sábado, 24 de agosto de 2019

Um exemplo para os nossos dias: embaixador inglês não se prostrou


A jornalista Maria João Caetano publicou no DN on line, a 23 de agosto, um texto sob o título “O embaixador que não se ajoelhou diante do imperador da China” que dá que pensar sobre a reciprocidade que deve pautar a ação diplomática sem arrogância e sem subserviência.
Ao chegar à China como enviado do rei Jorge III, tinha George Macartney 55 anos de idade e não lhe faltava experiência diplomática e governativa. Corporizou, por isso, a primeira missão diplomática e comercial da Inglaterra à China, que falhou pelo simples facto de o embaixador se recusar a fazer a prostração – o kowtow – perante o Imperador, porque também não a fazia perante o rei de Inglaterra, o soberano a quem devia obediência e tributo. Obviamente o diplomata experiente sugeriu soluções alternativas para Estados que se relacionassem em pé de igualdade, mas a China não aceitou ser tratada em pé de igualdade: queria manter mesmo em rituais exteriores mostrar a sua superioridade. 
Isto sucedeu no final do século XVIII: o embaixador enviado à China recusou curvar-se ante o imperador. Com efeito, 9 vénias, ajoelhado e tocando com a testa no chão foi ato que reputou de indigno. Não faria perante outros soberanos o que não fazia perante o seu.
Da sua experiência diplomática e governativa consta a chefia da representação britânica na Rússia para negociar uma aliança com a Czarina Catarina II, o desempenho do cargo de governador de Granada e de Madras e a recusa do convite para governador-geral da Índia. Embarcou, a 26 de setembro de 1792, no Lion sob o comando de Erasmus Gower com cerca de cem homens e chegou a Pequim a 21 de agosto de 1793. Era a primeira missão diplomática britânica à China. Tinha como objetivos a apresentação dos produtos que os ingleses poderiam vender à China para equilibrar a balança comercial, o pedido de permissão para navegar em novas rotas marítimas, a negociação em mais portos e mercados chineses e o pedido de autorização para uma embaixada permanente em Pequim. Confiado na sua experiência negocial estava deveras otimista.
Enquanto os enviados dos países vizinhos – Tailândia, Vietname e Coreia – iam a Pequim sobretudo para fazer comércio, Macartney, que não era negociante, mas diplomata, fora ali para negociar políticas mais vantajosas para o futuro de Inglaterra. A sua atitude diplomática enquadrava-se no contexto da usual chegada dos ingleses a qualquer lugar de cabeça erguida e nariz empinado, ou seja, com um típico sentimento de superioridade perante cultura para eles praticamente desconhecida, como era o caso da chinesa, mas tendo a ideia de que era pouco racional e pouco científica – o que revela a sua ignorância relativamente a outros mundos.
Os demais embaixadores, querendo cair nas boas graças do imperador Qianlong, apresentavam-se fazendo o kowtow – um ritual de 9 vénias ajoelhados (três séries de três), tocando com a testa no chão para mostrarem a sua humildade e reconhecerem a superioridade do Imperador da China. Mas tal comportamento não era para Lord Macartney, que, achando inadmissível tal postura comportamental, recusou-se a fazer o ritual de kowtow perante o Imperador chinês Qianlong.
Depois de lhe explicarem como deveria agir quando fosse recebido, Macartney afirmou recusar prostrar-se perante o imperador, apesar da grande admiração que tinha pela prosperidade e pela civilização do império Qing. Tudo isto porque entendia dever colocar Qianlong em pé de igualdade com o rei de Inglaterra e, portanto, com direito apenas à mesma demonstração de respeito devida ao seu próprio soberano. E, como nunca faria nada tão abjeto como o kowtow perante o seu rei, não poderia fazê-lo perante o imperador da China. Nestes termos, solicitou antecipadamente a dispensa de tal formalidade. Os funcionários imperiais chineses garantiram-lhe que se tratava de “uma mera cerimónia sem significado”.
Ora, se era cerimónia sem significado, o que desdiz do alto significado atribuído às cerimónias protocolares, porque é que o funcionário chinês se recusou fazer o mesmo diante do retrato do rei Jorge III que Macartney tinha consigo, o que equivalia a fazer o kowtow diante do próprio rei de Inglaterra e garantia a reciprocidade do ritual e a igualdade dos dois reinos soberanos?
Em alternativa, o representante britânico propôs que houvesse uma cerimónia diferente para Estados considerados “iguais” à China, como a Inglaterra, que marcaria a diferença em relação a Estados menos poderosos, como a Coreia. Nesse sentido, sugeriu inclinar-se sobre um joelho e baixar a cabeça perante Qianlong, tal como fazia com o seu soberano. A proposta foi aceite e Macartney ficou satisfeito, pois supostamente iria poder negociar de igual para igual e todos os outros países da região iriam saber que deveriam respeitar a Inglaterra.
A apresentação ao Imperador foi agendada para 14 de setembro, data em que havia outros enviados diplomáticos a serem recebidos pelo imperador. Todos fizeram o kowtow, exceto Lord  Macartney. O diplomata inglês entregou ao imperador uma carta do seu rei, com algumas propostas comerciais e de estratégia para o futuro, parecendo tudo estar a correr bem.
Porém, Macartney não fazia ideia da profunda ofensa com que atingira o imperador através da sua exigência. Já a 10 de setembro, Qianlong ficara tão furioso com o ritual proposto pelo inglês e com a tentativa de prolongar a estada que emitiu um decreto pelo qual avisava os funcionários imperiais de que não daria qualquer privilégio ao representante britânico. Poderiam oferecer-lhe os presentes previstos e realizar as reuniões já marcadas, mas nada mais. O imperador tinha a intenção de lhe permitir ficar uns tempos na cidade Jehol mas, dada a presunção exibida pelo embaixador, decidiu não o fazer. Após o banquete protocolar, teria um dia ou dois para emalar os seus pertences e partir. Qianlong escreveu:
Quando os estrangeiros vêm ter comigo, são sinceros e submissos e eu trato-os sempre com gentileza, mas, se vêm com arrogância, não recebem nada”.
O britânico não se apercebeu mas, já antes do encontro, a sua missão estava condenada ao fracasso. A 3 de outubro recebeu a resposta do Imperador à carta do rei Jorge III, que dava como indeferido qualquer pedido britânico. O pedido para que um embaixador britânico permanecesse na capital foi considerado não compatível com os costumes do Império, pelo que não seria aceite; e as relações comerciais poderiam continuar a ser realizadas como até ao momento, pois “objetos estranhos e caros” não interessavam ao Imperador, que já possuía tudo. Ou seja, Qianlong afirmava que a China não precisava de nenhum dos produtos que os ingleses tinham para lhe vender, embora a seda, o chá e a porcelana chineses fossem produtos essenciais para os britânicos e para outros povos. Por isso, a China permitia, há muito tempo, que os estrangeiros viessem comprar esses bens para “satisfazer as suas necessidades”, sendo a Inglaterra apenas um dos países que faziam comércio com a China, pelo que não poderia ter qualquer estatuto especial. O enviado britânico foi, pois, convidado a partir quanto antes. E as relações entre os dois países esfriaram a ponto de virem a dar origem à Guerra do Ópio, em 1839-42 e 1856-60.
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A Guerra do Ópio, também conhecida como Guerra Anglo-Chinesa, foi o conflito armado ocorrido em território chinês, em meados do século XIX, entre a Grã-Bretanha e a China. Ocorreram dois conflitos: a Primeira Guerra do Ópio (entre os anos de 1839 e 1842) e a Segunda Guerra do Ópio (entre 1856 e 1860).
Surgiu no contexto do imperialismo e neocolonialismo da segunda metade do século XIX. Nações europeias, principalmente a Inglaterra, conquistaram e impuseram os seus interesses económicos, políticos e culturais aos povos e países da Ásia, África e Oceânia. 
No início do século XIX, as nações europeias só tinham autorização do Governo chinês para fazerem comércio através do porto de Cantão. O Governo chinês também proibia os europeus de comercializarem os seus produtos diretamente com os consumidores chineses. Havia intermediários (funcionários públicos) que estabeleciam quotas de produtos e preços a cobrar.
 A Grã-Bretanha, em plena Segunda Revolução Industrial, buscava avidamente mercados consumidores para os seus produtos industrializados, mas as medidas protecionistas chinesas dificultavam o acesso dos britânicos ao amplo mercado consumidor chinês.
Como não conseguiam ampliar o comércio de mercadorias com os chineses, os ingleses passaram a vender ópio, de forma ilegal, para a população da China como forma de ampliar os lucros. O ópio, cultivado na Índia (então colónia britânica) era viciante e fazia muito mal a saúde. Em pouco tempo, os ingleses estavam a vender toneladas de ópio na China, tornando o vício uma epidemia. O Governo chinês chegou a enviar uma carta à rainha Vitória I da Inglaterra a protestar contra este verdadeiro tráfico de drogas mantido pelos ingleses.
Mesmo com os protestos do Governo chinês, os ingleses continuaram a vender ópio na China. Em 1839, como forma de protesto, o Governo chinês ordenou a destruição de um carregamento de ópio inglês. O governo britânico considerou o ataque uma grande afronta aos seus interesses comerciais e ordenou a invasão armada à China, dando início a Primeira Guerra do Ópio. Os britânicos invadiram e dominaram. A guerra terminou com a derrota chinesa em 1842. 
Após a guerra, a Inglaterra impôs o Tratado de Nanquim à China, com as seguintes obrigações: a China teve de abrir 5 portos ao livre comércio; os ingleses passaram a ter privilégios no comércio com a China; a China teve de pagar indemnização de guerra à Inglaterra; e a China teve de ceder a posse da ilha de Hong Kong aos britânicos (a ilha foi possessão britânica até 1997).
A Segunda Guerra do Ópio foi a continuação da primeira, mas a Inglaterra contou com a França e a Irlanda como aliadas contra os chineses. O conflito armado começou logo após funcionários chineses revistarem um navio britânico. Como os chineses já não estavam a respeitar algumas cláusulas do Tratado de Nanquim, os britânicos resolveram atacar novamente a China que saiu derrotada mais uma vez. Os ingleses e franceses impuseram o Tratado de Tianjin à derrotada China segundo o qual dez portos chineses deveriam permanecer abertos ao comércio internacional; haveria liberdade para os estrangeiros viajarem e fazerem comércio na China; era garantida a liberdade religiosa aos cristãos em território chinês; e a China deveria pagar pesadas indemnizações de guerra à Inglaterra e França.
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Em suma, após a guerra, a China seria forçada a pagar uma indemnização à Inglaterra, a abrir vários portos ao comércio de ópio britânico e ainda a entregar a ilha de Hong Kong, que ficaria sob domínio britânico durante 155 anos.
Por tudo isto, os historiadores julgam que a missão de Macartney foi uma oportunidade perdida para ambos os países: a China poderia ter adquirido tecnologias e iniciado a sua revolução industrial; e a Inglaterra poderia ter de facto equilibrado a sua balança comercial. Mas tal não aconteceu. Por causa da recusa de uma prostração e a consideração dum simples vénia como ofensa.
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Ora, ao contrário de Macartney, outros ocidentais não tiveram problemas em prostrar-se perante o Imperador da China, a começar desde logo pelos missionários jesuítas (os primeiros religiosos a estabelecer-se em Macau e a chegar à China), alguns oriundos de Portugal.
Homens práticos que são e com visão de futuro, não tiveram problemas em integrar-se nos costumes locais, ou seja, neste caso, curvar-se perante o Imperador. Macau era um grande entreposto comercial português. E, a partir do século XVI, a Companhia de Jesus instala, na China, igrejas e colégios com o objetivo de espalhar a fé cristã e de divulgar a cultura ocidental.
Ido de Lisboa, o missionário italiano Matteo Ricci chegou a Macau em 1582 e começou logo a estudar a língua e os costumes locais, estabelecendo importantes contactos com a nobreza e os intelectuais. A sua foi sempre uma abordagem de aproximação à cultura, que passava até pelo uso de roupas locais. Em janeiro de 1601, Ricci estabeleceu-se em Pequim e foi o primeiro europeu a entrar na Cidade Proibida, a convite do imperador Wanli.
Ao contrário do embaixador britânico, nem Ricci nem nenhum dos outros jesuítas teve alguma vez problemas em fazer o kowtow perante o imperador. Mesmo depois do édito de 1724, que expulsou os cristãos, os jesuítas foram autorizados a residir em Pequim e continuaram a ocupar lugares de relevo na hierarquia científica da corte.
O Padre João Rodrigues, de Sernancelhe, que ajustou o percurso jesuítico e sacerdotal às necessidades de relacionando dos jesuítas com o Japão e a China, foi exímio estudioso da língua e dos costumes japoneses e chegou a ser o intérprete (Tçuzu) da corte nipónica no tempo do Imperador Tokugawa Ieyasu. E, depois de sair do Japão (com a proibição do cristianismo) e antes de se estabelecer em Macau a dedicar-se à investigação das origens das comunidades cristãs  que se estabeleceram no local desde o século XIII, ainda percorreu grande fração da Grande Muralha da China.
Aquando da proibição da difusão do catolicismo na China, o rei de Portugal, preocupado, tentou melhorar as relações luso-chinesas com o objetivo de ali manter a estabilidade da prática religiosa e assegurar os benefícios obtidos em Macau. Foi por isso que Dom João V enviou Alexandre Metel­lo de Sousa e Menezes à China. Chegou a Macau em junho de 1726, acompanhado por António de Magalhães e 9 padres e levando na fragata Nossa Senhora d’ Oliveira livros sobre Portugal e 30 arcas de presentes. No dia 18 de maio de 1727, a comitiva entrou oficialmente em Pequim, guardando-a grande receção preparada pelo Imperador Yongzheng, formada por uma guarda de honra de duzentos soldados. Metello, o primeiro embaixador português a ser recebido pelo imperador, estava preocupado em manter a honra do seu rei e não se apresentar em posição de humilhação, tendo feito algumas exigências (por exemplo, entregou pessoalmente a carta do rei), mas aceitou ajoelhar-se e tocar com a testa no chão. O Imperador concedeu-lhe 4 audiências, sinal de grande reconhecimento. Mesmo que a missão não tenha obtido os resultados pretendidos, nem na parte religiosa nem na parte comercial, os embaixadores que se lhe seguiram optaram sempre por manter a cordialidade.
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Os portugueses são mais aculturáveis e permeáveis que os ingleses e os jesuítas são mais práticos. Não obstante, Macartney é exemplo do modo como a relação deve ser entre países. Antes quebrar que torcer.
2019.08.24 – Louro de Carvalho  

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