quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Contra uma “TAP Lisboa”

A TAP anunciou recentemente ter decidido a suspensão, a partir de 27 de março (Dia de Páscoa), de quatro rotas com partida do aeroporto Francisco Sá Carneiro para: Barcelona (Espanha), Bruxelas (Bélgica), Milão e Roma (Itália). Também vão ser suprimidas Gotemburgo (Suécia), Hannover (Alemanha), Zagreb (Croácia), Budapeste (Hungria) e Bucareste (Roménia). São mais cinco carreiras.
A razão de tais decisões prende-se, pelos vistos, com a falta de rentabilidade destas rotas. Na verdade, a empresa justificou, no passado dia 18, que a suspensão foi tomada “no âmbito da otimização da sua operação de forma a melhorar a rentabilidade da companhia”, uma vez que estas nove rotas são deficitárias.
Em contrapartida, a companhia decidiu criar 59 novas frequências, de que destaca: Nova Iorque, Miami, São Paulo, Ilha do Sal, Casablanca, Marraquexe, Tânger, Roma, Munique, Paris, Toulouse, Veneza e Ilha Terceira.
De acordo com a edição de hoje, 20 de janeiro, do JN, a decisão da TAP de suspender quatro voos a partir do Aeroporto do Porto suscitou uma onda de insatisfação e revolta entre autarcas e empresários nortenhos e da Galiza, no pressuposto de que esta é uma medida “altamente prejudicial para as empresas e para a economia” da região.
A este respeito, o Presidente da Associação Comercial do Porto, Nuno Botelho, apontou o dedo à TAP:
“Mais uma vez, ficamos a saber que não podemos contar com a erradamente chamada TAP Portugal. Trata-se cada vez mais de uma TAP Lisboa e cada vez menos de uma TAP Portugal”.
Do seu lado, o presidente da Associação de Comerciantes do Porto, Nuno Camilo, lembra outro setor afetado: “O Porto não é só uma cidade de comércio, é uma cidade de turismo e esse turismo traz capitais”.
Por seu turno, Eduardo Vítor Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia declarou-se incomodado, pois, “não estamos a falar de rotas para cidades escondidas no meio de duas montanhas”.
Ao contrário da TAP, que tem por “deficitárias” aquelas rotas aéreas a partir do Porto, o eurodeputado do PSD Paulo Rangel e o eurodeputado do CDS Nuno Melo entendem que aquelas rotas estão “invariavelmente lotadas”. Rangel preconiza que “as forças vivas da região têm que tomar uma posição e fazer valer a sua voz”. E Nuno Melo considera que “a TAP tem que dar explicações”.
Hermínio Loureiro, Presidente do Conselho Metropolitano do Porto, assegura que “não podemos aceitar que exista qualquer enfraquecimento do Aeroporto Francisco Sá Carneiro”. E Ricardo Rio, presidente do Eixo Atlântico, conclui que é “uma decisão que prejudica empresas e população”. Do lado galego, o secretário-geral Xoan Mao chega a comparar sarcasticamente a TAP aos Estaleiros de Viana do Castelo e denuncia uma “lógica de favorecimento do lucro privado”.
Do seu lado, a ANIVEC (Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção) manifestou a sua “grande preocupação” com a suspensão pela TAP daqueles quatro voos regulares do Porto para cidades europeias, advertindo para o risco em que fica a “atividade empresarial” do setor. O comunicado que difundiu a dar conta daquela preocupação sustenta:
“A indústria de vestuário, confeção e moda assenta grande parte da sua atividade na exportação dos seus produtos, cujos destinos continuam a ser preferencialmente a Europa, um grande mercado de consumo de moda. Ora, decisões comerciais desta natureza, a serem verdadeiras, colocam indubitavelmente em risco a atividade empresarial da nossa indústria, que se vê, assim, impossibilitada de um meio de transporte essencial ao desenvolvimento das relações com os seus principais clientes”.
Em conformidade com o referido no comunicado, o presidente da ANIVEC, César Araújo, apela à “intervenção do poder político”, considerando que a decisão da companhia aérea “poderá ter implicações, que podem até repercutir-se diretas, na economia nacional e nas trocas comerciais com o mercado europeu”.
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Apesar da avalanche de críticas, o autarca portuense, o Presidente da Câmara Municipal Rui Moreira, garante não estar preocupado, uma vez que as cidades em causa “são ligadas através de outros operadores”. Para este líder político nortenho, o importante é que se mantêm as ligações transatlânticas. Guilherme Pinto, Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, concorda: “[A decisão] não terá um impacto significativo desde que sejam reforçadas as ligações que mais interessam à região”.
E Paulo Rangel ressalva que, apesar da posição crítica, se mantém “totalmente a favor da privatização da TAP”.
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Parece redundante que Nuno Melo exija uma explicação da parte da TAP, se a empresa já veiculou uma explicação através ao mencionado comunicado. Certamente que não surgirá outro tipo de explicação a não ser o da pequena rentabilidade. Provavelmente os que têm opinião contrária é que deverão demonstrar as suas razões. TAP privatizada fará serviço não rentável se o Estado, a nível central ou a nível local, pagar.
Os autarcas independentes (ou dissidentes) de Matosinhos e do Porto sentem-se confortados com o serviço prestado por outros operadores. E, se estes também pensarem na inviabilização das rotas, vão exigir da TAP privatizada que venha em auxílio do Porto ou obrigam-nos a ceder porque terão maior capacidade de os domesticar?
Paulo Rangel critica a medida determinada pela empresa privada. Porém, continua a defender a privatização da companhia aérea portuguesa (de Lisboa?). Acha que as populações não se deveriam revoltar contra o Estado porque o erário público não pode ser empobrecido (a greve só era lícita em tese; na prática, não porque prejudica sempre). E quer que as forças vivas façam ouvir a sua voz contra uma empresa ora privada. Rico conceito de legitimidade da propriedade privada! Será que os compradores da TAP se vincularam a defender os interesses das populações e a incentivar a economia regional? Isso não cabe ao Estado: zelar pelo interesse público, promover o bem-estar das populações e corrigir as diversas assimetrias regionais, sociais e económicas?
2016.01.20 – Louro de Carvalho 

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