terça-feira, 15 de agosto de 2017

“Signum magnum” – a Igreja e/ou a Assunção de Nossa Senhora

A solenidade da Assunção de Nossa Senhora há de ser enquadrada no mistério de Cristo e da Igreja na perspetiva da economia da Salvação. E esta passa pelo sinal na Terra dado ao rei Acaz pelo profeta Isaías: “a jovem está grávida e vai dar à luz um filho, e há de pôr-lhe o nome de Ema­nuel” (Is 7,14). É uma profecia que se cumpre em Maria, como disse o Anjo a José:
José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.” (Mt 1,20-21).
E o evangelista explica:
Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco” (Mt 1,22-23).
Obviamente que nós lemos no Evangelho de Lucas o anúncio do nascimento de Jesus. É a Cheia de Graça que havia de atualizar, nestes tempos que são os últimos, aquele sinal concebendo e dando à luz um filho ao qual poria o nome de Jesus – tornando-se a serva do Mistério e a cumpridora da Palavra (cf Lc 1,26-38). E é nesta dimensão de nova Arca da Aliança, que traz dentro de si, já não as tábuas da Lei, mas o corpo do Filho de Deus, que Maria calcorreia as montanhas para ajuda àquela que estava já no 6.º mês da sua gravidez – Isabel havia de dar à luz aquele que vinha preparar os caminhos do Senhor.
Isabel não dançou nem cantou como David diante da Arca da Lei, mas o menino saltou-lhe dentro do seio à chegada da Mãe do Senhor. E a mãe do Batista fez o ato de fé exultante e pedagógico:
Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Pois, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.” (Lc 1,42-45).
E a Mãe de Jesus entoou exultante o ‘Magnificat’, cântico da misericórdia divina, reconhecendo as maravilhas de Deus em quem é humilde e profetizando a aclamação de todas as gerações sobre o nome de Maria que nos traz Jesus e que para Ele nos encaminha (vd Lc 1,45-55).
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Porém, o dia da Assunção é, por si, um dia pascal, cristológico. Como pela Páscoa Paulo nos convida a aspirar às coisas do Alto e a libertar-nos das da Terra (cf Cl 3,1-4), também na Solenidade da Assunção a Liturgia nos manda olhar para o Céu, onde aparece um sinal deveras grandioso – signum magnum – uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de estrelas na cabeça. E este sinal é um sinal de guerra: a guerra feroz que Satanás e as suas forças fazem à Igreja ao longo dos séculos, mas sem que as forças do inferno prevaleçam (cf Mt 16,18), pois a vitória, por mérito de Cristo, o verdadeiro Sol, pertence à Mulher vestida de sol, a Igreja, que d’Ele recebe a luz, e a Virgem Maria, protótipo e membro primevo da Igreja, nossa Mãe e Mãe da Igreja. Por isso rezamos na Missa (oração coleta) e na Liturgia das Horas:
Deus eterno e omnipotente, que elevastes à glória do Céu em corpo e alma a Imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, concedei-nos a graça de aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da sua glória”.
E hoje, na igreja dos Passionistas, começava-se a celebração eucarística com o cântico cujo estribilho é: “Jesus  Cristo Ontem e Hoje e por toda a eternidade”. Com efeito, “o seu reinado não terá fim” (Lc 1,33).
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A Leitura I da Missa (Ap 11, 19a 12, 1-6a.10ab) é eloquente:
O templo de Deus abriu-se no Céu e a arca da aliança foi vista no seu templo. Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de 12 estrelas na cabeça. Estando para ser mãe, gritava com as dores e ânsias da maternidade. E outro sinal: um enorme dragão cor de fogo, com 7 cabeças e 10 chifres e nas cabeças 7 diademas. A cauda arrastava um terço das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra. O dragão colocou-se ante a mulher que estava para ser mãe, para lhe devorar o filho logo que nascesse. Ela teve um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. O filho foi levado para junto de Deus e do seu trono e a mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. E ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu: Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido.
Sob a imagem da Arca (v. 19) e da mulher (vv. 1-17) é-nos apresentada a Igreja e, com ela e como ela, a Virgem Maria, “membro eminente e singular da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade e sua Mãe amorosíssima” (cf LG 53). Santo Agostinho, no seu comentário ao Apocalipse (Homilia IX), explica:
O Dragão colocou-se diante da mulher...”. A Igreja dá à luz sempre no meio de sofrimentos, e o Dragão está sempre de vigia a ver se devora Cristo, quando nascem os seus membros. Disse-se que deu à luz um filho varão, vencedor do diabo. “E a mulher fugiu para o deserto”. 
O mundo é o deserto onde Cristo governa e alimenta a Igreja até ao fim; e, nele, a Igreja calca e esmaga, com o auxílio de Cristo, os soberbos e os ímpios, como escorpiões e víboras, e todo o poder de Satanás. Mas a Igreja tem de saber estar em deserto e agir a partir dele. Por outro lado, a confiança na vitória tem de lhe vir do Alto e da capacidade de encontro com Deus e com os homens, e não pelas alianças bélicas ou pecuniárias com o reino iníquo dos homens. A fé na vitória funda-se na paz e não no arrastamento das estrelas, no esmagamento dos povos e no desrespeito inquisitorial da dignidade humana ou da autonomia das sociedades e dos povos.
A força da vitória ganha-se na oração e na abertura, na ação e no diálogo, no dar de mãos, na esperança de que ressuscitaremos e de que os nossos corpos serão glorificados com a vitória definitiva de Jesus sobre a morte (cf 1Cor 15,20-27), pois Ele ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram.
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O Senhor quis glorificar Aquela que não tinha sido manchada pelo pecado, causador da morte e da corrupção, levando-A em corpo e alma para o Céu. Assim, glorificamos a Mãe de Deus e glorificamos a vitória do Seu Filho sobre a morte e o pecado. E a solenidade da Assunção é para nós ocasião de aprofundamento da fé, de avivamento da esperança e de fortalecimento a caridade. A ressurreição de Jesus e a assunção da Virgem ao Céu são como que as primícias da sorte maravilhosa que nos espera.
Pio XII, antes de proclamar como dogma esta verdade, comprovou a fé nela de todo o povo cristão, consultando os bispos do mundo inteiro. As cartas recebidas foram quase unânimes na manifestação desta crença do povo de Deus. E o Papa proclamou-a a 1 de novembro de 1950:
“Pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos Bem aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e também pela nossa proclamamos, declaramos e definimos ter sido divinamente revelado o dogma de que Imaculada sempre Virgem Maria Mãe de Deus, terminado o curso da Sua vida na terra, foi elevada em corpo e alma à glória do Céu” (Const. Apost. Munificentissimus Deus, em AAS 43(1951)638 ).
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A perícopa do Evangelho de Lucas tomada para a solenidade apresenta a visitação de Maria a Isabel. A mãe do precursor, cheia do Espírito Santo dirige a Maria o mais belo elogio. Também, guiada pelo Espírito de Deus, a Igreja continuou ao longo dos séculos a louvar a Mãe do Senhor. Ao ouvir tal elogio de Isabel, Maria não nega a verdade dele. Ao invés, diz que todas as gerações A proclamarão bem-aventurada, porém, encaminhando para Deus todos os louvores:
A Minha alma glorifica o Senhor e o Meu espírito se alegra em Deus Meu Salvador… O Todo poderoso fez em Mim maravilhas: santo é o Seu nome”.
A Virgem é para nós, na sua simplicidade pedagógica e profética, modelo da verdadeira humildade, a qual não consiste em negar as coisas boas que recebemos, mas em encaminhar para Deus, que no-las deu, todos os louvores recebidos. Escolhida para Mãe de Deus, foi pôr-se ao serviço da prima durante três meses, como simples ancila, para a ajudar. Agora, está tão perto de Deus a criatura mais perfeita, revestida da dignidade maior concedida a uma criatura, mas, ao mesmo tempo, é a mais humilde, mais perto de cada um de nós: pelo trabalho, que foi igual ao de tantas mulheres, pela simplicidade, pelo amor a cada a homem, que o Senhor Lhe entregou numa relação de mãe-filho, pelo papel de mensageira do Céu e testemunha dos dramas da humanidade ferida no seu devir e na dignidade dos seus membros. Com este intuito nos visita.
Muitas vezes Lhe poderemos dirigir o elogio de tantas gerações “Salve Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa...” ou “Ave, Maria, cheia de graça” e pedir “Depois deste desterro nos mostrai Jesus, bendito fruto do Vosso ventre”.
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A visão do Apocalipse apresenta a Mulher com dores de maternidade e o contrassinal de Satanás com grande poder e manifestações de arrogância. É um sinal, um aviso para todos. Se a Mulher – Igreja-Mãe e Maria-Mãe – quer proteger-nos, o Pai da Mentira e Príncipe das Trevas quer perder-nos, levar-nos a ofender a Deus e a separar-nos de Deus para sempre. Parece muitas vezes, ao longo da História, que vence os amigos de Deus. Parece que a Igreja vai ser derrotada por ele. Mas o Senhor deixou-nos um sinal e garantia de esperança, que se pode ver na Terra ao olhar para o Céu. O Sinal é do Céu, mas tem uma função na Terra.  
Maria, a mulher dada como sinal que a serpente não pode vencer, é a mulher vestida de sol, adornada da graça e beleza de Deus e revestida do seu poder. Por isso, Satanás não levará a melhor contra Ela e contra os que se acolhem à Sua proteção. Em 1830, a Virgem aparecia a Santa Catarina Labouré em Paris, na capela das freiras de São Vicente de Paulo, na Rua du Bac, a pedir-lhe que espalhasse pelo mundo a medalha com a imagem de Nossa Senhora com as mãos abertas derramando feixes de graças sobre o mundo e com estas palavras em redor:
Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”.
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Por fim, fixemo-nos na síntese cristológica e eclesiológica de Maria que Paulo VI fez no seu Credo do Povo de Deus (nn. 14.15), a 30 de junho de 1968:
Cremos que Maria Santíssima, que permaneceu sempre Virgem, tornou-se Mãe do Verbo Encarnado, nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo; e que por motivo desta eleição singular, em consideração dos méritos de seu Filho, foi remida de modo mais sublime e preservada imune de toda a mancha do pecado original; e que supera de longe todas as demais criaturas, pelo dom de uma graça insigne. Associada por estreito e indissolúvel vínculo aos mistérios da Encarnação e da Redenção, a Santíssima Virgem Maria, Imaculada, depois de terminar o curso de sua vida terrestre, foi elevada em corpo e alma à glória celestial; e, tornada semelhante a seu Filho, que ressuscitou dentre os mortos, participou antecipadamente da sorte de todos os justos. Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja, continua no céu a desempenhar seu ofício materno, em relação aos membros de Cristo, cooperando para gerar e desenvolver a vida divina em cada uma das almas dos homens que foram remidos.”. 
E, na Exortação Apostólica “Signum Magnum”, de 13 de maio de 1967 (n.º 8), diz:
“Mesmo depois de Jesus subir ao céu, ficou unida a Ele por um ardentíssimo amor, enquanto cumpria com fidelidade a nova missão de Mãe espiritual do discípulo predileto e da Igreja nascente. Pode afirmar-se, assim, que toda a vida da humilde Serva do Senhor, desde o momento em que foi saudada pelo Anjo até à sua assunção em alma e corpo à glória celeste, foi uma vida de amoroso serviço. […]. Cheios de admiração, contemplamos Maria, firme na fé, pronta na obediência, simples na humildade, exultante no louvor do Senhor, ardente na caridade, forte e constante no cumprimento da sua missão até ao holocausto de si própria, em plena comunhão de sentimentos com o seu Filho, que se imolava na Cruz para dar aos homens uma vida nova”.
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“Cristo, nossa Páscoa foi imolado. Celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade.” (1Cor 5,7-8).

2017.08.15 – Louro de Carvalho

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