Mostrar mensagens com a etiqueta Conversão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conversão. Mostrar todas as mensagens

domingo, 3 de novembro de 2019

Não lhe puxou as orelhas nem lhe pregou um sermão


Na homilia da missa das 12 horas do 31.º domingo do Tempo Comum no Ano C, na igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, o Padre Porfírio Sá comentava o Evangelho assumido para a Liturgia da Palavra que narra a história do encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19,1-10) e, ao falar do encontro destas duas personagens, sublinhava que não foi Zaqueu quem tomou a iniciativa de falar a Jesus e convidá-lo a ir a sua casa, mas que foi Jesus quem olhou para Zaqueu e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”.
Referia o sacerdote passionista que Jesus falou como se fosse devedor para com Zaqueu e não como credor. E, ao entrar em casa de Zaqueu, não aproveitou a oportunidade para lhe dar um forte puxão de orelhas, pôr toda vida do pecador em evidência ou pregar-lhe um incontornável e solene sermão. Não, o Mestre dos mestres utilizou o seu olhar de empatia e misericórdia.
Zaqueu vivia em Jericó, o oásis situado nas margens do mar Morto, a cerca de 34 quilómetros de Jerusalém. Era a última etapa dos peregrinos que, da Pereia e da Galileia, se dirigiam a Jerusalém para as grandes festividades (o “caminho de Jerusalém”, que Jesus vem a percorrer, segundo Lucas, está a chegar ao fim). Jericó uma cidade próspera (sobretudo graças à produção de palmeiras e bálsamo), com grandes e belos jardins e palácios (por ação de Herodes, o Grande, e seu filho Arquelau, que fizeram desta cidade a sua residência de inverno). Sita em lugar privilegiado de importante rota comercial, era espaço de oportunidades e grandes negócios (e de negócios “duvidosos”).
Segundo Flávio Josefo, Jericó possuía um importante polo de produção de palmeiras e bosques de bálsamo. E o unguento derivado deste bálsamo de Jericó era muito desejado na época. Isto significa que aquela área era uma fonte muito significativa de impostos, uma das três principais coletorias de impostos da Palestina, e Zaqueu era um dos principais responsáveis por essa arrecadação.
O nome hebraico de Zankkaîos (Zaqueu) é contração de Zacarias, a significar “aquele de quem Yahweh se lembra” ou “aquele que é justo” (o antípoda da vida que levava). E ele era um “chefe de publicanos”, portanto, um homem que o judaísmo considerava um pecador público, um explorador dos pobres, um colaboracionista ao serviço dos opressores romanos e, portanto, um excluído da comunidade da salvação. Como os demais publicanos servia-se do cargo para enriquecer de modo ilícito (exigia impostos muito acima do fixado pelos romanos e arrecadava para si a diferença). E, se os publicanos eram considerados ladrões, então o chefe seria um superladrão.
A designação de “chefe de publicanos” traduz o grego arkhitelónês e indica que ele era um subcontratante de outros coletores. Portanto, tinha a supervisão de alguns responsáveis por arrecadar os impostos indiretos para o império romano, pelo que era um homem importante, uma pessoa proeminente na região. Por isso, o texto bíblico completa a informação dizendo que era um homem rico. Era, pois, um pecador público sem hipótese de perdão, excluído do convívio com as pessoas decentes e sérias, um marginal, considerado amaldiçoado por Deus e desprezado pelos homens. A sua pequena estatura – mais que indicação de caráter físico – pode significar a sua pequenez e insignificância do ponto de vista sociomoral.
Porém, este pecador procurava ver Jesus. Ora, este ver indicará aqui mais do que a simples curiosidade: a procura, a vontade firme de encontro com algo novo, talvez o desejo de fazer parte dessa comunidade de salvação que Jesus anunciava. Entretanto, o Mestre parecer-lhe-ia distante e inacessível, rodeado dos “puros” e “santos” que desprezavam os marginais. O subir “a um sicómoro” indica o desejo de encontro com Jesus, desse por onde desse, muito mais forte do que o medo do ridículo ou das vaias da multidão.
Jesus lança o olhar para o homem que espreita o Mestre do meio dos ramos do sicómoro. E incute o seu interesse em entrar em comunhão com Ele, estabelecer laços de familiaridade. Parece, em quadro escandaloso, esquecer-se dos “puros” que O rodeiam e O escutam, que agora ficam como que suspensos à espera do que vai acontecer naquela casa de pecador e marginal.
É a concretização do “deixar as noventa e nove ovelhas para ir à procura da que estava perdida”. É o espelho da fragilidade do coração de Deus que, ante o pecador que busca a salvação, deixa tudo para ir ao seu encontro.
Obviamente a multidão reage murmurando: “Foi hospedar-se em casa de um pecador”. É a postura de quem se considera “justo” e despreza os outros, de quem vive das suas certezas, de quem está convicto de que a lógica de Deus é a lógica de castigo, marginalização, exclusão. No entanto, Jesus mostra que a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e que a oferta de salvação que Deus faz não exclui nem marginaliza ninguém; é mesmo para todos.
Tudo termina com um banquete, onde está Zaqueu, o chefe dos publicanos, que simboliza o “banquete do Reino”. Assim, Jesus mostra que os pecadores têm lugar no “banquete do Reino”, que Deus os ama, que quer integrá-los na sua família e estabelecer com eles laços de comunhão e de amor. Jesus mostra que Deus não exclui nem marginaliza nenhum dos seus filhos – mesmo os pecadores – mas a todos oferece a salvação.
Dizia o Padre Porfírio Sá que não houve da parte do hospedeiro do Senhor um formal ato de contrição, uma demonstração, por palavras, do arrependimento que se exige. Mas a troca de olhares iniciada por Jesus provocou as condições de aceitação do Reino, da conversão: dar metade dos bens aos pobres e restituir o quádruplo de quanto terá roubado. E Zaqueu, feita a experiência do amor de Deus, acolhe o dom de Deus, converte-se ao amor, torna-se generoso. A repartição dos bens pelos pobres e a restituição de tudo o que foi roubado em quádruplo, vai muito além do que a lei judaica exigia; é sinal da transformação do coração. O amor de Deus não se derramou sobre Zaqueu depois de ele ter mudado de vida, mas foi o amor de Deus – que Zaqueu experimentou quando ainda era pecador – que provocou a conversão e que converteu o egoísmo em generosidade e levou o pecador a seguir Jesus. Assim se conclui que só a lógica do amor pode transformar o mundo e os corações dos homens.
É interessante notar que, apesar da ansiedade de Zaqueu em querer ver Jesus, ele parece ter ficado surpreendido pelo facto de a iniciativa do contacto entre eles ter partido do próprio Senhor, e não dele. Isto sugere que Zaqueu desejava vê-Lo, mas era Jesus quem estava à procura dele. Além disso, Jesus não pediu permissão a Zaqueu para entrar e permanecer em sua casa. E este também não propôs uma possibilidade de encontro. Literalmente o Senhor simplesmente disse: hoje eu vou ficar em sua casa.
Face à atitude de Jesus, a multidão começou a reclamar. Ficaram indignados porque Jesus havia dito que visitaria a casa de Zaqueu e não a de outrem. Os judeus odiavam os publicanos: e agora emergiu a inveja à mistura com o ódio. Consideravam os coletores de impostos como ladrões, extorquidores e traidores. Mas Jesus havia decidido ficar na casa do principal desses coletores, pois estava em busca de um dos homens mais detestados da cidade, pois todos têm lugar no Reino de Deus.
No encontro com Jesus, Zaqueu demonstrou realmente um arrependimento genuíno, que não ficou na teoria ou em palavras vazias. Revelou o arrependimento na prática ao declarar a doação aos pobres. Não estava a tentar obter a salvação com as boas obras, mas a entregar diante de Jesus a sua oferta de ação de graças. Mas não parou neste ponto: comprometeu-se ainda a devolver em quádruplo qualquer quantia com que tivesse defraudado alguém.
Normalmente a Lei Mosaica exigia que numa restituição fosse acrescentado um quinto do valor como um tipo de juros (Lv 6,1-5; Nm 5,7). Zaqueu, no entanto, decidiu fazer ainda mais do que isso. Não ofereceu um quinto de acréscimo na restituição, mas quatro vezes mais.
Considerando o facto de ter doado metade dos seus bens aos pobres e de ter declarado na presença de todos uma restituição tão generosa, é de inferir que Zaqueu tinha sido desonesto ao longo da sua vida. Direta ou indiretamente, o chefe dos cobradores de impostos havia permitido e também feito uma cobrança excessiva.
Muitos tentam provar que Zaqueu não teria sido um extorquidor, como se Cristo não pudesse jamais ter olhado para um corrupto. Todavia, o contexto da história de Zaqueu aponta noutra direção. Naquele dia, Jesus mostrou compaixão para com alguém que certamente não a merecia. É caso parecido com o da eleição de Mateus para o seguimento de Jesus, como se lê em Mateus:
Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: ‘Segue-me!’ E ele levantou-se e seguiu-O.  
“Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e os seus discípulos. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: ‘Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?’
“Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores’.” (Mt 9,9).
Zaqueu pôde ouvir de Jesus as doces palavras: Hoje a salvação entrou nesta casa, porque até este homem é um filho de Abraão (Lc 19,9). Jesus não disse que havia entrado na casa de Zaqueu um mero conforto, uma alegria superficial ou uma prosperidade terrena e passageira. Foi claro ao dizer que a salvação, não menos que isto, havia entrado naquela casa. Zaqueu e as demais pessoas daquele lar estavam diante da maior bênção que poderiam receber.
Consequentemente, Jesus declarou que Zaqueu era filho de Abraão. Obviamente o objetivo de Jesus não era dizer que o publicano era um descendente biológico do grande patriarca (não podia ser). Mas, ao dizer que também ele era um filho de Abraão, vincava o sentido espiritual. Zaqueu estava a juntar-se, pela fé no Filho de Deus, à verdadeira descendência de Abraão (cf GL 3,9.29).
A história termina com a confirmação por parte de Jesus de que havia sido Ele quem encontrou o chefe dos publicanos, e não o contrário. Ele disse: Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10). Jesus buscou, encontrou e salvou Zaqueu. O Bom Pastor encontrou uma das suas ovelhas perdidas (Lc 15,1-7). Poucos dias depois, Aquele a quem Zaqueu recebeu em casa, derramaria o seu sangue e entregaria a sua vida também em seu favor.
***
Também o Papa Francisco comentou esta perícopa evangélica antes da recitação do Angelus com os fiéis e peregrinos concentrados na Praça de São Pedro. E, exortando a que, a exemplo de Zaqueu, nos deixemos converter pelo olhar misericordioso de Jesus, observou:
Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu”.
E, ao concluir a sua alocução, pediu que a Virgem Maria obtenha para nós a graça de sempre sentirmos sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para então, com misericórdia, irmos ao encontro dos que praticam o mal. Com efeito, como referiu, “o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade”.
O fio condutor da reflexão papal foi a conversão de Zaqueu, que muda radicalmente de mentalidade pela atenção e acolhimento que recebe de Jesus e que, ao encontrar o Amor e descobrir que é amado, se torna capaz de amar os outros, restituindo quatro vezes mais a quem havia prejudicado. Diz o Pontífice que este chefe de “publicanos”, isto é, dos judeus cobradores de impostos “era rico não devido a ganhos honestos, mas por exigir a gratificação adicional (Como o império lhes pagava mal, eles cobravam em excesso), o que aumentava o desprezo por ele”. Mas, ao saber da passagem de Jesus por ali, fica curioso em ver quem era Ele, pois ouvira  dizer coisas extraordinárias a seu respeito. Sendo de baixa estatura, sobe a uma árvore. Mas é Jesus quem, entre tantos rostos que o cercavam, “olha para cima e o vê”. E diz o Papa:
Isso é importante: o primeiro olhar não é de Zaqueu, mas de Jesus, que entre os muitos rostos que o cercam, procura exatamente aquele. O olhar misericordioso do Senhor alcança-nos antes mesmo que nós percebamos que temos necessidade de sermos salvos.”.
E foi precisamente com esse olhar do divino Mestre – salienta o Santo Padre – que  se iniciou “o milagre da conversão do pecador”. Jesus chama-o pelo nome e pede que desça depressa, pois quer estar com ele em sua casa. E, como dizia o Padre Porfírio Sá, também Francisco enfatiza que Jesus não censura Zaqueu, não lhe faz um ‘sermão’, mas mostra-lhe que deve ir até ele: ‘deve’, porque é a vontade do Pai”. As pessoas murmuram por Jesus optar pela entrada na casa de um pecador público, desprezado por todos. E o Pontífice comentou:
Nós também teríamos ficado escandalizados com esse comportamento de Jesus. Mas o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão que isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade. Em vez disso, Deus condena o pecado, mas tenta salvar o pecador, vai procurá-lo para trazê-lo de volta ao caminho reto. (…) Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu.”.
Frisou o Santo Padre que a atenção de Jesus e a forma como foi acolhido levaram Zaqueu a uma mudança de mentalidade. Naquele instante percebeu quanto é mesquinha uma vida movida pelo dinheiro, à custa de roubar os outros e ser desprezado por eles”. E o Bispo de Roma vincou:
Ter o Senhor ali, em sua casa, faz com que ele veja tudo com olhos diferentes, também com um pouco da ternura com que Jesus olhou para ele. E muda também o seu modo de ver e de usar o dinheiro: substitui o gesto do extorquir pelo de dar. De facto, decide dar metade do que possui aos pobres e restituir quatro vezes mais àqueles de quem roubou. Zaqueu descobre de Jesus que é possível amar gratuitamente: até agora ele era avarento, agora torna-se generoso; gostava de acumular, agora alegra-se em distribuir. (…) Encontrando o Amor, descobrindo que é amado apesar dos seus pecados, torna-se capaz de amar os outros, fazendo do dinheiro um sinal de solidariedade e de comunhão.”.
Por fim, formulou o desejo de que “a Virgem Maria nos obtenha a graça de sempre sentir sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para sairmos com misericórdia ao encontro dos que fizeram mal, para que possam acolher Jesus, que “veio buscar e salvar o que estava perdido”. 
***
E, após a oração do Angelus e o apelo pelas vítimas da violência na Etiópia, o Papa agradeceu à Prefeitura e à Diocese de San Severo (na Puglia), a assinatura do Protocolo de Intenções, de 28 de outubro, “que permitirá aos trabalhadores dos assim chamados guetos da Capitanata, na região de Foggia, obter uma residência em paróquias e o registo no cartório municipal”. E frisou:
A possibilidade de ter documentos de identidade e de residência oferecer-lhes-á nova dignidade e permitir-lhes-á sair de uma condição de irregularidade e de exploração”.
Muitos trabalhadores são explorados nas plantações por pessoas de má-fé, que se aproveitam da sua condição irregular. Mal remunerados, sem nenhum direito ou garantia, vivendo em galpões sem as mínimas condições de uma vida digna, são os novos marginalizados que urge acolher.
2019.11.03 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Porque tinha fome…


Há uns meses, em conversa com uns amigos, um deles atirava que o filho pródigo de que fala o Evangelho de Lucas se decidiu a voltar para a casa paterna, não por estar arrependido, mas porque tinha fome. Mais dizia que um professor da UCP referira que, se um aluno em exame afirmasse que o pródigo voltara movido pelo arrependimento, o reprovaria.
É provável que essa promessa de reprovação será mais uma força de expressão que uma hipótese a levar a sério.
Têm-se feito muitos comentários a esta passagem evangélica (Lc 15,11-32) – e eu tenho feito alguns –, mas há sempre alguma coisa que fica por dizer. E, como o Evangelho deste 24.º domingo do Tempo Comum no Ano C, na forma longa, é todo o capítulo 15 de Lucas, será pertinente mais um comentário.
Antes de mais, é preciso não esquecer que o capítulo apresenta três faces da parábola da Misericórdia divina no contexto dítono dos que se aproximavam de Jesus: os publicanos e pecadores, tradicionalmente conotados com o perfil do irmão mais novo, iam ter com Jesus para O ouvirem; e os fariseus e os doutores da Lei, conotados com o perfil do irmão mais velho, o cumpridor, murmuravam entre si escandalizados: “Este acolhe os pecadores e come com eles”.
A acirrar o escândalo de uns e a saciar a sede espiritual de outros, Jesus conta três episódios parabólicos cujo protagonista é sempre Deus: na figura de pastor, na figura da mulher pobre e na figura do Pai que tinha dois filhos. Mal foi o episódio parabólico mais extenso ter ficado reduzido ao filho pródigo, que existe, mas que não é o único mal comportado, relegando-se a figura do Pai para segundo plano. De facto, é o episódio do Pai que tem dois filhos ou do Pai compassivo, que está entre o grande amor que tem pelos filhos e a liberdade deles, que respeita até às últimas consequências.
***
O episódio do pastor começa com uma pergunta interpelante a todos:
Quem de entre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar?”.  
Mateus insere o episódio da ovelha perdida no quadro das instruções aos apóstolos acerca das suas obrigações como pastores da Igreja (vd Mt 18,12-14), ao passo que Lucas utiliza o episódio para responder ao pretenso escândalo de Jesus em receber os pecadores. Além disso, Mateus realça a ideia da procura da ovelha perdida, enquanto Lucas sublinha a alegria do encontro.
Entretanto, Carroll Stuhlmueller (“Evangelio segun San Lucas” in Raymond E. Brown et al, Comentario Biblico “San Jeronimo” – Ediciones  Cristiandad, 1972) chama a atenção para o facto de o v 5 ser exclusivo de Lucas (Ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros) e observa:  
Uma ovelha perdida deixa-se cair desesperada e nega-se a andar. E o pastor vê-se obrigado a carregar com ela durante uma longa distância, o que só pode fazer colocando-a aos ombros. Segura as patas dianteiras e as traseiras com cada uma das mãos; mas, se tem que usar o seu cajado de pastor, há de apertar fortemente as quatro patas contra o seu peito.”. 
E anota que só Lucas insere o convite aos amigos e vizinhos para se alegrarem com o pastor. Serão palavras ditas com sentido irónico a propósito dos autojustificados, que afinal não precisam de menos redenção.
Ora, este pastor evangélico que não desiste de nenhuma das ovelhas e que, “ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e lhes diz: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’” é Deus espelhado na pessoa de Jesus Cristo, o qual sai à procura e testemunha a grande alegria no Céu por um só pecador que se converte, muito maior do que aquela que se respira por noventa e nove justos que não necessitam de conversão.
***
O segundo episódio (exclusivo de Lucas) é o da mulher pobre que tinha 10 dracmas e perdeu uma, que lhe fazia muita falta mercê da sua pobreza. Então, como é que Deus imensamente rico se espelha nesta mulher pobre? As 10 dracmas representam o mundo dos homens que são limitados, mas sendo cada um tão valioso aos olhos de Deus que, para recuperar cada um, Ele solícito como esta mulher pobre faz tudo o que pode para encontrar o homem perdido, como se dele precisasse muito, e o fazer entrar na comunhão Consigo e, através de Si, com a Trindade.
Deus não desiste de nada nem de ninguém e exulta com o reencontro. E tanto assim é que fica imensamente contente quando um pecador se arrepende e volta. Tal como a mulher chama as amigas e vizinhas e as convida a alegrarem-se consigo por ter encontrado a sua dracma perdida, também Deus, pela boca de Jesus, diz: “Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte”.
Entretanto, Carroll Stuhlmueller releva o facto de o episódio prestar uma atenção especial à mulher e mulher pobre – desconsiderada na sociedade por ser mulher e por ser pobre (De facto, é verdade que Deus toma partido pelos excluídos por não terem haveres ou pela sua condição sexual). Esta mulher varre a sua obscura habitação, que só tem uma abertura, a porta, à espera de ouvir tilintar a moedita que lhe faz tanta falta. Esta é a solicitude do nosso Deus por nós, que chega a fazer-se pobre connosco e como nós para nos fazer ricos com a sua riqueza inesgotável.
***
Quanto ao episódio do Pai misericordioso que tem dois filhos, o comentário de hoje vai ser parcelar e basicamente em torno do título desta reflexão.
Obviamente que o filho que exigiu ao Pai a parte da herança que lhe cabia e a esbanjou, ficou na miséria – na lama como se diria hoje. O termo usado para esbanjar é “diascorpízô” (espalhar largamente); e acrescenta-se “zôn asôtôs” (vivendo libertinamente, ou seja numa sensualidade desenfreada e numa extravagância desperdiçadora), o que o irmão mais velho especifica em “o kataphagôn sou tòn bíon  metà pornôn” (o que gastou os teus recursos com prostitutas).
Depois disso, sem bens e sem amigos, o único emprego que lhe deram foi o da guarda de porcos. E bem desejava comer as alfarrobas destinadas aos porcos, mas até isso lhe era proibido: tinha que roubar para comer. Naquele contexto geográfico, a fome era mais que muita e devoradora da vida – “limos iskhyrà katà tên khôran ekeínen” (uma fome avassaladora naquela região). Foi então que num momento se lembrou da abundância que enchia a casa paterna e de como até os criados e jornaleiros tinham mesa farta; e suspirou pela fartura da casa paterna.
Literalmente não se vê aqui um lance de arrependimento. Porém, não podemos esquecer a intenção de Jesus ao contar os episódios parabólicos anteriores, a de exaltar a alegria pelo arrependimento e mudança de vida dos pecadores: ovelhas tresmalhadas, dracmas perdidas… E há obviamente lugar para o pródigo arrependido.
Depois, o discurso que o filho arredio preparou contém uma nota de consciência de pecado, “Pai, pequei contra o Céu” (circunlóquio para dizer “contra Deus”) “e diante de ti” (o pecado também ofende as pessoas), e das suas consequências: já não é digno de ser chamado filho daquele Pai cuja mansão respira abundância e propõe-se ser tratado como um dos seus jornaleiros.
Dizia hoje um sacerdote, na homilia da Missa, que o filho mais velho não conhecia o Pai – não transgredia nenhuma das suas ordens em todos aqueles anos em que o servia (não lhe conhecia o amor, tratava-o como um patrão). Ora, o filho mais novo também não o conhecia. Saberia ele que o Pai não iria permitir que um filho seu deixasse de o ser e pudesse baixar à condição de jornaleiro da casa paterna?
Porém, no meio da sua miséria – “egô de limô ôde apóllymai” (e eu aqui pereço de fome) – intuiu que, se voltasse e lhe pedisse perdão, seria recebido. Tinha fome e estava disposto a mudar de vida. Não sabia era que a bondade imensa do Pai o acolheria em ternura e, na sua alegria, mandaria fazer festa. Foi, pois, a recordação da liberalidade do Pai que suscitou nele o arrependimento, o propósito de conversão e a esperança. A fome suscitou a lembrança da casa paterna e esta levou ao regresso no arrependimento, na confiança e na mudança.
O Pai, ao vê-lo, acorreu a abraçá-lo e a beijá-lo e deixou que ele confessasse o seu erro (“Pai, pequei contra o Céu, “eis tòn ouranón”, “e diante de ti”, “enôpión sou”), mas não o deixou pedir que o tratasse como um dos jornaleiros. Ao invés, como diz o texto:
O pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ E a festa principiou.”. 
Para este filho regressado são e salvo (hygiaínonta) foi disponibilizado o melhor que a casa tinha e ele recebeu os trajes de festa e as insígnias da sua categoria de nobre, da cidadania e da plena filiação: tudo o que era conveniente para que se fizesse a festa.
Diz Carroll Stuhlmueller que o estribilho “estava morto e ressuscitou” (nekròs ên kaì anézêsev), dito aos servos e repetido ao filho mais velho, a este reforçado com a expressão “kaì apolôlôs kaì auréthê” (estava perdido e foi encontrado), remete para a leitura pascal do episódio. Com efeito, num dos seus comentários ao texto, o Papa Francisco disse que, para lá das personagens visivelmente aqui presentes – o Pai e os dois filhos –, temos a figura do próprio Cristo. Na verdade, como assegura Carroll Stuhlmueller, “Jesus, em virtude da sua união com a natureza humana, converte-se no filho errante”, que esteve morto e agora está vivo.
A festa principiou. Que faltava para que ela fosse plena? Faltava a integração do filho mais velho nela, o que não acontecia, pois roído de inveja e estribado na convicção de que era o cumpridor, quando soube da festa, recusou entrar. Mas o Pai veio ao encontro dele e tratou-o carinhosamente: “Técnon” (meu querido filho: sempre que se fala de filho no texto, usa-se a palavra “uiós”, mas aqui é o tratamento ternurento) e solicitou a sua entrada na festa. E, respondendo às acusações ao filho mais novo, que o mais velho recusou tratar por irmão, e a si próprio (nunca usou o termo “páter”, pai, que o filho mais novo sempre utilizou), o Pai sentenciou:
Tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.”.
A autossuficiência, a inveja e a convicção de que nós somos os bons e os outros os maus dificultam a abertura – se não a impedem – ao amor e à misericórdia.
Enfim, estes episódios parabólicos, que testemunham a alegria de Deus e dos anjos e santos e postulam a festa por parte dos homens (o terceiro episódio não se contenta com a alegria no Céu: quer a festa já na Terra), justificam não só a amorosa consideração que Jesus dedica aos pecadores, pessoas de conduta imoral, mas que estão sensíveis ao toque do apelo à mudança, e aos pobres e ignorantes dos escaninhos das leis. Na casa do Pai, há lugar para todos. Pena é que alguns não queiram entrar porque outros já entraram. Mas Jesus, de facto, veio para salvar e não para condenar, para incluir e não para excluir; veio para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância! 
2019.09.15 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Temos de estar em constante discernimento ante os sinais dos tempos


É um alerta de Dom José Domingo Ulloa, Arcebispo do Panamá, que esteve no Santuário de Fátima de passagem para a cidade do Porto, onde participou como coordinante na ordenação episcopal de Dom Américo Aguiar, bispo titular de Dagno e auxiliar de Lisboa.
Rezou na Capelinha das Aparições e respondeu a algumas questões que a Sala de Imprensa do Santuário lhe colocou e de que se destacam o enunciado vertido em epígrafe e o que justifica uma ligação, espécie de ponte entre a JMJ (Jornada Mundial da Juventude) do Panamá, no passado mês de janeiro, e a que vai realizar-se em 2022 em Lisboa – o papel de Maria entre os jovens.   
Efetivamente, sobre a importância da Virgem Peregrina, diz que “levou a luz de Fátima ao mundo e agora acende-a em Portugal para todo o mundo”. E, falando sobre a JMJ do Panamá, encareceu a importância da presença da Virgem Peregrina diante dos jovens.
***
Segundo o prelado panamiano, o convite para a presença da Imagem da Virgem Peregrina de Fátima na Jornada Mundial da Juventude do Panamá não surgiu por acaso, foi mesmo bem pensado e premeditado. Com efeito, como refere, logo que foi anunciada, a 31 de julho de 2016, em Cracóvia, “a escolha do Panamá como o lugar que acolheria a Jornada Mundial da Juventude 2019, tendo em consideração que este povo é tão mariano e desde logo que a Virgem de Fátima estava – e está! – tão enraizada no coração deste povo”, a organização descobriu a necessidade de colocar esta jornada nas mãos de Maria.
No tocante ao desenrolar de todo o processo, o Arcebispo revelou que, três dias depois do anúncio (no dia 3 de agosto), estivera na audiência geral e disse ao Papa que o grande presente que “poderia dar ao povo do Panamá e a todo o povo latino-americano seria a invocação mariana para esta jornada”. E lembrou que há vários motivos para estas escolhas:
Somos a primeira diocese em terra firme com invocação mariana, concretamente de Santa Maria la Antigua. Mas somos marianos com uma especial devoção a Nossa Senhora de Fátima. É preciso recordar, ainda, que estávamos em véspera do ano do Centenário, ano (2017) em que tivemos a visita da Virgem Peregrina ao Panamá.”.
***
Na verdade, Santa Maria La Antigua é a Virgem Padroeira do Panamá. A sua imagem representa Nossa Senhora com o Menino Jesus e uma rosa branca; e a sua festa é celebrada no dia 9 de setembro.
A história conta que a imagem mariana estava numa capela lateral da Catedral de Sevilha, em Espanha, que foi reconstruída no século XIV e de que se conservou apenas a parede onde estava a imagem, por isso que é chamada Santa Maria de la Antigua.
Na América, em 1510, os conquistadores Vasco Núñez de Balboa e Martín Fernández de Enciso fundaram, em homenagem a esta devoção, a cidade de Santa Maria la Antigua de Darién (atualmente território colombiano), que foi a primeira diocese em terra firme. E, em 1524, o segundo bispo dessa diocese, o dominicano Frei Vicente Peraza transferiu a sede diocesana para a recém-fundada Cidade do Panamá, nas margens do Pacífico.
Santa Maria la Antigua é a padroeira da catedral e da Diocese do Panamá desde 1513, mas foi recentemente, a 9 de setembro de 2000, Ano Santo Jubilar, que a Conferência Episcopal Panamenha a proclamou padroeira do país e solicitou à Santa Sé o reconhecimento oficial dessa proclamação, pedido aceite, em 27 de fevereiro de 2001, pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
***
Mas, voltando à visita da imagem da Virgem Peregrina ao Panamá em 2016…
… Enfatiza Dom José Domingo que “esta visita foi uma das que mais tocou o coração do povo do Panamá” e, quando terminou, sentira que tinham de pedir a Fátima que se fizesse novamente presente na Jornada Mundial da Juventude, esse “momento tão especial para o Panamá, para a juventude do Panamá”.
A 11 de fevereiro de 2018, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, o Papa inscreveu-se na Jornada e, ao meio dia desse mesmo dia, o Panamá recebe a comunicação do Santuário de Fátima a confirmar a presença da Imagem da Virgem Peregrina. E foram estes os peregrinos número 1 e número 2 destas jornadas.
No âmbito da preparação da JMJ, diz o prelado que “as jornadas sempre tiveram em conta os jovens e o papel das mulheres”, pois a Igreja panamenha – aliás, “esta é uma visão a partir da América Latina” – está convicta de que “não se pode pensar a Igreja sem a participação efetiva e a presença das mulheres na Igreja”. Por isso, seguindo “Maria, a eterna jovem que foi capaz de dizer ‘sim’, invocámo-la do ponto de vista vocacional” – assegura Dom Ulloa, que garante: 
Toda a jornada foi preparada em função de Maria. E até o Sínodo dos jovens nos ajudou nesta preparação de uma Igreja voltada para a juventude a partir do exemplo de Maria, uma jovem que disse ‘sim’ sem reservas. Também tivemos uma ajuda imensa do Apostolado Mundial de Fátima, um grupo dedicado que, durante um ano e meio, fez tudo para ajudar nesta grande jornada Mariana, promovendo desde logo a devoção dos primeiros sábados.”.
Sobre a grande exigência duma preparação da Jornada Mundial da Juventude e da experiência panamenha, destaca:
A melhor estratégia para a organização de um evento como este é colocá-lo nas mãos de Deus e pedir a intercessão de Maria. Temos de fazer tudo o que é possível do ponto de vista humano, mas é a providência que nos protege. Por isso, o que é preciso é pedirmos a Maria e, através da sua intercessão, esperar pela ajuda de Deus. A Jornada Mundial da Juventude, como tudo na nossa vida, é obra Dele.”. 
***
Depois, ver o santo Padre diante da Imagem da Virgem Peregrina de Fátima concitou um sentimento muito forte e o Pastor panamenho rezou pensando: “Mãe, esta obra que é Tua está a comover o mundo”. E foi muito comovente ver o Sumo Pontífice a rezar num profundo silêncio diante daquela Imagem da Virgem. Foi mesmo “a confirmação de que esta hora da Igreja, comprometida neste projeto com a juventude, está nas mãos de Maria, a grande Influencer da juventude”. E o Panamá viu, “com a emoção dos jovens, que Maria lhes conquistou o coração”.
Com efeito, depois de o Papa ter estado diante da Imagem, sem velas e com telemóveis, a noite da Vigília foi marcada pela procissão das velas a acompanhar a Imagem da Virgem Peregrina, o que – diz o Arcebispo – “foi um mar de luz”. E Dom Ulloa confessa:
Fiquei muito comovido: ver o santo Padre a rezar diante da Virgem, mas sobretudo ver a alegria dos jovens diante de Nossa Senhora de Fátima e ver nos seus olhos e nas suas expressões como a Mãe lhes encheu o coração... foi extraordinário. A Virgem de Fátima é sempre um tema que tem de ser ressalvado quando falamos da Jornada Mundial da Juventude e, sobretudo, desta em particular.”.
Anuindo à asserção de quem orientou a entrevista de que esse momento terá sido porventura a confirmação de que as opções da presença da Virgem Peregrina de Fátima tinham sido as mais acertadas”, porfiou que tudo o que fizeram fora sem saberem “que Portugal iria receber a próxima Jornada Mundial da Juventude”. Mas, sabendo que não há acasos nem meras coincidências, revelou que, ao falar-se do assunto, foi mais um tema que deu bastante alegria. Com efeito “a Mãe que nós levámos até junto da juventude mundial no Panamá é a mesma mãe que vai trazer a cruz da Jornada Mundial da Juventude à sua nova morada”, ou seja, “Maria fez-se presente no outro lado do mundo, para regressar com todos os seus filhos a Fátima e a Portugal – disse perentoriamente.
Mas não se ficou por estas afirmações. Antes adiantou que “Maria sempre ocupou um lugar central na Jornada Mundial da Juventude, mas que esse papel será ainda muito mais forte em 2022”, pois torna-se “impensável” a organização do grande evento sem a presença de Nossa Senhora de Fátima”, que “é a Mãe que nos protege e abraça”, o que Lisboa só confirmará. De facto, “Ela levou a luz de Fátima ao Mundo e agora acende-a em Portugal para todo o mundo”.
***
Ainda discorreu sobre a importância de Fátima no Mundo referindo que “um dos grandes conteúdos da Mensagem de Fátima é a conversão”. Nesse sentido, precisou:
Fátima convida-nos a recriar a necessidade e o desejo de mudança em ordem a que a palavra que escutamos nos invada o coração e alimente os nossos gestos. Tem de haver esta sintonia entre a palavra que anunciamos e os gestos da nossa vida.”.
É na relação com a conversão e na sintonia entre a prática e a palavra que o Arcebispo formulou o enunciado vertido na epígrafe do presente texto, quando atesta que “esta [a mudança e a sintonia entre palavra e vida] é a raiz da Mensagem de Fátima que nos remete para um convite permanente à conversão, a sermos íntimos de Deus, a começar por nós, hierarquia da Igreja, que temos de estar em constante discernimento diante dos sinais dos tempos”.
E é por ter no centro a conversão – “com outros ingredientes que remetem para a infância, para a humildade, para a sensibilidade dos pequenos, dos mais fracos, dos oprimidos, dos pobres de coração” – que é muito atual a Mensagem de Fátima que “nos é dirigida a todos: bispos, padres, leigos, jovens e menos jovens”. Depois, um outro fator de atualidade da Mensagem é a oração como caminho; e o hierarca vinca, no quadro do aperfeiçoamento pessoal e do labor apostólico:
Temos de rezar muito para que o nosso coração se converta e assim consigamos ajudar outros a converterem-se”.
Com efeito, a Mensagem, convidando-nos à oração – falar e escutar Deus na maior intimidade –“é um itinerário que nos ajuda a libertar o nosso coração de coisas que não interessam e estarmos mais livres para dar a Deus o lugar de Deus”. E constitui um imperativo a oração pela Paz num mundo ferido e que espera a misericórdia de Deus, devendo os obreiros eclesiais ser testemunhas e arautos da misericórdia. Sublinha Dom Ulloa:
A Mensagem de Fátima é sempre atual porque nos alerta para um mundo ferido, um mundo que está ferido porque nós estamos feridos. E cada um de nós tem de se converter porque cada um de nós tem esta missão. Por isso, diante do mundo concreto de hoje, a Mensagem de Fátima ajuda-nos a purificar o coração dos homens. E este é o terceiro elemento que gostava de destacar: a misericórdia. Em Fátima, através desta presença materna de Nossa Senhora sentimos que há sempre um coração grande que nos acolhe, por piores que sejam os males do mundo.”.
***
Por fim, como a JMJ do Panamá se realizou entre dois Sínodos dos Bispos, o dos jovens e o da Amazónia, deixa, a pedido, uma palavra sobre a oportunidade, referindo que “a Amazónia é apenas um lugar, importante, mas apenas um lugar”. Nestes termos, o Sínodo constituirá “uma mensagem que Deus nos envia”, ou seja, “a partir de povos martirizados, o Senhor fala para o mundo inteiro”. Assim, dali “sairá a luz para o mundo inteiro sobre a necessidade de tomarmos consciência de que todos temos a obrigação de cuidar desta casa comum” – disse.
***
Por falarmos de conversão, oração, misericórdia e paz – tetranómio nuclear da Mensagem de Fátima –, não fica descabido acolher algumas das palavras do Vice-reitor do Santuário de Fátima, que desafiou, no passado domingo, dia 31, os peregrinos a olharem o próximo como Jesus olha para cada um de nós “sem etiquetas e como pessoas amadas”.

Com efeito, na Missa Internacional a que presidiu na Basílica da Santíssima Trindade, no domingo da alegria, o 4.º da Quaresma (chamado “Domingo Laetare”, denominação ligada à Antífona de Entrada da Eucaristia, “Laetare, Ierusalem” – Alegra-te, Jerusalém), o padre Vítor Coutinho pediu aos milhares de participantes – com particular destaque para o grupo mobilizado pela Peregrinação Nacional dos Amigos do Verbo Divino, que se fizeram anunciar – que olhassem os seus semelhantes com os olhos de Jesus, límpidos e compassivos, que transportam misericórdia e ternura em vez de distância, julgamento, censura e condenação. E explanou:

Jesus nunca vê mais nada além de pessoas, pessoas amadas. Jesus não vê etiquetas, mas pessoas amadas por Deus e este olhar dá a cada pessoa a oportunidade de dar passos na vida; este olhar dá a cada um a possibilidade de não ficar fechado na imagem que tem de si mesmo ou na que os outros fazem dele.”.
A partir do Evangelho do dia – a parábola do Pai misericordioso que tinha dois filhos: o pródigo e o que não abandonou a casa paterna – onde se releva o amor paciente e sempre acolhedor do Pai, independentemente do itinerário de vida de cada um, os peregrinos foram instados pelo sacerdote celebrante a fazerem uma verdadeira comunhão com Deus. Na verdade, como sublinhou, o olhar do pai sobre o filho pródigo “é o olhar de Jesus que não tem paralelo no mundo de hoje”, sendo que, “tal como o pai da parábola acolhe o filho faminto e pecador”, que se converte e reza confessando, arrependido o seu pecado, também “Jesus acolhe todos os que dele se aproximam e querem com ele fazer comunhão”.
E, como sublinhou o sacerdote em seu discurso homilético, sabemos “da história do filho pródigo” que aquilo que nos salva “é o olhar comovido de Deus, que não fica indiferente”, mas cuja compaixão “não olha de cima nem de longe, mas de perto, deixando-nos sempre um olhar de perdão que nos renova” e nos dá a paz interior, que nos faz trabalhar a paz para e com os outros e criar um estilo de vida em profundeza e solidariedade. E é com este olhar terno inspirador dos cristãos a participarem no sentido de festa que somos convidados a saborear “a bondade Daquele que nos olha”.
Não podemos comportar-nos como o filho mais velho da parábola, que roído de inveja, se pôs a acusar o Pai e o irmão do que fizeram e do que não fizeram, omitindo gravemente os atos generosos do Pai e desprezando a mudança de vida do irmão.   
Por conseguinte, ao longo da Liturgia da Palavra ecoou um convite a fazer festa, isto é, um convite a que tenha cada um a capacidade de, em cada momento da vida, “viver na plenitude do sentido que só Deus permite” e a que nos estimula. E disto é testemunha, mensageira e promotora a Virgem Santa Maria Mãe de Deus e nossa Mãe.
2019.04.01 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 11 de março de 2019

Para uma leitura do livro de Jonas


Nota prévia
O padre passionista João Paulo Silva, no dia 10, recomendou a leitura do livro de Jonas nesta Quaresma, que se lê depressa, pois só tem 4 capítulos. Contudo, tem muito a dizer-nos.
Sabe-se, por 2 Rs 14,25, da existência do profeta Jonas, “filho de Amitai”, que terá exercido a missão no tempo de Jero­boão II (séc. VIII a.C.). O nome e a filiação coincidem, de facto, com o protagonista deste livro. Mas não foi o profeta quem o escreveu, como se verifica pela data em que terá sido escrito. Entretanto, a sua leitura mostra que o autor, além de ser hábil artista, possuía larga formação bíblica. São claras, na obra, influências de alguns Salmos, de Jeremias, Ezequiel, Joel e outros. Jonas é caso único na literatura profética: nunca utiliza o nome “nabi” (profeta), nem o verbo “profetizar”, nem a fór­mula do mensageiro; e toda a pregação do profeta se resume em 3,4: “Dentro de quarenta dias Nínive será destruída”.
***
O género do livro
O livro faz parte do género literário chamado midráshico, que toma um dado bíblico como tema de desenvolvimento redacional com intenção didática, sem pretender narrar acontecimentos históricos. A base histórica é muito reduzida: apenas o nome do profeta (Yonah, pombo) do tempo de Jero­boão II, que apoiou as ideias nacionalistas do rei, atitude à qual se opõe o livro. O segundo elemento de aparência histórica é a cidade de Nínive. Mas não há qualquer testemunho que fale ou suponha tal missão profética e a correspondente conversão sensacional.
O livro de Jonas, que integra a coleção dos livros proféticos, situa-se entre os livros de Abdias e Miqueias. Porém, em vez de anúncio e denúncia, como era de esperar, temos o relato que parte do chamamento dum profeta que, do início ao fim, se opõe à sua missão. Em vez de oráculos, temos uma historieta – uma narrativa de episódios breves, construídos com elementos da vida real e com o recurso a exagero, suspense e ironia. A sua preocupação não é documentar factos, mas instruir quem lê ou escuta. Na Bíblia, há muitas historietas: vg, a narrativa de Job (1-2 e 42,7-17), os contos do livro de Daniel (Dn 1-6) e as histórias de Tobias, Judite e Susana, entre outras.
Para melhor entender o livro, vamos recordar a origem do nome da personagem central: “Jonas, filho de Amati” (Jn 1,1). De acordo com a tradição, há um profeta do tempo de Jeroboão II com o mesmo nome (783-743 a.C.), de Gat-Ofer, que anunciou o restabelecimento das fronteiras de Israel (2Rs 14,25). A narrativa adotou um nome histórico, adaptando-o a outro contexto. A cidade de Nínive só se tornou a capital da Assíria com Senaquerib (704-681 a.C.).
A narrativa de Jonas, uma das mais populares, quer na tradição judaica quer na cristã, é lida no Dia do Perdão (Yom Kippur), o dia do arrependimento e do retorno ao bem, uma data muito importante na religião judaica, celebrada com um jejum de 25 horas e intensa oração. Na tradição cristã, essa história é conhecida e citada desde o tempo das primeiras comunidades cristãs. A estada de Jonas no ventre do monstro marinho prefigura a morte e a ressurreição de Jesus (Mt 12,40). A conversão dos ninivitas é tida como modelo e censura para Israel (Mt 12,41-42; Lc 11,32). A história de Jonas é lida na liturgia da Igreja Católica na 27.ª semana do tempo comum (segunda, terça, quarta-feira, respetivamente Jn 1,1-2, 1.11; 3,1-10 e 3,10-4,11; e na quarta-feira da 1.ª semana da Quaresma, Jn 3,1-10). É uma história lida, contada, recontada, desenhada e celebrada, que mostra que não se brinca com Deus, que a salvação vem de Deus, que a conversão pode suceder contra toda a expectativa e que Deus quer salvar todos os homens.
***
O essencial da história de Jonas
Jonas é enviado para a cidade de Nínive, mas vai em direção oposta: embarca num navio para Társis. Quer fugir para bem longe. Javé provoca forte tempestade e toda a tripulação trabalha arduamente para sobreviver ao temporal, exceto Jonas, encontrado em sono profundo. O capitão ordena-lhe que invoque o seu Deus. E, ao ser questionado pelos marinheiros, Jonas reconhece a sua culpa e pede que o atirem ao mar para aplacar a ira de Javé. Se morrer, não terá de assumir a ordem de Javé. Prefere morrer a cumprir a missão, mas um grande peixe, por ordem de Javé, engole-o. No ventre do peixe, Jonas reza e agradece a Javé pela sua salvação. E Deus atende a sua oração: o peixe, não o aguentando, vomita Jonas em terra firme. De novo, Jonas recebe a ordem para ir a Nínive e, desta vez, obedece: vai e anuncia a destruição da cidade. Todos os habitantes se convertem: homens, mulheres, rei e animais. Deus compadece-Se, mas Jonas fica indignado com a atitude misericordiosa de Javé.
A narrativa de Jonas termina com uma pergunta repreensiva de Deus ao profeta
Sentes pena de um rícino que não te custou tra­balho algum para o fazeres crescer, que nasceu nu­ma noite, e numa noite pereceu! E não hei de Eu compadecer-me da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e um grande número de animais?” (Jn 4,10-11).
É pergunta que ecoa em nossos ouvidos e nos insta a refletir. E, além desta pergunta, surgem outras: Afinal, quem são os autores dessa narrativa que ainda hoje provoca riso? Quando foi escrita? Não há respostas exatas a estas questões, pelo que se tentam respostas prováveis.
***
Autor e data
Quem começa a ler o livro de Jonas constata que o texto é uma narrativa coerente, com unidade de tema e estilo. Somente o capítulo 2,3-10, uma narrativa poética, um salmo que foi depois provavelmente acrescentado, apresenta uma teologia bem diferente do resto do livro. Em todo o texto, não há menção alguma a Jonas como um profeta.
Não sabemos quem foi o autor ou os autores do livro. Na época de Jonas, um dos grupos responsáveis pela educação eram os sacerdotes, cuja obrigação era ensinar ao povo a instrução (Lei). Em geral, o ensinamento dos sacerdotes estava mais conexo com o culto e o sacrifício. Esse ensinamento e a centralidade do templo são mencionados no cap 2, que é um salmo posterior (2,5.8.10). Além do grupo dos sacerdotes, outros ensinavam ao povo: os sábios. Em Israel, a sabedoria oficial estava ligada ao Templo, mas no meio do povo havia pessoas sábias, comprometidas com a fé e a vida. O autor do livro não terá sido do círculo de sacerdotes; deve ter, antes, a sua origem entre os sábios de Israel, pois conhecia bem a tradição do seu povo, bem como a de outros povos; devia manter contacto com estrangeiros, considerando-os com bons olhos. A história revela que Javé teve compaixão dos estrangeiros e, em especial, dum grande inimigo. É uma ironia contra a corrente judaica da época de Esdras, que acreditava ser o povo judeu o único povo eleito e santo e considerava os estrangeiros impuros.
A narrativa não oferece nenhuma evidência de datação no texto. A existência dum profeta de nome Jonas no século VIII não significa que o livro tenha sido escrito naquela época. O objetivo do livro é transmitir um ensinamento às pessoas que viviam no tempo em que foi escrito. Há alguns indícios que possibilitam uma datação tardia, sendo os mais significativos: os seguintes:
A narrativa apresenta várias palavras de origem aramaica. Efetivamente o aramaico tornou-se a língua oficial no período persa. As palavras que designam os marinheiros (Jn 1,5), o navio (Jn 1,5), o decreto do rei de Nínive (Jn 3,7) e outras mais, vêm do aramaico. No atinente à compreensão de Deus, o autor utiliza a expressão “Deus do céu”, que aparece nos livros do pós-exílio (cf Esd 1,2; 5,11; Ne 1,4.5; Dn 2,18). A história de Jonas alude a costumes persas, por exemplo, a participação de animais nos rituais de penitência (Jn 3,7-8). Há estreitos paralelos com a teologia do livro de Jeremias e de Joel (cf Jr 18,7-10 e Jn 3,9-10; Jl 2,13b.14a e Jn 4,2b; 3,9). O livro de Jeremias foi relido e atualizado no exílio e no pós-exílio. O livro de Joel surgiu no século IV ou meados do século III a.C. Nínive só se tornou importante no tempo de Senaquerib, em 704 a.C., quando o livro identifica Nínive como capital da Assíria no tempo de Jonas. O rei seria tratado como rei da Assíria e não rei de Nínive. Para um profeta de Gat-Ofer, aldeia da Galileia, era mais fácil embarcar nos portos de Tiro ou Aco, e não em Jope, porto próximo para quem vivia em Jerusalém e nas regiões próximas.
A data da composição não pode ser deduzida senão a partir das suas caraterísticas literárias e da sua teologia. Como pensa a maioria dos críticos, o estilo, o vocabulário e cer­tos ara­maísmos (1,5.6.7; 3,7; 4,11) apontam para um período posterior ao regresso do Exílio (séc. V).
No livro, não há influência da época helenística, do tempo de Alexandre Magno e sucessores (333 a.C.-134 a.C.). Não aparece o conflito com os samaritanos, nem a questão dos casamentos com mulheres estrangeiras, abordados por Neemias e Esdras (Ne 13,23-27; Esd 4; 9-10). Não há uma precisão quanto à data, mas, face aos elementos apresentados, é possível afirmar que o livro terá sido escrito no final do século IV ou no início do século III a.C., no período persa.
***
Estrutura e conteúdo
***
Em termos de estrutura, trata-se duma história bem organizada e desenvolvida, que pode ser dividida em duas partes com desenvolvimentos paralelos. Na 1.ª, Jonas opõe-se à vontade de Deus e foge para Társis, é engolido pelo peixe e vomitado na praia (1,1-2,11); na 2.ª, Jonas prega em Nínive, que se converte (3,1-4,11). Nas duas, encontramos a palavra do Senhor, a reação de Jonas, a presença de personagens estrangeiras e de elementos da natureza.
Pode esquematizar-se a narrativa da seguinte forma (Magonet, 1992: 937-938):
1.ª Parte – capítulos 1 e 2: no mar
2.ª Parte – capítulos 3 e 4: em terra
A. 1,1-2: Chamamento de Jonas
A. 3,1-2: Chamamento de Jonas
B. 1,3: Jonas levanta-se e foge
B. 3,3: Jonas levanta-se e vai a Nínive
C. 1,4: Ação do Senhor: a grande tempestade
C. 3,4: Ação de Jonas: pregação
D. 1,5: Ação dos marinheiros.
D. 3,5: Ação dos ninivitas: jejum.
E. 1,6: O capitão sente o poder divino na tempestade

E. 3,6-8: O rei sente o poder de Deus, faz penitência e proclama um jejum
F. 1,7-13: Os marinheiros acham o culpado
F. 3,8b: Ordena a conversão
G. 14: Os marinheiros rezam a Javé
G. 3,9: A oração pode mover a ação de Deus
H. 15: Jonas é lançado ao mar e cessa a tempestade
H. 3,10: Deus arrependeu-Se e não fez o que ameaçara fazer-lhes
I. 16: Os marinheiros temem a Javé
I. 3,5: Homens de Nínive creram em Deus
J. 2,1: O Senhor salva Jonas
J. 4,1.5.8c: Jonas fica desgostoso com o Senhor
L. 2,2-10: Jonas reza e agradece a sua salvação
L. 4,2-4: Jonas reza pedindo a morte
M. 2,11: O Senhor responde: Jonas é devolvido a terra firme
M. 4,4.6-8b.9: Deus responde a Jonas interpelando-o 

O chamamento de Jonas é feito duas vezes: na 1.ª, ele foge; na 2.ª, obedece. Os marinheiros e os ninivitas representam os estrangeiros, descritos de modo positivo, reconhecem o poder de Deus e rezam, enquanto Jonas, representante do povo de Israel, continua fechado na recusa à Javé.
Há recursos narrativos, como a repetição de palavras, o uso de citações e s inversão irónica.
No atinente à repetição de palavras, é de relevar que o verbo yārad (descer) aparece 3 vezes no cap. 1, indicando o caminho descendente de Jonas: para Jope, para o navio (Jn 1,3), para o fundo do navio, onde dormia profundamente (Jn 1,5), e, no cap 2, afirma-se que desceu até as raízes das montanhas (Jn 2,7); gādol (grande) é um adjetivo que o autor utiliza para falar de Nínive (Jn 1,2; 3,2.3; 4,11), para o vento (Jn 1,4), para a tempestade (Jn 1,4.12) e para o temor dos marinheiros (Jn 1,10.16), para os ninivitas (Jn 3,5.7); o verbo tûl (lançar, atirar ou jogar) surge 4 vezes no cap 1 (Jn 1,4.5.12.15), quando, no cap 2 (2,7), se usa outro verbo para lançar (shālak); e a mesma raiz verbal de mānah (mandar, determinar, designar) introduz os 4 eventos miraculosos que aparecem na história: o grande peixe (Jn 2,1), a planta (Jn 4,6), o verme (Jn 4,7) e o vento (Jn 4,8).
Em relação ao uso de citações, refira-se que o cap 2 é um texto sálmico com citações de outros textos congéneres:
Tuas vagas todas e tuas ondas passaram sobre mim” (Sl 42,8b; cf Jn 2,4b); “Quanto a mim, na minha ânsia eu dizia: ‘Fui excluído para longe dos teus olhos!’ Tu, porém, ouvias a minha voz suplicante, quando eu gritava por ti” (Sl 31,23; cf Jn 2,5); “Salva-me, ó Deus, pois a água sobe-me até ao pescoço” (Sl 69,2; cf Jn 2,6), “Javé, tiraste minha vida do Xeol, tu me reavivaste dentre os que descem à cova” (Sl 30,4; cf. Sl 16,10; Jn 2,7b); “Tu detestas os que veneram ídolos vazios; quanto a mim, confio em Javé” (Sl 31,7; cf Jn 2,9); “De ti vem meu louvor na grande assembleia, cumprirei meus votos frente àqueles que o temem”; “A Javé pertence a salvação! E sobre o teu povo, a tua bênção” (Sl 3,9; 22,26; cf Jn 2,10).
Por outro lado, o argumento do rei de Nínive (Jn 3,8-9) pode ser uma releitura de Jeremias:
Ora, eu falo sobre uma nação ou contra um reino, para arrancar, arrasar, destruir, mas se esta nação, contra a qual falei, se converte de sua perversidade, então arrependo-me do mal que jurara fazer-lhe (…). Converta-se, pois, cada um de seu caminho perverso, melhorai vossos caminhos e vossas obras.” (Jr 18,7-8.11b; cf. Jr 26,3.13.19).
O segmento textual “Tu és um Deus de piedade e de ternura, lento para a ira e rico em amor e que se arrepende do mal” (Jn 4,2) é uma citação de Ex 34,6-7. E ao segmento textual “Então Jonas pediu a morte e disse: ‘É melhor para mim morrer do que viver’.” (Jn 4,8c), assemelha-se o do pedido de Elias em 1Rs 19,4: Elias “pediu a morte, dizendo: ‘Agora basta, Javé! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais’.”.
No âmbito da inversão irónica, verifica-se que o autor inverte a narrativa bíblica convencional. A personagem central age de forma inesperada. Logo no início, há a ordem a Jonas “Levanta-te e vai”, esperando-se que ele obedeça. Mas ele “levantou-se e fugiu para Társis” (Jn 1,1.3). Os marinheiros e os ninivitas têm um comportamento exemplar. Os primeiros tentam salvar Jonas; os ninivitas creram em Deus, convocaram jejum e fizeram penitência; e o rei convoca um jejum, faz penitência e exorta o povo à conversão. Outra inversão notória é Jonas a rezar pedindo a morte, “Eu peço-Te, tira a minha vida, pois é melhor para mim a morte do que a vida” (Jn 4,3), ao contrário dos marinheiros que pedem a vida, “Ah, Senhor, não queremos perecer por causa da vida deste homem! Mas não ponhas sobre nós o sangue inocente, pois tu agiste como quiseste.” (Jn 1,14).
No entanto, no cap 2, Jonas reza, mas sem uma palavra sequer sobre a missão ou fuga. Apenas agradece a Javé pela salvação (Jn 2,7) e destaca a importância do Templo. Um Jonas muito diferente do resto do livro: rezar um salmo dentro da barriga de peixe é ideia tão absurda como a de que podia sobreviver ali de um a três dias – história de pescador.
***
Teologia e mensagem do livro
O autor reage contra o particularismo sócio-religioso em voga na época de Neemias e Esdras, mostrando os desígnios de salvação que Deus tem para com os pagãos, mesmo que inimigos de Israel, ao enviar-lhes um pregador. Rompendo assim com esse particularismo, no livro toda a gente é simpática: os marinheiros pagãos no momento do naufrágio, o rei, os habitantes e até os animais de Nínive; todos, exceto o profeta, o único israelita que aparece em cena.
Deus, por seu turno, compadece-se do seu profeta e de todos, porque a sua misericórdia é universal. Para conseguir tais intentos, o narrador serve-se dum profeta de que se conhecia pouco mais que o nome, fazendo uma composição cheia de hipérboles e de humor, fácil de fixar. De facto, a aventura de Jonas no ventre do “grande peixe” (2,1) ficou na imaginação popular e tocou a fantasia dos artistas de diversas épocas. Não esqueçamos, porém, que a mensagem fundamental deste livro é a do amor universal de Deus.
***
O livro de Jonas surge da pena de quem conhece a tradição do povo de Israel, um sábio que mantém vivas algumas memórias importantes. Os recursos narrativos, especialmente o uso de citações, apontam para o período do pós-exílio a elaboração dum texto que apresenta uma teologia do Deus da gratuitidade e da misericórdia para com todos os povos, incluindo os piores inimigos do povo.
Assim a mensagem de Jonas, a intenção desta narrativa, decorre das preocupações emergentes, embora a contrario, no tempo de Neemias e Esdras (450-350 a.C.), em que se destacavam, entre os interesses principais, a reconstrução de Jerusalém, a restauração da Lei e das práticas rituais, a eliminação de influências estrangeiras e a proibição de casamentos mistos. O livro de Jonas ignora esses temas. Ao invés, ironiza o comportamento do judeu nacionalista e tem um olhar favorável ao estrangeiro. A personagem Jonas representa, na sua resistência, os grupos que não aceitam que Javé seja misericordioso com estrangeiros – muito menos com os assírios –, como Abdias, Joel, Neemias e Esdras.
De acordo com a narrativa, as pessoas de Nínive são chamadas à mudança de vida:
Invocarão a Deus com vigor e se converterá cada qual de seu caminho perverso e da violência que está em suas mãos” (Jn 3,8).
Nínive, cidade chamada de “sanguinária” (Na 3,1.3), era símbolo do império opressor e da sua crueldade. O termo hebraico traduzido por ações violentas é hamás, que significa, nos textos proféticos, as mais diversas injustiças sociais. Não se trata aqui só da conversão dos opressores ao verdadeiro Deus, mas de abandonar toda forma de injustiça social. Portanto, o perdão e a misericórdia de Deus são para todas as pessoas, até para os piores inimigos do povo de Israel. Assim, os grupos nacionalistas e exclusivistas de Israel são chamados à conversão. Jonas é, pois, símbolo de um povo que não acredita na intervenção de Deus em favor daqueles que consideram seus inimigos. Mas o autor do livro de Jonas segue noutra direção: crê que o perdão e a ação de Deus não têm fronteiras.
As pessoas que liam ou ouviam a narrativa de Jonas eram convidadas a rever sua compreensão de Deus. O livro de Jonas foi usado contra a visão reduzida de alguns grupos de judeus que pensavam serem eles o único povo abençoado por Deus. Apresentar Javé que se compadece dos assírios e se arrepende do mal não é o mesmo que afirmar que todos os povos são escolhidos por ele, mas que ele é favorável a todos os que se convertem de sua má conduta e ações violentas. De acordo com o ensinamento das primeiras comunidades, haurido no Evangelho, Deus alegra-se por um só pecador que se converte (cf Lc 15,7.10).
Há muitas perguntas na história de Jonas. Diante da tempestade, o capitão o questiona: “Como podes dormir?” (Jn 1,6). Os marinheiros querem saber qual é a missão de Jonas, de onde vem ele, qual a sua terra e o povo a que pertence (Jn 1,8). Sabendo da identidade de Jonas, questionam-no: “Que é isso que fizeste?” (Jn 1,10). E, na tentativa de encontrar soluções, dizem-lhe: “Que te faremos para que o mar se acalme em torno de nós?” (Jn 1,11). No cap 4, há duplo questionamento de Javé para Jonas: “Tens, por acaso, motivo para te irar?” “Está certo que te aborreças por causa dum rícino?” (Jn 4,4.9). “E eu não terei pena de Nínive?” (Jn 4,11). E o questionamento continua hoje.
A história de Jonas é tão antiga e tão nova. A releitura dessa narrativa ajudar-nos-á a refletir sobre a necessidade de assumirmos a nossa missão de cada dia e convida-nos a identificar os nossos preconceitos e a eliminá-los. Refletindo sobre a oração de Jonas, ampliaremos os nossos horizontes para reconhecer a presença de Deus em cada pessoa que vive e pratica a justiça, independentemente da sua confissão religiosa. O coração de Deus, capaz de se comover diante da pessoa que se converte, deve inspirar a nossa postura em relação aos outros. Essa história nos recorda a importância de dar o perdão, e dá-lo em primeiro lugar a si mesmo. Deus é compaixão e misericórdia; portanto, criados à sua imagem e semelhança, é nossa vocação desenvolver as mesmas atitudes. São essas as perspetivas para a nossa leitura de Jonas. Aliás, o único sinal que Jesus deu àquela geração – má e adúltera – que lhe pedia um sinal, só deu o sinal de Jonas:
Assim como Jonas esteve no ventre do monstro marinho, três dias e três noites, assim o Filho do Homem estará no seio da terra, três dias e três noites. No dia do juízo, os habitantes de Nínive hão de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque fizeram penitência quando ouviram a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é maior do que Jonas! (Mt 12,40-41).
***
Chaves de leitura
Para compreensão do horizonte sociocultural e histórico em que surgiu o livro e auxiliar a sua leitura, podem ser úteis as chaves de leitura seguintes:
- Nacionalismo judaico. Em 587 a.C., o Templo e Jerusalém foram destruídos e foi parte da população deportada para a Babilónia, onde já havia colónias de judeus exilados da 1.ª deportação (597 a.C.). É o exílio da Babilónia. Em 539 a.C., os persas dominaram os babilónios e os judeus exilados puderam retornar a Jerusalém no ano seguinte. No exílio, para garantir a unidade e a coesão dos judeus, surgiu a ideia do povo eleito. E, no pós-exílio, sobretudo no tempo de Neemias e Esdras (450-350 a.C.), consolidou-se a noção de que Israel era o único povo santo, escolhido e privilegiado de Deus. Essa visão nacionalista gerou a exclusão de outros grupos, principalmente estrangeiros. Nesse contexto, o livro mostra Jonas como enviado por Javé a pregar a Nínive, a capital dos assírios. Mas ele foge em direção contrária, descendo para Jope, donde embarca para Társis, tido como o lugar mais distante de Israel. Ora, na mentalidade da época, o único lugar da morada de Javé era Jerusalém. Por isso, os profetas de Israel pregaram contra as outras nações, mas Jonas é o único enviado para pregar a destruição de uma cidade (no caso, Nínive) na própria cidade. Assim, aponta-se para uma novidade na intenção do autor: mais do que destruição, o objetivo é que a palavra de Deus seja ouvida.
- Estrangeiros, considerados excluídos, vivem a justiça. O pós-exílio inicia o processo de exclusão até se chegar à eliminação do estrangeiro. No livro do Êxodo, que teve a sua redação final nesse período, lê-se:
Fica atento para observar o que hoje te ordeno: expulsarei de diante de ti os amorreus, os cananeus, os heteus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Abstém-te de fazer aliança com os moradores da terra para onde vais, para que não sejam uma cilada.” (Ex 34,11-12).
A ideia de povo eleito e santo, que possibilitara manter a coesão e a identidade dos judeus no exílio, provoca o fechamento e isolamento de outros povos e dos judeus que haviam ficado na Babilónia. Oficialmente, o povo judeu era considerado puro e os estrangeiros, impuros. Ser puro significava pertencer ao povo eleito e cumprir com todas as exigências da Lei, sobretudo as leis da pureza (Lv 11-15). Segundo a teologia do Templo, o único lugar da manifestação de Deus, a pessoa fiel à Lei era abençoada com riqueza, terra e descendência. Porém, só os sacerdotes da linhagem de Aarão podiam oferecer sacrifícios a Javé. O estrangeiro, sob pena de morte, não podia entrar no Templo (Nm 3,38). Ora, a história de Jonas mostra os estrangeiros a trabalhar arduamente para sobreviverem à tempestade, enquanto Jonas, que acredita que só o povo de Israel é privilegiado por Deus, dorme, permanece distante das pessoas e de Deus.
Não obstante, houve vozes contra a exclusão de estrangeiros. Alguns ecos sentem-se em Job, Jonas, Rute, Trito Isaías e em alguns salmos, que propuseram a inclusão do estrangeiro.
- A presença de Deus não é presa ao Templo. Jonas, na sua oração, continua, mesmo dentro do peixe, no abismo mais profundo, a olhar para o Templo esperando que a sua prece chegue até ao Templo. Na verdade, desde a sua reconstrução, em 515 a.C., o Templo tornou-se o centro da vida religiosa e política do povo judeu. É a teocracia que consiste no governo a partir do Templo e da liderança do sumo-sacerdote. O livro de Jonas mostra Deus a agir na tempestade, no mar, nos elementos da natureza; a agir para lá das fronteiras de Israel: em Jope e em Nínive. Porém, na narrativa poética (Jn 2,3-10) da oração de Jonas, Deus ouve a prece e realiza a salvação a partir do Templo. Jonas representa, pois, as pessoas que creem ser o Templo o único lugar da presença de Deus. É possível rezar o salmo de Jonas crendo que Deus Se faz presente nos momentos de dificuldade e sofrimento, mas temos de alargar os horizontes e reconhecer a sua presença em todo o universo e em todos os seres criados. Como o grupo do Trito Isaías, cremos que tudo que existe foi feito por Deus, os seus olhos estão voltados “para o pobre, o abatido, para o que treme ante a minha palavra” (Is 66,2) e está presente onde reina o amor e a justiça. Com efeito, veio Jesus pregar a adoração em espírito e verdade, por que Deus é espírito (Jo 4,23.24.25).
- Deus perdoa sempre, mesmo ao pior inimigo de Israel. Nínive era considerada o símbolo dos opressores de todos os tempos, os assírios eram famosos pela violência e crueldade e o povo de Israel (do norte e do sul) experimentou durante muito tempo a crueldade do império assírio. Desde 738 a.C., Manaém, o rei do Norte, pagava tributo ao rei da Assíria. Cerca de 732 a.C., os assírios apropriaram-se de várias cidades do reino do Norte. Dez anos depois, a Samaria foi invadida e transformada em província assíria, a elite foi deportada e substituída por estrangeiros (2Rs 17,24). O reino do Sul viveu situação igual. Desde 732 a.C., pagava tributo para a Assíria. Foi invadido em 701 a.C. por Senaquerib, que se apoderou de 36 cidades-fortalezas. Ora, é para Nínive que Javé envia Jonas. Mesmo contra a vontade, o enviado vai e anuncia a destruição da cidade. Segundo a narrativa, os ninivitas jejuam, fazem penitência e convertem-se do caminho perverso e da violência (Jn 3,5.8). Por isso, Deus amolece o coração e tem compaixão. Afinal, o objetivo do autor do livro é desafiar os leitores/ouvintes a aceitarem que Javé, compadecendo-Se do pior inimigo de Israel, oferece a todos a sua compaixão e a misericórdia – a salvação (cf 1Tm 2,4; Tt 2,11; At 10,34-36).
- A misericórdia e a gratuitidade de Deus não têm fronteiras. Após a queda de Jerusalém (587 a.C.), as pessoas atingidas, sobretudo as elites, tentaram encontrar os motivos de sua destruição e, apesar do sofrimento e deceção, acreditavam que o exílio era castigo de Javé. Alguns salmos fazem eco deste pensamento: “Até quando te esconderás, ó Javé? Até o fim vai arder como fogo tua cólera?” (Sl 89,47). “Tu nos entregaste como ovelhas de corte, tu nos dispersaste por entre as nações; vendes o teu povo por um nada, e nada lucras com seu preço” (Sl 44,12-13).
No pós-exílio, a identidade de um judaíta não advém da pertença ao povo, mas da sua fé em Javé, o que se confirma no livro de Jonas. Com efeito quando os marinheiros lhe perguntam: “Donde vens, qual a tua terra e a que povo pertences?” Jonas responde: “Sou hebreu e temo a Javé, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jn 1,8-9). Os membros da comunidade judaica eram designados como tementes a Deus: “Vós que temeis a Iahweh, louvai-o! Glorificai-o, descendência toda de Jacob! Temei-o, descendência toda de Israel” (Sl 22,26; cf. Sl 85,10). A fé em Javé e a ideia de ser o povo eleito permitiram ao povo judeu manter identidade no exílio. Mas, no pós-exílio, a categoria de povo eleito, que inclui a noção de privilégios e superioridade, provocou atitudes exclusivistas e separatistas de grupos divergentes e estrangeiros. Riqueza, descendência e vida longa eram tidas como bênçãos divinas para a pessoa que observava a Lei de Deus, adorando somente o Deus de Israel. As leis da pureza determinavam quem estava mais próximo de Deus e quem estava mais distante. As pessoas ligadas ao Templo criam que a misericórdia de Javé era apenas para o Israel puro. Em contramão da teologia oficial, o livro de Jonas apresenta um Deus que age com misericórdia para com todos os povos.
Abrir-se para o outro, superar preconceitos, desenvolver na nossa vida atitudes de misericórdia e compaixão são passos de um projeto para a vida toda.
***
Referências
ALVES, Herculano (1998) (Coord.). Nova Bíblia dos Capuchinhos. Lisboa/Fátima: Difusora Bíblica, pp 1496-1499.
CARDOSO PEREIRA, Nancy (2000). “Lições de cartografia: pequena introdução ao livro de Jonas”. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, nº 35-36, pp. 199-205.
KILPP, Nelson (1994). Jonas. 2.ª ed. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal.
Gowan, Jean (1951). “Jonas”. In Brown, Raymond E. Comentario bíblico “San Jeronimo”,Tomo II.Madrid: Ediciones Christiandad, pgs 753.763.
LIVERANI, Mario (2008). Para além da Bíblia: história antiga de Israel. São Paulo: Paulus, Loyola.
MAGONET, Jonathan (1992). “Book of Jonah”, in: FREEDMAN, David Noel (org.). The anchor Bible dictionary. New York: Doubleday, v. 3, pp. 936-942.
MARQUES, M. Antônia (2010). “Levanta-te e vai à grande cidade: uma introdução ao livro de Jonas”. Vida Pastoral, Setembro-Outubro de 2010, pp. 6-13.
Storniolo, Ivo (1993) (coord.) Bíblia Pastoral. Lisboa: São Paulo, pp 1264-1267.
TRIBBLE, Phyllis (1996). “The book of Jonah”, in: KECK, Leander E. (org.). The new interpreter’s Bible. Nashville: Abingdon, pp. 463-529.
2019.03.11 – Louro de Carvalho