domingo, 18 de agosto de 2019

Veio trazer o fogo à Terra e só quer que ele se acenda


É surpreendente a palavra de Cristo na passagem do Evangelho de Lucas tomada para proclamação no 20.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 12, 49-53). Além do fogo que veio trazer, garante que não veio trazer a paz, mas a divisão, não como mera diferença de opinião, mas como desavença e rutura entre amigos, colegas de profissão e mesmo na família.
Ora não é Jesus o Príncipe da Paz, a nossa Paz e o que vem para reunir à sua volta todos os filhos de Deus, provindos de todos os quadrantes, de modo que haja um só rebanho e um só pastor? Será que o fogo de que fala o Senhor é o fogo da destruição? O lugar paralelo de Mateus (Mt 10,34-36) diz que veio trazer a espada. Ora, tanto o fogo como a espada, para lá da conotação de destruição e morte, são apresentados como figuras do juízo ou julgamento. Aqui, o fogo e a espada têm também um sentido purificador, de separação do que é bem do que é mal. E obviamente quem apostar no seguimento da radicalidade evangélica cria atritos e eventualmente ruturas. O fogo purificará e separará os que estão destinados para o Reino. E atuará pela palavra de Jesus e pelo Espírito Santo, o divino hóspede em chama ardente, que acende em nós o fogo do seu amor para nos iluminar e aquecer. Este fogo do Espírito purificando-nos no seu cadinho, como o artista faz aos metais, limpa-nos das impurezas, torna-nos resistentes à intempérie mundanal e prepara-nos para a luta estrénua pelo e no Reino. É o tesouro em vasos de barro!
Dizer que não veio trazer a paz não pode estar em contradição com Lc 1,79 (vem para “dirigir os nossos passos no caminho da paz) ou com 7,50 (“E Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou. Vai em paz). Isto quer dizer que Jesus não tolerará a paz a qualquer preço nem uma paz podre. O tom da perícopa é irónico: não é intenção de Jesus apoiar a tranquilidade do status quo, mas trazer a espada a separar os famintos dos satisfeitos. Só assim se entenderá como o Evangelho lucano da Paz e da Misericórdia traz um rasgo tão importante de exigência quase violência. É a rutura com o status religioso, político e social em que os descartados têm prioridade na Misericórdia.
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Talvez a passagem do livro do profeta Jeremias da palavra fogosa da profecia (Jr 38, 4-6.8-10), tomada para 1.ª leitura, nos ajude a entender esta passagem do Evangelho.
O período em que Jeremias profetiza (a partir de 627 até bem depois da queda de Jerusalém, em 586 a. C.) é complexo em termos históricos. Morto o rei Josias, em Meggido, em combate contra os egípcios, em 609 a.C., o reino de Judá passou a ser servido por reis medíocres e conheceu uma fase de instabilidade. A inconsciência o aventureirismo político dos líderes levam-nos a alianças efémeras e inconsistentes com as potências da época, que preparam a ruína da nação. Assim, a passagem de Jeremias em causa refere-se ao reinado de Sedecias por volta de 586 a.C.. Algum tempo antes (588 a. C.), Sedecias, movido pelo partido egiptófilo de Jerusalém, negou o tributo aos babilónios, pelo que, tendo Nabucodonosor sitiado Jerusalém, veio em socorro da cidade um exército egípcio, que provocou grande euforia. Porém, Jeremias emergiu do comodismo vigente e apressou-se a avisar que tal euforia era vã, pois o cerco iria recomeçar em condições mais duras. Na verdade, não tardou que o exército babilónico refizesse o assédio à cidade. E o profeta, convicto de que chegara o castigo para o pecado de Judá e de que Deus tinha entregado Jerusalém nas mãos dos babilónios, aconselhou a não resistência aos invasores e a rendição.
Os chefes do partido da resistência (4 desses chefes são referenciados em Jr 38,1: Chefatias, Godolias, Jucal, e Pachiur) mobilizam-se em oposição àquele discurso derrotista do profeta e propõem a sua eliminação. Quiseram arrumá-lo por incomodar. Sedecias, hesitante, mas prisioneiro do poder dos seus generais, consente que o profeta seja silenciado. Metido numa cisterna cheia de lodo e sem nada para comer, Jeremias corre perigo de vida. Entretanto, Ebed-Melec, um escravo núbio que morava no palácio real, intercede pelo profeta e, com permissão do rei, salva-o.
Toda a vida de Jeremias é um arriscar da vida por causa da Palavra de Deus e da missão profética. Cordial e sensível, o profeta não foi feito para o confronto, agressão ou violência das palavras e gestos. Mas o Senhor chama-o nessa fase dramática da história de Judá e confia-lhe a missão de “arrancar e destruir, arruinar e demolir” (Jr 1,10), predizer desgraças e anunciar violência e morte. E o profeta, movido pela força de Deus, concretiza a sua missão com uma força e convicção impressionantes. Deus cativou o profeta e o profeta, deixando-se cativar, pôs-se incondicionalmente ao serviço da Palavra, doesse a quem doesse, mesmo que isso tenha significado violentar a sua própria maneira de ser, viver à margem, afastar-se dos familiares, dos amigos e dos conhecidos e afrontar o ódio dos poderosos.
Jeremias é, pois, o protótipo do profeta que dá a vida para que a Palavra de Deus ecoe no mundo e na vida dos homens. Não pensa em si, no seu comodismo, bem-estar, seu êxito social ou profissional e triunfo diante da opinião pública; pensa simplesmente em anunciar fielmente o plano de Deus, para que os homens possam construir a história na perspetiva de Deus.
O final do texto da conta do cumprimento da promessa de Deus, expressa no relato da vocação de Jeremias: “Não tenhas medo, Eu estarei contigo para te libertar” (Jr 1,8). Pelo sentido de justiça e coragem dum escravo estrangeiro, Deus intervém e salva Jeremias. Assim, mostra-se como Deus está sempre ao lado dos que anunciam fielmente a Palavra e não abandona os profetas perseguidos e marginalizados pelo mundo e pelos poderosos.
Na verdade, quem se deixa seduzir pelo Senhor e aposta radicalmente no seu seguimento está disposto a que se criem desavenças e ruturas por causa de si, mas o fogo purificador purificará o seu coração e seus lábios (cf Is 6,1-8) para que se dedique sem reservas à Palavra, denunciando as injustiças, fazendo sair da modorra e da comodidade os que a palavra interpela, anunciando uma nova esperança e comprometendo-se com o futuro melhor enquanto tempo de Deus.
Dizia hoje, na igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, o Padre Nuno Almeida que era assim o recém-falecido Padre Manuel Caridade Pires (ouvi-o com gosto algumas vezes: Não tinha papas na língua!), que dava os seus murros na mesa contra as desigualdades e as injustiças, ora fazendo arrepiar os ouvintes ora fazendo com que alguns criassem a carapaça interior de resistência à Palavra incomodante. Graças a Deus ninguém o silenciou!
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Então, o Evangelho daquele que nos dá a sua Paz, pede que não tenhamos medo e envia-nos em missão profética, pede-nos um estilo profético à séria. Nem que nos arrumem para um canto no trabalho, na sociedade, na política, na roda de amigos, na família e na Igreja. Quando se vê uma injustiça, uma agressão, é preciso falar, em solidariedade para com as vítimas; quando se dá conta de que algo está errado na educação, no trabalho, na família, na sociedade, o profeta não pode aceitar tudo, tem de falar e comprometer-se. Isto vale para padres, religiosos e religiosas, missionários e missionárias, leigos e leigas, pais, educadores, colegas, amigos e familiares.
Esse Jeremias deve morrer”! De facto, não se convive bem com os profetas. A sua presença desinstala, denuncia egoísmo e individualismo. Eles denunciam a hipocrisia da morte e do pacto com o pecado instalado e subtilmente justificado. Os profetas apelam à construção da igualdade radical de todos os seres humanos, alegram-se com uma sociedade construída no fundamento das raízes humanas, que são raízes divinas e de proposta bíblica; e congratulam-se com uma sociedade construída na verdade, na justiça, na paz e no amor, sinais evidentes do Reino de Deus que todos os homens e mulheres procuram e por que anseiam. Os profetas apelam, de forma humana e misericordiosa, à conversão, à denúncia do pecado, à fidelidade e à coragem do testemunho. O seu estilo deseja e trabalha no sentido de libertar de todo o pecado; denuncia e intenta destruir o pecado com uma luta constante “até ao sangue” (cf Heb 12,4) e apela constante e permanente à conversão, à adesão incondicional a Cristo e a uma fidelidade comprometida.
O estilo profético elimina a raiz do carreirismo (subir até aos postos cimeiros na Igreja, na empresa, na política) e hipocrisia, incompatíveis com a frontalidade, a fidelidade à verdade e a capacidade de estabelecer o que é justo. Devia ser obrigatório exigir o estilo profético a quem é chamado a governar e a orientar. Quem não tem estilo profético não pode governar os irmãos, porque não sabe cuidar deles.
O nosso tempo, como o de sempre, exige que os nosso olhos estejam voltados e fixados em Jesus. Tantas testemunhas assim o fizeram na construção das suas vidas e da vida da Igreja e da sociedade, fixando o olhar na Cruz, que, elevada, se torna visível para todos e a todos atrai na solenidade de um amor feito entrega por nós.
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Tenho de receber um batismo e estou ansioso até que ele se realize”. Então Jesus associa o fogo ao batismo que há de receber. De facto, o batismo com que Jesus vai ser batizado é o da Paixão iminente em que se submergirá. A imagem é colhida do AT/Antigo Testamento (cf Sl 124,4-5) e assinala as profundidades da tristeza e da dor que o aguardam segundo a sua condição humana (cf Mc 10,38: o martírio de Jesus: beber o cálice que eu bebo…). E Jesus está ansioso por receber tal batismo. O verbo grego empregue é sinéchomai (estar apertado, comprimido...), que implica um matiz de ansiedade ou angústia, neste caso, um a força intolerável perante a qual não é possível resistir ou dominar-se. Ele sabia que o queriam silenciar e eliminar por incomodar como profeta que é, por se afirmar Filho de Deus e afrontar o poder político, religioso e económico do tempo!
Aquela palavra forte e enérgica do Evangelho mostra como Jesus quer que o fogo (que no AT era sinal teofânico) transformador que vem trazer se acenda em todos os corações, vidas e espaços. É sua vontade que os corações se abram à maravilhosa novidade de vida, amor, salvação. Ele deseja ardentemente ser correspondido pela abertura da liberdade humana e da resposta amorosa em ‘sim’ de compromisso. Esse fogo é sinal maravilhoso de vida, é essencial à vida, é elemento fundamental da criação maravilhosa, criação em que o ser humano é posto no centro e que só o pecado perturba rompendo a beleza da criação. Por isso, toda a oposição a Deus passa pela perversão da criação, da sua beleza, da sua harmonia e do seu sentido.
No Mistério Pascal de Cristo, o Seu Corpo é humilhado e crucificado; n’Ele toda a criação, espera a libertação total. E nós, em nosso corpo mortal, travamos também a luta para que seja manifesta a glória e o sentido que Deus lhe ofereceu. Por isso. somos convidados a lutar contra o pecado que perverte o sentido belo da criação. Assim também este corpo mortal está chamado a uma radical transformação, à maneira de Cristo ressuscitado.
Fogo é sinal de amor e de doação, uma doação com sabor e sentido pascal. O cordeiro imolado era passado pelo fogo, sacrifício completo que prepara para a caminhada de libertação e aliança marcada com sangue e fogo. É o fogo da novidade imperiosa do Mistério Pascal derramado pelo Espírito Santo em Pentecostes, que continua a abraçar as pessoas, o tempo e a história. É sinal eficaz de dinamismo vital da vida e missão de Cristo e da Igreja, corpo de que Ele é a cabeça. Por isso, é dinamismo de unidade, de perdão, de cura e da novidade permanente e constante de uma Igreja sempre em saída, sempre com novo ardor, com novos dons de renovação e fecundidade. O fogo de Deus é batismo celebrado em Mistério Pascal: das águas do mar vermelho e das do Jordão à torrente da Jerusalém donde dimana a fonte de água e sangue, de vida e de amor total; batismo celebrado na cruz e na ressurreição; e batismo que abrange a todos em efusão de vida e de amor. Por isso são três a dar testemunho: a água, o sangue e o Espírito.
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Depois, o Evangelho não é cartaz ou panfleto impessoal ou de propaganda, mas apelo forte à mobilização pessoal na totalidade da pessoa, dos pés à cabeça, por fora e por dentro, a sós e em comunidade carismática, orgânica e com alguma hierarquia. 
A urgência da mensagem do Evangelho soa como grito lancinante pelo apelo do querer e desejar de Cristo. É urgente a sintonia com a voz da Igreja que pretende interpretar com fidelidade um estar em saída de si e corresponder-lhe com amor, apresentar-se, dizer das suas razões, envolver as pessoas e o mundo com o gesto da doação de Cristo e a frescura do seu amor incondicional. É este fogo que deve ser ateado frente a um mundo frio, calculista e egoísta que busca a segurança e o conforto, desviando o seu olhar da cruz onde também hoje tantos são crucificados em martírio escandaloso que envolve crianças, homens e mulheres.
Na certeza de que somos filhos de Deus e fundamentamos a vida na cruz de Cristo e na sua glória, que faz resplandecer a dignidade de cada um, para lá das fronteiras das simpatias, dos grupos e dos eleitos, das ideologias mercantis e do sossego de consciência que nada tem de consciente, temos e festejamos alegria da vitória sobre a mentira, o medo, o mal e a morte.
A luta contra o pecado e a santidade como expressão de evangelho vivo e das vias da renovação e da solidez do apostolado implicam a disponibilidade radical para assumir a profecia e ser alter Christus sem esperar nada em troca, a não ser a glória de Deus e o bem dos irmãos, e o olhar fixo em Jesus para sentir a comunhão no mesmo projeto, estilo e doação de vida.
A beleza do Evangelho exige um estilo próprio dos discípulos de Cristo que não copiam os esquemas do mundo para se impor, reinar e construir, um estilo no bom combate das ideias, palco da verdadeira luta, e um estilo que assume sempre com frescura renovada o conteúdo da fé da Igreja e de um ritmo de vida pautado pelas referências morais da sabedoria do evangelho.
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É bom procurarmos pelo Evangelho conhecer melhor a figura de Cristo. Alguns vêem-No como homem bom, de sorriso meigo. Mas, se tentarmos descobri-Lo pelo Evangelho, a sua imagem surge-nos com as virtudes do herói que nenhum perigo faz recuar e que nenhuma luta atemoriza. O caminho que nos propõe não é cómodo. Quem quiser segui-Lo tem de optar e enfrentar as contrariedades e/ou as perseguições que a escolha acarreta; tem de ganhar a coragem da coerência com a escolha feita, mesmo quando à sua volta as pessoas não aceitem essa posição. Se, para nos mantermos do lado de Cristo, temos de enfrentar a oposição dos outros, teremos de aceitar a luta. Não podemos por tibieza passar-nos para o outro lado. Por isso, o Senhor diz: “Vim estabelecer a desavença”. Quantas vezes temos presenciado situações destas!
A voz do Senhor é exigente. Não podemos ser por Ele e contra Ele. Ele dá-nos o exemplo: Não vacilou ante a incompreensão e ameaças do povo. Enfrentou a ira dos poderosos do mundo para defender a Verdade. Aceitou voluntariamente o sofrimento e a morte para nos salvar.
2019.08.18 – Louro de Carvalho

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