segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Precisamos da sabedoria


A liturgia do 23.º domingo do Tempo Comum no Ano insta à consciência de quanto é exigente o caminho do “Reino”. Optar por ele não é escolher um caminho de facilidade, mas dispor-se percorrer um caminho de renúncia e de dádiva da vida.
Na 1.ª leitura (Sb 9,13-19) foi extraída do Livro da Sabedoria, um livro sapiencial (que pretende transmitir a “sabedoria”, enquanto arte de bem viver), o autor apresenta-se como um rei apaixonado pela sabedoria e que construiu um templo na “montanha santa” e um altar na “cidade da habitação de Deus” (Sb 9,6-8). O autor quer assumir a sabedoria e a munificência de Salomão. Porém, Salomão é da primeira metade do século X a.C. e o livro foi escrito em grego na primeira metade do século I a.C. por um judeu piedoso pertencente à comunidade judaica de Alexandria. O autor dirige-se aos seus compatriotas, mergulhados no paganismo, na idolatria e na imoralidade e mostra-lhes as vantagens de perseverar na fé e de viver na justiça; e dirige-se aos pagãos e apresenta-lhes a superioridade da fé e valores israelitas. Exprime-se em termos e conceções do mundo helénico, esforçando-se por expor a sua fé e convicções numa linguagem atualizada, erudita, bem ao gosto da cultura grega epocal.
O texto desta dominga é o final da segunda parte do livro, em que o autor põe na boca dum rei (Salomão, embora o nome não seja explicitado) o elogio da sabedoria.
A tese é: só a sabedoria, que é dom de Deus, permite ao homem compreender tudo, fazer o que agrada a Deus e ser salvo. Partindo da consciência da finitude, limitações e dificuldades típicas dos seres humanos, conclui-se que, por nós, não conseguimos compreender o alcance das coisas divinas, não conseguimos descobrir o verdadeiro sentido da nossa vida, não nos apercebemos dos valores que nos levam pelo caminho da vida. Por isso, o homem tem de acolher a sabedoria, dom de Deus para todos aqueles que estão interessados em dar um verdadeiro sentido à sua vida. Só a ação de Deus que derrama sobre nós a sabedoria permite encontrar o sentido da vida e discernir entre a verdade e a falsidade, o essencial e o acessório, o importante e o inútil.
Para exame e levantamento interior da nossa vida cristã, precisamos do Espírito de Deus. Isso sentiu-o Salomão, quando se decidiu pela construção do Templo de Jerusalém:
Quem conheceu, Senhor, os teus desígnios sem que lhe tivesses dado a Sabedoria, sem que, do alto, lhe tivesses enviado o teu Santo Espírito? Assim se endireitaram os caminhos dos habitantes da terra, e os homens foram instruídos no que é do teu agrado e se salvaram pela Sabedoria.” (Sb 9,17-18).
Com a luz do Espírito Santo veremos os nossos caminhos, com a Sua graça, fá-los-emos coincidir com o caminho dos discípulos de Cristo, que é o próprio Cristo. E, ao fazê-lo, entenderemos melhor a exigência do Evangelho, que parece de extrema dureza. É que a opção por Jesus Cristo de tal modo enche e realiza uma vida, que outro valor qualquer nos parecerá supérfluo ou impeditivo. Mas Cristo não diz que o amor dos pais, da esposa, dos filhos, dos irmãos ou da própria vida não seja bem estimável, mas faz-nos saber que ser Seu discípulo é um bem maior ao qual os outros devem ser subordinados e sacrificados, se e quando necessário.
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É, sobretudo, o Evangelho (Lc 14,25-33) que traça as coordenadas do “caminho do discípulo”: um caminho em que o “Reino” deve ter a primazia sobre as pessoas que amamos, os nossos bens, os próprios interesses e projetos pessoais. Quem tomar contacto com a proposta de Jesus tem de pensar seriamente se a quer acolher, se tem forças para a acolher, pois Jesus não admite meios-termos: ou se aceita o Reino e se embarca nessa aventura a tempo inteiro e “a fundo perdido”, ou não vale a pena começar porque não é um caminho que se percorra com hesitações, tibiezas e oscilações.
A perícopa evangélica desta dominga situa-nos ainda no caminho para Jerusalém. Jesus dirige-se às multidões, ou seja, a todos os seus discípulos presentes e futuros.
Se a parábola anterior sugerira a abertura do banquete do Reino a todos os que aceitassem o convite de Jesus, inclusive os pobres, estropiados, cegos e coxo, agora, Lucas apresenta algumas exigências feitas a todos aqueles que entram no banquete do Reino. A instrução reúne diversos ensinamentos de Jesus sobre a condição de discípulo.
As exigências fundamentais para quem quer seguir o caminho do discípulo e sentar-se à mesa do Reino são três e todas subordinadas ao tema da renúncia.
Em primeiro lugar, vem a preferência por Jesus sobre a própria família. Lucas põe na boca de Jesus um fraseado muito forte. Literalmente, o verbo “miséô” quer dizer “odiar”. Ora, para ser discípulo, não é preciso odiar alguém. Segundo o modo oriental de falar, “odiar” significa “pôr em segundo lugar algo porque apareceu na vida da pessoa um valor que ainda é mais importante”. É evidente que Jesus não pede o ódio a ninguém, muito menos a esses a quem nos ligam laços de amor. Contudo, exige que as relações familiares não nos impeçam de aderir ao Reino. Se for necessário escolher, a prioridade deve ser o Reino.
A segunda exigência comporta a renúncia à própria vida. O discípulo não pode viver a fazer opções egoístas, colocando em primeiro lugar os seus interesses, o que é melhor para si, mas tem de colocar a vida ao serviço do Reino e fazer da vida um dom de amor aos irmãos, se necessário até à morte. Foi esse o caminho de Jesus; e o discípulo deve imitar o mestre.
A terceira exigência postula a renúncia aos bens. Jesus sabe que os bens podem transformar-se em deuses, tornando-se uma prioridade, escravizando o homem e levando-o a viver em função deles e, assim, fica nulo o espaço para o Reino. Além disso, dar prioridade aos bens significa viver de forma egoísta, esquecendo as necessidades dos irmãos; ora, viver na dinâmica do Reino implica viver na dádiva e deixar que a vida seja dirigida pela lógica de amor e de partilha.
Com estas exigências, torna-se claro que a opção pelo Reino não abre uma rota de facilidade e, por isso, talvez não seja caminho que todos aceitem. Por isso, Jesus recomenda a ponderação das implicações e as consequências da opção. É uma atitude sábia e de prudência. A parábola do homem que, antes de construir uma torre, pensa se tem com que terminá-la e a parábola do rei que, antes de partir para a guerra, pensa se pode opor-se a outro rei com forças superiores convidam os aspirantes ao discipulado a tomarem consciência da sua força, vontade e capacidade de decisão em corresponder aos desafios do Evangelho e em assumir, com radicalidade, as exigências do Reino.
Dito de outro modo, devemos saber que bagagem é necessária no percurso indicado por Jesus. Na base tem de estar a opção por Cristo como nosso modelo, pondo em segundo lugar tudo o mais. Enquanto as nossas relações com Ele forem apenas de amizade e não de amor, não serão suficientes para nos mantermos fiéis ao Batismo nem para dar a própria vida. Depois, é preciso aceitar o Evangelho como critério de vida: façamos o que fizermos, estejamos onde estivermos, mesmo adotando o ideário dum partido político. Ora, muitos nem a letra do Evangelho conhecem, quanto mais o seu espírito e as implicações práticas que ele supõe. Ao mesmo tempo, temos de saber iluminar com o Evangelho os problemas que vão surgindo. Para isso, é preciso conhecer a doutrina da Igreja e especialmente os documentos sociais, onde nos aparecem critérios de atuação cristã na vida da sociedade a que pertencemos. Por fim e sobretudo, é necessária a capacidade de sacrifício e de cruz. “Quem não carrega com a própria cruz para Me seguir, não pode ser Meu discípulo” (Lc 14,27) – cruz que, em muitos casos, pode ser a perseguição, a prisão, as torturas, o exílio e a morte; cruz como a de Paulo que, após ter sofrido toda a espécie de perseguições e de torturas, aparece hoje como “prisioneiro por amor de Cristo Jesus” mas a interceder por um escravo (2.ª leitura: Flm 9b-10.12-17) e mais tarde será martirizado por se manter fiel a Cristo e à causa do Evangelho.
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A partir dos dados da Carta a Filémon, um membro destacado da Igreja de Colossos, a mais breve e pessoal das cartas paulinas, podem reconstruir-se as circunstâncias do texto. Onésimo, escravo de Filémon, fugiu de casa do seu senhor. E, encontrando Paulo, ligou-se a ele e tornou-se cristão. Paulo, que estava na prisão, fê-lo seu colaborador e manteve-o junto de si. Ora, a situação era delicada se Filémon agisse judicialmente contra Paulo, pois, do ângulo da legalidade, ao dar guarida a um escravo fugitivo, Paulo era cúmplice de uma infracção grave ao direito privado e Onésimo poderia ser preso, devolvido ao seu senhor e severamente castigado.
Por isso, Paulo resolve enviar Onésimo a Filémon e manda por Onésimo uma cartinha em que explica a situação e intercede pelo escravo fugitivo. Com inteira delicadeza, Paulo insinua a Filémon que, sendo possível, lhe devolva Onésimo, já que este lhe vem sendo de grande utilidade; no entanto, sugere, sem impor, deixando a decisão nas mãos de Filémon.
A carta é um verdadeiro exemplar de afeto e tacto humano.
O que está em causa é muito mais do que um problema privado, embora com alcance social; é, um problema eclesial com implicações sociais, que deve ser resolvido a partir do valor supremo da ética cristã que é o amor.
Para Paulo, o amor deve ser a suprema e irrenunciável norma que dirige e condiciona as palavras, os comportamentos, as decisões dos crentes. Ora, o amor tem consequências práticas, que os membros da comunidade cristã não podem olvidar: implica ver em cada homem um irmão independentemente da raça, cor ou estatuto social. Nesta ótica, é plausível que Paulo solicite a Filémon que receba Onésimo não como o que era antes, um escravo, mas como é agora – um irmão em Cristo. Se Filémon é, de facto, cristão, é essa a atitude que deve assumir para com Onésimo. Assim, a carta é lição de sabedoria e de coerência de vida com a doutrina.
O problema da escravatura pôs-se muito cedo à comunidade eclesial. Porém, os cristãos perceberam que a solução não estava na violência ou na revolta, mas em levar até às últimas consequências a fraternidade que resulta do facto de todos sermos filhos de Deus e irmãos em Cristo. A violência serviria para substituir uns escravos por outros, sem alterar a situação; só o amor poderia mudar o coração dos homens, de forma a acabar com a exploração do homem pelo outro homem. O amor (necessário para integrar a comunidade eclesial) exige o reconhecimento da igualdade fundamental de todos (“sem distinção entre judeu ou grego, entre escravo ou homem livre, entre homem ou mulher, porque todos são um só em Cristo Jesus”, dirá Paulo – Gl 3,28). A partir do amor, o dono do escravo descobre a igualdade de todos os homens, filhos do mesmo Deus e irmãos em Cristo; e o escravo descobre a afirmação clara da sua dignidade de homem.
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Viver a vida segundo as exigências da fé não é fácil nos nossos dias. Muitas vezes é necessário parar e refletir sobre o sentido e orientação da nossa vida.
Em pleno século XXI o homem tem cada vez mais consciência do seu poder. O crescente domínio sobre a ciência e a técnica levam-no à convicção de que, de descoberta em descoberta, poderá dominar todas as forças do mundo e até a própria vida humana. Só que a ciência é uma espada de dois gumes e uma mesma descoberta pode ser aplicada para salvar a humanidade ou para a destruir. A título de exemplo, temos a energia nuclear e a sua aplicação na construção de engenhos de destruição em massa e a sua aplicação no tratamento de doenças até há bem pouco tempo consideradas incuráveis. Está na mão do homem a sua aplicação num ou noutro campo. E a verdade é que este, cada vez mais consciente do seu poder, tem dificuldade em aceitar a sua limitação e incapacidade ante dos problemas fundamentais da vida. Até onde lhe é permitido ir?
Quantas e quantas vezes, sob a pressão do meio ambiente, a ambição e a vertigem do êxito o envolvem por completo, levando-o a pôr de lado princípios básicos dos quais nunca deveria abdicar, sob pena de se atraiçoar a si próprio, como homem e como cristão. É o enriquecer sem limite, à custa do seu semelhante; é o conseguir uma posição pública, social ou política de destaque, quantas vezes pisando os direitos dos que se lhe cruzam no caminho; é o preferir a comodidade, o bem-estar, a paz pobre em que tantas vezes vegeta, a lançar-se no desafio da luta por algo mais nobre. Poderá o homem ter a tentação de se convencer que domina o mundo, mas nunca se poderá realizar plenamente à margem de Deus. Só em Cristo, morto e ressuscitado, ele encontrará resposta às mais profundas interrogações e aspirações, à realização pessoal.
Precisamos da sabedoria ou sapiência como dom do Espírito Santo para fazermos correto e frutuoso discernimento.
2019.09.08 – Louro de Carvalho

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