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domingo, 18 de agosto de 2019

Veio trazer o fogo à Terra e só quer que ele se acenda


É surpreendente a palavra de Cristo na passagem do Evangelho de Lucas tomada para proclamação no 20.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 12, 49-53). Além do fogo que veio trazer, garante que não veio trazer a paz, mas a divisão, não como mera diferença de opinião, mas como desavença e rutura entre amigos, colegas de profissão e mesmo na família.
Ora não é Jesus o Príncipe da Paz, a nossa Paz e o que vem para reunir à sua volta todos os filhos de Deus, provindos de todos os quadrantes, de modo que haja um só rebanho e um só pastor? Será que o fogo de que fala o Senhor é o fogo da destruição? O lugar paralelo de Mateus (Mt 10,34-36) diz que veio trazer a espada. Ora, tanto o fogo como a espada, para lá da conotação de destruição e morte, são apresentados como figuras do juízo ou julgamento. Aqui, o fogo e a espada têm também um sentido purificador, de separação do que é bem do que é mal. E obviamente quem apostar no seguimento da radicalidade evangélica cria atritos e eventualmente ruturas. O fogo purificará e separará os que estão destinados para o Reino. E atuará pela palavra de Jesus e pelo Espírito Santo, o divino hóspede em chama ardente, que acende em nós o fogo do seu amor para nos iluminar e aquecer. Este fogo do Espírito purificando-nos no seu cadinho, como o artista faz aos metais, limpa-nos das impurezas, torna-nos resistentes à intempérie mundanal e prepara-nos para a luta estrénua pelo e no Reino. É o tesouro em vasos de barro!
Dizer que não veio trazer a paz não pode estar em contradição com Lc 1,79 (vem para “dirigir os nossos passos no caminho da paz) ou com 7,50 (“E Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou. Vai em paz). Isto quer dizer que Jesus não tolerará a paz a qualquer preço nem uma paz podre. O tom da perícopa é irónico: não é intenção de Jesus apoiar a tranquilidade do status quo, mas trazer a espada a separar os famintos dos satisfeitos. Só assim se entenderá como o Evangelho lucano da Paz e da Misericórdia traz um rasgo tão importante de exigência quase violência. É a rutura com o status religioso, político e social em que os descartados têm prioridade na Misericórdia.
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Talvez a passagem do livro do profeta Jeremias da palavra fogosa da profecia (Jr 38, 4-6.8-10), tomada para 1.ª leitura, nos ajude a entender esta passagem do Evangelho.
O período em que Jeremias profetiza (a partir de 627 até bem depois da queda de Jerusalém, em 586 a. C.) é complexo em termos históricos. Morto o rei Josias, em Meggido, em combate contra os egípcios, em 609 a.C., o reino de Judá passou a ser servido por reis medíocres e conheceu uma fase de instabilidade. A inconsciência o aventureirismo político dos líderes levam-nos a alianças efémeras e inconsistentes com as potências da época, que preparam a ruína da nação. Assim, a passagem de Jeremias em causa refere-se ao reinado de Sedecias por volta de 586 a.C.. Algum tempo antes (588 a. C.), Sedecias, movido pelo partido egiptófilo de Jerusalém, negou o tributo aos babilónios, pelo que, tendo Nabucodonosor sitiado Jerusalém, veio em socorro da cidade um exército egípcio, que provocou grande euforia. Porém, Jeremias emergiu do comodismo vigente e apressou-se a avisar que tal euforia era vã, pois o cerco iria recomeçar em condições mais duras. Na verdade, não tardou que o exército babilónico refizesse o assédio à cidade. E o profeta, convicto de que chegara o castigo para o pecado de Judá e de que Deus tinha entregado Jerusalém nas mãos dos babilónios, aconselhou a não resistência aos invasores e a rendição.
Os chefes do partido da resistência (4 desses chefes são referenciados em Jr 38,1: Chefatias, Godolias, Jucal, e Pachiur) mobilizam-se em oposição àquele discurso derrotista do profeta e propõem a sua eliminação. Quiseram arrumá-lo por incomodar. Sedecias, hesitante, mas prisioneiro do poder dos seus generais, consente que o profeta seja silenciado. Metido numa cisterna cheia de lodo e sem nada para comer, Jeremias corre perigo de vida. Entretanto, Ebed-Melec, um escravo núbio que morava no palácio real, intercede pelo profeta e, com permissão do rei, salva-o.
Toda a vida de Jeremias é um arriscar da vida por causa da Palavra de Deus e da missão profética. Cordial e sensível, o profeta não foi feito para o confronto, agressão ou violência das palavras e gestos. Mas o Senhor chama-o nessa fase dramática da história de Judá e confia-lhe a missão de “arrancar e destruir, arruinar e demolir” (Jr 1,10), predizer desgraças e anunciar violência e morte. E o profeta, movido pela força de Deus, concretiza a sua missão com uma força e convicção impressionantes. Deus cativou o profeta e o profeta, deixando-se cativar, pôs-se incondicionalmente ao serviço da Palavra, doesse a quem doesse, mesmo que isso tenha significado violentar a sua própria maneira de ser, viver à margem, afastar-se dos familiares, dos amigos e dos conhecidos e afrontar o ódio dos poderosos.
Jeremias é, pois, o protótipo do profeta que dá a vida para que a Palavra de Deus ecoe no mundo e na vida dos homens. Não pensa em si, no seu comodismo, bem-estar, seu êxito social ou profissional e triunfo diante da opinião pública; pensa simplesmente em anunciar fielmente o plano de Deus, para que os homens possam construir a história na perspetiva de Deus.
O final do texto da conta do cumprimento da promessa de Deus, expressa no relato da vocação de Jeremias: “Não tenhas medo, Eu estarei contigo para te libertar” (Jr 1,8). Pelo sentido de justiça e coragem dum escravo estrangeiro, Deus intervém e salva Jeremias. Assim, mostra-se como Deus está sempre ao lado dos que anunciam fielmente a Palavra e não abandona os profetas perseguidos e marginalizados pelo mundo e pelos poderosos.
Na verdade, quem se deixa seduzir pelo Senhor e aposta radicalmente no seu seguimento está disposto a que se criem desavenças e ruturas por causa de si, mas o fogo purificador purificará o seu coração e seus lábios (cf Is 6,1-8) para que se dedique sem reservas à Palavra, denunciando as injustiças, fazendo sair da modorra e da comodidade os que a palavra interpela, anunciando uma nova esperança e comprometendo-se com o futuro melhor enquanto tempo de Deus.
Dizia hoje, na igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, o Padre Nuno Almeida que era assim o recém-falecido Padre Manuel Caridade Pires (ouvi-o com gosto algumas vezes: Não tinha papas na língua!), que dava os seus murros na mesa contra as desigualdades e as injustiças, ora fazendo arrepiar os ouvintes ora fazendo com que alguns criassem a carapaça interior de resistência à Palavra incomodante. Graças a Deus ninguém o silenciou!
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Então, o Evangelho daquele que nos dá a sua Paz, pede que não tenhamos medo e envia-nos em missão profética, pede-nos um estilo profético à séria. Nem que nos arrumem para um canto no trabalho, na sociedade, na política, na roda de amigos, na família e na Igreja. Quando se vê uma injustiça, uma agressão, é preciso falar, em solidariedade para com as vítimas; quando se dá conta de que algo está errado na educação, no trabalho, na família, na sociedade, o profeta não pode aceitar tudo, tem de falar e comprometer-se. Isto vale para padres, religiosos e religiosas, missionários e missionárias, leigos e leigas, pais, educadores, colegas, amigos e familiares.
Esse Jeremias deve morrer”! De facto, não se convive bem com os profetas. A sua presença desinstala, denuncia egoísmo e individualismo. Eles denunciam a hipocrisia da morte e do pacto com o pecado instalado e subtilmente justificado. Os profetas apelam à construção da igualdade radical de todos os seres humanos, alegram-se com uma sociedade construída no fundamento das raízes humanas, que são raízes divinas e de proposta bíblica; e congratulam-se com uma sociedade construída na verdade, na justiça, na paz e no amor, sinais evidentes do Reino de Deus que todos os homens e mulheres procuram e por que anseiam. Os profetas apelam, de forma humana e misericordiosa, à conversão, à denúncia do pecado, à fidelidade e à coragem do testemunho. O seu estilo deseja e trabalha no sentido de libertar de todo o pecado; denuncia e intenta destruir o pecado com uma luta constante “até ao sangue” (cf Heb 12,4) e apela constante e permanente à conversão, à adesão incondicional a Cristo e a uma fidelidade comprometida.
O estilo profético elimina a raiz do carreirismo (subir até aos postos cimeiros na Igreja, na empresa, na política) e hipocrisia, incompatíveis com a frontalidade, a fidelidade à verdade e a capacidade de estabelecer o que é justo. Devia ser obrigatório exigir o estilo profético a quem é chamado a governar e a orientar. Quem não tem estilo profético não pode governar os irmãos, porque não sabe cuidar deles.
O nosso tempo, como o de sempre, exige que os nosso olhos estejam voltados e fixados em Jesus. Tantas testemunhas assim o fizeram na construção das suas vidas e da vida da Igreja e da sociedade, fixando o olhar na Cruz, que, elevada, se torna visível para todos e a todos atrai na solenidade de um amor feito entrega por nós.
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Tenho de receber um batismo e estou ansioso até que ele se realize”. Então Jesus associa o fogo ao batismo que há de receber. De facto, o batismo com que Jesus vai ser batizado é o da Paixão iminente em que se submergirá. A imagem é colhida do AT/Antigo Testamento (cf Sl 124,4-5) e assinala as profundidades da tristeza e da dor que o aguardam segundo a sua condição humana (cf Mc 10,38: o martírio de Jesus: beber o cálice que eu bebo…). E Jesus está ansioso por receber tal batismo. O verbo grego empregue é sinéchomai (estar apertado, comprimido...), que implica um matiz de ansiedade ou angústia, neste caso, um a força intolerável perante a qual não é possível resistir ou dominar-se. Ele sabia que o queriam silenciar e eliminar por incomodar como profeta que é, por se afirmar Filho de Deus e afrontar o poder político, religioso e económico do tempo!
Aquela palavra forte e enérgica do Evangelho mostra como Jesus quer que o fogo (que no AT era sinal teofânico) transformador que vem trazer se acenda em todos os corações, vidas e espaços. É sua vontade que os corações se abram à maravilhosa novidade de vida, amor, salvação. Ele deseja ardentemente ser correspondido pela abertura da liberdade humana e da resposta amorosa em ‘sim’ de compromisso. Esse fogo é sinal maravilhoso de vida, é essencial à vida, é elemento fundamental da criação maravilhosa, criação em que o ser humano é posto no centro e que só o pecado perturba rompendo a beleza da criação. Por isso, toda a oposição a Deus passa pela perversão da criação, da sua beleza, da sua harmonia e do seu sentido.
No Mistério Pascal de Cristo, o Seu Corpo é humilhado e crucificado; n’Ele toda a criação, espera a libertação total. E nós, em nosso corpo mortal, travamos também a luta para que seja manifesta a glória e o sentido que Deus lhe ofereceu. Por isso. somos convidados a lutar contra o pecado que perverte o sentido belo da criação. Assim também este corpo mortal está chamado a uma radical transformação, à maneira de Cristo ressuscitado.
Fogo é sinal de amor e de doação, uma doação com sabor e sentido pascal. O cordeiro imolado era passado pelo fogo, sacrifício completo que prepara para a caminhada de libertação e aliança marcada com sangue e fogo. É o fogo da novidade imperiosa do Mistério Pascal derramado pelo Espírito Santo em Pentecostes, que continua a abraçar as pessoas, o tempo e a história. É sinal eficaz de dinamismo vital da vida e missão de Cristo e da Igreja, corpo de que Ele é a cabeça. Por isso, é dinamismo de unidade, de perdão, de cura e da novidade permanente e constante de uma Igreja sempre em saída, sempre com novo ardor, com novos dons de renovação e fecundidade. O fogo de Deus é batismo celebrado em Mistério Pascal: das águas do mar vermelho e das do Jordão à torrente da Jerusalém donde dimana a fonte de água e sangue, de vida e de amor total; batismo celebrado na cruz e na ressurreição; e batismo que abrange a todos em efusão de vida e de amor. Por isso são três a dar testemunho: a água, o sangue e o Espírito.
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Depois, o Evangelho não é cartaz ou panfleto impessoal ou de propaganda, mas apelo forte à mobilização pessoal na totalidade da pessoa, dos pés à cabeça, por fora e por dentro, a sós e em comunidade carismática, orgânica e com alguma hierarquia. 
A urgência da mensagem do Evangelho soa como grito lancinante pelo apelo do querer e desejar de Cristo. É urgente a sintonia com a voz da Igreja que pretende interpretar com fidelidade um estar em saída de si e corresponder-lhe com amor, apresentar-se, dizer das suas razões, envolver as pessoas e o mundo com o gesto da doação de Cristo e a frescura do seu amor incondicional. É este fogo que deve ser ateado frente a um mundo frio, calculista e egoísta que busca a segurança e o conforto, desviando o seu olhar da cruz onde também hoje tantos são crucificados em martírio escandaloso que envolve crianças, homens e mulheres.
Na certeza de que somos filhos de Deus e fundamentamos a vida na cruz de Cristo e na sua glória, que faz resplandecer a dignidade de cada um, para lá das fronteiras das simpatias, dos grupos e dos eleitos, das ideologias mercantis e do sossego de consciência que nada tem de consciente, temos e festejamos alegria da vitória sobre a mentira, o medo, o mal e a morte.
A luta contra o pecado e a santidade como expressão de evangelho vivo e das vias da renovação e da solidez do apostolado implicam a disponibilidade radical para assumir a profecia e ser alter Christus sem esperar nada em troca, a não ser a glória de Deus e o bem dos irmãos, e o olhar fixo em Jesus para sentir a comunhão no mesmo projeto, estilo e doação de vida.
A beleza do Evangelho exige um estilo próprio dos discípulos de Cristo que não copiam os esquemas do mundo para se impor, reinar e construir, um estilo no bom combate das ideias, palco da verdadeira luta, e um estilo que assume sempre com frescura renovada o conteúdo da fé da Igreja e de um ritmo de vida pautado pelas referências morais da sabedoria do evangelho.
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É bom procurarmos pelo Evangelho conhecer melhor a figura de Cristo. Alguns vêem-No como homem bom, de sorriso meigo. Mas, se tentarmos descobri-Lo pelo Evangelho, a sua imagem surge-nos com as virtudes do herói que nenhum perigo faz recuar e que nenhuma luta atemoriza. O caminho que nos propõe não é cómodo. Quem quiser segui-Lo tem de optar e enfrentar as contrariedades e/ou as perseguições que a escolha acarreta; tem de ganhar a coragem da coerência com a escolha feita, mesmo quando à sua volta as pessoas não aceitem essa posição. Se, para nos mantermos do lado de Cristo, temos de enfrentar a oposição dos outros, teremos de aceitar a luta. Não podemos por tibieza passar-nos para o outro lado. Por isso, o Senhor diz: “Vim estabelecer a desavença”. Quantas vezes temos presenciado situações destas!
A voz do Senhor é exigente. Não podemos ser por Ele e contra Ele. Ele dá-nos o exemplo: Não vacilou ante a incompreensão e ameaças do povo. Enfrentou a ira dos poderosos do mundo para defender a Verdade. Aceitou voluntariamente o sofrimento e a morte para nos salvar.
2019.08.18 – Louro de Carvalho

domingo, 30 de junho de 2019

Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os...



É a atitude epistemo-pedagógica do Mestre face à pretensão violenta e musculada dos irmãos Tiago e João de castigar os samaritanos por recusarem dar hospedagem a Jesus e à sua comitiva na passagem para Jerusalém como se relata na primeira parte do texto evangélico tomado para a Liturgia da Palavra do 13.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 9,51-62).   
Na verdade, prestes a ser levado deste mundo, Jesus decidiu dirigir-Se a Jerusalém e mandou à sua frente mensageiros, que entraram numa povoação de samaritanos (povo descendente de estrangeiros que ocupavam Israel após a deportação dos israelitas) para Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, por ir para Jerusalém.
Vendo isto, Tiago e João, os filhos do trovão (designativo que Jesus lhes deu, pelos visto com razão), disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?” – uma alusão ao que fizera Elias aos adversários (cf 2 Rs 1,10-12). Porém, Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação, provavelmente também de samaritanos, pois, segundo o livro dos Atos (vd At 8,5-25), a Samaria estava recetiva ao cristianismo.
O incidente ilustra praticamente a obrigação de rejeitar a força da violência, a não imposição da nossa vontade, em vez de proposta e aconselhamento, mas respeitando a inteligência e a vontade dos outros e aceitando-os como são; e a obrigação de encontrar vias alternativas na vida para os nossos desígnios. De facto, por mais santos que sejam os nossos objetivos, nunca é lícita a imposição, pela força, dos meios para os atingir ou da inculcação das boas ideias – uma lição contra as contendas e guerras por motivos religiosos.   
Até agora, Lucas situou Jesus na Galileia, mas, a partir daqui, mostra Jesus decididamente a caminhar para Jerusalém com os discípulos, não mais falando, segundo Lucas, da Galileia e da Samaria. Desta caminhada, mais teológica do que geográfica, Lucas não intenta um diário da viagem ou a lista dos lugares por onde Jesus vai passar, mas pretende apresentar um itinerário espiritual em que o Mestre faz com os discípulos a pedagogia do conhecimento e dos valores do “Reino”, presenteando-os com a plenitude da revelação. Todo este percurso, aqui iniciado, converge para a cruz, que trará a revelação suprema que Jesus quer apresentar aos discípulos e onde irromperá a salvação definitiva. Por isso, Jesus exorta os discípulos ao seguimento deste caminho, para se identificarem plenamente com Jesus. E Lucas propõe à sua comunidade o itinerário que os verdadeiros crentes devem calcorrear.
O texto em referência tem uma 1.ª parte (vv. 51-56), que foi sinteticamente transcrita, em que o cenário de fundo nos dá conta da hostilidade entre judeus e samaritanos. Era ancestral a dificuldade de convivência entre os dois grupos; procurando evitar a passagem pela Samaria para evitar maus encontros, os peregrinos que iam a Jerusalém para as grandes festas de Israel utilizavam preferencialmente o caminho do mar (junto da orla costeira) ou o do vale do Jordão.
Como ficou dito, a primeira lição de Jesus ao longo desta “caminhada” ilustra a atitude que os discípulos devem assumir face ao ódio do mundo e à sua rejeição da proposta de salvação. Face à hostilidade manifestada pelos samaritanos, os filhos de Zebedeu advogavam uma resposta agressiva, que retribuísse na mesma moeda, Mas Jesus adverte-os de que o seu caminho não passa nem passará pela imposição da força, violência ou prepotência. No seu horizonte próximo continua a cruz e a entrega da vida por amor, pois é no dom da vida e não na prepotência e na morte que se realizará a sua missão. Ora, por melhores que sejam os seus objetivos e propósitos, os discípulos nunca podem esquecer isto, se estão verdadeiramente interessados em trilhar a rota de Jesus, muito embora, como atesta a História e a experiência de cada um, as tentações de imposição do ponto de vista particularista sejam mais que muitas e muitas vezes se caia nelas.
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Na 2.ª parte da passagem evangélica em causa (vv. 57-62), Lucas apresenta algumas das condições para percorrer, com Jesus, o caminho de Jerusalém para a cruz onde acontecerá o pleno da salvação. E fá-lo através de três candidatos a discípulos.
Ao primeiro, que se autopropõe e se afoita a seguir o Mestre para onde quer que Ele vá, é sugerido que deve despojar-se das preocupações materiais, já que, para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material:
As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”.
Ao segundo, que é instado por Jesus, é referido que o discípulo deve despegar-se dos deveres que, apesar da sua importância (a piedade filial no atinente ao sepultamento dos pais é um dever fundamental no judaísmo, como atestam Gn 49,28 – 50,26; Ex 13,19; Tb 4,3; 6,15), impeça resposta imediata e radical ao dinamismo do Reino:Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus” – disse Jesus.
Ao terceiro, sugere-se que o discípulo deve despegar-se de tudo (até da família, se for necessário), para fazer do Reino a prioridade fundamental; e nada – nem a família – deve adiar ou demorar o compromisso com o Reino: Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus” – disse o Mestre. Jesus exige mais do que Elias fez a Eliseu. Arar para o Reino significa renúncia, abnegação, sacrifício; e não se pode olhar para trás sob pena de a lavoura ficar seriamente prejudicada,
Obviamente, não são de ler ao pé da letra tais condições, pois o Mestre quer sobretudo provocar a reflexão, pôr os discípulos a pensar, o que devia fazer qualquer escola. Ou seja, não podemos entender estas exigências como normativas para todas as circunstâncias: Ele mandou cuidar dos pais (cf Mt 15,3-9); e os discípulos (nomeadamente Pedro) fizeram-se acompanhar das esposas nas viagens missionárias (cf 1Cor 9,5). O que estes ensinamentos significam é que o discípulo é convidado a eliminar da sua vida tudo o que possa ser obstáculo no seu testemunho quotidiano do Reino e a despojar-se de si próprio, do orgulho, da vaidade e da tentação do carreirismo.
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Eliseu foi chamado por Deus, pela mão de Elias, para ser profeta em Israel, missão difícil e sujeita a perseguições como sucedera com Elias. Eliseu, que era rico, deixou tudo para ficar ao serviço de Deus. Entretanto, pediu a Elias que o deixasse ir abraçar a família, a que o profeta anuiu, mas avisando que não demorasse, porque Elias já tinha feito o que devia ter feito. Mais: Elias aceitou a incumbência da parte de Deus para chamar e ungir Eliseu, com o risco de a profecia de Eliseu eventualmente vir a denunciar falhas do antecessor, o que não lhe importou: As missões confiadas por Deus urgem!   
O gesto de Elias, ao cobrir Eliseu com a sua capa, indica o apelo do Senhor a uma missão que exige disponibilidade total: assim, Eliseu queima o arado, imola os bois para se encontrar completamente livre na entrega à sua missão. (vd 1Rs 19,16b.19-21).
Também os Apóstolos tinham sido corajosos para seguir o chamamento de Jesus. Deixaram as redes, o seu ganha-pão, deixaram a família, para andarem com Jesus. Com efeito, para seguir a Jesus, é preciso estar disposto a tudo. E o Senhor continua a fomentar no coração de muitos homens e mulheres esta generosidade ao serviço de Deus e dos outros. Por isso, deve a Igreja dar graças por tantos exemplos do nosso tempo, rezar para que não faltem as vocações e rogar pela extinção dos erros e pecados de tantos e tantas, que deslustram o ser e a missão da Igreja.
O amor aos pais não pode ser empecilho para a vocação específica a que Deus chama os filhos. Tantos não deixam que a filha vá para religiosa, pensando que não têm quem os trate quando forem velhos, mas deixam que ela case e vá viver para o Brasil ou para a Austrália. Por vezes, são as filhas religiosas que acabam por estar mais perto dos pais nas suas necessidades.
Ora, a generosidade para com Deus acaba por ser recompensada muitas vezes já neste mundo. De facto, Ele não é parco em generosidade, dando cem por um agora e, depois, a vida eterna.
Os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, para se manterem na sua vocação, têm de decidir-se a entregar-se a sério à missão que o Senhor lhes confiou, na guarda do coração, na assiduidade da oração, no recurso à confissão e direção espiritual, na generosidade no apostolado.
Os pais deviam sentir alegria por Deus chamar os seus filhos para sacerdotes e/ou religiosos ou as filhas para religiosas. O pai de Teresa do Menino Jesus, São Luís Martin, é exemplo dessa alegria em dar os filhos a Deus. As cinco filhas vieram a ser carmelitas e uma da Visitação. Quando Teresa, com 14 anos, resolve ir para o Carmelo, vai ter com o pai a pedir a sua autorização e fica muito contente ao ver a resposta generosa do pai. Ao invés, muitos pais põem óbices à vocação dos filhos e acabam por ser ocasião, para eles, de afastamento de Deus e de seguimento, tantas vezes, de uma vida sem rumo, sem sentido e de desprimor.
Em maré de santos populares, a Igreja recorda os que souberam viver esta entrega a Deus. Assim, António de Lisboa ou de Pádua seguiu o apelo de Jesus e deixou as comodidades e as riquezas para imitar a Jesus na Sua pobreza e levar a Sua mensagem salvadora a muitos homens. João Batista, que se entregou desde jovem à oração e penitência e depois anunciou a chegada de Jesus e a excelência da missão messiânica, deu a vida pela verdade. O mundo inteiro louva-O nestes dias dizendo que valeu a pena a sua generosidade e sacrifício. E Pedro deixou as barcas e a família para ser Apóstolo de Jesus, arriscou a vida diversas vezes e morreu em Roma pregado numa cruz. Ao louvá-Lo nestes dias, a Igreja diz-nos que a sua vida valeu a pena.
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Os que são especialmente chamados e pretendem ser discípulos mais próximos de Jesus têm de sentir a liberdade de caminharem sem empecilhos e de O seguirem.
As passagens da Carta aos Gálatas (Gl 5,1.13-18) tomadas para 2.ª leitura da dominga aludem à liberdade – palavra que nos agrada e que estamos habituados a ouvir, a proclamar, a gritar e a cantar. Mas será esta liberdade tão apregoada prega Paulo? O Apóstolo prega a “verdadeira liberdade”, a dada por Jesus Cristo. Avisa os Gálatas de que foi para a liberdade que Cristo os libertou (veja-se o hebraísmo libertar para a liberdade, destinado a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) não convindo voltar a cair no jugo da escravidão (escravidão que Paulo identifica com a Lei e com a circuncisão).
A liberdade para o cristão não consiste na faculdade de escolher entre duas coisas distintas (isso é muito pouco) e opostas, muito menos será a independência ético-moral em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe apetece, sem barreiras de qualquer espécie (isso pode dar em libertinagem). Segundo o Apóstolo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor; e o que nos escraviza, limita e impede de alcançar a vida em plenitude (“salvação”) é o desamor, a frieza, o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência. Ora, é preciso superar esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor. Só é autenticamente livre quem se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros. E esta liberdade nasce da vida que Cristo nos dá, ou seja, pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de superar o egoísmo, o orgulho e os limites – a capacidade infinita de viver em liberdade. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós a partir da nossa adesão a Cristo.
Ao invés, viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (Paulo enumera, em Gl 5,19-21, as obras de quem é escravo), levando a que, chegada a ocasião nos mordemos e devoramos uns aos outros; mas viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (Paulo enumera, em Gl 5,22-23, as obras daquele que é livre e vive no Espírito), é viver amando o próximo como Cristo nos amou e ensinou a amar, ajudando, quais cireneus atrás de Jesus, a suportar as cargas dos outros.
Cristo libertou-nos pelo sofrimento, pela cruz e sobretudo pela aceitação plena da vontade de Deus Pai, que O levou a dar a vida por nós. A cruz é libertação. O homem santifica-se pelo sofrimento do quotidiano, que pode ser, para os jovens, uma falta de sucesso nos estudos, a dificuldade em arranjar o primeiro emprego, e, para os adultos, a morte dum familiar, uma crise financeira, a doença, o desemprego. Quantas revoltas, quantos desânimos nos assaltam por vezes! Porém, Deus está connosco. É Pai! Espera de nós a aceitação da Sua Paternidade, do Seu Amor. Não é destruindo-nos que nos libertamos, mas aceitando com alegria, com confiança e em toda a plenitude a exigência da Boa Nova de Cristo que é Caminho, Verdade e Vida.
2019.06.30 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 4 de março de 2019

O domingo da lei do coração


O domingo da lei do coração é o 8.º domingo do Tempo Comum, que este ano é o último antes da Quaresma. Nele se evidencia que a convivência com os companheiros de caminhada constitui necessidade do ser humano. E o Evangelho sublima a colmatação deste pressuposto de modo que a vida em comum se faz rica quando partilhada na sinceridade, e isto sucede quando as pessoas descobrem a dimensão evangélica no relacionamento interpessoal e nas redes sociais, descobrindo o valor de cada um. Assim, ficando postergado o egoísmo e o egocentrismo, o farisaísmo, a ganância e a capacidade de explorar, o roubo e a corrupção, sobressai o amor vivido e ensinado por Jesus, que torna as pessoas solidárias e guias umas das outras.
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O trecho da 1.ª leitura (Sir 27,4-7, na versão grega, e 5-8, na latina), cuja principal recomendação é a de que não se deve elogiar alguém antes de o ouvir falar, pertence a uma grande secção em que se destaca o tema da avaliação/julgamento das pessoas em diversas situações e a advertência à verdade no julgamento, oferecendo os critérios que suportam esse julgamento. O hagiógrafo releva os perigos a que está sujeita a integridade do ser humano, apresentando imagens (crivo, forno e fruto) para fazer a entender a vertente interior da pessoa, pois as aparências nem sempre nem imediatamente revelam tudo o que temos no nosso interior.
O livro de Ben Sirah (ou Eclesiástico) surge no início do séc. II a.C., com o domínio selêucida, um tempo em que o helenismo quer impor-se com agressividade, pondo em causa a identidade do Povo de Deus. Jesus Ben Sirah, o autor do livro, estava preocupado com a degradação dos valores tradicionais do Povo, pelo que escreveu este compêndio de “sabedoria” para defender o património cultural e religioso de Israel e mostrar aos compatriotas que Israel possuía na “Torah”, revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria”, “sabedoria” superior à “sabedoria” grega.
O trecho da liturgia de hoje é um exemplo clássico da reflexão sapiencial. Apresenta-nos uma máxima que, como todas as máximas da reflexão sapiencial, é deduzida da experiência prática e da própria reflexão (“Não elogies ninguém antes de ele falar”) e cujo fim é orientar o comportamento do homem, preservando-o do insucesso, do fracasso, dos comportamentos e dos juízos errados.
O grande critério para fazer sobressair o real valor da pessoa é o modo de raciocinar/falar. E os exemplos ajudam a esclarecer o princípio: o forno prova os vasos feitos pelo oleiro (cf v 5) e os frutos revelam a qualidade da árvore (cf v 6). Jesus retoma o exemplo (vd Lc 6,43-45; Mt 7,16-20).
É, pois, conveniente analisar as palavras que as pessoas proferem, pois as palavras mostram o que se passa na mente, revelam o íntimo do coração e descobrem mesmo o que se quer ocultar (vv 4-6). Porém, o sábio pode dominar a sua palavra para não se revelar quando o entender e para deixar falar o interlocutor bastante tempo para poder perscrutar-lhe o coração, pelo que adverte que não se elogie ninguém antes que ele fale (cf v 7), pois a palavra é o espelho que manifesta a sabedoria e a riqueza do ser humano ou, ao invés, a sua ignorância e miséria.
Ben Sirah conhece os pecados da língua: acusações e contestações que ela provoca (Sir 8,1-19; 28,8-12), juramento excessivo e precipitado (Sir 23,7-15), mentira e duplicidade (Sir 20,24-26; 19,4-12) e, sobretudo, a hipocrisia (Sir 5,14; 6,1; 28,13-16). Por isso, é mister que se agite devidamente o crivo, para separar do lixo o bom cereal, e a peneira, para separar do farelo a farinha.
A cultura hodierna (pela submissão à publicidade, meios de comunicação social e redes sociais, à propaganda enganosa) aliena a palavra, separa-a de toda a raiz humana, transforma-a no elemento dum jogo incontrolado, induzindo a linguagem a perder o seu peso racional, não relaciona as pessoas, apenas justapõe em torno da nova Babel os que julgam utilizar um vocabulário comum e falar a mesma língua. Já não é só o coração da pessoa que a palavra revela, mas o coração duma sociedade em decadência. Todo o ser humano nasce com um singular capital de potencialidades, mas que precisa de desenvolver, cultivar e aprimorar. Para tanto, deve, em articulação com as descobertas que a vida nos propicia, acolher as sentenças dos sábios resultantes da experiência alargada e da reflexão profunda como normas para essa arte de cultivo permanente. Por conseguinte, a palavra que a pessoa profere em seus colóquios será como que fruto desta cultura e a qualidade dessa palavra revela a qualidade do cultivo do coração.
Se o vaso não é bem feito (de boa argila e bem trabalhada), não resiste ao fogo do forno, mas racha e estraga-se. Ora, a conversação é como o fogo do ceramista, que revela a qualidade da matéria-prima; manifesta a qualidade do material de que é feito o interior da pessoa. Assim, se o interior é de má construção, a pessoa sofre perda ante os outros: difama-se pelas palavras. Ora, Cristo afirma coisa semelhante: “Pois a boca fala aquilo de que  o coração está cheio” (Mt 12,34). Por isso, com razão se apregoa:O homem tira coisas boas do bom tesouro do seu coração”.
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A passagem do Evangelho (Lc 6,39-45) para esta dominga, cuja ideia forte é “A boca fala do que está cheio o coração” (em consonância com a 1.ª leitura), insere-se no “Discurso da Planície” cujos destinatários são os Doze, os discípulos e as multidões (cf Lucas 6,13.17.27). No âmbito literário, é uma parábola cheia interrogações. Jesus formula as perguntas para provocar, o assentimento, a adesão, o consentimento. É o método ad hominem que provoca o envolvimento positivo dos presentes nas perguntas urgentes do Mestre. Aqui o Senhor envolve, de modo ainda mais direto, os Seus ouvintes com uma parábola com perguntas muito fortes:
Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? (vv 39). Porque vês tu o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que há no teu próprio olho?” (v 41).
Lucas insere aqui a parábola dos dois cegos que Mateus aplica aos fariseus (15,14) para a aplicar aos discípulos. As imagens vertidas nas perguntas refletem sobre a realidade do olhar. São perguntas até hiperbólicas, em que a relação irmão-trave, cisco-olho pretende denunciar e remover um grande obstáculo: a hipocrisia que mora no coração. A palavra “hipocrisia” é central na argumentação de Jesus (v 42). O Mestre põe a nu a fealdade da hipocrisia: é uma conduta que não exprime o pensar do coração. Na alegoria da árvore (cf vv 43-45), Jesus afirma que não se podem colher frutos bons do que é ruim, nem ruins frutos do que é bom: os frutos do ser humano revelam a verdade do seu coração (bom ou mau) enquanto centro da pessoa. Por outro lado, adverte para o facto de que “o discípulo não é superior ao mestre” (v 40).
Este trecho evangélico pertence a um conjunto importante do plano doutrinal. É claramente uma catequese moral, redigida especialmente para os convertidos do paganismo, vertida em frases de Jesus, reunidas em torno de certas palavras-chave, como medida (v 38), olho (v 39) sobre o cego, e cisco e a trave (vv41-42), e numa parábola com dupla aplicação: para guiar os outros, é preciso ser muito lúcido; e, antes de seguir um mestre qualquer, é preciso ser bastante clarividente. Com efeito, tornar-se guia é tarefa nada fácil e de alta responsabilidade, pois, se o orientador for cego, coitado de quem o segue: cairá também no mesmo erro. Quem pretenda ser luz e caminho para os outros deve tomar o cuidado em preparar-se muito bem, pois é coisa que não se improvisa, e nunca deve colocar-se como pessoa perfeita que aponta os erros do outro numa atitude condenatória, mas posicionar-se como companheiro ou companheira. Deve-se distinguir o guia iluminado por Deus do guia cego que não atina nem sabe para onde vai. Não faltam falsos guias (profetas). Por isso, não se pode seguir qualquer um sem ter olhado, antes, se ele é digno de fé, caso contrário, caem os dois no mesmo buraco, heresia, pecado.
Jesus nunca dava um ensinamento sem partir da vida real e das imagens que ela proporciona. É o conhecimento antidialéctico. Esta parábola refere-se a um facto da vida quotidiana das pessoas do campo: à beira das estradas havia muitos poços e vala profunda que tornavam perigosa uma viagem de noite. Tratando-se de cegos, era inevitável caírem neles. Lucas liga nitidamente o v 40 com o v 39: tal mestre, tal discípulo. E põe na boca do Mestre palavras de prudência antes de qualquer pretensão de guiar os outros: prudência na hora  da escolha dum mestre espiritual, para evitarmos a censura de Jesus aos fariseus e escribas: “São cegos a conduzir cegos” (Mt 15,14). E é preciso abrir os olhos. Nem sempre “em terra de cego, quem tem um olho é rei” e muitas vezes quem tem dois olhos acaba por ser odiado, perseguido e eliminado.
A lição é clara: ver apenas as pequenas imperfeições dos outros escondendo os nossos próprios defeitos, quiçá muito maiores, revela postura hipócrita e comportamento falso. Querer julgar os outros sem começar pela autocrítica é falsa e hipócrita postura, uma mentira. Primeiro, devemos purificar o nosso olhar, pois, cada um vê mal ou bem, conforme os olhos que tem. Isto não exclui a correção fraterna (vd Lc 17,3-4; Mt 18,6-7), missão importante da comunidade cristã. Porém, devemos sempre começar por nós mesmos: “Médico, cura-te a ti mesmo” (Lc 4,23b).
Na alegoria da árvore (vv 43-44), o fruto mostra o cultivo da árvore e a palavra as qualidades do homem” (Sir 27,6). Lucas aplica-a aos discípulos. A idoneidade e atitude morais verificam-se pelos frutos (cf Tg 3,12; Lc 13,6-9; 23,27-31; Is 5,1-7; Ez 19,10-14). A ideia vem da corrente sapiencial: o justo é comparado à árvore que dá frutos cheios de sabor de doçura, enquanto outras árvores se tornam estéreis (Sl 1; Sl 91, 13-14; Ct 2,1-3; Sir 24,12-27). O justo produz bons frutos porque é irrigado pelas águas divinas. Os frutos serão particularmente abundantes na era escatológica (Ez 47,1-12). Evidentemente, o cristão enraizado na árvore da Vida que é Jesus Cristo (Jo 15,1-8) produz os frutos do Espírito (Gl 5,5-26; 6,7-16), enquanto o Judaísmo se torna uma árvore estéril (Mt 3,8-10; 21,18-19). Para Lucas, os frutos são sobretudo as atitudes de caridade.
Compreende-se, assim, que a parábola do cisco e da trave esteja ligada à imagem dos frutos. Com efeito, é no perdão mútuo e na recusa de julgar os outros que a moral cristã produz os melhores frutos, revelando profundamente a vida divina que irriga a árvore.
A parábola do tesouro mostra que, no modo de pensar bíblico, o coração representa o que atribuímos hoje ao cérebro: ser o centro da vontade e da vida psíquica, intelectual, afetiva, moral e religiosa. Os rins eram considerados o centro da consciência, da dor e dos outros sentimentos que a nossa cultura atribui hoje ao coração. O tesouro do coração está escondido, mas é ele que define a nossa mentalidade, o nosso estilo de vida. Pode dar produto de bondade ou de maldade, que revelará a qualidade do nosso tesouro-coração no modo de agir, de se comportar e de pensar. Só Deus tem o poder de sondar os rins e o coração (cf Jr 11,20; Ap 2,23). É por causa disso que ninguém pode julgar ninguém. Deus é o único Juiz justo porque retribuirá a cada um de nós segundo os talentos recebidos. Atente-se no escrito do profeta Jeremias a este respeito:
Impenetrável é o coração; assim quem poderá compreender entre todos os homens? Eu, o Senhor, esquadrinho os corações e provo os sentimentos, para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto de suas obras.” (Jr 17,9-10).
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Na 2.ª Leitura (1Cor 15,54-58), em que se destaca a ideia de que “Jesus Cristo nos deu a vitória, Paulo conclui o longo discurso sobre o mistério da ressurreição (cf 1Cor 15,1-58). Já reafirmara a historicidade da ressurreição de Cristo e esclarecera o “como” da ressurreição dos cristãos em relação a Cristo. Agora, conclui, com um hino triunfal, a parte dogmática da Carta aos Coríntios e lança um grito jubiloso com a consciência do cristão que sabe ter sido vencido, para sempre, o mais infeliz dos inimigos. Com a ressurreição de Cristo, primogénito de entre os mortos, a morte foi derrotada, o seu aguilhão, isto é, o seu ferrão foi quebrado.
Como os animais temem o ferrão do condutor e as pessoas temem o ferrão do escorpião, a morte é temida em todos os tempos e lugares. Porém, após a morte e ressurreição de Cristo, a morte está potencialmente derrotada e só atemoriza porque ainda não estamos na Eternidade.
No hino de Paulo dedicado à vitória de Cristo sobre a morte, revela-se que haverá um tempo em que o nosso corpo corruptível e mortal será “revestido de incorruptibilidade/imortalidade”, ou seja, deixaremos o corpo corruptível e ressuscitaremos num corpo incorruptível, deixaremos um corpo de trevas e vamos ressuscitando de luz, realizando-se com isso a palavra da Escritura: “A morte foi absorvida na vitória” (v 54). Após a morte, Cristo dar-nos-á um corpo glorioso: o nosso espírito não ficará sem corpo. Neste mundo, o nosso espírito tem este corpo mortal, mas, após a morte, terá um corpo espiritual, ressuscitado. O que apodrece no túmulo é o nosso cadáver, não a nossa identidade. O Apóstolo retoma aqui livremente Isaías 25,8 e Oseias 13,14.
Neste quadro de inspiração judaica, Paulo propõe a doutrina tipicamente cristã: a ressurreição com que os judeus contavam não era senão uma espécie de recuperação do seu corpo físico no intuito de participarem num reino também material (1Rs 17,17-24). Mas a Páscoa do Senhor levou a superar tal conceito: a ressurreição não será mais a simples recuperação, mas a transformação e acesso do nosso corpo à condição glorioso de Cristo. Assim, a ressurreição, na ótica cristã, tem um sentido diferente da ressurreição crida entre os judeus. E é a doutrina do “estar com Cristo” que leva Paulo a tal noção. Ora, se a ressurreição não é só recuperação de corpo morto, mas acesso à corporalidade nova e espiritual, interessa tanto aos vivos como aos mortos.
A condenação que encontramos em Gn 3,19, em que a morte é fruto do pecado, é abolida pela redenção por Cristo. É muito forte a linguagem imagética de Paulo para revelar o aniquilamento da morte: “absorvida, engolida” (cf v 54). Revela a eliminação total da morte, que se transforma, através da obra de Cristo, em vitória – um triunfo poderoso que serve de estímulo à vida diária, por vezes assolada por várias forças degradantes. O próprio Jesus travou com a morte uma luta cósmica, pelo que Paulo, ao falar disso, chamou-lhe “o último inimigo” (cf 1Cor 15,15.26).
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Depois desta meditação bíblica, resta entoar, em resposta, o Salmo 92 (Sl 92/91,2-3.13-16), de ação de graças ao Altíssimo pelo seu amor, pelos seus atos de justiça. A ação de graças é constante, dia e noite, a vida inteira. E o salmista garante que “É bom celebrar o Senhor e agradecer-Lhe”. Trata-se dum hino didático que glosa a doutrina dos Sábios: destino feliz dos justos e ruína dos ímpios (cf Sl 37; 49 etc.).
O rosto de Deus é de capital importância. O Senhor é chamado de “Altíssimo” (v 2b), “Deus” (v 14b) e “Rocha” (16b). Assim, o salmista e o cristão propõem-se: anunciar pela manhã o Seu amor e fidelidade pela noite (v 3) – amor e fidelidade, que são as caraterísticas do Deus da Aliança.
A realização da justiça é a preocupação fundamental de Jesus (cf Mt 3,15; 5,20; 6,33). E a nova justiça que Ele trouxe faz surgir o Reinado de Deus. Os atos, obras, e projetos de Jesus vão todos nessa direção. Basta, por exemplo, ver o que dizia a lei em relação ao leproso (Lv 13,45-46) e comparar com o modo de ser e agir de Jesus quando se tratava de aplicar essa lei (Mt 8,1-4).
2019.03.03 – Louro de Carvalho

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Bento Domingues é Doutor Honoris Causa pela Universidade do Minho


Frei Bento Domingues OP (Basílio de Jesus Gonçalves Domingues, nome de nascimento), primeiro diretor da Licenciatura em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, foi agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Minho (UM), no dia 15 de fevereiro.
Como refere o site 7MARGENS, a base desta distinção é, segundo Moisés Lemos Martins, diretor do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da UM: “Frei Bento é, por certo, o maior teólogo da Igreja Católica em Portugal e é uma voz grande da cultura portuguesa”.
Figura marcante da nossa sociedade, Bento não desistiu da atitude interventiva, questionadora e inquietante. Quando em 2012, Julieta Mendes Dias e Paulo Mendes Pinto levaram a cabo um volume de homenagem a este teólogo, o título foi: “Frei Bento Domingues e o incómodo da coerência (Paulinas Editora). É, de facto, incómodo e é coerentemente incómodo.
Seria longo o historial das suas atitudes e atividades. Na década de década de 90, foi convidado pelo padre Isidro Alves, então reitor da UCP (Universidade Católica Portuguesa) para professor da Faculdade de Teologia e membro da equipa da revista teológica Communio. Mas, porque o reitor disse “não” ao pedido de garantia de que teria plena liberdade de ensino, não aceitou o convite, pois, se fosse, corria o risco de perder um amigo, o que não desejava de todo. E, porque a liberdade de pensamento e de consciência é a ferramenta da sua coerência, diz que teve sempre relação com universidades, mas as não confessionais.
Assim, quando a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em 1997, lhe pediu a que dirigisse o projeto de Ciência das Religiões, fê-lo na plena consciência de quem tinha à frente. Com uma vida cívica de mais de 40 anos e um caminho teológico na mesma escala, Frei Bento era uma figura ímpar da cultura portuguesa, pelo que “a marca a deixar no projeto seria inevitavelmente forte”. A liberdade de pensamento dele e do Pastor Dimas de Almeida, seu companheiro no arranque do projeto, perduram até hoje como marca no ADN daquela Universidade. Por esse projeto, a Lusófona atribuiu-lhe a Medalha de Ouro de Reconhecimento e Mérito, a 19 de janeiro de 2005. (cfhttps://www.ulusofona.pt/noticias/ciencia-religioes-doutoramento-honoris-causa).
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Nascido há 84 anos (1934) em Travassos, Terras de Bouro, Frei Bento Domingues entrou para a Ordem dos Pregadores, em 1953. Estudou Filosofia e Teologia em Fátima, Salamanca (Espanha), Roma (Itália) e Toulouse (França).
Como assistente da Juventude da Igreja de Cristo Rei, no Porto, coordenou a exposição “O Mundo Interroga o Concílio”, que o levou à expulsão pela PIDE, em 1963. Regressado a Portugal, dedicou-se ao ensino e à investigação no Studium Sedes Sapientiae, de Fátima, no Instituto de São Tomás de Aquino, no Centro de Reflexão Cristã, no Instituto de Psicologia Aplicada e no Instituto Superior de Estudos Teológicos, onde assumiu cargos de direção.
Durante a ditadura participou na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, no Comité Português Pró-Amnistia Geral no Brasil e no Conselho de Imprensa, bem como no lançamento da publicação clandestina “Direito à Informação” e na organização do primeiro colóquio ecuménico no país. E, a partir de 1980, lecionou em Angola, Peru, Chile e Colômbia. Foi ainda diretor do curso de Ciência das Religiões e do Centro de Teologia e Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Lisboa e membro do Conselho Geral da Universidade do Porto, da Assembleia do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e do Conselho de Ética do ISPA – Instituto Universitário. Foram-lhe atribuídos o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade, pela Presidência da República, o Prémio dos Direitos Humanos, pela Assembleia da República, o Prémio Ângelo d’Almeida Ribeiro, pela Comissão dos Direitos Humanos. (cf https://ominho.pt/uminho-atribui-doutoramento-honoris-causa-a-alvaro-laborinho-lucio-e-a-frei-bento-domingues/)
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Há mais de 25 anos e numa época em que a Igreja ainda andava às voltas com o debate sobre a evangelização nos meios de comunicação, trouxe a Teologia para os jornais. Voz incómoda no clero português, defende a ordenação de mulheres, a comunhão de divorciados e afirma que o ser humano é todo sexual. E, apesar de ser frade dominicano a viver num convento no Alto dos Moinhos, não se esconde atrás da clausura. Em outubro de 2014 conversou com o jornal i  por ocasião do sínodo extraordinário sobre “os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização. E o monge teólogo e cronista não receia afirmar que “o sexo não é só procriação” e critica os interesses instalados na política e no mundo empresarial, dizendo que “isto não é mundo que se apresente”. Dessa conversa se destacam os conteúdos mais vincados.
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Sobre o sínodo de 2014 dizia que tinha um efeito muito concreto: “dar a palavra”. Embora considere o modelo coxo, por a reflexão estar centrada nos bispos e terem sido convidadas poucas famílias, “o facto de existir recetividade para abrir a discussão já é positivo”, pois “há muitas coisas, sobre a ética sexual e reprodutiva, que estão entorpecidas e encalhadas desde Paulo VI” e “é preciso que a Igreja faça uma redescoberta no campo da sexualidade”.
Sobre a comunhão de divorciados, tem o posicionamento de concordância, justificando:
Então podem ir à missa, mas não podem comungar? É como se eu convidasse uma pessoa para jantar – porque o modelo de eucaristia que Jesus escolheu foi uma ceia, é essa a simbólica da eucaristia – e não a deixasse comer. Isso não faz qualquer sentido.”.
Quanto à quebra de compromisso para toda a vida, aduz a existência de situações irreversíveis e que a fé e a caminhada dessas pessoas necessitam de ser acompanhadas.
Em relação à passagem de Mateus em que se lê “o que Deus uniu não pode ser separado pelo homem”, refere, em jeito de pergunta, que a Eucaristia, desde o começo, é um pedido de perdão e que a própria consagração é pela remissão dos pecados; que o pai-nosso contém o pedido de perdão e que a palavra mais importante para Deus, na Bíblia, é “misericórdia”. E avança:
Jesus foi criticado, no seu tempo, por atender as pessoas que tinham estragado as suas vidas e por andar com aqueles que estavam classificados como pecadores. É com eles que Jesus come.”.
Relativamente aos homossexuais e ao acolhimento na Igreja, diz terem-se dado alguns passos na Igreja (e na sociedade) e, recordando que atendeu pessoas, em confissão, angustiadíssimas, julga que “também neste campo a Igreja deve dizer o que é autenticamente humano e acolher bem as pessoas”, mas que “não se faça da homossexualidade um cartão de visita”.
Depois, fala das uniões de facto, dizendo que os padres que trabalham na preparação do matrimónio sabem que a maioria dos casais vive em união de facto antes do casamento. E à questão se essas pessoas estão em pecado responde:
O casamento é uma realidade que vai sendo – o gerúndio é propositado – e há um momento em que o casal decide fazer a grande festa do grande compromisso. Estas questões são fenómenos das sociedades. E, às vezes, até há muitos divórcios porque não houve uma descoberta verdadeira antes do matrimónio e, a seguir ao casamento, as pessoas percebem que não funciona. Viver juntos não é garantia de que o relacionamento depois bata certo. Mas a Igreja e os cristãos – porque a Igreja são os cristãos, servidos e ajudados pela hierarquia – tem de debater estas novas realidades. Sem tabus.”.
Entende que muitas pessoas fazem coisas porque dizem que são mandamento de Deus. Ora, Tomás de Aquino diz que “se faço algo só porque foi mandado por Deus, talvez corra o risco de estar enganado, pois talvez tenha sido eu a inventar”. Com efeito, diz Frei Bento, “só sou livre e verdadeiramente pessoa humana se tiver consciência de que faço uma coisa porque compreendo que ela é boa e evito outra porque percebo que é má”. Aliás, Jesus resumiu os mandamentos em dois: amar a Deus e ao próximo.
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Sobre a hierarquia das verdades assenta que é preciso compreender o que é principal e o que é secundário, quando tem acontecido que o secundário tem ocupado o espaço todo.
E, no atinente à redescoberta da sexualidade que Igreja deve fazer, explicita:
Todos os homens e mulheres são sexuais e o episcopado também nasceu de famílias. O problema é descobrir a importância da sexualidade na vida humana. No sexo não se trata só de procriação.”.
Mais diz que, sendo essencial à vida humana o prazer, há que obstar à anarquia dos sentidos. De facto, quando se faz algo porque apetece, mesmo implique uma desgraça para outrem, isso não é prazer, é egoísmo. E isso pode existir na sexualidade sob a forma de dominação. E o prazer é a comunhão de toda a sensibilidade, que é humana, mesmo intelectual, e não afeto desligado, pois o ser humano é todo ele sexual. Essa redescoberta do valor da sexualidade tem de ser feita, pois não podemos olhar para a relação sexual como um pecado. Com efeito, a sexualidade é uma questão de antropologia, que leva a descobrir o ser humano nas suas múltiplas facetas.
Não dá lições aos jovens católicos que lhe confessam que são sexualmente ativos apesar de não serem casados, porque “o problema não é esse”. E explicita:
O problema é perceber se o jovem ou a jovem têm uma vida sexual desorganizada, se andam a magoar outras pessoas, a fazer promessas que depois não cumprem. Aí, sim, está o pecado. O pecado na sexualidade, em jovens ou em adultos, é muitas vezes as pessoas servirem-se da sedução para enganar o outro e ter apenas umas horas de prazer.
Sustenta que “se fez da virgindade, que é uma questão biológica, um problema ético”, quando “a moral não é um tratado de fisiologia ou biologia”. Assim, uma das coisas que a Igreja tem de fazer “é ajudar os casais, os jovens e os grupos a compreender” que a pessoa tem de ser responsável pela sua vida sexual, sem se querer aproveitar do outro ou da outra e sem magoar.
É certo que a questão da virgindade é importante para a Igreja. Porém, segundo Frei Bento, o Evangelho não fala claramente da conceção e parto virginais de Jesus. Para isto, aduz:
O que os evangelhos da infância pretenderam transmitir é a ideia de que, se este homem foi tão excecional na sua vida adulta, essa excecionalidade era de nascença. E construíram-se narrativas. Mesmo as genealogias são teológicas, são interpretações. Para no final se concluir que Jesus é fora de série.”.
Também se descobriu que Maria é fora de série. E o pior foi transformar os evangelhos da infância numa questão biológica, “quando o que queriam dizer”, em linguagem simbólica, “é que Jesus não era mais um na série humana”, que “era tão de Deus que foi logo um fruto do Espírito Santo”. O teólogo não se preocupa se Maria e José tiveram sexo ou não. E confessa:
Maria aparece como uma mulher totalmente dedicada a Jesus e que não o entende. Teve de fazer muitas transformações na sua vida, de entrar na loucura do seu filho e aparece, também ela, no meio dos discípulos à espera do Pentecostes. Maria tem de se tornar cristã, discípula do seu filho. […] As mulheres nos evangelhos nunca pedem nada e acompanharam os discípulos, [sobretudo] quando começaram a andar junto da cruz, e foram ao sepulcro fazer as celebrações que se faziam aos mortos e é a elas que Jesus aparece.”.
Critica a negação da ordenação presbiteral e episcopal às mulheres, quando “a luta das mulheres conseguiu muitas transformações na sociedade, mas na Igreja isso não aconteceu porque se disse que era contrário ao mandamento de Deus”, o que não é verdade. E o teólogo vinca:
A mudança de mentalidades é difícil. A vida humana é uma vida longa. A nossa vida, individualmente, é que é muito curta. O que eu acho é que cada geração deve abrir novas possibilidades às seguintes e não fechá-las. Há pessoas que querem sempre fechar o caminho: isto é irreformável, isto é dogmático, isto não se pode mexer. Ao fim e ao cabo, isto é cortar a liberdade a Deus e dizer-lhe: ou passas por aqui ou não passas.”.
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Nunca teve qualquer problema com o episcopado português, a não ser com Cerejeira, que não o deixava pregar. Mas, depois do 25 de Abril, não teve mais problemas. Nunca lhe passou pela cabeça ocupar um cargo importante na hierarquia, não gosta da ideia de ser ou parecer superior e detesta o carreirismo. Diz nada ter “contra os bispos ou os cardeais” e que só quer “que os seus cargos sejam para servir”. Não tem problema nenhum em não quererem que pregue neste ou naquele lugar por causa das suas ideias peculiares, como não sabe lidar com homenagens, pois acha que “a pessoa que gosta de ser lisonjeada está estragada”.
Não gosta de escrever, gosta é de ler e de debater. E diz que “as crónicas foram uma grande aventura”, que muitas pessoas interpretavam “como uma espécie de homilia de domingo”.
Começou-as, porque não havia muita coisa. O padre Rego tinha algo no DN e o padre Rui Osório, que era jornalista, escrevia no JN. Havia muitas iniciativas em França, na Alemanha e noutros países que revelavam “uma certa descoberta dos meios de comunicação enquanto veículos de fé”. Porém, ligada à pregação vem a ideia do sermão sempre a insistir no que é proibido e no que se deve fazer e no que não se deve fazer (arte “moraleja” – diz). E “a pregação não é isso, nem é propaganda”. Para o frade dominicano, pregar
É dar voz aos anseios das pessoas e àquilo que, na tradição cristã, interpretamos como o projeto de Jesus, dando sentido à vida através dele; é assumir, em cada época, segundo os povos e as culturas, esse projeto que, “no fundo, é fazer do mundo uma fraternidade”.
Sabe que, se Jesus vivesse no nosso tempo, “pregaria em todo o lado”, mas não sabe se escreveria nos jornais, pois “não temos nada escrito por Jesus”. Todavia, “temos escritos de representantes de comunidades”. E observa Frei Bento:
É uma escrita plural. São Paulo tinha mais essa vocação de jornalista, de comunicação, estava sempre em ligação com as comunidades. Escrevendo, escrevendo... Jesus foi o projeto de dizer: é preciso mudar. Este mundo não é mundo que se apresente. Começou a pregar, anunciando que até então reinava a opressão das pessoas e que era preciso o reinado da libertação das pessoas. É este o projeto.”.
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Assegura que temos hoje imensos profetas e que a profecia de que precisamos é a da dignidade humana. E explica, na ótica da crise de valores e de juízo:
Vivemos num país em que faltam crianças, em que os mais velhos, que sustentavam as famílias, viram os seus rendimentos cortados... O primado que existe no mundo contemporâneo, e não é só em Portugal, é o primado da finança e não o do bem-estar das pessoas. […] Todos os dias ouvimos falar de como as coisas funcionam ao nível da banca e no mundo dos negócios, os milhões que se ganham e com que se mexe. Não se ouve falar dos milhões de pessoas que estão na miséria. Dignidade humana é perceber que o ser humano tem o direito e o dever de poder viver, sob o ponto de vista do ensino, da saúde, da solidariedade, da constituição da família. E quem tem os meios tem também o dever de ajudar os outros e de construir um país em que o bem de todos venha antes do bem só de alguns magnatas.”.
À política de hoje, que só olha ao poder, contrapõe que o verdadeiro poder é as pessoas terem saúde, poderem estudar, investigar, terem recursos para levar uma vida digna”, que “a democracia é para dar poder a todos” e que “é necessário discernimento político”, ou seja, “saber discernir prioridades e perceber onde podemos encontrar meios”.
É certo que há decisões que não competem só aos agentes políticos nacionais. Por isso, “é preciso trabalhar no diálogo político” e dar voz aos profetas. E sustenta:
Profeta é, no sentido bíblico, o Homem clarividente. Estamos perante uma situação em que, em vez de as pessoas se calarem e fecharem os olhos, é preciso parar e dizer: quais são as causas da atual situação? E como poderemos inverter este caminho? Diz-se que não existem alternativas. Como é que se sabe que não há? Já se experimentou? O profeta é alguém que interpreta os sinais dos tempos. Há um problema de falta de clarividência, com os interesses de grupos, de empresas a serem mais importantes no lucro que alguns vão ter. Mas a prazo não vão ter lucros, vai ser um desastre.”.
Acusa o facto de as Igrejas se retraírem muito para que não se diga que se estão a meter no que é da política”, o que redunda em carência de profecia, “quando a Igreja, hoje, para ser profética, não pode desvalorizar a política, a economia, a finança”. E o teólogo explicita:
Tem de servir de mediação, dar direção, ajudar a perceber que há caminhos que levam ao desastre e outros que ajudam a tornar a vida mais feliz. Mas, ainda assim, vai havendo essas vozes proféticas. Há um profetismo enorme nos bairros... as pessoas que se ocupam daqueles que não têm nada para viver, os que se organizam civilmente, os voluntários que servem refeições a quem não tem o que comer. Há vozes, pessoas que compreendem que se pode fazer de outra maneira e que se substituem ao Estado, que tinha essa obrigação. Isto é um profetismo de bases, por assim dizer. Mas há vozes. O Papa Francisco apareceu como uma voz mundial.”.
Sobre os casos de corrupção que vão sendo descobertos, situa-os no problema dos valores, que não é abstrato. E, citando Kant, assegura que o ser humano não tem preço: só tem valor. Não pode ser um meio para ser algo melhor do que ele. As coisas têm é de estar ao seu serviço. E verifica:
As pessoas corrompem-se porque têm apetites desgarrados. Pensam que, fazendo este ou aquele golpe, vão ser ricos e ser rico, hoje, significa tudo. É esta ideia louca de que sendo rico tenho todas as hipóteses.”.
Considerando que dificilmente se pensa no que se deve fazer para desenvolver as próprias capacidades intelectuais, afetivas e relacionais, comenta:
Se desde a escola, desde a família, se incutisse nas crianças a honestidade, o sentido do dever, da solidariedade, a importância do desenvolvimento das capacidades individuais para criar um ambiente bom para todos... Mas o pensamento, hoje, é outro: como é que eu posso ser melhor do que o outro? Como posso ir à frente de toda a gente? Estamos a criar uma cultura tecnológica em que as crianças são desde logo habituadas a lidar com ipads, mas que não sabem olhar para a natureza, para o mundo e para os outros. E esta é a maior corrupção: a corrupção das relações humanas. Os pais com os filhos, o marido com a mulher, violência em casa. É-se corrupto porque se tem a inteligência e os desejos e gostos distorcidos.”.
Porém, conclui que não é mau ter desejos, desde que se deseje o que vale a pena: antes de mais, o nosso desenvolvimento com o desenvolvimento dos outros. O mundo como está não é mundo que se apresente e, como dizia Paulo, não nos devemos conformar com o mundo como ele está.
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Enfim, Frei Bento Domingues sublinhou em Tomás de Aquino, que ainda o lê só no latim: Se faço uma coisa porque está mandado, mesmo que seja por Deus, não sou livre, só sou livre quando faço, ou deixo de fazer, porque é mal ou é bem”. Quis ser um homem livre. Tinha pó a Salazar. Deu-se bem com Sá Carneiro e Salgado Zenha. Acolheu membros das Brigadas Revolucionárias na clandestinidade. Vive num convento em Benfica. Nasceu em 1934 numa terra onde se “plantam carvalhadas (palavrões), se trocam os “v” por “b”,
Este é Frei Bento mesmo no tempo em que ainda não era Frei Bento, mas Basílio, o que nasceu nas Terras de Bouro, creu em bodes e bruxas no cruzamento de caminhos, leu às ovelhas orações em latim. É o que fez discursos ditos subversivos, que foi apontado como persona non grata nos anos 60, que andou por África e pela América Latina. É este o Frei Bento com quem muitos se enfureceram porque defendeu a ordenação de mulheres e que esteve de costas para um baile porque um padre não podia assistir a um baile. Um heterodoxo. Colunista do Público. Conversador fascinante. Parece mais novo do que é. Fala com sofreguidão. Espírito livre. 
Confessou as mazelas físicas próprias da vida sedentária. Tudo coisas normais. Tudo coisas que fazem parte da vida, tal como faz parte da vida deste frade-padre São Tomás de Aquino.
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Apesar de não gostar de escrever, como diz, publicou, além das crónicas:
A Religião dos Portugueses, Porto: Figueirinhas, 1988; A Humanidade de Deus, Porto: Figueirinhas, 1995; A Igreja e a Liberdade, Porto: Figueirinhas, 1997; A Religião e a Política face aos Desafios do Fim de Século (com Jean-Marc Ferry), Actas dos Encontros de Abrantes, 20-22 de Novembro de 1997, Abrantes: Palha de Abrantes, 1998; As Religiões e a Cultura da Paz, com prefácio de Jorge Sampaio, Porto: Figueirinhas, 2002; As Religiões e a Cultura da Paz, 2.º Volume, com prefácio de Lídia Jorge, Porto: Figueirinhas, 2004; Um Mundo que Falta Fazer, Lisboa: Temas e Debates, 2014; A Insurreição de Jesus, Lisboa: Temas e Debates, 2014; e O Bom Humor de Deus e Outras Histórias, Lisboa: Temas e Debates, 2015.
 2019.02.24 – Louro de Carvalho