porque descobre o mais importante da vida: “não o receber uma graça nem o resolver um problema, mas abraçar o Senhor da vida”. E o Papa desenvolve:
É encantador ver como aquele homem curado, que era um samaritano, manifesta a alegria com todo o seu ser: louva a Deus em voz alta, prostra-se, agradece (cf 17,15-16). O ponto culminante do caminho de fé é viver dando graças. Podemos perguntar-nos: Nós, que temos fé, vivemos os dias como um peso a suportar ou como um louvor a oferecer? Ficamos centrados em nós mesmos à espera de pedir a próxima graça, ou encontramos a nossa alegria em dar graças?”.
Depois, enuncia os efeitos do agradecimento a Deus:
Quando agradecemos, o Pai deixa-Se comover e derrama sobre nós o Espírito Santo. Agradecer não é questão de cortesia, de etiqueta, mas questão de fé. Um coração que agradece, permanece jovem. Dizer ‘obrigado, Senhor’, ao acordar, durante o dia, antes de deitar, é antídoto do envelhecimento do coração, porque o coração envelhece e se habitua mal.”.
***
Do episódio dos leprosos, o Pontífice passa ao episódio da canonização, a que procedeu, dos cinco beatos. Também eles invocaram o Senhor, para se purificarem das tentações de autossuficiência, dos medos paralisantes, dos vícios que os espreitavam. E nós agora invocamo-los como intercessores. Também eles caminharam na fé em conjunto com os irmãos e irmãs. E nós agora queremos associá-los à nossa caminhada conjunta assumindo-os como luzeiros da doutrina, da fé, da Eucaristia, da caridade e da misericórdia. Também eles souberam agradecer os benefícios de que Deus os cumulou, os dons que o Senhor lhes dispensou para benefício da Igreja e da humanidade. E o Papa sintetiza em breves palavras as suas vidas:  
Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela, na sua humildade, o esplendor da Páscoa. Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman quando diz: ‘O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (...) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (...) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum’ (Parochial and Plain Sermons, V, 5).”.
E terminou exortando e rezando:
Peçamos para ser, assim, ‘luzes gentis’ no meio das trevas do mundo. Jesus, ‘ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros’ (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.
***
O Vatican News em português realça, de entre os cinco beatos canonizados, a Irmã Dulce Pontes, a primeira santa brasileira, a devotada aos pobres. Assim, enfatiza:
Irmã Dulce é santa. A celebração litúrgica com o rito da canonização reuniu cerca de 50 mil pessoas na Praça São Pedro. Com o “Anjo bom da Bahia”, foram canonizados também João Henrique Newman, Josefina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, e Margarida Bays.”.
Depois, relata em três pontos:
A cerimónia teve início com o rito da canonização: o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Becciu, acompanhado dos postuladores, foi junto do Santo Padre e pediu que se procedesse à canonização dos beatos.
O Cardeal apresentou brevemente a biografia de cada um deles, que foram então declarados santos. Seguiu-se a ladainha dos santos e o Pontífice leu a fórmula de canonização.
O prefeito da Congregação, sempre acompanhado dos postuladores, agradeceu ao Santo Padre e o coro entoou o canto do Glória.”.
E refere que, “na homilia, o Papa Francisco comentou o Evangelho deste 28.º Domingo do Tempo Comum, que narra a cura de 10 leprosos”, como já foi desenvolvido, em torno dos verbos invocar, caminhar e agradecer.
***
Antes de concluir a celebração eucarística da canonização, o Santo Padre rezou com os fiéis a oração mariana do Angelus e fez dois apelos: ao Médio Oriente e ao Equador.
Formulou uma saudação e um agradecimento a todos, nomeadamente aos cardeais, bispos, sacerdotes, monjas, religiosos e religiosas de todo o mundo, em especial aos que pertencem às famílias espirituais dos novos Santos, e aos fiéis leigos ali reunidos.
Saudou as delegações oficiais de vários países e, em particular o Presidente da República Italiana e o Príncipe de Gales, pois, com o seu testemunho evangélico, estes Santos fomentaram o crescimento espiritual e social nas respetivas nações. E dirigiu uma saudação especial aos delegados da Comunhão anglicana, com profunda gratidão pela sua presença.
Saudou todos os peregrinos, bem como todos os que seguiram aquela Missa através da rádio e da televisão. E dirigiu uma saudação especial aos fiéis da Polónia que celebravam o Dia do Papa: agradeceu as suas orações e o seu constante afeto.
Os seus pensamentos dirigiram-se uma vez mais para o Médio Oriente, em particular, para a amada e martirizada Síria, de donde voltam a chegar notícias dramáticas sobre o destino das populações do nordeste do país, obrigadas a abandonar os seus lugares por causa das ações militares: entre estas populações há também muitas famílias cristãs. E renovou o seu apelo a todos os atores envolvidos e à comunidade internacional no sentido de se comprometerem com sinceridade honestidade e transparência no caminho do diálogo para buscar soluções eficazes.
Referiu que, juntamente com todos os membros do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, especialmente os equatorianos, seguia com preocupação o que tem vindo a suceder no Equador nas últimas semanas. Encomendou o país à oração comum e à intercessão dos novos Santos, unindo-se à dor pelos mortos, feridos e desaparecidos. Animou-o a buscar a paz social, com especial atenção às populações mais vulneráveis, aos pobres e aos direitos humanos.
E, por fim, exortou a que todos se dirigissem à Virgem Maria, modelo de perfeição evangélica, para que nos ajude a seguir o exemplo dos novos Santos, que são nossos intercessores e luzeiros nesta nossa caminhada de fé, de oração, de testemunho evangélico e de caridade na justiça.
2019.10.14 – Louro de Carvalho

sábado, 12 de outubro de 2019

Canonização do Cardeal Newman, doutor da razão, da fé e da relação


No contexto do Sínodo dos Bispos para a região pan-amazónica, Francisco vai canonizar, a 13 de outubro, o Cardeal John Henry Cardeal Newman, as religiosas Giusepinna Vannini, Mariam Thresia Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e a leiga Marguerite Bays.
O percurso eclesial do Cardeal a canonizar suscita uma oportuna reflexão.
John Henry Cardeal Newman, (nascido em Londres, a 21 de fevereiro de 1801, e falecido em Edgbaston, a 11 de agosto de 1890), foi um sacerdote anglicano inglês convertido ao catolicismo, posteriormente feito cardeal pelo Papa Leão XIII em 1879: Cardeal-diácono de São Jorge em Velabro, passando a Cardeal-protodiácono em 8 de fevereiro de 1890. Proclamado venerável, em 1991, por São João Paulo II, depois de uma intensa investigação sobre a sua vida e as suas obras feita pela Congregação para as Causas dos Santos, foi beatificado pelo Papa Bento XVI no dia 19 de setembro de 2010, em Birmingham, no âmbito da visita de estado papal ao Reino Unido. Nessa ocasião, o escultor Tim Tolkien (bisneto de J.R.R. Tolkien) apresentou uma estátua de Newman que o Papa benzeu.
John Henry Newman, nascido de família anglicana (sua mãe tinha ascendência francesa huguenote) e falecido em 1890, tendo estudado no Trinity Cllege de Oxford (1816) e no Oriel College (1822), foi sacerdote oratoriano, teólogo e cardeal. Destacou-se como homem de incessante e apaixonada busca pela verdade, não deixando que renome, títulos ou a honra pessoal se interpusessem entre ele e o objetivo maior que almejava. Assim, é eloquente o seu epitáfio “Ex umbris et imaginibus in veritatem”. Por isso, teve longa e frutuosa vida caraterizada pelas conversões. Passou pela primeira conversão aos 15 anos, quando começou a destinar-se ao serviço eclesial. Depois, foi ordenado na Igreja Anglicana, em 1824, onde se desenvolveu como um dos seus mais brilhantes pensadores e teólogos, ensinando e pregando na prestigiosa Universidade de Oxford. Durante o período anglicano envolveu-se em diversas controvérsias contra o liberalismo teológico, tendo sido um dos protagonistas do Movimento de Oxford, sobretudo na oposição ao racionalismo e ao fideísmo, diatribe típica do século XIX. Na sua carreira académico-teológica, pontuada por uma riquíssima vivência espiritual, dedicou-se ao estudo da Igreja primitiva, o que lhe fez compreender que a plenitude da Revelação se encontra na Igreja Católica Romana, a verdadeira Igreja fundada por Cristo. Ao deparar-se com esta verdade, tomou a decisão de se converter ao catolicismo em 1845, o que lhe acarretou muitos dissabores, sobretudo pela sua posição de destaque na Igreja Nacional Inglesa. Dois anos depois, foi ordenado sacerdote católico em Roma e fundou, já na Inglaterra, a Congregação do Oratório de São Felipe Néri, santo italiano do período da Reforma com quem se identificou. E, já quase octogenário, foi criado cardeal pelo Papa Leão XIII, sendo que o lema que então adotou diz muito da sua postura religiosa e espiritual: Cor ad cor loquitur.
Em termos filosófico-teológicos, não foi um tomista tout court, foi mais um seguidor de Santo Agostinho, quer pela identificação psicológica típica do convertido, quer pela influência que a Patrística exerceu sobre ele desde o seu período anglicano. A proximidade com Agostinho fica patente na análise da interioridade que promove nos seus trabalhos, em especial na sua obra-prima, a Apologia Pro Vita Sua – o que não impediu que o Cardeal saudasse vivamente o Papa Leão XIII aquando da publicação da encíclica Aeterni Patris, sobre a restauração da Filosofia Cristã nas Escolas Católicas no Espírito do Doutor Angélico, São Tomás de Aquino:
Dirijo estas linhas a Vossa Santidade para expressar o agradecimento que todos sentimos pela oportuna encíclica que publicou (...).”.
É o teólogo cronologicamente mais próximo citado pelo Catecismo da Igreja Católica (1992), onde é aparece quatro vezes, e um dos pouquíssimos ali presentes que não constava do rol de Beatos e Santos (com Tertuliano, por exemplo) – observação que deixa de fazer sentido a partir do dia 13. Também é citado na Encíclica Veritatis splendor e em locuções de São João Paulo II (como um dos campeões mais universais e ilustres da espiritualidade inglesa) e do então Cardeal Ratzinger, quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (“Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento”).
As suas obras distribuem-se por muitos tomos, entre obras de Apologia, Dogmática, Romances, Poesia, Sermões, Traduções etc. E ainda se conservam no Oratório de Birmingham milhares de cartas aos mais diversos destinatários (parentes, amigos, políticos, Papas etc.). Com efeito, considerava o apostolado epistolar de grande validade e eficácia. Também como fundador da Universidade de Dublin, torna-se um grande nome na Pedagogia e, em especial, no âmbito educação católica.
A Apologia Pro Vita Sua e a Carta ao Duque de Norfolk constituem a sua obra mais famosa, escrita para se defender dos ataques feitos por um anglicano contra a sua conversão e contra a Igreja Católica. Na Apologia, tece uma série de comentários sobre a sua vida espiritual, estudos teológicos e motivos para se ter convertido; e, na Carta, trata a questão da infalibilidade papal, defendendo-a contra as considerações erróneas do Primeiro-Ministro Gladstone e traça luminosamente os contornos da consciência individual, seus direitos e deveres.
A propósito de Newman, o Cardeal Dom José Tolentino Mendonça publica, na Revista do Expresso de hoje, na rubrica “Que coisa são as nuvens”, um texto sob o título “John Henry Cardeal Newman”, em que afirma que Newman é um dos precursores do Concílio Vaticano II. E destaca três vertentes: a valorização do laicado, transcrevendo-se praticamente o seu pensamento na Lumen Gentium, n.º 12, ao referir-se o papel dos fiéis leigos em matéria de fé; o primado da consciência (e Tolentino Mendonça menciona a Carta ao Duque de Norfolk), enquanto a capacidade que o homem tem de reconhecer a verdade e o dever de se encaminhar para ela –doutrina assumida na Gaudium et Spes, n.º 16 (“a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”); e o ecumenismo. Para este item Tolentino de Mendonça menciona e transcreve alguns versos de um poema de Newman que se tomou um dos hinos espirituais mais repetidos nas igrejas cristãs:
Sê tu a conduzir-me, luz gentil/ Sê tu a guiar-me na escuridão que me cerca;/ A noite avança e a minha casa é distante/ Sê tu a conduzir-me, luz gentil”.
***
A produção bibliográfica do Cardeal Newman, distribuída pelo período anglicano e pelo período católico, é vastíssima. Registam-se os títulos para se aquilatar da sua grande quantidade e de cuja qualidade falam os estudiosos, incluindo Sumos Pontífices.
Assim, do período anglicano: Arians of The Fourth Century (1833-1871); Tracts for the Times (1833-1841); British Critic (1836-1842); On the Prophetical Office of the Church (1837 | 1877) (Via Media, vol. 1) com prefácio à 3.ª edição; Lectures on Justification (1838 | 1874); Parochial and Plain Sermons, vol. 1 (1834 | 1869), vol. 2 (1835 | 1869), vol. 3 (1836 | 1869), vol. 4 (1839 | 1869), vol. 5 (1840 | 1869), vol. 6 (1842 | 1869), vol. (1842 | 1869) e vol. 8 (1843 | 1869); Select Treatises of St. Athanasius (1842, 1844); Lives of the English Saints (1843-4); Via Media, vol. 2 (várias | 1883); Essays on Miracles (1826, 1843 | 1870); Oxford University Sermons (1843 | 1871); Sermons on Subjects of the Day (1843 | 1869); Development of Christian Doctrine (1845 | 1878) e Retractation of Anti-Catholic Statements (1845 | 1883).
E, do período católico: Faith and Prejudice and Other Sermons (várias); Discourses to Mixed Congregations (1849); Difficulties of Anglicans (1850); Present Position of Catholics in England (1851); Idea of a University (1852 and 1858 | 1873); Cathedra Sempiterna (1852); Callista (1855 | 1888); The Rambler (1859-1860) com On Consulting the Faithful (1859); Apologia (1865); Apologia (1864 and 1865); Letter to Dr. Pusey (1865) (Anglican Difficulties, vol. 2); The Dream of Gerontius (1865); Grammar of Assent (1870); Sermons Preached on Various Occasions (várias | 1874); Letter to the Duke of Norfolk (1875) (Anglican Difficulties, vol. 2); Five Letters (1875); Sermon Notes (1849-1878); Meditations and Devotions; Select Treatises of St. Athanasius (1881 | 1887) vol. 1 – Translations vol. 2 – Appendix of Illustrations; On the Inspiration of Scripture (1884) e Development of Religious Error (1885). Miscelâneas: Addresses to Cardinal Newman and His Replies with Biglietto Speech (1879); Discussions and Arguments (várias | 1872); Essays Critical and Historical (várias | 1871) vol. 1, vol. 2; Historical Sketches (várias | 1872) vol. 1, vol. 2 (with Church of the Fathers) vol. 3; Historical Tracts of St. Athanasius (1843); Prefaces Froude’s Remains (1838), Hymni Ecclesiae (1838), Library of Fathers (various), Catena Aurea (1841), Church and Empires (1873), Notes of Visit to the Russian Church (1882), Sayings of Cardinal NewmanTracts Theological and Ecclesiastical (várias | 1871) e Verses on Various Occasions (várias | 1867).
***
A sabedoria e a ortodoxia doutrinária de Newman foram louvadas por Leão XIII, por São Pio X e pelo Servo de Deus Pio XII. No séc. XX, já depois da morte do cardeal inglês, Pio XII chegou mesmo a afirmar que Newman é a “Glória da Inglaterra e de toda a Igreja”.
Por ocasião da comemoração do centenário da sua morte, o então Cardeal Joseph Ratzinger (hoje, o Papa emérito Bento XVI), prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé, referiu-se a Newman, em 28 de abril de 1990, dizendo que dele aprendemos a compreender o primado do Papa e que a liberdade de consciência “não se identifica de modo algum com o direito de “dispensar-se da consciência, de ignorar o Legislador e o Juiz, e de ser independente de deveres invisíveis”. Assim, no seu significado autêntico, a consciência é o verdadeiro fundamento da autoridade do Papa. De facto, a sua força vem da Revelação, que completa a consciência natural iluminada de maneira apenas incompleta, e “a sua razão de ser é o facto de ser o campeão da lei moral e da consciência”.
No âmbito do desenvolvimento do dogma, Ratzinger considerava que a doutrina de Newman sobre a consciência fora o seu contributo decisivo para a renovação da teologia, pois, com isto, deu-nos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou seja, ensinou-nos a pensar historicamente a teologia e a reconhecer a identidade da fé em todas as mutações.
Depois, salienta que a conceção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao catolicismo. Mas adverte:
Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman. Parece-me que isto se torna evidente na sua conhecida afirmação, contida no famoso Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã: ‘aqui, na terra, viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações’. Newman foi ao longo de toda a sua vida uma pessoa que se converteu, que se transformou e, desta forma, permaneceu sempre ele mesmo, e tornou-se sempre mais ele mesmo.”.
Na verdade, continua Ratzinger, Newman expôs na ideia do desenvolvimento a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída e, assim, ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã. E arrisca: O sinal caraterístico do grande doutor da Igreja parece-me que seja aquele que ele não ensina só com o seu pensamento e com os seus discursos, mas também com a sua vida, porque nele pensamento e vida compenetram-se e determinam-se reciprocamente. Se isto é verdade, então Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento.”.
E Tolentino Mendonça, na rubrica citada, diz-nos mais sobre a perspetiva cristã, académica, antropológica e de fé de Newman. Newman mostra que o contributo dos crentes se joga também na construção cultural e fá-lo, por exemplo, ajudando a pensar que o que é uma universidade: não como um lugar fragmentado de saberes e especialidades, mas como laboratório de consciência crítica que ensina a pensar com rigor e com humildade, tendo como finalidade prática formar pessoas capazes de elevarem o tom da sociedade. Mas é no campo da hermenêutica da experiência religiosa e na defesa da legitimidade racional do ato de fé que o mestre de Oxford mais se empenhou. E foi concluindo que “o ato ou processo de fé é certamente um exercício da razão”. Recusa a redução do homem a uma máquina de raciocínios, mas “complementa o raciocínio raciocinante com o exercício da relação continuamente operado pelo homem”, podendo deduzir-se do raciocínio e da obra de Newman que “um grande livro de teologia é sempre um texto de cultura capaz de ressoar para lá do seu tempo”.

***
A partir do dia 13 de outubro, além de se estudar Newman, também se invocara como santo. Esperemos que, em consonância com o que sustentava Ratzinger, ele venha a ser declarado doutor da Igreja.
Confesso que fiquei intrigado quando, no ano letivo de 1969-70, o vice-reitor do Seminário de Lamego, o Cónego Simão Morais Botelho, me ofereceu o livro “Cardeal Newman – ecumenismo e fidelidade”, de Christopher Hollis para eu ler e estudar. Mas fi-lo e verifiquei o modo como o teólogo britânico articulava tão bem as duas vertentes do crente: a fidelidade e a capacidade de pensar. E, noutro campo, o rigor do pensamento e a capacidade de relação, a certeza da fé católica e a obrigação da abertura ao diálogo ecuménico. Isto em tempos da valorização excessiva dos ritos, da crença anatematizante, da obediência cega ou do hipercriticismo como forma de estar e agir.
Veio o Concílio Vaticano II com Paulo VI e tudo se tornou mais claro, veio o Papa Francisco e tudo se torna mais atraente e empático.
Cf Hollis, Christopher, Cardeal Newman – ecumenismo e fidelidade, Livraria Civilização Editora, Porto: 1969; Mendonça, José Tolentino, Que coisa são as nuvens, in Revista, Expresso, 12-10-2019; Pêcego, Daniel, Cardeal Newman, in AQUINATE, n.° 5, (2007), 380-383; e https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Henry_Newman.
2019.10.12 – Louro de Carvalho

domingo, 6 de outubro de 2019

Por e com os irmãos na Amazónia, caminhemos juntos


É o apelo de Francisco deixado na missa inaugural da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, celebrada na manhã deste domingo, dia 6 de outubro, na Basílica de São Pedro, na profunda convicção de que “muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja”. Por isso, é imperativo o caminho conjunto por eles e com eles.
A missa foi precedida de longa procissão de entrada e concelebrada com os treze novos cardeais, criados no Consistório presidido pelo Santo Padre no sábado à tarde e com os 185 padres sinodais (58 do Brasil); e, na assembleia, estavam representantes de comunidades indígenas.
É de recordar que o tema deste Sínodo, que terminará a 27 deste mês, é “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
Dirigindo-se aos padres sinodais, bispos provenientes não só da região pan-amazónica, mas também de outras regiões, e tendo presente a 2.ª carta de São Paulo a Timóteo proposta nesta liturgia do XXVII Domingo do Tempo Comum, no Ano C, Francisco, salientou que o apóstolo Paulo, o maior missionário da história da Igreja, nos ajuda a ‘fazer Sínodo’, a ‘caminhar juntos’; e observou que o recado “parece dirigido a nós, Pastores ao serviço do povo de Deus, aquilo que escreve a Timóteo”. 
Depois, vincou que é preciso fazer Sínodo, ou seja, caminhar juntos. A sinodalidade é um dom que recebemos para sermos dom – disse o Pontífice, que explicitou:
Um dom não se compra, não se troca nem se vende: recebe-se e dá-se de prenda. Se nos apropriarmos dele, se nos colocarmos a nós no centro e não deixarmos no centro o dom, passamos de Pastores a funcionários: fazemos do dom uma função e desaparece a gratuitidade; assim acabamos por nos servir a nós mesmos, servindo-nos da Igreja.”.
E, prosseguindo o discurso sobre o dom, acentuou que “a nossa vida, dom recebido, é para servir”, pelo que toda a nossa alegria a colocamos em servir, “porque fomos servidos por Deus”, que Se fez nosso servo. Assim, exortou a que nos sintamos chamados para servir, “colocando no centro o dom de Deus” e não a nós próprios.
Ainda na perspetiva do dom, o Papa Francisco disse que “o dom que recebemos é amor ardente a Deus e aos irmãos”, é chamamento ao serviço, chamamento à missão. E, assumindo a ótica paulina, enfatizou que, para sermos fiéis a este chamamento, à nossa missão, “São Paulo lembra-nos que o dom deve ser reacendido”. E explicitou o sentido deste verbo fascinante: “reacender é, literalmente, dar vida a uma fogueira”. Assim, “o dom que recebemos é um fogo, é amor ardente a Deus e aos irmãos”, um fogo que “não se alimenta sozinho”, que “morre se não for mantido vivo”, que se apaga “se a cinza o cobrir”.
Aplicando este dinamismo ao Sínodo que acabou de ser inaugurado, o Pontífice explicou o sentido do reacender e que se trata duma graça do Espírito Santo. Eis as suas palavras:
Reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada. E ser fiéis à novidade do Espírito é uma graça que devemos pedir na oração. Ele, que faz novas todas as coisas, nos dê a sua prudência audaciosa; inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazónia, para que não se apague o fogo da missão.”.
Não deixou o Santo Padre de fazer uma premente exortação aos Pastores a serviço do povo de Deus no sentido de se passar da pastoral de manutenção a uma pastoral missionária:
A Igreja não pode de modo algum limitar-se a uma pastoral de ‘manutenção’ para aqueles que já conhecem o Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial. Jesus veio trazer à terra, não a brisa da tarde, mas o fogo. O fogo que reacende o dom é o Espírito Santo, doador dos dons.”.
Verificando e lamentando o erro histórico do colonialismo em relação ao dom, disse que “o fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome”, que é “um fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora”. E, pondo o dedo na ferida, frisou: “Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo”. E exclamou:
Contudo, quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos.”.
Aplicando ao caso da Amazónia o fenómeno da colonização em vez da evangelização, vincou:
O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazónia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros.”.
E exortou a reacender o dom; receber a prudência audaciosa do Espírito, fiéis à sua novidade, acrescentando que o anúncio do Evangelho é o critério primeiro para a vida da Igreja.
Por fim, na certeza de que os irmãos amazónicos aguardam a consolação do Evangelho, convidou a olhar juntos para Jesus Crucificado, para o seu coração aberto por nós, fez mais uma exortação, a exortação mais emblemática e em que ele mesmo se sente comprometido:
Muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos.”.
***
Em complemento do que desenvolveu na homilia da missa de inauguração do Sínodo, o Papa, aquando da recitação da oração mariana do Angelus com os fiéis peregrinos reunidos na Praça São Pedro, pediu a todos queacompanhem com a oração este importante evento eclesial, a fim de que seja vivido na comunhão fraterna e na docilidade ao Espírito Santo”. E explicou aos peregrinos ali reunidos:
Durante três semanas os Padres sinodais, reunidos em torno do Sucessor de Pedro, refletirão sobre a missão da Igreja na Amazónia, sobre a evangelização e sobre a promoção de uma ecologia integral. Peço-vos que acompanheis com a oração este importante evento eclesial, a fim de que seja vivido na comunhão fraterna e na docilidade ao Espírito Santo, que sempre mostra os caminhos para o testemunho do Evangelho.”.
Na alocução que precedeu a susodita oração mariana, Francisco ateve-se ao Evangelho deste XXVII Domingo do Tempo Comum (Lc 17,5-10), cuja página evangélica apresenta o tema da fé: “Aumentai a nossa fé!” – pediam os apóstolos. “Uma bonita oração que devemos fazer muito durante o dia: Senhor, aumentai a minha fé!” – disse o Santo Padre.
Se na missa abordou a temática do dom e do serviço, desta vez, navegou pelo ângulo da fé e da humildade para desembocar no serviço.
Jesus responde ao pedido dos apóstolos de que lhes aumentasse a fé com as seguintes palavras: “Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘arranca-te e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”. E observou:
A fé comparável a um grão de mostarda é uma fé que não é soberba e segura de si, não finge ser um grande crente e muitas vezes acaba a fazer bobagem, não! (…) É uma fé que na sua humildade sente uma grande necessidade de Deus e na sua pequenez se abandona a Ele com plena confiança. (…) É a fé que nos dá a capacidade de olhar com esperança as vicissitudes alternas da vida, que nos ajuda a aceitar também as derrotas, os sofrimentos, conscientes de que o mal jamais terá a última palavra.”.
Ora, se o revestimento da fé é a humildade, a sua medida é o serviço. E a este respeito, o Pontífice interroga-se: “Como podemos entender se temos realmente fé, ou seja, se a nossa fé, mesmo minúscula é genuína, pura, sincera?”. E avançou com a resposta:
Jesus explica-nos indicando qual é a medida da fé: o serviço. E fá-lo com uma parábola que no primeiro impacto resulta de certo modo desconcertante, porque apresenta a figura de um proprietário prepotente e indiferente. Mas propriamente desse modo de fazer do proprietário ressalta aquilo que é o verdadeiro centro da parábola, ou seja,  a atitude de disponibilidade do servo. Jesus quer dizer que assim é o homem de fé diante de Deus: coloca-se completamente à sua vontade, sem cálculos ou pretensões.”.
Depois, Francisco destacou o que Jesus ensina nesta passagem evangélica: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer”. Com efeito, a expressão “servos inúteis”, que evangelicamente significa servidores “sem pretensões de ser agradecidos, sem reivindicações”, é, no dizer do Sumo Pontífice, uma expressão de humildade, disponibilidade que faz muito bem à Igreja e evoca a atitude justa para trabalhar nela: o serviço humilde, do qual Jesus deu exemplo, lavando os pés dos discípulos”.
Por fim, evocando a festa de Nossa Senhora do Rosário que se celebra amanhã, dia 7, e volvendo o seu olhar para a Virgem Mãe, exprimiu o voto de que “a Virgem Maria, mulher de fé, nos ajude a seguir neste caminho”.
***
Constituirá o discurso do dom e do serviço, da fé e da humildade, do fogo e do amor, da oração e da sinodalidade uma resposta consolidada às críticas dos opositores do pontificado de Francisco e, em especial, ao Sínodo pan-amazónico?
2019.10.06 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

“Um dos maiores cartões de apresentação da Igreja do Porto”


É um adequado epíteto com que Dom Manuel Linda, Bispo do Porto, caraterizou o seu antecessor Dom António Francisco na homilia da Missa a que presidiu na Sé Catedral do Porto, pelas 19 horas do dia 11, pelos bispos, sacerdotes e diáconos da diocese falecidos, e que marcou o segundo aniversário da morte do saudoso prelado, a 11 de setembro de 2017.
Na predita celebração, estiveram presentes: Dom Pio Alves, Bispo auxiliar, Dom António Taipa, Bispo auxiliar emérito e Dom Vitorino Soares, Bispo auxiliar nomeado pelo Papa Francisco e que será ordenado no próximo domingo dia 29 de setembro, e muitos sacerdotes.
Na homilia, o prelado portuense, comentando as bem-aventuranças, salientou cinco aspetos que julga essenciais: caraterizam o verdadeiro discípulo; assinalam uma dificuldade do presente que será alegria de futuro; definem o conceito de “justo” dizendo que “justo” é aquele que cumpre as bem-aventuranças; são a carta magna do reino de Deus, pois, o reino do mundo é de violência (Neste particular, recordou o 18.º aniversário do ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque e o recente homicídio da Irmã Antónia, religiosa da Congregação das Servas de Maria, que vivia o carisma de missionária dos enfermos); e são a certeza que Deus não esquece os sofredores.
De Dom António Francisco dos Santos frisou Dom Manuel Linda que foi exemplo da vivência das bem-aventuranças através de uma “simplicidade” contagiante e atrativa. Assinalou que a “simplicidade” é aquilo que “cativa”, enquanto “a soberba afasta”. Afirmou três caraterísticas que Dom António Francisco soube levar a todos os trabalhos e missões que serviu, em particular, na diocese do Porto: a doçura, a mansidão e a misericórdia. E, fazendo memória de todos os ministros ordenados que serviram a diocese, nesta celebração que os recordou particularmente, declarou ser Dom António Francisco um verdadeiro exemplo desse serviço.
E evocando o lema episcopal de Dom António Francisco dos Santos, “In manus Tuas”, o presidente da celebração declarou, no final da sua homilia, que o antigo bispo do Porto é “um dos maiores cartões de apresentação da Igreja do Porto”.
***
Esta efeméride ficou marcada também pela segunda edição do Prémio Dom António Francisco, no valor de 75 mil euros, que vai ser atribuído, desta feita, à APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), segundo anunciaram os promotores do galardão. Como se lê num comunicado enviado à agência Ecclesia, “o projeto selecionado representa uma causa que merece sempre a maior atenção e cuidado de toda a sociedade” e “o trabalho desenvolvido por esta associação cumpre de forma exemplar os objetivos deste prémio”.
Na verdade, a APAV é uma instituição particular de solidariedade social, pessoa coletiva de utilidade pública, que tem como objetivo promover (e contribuir para) a informação, proteção e apoio aos cidadãos vítimas de infrações penais, uma organização sem fins lucrativos e de voluntariado que apoia, de forma individualizada, qualificada e humanizada, vítimas de crimes, através da prestação de serviços gratuitos e confidenciais.
O júri do Prémio Dom António Francisco é constituído pelo presidente da Associação Comercial do Porto, pelo presidente da Irmandade dos Clérigos e pelo provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que o atribuíram nesta segunda edição à associação fundada a 25 de junho de 1990 e que tem sede em Lisboa, mas que é de âmbito nacional.
Pelo segundo ano consecutivo, na data que assinala dois anos do falecimento de Dom António Francisco dos Santos (11 de setembro de 2017) foi atribuído este prémio “em homenagem a um homem que deixa uma enorme saudade”, o Bispo do Porto, desde 2014, que faleceu aos 69 anos, na Casa Episcopal da diocese, na sequência de um problema cardíaco.
Com um valor de 75 mil euros, o Prémio Dom António Francisco é uma iniciativa solidária da Associação Comercial do Porto, da Irmandade dos Clérigos e da Santa Casa da Misericórdia do Porto que se destina a apoiar cidadãos e projetos que se distingam na “promoção e defesa da dignidade da pessoa humana, na defesa e promoção dos direitos humanos, no diálogo inter-religioso e ecuménico e na promoção da paz”.
Na sua primeira edição foram distinguidos projetos de apoio aos refugiados e população desfavorecida na cidade do Porto – Centro de São Cirilo e o trabalho do Serviço Jesuíta aos Refugiados na Unidade Habitacional de Santo António, dos Jesuítas.
A data da cerimónia de entrega do prémio “será anunciada oportunamente”.
***
A Diocese do Porto encontrou ainda outra forma de fazer memória do Bispo que vem homenageando. Assim, às 21 horas do dia 11, no auditório do Palácio da Bolsa, procedeu-se à apresentação do livro “Caminhando com Dom António Francisco dos Santos, a propósito de um monumento em Tendais”, da autoria de Bernardo Corrêa d’Almeida.
A apresentação foi confiada ao Cónego Jorge Teixeira da Cunha, presidente do Cabido da Sé e Professor de Teologia Moral da Universidade Católica. A obra reuniu a colaboração de várias pessoas, entre as quais Dom António Taipa, Bispo auxiliar emérito do Porto, que prefaciou o livro e o pintor António Bessa, autor da imagem da capa e de retratos de António Francisco.
No próximo domingo, dia 15 de setembro, a mesma publicação vai ser apresentado às 16 horas na biblioteca da Câmara Municipal de Cinfães, de onde era natural Dom António Francisco, mais concretamente da Paróquia de Tendais (Diocese de Lamego), paróquia para quem revertem os lucros do novo livro, já que foi ela que se responsabilizou pela edição.
Falando na apresentação do livro dedicado ao seu antecessor, o Bispo do Porto disse que Dom António Francisco dos Santos, falecido em 2017, fez com que muitas instituições “começassem a ver a Igreja doutra maneira”. E explicitou:
Na sua forma simpática, cordial, dialogante, sorridente, com aquela ternura que não é um artifício, mas é algo que brota de uma coração trabalhado, ele foi capaz de colocar-se como ponto de atração, a que as pessoas não resistiam”.
Mais reiterou que o falecido bispo é “um cartão de apresentação da diocese” e “um exemplo de candura”. E, segundo a ‘Voz Portucalense’, Dom Manuel Linda recordou o sorriso, a simpatia e capacidade de diálogo do prelado natural da Diocese de Lamego.
O autor do novo livro Frei Bernardo Corrêa D’Almeida, professor de Exegese e Teologia Bíblica na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, agradeceu os testemunhos das diversas personalidades que apresenta na publicação e lembrou a atitude dócil do antigo bispo diocesano.
O presidente do Cabido da diocese portuense, que apresentou o livro, destacou a “memória de alguém que marcou a cidade do Porto” e referiu-se a Dom António Francisco como o “amigo bispo inesquecível”, “uma figura de homem de Deus, caraterizada pela sua bondade, um avaliador fino e justo das pessoas, que se gastou depressa ao serviço de todos nós”.
Para o presidente da Associação Comercial do Porto, Nuno Botelho, que recebeu este evento, Dom António Francisco dos Santos foi alguém “que se aproximou de forma muito rápida do coração” e percebeu “a importância do tecido empresarial na construção do que é a nossa rede social”, marcando “de forma indelével a vida da associação e da cidade”.
A Rádio Renascença destacou a presença de Pinto da Costa que disse que o antigo Bispo do Porto “era um grande amigo”. “Quando falava, sentíamos que estávamos a falar na terra com um santo”, afirmou o presidente do FC Porto à margem da apresentação de ‘Caminhando com Dom António Francisco dos Santos – A propósito de um monumento em Tendais’.
***
Por fim, é de salientar o testemunho do Padre José Pedro Azevedo, que foi chefe de gabinete de Dom António Francisco e que a Voz Portucalense’ acaba de publicar.
Pressupondo que nos arriscamos “a deixar de existir”, se prescindirmos da memória do tempo, que “somos hoje o que os outros nos deixaram como legado e que é com a memória que construímos o futuro”, aplica a Dom António Francisco as seguintes palavras do profeta Zacarias: “Assim fala o Senhor do Universo: Virão de novo a Jerusalém povos e habitantes de grandes cidades” (Zc 8,20). E diz que tais palavras “proféticas e carregadas de esperança se concretizarão no Porto pela semente lançada à terra em tempo oportuno” pelo Bispo de saudosa memória, sendo que a sociedade portuense lho reconhece, “crentes e menos crentes, todos”.
Se “nenhuma vida surge ao acaso”, em Dom António “esta verdade era evidente”, pois “tocou o coração de todos os que com ele se encontraram”. E o sacerdote confessa:
Atingiu profundamente o meu coração como uma ‘seta que voa de dia’ (Sl 91,5) e alargou-o à medida maior da dor e do amor, porque todos nós precisamos de sinais para chegar a Jerusalém, à cidade santa, à Casa de Deus. Todos precisamos de quem nos dê a direção e aplane o caminho. Isto só acontece na simplicidade e na humildade que Jesus um dia referiu em relação às crianças.”.
Do cristão desafiante e fascinante, que “não defraudou a quem procura o Senhor” e que “nos deixa o odor da santidade”, o Padre José Pedro evoca três traços caraterísticos.
- Crente, cuja “vida partia de Deus e acabava em Deus”. Qualquer saída de casa e qualquer chegada a casa passava pela capela; qualquer preocupação era colocada sob o manto protetor de Nossa Senhora (“tantos papelinhos naquela Imagem!”); e “a oração era sempre o seu combustível e era a sua única força”, segundo o princípio inaciano “Reza como se tudo dependesse de Deus, mas trabalha como se tudo dependesse de ti”.
- Testemunha incansável do amor de Deus. “Não havia ninguém doente e que ele soubesse, a ficar por visitar, mesmo nos dias mais difíceis, nem que para isso tivesse de não jantar”.
- Bondade, com “um coração como o coração de Jesus, onde todos cabiam e onde ninguém, mas mesmo ninguém podia ficar de fora”, lutando todos os dias “para que a única medida fosse a misericórdia, sempre e em todas as circunstâncias” e tendo a sua vida toda sido “um magnífico compêndio duma teologia da bondade”, que valia a pena estudar.
E o Padre Azevedo assegura:
A Oração, a Caridade e a Bondade são imprescindíveis para todo o cristão, a chave para continuarmos a subir a Jerusalém, caminho da Cruz e porta da Ressurreição e para cumprirmos o testamento que Dom António Francisco em Fátima nos deixou: ‘Igreja do Porto: Vive esta hora, que te chama, guiada pelas mãos de Maria, a ir ao encontro de Cristo e a partir de Cristo a anunciar com renovado vigor e acrescido encanto a beleza da fé e a alegria do Evangelho. Viver em Igreja esta paixão evangelizadora é a nossa missão. A vossa e a minha missão’!”.
E conclui:
Passam dois anos do fim da sua santa viagem, mas a sua vida não terminou, porque não cabe no tempo e enquanto não nos virmos rezo como o salmista: “Ensina-nos a contar assim os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração” (Sl 90,12).
***
São testemunhos espirituais, académicos e sociais que dão conta da inquestionável respiração evangélica e do odor de santidade que perpassa a vida e a memória deste santo prelado, honra da Igreja e orgulho dos colegas.
2019.09.12 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
***
Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
***
Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
***
Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
***
Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho