terça-feira, 3 de setembro de 2019

Recados das estruturas sindicais da educação ao novo Governo


O secretário-geral da FENPROF advertiu que, se o Governo não tomar medidas, vai começar a sentir-se brevemente “uma enorme falta de professores qualificados nas escolas” portuguesas.
Mário Nogueira, que falava numa conferência de imprensa na Escola Secundaria Rainha Santa Isabel, em Coimbra, a 2 de setembro, disse:
Se o Governo não tomar medidas e se o Governo não resolver [o problema do envelhecimento da profissão docente], vai haver uma rutura tremenda, não tarda”.
Segundo aquele dirigente sindical, este ano, apenas até junho, já se aposentaram “mais professores do que no ano inteiro de 2018” e esta “vai ser uma tendência”.
O secretário-geral da FENPROF referiu que, após o 25 de Abril, a democratização do ensino trouxe um aumento exponencial do número de professores ao sistema público de ensino e que agora estão perto da idade de aposentação. E, nesse sentido, vincou:
O número de aposentados anualmente vai aumentar brutalmente e vai haver uma dificuldade enorme em colmatar as faltas”.
Face a essa realidade, o ME (Ministério da Educação) colocou este ano mais professores para se apresentarem nas escolas no 1.º dia útil de setembro do que em 2018 “em todo o 1.º período até 31 de dezembro”, mas há grupos de recrutamento que já “não têm ninguém para as reservas de recrutamento”. Com efeito, a desvalorização da profissão e o ataque permanente aos professores leva os jovens a não quererem ser professores, o que poderá constituir problema a breve trecho.
Como exemplo do envelhecimento da profissão, o secretário-geral da FENPROF apontou o Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, de Coimbra, em que a idade média dos docentes é de 54,4 anos e o número de professores com 65 anos é superior a todos os que têm até 40 anos, que são apenas três (e têm todos 39 anos). E, em dezembro, um professor terá 66 anos.
Na conferência de imprensa, a FENPROF também respondeu ao Primeiro-Ministro, que afirmou numa entrevista recente ao Expresso que estaria disponível para negociar com os professores, desde que estivessem de “bandeira branca” na mão. Ora, como disse Nogueira, “o senhor Primeiro-Ministro já devia saber que os professores não se rendem”. Os professores estão disponíveis a negociar e a dialogar, mas não vão “içar qualquer bandeira branca”, mas içarão as bandeiras de luta dos professores, como adiante se verá, para qualquer negociação com o futuro Governo, após as eleições legislativas de 6 de outubro. Cinco dessas bandeiras constarão num abaixo-assinado e petição que a FENPROF porá a circular nas escolas e que será entregue ao Governo e ao Parlamento que saírem das eleições.
A encabeçar tais exigências vem a recuperação do tempo de serviço que falta contabilizar, seguindo-se a necessidade dum regime específico de aposentação, o combate à precariedade, o fim de abusos nos horários de trabalho dos docentes e um regime de concursos justo.
Todas as bandeiras vão constar do Caderno Reivindicativo dos Professores e Educadores, que deverá ser aprovado no próximo dia 6, no Conselho Nacional da FENPROF. 
Durante a conferência de imprensa, Nogueira apelou à mobilização dos professores para a manifestação nacional em Lisboa convocada para 5 de outubro, um dia antes das legislativas, Dia Mundial do Professor.
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Abriu mais um ano escolar (2019/2020) e no dia em que cerca de 150.000 professores se apresentaram nas escolas (públicas e privadas), a FENPROF decidiu aproveitar a Conferência de Imprensa para saudar todos os professores e professoras, lembrando que este ano tem início, num momento muito importante da vida nacional, a realização de eleições legislativas dentro de pouco mais de 1 mês, o que significa que viveremos um período em que os professores terão de se fazer ouvir, exigindo aos políticos e aos partidos que eles representam esclarecimentos e compromissos para o futuro, que resultem em medidas concretas.
São conhecidos os problemas que afetam os professores e as escolas. Muitos são velhos, enquanto outros são de agora, sendo o mais recente o processo de municipalização que ora se abate sobre as escolas e agrupamentos de 73 municípios do continente (A Câmara Municipal de Lisboa encabeça a lista de municípios envolvidos), sem que professores e as comunidades educativas, tivessem sido ouvidos na decisão.
Lendo atentamente a entrevista de verão de António Costa, percebem-se os recados que deixou aos professores, um dos grupos profissionais mais maltratados pelo Governo que, pela voz do Primeiro-Ministro, em 3 de maio (há 3 meses), ameaçou demitir-se se a Assembleia da República, num ato de justiça para com os professores, aprovasse a recuperação dos 9 anos, 4 meses e 2 dias de tempo de serviço que esteve congelado. Nessa entrevista, Costa afirmou que, se continuar a governar, negociará com os professores, mas com estes de bandeira branca levantada. Ora, a bandeira branca está associada a rendição e o Primeiro-Ministro já devia saber que os professores não se rendem.
Os professores estão disponíveis para dialogar e negociar, mas em vez da bandeira branca, içarão as suas bandeiras, que, podendo ter fundo branco, são todas bandeiras de luta.
A Bandeira n.º 1, que também é crachá, a da recuperação do tempo de serviço em falta para se contabilizarem totalmente os 9A 4M 2D dos congelamentos. Faltam 6A 6M 23D. É uma medida essencial para a recomposição da carreira, que exige a limpeza dos problemas que provocam ultrapassagens ou impedem muitíssimos professores de atingirem o topo da carreira docente.
A Bandeira n.º 2, a da aposentação, que exige a aprovação dum regime específico de aposentação para os docentes. É uma medida urgente que contribuirá para o rejuvenescimento duma profissão que, recorrentemente, se considera envelhecida.
A Bandeira n.º 3, a da exigência de eliminação de todos os abusos e ilegalidades que afetam os horários de trabalho, impondo, em média, mais de 48 horas semanais de atividade. O ME e as escolas têm de cumprir a lei, garantindo que o horário dos docentes é de 35 horas semanais.
A Bandeira n.º 4, a do combate à precariedade. As colocações de 16 de agosto provaram que o número de docentes que se vincularam nos últimos 4 anos (cerca de 7 000) ficou muito abaixo do possível. Mais de 15 000 professores (13 000 dos quadros de zona pedagógica e 2 100 por renovação e contrato) foram colocados na escola em que se encontravam. Ora, se há necessidades permanentes porque não se abrem vagas nos quadros, que estão subdimensionados? Ademais, os últimos 542 docentes que integram os quadros de zona pedagógica têm, em média, 44 anos de idade e 15 de serviço, o que confirma que o Estado continua a abusar da contratação a termo, violando diretivas da UE que só intervém para desviar dinheiro para a banca.
A Bandeira n.º 5, a dos concursos justos para eliminar uma injustiça grave, a ultrapassagem de professores por outros com menos graduação. Por isso, reivindicam-se concursos nacionais que, em todas as suas fases e modalidades, respeitem a graduação profissional dos docentes.
Como foi dito, estas 5 bandeiras constam dum Abaixo-Assinado e Petição  a circular nas escolas. O Abaixo-Assinado e a Petição serão entregues ao Governo e ao Parlamento que saírem das eleições, deixando claras as posições e reivindicações dos docentes sobre a profissão e a necessidade de serem tomadas medidas que valorizem e melhorem as condições de trabalho.
Porém, os professores também lutam pela valorização da Escola Pública e por uma Educação de qualidade, razão por que levantarão mais outras bandeiras de luta, tais como:
A Bandeira n.º 6, a da gestão democrática, condição para uma melhor Escola Pública. Se a escola não se organiza democraticamente, como formará cidadãos democratas?
A Bandeira n.º 7, a do combate à municipalização, processo que terá difícil retorno e porá em causa direitos como o da igualdade de oportunidades, levará a que se acentuem assimetrias, reduzirá a autonomia das escolas abrindo portas a ingerências na sua organização interna e potenciará vias de privatização da Escola Pública. O protesto dos docentes que trabalham nesses concelhos atingidos prevê-se que venha a ser redobrado;
A Bandeira n.º 8, a da educação verdadeiramente inclusiva, que deve traduzir-se no respeito por todas as diferenças, o que exige que as escolas sejam dotadas dos recursos adequados para garantir a todas as crianças e jovens oportunidades semelhantes no acesso à escola e no sucesso escolar e educativo. O regime de educação inclusiva que vigente não dá essa garantia.
Outras bandeiras serão içadas pelos professores ao longo do ano e da legislatura. Todas constarão do Caderno Reivindicativo dos Professores e Educadores que será aprovado esta semana pelo Conselho Nacional da FENPROF. Tem estado em discussão pelos Sindicatos de Professores e será aprovado para que chegue ao conhecimento dos partidos políticos ainda antes das eleições. E será entregue ao novo Ministro da Educação logo que este tome posse.
E a FENPROF levanta orgulhosamente a Bandeira n.º 9, já que, por via dos seus sindicatos regionais, é a mais representativa organização sindical de docentes em Portugal, representando, em negociação e luta, a esmagadora maioria dos professores e educadores, sem se render ou baixar os braços sempre que estão em causa os legítimos direitos dos professores e educadores ou a qualidade da Escola Pública.
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Também a FNE, considerando “francamente negativa” para a educação a legislatura que está prestes a terminar, propõe 10 medidas para o novo Governo aplicar nos primeiros cem dias.
Em conferência de imprensa, o secretário-geral da FNE, João Dias da Silva, adiantou que a plataforma sindical fez um balanço “francamente negativo” da legislatura no atinente ao trabalho feito em matéria de educação, tendo elaborado um roteiro para a próxima legislatura, um “contributo que a FNE quer dar aos partidos políticos para o tempo de campanha eleitoral”. E diz o dirigente sindical:
Constituirá também o documento que entregaremos ao Governo no momento em que estiver constituído, na sequência das eleições de 06 de outubro”.
Para Dias da Silva, o balanço negativo prende-se com a “ausência de medidas que permitissem que neste tempo [tivessem] atingido os níveis indispensáveis de valorização dos educadores de infância, dos professores de todos os setores de ensino e dos trabalhadores não docentes”.
O roteiro para a legislatura traz 38 áreas de intervenção no sistema educativo que “devem ser analisadas e trabalhadas” ao longo da próxima legislatura, além de 10 medidas que a FNE entende que “devem ser adotadas ao longo dos primeiros cem dias. Uma dessas medidas é voltar à mesa das negociações para definir a forma e o prazo para a recuperação do tempo em falta do total dos 9 anos, 4 meses e 2 dias que estiveram congelados. E quer a FNE que seja iniciado o processo negocial para o restabelecimento das carreiras especiais de não docentes, uma exigência que a presidente do STAAE (Sindicato dos Técnicos, Assistentes e Auxiliares de Educação) da Zona Norte apontou que já foi “falada e negociada” e que justificou com o facto de estes profissionais trabalharem especificamente com crianças e jovens.
Maria Adelaide Lobo acusou o Governo de não ter cumprido com nenhuma das promessas feitas e apontou que o trabalho destas pessoas é “subestimado e invisível nas escolas”, apesar de ser “fundamental para criar condições para a aprendizagem dos alunos e para que os professores possam fazer o seu trabalho”.
Outra das medidas tem a ver com o ensino do português no estrangeiro, sendo que a FNE quer uma revisão do regime jurídico aplicável. A representante do SPCL (Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas) disse que o ensino do português no estrangeiro tem sido “tão maltratado”, “esquecido” e “pouco dignificado”, que “atualmente está em metade da sua dimensão”. Segundo Maria Teresa Duarte Soares, os alunos são discriminados porque lhes é exigido o pagamento duma propina, ao invés do que acontece com os alunos estrangeiros que, entre nós, aprendem português como língua estrangeira de forma gratuita.
Criticou também que os professores que ensinam português no estrangeiro não se possam candidatar em pé de igualdade com os professores em Portugal.
Entre as restantes medidas estão a negociação para a aposentação sem penalizações, a revisão da dimensão geográfica dos Quadros de Zona Pedagógica ou o fim da precariedade dos vínculos laborais nas instituições do ensino superior.
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Em documento intitulado “Para um tempo de esperança e de confiança”, em que saúda os docentes, os trabalhadores não docentes, os alunos e os pais e encarregados de educação, a FNE coloca-se ao lado dos trabalhadores das escolas para, que nos tempos que se avizinham, se possa definir em conjunto carreiras atrativas e valorizadas.
O início do novo ano letivo coincide praticamente com a campanha eleitoral que prepara as eleições de que resultará o quadro parlamentar da Legislatura de 2019-2023, quadro que deve constituir uma oportunidade para que se encerre o ciclo que tem marcado negativamente o desenvolvimento das carreiras em Educação e que se atinjam os níveis de reconhecimento compatíveis com as exigências e responsabilidades que estão atribuídas às escolas.
Sendo preciso retomar a esperança e a confiança e fazer com que as escolas sejam espaços de desenvolvimento profissional atrativos e aliciantes, “teremos todos de ser exigentes em relação a um sistema educativo de qualidade que responda aos desafios duma sociedade qualificada, democrática e sustentável”, pois “não haverá sistema educativo de qualidade sem aposta no reconhecimento e na valorização dos seus profissionais”. E, seja qual for o quadro que os resultados eleitorais definirem, a FNE será exigente em relação aos objetivos, assumindo uma atitude negocial construtiva, mas que não abdicará da promoção intransigente de condições dignas de trabalho e de desenvolvimento justo e atrativo das carreiras no setor.
Neste contexto, a saudação da FNE é um compromisso para a disponibilidade para a ação e um apelo à intervenção e participação de todos nas iniciativas que se justificarem para dar expressão ao que deve ser o reconhecimento do trabalho que desenvolvemos nas escolas.
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Está dado o lamiré sindical ao novo Governo. Espera-se que não faça orelhas moucas como sói.
2019.09.03 – Louro de Carvalho

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