segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Porque tinha fome…


Há uns meses, em conversa com uns amigos, um deles atirava que o filho pródigo de que fala o Evangelho de Lucas se decidiu a voltar para a casa paterna, não por estar arrependido, mas porque tinha fome. Mais dizia que um professor da UCP referira que, se um aluno em exame afirmasse que o pródigo voltara movido pelo arrependimento, o reprovaria.
É provável que essa promessa de reprovação será mais uma força de expressão que uma hipótese a levar a sério.
Têm-se feito muitos comentários a esta passagem evangélica (Lc 15,11-32) – e eu tenho feito alguns –, mas há sempre alguma coisa que fica por dizer. E, como o Evangelho deste 24.º domingo do Tempo Comum no Ano C, na forma longa, é todo o capítulo 15 de Lucas, será pertinente mais um comentário.
Antes de mais, é preciso não esquecer que o capítulo apresenta três faces da parábola da Misericórdia divina no contexto dítono dos que se aproximavam de Jesus: os publicanos e pecadores, tradicionalmente conotados com o perfil do irmão mais novo, iam ter com Jesus para O ouvirem; e os fariseus e os doutores da Lei, conotados com o perfil do irmão mais velho, o cumpridor, murmuravam entre si escandalizados: “Este acolhe os pecadores e come com eles”.
A acirrar o escândalo de uns e a saciar a sede espiritual de outros, Jesus conta três episódios parabólicos cujo protagonista é sempre Deus: na figura de pastor, na figura da mulher pobre e na figura do Pai que tinha dois filhos. Mal foi o episódio parabólico mais extenso ter ficado reduzido ao filho pródigo, que existe, mas que não é o único mal comportado, relegando-se a figura do Pai para segundo plano. De facto, é o episódio do Pai que tem dois filhos ou do Pai compassivo, que está entre o grande amor que tem pelos filhos e a liberdade deles, que respeita até às últimas consequências.
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O episódio do pastor começa com uma pergunta interpelante a todos:
Quem de entre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar?”.  
Mateus insere o episódio da ovelha perdida no quadro das instruções aos apóstolos acerca das suas obrigações como pastores da Igreja (vd Mt 18,12-14), ao passo que Lucas utiliza o episódio para responder ao pretenso escândalo de Jesus em receber os pecadores. Além disso, Mateus realça a ideia da procura da ovelha perdida, enquanto Lucas sublinha a alegria do encontro.
Entretanto, Carroll Stuhlmueller (“Evangelio segun San Lucas” in Raymond E. Brown et al, Comentario Biblico “San Jeronimo” – Ediciones  Cristiandad, 1972) chama a atenção para o facto de o v 5 ser exclusivo de Lucas (Ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros) e observa:  
Uma ovelha perdida deixa-se cair desesperada e nega-se a andar. E o pastor vê-se obrigado a carregar com ela durante uma longa distância, o que só pode fazer colocando-a aos ombros. Segura as patas dianteiras e as traseiras com cada uma das mãos; mas, se tem que usar o seu cajado de pastor, há de apertar fortemente as quatro patas contra o seu peito.”. 
E anota que só Lucas insere o convite aos amigos e vizinhos para se alegrarem com o pastor. Serão palavras ditas com sentido irónico a propósito dos autojustificados, que afinal não precisam de menos redenção.
Ora, este pastor evangélico que não desiste de nenhuma das ovelhas e que, “ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e lhes diz: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’” é Deus espelhado na pessoa de Jesus Cristo, o qual sai à procura e testemunha a grande alegria no Céu por um só pecador que se converte, muito maior do que aquela que se respira por noventa e nove justos que não necessitam de conversão.
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O segundo episódio (exclusivo de Lucas) é o da mulher pobre que tinha 10 dracmas e perdeu uma, que lhe fazia muita falta mercê da sua pobreza. Então, como é que Deus imensamente rico se espelha nesta mulher pobre? As 10 dracmas representam o mundo dos homens que são limitados, mas sendo cada um tão valioso aos olhos de Deus que, para recuperar cada um, Ele solícito como esta mulher pobre faz tudo o que pode para encontrar o homem perdido, como se dele precisasse muito, e o fazer entrar na comunhão Consigo e, através de Si, com a Trindade.
Deus não desiste de nada nem de ninguém e exulta com o reencontro. E tanto assim é que fica imensamente contente quando um pecador se arrepende e volta. Tal como a mulher chama as amigas e vizinhas e as convida a alegrarem-se consigo por ter encontrado a sua dracma perdida, também Deus, pela boca de Jesus, diz: “Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte”.
Entretanto, Carroll Stuhlmueller releva o facto de o episódio prestar uma atenção especial à mulher e mulher pobre – desconsiderada na sociedade por ser mulher e por ser pobre (De facto, é verdade que Deus toma partido pelos excluídos por não terem haveres ou pela sua condição sexual). Esta mulher varre a sua obscura habitação, que só tem uma abertura, a porta, à espera de ouvir tilintar a moedita que lhe faz tanta falta. Esta é a solicitude do nosso Deus por nós, que chega a fazer-se pobre connosco e como nós para nos fazer ricos com a sua riqueza inesgotável.
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Quanto ao episódio do Pai misericordioso que tem dois filhos, o comentário de hoje vai ser parcelar e basicamente em torno do título desta reflexão.
Obviamente que o filho que exigiu ao Pai a parte da herança que lhe cabia e a esbanjou, ficou na miséria – na lama como se diria hoje. O termo usado para esbanjar é “diascorpízô” (espalhar largamente); e acrescenta-se “zôn asôtôs” (vivendo libertinamente, ou seja numa sensualidade desenfreada e numa extravagância desperdiçadora), o que o irmão mais velho especifica em “o kataphagôn sou tòn bíon  metà pornôn” (o que gastou os teus recursos com prostitutas).
Depois disso, sem bens e sem amigos, o único emprego que lhe deram foi o da guarda de porcos. E bem desejava comer as alfarrobas destinadas aos porcos, mas até isso lhe era proibido: tinha que roubar para comer. Naquele contexto geográfico, a fome era mais que muita e devoradora da vida – “limos iskhyrà katà tên khôran ekeínen” (uma fome avassaladora naquela região). Foi então que num momento se lembrou da abundância que enchia a casa paterna e de como até os criados e jornaleiros tinham mesa farta; e suspirou pela fartura da casa paterna.
Literalmente não se vê aqui um lance de arrependimento. Porém, não podemos esquecer a intenção de Jesus ao contar os episódios parabólicos anteriores, a de exaltar a alegria pelo arrependimento e mudança de vida dos pecadores: ovelhas tresmalhadas, dracmas perdidas… E há obviamente lugar para o pródigo arrependido.
Depois, o discurso que o filho arredio preparou contém uma nota de consciência de pecado, “Pai, pequei contra o Céu” (circunlóquio para dizer “contra Deus”) “e diante de ti” (o pecado também ofende as pessoas), e das suas consequências: já não é digno de ser chamado filho daquele Pai cuja mansão respira abundância e propõe-se ser tratado como um dos seus jornaleiros.
Dizia hoje um sacerdote, na homilia da Missa, que o filho mais velho não conhecia o Pai – não transgredia nenhuma das suas ordens em todos aqueles anos em que o servia (não lhe conhecia o amor, tratava-o como um patrão). Ora, o filho mais novo também não o conhecia. Saberia ele que o Pai não iria permitir que um filho seu deixasse de o ser e pudesse baixar à condição de jornaleiro da casa paterna?
Porém, no meio da sua miséria – “egô de limô ôde apóllymai” (e eu aqui pereço de fome) – intuiu que, se voltasse e lhe pedisse perdão, seria recebido. Tinha fome e estava disposto a mudar de vida. Não sabia era que a bondade imensa do Pai o acolheria em ternura e, na sua alegria, mandaria fazer festa. Foi, pois, a recordação da liberalidade do Pai que suscitou nele o arrependimento, o propósito de conversão e a esperança. A fome suscitou a lembrança da casa paterna e esta levou ao regresso no arrependimento, na confiança e na mudança.
O Pai, ao vê-lo, acorreu a abraçá-lo e a beijá-lo e deixou que ele confessasse o seu erro (“Pai, pequei contra o Céu, “eis tòn ouranón”, “e diante de ti”, “enôpión sou”), mas não o deixou pedir que o tratasse como um dos jornaleiros. Ao invés, como diz o texto:
O pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ E a festa principiou.”. 
Para este filho regressado são e salvo (hygiaínonta) foi disponibilizado o melhor que a casa tinha e ele recebeu os trajes de festa e as insígnias da sua categoria de nobre, da cidadania e da plena filiação: tudo o que era conveniente para que se fizesse a festa.
Diz Carroll Stuhlmueller que o estribilho “estava morto e ressuscitou” (nekròs ên kaì anézêsev), dito aos servos e repetido ao filho mais velho, a este reforçado com a expressão “kaì apolôlôs kaì auréthê” (estava perdido e foi encontrado), remete para a leitura pascal do episódio. Com efeito, num dos seus comentários ao texto, o Papa Francisco disse que, para lá das personagens visivelmente aqui presentes – o Pai e os dois filhos –, temos a figura do próprio Cristo. Na verdade, como assegura Carroll Stuhlmueller, “Jesus, em virtude da sua união com a natureza humana, converte-se no filho errante”, que esteve morto e agora está vivo.
A festa principiou. Que faltava para que ela fosse plena? Faltava a integração do filho mais velho nela, o que não acontecia, pois roído de inveja e estribado na convicção de que era o cumpridor, quando soube da festa, recusou entrar. Mas o Pai veio ao encontro dele e tratou-o carinhosamente: “Técnon” (meu querido filho: sempre que se fala de filho no texto, usa-se a palavra “uiós”, mas aqui é o tratamento ternurento) e solicitou a sua entrada na festa. E, respondendo às acusações ao filho mais novo, que o mais velho recusou tratar por irmão, e a si próprio (nunca usou o termo “páter”, pai, que o filho mais novo sempre utilizou), o Pai sentenciou:
Tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.”.
A autossuficiência, a inveja e a convicção de que nós somos os bons e os outros os maus dificultam a abertura – se não a impedem – ao amor e à misericórdia.
Enfim, estes episódios parabólicos, que testemunham a alegria de Deus e dos anjos e santos e postulam a festa por parte dos homens (o terceiro episódio não se contenta com a alegria no Céu: quer a festa já na Terra), justificam não só a amorosa consideração que Jesus dedica aos pecadores, pessoas de conduta imoral, mas que estão sensíveis ao toque do apelo à mudança, e aos pobres e ignorantes dos escaninhos das leis. Na casa do Pai, há lugar para todos. Pena é que alguns não queiram entrar porque outros já entraram. Mas Jesus, de facto, veio para salvar e não para condenar, para incluir e não para excluir; veio para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância! 
2019.09.15 – Louro de Carvalho

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