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domingo, 1 de dezembro de 2019

Não importa como montar o presépio, mas, sim, que fale à nossa vida



É esta a grande asserção da visita papal de hoje, dia 1 de dezembro e 1.º domingo do Advento, à cidade de Greccio, a 100 quilómetros a norte de Roma, onde Francisco assinou, como prometera, a 27 de novembro, uma carta apostólica sobre o significado e valor do Presépio.
O título do predito documento é “Admirabile Signum”, “Admirável Sinal”. E com ele o Pontífice propõe-se “apoiar a tradição bonita das nossas famílias de prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças…”.
O texto é dirigido a todo o povo de Deus, mas sobretudo ao núcleo familiar, como uma forma de valorizar a transmissão da fé entre avós, pais, filhos e netos.
O Papa Francisco diz que se trata de um “exercício de imaginação criativa” e faz votos de que esta prática “nunca desapareça” e de que, “onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar”.
Organizado em 10 pontos, o texto da Carta Apostólica “Admirabile Signum” recorda a origem do presépio com São Francisco de Assis, a sua obra de evangelização, as figuras e o simbolismo que o compõem.
O termo “presépio” provém do latim “praesepium”, que significa “manjedoura”, tendo passado, depois, a significar todo o cenário presepial. As Fontes Franciscanas narram de forma detalhada o que aconteceu na cidade de Greccio, que fica no Vale de Rieti, onde o “Poverello” de Assis se deteve, quando vinha de Roma onde recebera, do Papa Honório III, a aprovação da sua Regra, em 29 de novembro de 1223. E põe a Carta Apostólica a hipótese de aquelas grutas, após a viagem do “Poverello à Terra Santa, lhe terem feito “lembrar de modo particular a paisagem de Belém” e de, em Roma,” ele ter ficado encantado “com os mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, que representam a natividade de Jesus e se encontram perto do lugar onde, segundo uma antiga tradição, se conservam precisamente as tábuas da manjedoura”.
Efetivamente, 15 dias antes do Natal daquele ano, Francisco de Assis chamou João, um homem daquela terra, e pediu-lhe ajuda para concretizar um desejo: “representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incómodos que Ele padeceu”.
E assim foi: no dia 25 de dezembro de 1223, chegaram a Greccio muitos frades e também homens e mulheres das casas da região, com flores e tochas para adornar e iluminar aquela noite santa num lugar designado. Francisco, ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. “Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério” – escreve o Papa, que assegura:
Com a simplicidade daquele sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização”.
Como é bom de ver, a origem do Presépio fica-se a dever a alguns poucos pormenores do nascimento de Jesus em Belém, referidos no Evangelho. O resto é mais fruto da imaginação e da lógica, bem como do ambiente que possa condizer com o significado presepial. O evangelista Lucas limita-se a dizer que, tendo-se completado os dias de Maria dar à luz, “teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Mas isto foi o sinal que o Anjo deu aos pastores para encontrarem o Messias Senhor que ele lhes anunciou e que seria de alegria para eles e para todo o povo.
Na verdade, ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar no sítio aonde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para Aquele que se há de revelar como ‘o pão vivo, o que desceu do Céu’ (Jo 6,51) – simbologia que Santo Agostinho, a par doutros Padres da Igreja, entrevira quando escreveu: “Deitado numa manjedoura, torna-se nosso alimento”. Assim, o Presépio inclui, de certo modo, vários mistérios da vida de Jesus, fazendo-os aparecer familiares à nossa vida diária.
Para o Papa Francisco, armar o Presépio em nossas casas ajuda a reviver a história que aconteceu em Belém. Imaginando as cenas, estimulam-se os afetos e sentimo-nos envolvidos na história da salvação. De facto, “o Presépio é um convite a ‘sentir’, a ‘tocar’ a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento”.
E o Papa comenta o simbolismo presente nos vários elementos que compõem o presépio: a escuridão da noite, a paisagem e as personagens. As ruínas e os pobres ali representados recordam que eles são os privilegiados deste mistério. A mensagem do despojamento que surge do presépio é clara: “não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade” – refere o Pontífice, que observa: “Jesus nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial”.
Nascendo no presépio – escreve o Papa – Deus dá início à única verdadeira revolução: a revolução do amor e da ternura, através da “força meiga” de um menino. Na verdade, da manjedoura belemita, tornada humilde, mas eloquente, púlpito do Presépio, “Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado”. Deste modo, o presépio torna-se para os fiéis um convite a se tornar discípulos de Cristo, a refletir sobre a responsabilidade de evangelizar e ser portador da Boa Nova com ações concretas de misericórdia.
Por outras palavras, Francisco diz-nos que não é importante como armar o presépio: “O que conta é que fale à nossa vida”. E conclui:
Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de transmissão da fé. (…) E educa para sentir que nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso ‘obrigado’ a Deus, que tudo quis partilhar connosco para nunca nos deixar sozinhos.”.
***
Na homilia da Missa que celebrou, pela manhã, no Altar da Cátedra para a comunidade congolesa de Roma, em comemoração dos 25 de instituição desta capelania católica em Roma, Francisco salientou que o Senhor veio, que o Senhor vem e que o Senhor virá. No entanto, garantiu que hoje o verbo “vir” tem de ser conjugado, não apenas por Deus como sujeito, mas também por todos e por cada um de nós. Com efeito, São Mateus diz: “virá o Filho do Homem” (Mt 24,44). E Isaías profetiza:
Virão muitos povos e dirão: ‘Vinde, subamos ao monte do Senhor”.
Enquanto o mal na terra deriva do facto de cada um seguir o seu caminho sem os outros, o profeta oferece a visão maravilhosa em que todos vêm em conjunto ao monte do Senhor, onde está a casa de Deus, que é para todos. Ora, se, como o presépio mostra, Jesus vem, é imperativo que nos decidamos a ir ao seu encontro, esteja Ele no presépio, na cruz, no altar, à mesa, esteja Ele no rosto do pobre. Vem aí o Natal e o Natal cristão é principalmente dos pobres!
2019.12.01 – Louro de Carvalho  

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O missionário é um mendigo que reconhece a falta dos irmãos, irmãs e mães


É uma das poderosas pérolas afirmativas da homilia do Papa no Estádio Nacional de Bancoque, no dia 21 de novembro.
Partindo da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 12,46-50) em que Jesus, que estava a ensinar, é avisado de que a sua família estava à sua procura, Francisco frisa que o Mestre desafiou a multidão com a pergunta “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” (v. 46). E, porque a missão de Jesus era ensinar, dá a resposta à sua maneira, não à dos homens: “Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (v. 50), banindo as convenções e “toda a pretensão de quem poderia julgar-se com direitos preferenciais sobre Ele”. De facto, o Evangelho “é convite e direito gratuito” para todos.
Vincando que o Evangelho, tecido de perguntas desinquietantes, convida os discípulos a porem-se a caminho, na busca da verdade que dá e gera vida, o Papa considera que são interrogações a procurar abrir o coração para horizontes de novidade e a querer “renovar incessantemente a nossa vida e a da nossa comunidade com uma alegria sem par”.
Assim, prosseguiu o Pontífice, os primeiros missionários puseram-se a caminho e chegaram a estas terras; escutaram a palavra do Senhor e, tentando responder às suas solicitações, viram que “pertenciam a uma família muito maior do que a gerada pelos laços de sangue, cultura, região ou filiação num determinado grupo”. Impelidos pelo Espírito Santo e cheios da esperança nascida do Evangelho, procuraram “os membros desta sua família que ainda não conheciam”; vieram em demanda dos seus rostos, não só pelo que podiam oferecer, mas também pelo que necessitavam de receber deles para crescerem na fé e na compreensão das Escrituras. Isto deu-lhes o ensejo de melhor vislumbrarem o desígnio amoroso do Pai, que “é imensamente maior que todos os nossos cálculos e previsões”. Deste modo, ficamos a saber que “o discípulo missionário não é um mercenário da fé nem um caçador de prosélitos, mas um mendigo que reconhece que lhe faltam os irmãos, as irmãs e as mães com quem [é preciso] celebrar e festejar o dom irrevogável da reconciliação que Jesus nos oferece a todos”.
Passados 350 anos da criação do Vicariato Apostólico de Sião (1669-2019), “sinal do abraço familiar produzido nestas terras”, o Papa evocou os dois missionários que lançaram as sementes que têm vindo a crescer e florescer numa variedade de iniciativas apostólicas que contribuíram para a vida da nação. Longe de significar nostalgia do passado, este aniversário é fogo de esperança para que hoje respondamos com a mesma determinação e confiança; é “comemoração festiva e agradecida, que nos ajuda a sair de coração feliz para partilharmos a vida nova, que brota do Evangelho, com todos os membros da nossa família que ainda não conhecemos”.
Com efeito, disse o Santo Padre, “todos somos discípulos missionários”, quando decidimos ser “parte viva da família do Senhor” partilhando à maneira d’Ele, que “não teve medo de Se sentar à mesa dos pecadores, para lhes assegurar que, na mesa do Pai e da criação, havia um lugar reservado também para eles”. Na verdade, Jesus tocou os considerados impuros e, deixando-Se tocar por eles, “ajudou-os a compreender a proximidade de Deus” e que “eram eles os bem-aventurados”.
E, pensando nas vítimas da prostituição e do tráfico (crianças e mulheres), nos escravos da droga e da falta de sentido (jovens), nos migrantes privados de casa e família, nos esquecidos, órfãos, e abandonados, nos pescadores explorados, nos mendigos ignorados e em tantos outros e outras, espoliados da sua dignidade, o Pontífice afirma categoricamente que “fazem parte da nossa família, são nossas mães e nossos irmãos”. Por conseguinte, não podemos privar “as nossas comunidades dos seus rostos, das suas chagas, dos seus sorrisos, das suas vidas”; e não podemos privar “as suas chagas e as suas feridas da unção misericordiosa do amor de Deus”.
Com efeito, como assegura o Papa, “o discípulo missionário sabe que a evangelização não é acumular adesões” nem mostrar poder, mas “abrir portas para viver e partilhar o abraço misericordioso e sanador de Deus Pai que nos torna família”. Por isso, há que retornar à senda dos primeiros missionários para “reconhecer com alegria todos os rostos de mães, pais e irmãos que o Senhor nos quer dar e que faltam ao nosso banquete dominical”.
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Já no encontro com as Autoridades, com a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático, na sala “Inner Santi Maitri” da Casa governamental (Bangcoque), também no dia 20, Francisco, antecipando o que iria dizer na Missa referida supra, se deteve numa referência aos movimentos migratórios, um dos sinais caraterísticos do nosso tempo. Não estando em causa o fenómeno da mobilidade, pôs em evidência as condições em que ela se desenrola e que representam “um dos principais problemas morais colocados à nossa geração”. E frisou que a Tailândia, conhecida pela hospitalidade que oferece a migrantes e refugiados, se viu em sério desafio com a fuga trágica de refugiados dos países vizinhos. Por isso, o Papa insistiu em que a comunidade internacional atue com responsabilidade e clarividência, para resolver os problemas que levam a este êxodo trágico e promover “uma migração segura, ordenada e regulamentada”, devendo cada nação desenvolver “mecanismos eficazes para proteger a dignidade e os direitos dos migrantes e refugiados, que enfrentam perigos, incertezas e exploração na sua busca da liberdade e duma vida digna para as suas famílias”.   
A pari, neste ano em que se comemora o 3.º aniversário da Convenção sobre os Direitos da Infância e da Adolescência, o Pontífice evocou as mulheres e crianças de hoje particularmente feridas, violentadas e expostas à exploração, escravidão, violência e abuso, agradecendo ao Governo tailandês os esforços que faz para extirpar este flagelo, tal como às pessoas e organizações que incansavelmente trabalham para erradicar este mal e proporcionar um caminho de dignidade. Na verdade, este ano convida a refletir e trabalhar, com determinação, perseverança e rapidez, para proteger o bem-estar e desenvolvimento social e intelectual das crianças, o seu o acesso à educação e o seu crescimento físico, psicológico e espiritual, pois “o futuro de nossos povos depende, em grande parte, do modo como garantirmos aos nossos filhos um futuro na dignidade”.
Considerando que a Tailândia “é detentora de tantas maravilhas naturais e guardiã esplêndida de antigas tradições espirituais e culturais, bem como da hospitalidade que lhe é dado experimentar pessoalmente, apraz ao Sumo Pontífice propor a extensão e aumento de laços de maior amizade entre os povos.
Depois, observou o caráter global dos problemas que hoje o nosso mundo enfrenta, visto que “envolvem toda a família humana e exigem que se desenvolva um decidido esforço em prol da justiça internacional e da solidariedade entre os povos”. Salientou o facto de, nestes dias, a Tailândia concluir o seu período de presidência da ASEAN, expressando, assim, o seu histórico empenhamento nos problemas mais amplos que enfrentam os povos de toda a região do sudeste asiático e seu interesse constante em promover a cooperação política, económica e cultural na região. Na verdade, desde há muito que o país reconhece, enquanto nação multicultural e caraterizada pela diversidade, “a importância de construir a harmonia e a convivência pacífica entre os seus numerosos grupos étnicos, mostrando respeito e apreço pelas diferentes culturas, grupos religiosos, filosofias e ideias”, pois “a experiência concreta duma unidade que respeite e salvaguarde as diferenças serve de inspiração e incentivo para quantos têm a peito o mundo tal como o desejamos legar às gerações futuras”.
E o líder da Igreja Católica congratulou-se com a iniciativa da criação duma ‘Comissão Ético-Social’, para cuja participação foram convidadas “as religiões tradicionais do país a fim de acolher as suas contribuições e manter viva a memória espiritual” deste povo e disse que o encontro que, a seguir, iria ter com o Supremo Patriarca Budista era “sinal da importância e urgência de promover a amizade e o diálogo inter-religioso” e “serviço à harmonia social na construção de sociedades justas, compassivas e inclusivas”. Por outro lado, assegurou “todos os esforços da pequena mas vivaz comunidade católica, para manter e promover as caraterísticas tão peculiares dos tailandeses”, evocadas no Hino Nacional: “pacíficos e carinhosos, mas não covardes”. E considerou: 
Esta terra tem como nome ‘liberdade’. Sabemos que esta só é possível se formos capazes de nos sentir corresponsáveis uns pelos outros e superar toda e qualquer forma de desigualdade. Por isso, é necessário trabalhar para que as pessoas e as comunidades possam ter acesso à educação, a um trabalho digno, à assistência sanitária e assim alcançar os níveis mínimos indispensáveis de sustentabilidade que tornem possível um desenvolvimento humano integral.”.
Por fim, evidenciou que “as nossas sociedades” precisam, a par de discípulos missionários, de ‘artesãos da hospitalidade’, homens e mulheres que cuidem do desenvolvimento integral de todos os povos, no seio duma família humana que se empenhe a viver na justiça, solidariedade e harmonia fraterna”, devendo cada qual, a partir da própria posição, viver a vida ajudando a que “o serviço ao bem comum possa chegar a todos os cantos desta nação” (“esta é uma das tarefas mais nobres duma pessoa”) nas “sendas da sabedoria, da justiça e da paz”.
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Hoje, dia 22, à homilia da Missa com os jovens na Catedral da Assunção, o Bispo de Roma clamava: “Vamos ao encontro de Cristo Senhor, que vem!”. E comentava o Evangelho tomado para a Liturgia da Palavra (Mt 25,1-13) e que nos convida a pormo-nos em movimento com o olhar fixo no futuro, para acolhermos a vinda definitiva de Cristo à nossa vida e ao nosso mundo. Com efeito, antes de sairmos à sua procura, já Ele nos procurava e vem ao nosso encontro a chamar-nos “a partir da história que é necessário construir, criar, inventar”. Assim, ir ao seu encontro é responder à sua chamada e à sua caminhada, sabendo que Ele nos espera.
Diz o Papa que o Senhor sabe que, pelos jovens, entra o futuro nestas terras e no mundo e conta com eles para continuar hoje a sua missão, pois, tal como Deus tinha um plano para o povo escolhido, também tem um plano para cada um dos jovens.
Falando o Evangelho de dez jovens convidadas a olhar para o futuro e participar na festa do Senhor, assinala-se que algumas não estavam preparadas para O receber, não por terem adormecido, mas por lhes faltar o combustível para manter aceso o fogo do amor. Queriam, com entusiasmo, tomar parte na convocação do Mestre, mas, como as forças e os anseios se foram amortecendo, chegaram tarde. É a parábola do que pode suceder com os cristãos. Por isso, o Santo Padre perguntou: 
Quereis manter vivo o fogo que vos pode iluminar no meio da noite e no meio das dificuldades? Quereis preparar-vos para responder à chamada do Senhor? Quereis estar prontos para cumprir a sua vontade? Como obter o azeite que possa manter-vos em movimento e encorajar-vos a buscar o Senhor em todas as situações?”.
E vincou a herança de fé que os jovens receberam e de que é testemunha a Catedral vincando: 
Sois herdeiros duma magnífica história de evangelização, que vos foi transmitida como um tesouro sagrado. Esta bela Catedral é testemunha da fé em Jesus Cristo que tiveram os vossos antepassados: a sua fidelidade, profundamente arraigada, impeliu-os a cumprir boas obras, a construir o outro templo ainda mais esplêndido, composto de pedras vivas para poder levar o amor misericordioso de Deus a todas as pessoas do seu tempo. E conseguiram fazê-lo, porque estavam convencidos do que o profeta Oseias diz na 1.ª Leitura de hoje: Deus falara-lhes com ternura, abraçara-os com um amor forte, para sempre (cf Os 2, 16.21-22).”.
Depois, exortou a que não deixem apagar o fogo do Espírito Santo e possam manter despertos o olhar e o coração, para o que é necessário firmarem-se na fé dos mais velhos, não para ficarem prisioneiros do passado, mas para aprenderem a ter “a mesma coragem”, que ajude “a responder às novas situações históricas”. Os mais velhos resistiram a muitas provações e sofrimentos e foram descobrindo que “o segredo dum coração feliz é a segurança que encontramos quando estamos ancorados, enraizados em Jesus: na sua vida, nas suas palavras, na sua morte e ressurreição”. E confidenciou em jeito de metáfora, citando o Christus vivit, 179:
Já me aconteceu ver árvores jovens, belas, que elevavam seus ramos sempre mais alto para o céu; pareciam uma canção de esperança. Mais tarde, depois duma tempestade, encontrei-as caídas, sem vida. Estenderam os seus ramos sem se enraizarem bem na terra e, por terem poucas raízes, sucumbiram aos assaltos da natureza. Por isso, custa-me ver que alguns propõem aos jovens construir um futuro sem raízes, como se o mundo começasse agora. Com efeito, é impossível uma pessoa crescer, se não possui raízes fortes que a ajudem a estar firme de pé e agarrada à terra. [Moços e moças, é muito] fácil extraviar-se, quando não temos onde agarrar-nos, onde firmar-nos.”.
Tendo em conta que, “sem este sentido forte de enraizamento, podemos ficar perplexos com as vozes deste mundo que reclamam a nossa atenção”, muitas delas atraentes, mas que deixam, com o passar do tempo, apenas o vazio, o cansaço, a solidão e a frustração, proclamou que “os jovens são ‘uma nova geração’, com novas esperanças, sonhos e interrogações – seguramente com algumas dúvidas, mas, enraizados em Cristo”. E Papa convidou-os “a manter viva a alegria e a não ter medo de olhar para o futuro com confiança”. E reforçou:
Arraigados em Cristo, olhai com alegria, olhai com confiança. Esta condição nasce da certeza de se saber procurado, encontrado e amado infinitamente pelo Senhor. A amizade cultivada com Jesus é o azeite necessário para iluminar o caminho; não só o vosso caminho, mas também o de todas as pessoas que vos rodeiam: amigos, vizinhos, colegas de estudo e trabalho, mesmo o caminho de quantos estão em total desacordo convosco.”.
***
É, de facto, importante garantir a nossa condição de discípulos missionários e de hospedeiros, sentindo-nos concidadãos e familiares uns dos outros e sabendo radicar no passado a nossa vivência do presente com os olhos no futuro, sem medos e sem aviltamentos. Na verdade, lá no futuro está à nossa espera “o Senhor para preparar e celebrar a festa do seu Reino”, onde está preparado lugar para todos e donde ninguém está excluído à partida.
2019.11.22 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

“Igreja em saída” não é uma expressão de moda que o Papa inventou


É Francisco quem o assegura no livro-entrevista de Gianni Valente, publicado pela LEV (Livraria Editora Vaticana) e Edições São Paulo, que está nas livrarias desde 5 de novembro e que pretende assinalar a conclusão do mês missionário extraordinário. Aí o Pontífice aponta formulações essenciais do ser cristão, do ser e estar em Igreja, tais como:Sem Jesus não podemos fazer nada”; e “A Igreja ou é anúncio ou não é Igreja”.
Recorda-nos o autor a Exortação Apostólica Evangelii gaudium, que este Papa mandou publicar 8 meses depois o Conclave que o elegeu Sucessor de Pedro, e que se inicia com a afirmação de que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus”. Com efeito, este documento programático do pontificado incitava à ressintonização, por parte de todos, de cada ato, reflexão e iniciativa eclesial “sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual”. Passados quase 6 anos, Francisco anunciou o Mês Missionário Extraordinário e a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos dedicada à Região Amazónica para sugerir novas rotas de anúncio do Evangelho no “pulmão verde”, martirizado pelo sofrimento predatório que violenta e fere os irmãos e também a nossa irmã terra.
Entretanto, o magistério papal vem disseminando insistentemente referências à natureza da missão da Igreja no mundo. Assim, vem repetindo que anunciar o Evangelho não é “proselitismo”, que a Igreja cresce “por atração” e por “testemunhos” – expressões que sugerem qual há de ser o dinamismo para cada obra apostólica e qual pode ser a sua fonte.
***
Com base na antecipação de textos que a Agência Fides apresentou pode fazer-se ideia do conteúdo do livro-entrevista.
Uma curiosidade é que Bergoglio, quando era jovem, queria ser missionário no Japão, mas não sabe responder à pergunta provocatória se “é um missionário não completo”. Diz ter entrado para os jesuítas por o impressionar a vocação missionária deles e por “sempre procurarem novas fronteiras”. E, embora na época não pudesse ir ao Japão, sempre sentiu que “anunciar Jesus e o seu Evangelho quer dizer sair e colocar-se a caminho.
Quanto à possibilidade de a expressão Igreja em saída”, tantas vezes relançada, se tornar um slogan de que abusam os que passam o tempo a dar lições à Igreja sobre como deveria ser ou não ser, Francisco diz com humilde determinação, citando o Evangelho de Marcos:
Igreja em saída não é uma expressão de moda que eu inventei. É um mandamento de Jesus, que no Evangelho de Marcos (Mc 16,15) pede aos seus discípulos que vão pelo mundo inteiro e anunciem o Evangelho a ‘toda criatura’. A Igreja ou é em saída ou não é Igreja. Ou é em anúncio ou não é Igreja. Se a Igreja não sai corrompe-se, perde a sua natureza. Torna-se outra coisa.”.
E discorre chamando-lhe, no caso de não ser em saída e de não ser anúncio, uma associação espiritual, uma multinacional para lançar iniciativas e mensagens de conteúdo ético-religioso. E, embora não seja coisa má, contudo, não é a Igreja. E, ao mesmo tempo, adverte que é um risco de qualquer organização estática na Igreja, terminando por “domesticar Cristo”: 
Não se dá mais testemunho da ação de Cristo, mas fala-se de uma certa ideia de Cristo. Uma ideia possuída e adomesticada por você mesmo. Você organiza as coisas, torna-se um pequeno empresário da vida eclesial, onde tudo acontece segundo o programa pré-estabelecido, isto, é, seguindo apenas as instruções. Mas o encontro com Cristo não se repete mais. Não se repete o encontro que tinha tocado o seu coração no início.”.
Todavia, o Papa avisa que “a missão, a ‘Igreja em saída’, não são um programa, uma intenção para a ser realizada por boa vontade”. Ao invés, “é Cristo que faz a Igreja sair de si mesma”, pois, na missão de anunciar o Evangelho, movemo-nos porque o Espírito Santo nos impele e leva. E quando nós chegamos, damo-nos conta de que Ele chegou antes e está à nossa espera. Ele previne, também para preparar o nosso caminho, e já está em ação.
O autor entrevistador sublinha que o Pontífice sugeriu num encontro com as Pontifícias Obras Missionárias a leitura dos Atos dos Apóstolos e não a dum manual de estratégia missionária moderna. E a resposta não se fez esperar, surgindo com a frescura do Espírito:
O protagonista dos Atos dos Apóstolos não são os apóstolos. O protagonista é o Espírito Santo. Os Apóstolos são os primeiros que o reconhecem e o confirmam. Quando comunicam aos irmãos de Antioquia as indicações estabelecidas pelo Concílio de Jerusalém, escrevem: ‘Decidimos, o Espírito Santo e nós’. Eles reconheciam com realismo o facto de que era o Senhor que adicionava todos dias à comunidade ‘os que estavam salvos’, e não os esforços de persuasão dos homens.”.
No atinente à diferença entre aquela época e a nossa, Francisco aponta que “a experiência dos Apóstolos é como um paradigma que vale para sempre”. Assim, nos Atos dos Apóstolos, as coisas sucedem gratuitamente, sem artifícios, porque “os discípulos chegam sempre depois do Espírito Santo que age por primeiro”. É Ele que “prepara e trabalha os corações”. E, “quando chegam os problemas e as perseguições, o Espírito Santo trabalha ali também, de maneira ainda mais surpreendente, com o seu conforto, o seu consolo”. E o Papa desenvolve:
Inicia-se [após o martírio de Estêvão] um tempo de perseguição, e muitos discípulos fogem de Jerusalém, vão para a Judeia e Samaria. E ali, enquanto estão espalhados e fugitivos, começam a anunciar o Evangelho, mesmo se estão sozinhos e sem os Apóstolos, que ficaram em Jerusalém. São batizados, e o Espírito Santo lhes dá a coragem apostólica. Ali se vê pela primeira vez que o batismo é suficiente para se tornarem anunciadores do Evangelho. (…) Precisa apenas de se pedir que se faça novamente em nós a experiência para que possamos dizer: decidimos, o Espírito Santo e nós.”.
E, se não houver esta experiência, sem o Espírito, a missão torna-se “um projeto de conquista, pretensão de uma conquista feita por nós, uma conquista religiosa, ou talvez ideológica, talvez feita com boas intenções, mas é uma outra coisa”.
Instado a explicar o sentido da afirmação de que a Igreja cresce por atração, responde que são palavras de Jesus no Evangelho de João: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32); e “Ninguém vem a mim, se não for atraído pelo Pai que me mandou” (Jo 6,44). Assim, a Igreja sempre viu nesta a forma de todo o lema que aproxima a Jesus e ao Evangelho, não na convicção, raciocínio, tomada de consciência, pressão ou constrição. Já o profeta Jeremias rezava: “Tu me seduziste e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Isto vale para os apóstolos e missionários. E o Santo Padre não deixa de insistir, observando:  
O mandato do Senhor de sair e anunciar o Evangelho vem de dentro, por paixão, por atração amorosa. Não se segue Jesus e muito menos se torna anunciador d’Ele e do seu Evangelho por uma decisão prática, uma militância autoinduzida. O próprio impulso missionário só pode ser fecundo se acontece dentro desta atração e que se transmite aos outros.”.
Por consequência, ao invés, quem pensa ser protagonista ou empresário da missão, com todos os bons propósitos e declarações de intenção muitas vezes termina por não atrair ninguém.
Com efeito, prossegue o Pontífice, a missão não é um projeto empresarial bem organizado, nem um espetáculo organizado com a contabilização dos participantes mercê da nossa propaganda. “O Espírito Santo age como quer, quando e onde quiser”. E o cume da liberdade repousa “neste deixar-se levar pelo Espírito, renunciado a calcular e controlar tudo”. Nisto “imitamos o próprio Cristo, que no mistério da sua Ressurreição aprendeu a repousar na ternura dos braços do Pai”. Assim, a fecundidade da missão não consiste nas nossas intenções, métodos, lançamentos e iniciativas, mas repousa “na vertigem que se adverte diante das palavras de Jesus, quando diz Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Depois, a atração para Cristo e para o Evangelho faz-se testemunho em nós. Ora, a testemunha comprova o que a obra de Cristo e do seu Espírito realizaram na sua vida. Mais: após a Ressurreição, o próprio Cristo nos torna visível aos apóstolos. É ele a sua testemunha. E o testemunho não é um desempenho próprio, pois mostra as obras do Senhor.
***
O autor entrevistador estranha que o Papa fale tanto em chave negativa: a Igreja não cresce por proselitismo e a missão da Igreja não é fazer proselitismo. E pergunta se “é para manter as boas relações com as outras Igrejas e o diálogo com as tradições religiosas”. Mas Francisco esclarece que o problema do proselitismo não é só contradizer o caminho ecuménico e o diálogo inter-religioso, mas ser uma tentação recorrente e explana:
Há proselitismo em todos os lugares, há a ideia de fazer com que a Igreja cresça deixando de lado a atração de Cristo e da obra do Espírito, apostando tudo nos chamados ‘discursos sábios’. (…) O proselitismo tira o próprio Cristo e o Espírito Santo da missão, mesmo quando quer agir em nome de Cristo, de maneira nominalista. O proselitismo é sempre violento pela sua natureza, mesmo quando é dissimulado ou feito ‘com luvas de pelica’. Não suporta a liberdade e a gratuitidade com que a fé se pode transmitir, pela graça, de pessoa a pessoa. Por isso o proselitismo não é apenas o do passado, dos tempos do antigo colonialismo, ou das conversões forçadas ou compradas com a promessa de vantagens materiais. Hoje também pode haver proselitismo, nas paróquias, nas comunidades, nos movimentos, nas congregações religiosas.”.
Ao invés, o anúncio do Evangelho consiste em entregar com palavras sóbrias e claras o próprio testemunho de Cristo como fizeram os apóstolos. O anúncio do Evangelho, que até pode ser sussurrado, passa sempre pela força arrebatadora do escândalo da cruz e segue o caminho indicado na 1.ª Carta de Pedro, que consiste em dar razão aos outros da própria esperança (cf 1Pe 3,15), “esperança que permanece escândalo e tolice aos olhos do mundo” (1Cor 1,23).
Nestes termos, é caraterístico do missionar cristão o ser facilitador e não controlador da fé. É preciso tornar fácil (e não lhe pôr obstáculos) o desejo de Jesus de abraçar, curar e salvar a todos, sem seleções e sem “triagens pastorais”, não fazendo parte dos que se põem à porta para controlar se os que se aproximam têm requisitos para entrar. E o Papa argentino conta:
Recordo os párocos e as comunidades que em Buenos Aires tinham colocado em campo várias iniciativas para facilitar o acesso ao Batismo. Deram-se conta de que, nos últimos anos, estava a aumentar o número dos que não eram batizados por vários motivos, mesmo sociológicos, e queriam recordar a todos que ser batizado é uma coisa simples, que todos podem pedir para si e para seus próprios filhos. O caminho que os párocos e aquelas comunidades tomaram era um só: não complicar, não pretender nada, eliminar todas as dificuldades de caráter cultural, psicológico ou prático que poderiam levar as pessoas a adiar ou perder a intenção de batizar os seus próprios filhos.”.
Relativamente à discussão dos missionários, na América, no início da evangelização, sobre quem seria “digno” de receber o Batismo, Francisco recorda que o Papa Paulo III recusou a teoria que sustentava serem os índios por natureza “incapazes” de acolher o Evangelho e confirmou a escolha dos que lhes facilitavam o Batismo. E comenta: 
Parecem coisas passadas, mas ainda hoje há círculos e setores que se apresentam como ‘ilustrados’, iluminados, e sequestram o anúncio do Evangelho nas suas lógicas distorcidas que dividem o mundo entre ‘civilização’ e ‘barbárie’. A ideia de que o Senhor tenha entre os seus preferidos muitas ‘cabecitas negras’ irrita-os, deixa-os de mau humor. Consideram boa parte da família humana como se fosse uma entidade de classe inferior, inadequada a alcançar, segundo os seus padrões, níveis decentes de vida espiritual e intelectual.”.
Ora, neste contexto antropossocial, pode-se desenvolver um desprezo pelos povos considerados de segundo nível. E este tema veio à tona por ocasião do Sínodo dos Bispos para a Amazónia.
Quanto à tendência hodierna de colocar em alternativa dialética o anúncio claro da fé e as obras sociais, não sendo alegadamente preciso fazer missão para sustentar as obras sociais, Francisco sublinha que “tudo o que está dentro do horizonte das Bem-Aventuranças e das obras de misericórdia está de acordo com a missão, já é anúncio, já é missão”. E reitera o que tantas vezes proclama aos quatro ventos:  
A Igreja não é uma ONG, a Igreja é uma outra coisa. Mas a Igreja é também um hospital de campo, onde se acolhe todos, assim como são, cuidando das feridas de todos. E isso faz parte da sua missão. Tudo depende do amor que move o coração dos que atuam. Se um missionário ajuda a escavar um poço em Moçambique, porque se deu conta de que é fundamental para os que ele batizou e aos quais prega o Evangelho, como se pode dizer que a obra é separada do anúncio?”.
E, sobre as novas atenções e sensibilidades a exercer nos processos destinados a tornar fecundo o anúncio do Evangelho, nos vários contextos sociais e culturais, frisa que “o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural”. E citando São João Paulo II, vinca:
Permanecendo plenamente si mesmo, na total fidelidade ao anúncio evangélico e à tradição eclesial, o cristianismo carregará também o rosto das várias culturas e dos vários povos nos quais foi acolhido e enraizado”.
Com efeito, na conjugação da diversidade com a unidade, “o Espírito Santo embeleza a Igreja, com as expressões novas das pessoas e das comunidades que abraçam o Evangelho”, pelo que “a Igreja, assumindo os valores das várias culturas, torna-se sponsa ornata monilibus suis(“a esposa ornada de suas joias”), de que fala o profeta Isaías (cf Is 61,10). Ora, se algumas culturas foram construídas em estreito liame com a pregação do Evangelho e com o desenvolvimento de um pensamento cristão, também hoje “se torna ainda mais urgente considerar que a mensagem revelada não se identifica com nenhuma cultura”. Por outro lado, “no encontro com novas culturas ou com culturas que não acolheram a pregação cristã, não se deve tentar impor uma determinada forma cultural junto com a proposta evangélica”. E sugere o Papa que hoje, “na obra missionária convém mais do que nunca, não carregar bagagem pesada”.
Por fim, surge uma palavra reflexiva quanto à relação entre a missão e o martírio. E Francisco aponta que o martírio e a proclamação do Evangelho a todos têm a mesma origem: o amor de Deus derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo a doar força, coragem e consolação. E diz que “o martírio é a máxima expressão do reconhecimento e do testemunho feito a Cristo, que representam o cumprimento da missão, da obra apostólica”. Exemplifica com os coptas trucidados na Líbia a pronunciar em voz baixa o nome de Jesus ao serem degolados ou com as Irmãs de Santa Madre Teresa que, no Iémen, ao serem mortas enquanto cuidavam dos pacientes muçulmanos duma casa de idosos com deficiências, estavam com o avental de trabalho sobre o hábito religioso. E conclui que “são todos vencedores, não vítimas”, e que “o seu martírio, até ao derramamento de sangue, ilumina o martírio que todos podem sofrer na vida todos os dias, com o testemunho dado a Cristo todos os dias”, o que se pode ver na visita a asilos de idosos missionários, por vezes debilitados pela vida que levaram, a ponto de alguns perderem a memória, não recordando nada do bem que fizeram. Porém, como dizia um missionário, “disso o Senhor se recorda muito bem”.
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Um livro cuja leitura será útil para oportuna e pertinente reflexão sobre o ser da Igreja, entendido à luz da Palavra de Deus, e a forma genuína de encarar a missão e o testemunho, quer no martírio extremo, quer no martírio paulatino do quotidiano – na certeza de que o Espírito previne, guia e ajuda, embora peça a nossa devotada cooperação, no entusiasmo da Boa Nova, mas no respeito pela liberdade do outro, que merece, não o tempo da desistência ou do anátema, mas a bondade do diálogo, o tempo e a paciência da espera e a força da esperança.  
2019.11.06 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Festa de Maria, festa de Cristo, festa da Igreja, festa do crente


A solenidade litúrgica da Assunção de Nossa Senhora mostra que Deus antecipou em Maria tudo o que deseja realizar em nós. Basta que sejamos livres como Maria para acolher a sua vontade. Para tanto, deveremos ultrapassar a nossa condição de prisioneiros do nosso desejo de nos afirmarmos ante dos outros e ante Deus, ou da resignação às dificuldades, e obtermos a graça de vivermos plenamente a liberdade dos filhos de Deus, à imagem de Maria.
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A perícopa bíblica do Apocalipse (Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab) tomada como 1.ª leitura da Liturgia da Palavra, dá-nos, em visão simbólica, a chave de leitura da Solenidade da Assunção. No dragão, cuja cauda varria um terço das estrelas do céu, que luta contra a mulher – vestida de sol, coroada de estrelas e com a Lua sob os seus pés – e que pretende capturar-lhe o filho que acabou de dar à luz, estão representadas as ideologias que hoje nos dizem que é absurdo pensar em Deus ou cumprir os seus mandamentos e os atrativos mundanos que tentam desviar-nos da rota do Evangelho. Ora, a mulher que acreditou que iria cumprir-se tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor e que se fez a serva da Palavra, a discípula da fé, a mestra dos apóstolos, sentiu que em si o Senhor fez maravilhas e, na sua alta autoestima que lhe foi segredada pelo Pai da Bondade e da Misericórdia, previu que todas as gerações a proclamariam bem-aventurada, como acontece.
Nossa Senhora, a do “sinal grandioso”, a fiel que foi dizendo o “sim” inabalável ao leque das possibilidades de Deus, participa da glória do Ressuscitado como prémio pela sua autenticidade e generosidade. Coroada de doze estrelas, também ela diz: “Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus”.
Recorde-se que as visões do Apocalipse se exprimem em linguagem codificada. Revelam que Deus arranca os fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, pode ser aplicada a Maria a visão do sinal grandioso. Proclamando esta mensagem na Assunção, reconhecemos que, no seguimento de Jesus e na pessoa de Maria, a nova humanidade já é acolhida junto de Deus.
Esta é a festa de Maria. Com efeito, a Mãe de Deus, que foi imune do pecado por graça de Deus que a inundou do seu favor e que a fez sua mãe pela geração do Verbo de Deus encarnado e pelos cuidados nutrícios e educacionais, depois de terminada a sua missão terrena, é elevada aos Céus em corpo e alma – privilégio singular que faz de Maria modelo do nosso caminhar.
Deus fez nesta simples criatura tão humilde algo parecido com o que fez com seu Filho Jesus: ressuscitou-a do túmulo, não a deixando incorrer na corrupção tumular, e elevou-a ao Céu, à plenitude em todo o seu ser, corpo e alma. Revemo-la na mulher do Apocalipse, quando os Céus se abriram e ficou patente a Arca da Aliança e ressaltou a mulher coroada e iluminada, que deu à luz o Filho que o Céu arrebatou para que o Dragão o não devorasse.
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Porém, como ficou entredito, o que se passou com Maria não tem origem nela, mas em Deus e no seu Cristo. Quem a coroou, a iluminou e lhe sujeitou a Lua foi o Cristo – morto e ressuscitado – e que subiu ao Céu. É Ele o protagonista desta festa, pois é pela sua Paixão, Ressurreição e Ascensão que Ele pode introduzir na glória e coroar de glória a crente singular, a discípula discreta, mas modelar, a apóstola basilar do apostolado orante, atento e dedicado, em verdadeira saída. E, revestindo-a da glória como a revestiu da graça, torna-a nossa intercessora, junto de Si como em Caná no segmento do “Não têm vinho”, e sua mensageira e missionária junto de nós, como em Caná no segmento do “Fazei tudo o que Ele vos disser”.  E Caná inicia o itinerário especial para a Cruz e para o Cenáculo em que Ela se faz a Mãe dos discípulos.     
Não é a morte o destino comum e final de tudo quanto vive, como dizem os pagãos, os descrentes ou os sábios segundo o mundo. O nosso destino é a vida, o nosso ponto final é a glória no coração de Deus: glória no corpo, na alma, em tudo que somos. Foi isso que Deus nos preparou – Bendito seja ele para sempre! Vemo-lo em Maria na sua proximidade junto de nós, que, estando presente nas horas de Deus, está presente em todas as nossas horas. E vemo-lo no Cristo do Gólgota, do túmulo vazio, no aparecido aos discípulos a quem passou a chamar irmãos, no Cristo da Ascensão. 
A presente solenidade é, então, primeiramente, exaltação da glória de Cristo: Nele está a vida e a ressurreição; Nele, a esperança de libertação definitiva. Por isso, na esteira da 1.ª Carta aos Coríntios (1Cor 15,20-27), diremos que todo aquele que crê em Jesus e é batizado no seu Espírito Santo no sacramento do Batismo morrerá com Cristo e com Cristo ressuscitará. Imediatamente após a morte, a nossa alma será glorificada e estaremos para sempre com o Senhor. Quanto ao nosso corpo, será destruído e, no final dos tempos, quando Cristo nossa vida aparecer, será também ressuscitado em glória e unido à nossa alma. Será assim com todos nós. Mas não foi assim com a Virgem Maria. Aquela que não teve pecado não foi tocada pela corrupção da morte. Imediatamente após a sua passagem para Deus, foi ressuscitada, glorificada em corpo e alma, foi elevada ao céu. Podemos, portanto, exclamar seguindo a pedagogia de Isabel Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o fruto do teu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu!”.
Esta, sendo a grande festa de Cristo, é também a festa de plenitude de Maria, a sua chegada a glória, no seu destino pleno de criatura. Nela aparece clara a obra da salvação que Cristo realizou Ela é aquela Mulher vestida do sol, que é Cristo, pisando a instabilidade deste mundo, representada pela lua inconstante, toda coroada de doze estrelas, número de Israel e da Igreja. A leitura da mencionada passagem do Apocalipse mostra-nos tudo isto; mas termina com a grande proclamação: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus e o poder do seu Cristo!. Enfim, a plenitude da Virgem é a realização da obra e da vitória de Cristo nela.
A Assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. Tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência duma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão.
Todo o capítulo 15 da 1.ª Carta aos Coríntios é uma longa apologia da ressurreição. No texto de hoje, o apóstolo apresenta uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, o princípio da nova humanidade. Eis porque o apóstolo o designa como o novo Adão, mas que se distingue absolutamente do primeiro Adão; este tinha levado a humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz aqueles que o seguem para a vida. O apóstolo não evoca Maria, mas, se proclamamos esta leitura na Assunção, é porque reconhecemos o lugar eminente da Mãe de Deus no grande movimento da ressurreição.
***
Mas é preciso considerar que o livro do Apocalipse foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem Igreja, ainda tão frágil, mas já o fermento da nova humanidade a que preside Cristo ou o novo Israel de que Cristo é a Cabeça: a Igreja. Assim, numa linguagem codificada, em que os animais terrificantes designam os perseguidores, vem o profeta neotestamentário evocar estes acontecimentos. A Mulher em que se vê a figura de Maria é o protótipo da Igreja, pelo que pode representar a Igreja, onovo Israel, o que sugere o número doze (as estrelas). O seu nascimento é o do batismo na cruz; a sua conceção é o banquete da noite pascal da Última Ceia; o seu espelho e horizonte é o Céu da Ascensão e o mundo que é preciso evangelizar, segundo a missão que o redentor redivivo lhe confiou; e a sua capacidade de caminhar acontece no Pentecostes. Esta igreja, nascida do lado de Cristo e instituída em Pedro, deve dar à terra a nova humanidade. O Dragão é o perseguidor que põe tudo em ação para destruir o recém-nascido. Mas o destruidor não terá a última palavra, pois o poder de Deus está em ação para proteger o seu Filho. A mulher, protótipo da Igreja, é levada para o deserto para se livrar do Dragão e de lá o esmagar com toda a força e, no caso da Igreja dos homens e mulheres, para se purificar.
***
Ora, Deus não veio ao mundo, não escolheu Maria como Mãe, não se deixou crucificar em função dum belo espetáculo. Em causa estava a salvação do homem. Foi por nós homens e por nossa Salvação que desceu dos Céus, encarnou, passou pelo mundo fazendo o bem, ressuscitou. E, ressuscitando, fez-se fundamento da nossa fé e garantia da nossa ressurreição. Subindo aos Céus, mostrou-nos o caminho da glória a que somos chamados e Maria tornou-se a primeira a trilhá-lo com a visibilidade que a economia da Salvação requer.
Por isso, esta é a festa do crente, a nossa festa. Como seres pascais, temos de aspirar às coisas do Alto e afeiçoar-nos a elas. E, como a Ascensão de Cristo, a Assunção da Virgem aponta-nos o Alto, onde Cristo está sentado à direita do Pai, de modo que, no momento em que Jesus Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, nós nos havemos de manifestar com Ele na glória.      
E estaremos bem avisados se tivermos em conta que a devoção à Mãe de Deus é uma grande força da nossa vivência cristã a apontar-nos a força do Alto, porque, longe de desviar a nossa atenção de Cristo, ela nos integra no plano de salvação proposto por Deus e realizado por seu Filho único, Jesus Cristo, que se encarnou e veio ao mundo por meio dela.
Nós celebramos Maria porque é Mãe de Deus, porque nos deu o Salvador e se tornou, de facto e de direito, a corredentora da humanidade e a nossa Mãe. E foi Deus que assim o quis. Foi Ele que, em sua infinita sabedoria e bondade, estabeleceu que a redenção da humanidade acontecesse através de seu Filho único nascido de uma virgem; e a virgem escolhida foi Maria. Ora, se Deus, o Senhor de todas as coisas não se envergonhou de escolher Maria e a fez Cheia de Graça, para ser a Mãe de seu Filho, não faz sentido nós, simples mortais, recusarmo-nos a ter para com ela uma devoção toda especial. A Assunção de Maria é a preciosa antecipação da nossa ressurreição e baseia-se na de Cristo, que transformará o nosso corpo corrutível, fazendo-o semelhante ao seu corpo glorioso. Por isso Paulo recorda-nos que, “se a morte veio por um homem (pelo pecado de Adão), também por um homem, Cristo, veio a ressurreição. Por Ele, todos retornarão à vida, mas cada um a seu tempo: como primícias, Cristo; em seguida, quando Ele voltar, todos os que são de Cristo; depois, os últimos, quando Cristo devolver a Deus Pai o seu reino. Dessa vinda de Cristo, de que fala o Apóstolo, disse São João Paulo II:
Não devia por acaso cumprir-se, neste único caso (o da Virgem), de modo excecional, por dizê-lo assim, imediatamente, quer dizer, no momento da conclusão da sua vida terrena? Esse final da vida que para todos os homens é a morte, a Tradição, no caso de Maria, chama-o com mais propriedade dormição.  Para nós, a Solenidade de hoje é como uma continuação da Páscoa, da Ressurreição e da Ascensão do Senhor.  E é, ao mesmo tempo, o sinal e a fonte da esperança da vida eterna e da futura ressurreição.”.
Maria é causa de nossa alegria! Pois foi através dela que nos veio a alegria, Jesus Cristo, e é nela que nós vemos o que seremos: gloriosos com a glória que tomará conta do nosso corpo e da nossa alma no dia eterno, no qual ela, gloriosamente, em corpo e alma, já nos precedeu.
***
Pela Visitação que teve lugar na Judeia (Lc 1,39-56) e onde se encontra a legitimidade da devoção a Maria, Maria levava Jesus pelos caminhos da terra. Pela Dormição e Assunção, é Jesus quem leva a Mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para a Visitação definitiva. Nesta festa, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a humanidade a juntar-se a Ele pelo caminho da ressurreição. Em Maria, Ele realizou a sua obra na totalidade; com ela, nós proclamamos: “dispersou os soberbos, exaltou os humildes”. Os humildes são os que creem no cumprimento da palavra de Deus e se põem a caminho, os que acolhem até ao mais íntimo do ser a Vida nova, Cristo, para o levar ao mundo. Deus debruça-se sobre eles e faz maravilhas.
A humilde disponibilidade de Maria tornou-a nossa intercessora junto de Jesus.
E a Assunção deveria servir também para purificação de hábitos e linguagem. Assim, em vez de rezar a Maria, deveríamos rezar por intermédio de Maria, pois a oração cristã dirige-se a Deus, ao Pai, ao Filho e ao Espírito: só Deus atende a oração. Os irmãos protestantes que, ao invés do que se pretende por vezes, têm fé na Virgem Maria Mãe de Deus, recordam-nos que Maria é e se diz Ela própria a Serva do Senhor. Rezar por intermédio de Maria é pedir que Ela reze por nós: “Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte!” A sua intervenção maternal em Caná resume a sua intercessão por nós: “Eles não têm vinho!”. E é nossa conselheira: “Fazei tudo o que Ele vos disser! Depois, é preciso rezar com Maria. Ela, como no Cenáculo, está ao nosso lado para nos levar na oração, como uma mãe sustenta a palavra balbuciante do filho. Na glória de Deus, na qual nós a honramos hoje, ela prossegue a missão que Jesus lhe confiou sobre a Cruz: “Eis o teu Filho!”. Rezar com Maria, mais que ajoelhar-se diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus. Por último, é preciso rezar como Maria. Aprendemos junto de Maria os caminhos da oração. Na escola daquela que “guardava e meditava no seu coração” os acontecimentos do nascimento e da infância de Jesus, meditamos o Evangelho e, à luz do Espírito Santo, avançamos nos caminhos da verdade. A nossa oração torna-se alegria e ação de graças no eco ao Magnificat. Pomos os nossos passos nos passos de Maria para dizer com ela na confiança: “Que tudo seja feito segundo a tua Palavra, Senhor!”. O cântico de Maria descreve o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que ele prosseguiu em Maria e que cumpre agora na Igreja, para todos os tempos.
***
Por dizer que Maria está nas horas de Deus e em todas as nossas horas, recordo que hoje Ela é celebrada em muitos lugares e sob muitos títulos (é sempre a única Senhora), que até fazem esquecer o mistério de hoje. Mas é nessa abundância de títulos que Ela mostra estar nas horas de Deus (as suas qualidades e privilégios vêm-lhe de Deus) e nas horas dos homens; necessidades, circunstâncias, saúde, ar, terra, mar, luz, etc. E apraz-me salientar uma curiosidade. No Douro Sul é orago em muitas localidades, mas sucede não raro que tem um título na igreja paroquial e outro no cimo do monte ou colina. Assim, em Lamego é Senhora da Assunção na Sé e Senhora dos Remédios no Santo Estêvão, Santa Maria Maior em Almacave e Senhora da Serra, no Poio; Senhora da Corredora na igreja de Caria e Senhora da Guia na colina; Senhora do Amial na igreja da Vila da Ponte e Senhora das Necessidades e Senhora do encontro na Borralheira; Senhora da Assunção na igreja de Fonte Arcada e Senhora da Saúde na colina; Senhora das Neves na igreja de Granjal e Senhora da Aparecida no monte. Enfim, quanto mais alta, mais próxima!
2019.08.15 – Louro de carvalho

terça-feira, 2 de julho de 2019

Importância do foro interno e a inviolabilidade do sigilo de confissão


A Santa Sé, mediante Nota da Penitenciaria Apostólica, assinada pelo Cardeal Mauro Piacenza, Penitenciário-Mor, e por Monsenhor Krzysztof Nykiel, regente, divulgada a 1 de julho (mas aprovada pela Santo Padre a 21 de junho e ultimada a 29 pela Penitenciaria), reafirma importância do foro interno e a inviolabilidade do segredo de Confissão, reforçando que não se admite qualquer exceção no âmbito eclesial, nem na esfera civil, já que “provém diretamente do direito divino revelado e está enraizada na própria natureza do sacramento”.

Nestes termos, “qualquer ação política ou iniciativa legislativa que forçasse a inviolabilidade do sigilo sacramental constituiria uma inaceitável ofensa contra a libertas Ecclesiae” (que não recebe a legitimidade dos Estados, mas de Deus) e configuraria “violação da liberdade religiosa, juridicamente fundante de todas as outras liberdades, incluída a liberdade de consciência de cada cidadão, quer penitente, quer como confessor”.
De facto, o progresso técnico-científico crescente – a que não corresponde um desenvolvimento da formação ética do homem, no crescimento do homem interior, de que resulta que o progresso propalado não seja verdadeiro progresso – leva a que no campo das comunicações privadas e de media de massa cresçam as possibilidades técnicas, mas não o amor pela verdade, o esforço na  sua busca, o sentido de responsabilidade ante Deus e os homens; delineia-se preocupante desproporção entre meios e ética. Assim, a hipertrofia comunicativa volta-se contra a verdade, contra Deus e contra o homem, contra Jesus Cristo, Deus feito homem e a Igreja, sua presença histórica e real. E difundiu-se, nos últimos tempos, uma certa “ânsia” por informação, sem apreço pela sua real confiabilidade e oportunidade, a ponto de o “mundo da comunicação” quase querer “substituir” a realidade, quer condicionando a sua perceção quer manipulando a sua compreensão. Daí, o alerta de que “dessa tendência, que pode assumir traços inquietantes de morbidade, não está imune a estrutura eclesial, que vive no mundo e, às vezes, assume os seus critérios”, sendo que, também entre os crentes, são frequentemente empregadas energias preciosas na busca por ‘notícias’ – ou de verdadeiros ‘escândalos’ – adequados à sensibilidade de determinada opinião pública, com finalidades e objetivos que certamente não pertencem à natureza teândrica da Igreja” – o que vai “em grave detrimento do anúncio do Evangelho”, pelo que “é preciso humildemente reconhecer que, às vezes, nem as fileiras do clero, até as mais altas hierarquias, estão isentas dessa tendência”.
Invocando como último tribunal  a opinião pública, muitas vezes é divulgada informação de todo tipo, atinente também às esferas mais privadas e reservadas, que dizem respeito à vida da Igreja, induzem ou favorecem julgamentos temerários, arruínam ilegitimamente e de forma irreparável a boa reputação dos outros, bem como o direito de cada pessoa defender a sua intimidade (cf can. 220 CIC). Nesse cenário, as palavras de Paulo aos Gálatas soam bem atuais:
Sim, irmãos, fostes chamados para a liber­dade. Porém, não façais da liberdade um pretexto para servirdes à carne [...]. Mas, se vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros!” (Gl 5,13-15).
É um contexto em que se desenha “um certo ‘preconceito negativo’ para com a Igreja Católica, cuja existência é culturalmente apresentada e socialmente reentendida, por um lado, à luz das tensões que podem verificar-se dentro da própria hierarquia e, por outro, a partir dos recentes escândalos de abusos, perpetrados por alguns membros do clero”. E convém referir que a febre do apelo à denúncia parecia dar azo a que valia tudo para obviar aos abusos sexuais por parte de membros do clero. Teve que vir o Papa, por várias vezes, reafirmar a inviolabilidade do sigilo sacramental, o que não foi suficiente para impedir ou travar algumas tentações de decisores políticos para obter, pela via da revelação do sigilo, a verdade sobre determinados crimes e situações de intriga. Assim, a Penitenciaria Apostólica, enquadra a questão no contexto teológico – e não só no âmbito antropológico como alguns críticos sustentam, o que permitiria a abertura de exceções diversas em casos de força maior – e esclarece alguns conceitos.
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No âmbito teológico, a Nota refere, entre outras coisas:
Com a Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de certo modo a cada homem; com seus gestos e palavras, iluminou a sua mais alta e inviolável dignidade; em si mesmo, morto e ressuscitado, restaurou a humanidade decaída, vencendo as trevas do pecado e da morte; para os que nele creem,  abriu o relacionamento com o Pai; com a efusão do Espírito Santo,  consagrou a Igreja, comunidade de crentes, como seu verdadeiro corpo e fê-la participar do próprio poder profético, real e sacerdotal, para que seja no mundo como a extensão da sua própria presença e missão, anunciando aos homens de todos os tempos a verdade, guiando-os ao esplendor da sua luz, permitindo que a sua vida seja verdadeiramente por ele tocada e transfigurada”.
Agora, na custódia do sigilo sacramental e da discrição ligada ao foro extrassacramental interno e aos outros atos de ministério, resplandece a síntese entre dimensão petrina e mariana na Igreja. Com Pedro, a esposa de Cristo guarda, até ao fim da história, o ministério institucional do poder das chaves; e, como Maria, conserva “todas estas coisas em seu coração” (Lc 2,51b), sabendo que nelas reverbera a luz que ilumina todo homem e que deve ser preservada, defendida e protegida no espaço sagrado entre a consciência pessoal e Deus.
***
No concernente à precisão e esclarecimento de conceitos, a Penitenciaria Apostólica é clara:  
1. Sigilo sacramental
Francisco reafirmou a indispensabilidade e indisponibilidade do segredo sacramental, dizendo:
A própria Reconciliação é um bem que a sabedoria da Igreja sempre salvaguardou com toda a sua força moral e jurídica com o sigilo sacramental. Ele, se nem sempre é compreendido pela mentalidade moderna, é indispensável para a santidade do sacramento e para a liberdade de consciência do penitente, que deve ter a certeza, em qualquer momento, de que o diálogo sacramental permanecerá no segredo do confessionário, entre a própria consciência que se abre à graça e Deus, com a mediação necessária do sacerdote. O sigilo sacramental é indispensável e nenhum poder humano tem jurisdição sobre ele nem o pode reivindicar para si.”.
Este inviolável sigilo provém do direito divino e está enraizado na natureza do sacramento, a ponto de não admitir qualquer exceção na esfera eclesial e ainda menos na civil. Na celebração do Sacramento da Reconciliação, acontece a essência do cristianismo, da Igreja: o Filho de Deus fez-se homem para nos salvar e envolveu, como instrumento necessário de salvação, a Igreja e, nela, escolheu os sacerdotes, os chamou e constituiu como seus ministros. Por isso, a Igreja sempre ensinou que os sacerdotes, na celebração dos sacramentos, agem “in persona Christi capitis”: Cristo permite-lhes usar o seu “eu”. E a união com o seu “eu” realiza-se nas palavras da consagração e no “eu te absolvo”, porque nenhum de nós poderia absolver dos pecados. É, pois, o “eu” de Cristo (de Deus) o único que pode absolver. E cada penitente que vai ao sacerdote confessar os próprios pecados, testemunha o mistério da encarnação e a essência sobrenatural da Igreja e do sacerdócio ministerial, pelo qual o Cristo Ressuscitado vem ao encontro dos homens, toca sacramentalmente – realmente – a vida deles e os salva. Por esta razão, a defesa do sigilo por parte do confessor, se necessário usque ad sanguinis effusionem, representa um ato de lealdade para com o penitente, mas sobretudo o testemunho dado à unicidade e à universalidade salvífica de Cristo e da Igreja.
E a matéria do sigilo é exposta e regulada nos cann. 983-984 e 1388, § 1 da CIC e no cân. 1456 do CCEO, bem como no n. 1467 do Catecismo da Igreja Católica, onde se afirma que a Igreja declara, como dado irredutível que deriva da santidade do Sacramento instituído por Cristo, “que todo o sacerdote que ouve confissões é obrigado a guardar segredo absoluto sobre os pecados que os penitentes lhe confessaram, sob severíssimas penas”. Nunca lhe é permitido “trair o penitente com palavras ou de qualquer outro modo” (cân. 983, § 1 CIC), tal como lhe é proibido “fazer uso dos conhecimentos adquiridos pela confissão com agravo do penitente, excluído qualquer perigo de revelação” (cân. 984, § 1 CIC). E a doutrina especifica o teor do sigilo:
Todos os pecados, tanto do penitente como de outros conhecidos pela confissão do penitente, quer mortais como veniais, quer ocultos como públicos, enquanto manifestados a fim de absolvição e, portanto, conhecidos pelo confessor em virtude da ciência sacramental”.
Portanto, o sigilo sacramental abrange tudo o que o penitente tenha acusado, mesmo que o confessor não conceda a absolvição. Com efeito, o sacerdote toma consciência dos pecados do penitente “não como homem, mas como Deus”, a tal ponto que simplesmente “não sabe” o que lhe foi dito em confissão, porque não o escutou enquanto homem, mas em nome de Deus. Assim, o confessor poderia “jurar”, sem prejuízo para a consciência, “não saber” o que sabe só como ministro de Deus. Ademais, este sigilo vincula o confessor interiormente, a ponto de lhe ser proibido recordar voluntariamente a confissão. O sigilo atinge ainda quem, de alguma forma, tenha vindo a saber dos pecados da confissão:
À obrigação de  observar o segredo são chamados também o intérprete, se houver, e todos os outros aos quais, de alguma forma, tenha chegado a notícia dos pecados da confissão” (cân. 983, § 2 CIC).
Este sigilo é tal que  impede o sacerdote de divulgar o conteúdo da confissão com o próprio penitente, fora do Sacramento, “salvo explícito (mas melhor se não pedido) o consentimento por parte do penitente”. É que o sigilo vai além da disponibilidade do penitente, que não tem o poder de aliviar o confessor da obrigação do sigilo, porque esse dever vem diretamente de Deus.
Todavia, a defesa do sigilo sacramental e a santidade da confissão não constituem qualquer forma de conivência com o mal; representam, antes, o verdadeiro antídoto contra o mal que ameaça o homem e o mundo; e são a real possibilidade de se render ao amor de Deus, de deixar-se converter e transformar por ele, aprendendo a corresponder-se concretamente na própria vida. Por outro lado, nunca é permissível colocar ao penitente, como condição de absolvição, a obrigação de se expor à justiça civil, em virtude do princípio incorporado em toda a ordem jurídica, segundo a qual “nemo tenetur se detegere” (ninguém é obrigado a revelar a sua culpabilidade). Porém, pertence à estrutura do Sacramento da Reconciliação, como condição para sua validade, o sincero arrependimento e o firme propósito de emendar e não reiterar o mal cometido; e, face a um penitente que tenha sido vítima do mal dos outros, será do interesse do confessor instruí-lo sobre os seus direitos, bem como sobre os instrumentos jurídicos concretos a utilizar para denunciar o facto no foro civil e / ou eclesiástico e invocar a justiça.
2. Foro extrassacramental interno e direção espiritual
Também pertence ao âmbito jurídico-moral do foro interno o “foro interno extrassacramental”, (oculto, mas externo ao Sacramento da Penitência). Nele a Igreja também exerce a sua missão, não perdoando pecados, mas concedendo graças e rompendo vínculos jurídicos (como as censuras) e ocupando-se de quanto diz respeito à santificação (ou seja, à esfera íntima e pessoal de cada fiel). A este foro pertence a direção espiritual, em que o fiel confia a via de conversão e santificação a sacerdote, consagrado/a ou leigo/a. O sacerdote exerce tal ministério em virtude da missão que tem de representar Cristo, conferida pelo Sacramento da Ordem e exercida na comunhão hierárquica da Igreja, por meio dos tria munera: ensinar, santificar e governar; os leigos fazem-no em virtude do sacerdócio batismal e do dom do Espírito Santo. O fiel abre o segredo da sua consciência ao diretor ou acompanhante espiritual, para ser orientado e apoiado na escuta e cumprimento da vontade de Deus. Por isso, também este âmbito exige sigilo ad extra, inerente ao teor das conversas espirituais e derivante do direito de cada pessoa ao respeito pela própria intimidade (cf can. 220 CIC). Embora só de modo análogo ao que sucede no Sacramento da Confissão, o diretor espiritual é posto a par da consciência do fiel, em virtude do seu especial relacionamento com Cristo, por via da santidade da vida e, se clérigo, da mesma Ordem recebida. Como testemunho da confidencialidade concedida à direção espiritual, considera-se a proibição, sancionada pelo direito, de pedir não só o parecer do confessor, mas também o do diretor espiritual, para admissão às Ordens sacras ou para demissão do seminário de candidatos ao sacerdócio (cf cân. 240, § 2 CIC; cân. 339, § 2 CCEO). Também a instrução Sanctorum Mater (de 2007), relativa aos inquéritos diocesanos ou eparquiais nas Causas dos Santos, proíbe admitir para testemunhar os confessores, para proteger o sigilo sacramental, e os diretores espirituais do Servo de Deus, por quanto lhes tenha vindo ao conhecimento no foro de consciência, fora da confissão sacramental. Tal confidencialidade será tanto mais natural para o diretor espiritual, quanto mais ele aprender a reconhecer e a comover-se ante o mistério da liberdade do fiel que, por meio dele, se dirige a Cristo; o diretor espiritual deverá conceber a própria missão e a própria vida ante Deus, a serviço da sua glória, para o bem da pessoa, da Igreja e para a salvação do mundo.
3. Segredos e outros limites próprios da comunicação
De outra natureza, em relação ao âmbito do foro interno, sacramental e extrassacramental, são as confidências feitas sob sigilo, bem como o segredo profissional de certas categorias de pessoas (vg: médicos, enfermeiros, farmacêuticos, advogados…), na sociedade civil e na estrutura eclesial, em virtude de especial ofício em prol dos indivíduos ou da comunidade. Tal segredo deve, por força da lei natural, ser sempre preservado, exceto, como afirma  o n. 2491 do CIC (Catecismo da Igreja Católica), em casos excecionais em que a sua retenção causasse a quem o confia, ou o recebe ou a um terceiro, prejuízos muito graves e só evitáveis ​​pela  sua divulgação.  
Caso particular de sigilo é o do “segredo pontifício”, que vincula por força do juramento ligado ao exercício de alguns ofícios ao serviço da Sé Apostólica. Se o juramento de segredo sempre vincula coram Deo quem o emitiu, o juramento do “segredo pontifício” tem como ratio última o bem público da Igreja e a salus animarum, sendo que esse bem e as exigências da salus animarum (incluindo o uso de informações que não se enquadram no sigilo) podem e devem ser corretamente interpretadas só pela Sé Apostólica, na pessoa do Romano Pontífice, que o Senhor constituiu como princípio visível e fundamento da unidade da fé e da comunhão da Igreja.
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No que tange a outros âmbitos de comunicação, públicos ou privados, em todas as suas formas e expressões, a Igreja sempre indicou como critério fundamental a “regra de ouro” referida no Evangelho de Lucas: “O que queres que os homens te façam, faz tu também a eles” (Lc 6,31). Assim, na comunicação da verdade ou no silêncio em relação a ela, quando quem a questiona não tem o direito de a conhecer, é preciso conformar sempre a vida ao preceito do amor fraterno, tendo diante dos olhos o bem e a segurança dos outros, o respeito pela vida privada e o bem comum. E, como dever peculiar de comunicação da verdade, ditado pela caridade, salienta-se a “correção fraterna”, nos seus vários passos, ensinada pelo Senhor, a qual permanece o horizonte de referência, quando necessária e de acordo com o que as circunstâncias permitem e exigem:
Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, tu e ele a sós! Se ele te ouvir, terás ganho o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, de modo que toda questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhasSe ele não vos der ouvidos, di-lo à igreja.” (Mt 18,15-17).
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O exposto consta da Nota em referência, reforçada pela explicação do Cardeal Mauro Piacenza em entrevista ao Vatican News.
2019.07.02 – Louro de Carvalho