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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Centeno fora do debate do Programa de Governo


Sobre o debate parlamentar
O Executivo divulgou os nomes dos ministros que intervirão no debate do Programa de Governo, que foi aprovado no Conselho de Ministros do passado dia 26, logo após a tomada de posse do Governo, e que está a ser discutido nestes dias (30 e 31). Ora, após uma campanha eleitoral apoiada nas contas certas, Costa dá palco a outras apostas programáticas, designadamente o Ambiente, a Presidência e a Economia. Assim, em vez de Mário Centeno – um dos governantes mais presentes no espaço mediático nos últimos 4 anos –, os holofotes vão para João Matos Fernandes, Mariana Vieira da Silva e Pedro Siza Vieira.
Depois da abertura do debate pelo Primeiro-Ministro, no período de debate estão os três ministros coordenadores das áreas transversais do Governo: as alterações climáticas, a demografia, as desigualdades e a transição digital. E o encerramento, que ocorrerá amanhã, dia 31, ficará a cargo de Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Assim, de todos os ministros de Estado (ao todo são 4) apenas um não intervém no debate do Programa de Governo, o documento que serve de guião para as medidas e políticas a adotar na XIV Legislatura. E Centeno foi um dos ministros que mais participou nos debates relevantes na legislatura passada. Em 2015, foi o Ministro das Finanças que fechou o debate do Programa de Governo, tendo falado sobre o impacto das medidas negociadas à esquerda para a formação do Governo. E, em 2019, foi também Centeno que fez o encerramento do debate do Estado da Nação, tendo deixado uma mensagem que acabou por ditar toda a campanha eleitoral, ao apelar aos partidos a que não entrassem em leilões eleitorais. Também durante a campanha eleitoral assumiu protagonismo ao desafiar o líder do PSD para um debate sobre contas públicas. E  uma sondagem sobre intenções de voto colocava-o ao lado dos líderes dos maiores partidos.
O Programa de Governo, com 191 páginas, tem estrutura semelhante à do programa eleitoral do PS, mas difere da usual organização temática por ministérios que caraterizou os documentos de outros executivos. Após um capítulo com 4 objetivos de curto e médio prazo – denominado “Boa Governação: contas certas e convergência, investimento nos serviços públicos, melhoria da qualidade da democracia e valorização das funções de soberania” – vêm 4 áreas temáticas: alterações climáticas, demografia, desigualdades, e sociedade digital. E, no âmbito das contas públicas, mantém na agenda a redução da dívida pública, a criação de saldos primários e a contenção da despesa pública.
O deputado do IL (Iniciativa Liberal), que não pode colocar o programa a votação, desafiou o PSD e o CDS a apresentarem uma moção de rejeição ao Governo minoritário do PS e a esclarecerem de forma inequívoca se o aprovam. E apontou os sociais-democratas e centristas, se não o fizerem, como estarem a ajudar a desresponsabilização dos partidos que apoiam o programa.
Porém, na conferência de líderes, do dia 28, que preparou o debate, nenhum dos partidos representados com assento parlamentar, incluindo o PSD e o CDS, anunciou qualquer iniciativa como uma moção de rejeição do programa, que, regimentalmente, só pode ser apresentada por grupos parlamentares e não por deputados únicos, como sucede com Cotrim Figueiredo. Numa entrevista à Lusa, a 13 de outubro, o deputado afirmou votar contra o programa do Governo. De resto, os partidos aproveitam para criticar o PS e o seu líder, que chefia mais um Executivo.
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Sobre o Programa do Governo
Um provedor do animal, um complemento-creche a partir do segundo filho, colocações de professores estáveis e fim dos chumbos no básico são 4 das medidas do Programa, que tem como objetivos estratégicos a consolidação do rumo e dos resultados alcançados desde 2015 e a sustentabilidade de longo prazo das políticas seguidas.
Na introdução do documento, o executivo defende que, até 2023, estaremos perante “um ciclo de consolidação da recuperação económica”. E o texto introdutório adverte:  
É um ciclo em que temos de garantir a sustentabilidade no longo prazo do trajeto virtuoso que construímos. Virada a página da austeridade, será neste novo ciclo que se devem reforçar as condições para que Portugal vença os desafios estratégicos da próxima década. É para este desígnio que concorrem quatro desafios estratégicos: combater as alterações climáticas; responder ao desafio demográfico; construir a sociedade digital; e reduzir as desigualdades.”.
Considera-se que, para Portugal ter sucesso a enfrentar estes 4 desafios estratégicos, tem de garantir um conjunto de regras de boas de governação, tais como “contas certas para a convergência com a União Europeia, melhoria da qualidade da democracia, investimento na qualidade dos serviços públicos e valorizar as funções de soberania”.
Será executado na sequência duma legislatura de recuperação da confiança e da dinamização da procura interna que induziram relançar o relançamento do crescimento económico, registando em 2017 e 2018, os únicos anos de convergência com a Zona Euro desde a adesão de Portugal à moeda única. E além disso, o Executivo frisa que se verificou “a maior série de criação de emprego de que há registo, com redução para metade do desemprego”, e se assistiu a “uma redução significativa da privação material e a saída de mais de 180 mil pessoas da pobreza, com a desigualdade a atingir os mais baixos valores de sempre”. E o Programa acrescenta:
Portugal apresenta contas públicas equilibradas pela primeira vez na sua história democrática, registando-se há três anos os défices mais baixos da nossa democracia, e tendo a dívida sido reduzida para 118% do Produto Interno Bruto. Depois de cumprido com êxito o programa de recuperação de rendimentos e da confiança, da economia e do emprego, bem como das finanças públicas e da credibilidade internacional do país, abre-se agora um novo ciclo na sociedade portuguesa.”.
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O detalhe em poucas páginas segundo tópicos selecionados
Na educação, ensino e ação social
O Governo criará um complemento-creche, atribuindo aos cidadãos com filhos nas creches “um valor garantido e universal” como comparticipação no preço que as famílias pagam pela creche a partir do segundo filho, com vista a oferecer melhores condições para a decisão dos pais em terem mais filhos, pois lembra o executivo:
Em Portugal, o número de horas de trabalho semanais é dos mais elevados e persistem ainda desigualdades significativas entre homens e mulheres na repartição do trabalho não pago e na conciliação entre trabalho e família”.
Por outro lado, o Governo quer incentivar os empregadores, com estruturas intensivas em mão-de-obra, a disponibilizar equipamentos ou serviços de apoio à infância; e quer promover um programa de alargamento das respostas de apoio à família, alargando a rede de creches e fomentando a universalização da educação pré-escolar e a garantia de que, neste nível etário, é dada a possibilidade a todas as crianças até aos 3 anos de dormirem a sesta.
O Governo quer mudar os concursos de professores para dar mais estabilidade aos docentes e diminuir as áreas geográficas em que podem ser colocados, bem como lançar um plano para acabar com as retenções e reprovações no ensino básico. E quer estudar o modelo de recrutamento e colocação de professores com vista à introdução de “melhorias que garantam maior estabilidade do corpo docente, diminuindo a dimensão dos quadros de zona pedagógica”, o que pode significar que os professores lecionem mais perto de casa.
Consta a intenção de elaborar diagnóstico a curto e médio prazo (5 a 10 anos) da necessidade de professores nas escolas, “que tenha em conta as mudanças em curso e as tendências da evolução na estrutura etária da sociedade e, em particular, o envelhecimento da classe docente”. Consta também a necessidade de professores nas regiões do país onde há escassez, da melhoria da formação contínua e de as escolas serem mais digitais e com melhor ligação à Internet. Por outro lado, o Governo quer mais autonomia para as escolas, dando-lhes poder de decisão em matérias como o número de alunos por turma, “mediante um sistema de gestão da rede”. E, ao nível da gestão, quer o modelo de administração escolar mais adequado ao processo de descentralização para as autarquias, com mais meios técnicos, permitindo que as escolas recorram a “bolsas de técnicos no quadro da descentralização”.
Do ponto de vista dos alunos, o executivo assume ter de eliminar os chumbos no ensino básico, trabalhando de forma intensiva e diferenciada com os alunos que revelam mais dificuldades, bem como ter de reforçar o combate ao abandono e insucesso escolar, sobretudo do ensino secundário. Também as escolas com piores resultados devem ter autonomia reforçada, adequando a oferta curricular ao seu público específico e reforçando, por exemplo, o ensino das línguas, artes ou desporto, os programas de mentoria entre alunos, para “estimular a cooperação entre pares”, e uma aposta clara no ensino da matemática, a disciplina com mais insucesso.
O Governo quer também copiar o modelo de muitos colégios privados ao pretender “promover programas de enriquecimento e diversificação curricular nas escolas públicas, nomeadamente assentes na formação artística, na introdução de diferentes línguas estrangeiras e de elementos como o ensino da programação, permitindo que as escolas especializem a sua oferta educativa”.
No combate ao insucesso, há medidas de reforço de ação social e apoio a famílias vulneráveis, mas também a aposta na deteção precoce de dificuldades, com maior atenção na educação pré-escolar a dificuldades de linguagem e numeracia. E compromete-se com um alargamento sistemático da rede pública da educação pré-escolar, com a produção de orientações para a creche e com a revisão do modelo das AEC (atividades de enriquecimento curricular).
Para o ensino superior inclui-se o reforço da ação social, mais camas em residências públicas, um acesso mais barato a mestrados e uma diversificação de públicos a partir das diversas formações do ensino secundário, a fim de promover a universidade ao alcance de todos. Sobre custos deste ensino enuncia-se a partilha de custos” entre o Estado e as famílias, sem especificar medidas. E, entre os objetivos está a criação dum automatismo de continuidade na atribuição de bolsas de ação social no ensino superior a quem já beneficiava delas no ensino secundário.
Na qualificação de adultos, manter-se-á a aposta no programa “Qualifica” e promete-se “um período sabático garantido para os adultos se poderem requalificar. E o Estado dará o exemplo enquanto empregador e aprofundará o “Qualifica” na administração pública, contribuindo para o “esforço de qualificação dos portugueses”.
Na cultura
No conjunto de propostas para a Cultura, pretende-se “aumentar, de forma progressiva, a despesa do Estado em Cultura, com o objetivo de atingir 2% da despesa discricionária prevista no Orçamento do Estado”, reforçando a Conta Satélite da Cultura, o Plano Nacional das Artes 2024, o papel dos teatros nacionais. E define-se como objetivo, no setor, a criação do Museu Nacional da Fotografia (com dois núcleos no país) e do Museu Nacional de Arte Contemporânea.
No campo do Património, visa-se lançar medidas para promover o envolvimento de todos na missão nacional de reabilitação do património cultural, nomeadamente criar a ‘Lotaria do Património’ e a campanha ‘Um Cidadão, Um Euro’, para o património cultural, repensar os incentivos ao mecenato cultural, programar artes performativas nos hospitais e estabelecimentos prisionais e criar uma bienal cultural infantil para promover a inclusão pela arte.
Para a Cinemateca é defendida uma “estratégia integrada” que passa pela modernização do modelo de gestão, de modo a reforçar a sua missão central de preservação do cinema e divulgação descentralizada, em rede e em cooperação com parceiros, bem como do laboratório, adequando-o às melhores práticas de arquivo, preservação e digitalização do património, reforçando o posicionamento do Arquivo Nacional da Imagem em Movimento nos planos internacional, de cooperação institucional e facilitação dos filmes para exibição pública.
O Programa inclui uma medida para aumentar a idade mínima para acesso a espetáculos tauromáquicos (que atualmente está nos 12 anos) eventualmente para os 16 anos.
Nas forças armadas
O Governo compromete-se a reforçar a participação das mulheres nas Forças Armadas, “dignificar e apoiar os antigos combatentes” e melhorar “a reinserção profissional dos militares em regime de contrato”. Foi criada a Secretaria de Estado dos Recursos Humanos e Antigos Combatentes, que prevê “dignificar e apoiar os antigos combatentes, incluindo os deficientes das Forças Armadas”, procurando “soluções para o acompanhamento da nova geração de militares sujeitos a riscos físicos e psicológicos”.
Pretende-se, igualmente, continuar a adequar os “mecanismos de recrutamento e retenção” nas Forças Armadas às necessidades do país com “novos mecanismos de gestão de carreiras”, para dar resposta às necessidades dos militares, bem como promover a reinserção profissional dos militares em regime de contrato e dos que optem pela passagem à reserva em idade ativa.
            Na proteção civil
O Governo adquirirá meios aéreos próprios para combater incêndios rurais de acordo com as prioridades definidas pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e Força Aérea.
Na proteção civil, o Programa quer a definição dum modelo de resposta profissional permanente com a participação da Força Especial de Proteção Civil, da GNR, das Forças Armadas, dos bombeiros sapadores, municipais e das equipas de intervenção permanente das associações de bombeiros voluntários, bem como a definição dos requisitos tecnológicos e do modelo de gestão da rede de comunicações de emergência do Estado após o final da concessão à SIRESP.
Será implementado o novo modelo territorial de resposta de emergência e proteção civil, baseado em estruturas regionais e sub-regionais, em articulação com as entidades competentes e com a participação dos bombeiros voluntários e das autarquias locais. E aprovar-se-á o Programa de Proteção Civil Preventiva de 2020 até 2030 (integrando todas as áreas de gestão de risco de catástrofe com um plano de financiamento associado e utilizando recursos nacionais e europeus) e concretizar-se-á o Plano de Gestão Integrada de Fogos Rurais (designadamente o programa “aldeia segura”) e salvaguardar-se-á o funcionamento dos serviços públicos e das infraestruturas críticas.
No ambiente e ecologia
O Governo quer abolir os plásticos não reutilizáveis e pretende definir um horizonte próximo, que não concretiza ainda, para a abolição progressiva de outras utilizações do plástico. E quer estimular as empresas a assumirem compromissos voluntários de eliminação ou redução do plástico utilizado nas embalagens de produtos de grande consumo.
Quer ainda tornar obrigatória a separação de resíduos em todos os serviços da Administração Pública e empresas do Estado. E, no âmbito da prevenção de produção de resíduos, pretende lançar um programa nacional, incluindo um plano de comunicação que tenha em consideração diferentes faixas etárias da população. O objetivo é garantir “a reintrodução e a substituição de matérias-primas, numa lógica circular”.
Referindo que Portugal possui um património de flora e fauna bastante rico e diverso, associado a uma grande variedade de ecossistemas, habitats e paisagens, o Programa refere que as alterações climáticas e a atividade humana são fatores que podem desequilibrar este sistema.
Assim, é fundamental atuar na sua proteção ativa, promovendo atividades sociais e económicas cujo objetivo explícito seja a recuperação e regeneração da biodiversidade e, nesse sentido, propõe-se criar um “Provedor do Animal”, promover a cogestão das áreas protegidas, facilitar a visita das áreas protegidas pelos cidadãos, nomeadamente através da “eliminação de restrições excessivas e desproporcionadas que a dificultem” e “promover a fixação das populações residentes em áreas protegidas”, bem como reforçar a prevenção e controlo de espécies exóticas invasoras e de doenças e pragas agrícolas e florestais, em particular nas áreas protegidas e intervir na conservação e de recuperação de espécies (de flora e fauna) e habitats, desenvolvendo programas de apoio ao restauro de serviços dos ecossistemas em risco, assim como de restauro de biodiversidade funcional (como por exemplo polinizadores, plantas medicinais, habitats aquáticos).
            Na violência e discriminação
O Executivo quer “travar o flagelo da violência doméstica”, do namoro e de género e propõe-se “desenvolver um sistema integrado de sinalização de potenciais vítimas e agressores”. Para isso, promove a atuação integrada dos sistemas educativo, de saúde, policial e judiciário e de outros agentes e apostar na prevenção primária. Assim, promete “alargar a Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica, de modo a garantir a cobertura integral do território nacional, oferecendo simultaneamente respostas cada mais especializadas para os vários casos de violência”. E quer “criar um ponto único de contacto para vítimas de violência doméstica, onde seja possível tratar de todas as questões, com garantias de privacidade e assegurando o acompanhamento e a proteção das vítimas”. E o Programa dedica um capítulo ao combate a todas as formas de discriminação e ao reforço do combate ao racismo e xenofobia, incluindo a criação dum observatório do racismo e da xenofobia, bem como a autonomização institucional do combate à discriminação racial do tratamento das questões migratórias.
Na justiça
Uma justiça eficiente, ao serviço do desenvolvimento económico-social, mais próxima dos cidadãos, célere, moderna e acessível é o objetivo do Programa, que recupera várias propostas do anterior executivo socialista e insiste na desmaterialização.
Pretende-se aumentar a transparência e a prestação de contas do serviço público de justiça e contribuir para melhorar a sua qualidade e a eficiência, o que exige celeridade das decisões e um modelo de funcionamento simplificado, bem como a revisão do sistema de custas processuais.
Almeja-se melhor formação dos magistrados, com especial atenção aos crimes de violência doméstica, aos direitos fundamentais, ao direito europeu e à gestão processual.
Pretende-se implementar modelos alternativos ao cumprimento de pena de prisão, reforçar a resposta e o apoio às vítimas de crimes e investir na requalificação e modernização das infraestruturas prisionais e de reinserção social, bem como no acesso a cuidados de saúde dos reclusos, designadamente ao nível da saúde mental. Também se quer a agilizar o tempo de resposta em matéria de perícias forenses, incentivar a composição por acordo entre a vítima e o arguido, aumentar o leque de crimes em que o ofendido pode desistir da queixa e permitir a suspensão provisória do processo para um número mais alargado de crimes.
Defende-se, no cível, a introdução de soluções de constatação de factos por peritos, para evitar o recurso excessivo à prova testemunhal ou a peritagens. Aumentar-se-á o número de julgados de paz e alargar-se-ão as suas competências, nomeadamente para questões de regulação do poder paternal, condomínio e vizinhança.
O aumento da capacidade de resposta dos tribunais administrativos e tributários é outras das medidas, tal como o desenvolvimento de mecanismos de simplificação e agilização processual.
Nos registos públicos é para continuar o reforço da qualidade e da celeridade do serviço, apostando-se na simplificação de procedimentos, balcões únicos e serviços online.
Na gestão e organização de tribunais, aponta-se o reforço das competências de gestão processual e a simplificação da comunicação entre tribunais e outras entidades públicas e com os cidadãos.
Na saúde e 3.ª idade
O Governo criará um mecanismo de reforma a tempo parcial, como forma de promoção do envelhecimento ativo e permanência no mercado laboral, com desagravamento das horas de trabalho e definição de áreas para contratação de cidadãos seniores na Administração Pública, tal como promoverá programas de voluntariado sénior e apoiará iniciativas da sociedade civil.
Também criará formas de atendimento personalizado para cidadãos seniores na prestação de serviços públicos, bem como “aprovar uma estratégia nacional de combate à solidão, prevendo um conjunto diversificado de medidas, ajustadas aos diferentes contextos demográficos e meios socioeconómicos, para atenuar o flagelo social que afeta sobretudo os mais idosos”.
Na saúde para a 3.ª idade, promoverá uma maior integração de cuidados, centrada nas pessoas, através de um plano individual de cuidados que permita o acompanhamento das suas múltiplas patologias de cada paciente e a tomada de decisões partilhadas.
Outro objetivo é dinamizar o ‘cluster’ da saúde, estimulando a inovação e criando condições para alavancar soluções de assistência à autonomia no domicílio, em ligação com a Segurança Social e melhorar as respostas públicas de cuidados domiciliários, designadamente “através da modernização e reforço dos meios ao dispor dos profissionais de saúde que os asseguram”.
Outra promessa é reforçar as respostas de cuidados continuados, em articulação com o setor social e promover respostas de saúde e bem-estar integradas e inteligentes, através da aposta na cooperação entre o SNS (Serviço Nacional de Saúde) e a Segurança Social, bem como reforçar as soluções de transporte de doentes, promovendo parcerias estratégicas entre os serviços centrais e locais de saúde, autarquias e setor social e “investir numa maior literacia em saúde por parte da população com mais de 65 anos de idade, capacitando-a para a gestão da sua saúde e para a utilização efetiva dos recursos e respostas existentes no SNS”. E promete-se proteger os idosos em dependência ou isolamento”, criando um sistema de identificação e sinalização das pessoas vulneráveis e envelhecidas (para vigilância em cuidados de saúde primário). O documento fala em
Desenvolver um sistema integrado de sinalização de idosos isolados, associado a uma garantia de contacto regular, em parceria e estimulando o voluntariado social (…), desenvolver, no âmbito do apoio à dependência, modelos de assistência ambulatória e ao domicílio, em parceria com a saúde”.
Para tanto, propõe-se “criar um novo serviço no SNS, nomeadamente através da utilização de novas tecnologias para a monitorização do estado de saúde de idosos para, numa base estritamente voluntária e com proteção da privacidade, assegurar um acompanhamento de proximidade e de emissão de alertas de urgência à saúde de idosos isolados.
O Governo compromete-se a não fazer nenhuma PPP na gestão clínica dos estabelecimentos de saúde onde ela não exista. E assume que, na saúde, o recurso à contratação de entidades terceiras (privado ou social) é condicionado “à avaliação de necessidade”, em linha com o que defendeu na discussão da Lei Bases da Saúde, diploma em vigor, mas que precisa de ser complementado por diplomas de desenvolvimento e de regulamentação para que se cumpra o desígnio humanista e constitucional de saúde de qualidade para todos. 
Na defesa do consumidor
O Programa integra várias medidas de proteção do consumidor. E é nesta linha que se enquadra a promessa de avaliação do “quadro regulatório das comissões bancárias, assegurando os princípios da transparência ao consumidor e da proporcionalidade face aos serviços efetivamente prestados”. Seguindo esta linha, o Programa promete medidas para “garantir a inexistência de comissões associadas ao levantamento de dinheiro e outros serviços disponibilizados nas Caixas Multibanco”, bem como para prevenir e punir técnicas “agressivas e inapropriadas de vendas e publicidade” potencialmente encorajadoras do sobre-endividamento dos consumidores, tendo em especial atenção os consumidores mais vulneráveis.
Entre as medidas que integram o Programa inclui-se ainda o lançamento de uma plataforma eletrónica que permita a resolução de contratos de telecomunicações, sem necessidade de interação física entre os consumidores e os operadores do setor.
No turismo
O Governo pretende que Portugal seja um destino turístico “sustentável e inteligente” e promete digitalizar a oferta nacional, nas suas diferentes dimensões, das empresas aos serviços, passando pelas “experiências e recursos” e desenvolver um programa de turismo ferroviário. Para tanto, o Programa apresenta uma lista de tarefas para “continuar a apostar no turismo” como forma de aumentar as exportações, incluindo a concretização de uma Estratégia Turismo 2030.
Outra proposta é posicionar Portugal como “país de caminhos cénicos, trilhos e percursos cicláveis”, através dum modelo de gestão de rotas para dar visibilidade aos destinos, bem como da criação duma plataforma nacional para a partilha de conteúdos e de roteiros, realçando a diversidade da oferta, nomeadamente quanto à natureza, património, cultura, tradições, gastronomia, vinhos e realização de eventos.
Serão alargados a imóveis públicos devolutos os programas ‘Revive Património’ e ‘Revive Natura’. Na área da mobilidade dos turistas que visitam o país, o objetivo é implementar o “Passe Portugal”, com ‘seamless experience’, incluindo bilhética e compra.
O Executivo criará um programa nacional de promoção de Portugal como destino LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero e Intersexo), incluir o alemão, o francês e o mandarim nos ‘curricula’ das escolas de turismo e reforçar condições de competitividade de Portugal como destino de filmagens internacionais. E, na lista dos projetos está ainda a concretização de ‘one stop shops’ dedicada às ‘startups’ e empresas do setor para “assegurar uma resposta rápida por parte da Administração Pública a novas realidades”.
O Programa recorda que o turismo é líder no crescimento de exportações, com a subida de 45% das receitas turísticas nos últimos 4 anos, e tem sido poderoso instrumento de posicionamento internacional e de coesão económica, social e territorial. Assim pode ler-se no documento:
Esta aposta e este esforço têm de ser continuados, por públicos e privados, para garantir que Portugal continua a liderar como o destino turístico mais sustentável, autêntico e inovador para viver, investir, trabalhar, estudar e filmar – além do melhor destino para visitar”.
No SEF e imigração
Far-se-ão alterações no SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) para haver separação clara entre as funções policiais e administrativas de documentação de imigrantes. E, além da atuação no combate às redes de tráfico humano na prevenção do terrorismo, diz o Programa:
 Há que reconfigurar a forma como os serviços públicos lidam com o fenómeno da imigração, adotando uma abordagem mais humanista e menos burocrática, em consonância com o objetivo de atração regular e ordenada de mão-de-obra para o desempenho de funções em diferentes setores de atividade. Para este efeito, o Governo irá estabelecer uma separação orgânica muito clara entre as funções policiais e as funções administrativas de autorização e documentação de imigrantes.”.
Assumindo que Portugal precisa do “contributo da imigração” para o seu desenvolvimento económico e demográfico, o Programa apresenta várias medidas para atrair estrangeiros ao país e simplificação de procedimentos, pretendendo criar “canais formais de migração”, desde os países de origem e garantir que os imigrantes “não se transformem em indocumentados ou à margem do sistema”. Neste sentido, é preciso agilizar e simplificar os processos de entrada, eliminar o regime de contingentação do emprego, antecipar um título temporário de curta duração que permita a entrada legal em Portugal de imigrantes com o objetivo de procura de emprego, promover e modernizar convenções de segurança social e simplificar e agilizar os mecanismos de regularização do estatuto de residente, além da concretização de programas de regularização de cidadãos estrangeiros, designadamente através de ações de proximidade junto da comunidade escolar e aprofundando o programa SEF em Movimento.
O Governo reverá o regime de autorização de residência para investimento (vistos Gold), que “passará a ser dirigido preferencialmente às regiões de baixa densidade, ao investimento na criação de emprego e na requalificação urbana e do património cultural”.
O Executivo estudará “a implementação de um cartão de cidadão estrangeiro equiparado ao cartão de cidadão, dispensando as duplicações na apresentação de documentos emitidos por entidades públicas”. E criará um serviço móvel de informação e regularização de imigrantes na área metropolitana de Lisboa e em regiões com elevado número de trabalhadores estrangeiros, simplificando e encurtando os procedimentos de renovação de títulos de residência em Portugal.
No plano da imigração, o Governo criará uma zona de mobilidade e de liberdade de fixação de residência entre os países da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), lançará programas de apoio à captação de quadros qualificados e de empreendedores nas áreas tecnológicas e de alto valor acrescentado e promoverá programas de apoio à captação de estudantes e investigadores estrangeiros pelas instituições de ensino superior portuguesas.
O Programa do XXII Governo Constitucional balança entre a excessiva cautela (não compromisso) e um arrojo que dificilmente será credível. E, sobretudo subvaloriza taticamente “as contas certas”. Mas é o programa com que o Governo se apresenta ao país sem contestação de fundo!
2019.10.30 – Louro de Carvalho

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Recados das estruturas sindicais da educação ao novo Governo


O secretário-geral da FENPROF advertiu que, se o Governo não tomar medidas, vai começar a sentir-se brevemente “uma enorme falta de professores qualificados nas escolas” portuguesas.
Mário Nogueira, que falava numa conferência de imprensa na Escola Secundaria Rainha Santa Isabel, em Coimbra, a 2 de setembro, disse:
Se o Governo não tomar medidas e se o Governo não resolver [o problema do envelhecimento da profissão docente], vai haver uma rutura tremenda, não tarda”.
Segundo aquele dirigente sindical, este ano, apenas até junho, já se aposentaram “mais professores do que no ano inteiro de 2018” e esta “vai ser uma tendência”.
O secretário-geral da FENPROF referiu que, após o 25 de Abril, a democratização do ensino trouxe um aumento exponencial do número de professores ao sistema público de ensino e que agora estão perto da idade de aposentação. E, nesse sentido, vincou:
O número de aposentados anualmente vai aumentar brutalmente e vai haver uma dificuldade enorme em colmatar as faltas”.
Face a essa realidade, o ME (Ministério da Educação) colocou este ano mais professores para se apresentarem nas escolas no 1.º dia útil de setembro do que em 2018 “em todo o 1.º período até 31 de dezembro”, mas há grupos de recrutamento que já “não têm ninguém para as reservas de recrutamento”. Com efeito, a desvalorização da profissão e o ataque permanente aos professores leva os jovens a não quererem ser professores, o que poderá constituir problema a breve trecho.
Como exemplo do envelhecimento da profissão, o secretário-geral da FENPROF apontou o Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, de Coimbra, em que a idade média dos docentes é de 54,4 anos e o número de professores com 65 anos é superior a todos os que têm até 40 anos, que são apenas três (e têm todos 39 anos). E, em dezembro, um professor terá 66 anos.
Na conferência de imprensa, a FENPROF também respondeu ao Primeiro-Ministro, que afirmou numa entrevista recente ao Expresso que estaria disponível para negociar com os professores, desde que estivessem de “bandeira branca” na mão. Ora, como disse Nogueira, “o senhor Primeiro-Ministro já devia saber que os professores não se rendem”. Os professores estão disponíveis a negociar e a dialogar, mas não vão “içar qualquer bandeira branca”, mas içarão as bandeiras de luta dos professores, como adiante se verá, para qualquer negociação com o futuro Governo, após as eleições legislativas de 6 de outubro. Cinco dessas bandeiras constarão num abaixo-assinado e petição que a FENPROF porá a circular nas escolas e que será entregue ao Governo e ao Parlamento que saírem das eleições.
A encabeçar tais exigências vem a recuperação do tempo de serviço que falta contabilizar, seguindo-se a necessidade dum regime específico de aposentação, o combate à precariedade, o fim de abusos nos horários de trabalho dos docentes e um regime de concursos justo.
Todas as bandeiras vão constar do Caderno Reivindicativo dos Professores e Educadores, que deverá ser aprovado no próximo dia 6, no Conselho Nacional da FENPROF. 
Durante a conferência de imprensa, Nogueira apelou à mobilização dos professores para a manifestação nacional em Lisboa convocada para 5 de outubro, um dia antes das legislativas, Dia Mundial do Professor.
***
Abriu mais um ano escolar (2019/2020) e no dia em que cerca de 150.000 professores se apresentaram nas escolas (públicas e privadas), a FENPROF decidiu aproveitar a Conferência de Imprensa para saudar todos os professores e professoras, lembrando que este ano tem início, num momento muito importante da vida nacional, a realização de eleições legislativas dentro de pouco mais de 1 mês, o que significa que viveremos um período em que os professores terão de se fazer ouvir, exigindo aos políticos e aos partidos que eles representam esclarecimentos e compromissos para o futuro, que resultem em medidas concretas.
São conhecidos os problemas que afetam os professores e as escolas. Muitos são velhos, enquanto outros são de agora, sendo o mais recente o processo de municipalização que ora se abate sobre as escolas e agrupamentos de 73 municípios do continente (A Câmara Municipal de Lisboa encabeça a lista de municípios envolvidos), sem que professores e as comunidades educativas, tivessem sido ouvidos na decisão.
Lendo atentamente a entrevista de verão de António Costa, percebem-se os recados que deixou aos professores, um dos grupos profissionais mais maltratados pelo Governo que, pela voz do Primeiro-Ministro, em 3 de maio (há 3 meses), ameaçou demitir-se se a Assembleia da República, num ato de justiça para com os professores, aprovasse a recuperação dos 9 anos, 4 meses e 2 dias de tempo de serviço que esteve congelado. Nessa entrevista, Costa afirmou que, se continuar a governar, negociará com os professores, mas com estes de bandeira branca levantada. Ora, a bandeira branca está associada a rendição e o Primeiro-Ministro já devia saber que os professores não se rendem.
Os professores estão disponíveis para dialogar e negociar, mas em vez da bandeira branca, içarão as suas bandeiras, que, podendo ter fundo branco, são todas bandeiras de luta.
A Bandeira n.º 1, que também é crachá, a da recuperação do tempo de serviço em falta para se contabilizarem totalmente os 9A 4M 2D dos congelamentos. Faltam 6A 6M 23D. É uma medida essencial para a recomposição da carreira, que exige a limpeza dos problemas que provocam ultrapassagens ou impedem muitíssimos professores de atingirem o topo da carreira docente.
A Bandeira n.º 2, a da aposentação, que exige a aprovação dum regime específico de aposentação para os docentes. É uma medida urgente que contribuirá para o rejuvenescimento duma profissão que, recorrentemente, se considera envelhecida.
A Bandeira n.º 3, a da exigência de eliminação de todos os abusos e ilegalidades que afetam os horários de trabalho, impondo, em média, mais de 48 horas semanais de atividade. O ME e as escolas têm de cumprir a lei, garantindo que o horário dos docentes é de 35 horas semanais.
A Bandeira n.º 4, a do combate à precariedade. As colocações de 16 de agosto provaram que o número de docentes que se vincularam nos últimos 4 anos (cerca de 7 000) ficou muito abaixo do possível. Mais de 15 000 professores (13 000 dos quadros de zona pedagógica e 2 100 por renovação e contrato) foram colocados na escola em que se encontravam. Ora, se há necessidades permanentes porque não se abrem vagas nos quadros, que estão subdimensionados? Ademais, os últimos 542 docentes que integram os quadros de zona pedagógica têm, em média, 44 anos de idade e 15 de serviço, o que confirma que o Estado continua a abusar da contratação a termo, violando diretivas da UE que só intervém para desviar dinheiro para a banca.
A Bandeira n.º 5, a dos concursos justos para eliminar uma injustiça grave, a ultrapassagem de professores por outros com menos graduação. Por isso, reivindicam-se concursos nacionais que, em todas as suas fases e modalidades, respeitem a graduação profissional dos docentes.
Como foi dito, estas 5 bandeiras constam dum Abaixo-Assinado e Petição  a circular nas escolas. O Abaixo-Assinado e a Petição serão entregues ao Governo e ao Parlamento que saírem das eleições, deixando claras as posições e reivindicações dos docentes sobre a profissão e a necessidade de serem tomadas medidas que valorizem e melhorem as condições de trabalho.
Porém, os professores também lutam pela valorização da Escola Pública e por uma Educação de qualidade, razão por que levantarão mais outras bandeiras de luta, tais como:
A Bandeira n.º 6, a da gestão democrática, condição para uma melhor Escola Pública. Se a escola não se organiza democraticamente, como formará cidadãos democratas?
A Bandeira n.º 7, a do combate à municipalização, processo que terá difícil retorno e porá em causa direitos como o da igualdade de oportunidades, levará a que se acentuem assimetrias, reduzirá a autonomia das escolas abrindo portas a ingerências na sua organização interna e potenciará vias de privatização da Escola Pública. O protesto dos docentes que trabalham nesses concelhos atingidos prevê-se que venha a ser redobrado;
A Bandeira n.º 8, a da educação verdadeiramente inclusiva, que deve traduzir-se no respeito por todas as diferenças, o que exige que as escolas sejam dotadas dos recursos adequados para garantir a todas as crianças e jovens oportunidades semelhantes no acesso à escola e no sucesso escolar e educativo. O regime de educação inclusiva que vigente não dá essa garantia.
Outras bandeiras serão içadas pelos professores ao longo do ano e da legislatura. Todas constarão do Caderno Reivindicativo dos Professores e Educadores que será aprovado esta semana pelo Conselho Nacional da FENPROF. Tem estado em discussão pelos Sindicatos de Professores e será aprovado para que chegue ao conhecimento dos partidos políticos ainda antes das eleições. E será entregue ao novo Ministro da Educação logo que este tome posse.
E a FENPROF levanta orgulhosamente a Bandeira n.º 9, já que, por via dos seus sindicatos regionais, é a mais representativa organização sindical de docentes em Portugal, representando, em negociação e luta, a esmagadora maioria dos professores e educadores, sem se render ou baixar os braços sempre que estão em causa os legítimos direitos dos professores e educadores ou a qualidade da Escola Pública.
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Também a FNE, considerando “francamente negativa” para a educação a legislatura que está prestes a terminar, propõe 10 medidas para o novo Governo aplicar nos primeiros cem dias.
Em conferência de imprensa, o secretário-geral da FNE, João Dias da Silva, adiantou que a plataforma sindical fez um balanço “francamente negativo” da legislatura no atinente ao trabalho feito em matéria de educação, tendo elaborado um roteiro para a próxima legislatura, um “contributo que a FNE quer dar aos partidos políticos para o tempo de campanha eleitoral”. E diz o dirigente sindical:
Constituirá também o documento que entregaremos ao Governo no momento em que estiver constituído, na sequência das eleições de 06 de outubro”.
Para Dias da Silva, o balanço negativo prende-se com a “ausência de medidas que permitissem que neste tempo [tivessem] atingido os níveis indispensáveis de valorização dos educadores de infância, dos professores de todos os setores de ensino e dos trabalhadores não docentes”.
O roteiro para a legislatura traz 38 áreas de intervenção no sistema educativo que “devem ser analisadas e trabalhadas” ao longo da próxima legislatura, além de 10 medidas que a FNE entende que “devem ser adotadas ao longo dos primeiros cem dias. Uma dessas medidas é voltar à mesa das negociações para definir a forma e o prazo para a recuperação do tempo em falta do total dos 9 anos, 4 meses e 2 dias que estiveram congelados. E quer a FNE que seja iniciado o processo negocial para o restabelecimento das carreiras especiais de não docentes, uma exigência que a presidente do STAAE (Sindicato dos Técnicos, Assistentes e Auxiliares de Educação) da Zona Norte apontou que já foi “falada e negociada” e que justificou com o facto de estes profissionais trabalharem especificamente com crianças e jovens.
Maria Adelaide Lobo acusou o Governo de não ter cumprido com nenhuma das promessas feitas e apontou que o trabalho destas pessoas é “subestimado e invisível nas escolas”, apesar de ser “fundamental para criar condições para a aprendizagem dos alunos e para que os professores possam fazer o seu trabalho”.
Outra das medidas tem a ver com o ensino do português no estrangeiro, sendo que a FNE quer uma revisão do regime jurídico aplicável. A representante do SPCL (Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas) disse que o ensino do português no estrangeiro tem sido “tão maltratado”, “esquecido” e “pouco dignificado”, que “atualmente está em metade da sua dimensão”. Segundo Maria Teresa Duarte Soares, os alunos são discriminados porque lhes é exigido o pagamento duma propina, ao invés do que acontece com os alunos estrangeiros que, entre nós, aprendem português como língua estrangeira de forma gratuita.
Criticou também que os professores que ensinam português no estrangeiro não se possam candidatar em pé de igualdade com os professores em Portugal.
Entre as restantes medidas estão a negociação para a aposentação sem penalizações, a revisão da dimensão geográfica dos Quadros de Zona Pedagógica ou o fim da precariedade dos vínculos laborais nas instituições do ensino superior.
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Em documento intitulado “Para um tempo de esperança e de confiança”, em que saúda os docentes, os trabalhadores não docentes, os alunos e os pais e encarregados de educação, a FNE coloca-se ao lado dos trabalhadores das escolas para, que nos tempos que se avizinham, se possa definir em conjunto carreiras atrativas e valorizadas.
O início do novo ano letivo coincide praticamente com a campanha eleitoral que prepara as eleições de que resultará o quadro parlamentar da Legislatura de 2019-2023, quadro que deve constituir uma oportunidade para que se encerre o ciclo que tem marcado negativamente o desenvolvimento das carreiras em Educação e que se atinjam os níveis de reconhecimento compatíveis com as exigências e responsabilidades que estão atribuídas às escolas.
Sendo preciso retomar a esperança e a confiança e fazer com que as escolas sejam espaços de desenvolvimento profissional atrativos e aliciantes, “teremos todos de ser exigentes em relação a um sistema educativo de qualidade que responda aos desafios duma sociedade qualificada, democrática e sustentável”, pois “não haverá sistema educativo de qualidade sem aposta no reconhecimento e na valorização dos seus profissionais”. E, seja qual for o quadro que os resultados eleitorais definirem, a FNE será exigente em relação aos objetivos, assumindo uma atitude negocial construtiva, mas que não abdicará da promoção intransigente de condições dignas de trabalho e de desenvolvimento justo e atrativo das carreiras no setor.
Neste contexto, a saudação da FNE é um compromisso para a disponibilidade para a ação e um apelo à intervenção e participação de todos nas iniciativas que se justificarem para dar expressão ao que deve ser o reconhecimento do trabalho que desenvolvemos nas escolas.
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Está dado o lamiré sindical ao novo Governo. Espera-se que não faça orelhas moucas como sói.
2019.09.03 – Louro de Carvalho

domingo, 27 de maio de 2018

O que fica do 22.º Congresso do PS


O 22.º Congresso do PS, que decorreu no Salão de Exposições na Batalha, distrito de Leiria, entre os dias 25 e 27 de maio, foi marcado pela história de 45 anos do partido, com homenagens a Mário Soares e a António Anaut, bem como pelo elogio às políticas inovadoras (nos âmbitos temático, económico, social e tecnológico) dos governos socialistas anteriores e, ainda, pela emergência dum certo delfinado e pelo debate ideológico sobre a posição política que o PS está a tomar.
Pensava-se que Sócrates seria o ausente de quem se falaria sem o mencionar e que não se resolveria politicamente, de forma adequada, o caso de justiça que o ex-filiado enfrenta. E assim sucedeu. Com efeito, a fotografia assomou no painel dos líderes e, sem que o seu nome fosse pronunciado, as suas políticas de governação foram elogiadas – o que, a meu ver, pecou pela generalização e por não ter sido feita a necessária e suficiente ressalva de erros eventualmente cometidos e assegurada a solidariedade, neles como nos méritos, por parte dos colaboradores. Por outro lado, diversos oradores içaram várias bandeiras do PS, tais como o combate à corrupção, a promoção da transparência, a capacidade de governar em prol dos portugueses sem deixar de satisfazer as exigências da UE e da zona Euro, o saneamento das contas públicas o crescimento da economia e alguma reposição salarial e do rendimento.
Concedendo que tudo isso tem uma boa fatia de verdade, deve dizer-se, contudo, que alguns dos temas são problemáticos para o partido do Governo. Por exemplo, dizer abertamente e sem reticências que o combate à corrupção está no ADN do PS hoje soa a oco com os conhecidos casos sobre a mesa da comunicação social e da justiça. E sente-se a pedra no sapato quando se ouve falar na transparência face a casos como o do Ministro-Adjunto ou o do Secretário de Estado da Juventude e Desporto. Depois, saber governar com a Europa e equilibrar as contas também a direita diz tê-lo feito. Quanto à reposição salarial e de rendimentos e ao crescimento da economia, é certo que houve avanços consideráveis, mas sabe tudo a muito pouco. Os cortes foram tão profundos a nível salarial e fiscal que a reposição feita não passa dum paliativo.
Também não vale a pena discutir a hodierna posição ideológica do partido (que o partido tem todo o direito a fazer), sem resolver politicamente a avaliação da governança socrática (Santos Silva ensaiou o exercício e invocou o patrono, mas foi nos corredores para os jornalistas) – deem as voltas que derem. O apelo de Ana Gomes está por cumprir, embora valha a pena ler e reler o seu discurso com a sua colocação sustentável à esquerda e não suportada no estribilho de que em equipa que funciona não se mexe, ouvido no consistório em que emergiram como potenciais delfins Fernando Medina, Pedro Santos e Ana Catarina Mendes.   
Acresce referir que um dos temas falados no Congresso foi o da proximidade do salário mínimo (que atualmente está em 580 euros) em relação ao salário médio. A abordagem correu por conta do dirigente sindical José Abraão, que defendeu o descongelamento salarial no Estado em 2019.
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Tecidas estas considerações, parece conveniente olhar para as reações dos partidos ao Congresso do PS, dado que os respetivos representantes participaram na festa de encerramento.
Para o PSD, que ora se perfila para acordos temáticos ora elege o Governo socialista como seu adversário de luxo, os socialistas estão a enveredar por uma via que Soares sempre recusou”. Morais Sarmento,  um dos vice-presidentes do PSD, sustentando que os socialistas estão a afirmar “um caminho que Mário Soares sempre recusou”, de “viragem à esquerda”, defende que seria melhor um PS “sem dependências, coligações ou prisões”. Disse o dirigente político: aos jornalistas:
Era melhor que o PS, que prestou homenagem ao seu fundador Mário Soares, mas que neste Congresso afirma um caminho que Mário Soares sempre recusou, era mais importante, porventura, que reafirmasse o seu próprio caminho, como nos habituámos a ver: sem dependências, coligações ou prisões a quaisquer outros partidos”.
Também considerou que o Congresso se dedicou mais a “discutir o futuro do PS do que o futuro de Portugal” e lamentou “a reafirmação de uma viragem à esquerda como sendo uma opção que se deseja repetir por muitos e bons anos”.
Por sua vez, o vice-presidente do CDS-PP Nuno Melo comentou com ironia o congresso do PS, apontando para um reino da fantasia, e associou o Governo de Costa ao passado e a Sócrates.
Ouvido o discurso do Secretário-Geral, o centrista frisou que, no executivo socialista , à exceção de Sócrates, estão lá “os mesmos ministros, os mesmos secretários de Estado, os mesmos assessores que até 2011 arruinaram as contas públicas do país e trouxeram a ‘troika’”. E assinalou o facto de “um dos maiores aplausos” do congresso ter sido para Sócrates, o líder que deu a primeira maioria absoluta ao PS, foi Primeiro-Ministro e é acusado no Processo Marquês.
De entre os partidos que apoiam o Governo no Parlamento, o Bloco de Esquerda, pela voz da eurodeputada Marisa Matias, afirmou estar sempre disponível para convergir com o PS, mas avisou que é “equação impossível” tratar melhor os portugueses e responder “obsessivamente” às metas de Bruxelas. Afirmou Marisa Matias:
Estamos sempre disponíveis para convergir com o PS naquilo que melhorar a vida dos portugueses, mas obviamente precisamos de investimento e, para termos investimento, para podermos incrementar essas medidas, precisamos de enfrentar muito diretamente aquilo que são as normas e as regras que são impostas por Bruxelas, que não nos deixam investir e não nos deixam melhorar a condição de vida das pessoas”.
Por seu turno, o PCP acusou o PS de continuar “amarrado às submissões do grande capital” e da Europa e alertou para os riscos duma maioria absoluta dos socialistas nas próximas legislativas.
O porta-voz da crítica comunista, Carlos Gonçalves, da comissão política do PCP, vincou:
Este congresso, no mais fundamental, confirma que o PS permanece amarrado a um conjunto de submissões ao grande capital e à União Europeia, que têm impedido de resolver alguns dos problemas nacionais”.
Além do mais, Carlos Gonçalves não acredita que, se o PS estivesse sozinho do Governo desde 2016, tivessem sido alcançados “avanços, conquistas, recuperação de rendimentos e de direitos” nos últimos dois anos e meio.
José Luís Ferreira,  pelo Partido Ecologista “Os Verdes”, disse esperar que “haja sintonia” entre o que disse Costa e as posições dos socialistas na Assembleia da República. E declarou:
Quando falamos de mais democracia, veremos se há sintonia quando se discutir a proposta para repor as freguesias extintas pelo anterior Governo, do PSD/CDS; quando falamos de mais justiça social, vamos ver como é que o PS se vai posicionar quando discutirmos a necessidade de valorizar os salários e os aumentos salariais ou a necessidade de investir nos serviços públicos, nomeadamente na saúde e na educação”.
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Do sermão do líder do PS no encerramento ressalta a pretensão de as empresas pagarem salários mais altos e de acordo na concertação social a permitir fixar horários de trabalho diferentes ao longo da vida. O escopo é criar condições para a geração entre os 20 e os 30 anos ficar no país. 
Depois do aumento do salário mínimo, o Governo quer ver o salário médio a subir. Porém, o Primeiro-Ministro coloca a responsabilidade nos empresários, não dando para já qualquer sinal sobre o descongelamento salarial no Estado. A este respeito, disse Costa:
Não podemos convergir só para a UE na estabilidade das finanças públicas e no crescimento. Temos de convergir também do ponto de vista social e salarial.”.
O Secretário-Geral sabe que este objetivo “não é para amanhã”, mas este é o caminho que quer seguir. “É um debate que temos de ter com o tecido empresarial”.
Segundo dados do Ministério do Trabalho e Segurança Social, em abril de 2017, a remuneração base era de 970,88 euros. Este é o salário médio para trabalhadores por conta de outrem apenas no setor privado (mas não cobrindo todas as atividades).
O líder socialista não explicou como pretende atingir o objetivo, mas deixou algumas pistas sobre a forma como Estado pode contribuir para uma decisão que não é sua. As empresas só são mais competitivas se investirem na modernização, para o que precisam de ter “quadros mais qualificados a quem têm de pagar mais”. Sustentou que, só “aumentando o conhecimento, ajudamos” e “passo a passo vamos avançando”. Disse que “este ano já abrimos um concurso onde já apoiámos mais de 1000 projetos de investigação”, vincando que o empreendedorismo desempenha também aqui um papel essencial. De facto, quem cria um negócio novo e inovador cria “emprego para si, para os outros e de melhor qualidade”, afirmou, elegendo este como mais um instrumento para o aumento dos salários.
Além disso, disse que “temos de procurar construir um grande acordo de concertação social para a conciliação da vida pessoal com a vida profissional”, sendo que este tema “implica sermos inventivos”. E apontou como medida que permita concretizar este objetivo “uma nova forma de modelação dos horários de trabalho ao longo da vida (…) para que trabalhar e ter família não seja algo inconciliável”.
Pensa o Secretário-Geral do PS dar, com medidas deste género, resposta a um dos desafios que se colocam no futuro e que está presente na sua moção que trouxe ao congresso socialista e que foi aprovada: ajudar a combater o problema da demografia.
Outra das questões a que o Primeiro-Ministro quer da resposta é a da emigração. Costa quer dar condições para voltar a quem saiu do país no período da troika. E, neste âmbito, anunciou:
Para o PS uma das principais prioridades do OE 2019 vai ser um programa que fomente o regresso dos jovens que partiram”.
Costa lembrou o trabalho feito e os resultados obtidos: a economia criou quase 300 mil postos de trabalho e o Governo tem proposta de redução da precariedade, para que “ser candidato a primeiro emprego não signifique ser candidato a emprego precário”.
Num discurso voltado para os jovens, o Chefe do Governo fechou o congresso com uma mensagem mais dirigida a questões sociais, depois de a tónica dos dois primeiros dias ter sido o sucesso dos resultados alcançados no défice e no crescimento económico. Disse Costa:
Um dos números que mais fixam do nosso sucesso é o 0,9% do défice [em 2017, o défice mais baixo da democracia]. Mas o que mais me orgulha é termos conseguido que a taxa de abandono escolar precoce tenha descido de 14% para 12%.”.
E referiu o crescimento do número de novos alunos no ensino superior, entre outros indicadores.
Depois dum congresso que debateu a posição ideológica sobre do PS, estando a governar com parceiros à esquerda e assinar acordos com o PSD, Costa afastou a discussão e centrou o discurso de encerramento em medidas e políticas públicas. Porém, deixou aviso para dentro do partido, depois de terem surgido potenciais sucessores: “Não meti os papéis para a reforma”.
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Por mais tíbio que tenha sido o consistório do PS, é desejável que as medidas ali equacionadas não fiquem no papel, mas se tornem projeto com pernas para andar e sem atraso.
2018.05.27 – Louro de Carvalho