sábado, 30 de janeiro de 2016

O “Cristóforo”

Hoje, 30 de janeiro, na sua primeira audiência jubilar, Francisco recebeu os cristãos que peregrinaram ao Vaticano, garantindo-lhes que, pelo batismo, o cristão se torna cristóforo. E é esta a sua missão, a missão de cada um em articulação com a missão de toda a Igreja. Não se trata de carregar em si mesmo ou dentro de si mesmo um Cristo qualquer construído segundo imaginação e a ideação dos homens, mas Aquele que exprime para o homem e o povo, em que se insira, o vulto de Deus. E o vulto do Deus de Abrão, Isaac e Jacob – o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e o Pai de cada um dos homens – é o rosto da Misericórdia que pretende contagiar os homens tornando-os misericordiosos em espírito e em obra, em palavra e ação.
Por isso, o Papa, segundo o que o locutor português recolheu das suas palavras, atesta a “estreita ligação entre a misericórdia e a missão”, de modo que “a Igreja tem uma vida autêntica quando professa e proclama aos homens a misericórdia de Deus”. Professar implica proclamar e o proclamar decorre do professar. Com efeito, tal como o pastor que recuperou a ovelha tresmalhada, a mulher que encontrou a dracma perdida e o Pai que celebra o retorno do filho pródigo e reencontrado (vd Lc 15,5-7.9-10.32) se alegraram e convidaram à alegria e à festa, também nós, “quando recebemos uma bela notícia, quando experimentamos uma alegria, é natural que tenhamos o desejo de a transmitir aos outros”, proclamando-a aos quatro ventos.
Por isso, “como aconteceu com os primeiros discípulos, o sinal concreto de que encontramos realmente Jesus é que experimentemos a alegria de O querer comunicar a quem está ao nosso redor”. E, assim, o Pontífice, pretendendo chamar a atenção para a responsabilidade que nos advém do batismo, declarou:
“Todo o cristão deve ser um Cristóforo, um portador de Cristo, pois a misericórdia que recebemos do Pai, em Cristo, não nos é dada como uma consolação privada, mas chama-nos a sermos instrumentos para que outras pessoas também possam receber este dom”.
Para o Papa Francisco, cada cristão tem a “responsabilidade de ser missionário do Evangelho” e deve anunciar o Evangelho com a alegria de quem guarda uma “boa notícia”. Não se trata de atitude de prosélito, mas de postura de quem oferece e transmite “um dom que nos foi dado”, pois, como frisou o Bispo de Roma, “a misericórdia que recebemos do Pai não nos foi dada como uma consolação pessoal, mas torna-nos instrumentos para que outros possam receber o mesmo dom”.
Apelando aos crentes para que levem a sério a sua identidade cristã, sustentou que “só assim o Evangelho pode tocar o coração das pessoas e abri-lo a receber a graça do amor”. E, como exemplo de que não teremos de fazer muito esforço para encontrar um pretexto para a prática das obras de misericórdia, convidou os presentes a concretizarem duas obras de misericórdia: “rezar pelos defuntos e consolar os aflitos” – no contexto do falecimento de uma colaboradora da Casa de Santa Marta, deixando viúvo o marido.
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“Cristóforo” é um vocábulo composto de “Cristo” (o grego, Χριστός ) e o verbo grego “foréo” (φορέω, com a variante φέρω). Cristo é a transcrição grega do hebraico Messias, o ungido de Deus. Por sua vez, o verbo “foréo” significa: levar para cá (trazer) e para lá (levar propriamente dito), levar notícias, andar com um determinado hábito ou veste. Assim, “cristóforo”, que no latim se diz “cristífero” (que gera Cristo, que transporta Cristo), será aquele que transporta Cristo, o gera para os outros e lho mostra (atente-se na expressão portuguesa “dar à luz” no sentido de “parir”, editar, publicar, proclamar, mostrar). Por outro lado, quem recebeu o batismo, está revestido de Cristo. Por alguma razão se diz que o cristão proclama Cristo com a palavra e com a vida. Lá diz o Apóstolo: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, estais revestidos de Cristo” (Gl 3,27).
Da família lexical de φορέω são: φορά (nome), a significar – ação de levar adiante, carga, fecundidade; φοράδεν (advérbio), a significar – levando ou sendo levado em liteira ou em cadeira; φορεϊον (nome), a significar – liteira, féretro; φορεύς (nome), a significar – portador, moço de corda; φόρεμα (nome), a significar – carga, vestido, liteira, andor; e φορετός, a significar – levado, que se move.
Refletindo com base nos significados ora registados, melhor se pode compreender o sentido da dignidade e da responsabilidade do ser cristão. De cristóforo resultou o nosso nome próprio “Cristóvão” (o portador de Cristo, como a Mãe de Jesus e a Igreja…), padroeiro dos condutores, nomeadamente os automobilistas.
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Já no dia 29, o Papa falou sobre a misericórdia na audiência aos participantes na Assembleia Geral da CDF (Congregação para a Doutrina da Fé). Centrando a alocução no núcleo temático do Ano Santo da Misericórdia, exprimiu o desejo de que este constitua uma ocasião propícia para “todos os membros da Igreja renovarem a sua fé em Jesus Cristo, que é o rosto da misericórdia do Pai, a via que une Deus e o homem”. De forma especial, exprimiu o desejo de que “pastores e fiéis” redescubram “as obras de misericórdia corporais e espirituais” já que, no ocaso da vida terrena de cada um, seremos questionados sobre se, além de termos dado de comer e beber a quem tinha sede e fome, ajudámos as pessoas a “sair da dúvida”, se acolhemos os pecadores, admoestando-os e corrigindo-os e se fomos capazes de combater a ignorância, sobretudo a relativa à fé cristã e a uma vida correta.
Se aos fiéis apinhados na Praça de São Pedro, relacionou a missão com a misericórdia, na Sala Clementina estabeleceu a “relação cognitiva e unificante” da fé e da caridade com “o mistério do Amor, que é o próprio Deus”, de Deus que, “embora permanecendo um mistério, tornou efetiva e afetiva a sua misericórdia, através de Jesus feito homem para a nossa salvação”. E explicitou a razão de ser da Congregação para a Doutrina da Fé nos termos seguintes:
“Com efeito, a fé cristã não é apenas conhecimento a ser conservado na memória, mas verdade a ser vivida no amor. Por isso, juntamente com a doutrina da fé, é necessário conservar também a integridade dos costumes, de modo particular nos âmbitos mais delicados da vida. A adesão da fé à pessoa de Cristo implica tanto o ato da razão como a resposta moral ao seu dom.”.
O Papa, chamando a atenção para a delicadeza que a tarefa de proteger a integridade da fé comporta, assegurou que ela requer um “empenho colegial”. Em conformidade com este postulado, ao mesmo tempo que agradeceu aos Consultores e ao Comissário, que colaboram com o notável Dicastério para Doutrina da Fé, cujo trabalho é altamente meritório, encorajou este dicastério à continuidade e à intensificação destas colaborações, bem como à promoção, a nível eclesial,  da “justa sinodalidade”.
Depois, citando como positiva a reunião de 2015 com as Comissões doutrinais das Conferências Episcopais europeias, frisou que, sem a “abertura à dimensão transcendental da vida (…),  a Europa corre o risco de perder aquele espírito humanístico que, no entanto, ama e defende”.
Aludindo à responsabilidade de cada um colocar ao serviço da comunidade os dons recebidos de Deus em articulação com a vertente organizativa da Igreja, Francisco ensinou que a renovação da vida eclesial implica o estudo da “complementaridade” entre os dons hierárquicos e os dons carismáticos, “dons que são destinados a colaborar em sinergia para o bem da Igreja e do mundo”:
O testemunho desta complementaridade é hoje, mais do que nunca, urgente e representa uma expressão eloquente daquela ordenada pluriformidade que carateriza o tecido eclesial, reflexo da harmoniosa comunhão que vive no coração do Deus Uno e Trino”.
A conexão entre os dons hierárquicos e os dons carismáticos remete para “a sua raiz trinitária na ligação entre o Logos (o Verbo) divino incarnado e o Espírito Santo, que é sempre dom do Pai e do Filho” – raiz que, reconhecida e aceite com humildade, induzirá a Igreja a permanentemente se renovar.
E, salientando a necessidade de equilibrar a unidade essencial com a desejável pluriformidade, afirmou:
Unidade e pluriformidade são os selos (marcas) de uma Igreja que, movida pelo Espírito, sabe caminhar, com passos seguros e fiéis em direção à meta que o Senhor Ressuscitado lhe indica ao longo da História”.
Por fim, reforçando o enaltecimento do dinamismo sinodal, disse que a sinodalidade, “se entendida corretamente, nasce da comunhão e conduz à comunhão”.
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É a grandeza da essência do ser e da missão d a Igreja e do cristão: a “cristoforia” ou o “cristoforismo”.

2016.01.30 – Louro de Carvalho

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