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terça-feira, 20 de agosto de 2019

São Bernardo, o “cantor da Virgem Maria”


Celebra-se, a 20 de agosto, a memória litúrgica de São Bernardo de Claraval, abade e doutor da Igreja, que nasceu perto de Dijon (França), em 1090, e recebeu uma piedosa educação. Tendo entrado com trinta companheiros no novo mosteiro de Cister, foi depois fundador e primeiro abade do mosteiro de Claraval (“Vale claro”) – a grande abadia-mãe a que ficou ligada a maioria das abadias portuguesas e espanholas –, onde dirigiu sábia e espiritualmente os monges pelo caminho dos mandamentos de Deus, com a vida, doutrina e exemplo. Por causa dos cismas que ameaçavam a Igreja, percorreu a Europa para restabelecer a paz e a unidade e ilustrou a toda a Igreja com os seus escritos de teologia e ascética e as suas ardentes exortações, até que, no território de Langres, na França, adormeceu no Senhor em 1153. Foi canonizado a 18 de Julho de 1174 por Alexandre III e declarado Doutor da Igreja por Pio VIII em 1830. 
Durante os 38 anos que durou o seu abaciado, a ação de Bernardo marcou definitivamente a política de França e do próprio Ocidente medieval, enquanto Cister atinge 165 mosteiros, tendo o próprio fundado cerca de 68.
Homem de constituição frágil, exigente no cumprimento da Regra e da penitência, dividia as horas entre a oração e o trabalho manual. Pretendia fazer reviver aos cistercienses a austeridade e pureza monástica no seu hábito branco e a vida em comunidade no mais absoluto silêncio.
Como Doutor da Igreja destacam-se os seus escritos, sermões, planos e projetos que estruturavam as suas ideias dentro da própria Ordem.
Bernardo é autor de diversos escritos onde ressalta a doçura e a dedicação a Deus como entidade de amor e caridade, mas evidenciou-se sobretudo por ser o grande impulsionador do culto e contemplação de Maria, bem como o autor da Regra para a Ordem dos Cavaleiros Templários.
No âmbito da devoção a Maria, podiam ser anotados vários episódios, mas ficamo-nos pelo atinente à composição da Salve Regina, de que não é autor inicial, mas compositor do remate.
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Muitas pessoas são indicadas como possíveis autores desta antífona tão rezada e cantada. Até há quem sustente que seria um hino dos combatentes da Primeira Cruzada. Mas o mais provável é que tenha sido composta pelo monge alemão beneditino Herman Contrat, em 1050, que nascera a 18 de julho de 1013, com graves problemas de saúde num tempo de crises, pestes e calamidades. Os bárbaros vindos do Leste invadiam as cidades destruindo igrejas e conventos, provocando medo, sofrimento, dor e morte. Conta-se que, ao nascer, Miltreed, sua mãe, o consagrou à Virgem Maria. Portador de raquitismo que o deixaria progressivamente paralítico, tinha o palato fendido e era vítima de paralisia cerebral e esclerose amiotrófica ou atrofia muscular espinal. Enfim, tinha enorme dificuldade em movimentar-se e quase não falava. Era uma das pessoas que tinha tudo para dar errado na vida. Os pais não suportavam o peso de criar uma criança com aqueles problemas e confiaram-no, aos sete anos de idade, aos monges beneditinos que o acolheram no mosteiro para os estudos em regime de internato.
Naquele ambiente de silêncio, trabalho, estudo e oração, Contrat foi superando cada um dos seus limites por meio da disciplina perseverante. Jamais perdeu a fé na vida e a vida de fé. Era um apaixonado pela ciência e pelas artes. É notável o seu exemplo de autossuperação. Tornou-se astrónomo, matemático, físico, teólogo, poeta e músico. Compôs diversas antífonas e canções para a liturgia, devendo, para se entender o tom dramático de seus poemas e melodias, situarmo-nos na Europa do século XI que passava por guerras, devastações e muitas calamidades. A Salve Regina é uma destas saudações-prece que reconhece as dificuldades desta vida em que, tantas vezes, “gememos e choramos neste vale de lágrimas” e que revela a pedagogia da piedade mariana acentuando que Maria tem a função de nos mostrar Jesus, o fruto bendito do seu ventre.
Conhecendo um pouco a história deste monge, é possível entender o significado da saudação-prece. Mas no último segmento discursivo, a oração não estaciona na tragédia. Contrat é um homem de fé e esperança. Ele acredita que Deus sempre prepara um final feliz para quem se coloca em seus braços e confia na sua misericórdia providente. A oração que sai dos seus lábios é uma declaração de confiança amorosa no Deus que jamais nos abandona.
Aos 20 anos, Herman Contrat tornou-se monge beneditino e passou a sua vida na Abadia de Reichenau, numa ilha do Lago Constança, no sul da Alemanha. Acabou por se tornar o Mestre dos Noviços. Além da famosa Salve Regina, chegaram até nós outras obras. Compôs ofícios em memória de alguns santos; elaborou um tratado de música; tem alguns escritos sobre geometria e aritmética e são famosos os seus tratados sobre astronomia. Ofereceu importante contribuição para o aperfeiçoamento do astrolábio, que iria tornar possíveis as grandes navegações. Foi historiador fecundo que numa única obra reuniu os diversos relatos do cristianismo desde o nascimento de Cristo, até por volta do ano mil. Aprendeu diversos idiomas, incluindo árabe, grego e latim. E construiu novos instrumentos musicais e astronómicos.
Os seus limites iam aumentando e ele ultrapassava-os um a um. No final da vida, como se não bastasse mais nada, ficou cego. Parece que este seria o limite determinante para parar a força de superação de Herman Contrat. Mas foi nesta fase que ele compôs a obra-prima que deixaria a sua marca diária na história da humanidade até os nossos dias: a Salve Regina. Faleceu no mosteiro de Reichenau no dia 24 de setembro de 1054. Foi beatificado em 1863.
Mas Contrat não compôs toda a Salve Regina como a conhecemos hoje. A oração originalmente terminava na frase: “Et Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exsilium ostende” (E, depois deste desterro, mostra-nos Jesus, bendito fruto do teu ventre). É curioso que o poema orante não pronunciava em nenhum momento o nome de “Maria”. Nem admira, pois também os dizeres do Anjo e os de Isabel, para Maria, não dizem o nome da interlocutora. Já o Anjo quando fala com José pronuncia o nome de Maria, como pronunciou o nome de Isabel quando falou com Maria. É economia e a pertinência do discurso oral. 
Passaram-se cerca de cem anos. E a antífona rapidamente se tornou muito popular. Era cantada e rezada com frequência em muitos lugares. Numa dessas ocasiões foi a oração escolhida para uma celebração na Catedral de Espira. Estavam presentes personalidades importantes como o Imperador Conrado. No meio do povo, quase anónimo, estava um jovem desconhecido que, mais tarde, o mundo conhecerá como São Bernardo, o “cantor da Virgem Maria”. Foi ele quem popularizou para Maria, por exemplo, o título de “Nossa Senhora”. Dantes, era Santa Maria. O jovem Bernardo, naquele dia, uniu-se ao coro que entoava a Salve Regina naquela catedral. Mas, quando todos terminaram e se fez o reverente silêncio, a voz do jovem continuou com a inspirada frase em latim que ele criou naquele momento: “O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria”. A partir de então, o verso improvisado passou a integrar a antífona e é assim que a terminamos hoje: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria”.
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E, por falarmos de Nossa Senhora, não posso deixar de falar do gesto de ontem, dia 19 de agosto, das minhas duas meninas.
Depois de um momento de entretimento no parque infantil público de Santa Maria de Lamas, as duas, uma de 6 anos e outra de quase 4, correram à apanhada e colheram flores bravias no resto do Parque ajardinado adjacente à igreja paroquial. Depois contemplaram o cenário bucólico-religioso da Virgem de Fátima em cima do toco da azinheira e a cujos pés estão ajoelhados São Francisco Marto, Santa Jacinta Marto e a Venerável Lúcia, ficando de pé atrás de cada pastorinho uma ovelha. As meninas passaram as mãos pelas ovelhas e a mais velha ajoelhou-se ao lado esquerdo de São Francisco Marto, pôs as mãos muito direitinhas e, olhando para a imagem de Nossa Senhora, rogava reiteradamente: “Olha para mim! Olha para mim!”. E pedia à mana; “Mana, imita-me! Mana, imita-me!”.  O que nos ensina a inocência e a candura de criança!… Era mimetismo. Mas é bom rezar comprometendo-se a ser motivo de imitação.               
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O Santuário de Fátima, na lógica de que intencionalmente cada uma das seis aparições da Virgem aos pastorinhos seria sempre no dia treze de cada um dos seis meses consecutivos selecionados, realizou e acolheu a Peregrinação Internacional Aniversária de agosto, evocativa da 4.ª aparição, no passado dia 13, presidida pelo Prefeito da Congregação para os Bispos, a que fizemos referência oportunamente. Porém, apesar da multidão reunida, a Senhora não apareceu nesse dia de 1917 porque os pastorinhos estavam retidos em Ourém pelo administrador do concelho, para interrogatório. E a aparição ocorreu a 19 de agosto nos Valinhos, a uns 500 metros do lugar de Aljustrel. Aí, a Virgem pediu aos videntes que continuassem a ir à Cova da Iria no dia 13 e que rezassem o terço todos os dias. Disse-lhes Nossa Senhora:
Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.
O monumento celebrativo desta aparição foi construído a expensas dos católicos húngaros e inaugurado a 12 de agosto de 1956. A branca imagem de Nossa Senhora de Fátima é obra da escultora Maria Amélia Carvalheira da Silva.
Assim, além da Peregrinação de 13 de agosto, já referida, o Santuário promoveu momentos celebrativos da aparição no passado dia 19.
O Padre Vítor Coutinho, vice-reitor do Santuário de Fátima, presidiu à celebração da Eucaristia na Basílica da Santíssima Trindade, de manhã, e considerou, na homilia, que “Fátima vem assegurar e garantir a toda a humanidade e a cada um de nós, que não estamos sós e abandonados”. E acrescentou:
Passar por este lugar mostra que somos acompanhados por uma presença divina que nos sustenta, mostra que somos abraçados num colo materno que nos acolhe e se importa connosco”.
O presidente da celebração assegurou que neste lugar em que Nossa Senhora apareceu e deixou uma mensagem, “há um lugar para os nossos gritos e silêncios”, porque há o sentimento de que “Deus está do lado da humanidade”. E explicitou:
Na cruz, Cristo garante a presença de todos os crucificados humanos e também nessas circunstâncias está Maria, que nos é entregue como mãe e acompanha os dramas humanos com o seu cuidado materno”.
“A aparição de agosto fala daqueles que sucumbem ao pecado”, disse. E lembrou que “precisamos de nos sacrificar uns pelos outros, porque a vida só faz sentido quando nos importamos com os irmãos”. É um cuidado que exige “entrega de si, exige estar atento e solidário”, e aí Fátima “mostra [que] na vida o nosso papel não é só fazer a nossa parte do bem, o sacrifício por reparação, é fazer mais além daquilo que estamos habituados”. E reiterou:
A Cruz mostra que não estamos sós, e aí encontramos outros irmãos e irmãs que aceitam ser discípulos do crucificado (…) A mensagem de Fátima mostra que Deus está connosco porque a nossa vida se realiza se incluirmos os outros nas nossas histórias, porque a vida não é aventura solitária e precisamos levar a sério o que é dito na aparição de agosto.”.
E, à noite, pelas 21,30 horas, o Santuário de Fátima evocou a 4.ª aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos, nos Valinhos. A saída foi em procissão da Capelinha das Aparições com recitação do Rosário até ao Caminho dos Pastorinhos, durante o qual se fez a Via-sacra, lembrando os acontecimentos de 1917, e um momento de oração junto ao monumento dos Valinhos.
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Na manhã do dia 15, o Bispo de Leiria-Fátima presidiu à celebração da Missa no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, destacando que a Solenidade da Assunção de Maria é um convite à esperança e à vitória do bem sobre o mal. “É uma  festa que nos fala do presente e do futuro” – disse o Cardeal Dom António Marto, sublinhando que “na  assunção de Nossa Senhora à glória celeste compreendemos que o Céu de Deus tem um coração de mãe”.
“Que mistério grande é este, que nos fala sobretudo de esperança, de consolação e de alegria para todos nós!” – precisou o purpurado aos milhares de peregrinos que, (no rescaldo dia 13), voltaram a participar numa celebração em Fátima, oriundos de Portugal, mas também da Costa do Marfim, da França, da Áustria, da Alemanha, do Vietname, de Itália, dos Estados Unidos, de Espanha e da Lituânia. E Dom António Marto lembrou:
Foi este mistério que os pastorinhos tão bem compreenderam, em especial a pequena vidente Lúcia a quem Nossa Senhora consolou com a promessa de que o seu coração imaculado seria o refúgio e o caminho que a conduziria até Deus (…) Também nós estaremos ao lado de Jesus na sua plenitude. Esta é a nossa esperança na vida para além desta vida – a vida eterna.”.
O prelado diocesano destacou, por outro lado, que esta festa, além da esperança nos convida a “crer no poder da ressurreição de Cristo e a vivermos como homens e mulheres corajosos, capazes de levar a luz onde existe o mal e as trevas”. E deixou um desafio:
Não nos deixemos vencer pelo poder do mal do dragão sanguinário, pois onde há a presença de Deus, o mundo torna-se melhor. Tenhamos, pois, coragem!”.
Dom António Marto lembrou que Maria é sempre a mãe que “do Céu nos olha, com amor, está perto de nós e nos segue com a sua solicitude materna”. Assim, exortou: “Agarremo-nos a Ela”.
E, convidando os peregrinos a olhar para Maria como “a porta do Céu, onde nos espera o seu filho”, apelou:
Olhemos para Nossa Senhora de Fátima e peçamos-Lhe a sua intercessão para que não nos abandone, continue a proteger-nos, nos momentos felizes e nos mais difíceis e nos acolha junto do seu filho”.
Depois, concluindo, rezou:
Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora da Assunção, Porta do Céu, rogai por nós”.
A celebração terminou com uma saudação do presidente nas várias línguas, como é seu apanágio, num dia que a Igreja Católica assinala, em todo o mundo, a solenidade litúrgica da Assunção de Maria, um dogma solenemente definido pelo Papa Pio XII, a 1 de novembro de 1950, e celebrado há vários séculos, numa data que é feriado em Portugal. Refere a constituição apostólica ‘Munificentissimus Deus’ com a qual se deu a definição deste dogma da fé católica:
Declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.
A importância do culto a Nossa Senhora reside na convicção de que  Maria tem uma “missão de intercessão e salvação”, pois  “Nossa Senhora, ao ser assunta ao Céu fica mais próxima de seus filhos aqui na terra, intercedendo por eles junto a Jesus, e torna-se um sinal luminoso da vida futura que esperamos” como  referiu  a seu tempo Bento XVI.
Será que, tal como Bernardo de Claraval é o cantor de Maria, António Marto (que, jovem, pouco caso fazia disto) virá a ser o cantor de Fátima, disputando o lugar com Alberto Cosme do Amaral?
2019.08.20 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Festa de Maria, festa de Cristo, festa da Igreja, festa do crente


A solenidade litúrgica da Assunção de Nossa Senhora mostra que Deus antecipou em Maria tudo o que deseja realizar em nós. Basta que sejamos livres como Maria para acolher a sua vontade. Para tanto, deveremos ultrapassar a nossa condição de prisioneiros do nosso desejo de nos afirmarmos ante dos outros e ante Deus, ou da resignação às dificuldades, e obtermos a graça de vivermos plenamente a liberdade dos filhos de Deus, à imagem de Maria.
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A perícopa bíblica do Apocalipse (Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab) tomada como 1.ª leitura da Liturgia da Palavra, dá-nos, em visão simbólica, a chave de leitura da Solenidade da Assunção. No dragão, cuja cauda varria um terço das estrelas do céu, que luta contra a mulher – vestida de sol, coroada de estrelas e com a Lua sob os seus pés – e que pretende capturar-lhe o filho que acabou de dar à luz, estão representadas as ideologias que hoje nos dizem que é absurdo pensar em Deus ou cumprir os seus mandamentos e os atrativos mundanos que tentam desviar-nos da rota do Evangelho. Ora, a mulher que acreditou que iria cumprir-se tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor e que se fez a serva da Palavra, a discípula da fé, a mestra dos apóstolos, sentiu que em si o Senhor fez maravilhas e, na sua alta autoestima que lhe foi segredada pelo Pai da Bondade e da Misericórdia, previu que todas as gerações a proclamariam bem-aventurada, como acontece.
Nossa Senhora, a do “sinal grandioso”, a fiel que foi dizendo o “sim” inabalável ao leque das possibilidades de Deus, participa da glória do Ressuscitado como prémio pela sua autenticidade e generosidade. Coroada de doze estrelas, também ela diz: “Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus”.
Recorde-se que as visões do Apocalipse se exprimem em linguagem codificada. Revelam que Deus arranca os fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, pode ser aplicada a Maria a visão do sinal grandioso. Proclamando esta mensagem na Assunção, reconhecemos que, no seguimento de Jesus e na pessoa de Maria, a nova humanidade já é acolhida junto de Deus.
Esta é a festa de Maria. Com efeito, a Mãe de Deus, que foi imune do pecado por graça de Deus que a inundou do seu favor e que a fez sua mãe pela geração do Verbo de Deus encarnado e pelos cuidados nutrícios e educacionais, depois de terminada a sua missão terrena, é elevada aos Céus em corpo e alma – privilégio singular que faz de Maria modelo do nosso caminhar.
Deus fez nesta simples criatura tão humilde algo parecido com o que fez com seu Filho Jesus: ressuscitou-a do túmulo, não a deixando incorrer na corrupção tumular, e elevou-a ao Céu, à plenitude em todo o seu ser, corpo e alma. Revemo-la na mulher do Apocalipse, quando os Céus se abriram e ficou patente a Arca da Aliança e ressaltou a mulher coroada e iluminada, que deu à luz o Filho que o Céu arrebatou para que o Dragão o não devorasse.
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Porém, como ficou entredito, o que se passou com Maria não tem origem nela, mas em Deus e no seu Cristo. Quem a coroou, a iluminou e lhe sujeitou a Lua foi o Cristo – morto e ressuscitado – e que subiu ao Céu. É Ele o protagonista desta festa, pois é pela sua Paixão, Ressurreição e Ascensão que Ele pode introduzir na glória e coroar de glória a crente singular, a discípula discreta, mas modelar, a apóstola basilar do apostolado orante, atento e dedicado, em verdadeira saída. E, revestindo-a da glória como a revestiu da graça, torna-a nossa intercessora, junto de Si como em Caná no segmento do “Não têm vinho”, e sua mensageira e missionária junto de nós, como em Caná no segmento do “Fazei tudo o que Ele vos disser”.  E Caná inicia o itinerário especial para a Cruz e para o Cenáculo em que Ela se faz a Mãe dos discípulos.     
Não é a morte o destino comum e final de tudo quanto vive, como dizem os pagãos, os descrentes ou os sábios segundo o mundo. O nosso destino é a vida, o nosso ponto final é a glória no coração de Deus: glória no corpo, na alma, em tudo que somos. Foi isso que Deus nos preparou – Bendito seja ele para sempre! Vemo-lo em Maria na sua proximidade junto de nós, que, estando presente nas horas de Deus, está presente em todas as nossas horas. E vemo-lo no Cristo do Gólgota, do túmulo vazio, no aparecido aos discípulos a quem passou a chamar irmãos, no Cristo da Ascensão. 
A presente solenidade é, então, primeiramente, exaltação da glória de Cristo: Nele está a vida e a ressurreição; Nele, a esperança de libertação definitiva. Por isso, na esteira da 1.ª Carta aos Coríntios (1Cor 15,20-27), diremos que todo aquele que crê em Jesus e é batizado no seu Espírito Santo no sacramento do Batismo morrerá com Cristo e com Cristo ressuscitará. Imediatamente após a morte, a nossa alma será glorificada e estaremos para sempre com o Senhor. Quanto ao nosso corpo, será destruído e, no final dos tempos, quando Cristo nossa vida aparecer, será também ressuscitado em glória e unido à nossa alma. Será assim com todos nós. Mas não foi assim com a Virgem Maria. Aquela que não teve pecado não foi tocada pela corrupção da morte. Imediatamente após a sua passagem para Deus, foi ressuscitada, glorificada em corpo e alma, foi elevada ao céu. Podemos, portanto, exclamar seguindo a pedagogia de Isabel Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o fruto do teu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu!”.
Esta, sendo a grande festa de Cristo, é também a festa de plenitude de Maria, a sua chegada a glória, no seu destino pleno de criatura. Nela aparece clara a obra da salvação que Cristo realizou Ela é aquela Mulher vestida do sol, que é Cristo, pisando a instabilidade deste mundo, representada pela lua inconstante, toda coroada de doze estrelas, número de Israel e da Igreja. A leitura da mencionada passagem do Apocalipse mostra-nos tudo isto; mas termina com a grande proclamação: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus e o poder do seu Cristo!. Enfim, a plenitude da Virgem é a realização da obra e da vitória de Cristo nela.
A Assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. Tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência duma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão.
Todo o capítulo 15 da 1.ª Carta aos Coríntios é uma longa apologia da ressurreição. No texto de hoje, o apóstolo apresenta uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, o princípio da nova humanidade. Eis porque o apóstolo o designa como o novo Adão, mas que se distingue absolutamente do primeiro Adão; este tinha levado a humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz aqueles que o seguem para a vida. O apóstolo não evoca Maria, mas, se proclamamos esta leitura na Assunção, é porque reconhecemos o lugar eminente da Mãe de Deus no grande movimento da ressurreição.
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Mas é preciso considerar que o livro do Apocalipse foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem Igreja, ainda tão frágil, mas já o fermento da nova humanidade a que preside Cristo ou o novo Israel de que Cristo é a Cabeça: a Igreja. Assim, numa linguagem codificada, em que os animais terrificantes designam os perseguidores, vem o profeta neotestamentário evocar estes acontecimentos. A Mulher em que se vê a figura de Maria é o protótipo da Igreja, pelo que pode representar a Igreja, onovo Israel, o que sugere o número doze (as estrelas). O seu nascimento é o do batismo na cruz; a sua conceção é o banquete da noite pascal da Última Ceia; o seu espelho e horizonte é o Céu da Ascensão e o mundo que é preciso evangelizar, segundo a missão que o redentor redivivo lhe confiou; e a sua capacidade de caminhar acontece no Pentecostes. Esta igreja, nascida do lado de Cristo e instituída em Pedro, deve dar à terra a nova humanidade. O Dragão é o perseguidor que põe tudo em ação para destruir o recém-nascido. Mas o destruidor não terá a última palavra, pois o poder de Deus está em ação para proteger o seu Filho. A mulher, protótipo da Igreja, é levada para o deserto para se livrar do Dragão e de lá o esmagar com toda a força e, no caso da Igreja dos homens e mulheres, para se purificar.
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Ora, Deus não veio ao mundo, não escolheu Maria como Mãe, não se deixou crucificar em função dum belo espetáculo. Em causa estava a salvação do homem. Foi por nós homens e por nossa Salvação que desceu dos Céus, encarnou, passou pelo mundo fazendo o bem, ressuscitou. E, ressuscitando, fez-se fundamento da nossa fé e garantia da nossa ressurreição. Subindo aos Céus, mostrou-nos o caminho da glória a que somos chamados e Maria tornou-se a primeira a trilhá-lo com a visibilidade que a economia da Salvação requer.
Por isso, esta é a festa do crente, a nossa festa. Como seres pascais, temos de aspirar às coisas do Alto e afeiçoar-nos a elas. E, como a Ascensão de Cristo, a Assunção da Virgem aponta-nos o Alto, onde Cristo está sentado à direita do Pai, de modo que, no momento em que Jesus Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, nós nos havemos de manifestar com Ele na glória.      
E estaremos bem avisados se tivermos em conta que a devoção à Mãe de Deus é uma grande força da nossa vivência cristã a apontar-nos a força do Alto, porque, longe de desviar a nossa atenção de Cristo, ela nos integra no plano de salvação proposto por Deus e realizado por seu Filho único, Jesus Cristo, que se encarnou e veio ao mundo por meio dela.
Nós celebramos Maria porque é Mãe de Deus, porque nos deu o Salvador e se tornou, de facto e de direito, a corredentora da humanidade e a nossa Mãe. E foi Deus que assim o quis. Foi Ele que, em sua infinita sabedoria e bondade, estabeleceu que a redenção da humanidade acontecesse através de seu Filho único nascido de uma virgem; e a virgem escolhida foi Maria. Ora, se Deus, o Senhor de todas as coisas não se envergonhou de escolher Maria e a fez Cheia de Graça, para ser a Mãe de seu Filho, não faz sentido nós, simples mortais, recusarmo-nos a ter para com ela uma devoção toda especial. A Assunção de Maria é a preciosa antecipação da nossa ressurreição e baseia-se na de Cristo, que transformará o nosso corpo corrutível, fazendo-o semelhante ao seu corpo glorioso. Por isso Paulo recorda-nos que, “se a morte veio por um homem (pelo pecado de Adão), também por um homem, Cristo, veio a ressurreição. Por Ele, todos retornarão à vida, mas cada um a seu tempo: como primícias, Cristo; em seguida, quando Ele voltar, todos os que são de Cristo; depois, os últimos, quando Cristo devolver a Deus Pai o seu reino. Dessa vinda de Cristo, de que fala o Apóstolo, disse São João Paulo II:
Não devia por acaso cumprir-se, neste único caso (o da Virgem), de modo excecional, por dizê-lo assim, imediatamente, quer dizer, no momento da conclusão da sua vida terrena? Esse final da vida que para todos os homens é a morte, a Tradição, no caso de Maria, chama-o com mais propriedade dormição.  Para nós, a Solenidade de hoje é como uma continuação da Páscoa, da Ressurreição e da Ascensão do Senhor.  E é, ao mesmo tempo, o sinal e a fonte da esperança da vida eterna e da futura ressurreição.”.
Maria é causa de nossa alegria! Pois foi através dela que nos veio a alegria, Jesus Cristo, e é nela que nós vemos o que seremos: gloriosos com a glória que tomará conta do nosso corpo e da nossa alma no dia eterno, no qual ela, gloriosamente, em corpo e alma, já nos precedeu.
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Pela Visitação que teve lugar na Judeia (Lc 1,39-56) e onde se encontra a legitimidade da devoção a Maria, Maria levava Jesus pelos caminhos da terra. Pela Dormição e Assunção, é Jesus quem leva a Mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para a Visitação definitiva. Nesta festa, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a humanidade a juntar-se a Ele pelo caminho da ressurreição. Em Maria, Ele realizou a sua obra na totalidade; com ela, nós proclamamos: “dispersou os soberbos, exaltou os humildes”. Os humildes são os que creem no cumprimento da palavra de Deus e se põem a caminho, os que acolhem até ao mais íntimo do ser a Vida nova, Cristo, para o levar ao mundo. Deus debruça-se sobre eles e faz maravilhas.
A humilde disponibilidade de Maria tornou-a nossa intercessora junto de Jesus.
E a Assunção deveria servir também para purificação de hábitos e linguagem. Assim, em vez de rezar a Maria, deveríamos rezar por intermédio de Maria, pois a oração cristã dirige-se a Deus, ao Pai, ao Filho e ao Espírito: só Deus atende a oração. Os irmãos protestantes que, ao invés do que se pretende por vezes, têm fé na Virgem Maria Mãe de Deus, recordam-nos que Maria é e se diz Ela própria a Serva do Senhor. Rezar por intermédio de Maria é pedir que Ela reze por nós: “Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte!” A sua intervenção maternal em Caná resume a sua intercessão por nós: “Eles não têm vinho!”. E é nossa conselheira: “Fazei tudo o que Ele vos disser! Depois, é preciso rezar com Maria. Ela, como no Cenáculo, está ao nosso lado para nos levar na oração, como uma mãe sustenta a palavra balbuciante do filho. Na glória de Deus, na qual nós a honramos hoje, ela prossegue a missão que Jesus lhe confiou sobre a Cruz: “Eis o teu Filho!”. Rezar com Maria, mais que ajoelhar-se diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus. Por último, é preciso rezar como Maria. Aprendemos junto de Maria os caminhos da oração. Na escola daquela que “guardava e meditava no seu coração” os acontecimentos do nascimento e da infância de Jesus, meditamos o Evangelho e, à luz do Espírito Santo, avançamos nos caminhos da verdade. A nossa oração torna-se alegria e ação de graças no eco ao Magnificat. Pomos os nossos passos nos passos de Maria para dizer com ela na confiança: “Que tudo seja feito segundo a tua Palavra, Senhor!”. O cântico de Maria descreve o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que ele prosseguiu em Maria e que cumpre agora na Igreja, para todos os tempos.
***
Por dizer que Maria está nas horas de Deus e em todas as nossas horas, recordo que hoje Ela é celebrada em muitos lugares e sob muitos títulos (é sempre a única Senhora), que até fazem esquecer o mistério de hoje. Mas é nessa abundância de títulos que Ela mostra estar nas horas de Deus (as suas qualidades e privilégios vêm-lhe de Deus) e nas horas dos homens; necessidades, circunstâncias, saúde, ar, terra, mar, luz, etc. E apraz-me salientar uma curiosidade. No Douro Sul é orago em muitas localidades, mas sucede não raro que tem um título na igreja paroquial e outro no cimo do monte ou colina. Assim, em Lamego é Senhora da Assunção na Sé e Senhora dos Remédios no Santo Estêvão, Santa Maria Maior em Almacave e Senhora da Serra, no Poio; Senhora da Corredora na igreja de Caria e Senhora da Guia na colina; Senhora do Amial na igreja da Vila da Ponte e Senhora das Necessidades e Senhora do encontro na Borralheira; Senhora da Assunção na igreja de Fonte Arcada e Senhora da Saúde na colina; Senhora das Neves na igreja de Granjal e Senhora da Aparecida no monte. Enfim, quanto mais alta, mais próxima!
2019.08.15 – Louro de carvalho

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A Assunção de Maria evoca a ditosa pelas gerações e a mulher apocalíptica


Celebra-se a 15 de agosto de cada ano a Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria. Na verdade, foi através desta donzela de Nazaré que se cumpriu o protoevangelho do cap. 3 (v. 15) do livro do Génesis:
Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça e tu tentarás mordê-la no calcanhar.”.
Foi, pois, por Maria que a descendência da mulher (sperma, em grego, e semen, em latim), ou seja, Cristo e todos os seus seguidores, vence as forças do mal. Obviamente, que Maria, a portadora dessa descendência vitoriosa, participa de modo eminente nessa vitória de Cristo e da sua Igreja.
Depois, Maria, a pobre donzela de Israel, prestou-se a esta missão “comessiânica”, porque Deus a escolheu desde toda a eternidade e a cumulou da sua Graça. E Ela, que se tornara a serva do Senhor e disponível para o cumprimento total da sua Palavra, quando foi saudada por Isabel como a Mãe do Senhor, reconhece que Deus, como sempre, faz maravilhas através dos pobres, simples e humildes e como que não tem paciência para a arrogância, soberba, avareza, vingança e violência. E a Mãe do Senhor profetiza que, “porque Ele pôs os olhos na humildade da sua serva, doravante todas as gerações a proclamarão bem-aventurada” (cf Lc 1,48). Na verdade, Deus é o Senhor da História – passada, presente e futura.
Por outro lado, em Maria realiza-se no presente o sinal dado pelo profeta ao rei Acaz:
Por isso, o Senhor, por sua con­­ta e risco, vos dará um sinal. Olhai: a jovem está grávida e vai dar à luz um filho, e há de pôr-lhe o nome de Ema­nuel.” (Is 7,14).
Mateus resume-o pela boca do anjo em sonhos a José, vendo no que sucedeu em Maria o pleno cumprimento, no presente, desta profecia veterotestamentária:
Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco” (Mt 1,22-23).
E Lucas põe na boca do anjo, aquando da anunciação a Maria, uma mensagem mais explícita:   
Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.” (Lc 1,30-33).        
Por seu turno, João fala-nos da Mãe de Jesus, que, na solicitude para com os problemas, humanos, avisa o Filho em Caná de que está a faltar o vinho; e, apesar da evasiva de Jesus, recomenda aos serventes que fizessem o que Ele mandasse. Eles fizeram e o milagre aconteceu para gáudio de todos (cf Jo 2,3.5.9-10) e, sobretudo, com o escopo da fé. E, no Calvário, João faz sobressair o silêncio ativo de Maria, tal como o das outras mulheres (Estavam de pé junto à cruz…), mas também a aceitação da maternidade sobre os discípulos, que se assumem com seus filhos (cf Jo 19,25.26-27). Esta mútua aceitação, expectante e orante, é confirmada no Livro dos Atos:
E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus”.     
Porém, o cap. 12 do Apocalipse é mais abundante em relação ao grande sinal que aparece no céu: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça, mas grávida e a gritar com as dores de parto e o tormento de dar à luz (Ap 12.1-2). E, em contraponto, um outro sinal:
Um grande dragão de fogo com sete cabeças e dez chifres. Sobre as cabeças tinha sete coroas e, com a cauda, varreu a terça parte das estrelas do céu e lançou-as à terra. Colocou-se diante da Mulher parturiente para lhe devorar o filho quando ele nascesse. E Ela deu à luz um filho varão, que há de governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o filho foi-lhe arrebatado para junto de Deus e do seu trono; e a Mulher fugiu para o deserto onde Deus lhe preparou um lugar, de modo a não lhe faltar aí o alimento.” (Ap 12,3-6).
Os Padres veem na mulher a figura da Igreja, que tem a missão de dar ao mundo Jesus, o Salvador, e que tem, ao longo da História, sofrido as provações do deserto da incompreensão e das perseguições, bem como o dos erros de muitos dos seus membros, mas que também tem sido bafejada pela graça da proteção divina e pela generosidade de muitos dos seus filhos. Porém, se Maria, a primeira dos redimidos, é o protótipo e um membro proeminente da Igreja, é natural que se veja na mulher apocalíptica a figura de Maria, Mãe de Jesus, que não pecou nem sofreu as dores da maternidade, mas por causa do sofrimento do Filho, que acabou por a preceder na glória, sentiu o coração trespassado por uma espada de dor (cf Lc 2,35).
E, se no âmbito do mistério de Cristo, Ela é a portadora da Luz das Nações, a Mãe do Verbo encarnado, no mistério da Igreja, é a Mãe solícita, atenta às necessidades humanas, porta-voz junto de Deus dos dramas da Humanidade e junto dos homens a peregrina, a profeta, a porta-voz da vontade divina. Assim, o louvor a Maria mensageira de Deus tem de chegar a Cristo.
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Maria aparece, pela última vez, de modo explícito, nos escritos do Novo Testamento no capítulo 1.º dos Atos dos Apóstolos, como se viu acima. Ela está, de facto, entre os apóstolos, em oração no cenáculo, a aguardar a efusão do Espírito Santo no Pentecostes. Porém, à rareza de referências a Maria nos textos canónicos opõem-se as abundantes informações a seu respeito nos apócrifos, sobretudo as atinentes à dormitio da santa Mãe de Deus no Protoevangelho de Tiago e na Narração de são João, o teólogo. O termo dormitio é a mais antiga referência ao desfecho da sua vida terrena. Esta celebração foi decretada no Oriente no século VII, por decreto do imperador bizantino Maurício. No mesmo século, a festa da Dormitio foi introduzida em Roma por Sérgio I, um Papa do Oriente. E, só passado um século, o termo dormitio cedeu o lugar ao mais explícito de Assumptio.
A definição dogmática, proclamada por Pio XII, de que Maria não precisou de aguardar, como as outras criaturas, o fim dos tempos para obter a ressurreição corpórea pôs em evidência o caráter único da sua santificação pessoal, pois o pecado nunca ofuscou o brilho da sua alma. A união definitiva, espiritual e corporal do homem com Cristo glorioso, é a fase final e eterna da redenção. Agora, os santos, que já possuem a visão beatífica, estão de certo modo a aguardar a plenitude da redenção, que em Maria se deu com a graça da preservação do pecado.
À luz desta doutrina, fundamentada nas Escrituras, o Protoevangelho, referindo-se ao 1.º anúncio da salvação messiânica feito por Deus aos nossos progenitores após a culpa, apresenta Maria como a nova Eva, intimamente unida a Jesus, o novo Adão. Jesus e Maria estão, pois, realmente associados na dor e no amor para expiarem a culpa dos nossos progenitores e a nossa. Maria é, assim, a Mãe do Redentor e a sua cooperadora, a ele intimamente unida na luta e na vitória decisiva. Essa íntima união postula que Maria triunfe, como e com Jesus, não apenas sobre o pecado, mas também sobre a morte, os dois inimigos do género humano. Como a redenção de Cristo tem a sua conclusão com a ressurreição do corpo, a vitória de Maria sobre o pecado, com a Imaculada Conceição, devia ser completada com a vitória sobre a morte mediante a glorificação do corpo, com a Assunção, pois a plenitude da salvação cristã é a participação do corpo na glória celeste (cf Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini um santo para cada dia, ed Paulinas).
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Em termos práticos, a Assunção lembra-nos que “há um lugar em Deus para nós; e que em nós deve haver um lugar para Deus”, pois Deus fez-nos para Ele e quer-nos a viver sempre com Ele na eternidade. Por isso, Paulo adverte:
Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da Terra.” (Cl 3,1-2).
A Igreja acreditou, desde os primeiros séculos, que a Virgem Imaculada foi, por Deus, ressuscitada e elevada ao Céu em corpo e alma após sua morte (falando em “dormição). O Papa Pio XII, interpretando o sensus Ecclesiae, proclamou como dogma de fé esta verdade em 1 de novembro de 1950, pela Constituição Apostólica “Munificientissimus Deus”:
Finalmente, a Imaculada Virgem, preservada imune de toda mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste. E, para que mais plenamente estivesse conforme com seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte, foi exaltada pelo Senhor como Rainha do universo.”.
E, se a Solenidade da Assunção se celebra a 15 de agosto, a Festa de Nossa Senhora Rainha do Céu e da Terra é celebrada a 22 de agosto.
A Assunção da Virgem Maria constitui uma participação especial na Ressurreição de Jesus e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos. Por isso, a Liturgia bizantina reza:
Em vosso parto, guardastes a virgindade; em vossa dormição, não deixastes o mundo, ó Mãe de Deus: fostes juntar-vos à fonte da vida, vós que concebestes o Deus vivo e, por vossas orações, livrareis as nossas almas da morte”.
Na oração coleta da Missa da Assunção, a Igreja latina reza:
Deus eterno e omnipotente, que elevastes à glória do Céu, em corpo e alma, a Imaculada Virgem Maria, Mãe do Vosso Filho, concedei-nos a graça de aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da Sua glória”.
 E, no prefácio da Oração Eucarística, reza:
Hoje a Virgem Mãe de Deus foi elevada à glória do Céu. Ela é a aurora e imagem da Igreja triunfante, ela é sinal de consolação e esperança para o vosso povo peregrino.”.
Muitos santos perguntavam se o melhor dos filhos pode recusar à melhor mãe a participação na sua ressurreição e no glorioso domínio à direita do Pai. Para eles a dignidade de Mãe de Deus exige a Assunção. Assim, Irineu de Lião (†200) diz que Maria, como a nova Eva, participou da sorte de Jesus Cristo, o novo Adão, que ressuscitou depois da morte, não tendo o seu corpo experimentado a corrupção. Mas a Assunção de Nossa Senhora é também, para nós que ainda vivemos neste vale de lágrimas, a certeza de que o Céu existe e é o nosso destino. A chegada da Mãe ao Céu é a antecipada certeza da vitória final de todos os justos amigos de Deus, que amam o Evangelho, vivendo como verdadeiros cristãos. Por outro lado, é o momento de pedirmos à Mãe que, lá do alto, ao lado do trono do Rei, seu Filho, prepare um lugar no céu para cada um de nós e, como “omnipotência suplicante” de que se reveste, ali interceda por nós sem cessar.
A Assunção de Maria é um sinal da nossa ressurreição. É uma mensagem especial e convite da Mãe a cada um de nós para segui-la ao Céu, desprezando toda a sedução dos apegos e prazeres desta vida, que, por mais abundantes que sejam, não saciam os anseios da alma imortal criada em Deus, para Deus e à semelhança de Deus (O coração do homem foi feito para o Alto). A Assunção é o testemunho certo de que a filosofia consumista, materialista e hedonista, que tiraniza o ser humano e o afasta de Deus e dos irmãos, longe de trazer a verdadeira felicidade, enche, ao invés, a alma de tristeza, frustração e pessimismo, numa vida sem rumo e sem ideal. A Assunção é a festa da esperança do cristão que espera a felicidade eterna e perfeita. Com efeito, Maria foi elevada ao Céu deixando um túmulo vazio, sinal de que a nossa vida na terra é uma caminhada para o Céu; um alerta a não nos deixarmos enganar pelas delícias ilusórias da viagem, que não podem satisfazer os anseios infinitos do homem, cujo destino é viver em Deus para sempre. A Assunção é a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre o pessimismo, do sofrimento sobre o prazer, da humildade sobre a soberba, do amor sobre o egoísmo, da pureza sobre a luxúria, da mansidão sobre o ódio, da bondade sobre a inveja, da solicitude sobre a preguiça – do bem sobre o mal. A Assunção é um apelo vibrante a cada um a que vivamos na terra como Ela viveu: simples, humilde, pobre, oculta, silenciosa, discreta, generosa, mansa, bondosa e prestativa, para sermos um dia exaltados por termos vivido a humildade.
É lá na casa do Pai, o esplendoroso palácio celeste, onde Maria tem um lugar especial, que deve habitar o nosso coração. Conquistar o céu, como Maria, é a meta de cada um e o objetivo de todos os nossos esforços. Na verdade, o cristão vive com os pés na terra e o coração no céu. Paulo exprime isso muito bem ao dizer:
Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos de todos os homens os mais dignos de lástima” (1Cor 15,19).
Por outras palavras, é perder tempo querer seguir Jesus apenas para ser feliz nesta vida, que é rápida e muito precária. No céu é que receberemos a recompensa, “a herança das mãos do Senhor” (Cl 3,24). Quem anseia pelo Reino de Cristo nunca pode esquecer-se de que Ele disse: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18,26). Cristo quer-nos a todos no Céu, porque ali está o nosso destino. O seu coração fica frustrado quando um lugar no céu não é ocupado por alguém. As alegrias do Céu são tantas e tão insondáveis que fizeram Paulo exclamar:
O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que O amam” (1Cor 2,9). […] Nós somos cidadãos dos céus. É de lá que também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo glorioso” (Fl 3,20-21). Temos no céu uma casa feita por Deus e não por mãos humanas” (2Cor 5,1).”.
Para o Apóstolo, era um exílio viver na terra. Todo o tempo que passamos no corpo é exílio longe do Senhor. Suspiramos e anelamos por ser sobrevestidos da nossa habitação celeste, pois, enquanto permanecemos na tenda, gememos oprimidos. Porém, estamos cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo, para ir habitar junto do Senhor” (cf 2Cor 5,2-8). E Santo Afonso dizia que desejar o paraíso é desejar a Deus, nosso fim último, onde O amaremos perfeitamente. De facto, a vida sem a perspetiva do céu é desastre total, frustração inexplicável. Sem a fé no céu a vida na terra é vazia, sem sentido, como o barco que navega à deriva. Por isso, Maria, agora gloriosa no Céu, é a “âncora lançada no infinito de Deus”, é “a Porta do Céu” aberta para os seus filhos devotos. Vamos ao Céu por Maria, Ela é a escada que Jesus nos deu para chegar até lá. Ela não é o caminho, mas aponta o Caminho, que é Jesus – dizia o Padre Hamiltom da Encarnação a 20 de agosto de 1978, num sermão sobre Nossa Senhora.
Pela Assunção, Deus revela-nos o sentido pleno da redenção, isto é, a completa divinização do corpo humano, a transfiguração da própria dimensão material do homem e a vitória sobre a morte em todas suas formas. Por outro lado, com o corpo transfigurado e glorificado, Ela pode estar sempre presente ao lado de Jesus e, de modo muito especial, numa presença misteriosa junto à Eucaristia. Por via disso, São Pedro Julião Eymard deu-lhe o título de “Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento”. (cf Prof. Felipe Aquino - http://cleofas.com.br/o-que-significa-a-assuncao-de-nossa-senhora/). Não é por acaso que os santuários marianos privilegiam a celebração da Missa e a adoração eucarística, bem como a tenção aos débeis. Aqui se perfaz a sugestão pedagógica de Isabel: “Bendita é tu entre as mulheres e bendito é o Fruto do teu ventre” (Lc 1,42).
***
Entretanto, tenhamos nos lábios o Magnificat de Maria como cântico da Misericórdia e do Louvor, bendizendo o Senhor, redobremos a confiança de alcançarmos a graça oportuna e sigamos sempre o itinerário “per Mariam ad Iesum”.
2018.08.15 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O acerto de contas com a História em São Tomé por Marcelo


Marcelo Rebelo de Sousa cumpriu uma Visita de Estado de três dias a São Tomé e Príncipe – o quinto país lusófono a que o Presidente da República se deslocou desde que tomou posse, em março de 2016, depois de Moçambique, Cabo Verde, Brasil e Angola – com encontros oficiais e com cooperantes portugueses na agenda.

O último Presidente português a realizar uma visita de Estado a este país fora Jorge Sampaio, em 2000.
Nos termos do programa, o Presidente teve um encontro com o seu homólogo santomense, Evaristo Carvalho, com o Presidente da Assembleia da República, José da Graça Diogo, e com o Primeiro-Ministro, Patrice Trovoada.
À chegada, o Chefe de Estado português apanhou um banho de multidão e defendeu a necessidade de ir “mais longe” na cooperação com este país africano lusófono, considerando-o “prioritário” para Portugal.
Logo ao chegar à praça Yon Gato, no centro da capital, o Presidente português, em vez de entrar na residência do Primeiro-Ministro, levou-o com ele a cumprimentar as crianças que já se alinhavam de uniforme escolar, enquanto alguns grupos folclóricos e culturais iam ensaiando. Mas, depois, foram à reunião de trabalho e a multidão foi crescendo à volta da praça.
Quando regressaram, foi a euforia, com o Presidente a passar quase uma hora em beijinhos, fotografias e cumprimentos. E Marcelo – que, recorde-se, foi operado a uma hérnia há dois meses – até dançou como fez em Moçambique na sua primeira visita oficial como Presidente.
Parou em todos os grupos culturais que mostravam várias formas de dança e de cultura santomense. Dançou no penúltimo. E, no último, recebeu um quadro de um grupo muito especial: o grupo Anka, que dança em cadeira de rodas.
Foi, pois, o Marcelo na sua melhor forma que teve a sua primeira manhã de visita oficial, iniciada com honras militares no Palácio do Povo, onde reuniu com o Presidente de São Tomé. E também aí, depois das declarações oficiais, o Presidente português fez questão de ir conviver com quem estava na rua, entre o Palácio e a catedral, onde também quis entrar. E, rodeado de crianças, aplaudiu um grupo tradicional todo composto por homens, mas com alguns vestidos de mulher – o que até motivou um momento caricato da visita, com Marcelo Rebelo de Sousa a não se aperceber e a dar beijinhos a alguns homens.
Marcelo recordou que veio várias vezes a este país ensinar e que estava aqui, em 1988, a dar formação a altos quadros da administração pública, das forças armadas e das forças de segurança quando aconteceu um “momento intenso da história política de São Tomé” e o aeroporto foi encerrado. Marcelo, que agora mata saudades, disse que este é um momento de delícia e que ainda não sabe é se tem tempo para “matar saudades de um mergulho”.
A receção ao Chefe de Estado português parece, assim, ultrapassar algum mal-estar que ainda existisse depois de, na semana passada e em antecipação a esta visita presidencial, o Primeiro-Ministro santomense ter dado uma entrevista em que manifestava descontentamento com o atual estado da cooperação entre os dois países.
E o objetivo do Presidente e do Governo português parece mesmo ser um reforço das relações, com Marcelo a insistir num “novo patamar” da cooperação. O Presidente, em declarações aos jornalistas, rejeitou que tenha havido consequências políticas e diplomáticas do facto de Cavaco Silva nunca ter visitado São Tomé como Presidente.
Marcelo atribuiu, antes, algum enfraquecimento da cooperação à crise económica que Portugal viveu, explicitando:
O papel social continuou o seu caminho, mas em matéria de funções de soberania não se foi tão longe quanto se esperava, nem na justiça, nem na administração interna, nem na defesa e, na parte empresarial, houve muitas iniciativas, mas não enquadradas. […] A crise e a saída da crise significaram de algum modo não se ir tão longe quanto seria desejável, mas devo prestar homenagem ao Governo português anterior porque alguns dos acordos celebrados foram já no começo da saída da crise, nomeadamente em 2015.”.
O “ir mais longe” passa, para Marcelo, entre outros aspetos, por uma nova linha de crédito, como anunciou o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que também acompanhou a visita:
Tivemos uma linha de crédito no valor de 50 milhões de euros com São Tomé que se foi realizado, mas num ritmo que dependeu mais da capacidade de apresentação de projetos por São Tomé do que problemas em Portugal. […] Agora estamos a estudar um empréstimo direto Estado a Estado, para o qual São Tomé tem de apresentar garantias estatais e uma nova linha de crédito que está a ser discutida entre os dois ministérios das Finanças.”.
Santos Silva, afirmando o contributo de Portugal para o plano estratégico do país, concluiu:
Cremos que chegaremos a um bom resultado que garanta taxas de juro muito favoráveis para São Tomé e as garantias necessárias para que os projetos a financiar por essa linha de crédito possam ser realizados”.
***
Porém, o momento mais simbólico da visita presidencial que pode estimular uma relação mais sadia entre os dois países foi o acerto de contas com a História. Na verdade, a história do massacre de centenas de santomenses há 65 anos, escondida pelo regime em Lisboa, foi agora plenamente assumida pelo Presidente da República. Não se trata de pedido de desculpas, mas do assumir de responsabilidades, de culpa, no fundo, pelo massacre de, pelo menos, 400 santomenses, a 3 de fevereiro de 1953, num campo de prisioneiros junto à praia de Fernão Dias.
Foi junto ao mar, no monumento que evoca as vítimas – há cerca de 400 nomes inscritos em 6 placas de metal viradas para o mar, mas relatos de testemunhas da época falam em mais de um milhar de vítimas em diferentes zonas da ilha –, que Marcelo Rebelo de Sousa depositou uma coroa de flores e fez um minuto de silêncio, ladeado pelo Ministro da Cultura santomense.
O monumento imita em betão o movimento das ondas do mar, onde os santomenses acreditam que foram parar alguns dos desaparecidos há 65 anos. A história, escondida pelo regime de Lisboa e nunca verdadeiramente assumida até agora por Portugal, foi, desta vez, plenamente assumida por Marcelo, o primeiro Presidente português a visitar o local e a falar do tema:
Vim aqui homenagear todos aqueles que lutaram pela liberdade e, em particular, todos os que morreram pela liberdade faz agora precisamente 65 anos”.
Adotando um tom semelhante ao que usara durante o jantar oferecido pelo Presidente de São Tomé e Príncipe, no primeiro dia da visita, Marcelo foi o mais claro possível.
Portugal assume a sua história naquilo que tem de bom e de mau e assume, nomeadamente, neste instante e neste memorial, aquilo que foi o sacrifício da vida e o desrespeito da dignidade de pessoas e comunidades. Assume essa responsabilidade olhando para o passado, mas ao mesmo tempo para o presente e o futuro.”.
Terminada a declaração, começaram os cânticos de um grupo local, chamando o Presidente português para a festa, quase como em sinal de que a dor, pedra no sapato das relações entre os dois países, tinha ficado resolvida. Estava recuperado o tom de um dia que tinha começado em festa na escola portuguesa, acabada de inaugurar por Marcelo, e que terminou com festa, na chancelaria da embaixada, com a comunidade portuguesa.
Pelo meio ficou a passagem pela universidade, com perguntas de estudantes que aproveitaram a presença de Marcelo para tentar, em vão, uma resposta que comprometesse o Presidente.
O país atravessa uma crise institucional, com Presidente, Governo e Parlamento de um lado e Supremo Tribunal e oposição do outro, mas Marcelo foi-se esquivando por entre as perguntas, invocando a qualidade de Chefe de Estado estrangeiro de visita a um país amigo.
O dia ficou ainda ligado por um fio que ajuda a colar uma narrativa política nacional a esta visita de Estado. Na escola portuguesa, uma experiência científica com um pêndulo – o pêndulo de Foucault só consegue uma trajetória retilínea ali, em cima da linha do equador – serviu para Augusto Santos Silva, que tem sido uma sombra descontraída e divertida do Presidente, dizer que era aquela a posição certa do Presidente no sistema político português: um pêndulo que pode balancear para a esquerda ou para a direita, mas que tende sempre para o centro. Foi o complemento para uma tirada do Presidente minutos antes, logo à chegada à escola, quando disse que nunca sabe se há de olhar para a esquerda ou para a direita quando descerra placas:
Se olho para a esquerda, a direita fica fula, se olho para direita, a esquerda zanga-se. O melhor é olhar sempre para o centro.”.
Na universidade, Marcelo relembrou esse episódio e aproveitou para elogiar Santos Silva:
O senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, que tendo embora uma formação sociológica tem um espírito jurídico notável, como poucos juristas, tem o comentário certo no momento certo, disse-me logo que ‘podia ter aproveitado para uma aula de Direito Constitucional e para dizer que a posição do Presidente da República no sistema de governo português é a do pêndulo. Tem de ter o equilíbrio de falar com as esquerdas e com as direitas, tendo uma origem partidária, faz parte da sua biografia, deve evitar que isso domine essa sua posição pendular’.”.
Depois do almoço, na visita à obra das Irmãs Franciscanas em Neves, a cerca de 30 quilómetros da capital – instituição que ajuda mais de 1200 crianças e idosos, dos 2 aos 90 anos –, o Presidente foi convidado a arbitrar um jogo de futebol de sete entre duas equipas de crianças. E apitou o início da partida, pontapés de canto, lançamentos de linha lateral e uma única falta. Golos nem vê-los. Quase a correr para a creche, Marcelo recusou confessar o que era mais fácil, se apitar um jogo quase sem faltas entre miúdos de 7 ou 8 anos ali em São Tomé ou os fugidios consensos entre PS e PSD em Portugal, que pretende ver alargados e intensificados.
Foi precisamente à porta do infantário que o Ministro dos Negócios Estrangeiros fez a síntese do dia, o tal fio narrativo que não é só imaginação jornalística:
Este dia de hoje é um bom dia para recordar direito constitucional português. Porque nós vimos o pêndulo na escola, e a figura do Presidente no ordenamento constitucional português é a do pêndulo. E árbitro também é. Árbitro e moderador.”.
Com sorriso nos lábios, Santos Silva lembrou que, tal como na política nacional, em Neves, no cimento dum campo patrocinado pelo Benfica, os jogadores quase não precisaram de árbitro:
Todos nós vimos que o Presidente cumpriu as suas funções de árbitro de forma totalmente imparcial e não teve de exercer o seu poder moderador porque os jogadores se comportaram com o maior dos fair-plays, tal como de resto acontece em Portugal.”.
***
Ao chegar à ilha do Príncipe, o Presidente português teve novo banho de multidão.
Entre a chegada ao aeroporto do Príncipe e primeira cerimónia oficial, no Palácio do Governo, Marcelo demorou mais de uma hora. Logo no aeroporto, o Presidente não resistiu às centenas de pessoas que o esperavam, enchendo a estrada com palavras de ordem, cantares e batuques.
 A comitiva caminhou até à capital, Santo António, em passo lento, com o Presidente a insistir em cumprimentar todos os pequenos grupos que lhe acenavam na berma da estrada. A entrada na pequena cidade, aconchegada numa tranquila baía e rodeada de montanhas verdes – a ilha do Príncipe é Reserva Mundial da Biosfera –, foi feita a pé, entre grupos de crianças e jovens, quase todos com pequenas bandeiras de papel, a portuguesa dum lado e a santomense do outro. Letras e algumas coreografias ensaiadas, um tambor e uma corneta, e milhares de pequenos sorrisos rasgados. Aconteceu festa e foi da boa, no arranque deste último dia da visita de Estado a São Tomé e Príncipe.
Tudo começou com um pequeno grupo de professoras acompanhadas por um mecânico com uma ideia fixa: cantar Grândola Vila Morena dentro da Chancelaria da Embaixada e, se possível, com o Presidente ao lado. Tudo não passaria duma ideia teimosa, não fosse Santos Silva ter sabido da coisa. As professoras cumprimentaram o Ministro português e o mecânico aproveitou para confessar o projeto. O chefe da diplomacia portuguesa foi rápido na resposta. Disse que não só alinhava na ideia, como ia convencer o Presidente a juntar-se ao grupo.
Marcelo, quando foi desencaminhado por Augusto, pensou ser bela a ideia e foi logo convocar os deputados portugueses que acompanharam a visita. Não se diz que não ao Presidente e João Almeida, do CDS, Duarte Marques, do PSD, Lara Martinho, do PS, e Carla Cruz, do PCP, lá alinharam na cantoria. Longo aplauso e gargalhadas encerraram a sessão, com o Presidente a dizer que tinham estado ao mais alto nível. Marcelo contou a história mal acabaram os aplausos:
Estas professoras propuseram que cantasse. O senhor Ministro veio portador desse pedido e conseguimos juntar quase todos os deputados, só faltam o Bloco e os Verdes, que já tinham saído. […]. tivemos aqui um verdadeiro bloco ao centro. […] Um bloco ao centro, diria, não fosse a cara aqui da deputada do PCP.”.
***
E foi uma visita que terá contribuído para o estreitamento das relações diplomáticas e de cooperação entre os dois países, terá relevado a importância da escola portuguesa em São Tomé e Príncipe, realçado o papel das ONG na promoção humana e social das populações e no desenvolvimento integral, global e humano, feito o acerto de contas com a História, que se assume nas suas glórias e erros, mostrado o que o Governo quer e mostra pensar da função presidencial entendida e exercida por Marcelo e dado a entender as verdadeiras intenções e desejos políticos do Presidente.
Foi Portugal no seu melhor de festa, ambição, entendimento e fair play!
2018.02.23 – Louro de Carvalho