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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

“Perseguidos e Esquecidos?”


Perseguidos e Esquecidos?” é o título do novo relatório da AIS (Fundação Ajuda à Igreja que Sofre) sobre os cristãos oprimidos por causa da sua fé, que mostra claramente que o cristianismo é a religião mais perseguida em todo o mundo, sendo que em alguns locais podemos falar mesmo de um “genocídio”. 
A este respeito, Catarina Martins Bettencourt, responsável pelo secretariado nacional da AIS em Portugal lamenta que o Ocidente feche os olhos à violação dos direitos humanos na China, pondo à frente os negócios e as relações comerciais e diz que o acordo da Santa Sé com Pequim não garantiu mais liberdade religiosa aos católicos chineses, antes pelo contrário.
Em entrevista à Renascença e à Ecclesia conduzida por Ângela Roque (Renascença), Octávio Carmo (Ecclesia) –, de cujos conteúdos mais relevantes se dá conta, explica tudo.
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Tendo começado por ser questionada sobre o alheamento dos média e dos responsáveis políticos em relação à perseguição religiosa e à falta de liberdade de culto, refere haver uma cada vez maior “maior perceção e preocupação das entidades oficiais, das instâncias internacionais para esta questão da liberdade religiosa, e em particular para o que está acontecer com os cristãos”. Todavia, sente-se “que é muito pouco e que muitas vezes a comunidade cristã acaba por ficar relegada para um segundo plano, não tem a expressão nem a dimensão”. E aponta:
Por tudo o que se passa no mundo, pela forma como os nossos governantes também lidam com estas questões, vemos que não conseguem ainda falar abertamente da perseguição aos cristãos. Muitas vezes há pruridos em defender a comunidade cristã por poder parecer que estamos a favorecer uma comunidade em detrimento de outra.”.
Quanto a essa perceção entre nós, observa:
Em Portugal também, muitas vezes é difícil falar desta questão dos cristãos. Enquanto instituição sentimos que precisamos de continuar a falar mais, de trazer cada vez mais estes assuntos para os meios de comunicação social, para que as pessoas estejam alertadas de que esta não é uma coisa do passado, é uma coisa de hoje, que há perseguição, que há muitos países onde não há liberdade religiosa e não se pode exprimir livremente o nosso credo. E ao mesmo tempo dizer com clareza – e os números e todos os factos que temos apontam para isso – que a comunidade cristã é mais perseguida hoje em dia.”.
No atinente ao facto de ter sido Paulo Portas a apresentar este relatório, que relevou a importância do trabalho da AIS para garantir que os cristãos não são esquecidos, disse esperar que a sua presença tenha impacto, pois trata-se de “um homem que tem estado ativo no meio político, que continua ativo nos meios de comunicação social”. E acentua:
É preciso trazer esta questão para os media, para o público em geral, dizer a todos claramente que o cristianismo  é o mais perseguido e que precisamos de fazer alguma coisa. Porque estamos a assistir ao fim da presença da comunidade cristã em muitos países do mundo, e isto deveria preocupar a todos porque, a partir do momento em que não temos liberdade de expressão da nossa fé, as outras liberdades ou já se perderam, ou estão em risco de se perder.”.
Depois, assegura que “é preciso olhar para estas questões da fé e da religião como um assunto que é um assunto público que deve ser debatido”.
Interpelada sobre o impacto dos relatórios periódicos da AIS, encarece a importância destes relatórios (que são o testemunho do dia-a-dia de sofrimento de muitos cristãos no mundo), a ponto de ter havido declarações das Nações Unidas, de alguns governos do mundo. Menciona a declaração da própria ONU do Dia Internacional das Vítimas da Violência em Relação à sua Religião ou Crença (22 agosto). E acrescenta:
Tudo isto resulta do lobby que tem sido feito pela AIS e por outras instituições no sentido de levar estes relatórios e estes testemunhos, trazer pessoas dos vários países que estão a sofrer e levá-los a estas instâncias. E isto tem sido  muito importante para alertar e para despertar as consciências dos governantes de que é preciso olhar para isto, que a realidade não é o que se passa no nosso gabinete ou no nosso continente, que há muito mais para além disso. (…) E só com esses relatórios, com factos, é que conseguimos alertar as pessoas.”.
Refere que este relatório vai ser apresentado às autoridades portuguesas e espera o convite do Parlamento para a AIS discutir o tema com os deputados. E explica:
Temos feito esse esforço de levar estes documentos ao Parlamento, às instâncias de Governo, ao Presidente da República, para que eles tenham consciência do que se está a passar e também possam, na medida do possível, exercer a sua pressão junto das entidades internacionais, de forma que este tema seja debatido e sejam tomadas medidas. Porque é disso que se fala neste relatório, que temos de tomar medidas concretas para poder ajudar estas comunidades que sofrem e que estão a ser perseguidas nos seus países.”.
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Falando de conteúdos do relatório em concreto, diz que o mais surpreendente “foi comprovar que poderíamos estar a assistir ao fim da presença da comunidade cristã no Iraque e talvez na Síria”. Com efeito, os números são dramáticos: aponta-se “para apenas 150 mil, com possibilidade de serem menos, fala-se de 120 mil, ou seja, estamos praticamente sem presença da comunidade cristã no Iraque”, quando em 2003 eram 1 milhão e meio.
Ora, a presença cristã “é uma presença histórica, vem do início do cristianismo e a comunidade caldeia, por exemplo, ainda hoje reza o Pai Nosso em aramaico”, afirmam os entrevistadores. E Catarina Martins, começando por anuir, diz:
“Em aramaico, sim. No fundo é o fim das nossas raízes enquanto comunidade cristã no ocidente, e infelizmente o que nós escrevemos há quatro anos parece agora concretizar-se pelos factos. E é bom frisar que este relatório – que quem quiser pode consultar no nosso site – acaba em julho de 2019, portanto, de julho até hoje, outubro de 2019, a situação ainda se deteriorou mais, tanto no Iraque como na Síria.”.
Confessa que não se sabe do impacto adicional que a intervenção militar na Síria possa ter sobre esta comunidade cristã, que é cada vez mais pequena. E, anotando que o relatório aponta para um decréscimo de 90% da comunidade cristã no Iraque (“nos últimos anos, no período de uma geração caiu 90%”), verifica:
Estamos a assistir a dias históricos, tristes mas históricos, no sentido de que estamos a assistir ao desaparecimento desta comunidade. É um facto marcante neste relatório.”.
Explicando a não perceção do predito impacto (houve morte de civis, fuga de cristãos), aduz:
Isso não está incluído no último relatório, porque aconteceu agora, mas os relatos que temos é que nalgumas zonas onde a comunidade cristã estava presente, mais uma vez, foram obrigados a fugir e a ir para outras zonas. Continuam a ser uma comunidade pequena e continuam a ser uma comunidade desprotegida. Os últimos relatos que recebemos mostram que a Igreja está preocupada com a situação, com qual será o impacto destes ataques numa comunidade tão pequena e que, provavelmente, vai tentar fugir e escapar de novo. É mais um fator que fará aumentar o êxodo e deixar de vez o Médio Oriente.”.
É certo que há territórios em que já se iniciara um processo de reconstrução e de regresso dos cristãos. Questionada se isso pode estar em causa, expõe:
Nas zonas em que nós estamos a ajudar, neste momento, à reconstrução e ao regresso, ainda não está em causa. Não sabemos, efetivamente, o que vai acontecer, pelo que temos de esperar. O que sabemos, porque recebemos essa informação da Igreja local, é que já há pequenas comunidades – em zonas historicamente cristãs, mas para as quais os cristãos ainda não tinham voltado –, pequenos grupos que ainda resistiam e que tiveram de sair desta vez.”.
E não deixa de assinalar como outro facto marcante “a mudança de continente, ou de zona do mundo, onde há maior perseguição”. Na verdade, se nos últimos anos “o Médio Oriente era a grande preocupação da Fundação AIS, era onde havia maior perseguição aos cristãos”, neste relatório, no período analisado, “vemos que há um desvio para a Ásia”, com os ataques do Sri Lanka e das Filipinas e com a situação a deteriorar-se na China.
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Porém, sendo a Ásia o continente menos seguro neste momento para os cristãos, não deixa de ser preocupante o que se mantém relativamente à África.
Refere a entrevistada, como conclusão muito importante, “que neste período houve uma grande preocupação da comunidade internacional para esta questão da perseguição”, mas que poderá, infelizmente, “ter sido tarde para estas comunidades, se olharmos para o que está a acontecer no Iraque e na Síria”. E faz votos para que não seja demasiado tarde para as outras comunidades cristãs “que estão a passar neste momento o mesmo que o Iraque e a Síria já passaram”.
De facto, a derrota aparente do autoproclamado Estado Islâmico no Iraque e na Síria não foi a tempo de evitar males maiores em termos de destruição do cristianismo. Diz Catarina Martins:
Há muitas famílias que regressaram às suas casas, às suas terras de origem, mas temos problemas gravíssimos de segurança, a comunidade cristã continua a não se sentir segura. Temos problemas gravíssimos de emprego para os cristãos, e continuamos a sentir pressão, porque está neste momento a ser discutida uma nova Constituição no Iraque em que as minorias ficam ainda mais desprotegidas do que foram até agora.”.
Neste contexto, a Igreja preocupa-se seriamente em perceber qual será o futuro destes poucos que restam, até que ponto é que a pressão exercida durante anos pelo autoproclamado Estado Islâmico marcou o ponto final da presença desta comunidade, apesar de todos os esforços.
Sendo estas comunidades alvo de quem quer atacar o Ocidente (isto é, a pertença cristã é vista como ocidentalismo), a entrevistada, ao ser questionada como o Ocidente olha para estas minorias, disse:
Muitas vezes esquecemo-nos. Dou um exemplo: no domingo de Páscoa, quando houve os ataques no Sri Lanka, na missa aonde fui o padre nem sequer falou nisso. E este é apenas um exemplo, provavelmente isto repetiu-se em várias paróquias, em vários países da Europa.”.
Releva que o Estado Islâmico perdeu o território, mas não perdeu a força, a ideologia que se mantêm nestes territórios, o que “é o mais perigoso” por ser “o mais difícil de controlar”. Com efeito, um ataque a estas comunidades é como se fosse um ataque ao Ocidente, mas “estamos muitas vezes distraídos com as nossas coisas” e “não olhamos para isto como sendo uma coisa nossa, não sentimos que nos estão a atacar a nós também, como cristãos, como comunidade”.
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Sobre a postura do Vaticano e do Papa Francisco (A AIS é uma fundação pontifícia, dependente da Santa Sé), frisa que receberam o relatório e os dados são do seu conhecimento. E de Francisco vinca:
Tem sido, de facto, uma pessoa extraordinária, neste sentido de nos alertar para o que se está a passar no mundo, de nos chamar a atenção enquanto cristãos: há comunidades que estão a sofrer e nós, como cristãos, temos este dever de nos lembrar deles, de rezar por eles, apoiá-los na nossa solidariedade e nas nossas orações. Isso tem sido extraordinário para chamar a atenção, porque muitas vezes estes ataques que acontecem pela África, pela Ásia, passam como que despercebidos no Ocidente.”.
Quanto à China, indica que os dados “apontam para o aumento da perseguição aos cristãos”, apesar do acordo entre Pequim e o Vaticano para a nomeação de bispos. E explana:
Os dados de que nós dispomos (…) apontam para uma deterioração da situação. Hoje é mais difícil, apesar de haver um acordo provisório, a presença da comunidade cristã. Tem havido como que uma ‘limpeza’ dos símbolos, uma pressão sobre a comunidade cristã muito grande, nos últimos tempos, maior até do que antes do acordo. Isto são factos que podemos mostrar: a situação piorou para a comunidade cristã na China nos últimos dois anos.”.
E a razão de os ocidentais se calarem quanto ao não respeito pelos direitos humanos e, em particular, o da liberdade religiosa prende-se com a força do dinheiro, que “acaba por falar mais alto”. E a responsável pelo secretariado nacional da AIS em Portugal observa:
As relações económicas acabam por ter uma força muito grande, não vemos os governos nem as instâncias internacionais a falar desta questão abertamente ou a dizer ‘não há negócios, não há relações comerciais e económicas se não houver respeito pelos Direitos Humanos’ na China”.
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Falando da África, onde o cristianismo está a crescer e há muitas vocações, mas a situação é crítica em termos de perseguição religiosa, desenvolve:
Neste relatório mostramos que a situação piorou na República Centro-Africana, mas temos a Nigéria, o Sudão, o Egito, onde tudo se mantém igual. Não houve alterações significativas, a situação manteve-se dramática: não piorou, mas também não melhorou. Continuamos a assistir à presença de grupos radicais, que atuam de uma forma impune, com algum esquecimento do Ocidente…”.
Refere que, no caso da Nigéria, o Boko Haram, que já surgiu há 10 anos, “continua a atuar, a provocar o deslocamento de milhares e milhares de pessoas, continua a provocar a morte, a destruir aldeias”. Porém, no Ocidente continuamos “a não olhar para a África, um continente riquíssimo, com muitas potencialidades” e que, “em termos de Igreja, é um continente muito vivo, com muitas vocações, mas que continua a sofrer, diariamente, estas perseguições”.
Sobre a complicação das coisas por via da ameaça radical islâmica e dos conflitos tribais, frisa:
Há muitas dificuldades para as comunidades, além das questões económicas: são países riquíssimos, mas com uma corrupção enorme, em que muitas vezes as pessoas acabam por ser expulsas porque vivem em zonas onde poderá haver exploração. É um conjunto de fatores (…) que faz com que seja o continente com o maior número de deslocados e o maior número de pessoas pobres.”.
É, pois, “um continente com muito potencial, mas que está sozinho, muitas vezes, a tentar combater estes grupos radicais, que querem construir um califado e ser um continente islâmico”.
No atinente à presença da Igreja Católica e da AIS, refere:
Na apresentação do relatório esteve connosco o padre Gideon, da Nigéria, que veio exatamente da diocese mais mártir do país, Maiduguri, onde o Boko Haram nasceu e está muito ativo, ainda. Ele falou-nos da importância da AIS, e disse uma coisa muito bonita: ‘o título deste relatório é «Perseguidos e Esquecidos?». Nós somos perseguidos, mas não somos esquecidos pela AIS’.”.
E a ajuda da AIS não é apenas ajuda pastoral, “porque neste momento, para se poder ajudar pastoralmente uma comunidade, primeiro tem que se alimentar, que ter segurança”. É, de facto, “necessário ajudar, ter espaços para que as pessoas se encontrem, apoiar a parte da formação e da mobilidade para os padres”. E diz Catarina Bettencourt:
Nós somos um bocadinho da Nigéria, que é um país enorme, onde as necessidades são muitas. A AIS tem estado presente, naquilo que a Igreja necessita, porque essa é uma forma de as comunidades cristãs conseguirem continuar a estar presentes, nos seus países.”.
Em relação aos projetos que a AIS está a apoiar, neste momento, contabiliza:
Em 2018, apoiámos cerca de 5 mil projetos, em 145 países. Há sempre esta generosidade, foram cerca de 80 milhões de euros que nós enviámos para estes países, em projetos concretos de ajuda pastoral: construção de igrejas, de locais de apoio às paróquias, de ajuda à mobilidade, à formação, à comunicação social. Porque em muitos destes países as distâncias são tão grandes que é preciso o apoio da comunicação social. E, depois, a parte de emergência, da sobrevivência das próprias pessoas, que é fundamental.”.
E diz que “tudo isto se vai materializando com a generosidade dos benfeitores, em Portugal e um pouco por todo o mundo.
Referindo que a contribuição de Portugal tem sido significativa e que tem aumentado, sempre, verifica esta cada vez maior preocupação por estas necessidades da parte dos portugueses, pois se “não estamos bem” – diz – “há muitos que estão pior do que eu e eu tenho de ajudar”.
Releva o testemunho do Padre Gideon, que enaltece o apoio extraordinário da AIS a nível psicológico, de tratamento das pessoas, e que contou como é difícil, especialmente para as mulheres, e as mulheres cristãs são uma vítima ainda maior: “muitas foram raptadas, estiveram dois, três anos com o Boko Haram, foram violadas e, quando regressam, as suas famílias, muitas vezes, não as aceitam, porque vêm com filhos que são filhos de terroristas”. E a mensagem que o Bispo de Maiduguri enviou foi:
Sem a ajuda da Igreja, de instituições como a AIS, não seria possível que eles estivessem vivos e se mantivessem presentes no sítio onde querem estar, porque nasceram ali, viveram ali e têm o direito de ali estar”.
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Há efetivamente muitos que se preocupam e que ajudam, mas as necessidades são grandes e cada vez mais e maiores. Por isso, todas as ajudas são bem-vindas. E, sobretudo, importa travar a perseguição e o subdesenvolvimento e anular as estruturas sociais, políticas e económicas de pecado. A instauração da paz passa por aí. E a esperança de que a ordem mundial mudará para melhor tem que se manter viva.
2019.10.25 – Louro de Carvalho

sábado, 24 de agosto de 2019

Um exemplo para os nossos dias: embaixador inglês não se prostrou


A jornalista Maria João Caetano publicou no DN on line, a 23 de agosto, um texto sob o título “O embaixador que não se ajoelhou diante do imperador da China” que dá que pensar sobre a reciprocidade que deve pautar a ação diplomática sem arrogância e sem subserviência.
Ao chegar à China como enviado do rei Jorge III, tinha George Macartney 55 anos de idade e não lhe faltava experiência diplomática e governativa. Corporizou, por isso, a primeira missão diplomática e comercial da Inglaterra à China, que falhou pelo simples facto de o embaixador se recusar a fazer a prostração – o kowtow – perante o Imperador, porque também não a fazia perante o rei de Inglaterra, o soberano a quem devia obediência e tributo. Obviamente o diplomata experiente sugeriu soluções alternativas para Estados que se relacionassem em pé de igualdade, mas a China não aceitou ser tratada em pé de igualdade: queria manter mesmo em rituais exteriores mostrar a sua superioridade. 
Isto sucedeu no final do século XVIII: o embaixador enviado à China recusou curvar-se ante o imperador. Com efeito, 9 vénias, ajoelhado e tocando com a testa no chão foi ato que reputou de indigno. Não faria perante outros soberanos o que não fazia perante o seu.
Da sua experiência diplomática e governativa consta a chefia da representação britânica na Rússia para negociar uma aliança com a Czarina Catarina II, o desempenho do cargo de governador de Granada e de Madras e a recusa do convite para governador-geral da Índia. Embarcou, a 26 de setembro de 1792, no Lion sob o comando de Erasmus Gower com cerca de cem homens e chegou a Pequim a 21 de agosto de 1793. Era a primeira missão diplomática britânica à China. Tinha como objetivos a apresentação dos produtos que os ingleses poderiam vender à China para equilibrar a balança comercial, o pedido de permissão para navegar em novas rotas marítimas, a negociação em mais portos e mercados chineses e o pedido de autorização para uma embaixada permanente em Pequim. Confiado na sua experiência negocial estava deveras otimista.
Enquanto os enviados dos países vizinhos – Tailândia, Vietname e Coreia – iam a Pequim sobretudo para fazer comércio, Macartney, que não era negociante, mas diplomata, fora ali para negociar políticas mais vantajosas para o futuro de Inglaterra. A sua atitude diplomática enquadrava-se no contexto da usual chegada dos ingleses a qualquer lugar de cabeça erguida e nariz empinado, ou seja, com um típico sentimento de superioridade perante cultura para eles praticamente desconhecida, como era o caso da chinesa, mas tendo a ideia de que era pouco racional e pouco científica – o que revela a sua ignorância relativamente a outros mundos.
Os demais embaixadores, querendo cair nas boas graças do imperador Qianlong, apresentavam-se fazendo o kowtow – um ritual de 9 vénias ajoelhados (três séries de três), tocando com a testa no chão para mostrarem a sua humildade e reconhecerem a superioridade do Imperador da China. Mas tal comportamento não era para Lord Macartney, que, achando inadmissível tal postura comportamental, recusou-se a fazer o ritual de kowtow perante o Imperador chinês Qianlong.
Depois de lhe explicarem como deveria agir quando fosse recebido, Macartney afirmou recusar prostrar-se perante o imperador, apesar da grande admiração que tinha pela prosperidade e pela civilização do império Qing. Tudo isto porque entendia dever colocar Qianlong em pé de igualdade com o rei de Inglaterra e, portanto, com direito apenas à mesma demonstração de respeito devida ao seu próprio soberano. E, como nunca faria nada tão abjeto como o kowtow perante o seu rei, não poderia fazê-lo perante o imperador da China. Nestes termos, solicitou antecipadamente a dispensa de tal formalidade. Os funcionários imperiais chineses garantiram-lhe que se tratava de “uma mera cerimónia sem significado”.
Ora, se era cerimónia sem significado, o que desdiz do alto significado atribuído às cerimónias protocolares, porque é que o funcionário chinês se recusou fazer o mesmo diante do retrato do rei Jorge III que Macartney tinha consigo, o que equivalia a fazer o kowtow diante do próprio rei de Inglaterra e garantia a reciprocidade do ritual e a igualdade dos dois reinos soberanos?
Em alternativa, o representante britânico propôs que houvesse uma cerimónia diferente para Estados considerados “iguais” à China, como a Inglaterra, que marcaria a diferença em relação a Estados menos poderosos, como a Coreia. Nesse sentido, sugeriu inclinar-se sobre um joelho e baixar a cabeça perante Qianlong, tal como fazia com o seu soberano. A proposta foi aceite e Macartney ficou satisfeito, pois supostamente iria poder negociar de igual para igual e todos os outros países da região iriam saber que deveriam respeitar a Inglaterra.
A apresentação ao Imperador foi agendada para 14 de setembro, data em que havia outros enviados diplomáticos a serem recebidos pelo imperador. Todos fizeram o kowtow, exceto Lord  Macartney. O diplomata inglês entregou ao imperador uma carta do seu rei, com algumas propostas comerciais e de estratégia para o futuro, parecendo tudo estar a correr bem.
Porém, Macartney não fazia ideia da profunda ofensa com que atingira o imperador através da sua exigência. Já a 10 de setembro, Qianlong ficara tão furioso com o ritual proposto pelo inglês e com a tentativa de prolongar a estada que emitiu um decreto pelo qual avisava os funcionários imperiais de que não daria qualquer privilégio ao representante britânico. Poderiam oferecer-lhe os presentes previstos e realizar as reuniões já marcadas, mas nada mais. O imperador tinha a intenção de lhe permitir ficar uns tempos na cidade Jehol mas, dada a presunção exibida pelo embaixador, decidiu não o fazer. Após o banquete protocolar, teria um dia ou dois para emalar os seus pertences e partir. Qianlong escreveu:
Quando os estrangeiros vêm ter comigo, são sinceros e submissos e eu trato-os sempre com gentileza, mas, se vêm com arrogância, não recebem nada”.
O britânico não se apercebeu mas, já antes do encontro, a sua missão estava condenada ao fracasso. A 3 de outubro recebeu a resposta do Imperador à carta do rei Jorge III, que dava como indeferido qualquer pedido britânico. O pedido para que um embaixador britânico permanecesse na capital foi considerado não compatível com os costumes do Império, pelo que não seria aceite; e as relações comerciais poderiam continuar a ser realizadas como até ao momento, pois “objetos estranhos e caros” não interessavam ao Imperador, que já possuía tudo. Ou seja, Qianlong afirmava que a China não precisava de nenhum dos produtos que os ingleses tinham para lhe vender, embora a seda, o chá e a porcelana chineses fossem produtos essenciais para os britânicos e para outros povos. Por isso, a China permitia, há muito tempo, que os estrangeiros viessem comprar esses bens para “satisfazer as suas necessidades”, sendo a Inglaterra apenas um dos países que faziam comércio com a China, pelo que não poderia ter qualquer estatuto especial. O enviado britânico foi, pois, convidado a partir quanto antes. E as relações entre os dois países esfriaram a ponto de virem a dar origem à Guerra do Ópio, em 1839-42 e 1856-60.
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A Guerra do Ópio, também conhecida como Guerra Anglo-Chinesa, foi o conflito armado ocorrido em território chinês, em meados do século XIX, entre a Grã-Bretanha e a China. Ocorreram dois conflitos: a Primeira Guerra do Ópio (entre os anos de 1839 e 1842) e a Segunda Guerra do Ópio (entre 1856 e 1860).
Surgiu no contexto do imperialismo e neocolonialismo da segunda metade do século XIX. Nações europeias, principalmente a Inglaterra, conquistaram e impuseram os seus interesses económicos, políticos e culturais aos povos e países da Ásia, África e Oceânia. 
No início do século XIX, as nações europeias só tinham autorização do Governo chinês para fazerem comércio através do porto de Cantão. O Governo chinês também proibia os europeus de comercializarem os seus produtos diretamente com os consumidores chineses. Havia intermediários (funcionários públicos) que estabeleciam quotas de produtos e preços a cobrar.
 A Grã-Bretanha, em plena Segunda Revolução Industrial, buscava avidamente mercados consumidores para os seus produtos industrializados, mas as medidas protecionistas chinesas dificultavam o acesso dos britânicos ao amplo mercado consumidor chinês.
Como não conseguiam ampliar o comércio de mercadorias com os chineses, os ingleses passaram a vender ópio, de forma ilegal, para a população da China como forma de ampliar os lucros. O ópio, cultivado na Índia (então colónia britânica) era viciante e fazia muito mal a saúde. Em pouco tempo, os ingleses estavam a vender toneladas de ópio na China, tornando o vício uma epidemia. O Governo chinês chegou a enviar uma carta à rainha Vitória I da Inglaterra a protestar contra este verdadeiro tráfico de drogas mantido pelos ingleses.
Mesmo com os protestos do Governo chinês, os ingleses continuaram a vender ópio na China. Em 1839, como forma de protesto, o Governo chinês ordenou a destruição de um carregamento de ópio inglês. O governo britânico considerou o ataque uma grande afronta aos seus interesses comerciais e ordenou a invasão armada à China, dando início a Primeira Guerra do Ópio. Os britânicos invadiram e dominaram. A guerra terminou com a derrota chinesa em 1842. 
Após a guerra, a Inglaterra impôs o Tratado de Nanquim à China, com as seguintes obrigações: a China teve de abrir 5 portos ao livre comércio; os ingleses passaram a ter privilégios no comércio com a China; a China teve de pagar indemnização de guerra à Inglaterra; e a China teve de ceder a posse da ilha de Hong Kong aos britânicos (a ilha foi possessão britânica até 1997).
A Segunda Guerra do Ópio foi a continuação da primeira, mas a Inglaterra contou com a França e a Irlanda como aliadas contra os chineses. O conflito armado começou logo após funcionários chineses revistarem um navio britânico. Como os chineses já não estavam a respeitar algumas cláusulas do Tratado de Nanquim, os britânicos resolveram atacar novamente a China que saiu derrotada mais uma vez. Os ingleses e franceses impuseram o Tratado de Tianjin à derrotada China segundo o qual dez portos chineses deveriam permanecer abertos ao comércio internacional; haveria liberdade para os estrangeiros viajarem e fazerem comércio na China; era garantida a liberdade religiosa aos cristãos em território chinês; e a China deveria pagar pesadas indemnizações de guerra à Inglaterra e França.
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Em suma, após a guerra, a China seria forçada a pagar uma indemnização à Inglaterra, a abrir vários portos ao comércio de ópio britânico e ainda a entregar a ilha de Hong Kong, que ficaria sob domínio britânico durante 155 anos.
Por tudo isto, os historiadores julgam que a missão de Macartney foi uma oportunidade perdida para ambos os países: a China poderia ter adquirido tecnologias e iniciado a sua revolução industrial; e a Inglaterra poderia ter de facto equilibrado a sua balança comercial. Mas tal não aconteceu. Por causa da recusa de uma prostração e a consideração dum simples vénia como ofensa.
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Ora, ao contrário de Macartney, outros ocidentais não tiveram problemas em prostrar-se perante o Imperador da China, a começar desde logo pelos missionários jesuítas (os primeiros religiosos a estabelecer-se em Macau e a chegar à China), alguns oriundos de Portugal.
Homens práticos que são e com visão de futuro, não tiveram problemas em integrar-se nos costumes locais, ou seja, neste caso, curvar-se perante o Imperador. Macau era um grande entreposto comercial português. E, a partir do século XVI, a Companhia de Jesus instala, na China, igrejas e colégios com o objetivo de espalhar a fé cristã e de divulgar a cultura ocidental.
Ido de Lisboa, o missionário italiano Matteo Ricci chegou a Macau em 1582 e começou logo a estudar a língua e os costumes locais, estabelecendo importantes contactos com a nobreza e os intelectuais. A sua foi sempre uma abordagem de aproximação à cultura, que passava até pelo uso de roupas locais. Em janeiro de 1601, Ricci estabeleceu-se em Pequim e foi o primeiro europeu a entrar na Cidade Proibida, a convite do imperador Wanli.
Ao contrário do embaixador britânico, nem Ricci nem nenhum dos outros jesuítas teve alguma vez problemas em fazer o kowtow perante o imperador. Mesmo depois do édito de 1724, que expulsou os cristãos, os jesuítas foram autorizados a residir em Pequim e continuaram a ocupar lugares de relevo na hierarquia científica da corte.
O Padre João Rodrigues, de Sernancelhe, que ajustou o percurso jesuítico e sacerdotal às necessidades de relacionando dos jesuítas com o Japão e a China, foi exímio estudioso da língua e dos costumes japoneses e chegou a ser o intérprete (Tçuzu) da corte nipónica no tempo do Imperador Tokugawa Ieyasu. E, depois de sair do Japão (com a proibição do cristianismo) e antes de se estabelecer em Macau a dedicar-se à investigação das origens das comunidades cristãs  que se estabeleceram no local desde o século XIII, ainda percorreu grande fração da Grande Muralha da China.
Aquando da proibição da difusão do catolicismo na China, o rei de Portugal, preocupado, tentou melhorar as relações luso-chinesas com o objetivo de ali manter a estabilidade da prática religiosa e assegurar os benefícios obtidos em Macau. Foi por isso que Dom João V enviou Alexandre Metel­lo de Sousa e Menezes à China. Chegou a Macau em junho de 1726, acompanhado por António de Magalhães e 9 padres e levando na fragata Nossa Senhora d’ Oliveira livros sobre Portugal e 30 arcas de presentes. No dia 18 de maio de 1727, a comitiva entrou oficialmente em Pequim, guardando-a grande receção preparada pelo Imperador Yongzheng, formada por uma guarda de honra de duzentos soldados. Metello, o primeiro embaixador português a ser recebido pelo imperador, estava preocupado em manter a honra do seu rei e não se apresentar em posição de humilhação, tendo feito algumas exigências (por exemplo, entregou pessoalmente a carta do rei), mas aceitou ajoelhar-se e tocar com a testa no chão. O Imperador concedeu-lhe 4 audiências, sinal de grande reconhecimento. Mesmo que a missão não tenha obtido os resultados pretendidos, nem na parte religiosa nem na parte comercial, os embaixadores que se lhe seguiram optaram sempre por manter a cordialidade.
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Os portugueses são mais aculturáveis e permeáveis que os ingleses e os jesuítas são mais práticos. Não obstante, Macartney é exemplo do modo como a relação deve ser entre países. Antes quebrar que torcer.
2019.08.24 – Louro de Carvalho  

sexta-feira, 28 de junho de 2019

O problemático registo do clero e das atividades religiosas na China


Apesar do Acordo Provisório, de 22 de setembro de 2018, entre a Santa Sé e a República Popular da China, sobre a nomeação dos bispos, a relação do Estado com a comunidade católica apresenta graves fricções. Ainda há dias, a comunicação social denunciava que as autoridades impediram a celebração pública dos funerais dum bispo que falecera e que estava detido por via de sempre se ter recusado a aderir à Igreja Patriótica, sendo que o seu sucessor também está com residência fixa por idêntico motivo. Acresce que, para lá do que o Estado determina, outras entidades tomam iniciativas “não oficiais” que dificultam o exercício da atividade católica.
Recentemente, o Estado publicou nova regulamentação das atividades religiosas que implica o registo civil do clero e das atividades religiosas, a que deve ser aposta uma declaração escrita em como o requerente do registo se dispõe a aceitar, entre outras coisas, o princípio da independência, autonomia e autogestão da Igreja na China.
Perante a perplexidade de muitos clérigos, extensiva aos fiéis crentes, os bispos solicitaram à Santa Sé uma palavra de orientação sobre a atitude a tomar, dado que podem estar em conflito as exigências da fé e da unidade da Igreja e as do Estado chinês. E o Vaticano responde focando quatro pontos basilares: a tutela constitucional da liberdade religiosa; a interpretação da independência da Igreja na China não em sentido absoluto, mas no atinente à esfera política, nos termos do Acordo Provisório; o diálogo consolidado que enforma atualmente as relações entre a Santa Sé e a China; e o facto de muitos bispos ordenados sem mandato apostólico terem pedido e obtido a reconciliação com o sucessor de Pedro.
Assim, hoje, dia 28 de junho, a Santa Sé publicou o solicitado documento cujo teor é o seguinte (em tradução livre):
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Há algum tempo, os Bispos da China Continental apresentaram à Santa Sé uma orientação concreta sobre a atitude a tomar face à obrigação de requerer o registo civil do clero e das atividades religiosas. Com efeito, muitos Pastores estão profundamente perplexos porque a modalidade de tal registo – obrigatória de acordo com os novos regulamentações das atividades religiosas sob pena de não se poder agir pastoralmente – quase sempre envolve a assinatura dum documento em que, não obstante o compromisso das autoridades chinesas em respeitarem a doutrina católica, se deve declarar a aceitação, entre outras coisas, do princípio da independência, autonomia e autogestão da Igreja na China.
Face à complexidade da realidade chinesa e ao facto de não haver no país uma prática de aplicação única dos regulamentos para assuntos religiosos, torna-se particularmente difícil uma tomada de posição sobre o assunto. Por um lado, a Santa Sé não pretende forçar a consciência de ninguém; e, por outro, considera que a experiência da clandestinidade não faz parte da normalidade da vida da Igreja e que a história mostra que os pastores e os fiéis têm recorrido a ela apenas no desejo sofrido de manter intacta a fé (vd n. 8 da Carta de Bento XVI aos católicos chineses de 27 de maio de 2007). No entanto, a Santa Sé continua a exigir que o registo civil do clero ocorra com a garantia de respeito pela consciência e pelas profundas convicções católicas das pessoas envolvidas. Só assim, de facto, se promove a unidade da Igreja e o contributo dos católicos para o bem da sociedade chinesa.
No atinente à avaliação da eventual declaração que deve ser assinada no momento do registo, é de ter em conta que a Constituição da República Popular da China declara formalmente a proteção da liberdade religiosa (art.º 36.º) e que o Acordo Provisório, de 22 de setembro de 2018, reconhece o papel peculiar do Sucessor de Pedro – o que logicamente leva a Santa Sé a entender e a interpretar a “independência” da Igreja Católica na China não em sentido absoluto, isto é, como uma separação da Papa e da Igreja universal, mas na conexão com a esfera política, de acordo com o que sucede em todas as partes do mundo no quadro das relações entre o Papa e uma Igreja particular ou entre Igrejas particulares. Além disso, afirmar que na identidade católica não pode haver separação do Sucessor de Pedro não significa querer fazer duma Igreja particular um corpo estranho à sociedade e à cultura do país em que vive e atua. Depois, o contexto atual das relações entre a China e a Santa Sé, caraterizado por um diálogo consolidado entre as duas Partes, é diferente do que viu o nascimento de organizações patrióticas nos anos 50. Por fim, acresce o relevante facto de, ao longo dos anos, muitos bispos ordenados sem o mandato apostólico terem solicitado e obtido a reconciliação com o Sucessor de Pedro, para que todos os bispos chineses estejam em comunhão com a Sé Apostólica e desejem uma integração cada vez maior com os Bispos Católicos de todo o mundo.
Assim, é legítimo esperar uma nova atitude por parte de todos, mesmo quando se trata de questões práticas sobre a vida da Igreja. Por seu turno, a Santa Sé continua a dialogar com as autoridades chinesas sobre o registo civil de bispos e sacerdotes para encontrar uma fórmula que, no ato do registo, respeite não apenas as leis chinesas, mas também a doutrina católica.
Entretanto, à luz do acima exposto, se um Bispo ou um padre decidir registar-se civilmente e o texto da declaração para registo não parecer respeitoso para a fé católica, o declarante especificará por escrito, no momento da assinatura, que o faz sem prejuízo da fidelidade aos princípios da doutrina católica. Se não for possível fazer este esclarecimento por escrito, o requerente fá-lo-á verbalmente e, se possível, na presença de uma testemunha. Em qualquer caso, é aconselhável que o requerente certifique o seu Ordinário da intenção com que procedeu ao registo. Isto, na verdade, deve ser sempre entendido com o único propósito de favorecer o bem da comunidade diocesana e o seu crescimento no espírito de unidade, assim como uma evangelização adaptada às novas necessidades da sociedade chinesa e à gestão responsável dos bens da Igreja.
Ao mesmo tempo, a Santa Sé entende e respeita a escolha daqueles que, conscientemente, decidem não se registar nas condições atuais. Permanece perto deles e pede ao Senhor que os ajude a preservar a comunhão com os irmãos na fé, mesmo ante as provações que todos enfrentarão. Por sua vez, o Bispo, “nutra e manifeste publicamente a sua estima pelos presbíteros, demonstrando confiança e elogiando-os se o merecerem; respeite e faça respeitar os seus direitos e defenda-os contra críticas infundadas; dirima prontamente controvérsias para evitar que as inquietações prolongadas possam obscurecer a caridade fraterna e prejudicar o ministério pastoral” (Apostolorum Successores, Diretório para o ministério pastoral dos Bispos, 22 de fevereiro de 2004, n. 77).
É, pois, importante que os fiéis leigos não apenas compreendam a complexidade da situação acima descrita, mas também aceitem com grande entusiasmo a dolorosa decisão tomada pelos seus Pastores, seja ela qual for. Que a comunidade católica local os acompanhe com espírito de fé, com oração e com a afeição, abstendo-se de julgar as escolhas dos outros, guardando o vínculo da unidade e usando de misericórdia para com todos.
Em qualquer caso, à espera de um diálogo franco e construtivo entre as duas partes, conforme acordado, com vista a um modo de registo civil do clero mais respeitoso da doutrina católica e, por conseguinte, da consciência das pessoas envolvidas, a Santa Sé pede que as pressões intimidatórias “não oficiais” contra as comunidades católicas não sejam postas em prática, como infelizmente já tem acontecido.
Finalmente, a Santa Sé confia em que todos possam aceitar estas orientações pastorais como uma ferramenta para ajudar aqueles que se encontram a fazer escolhas difíceis, a realizá-las num espírito de fé e unidade. Todos – Santa Sé, bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis leigos – são chamados a discernir a vontade de Deus com paciência e humildade nesta parte do caminho da Igreja na China, marcada por tantas esperanças, mas também por dificuldades duradouras.
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O documento responde às muitas perguntas que os bispos reiteradamente dirigiram ao Vaticano, que se reduzem ao seguinte:
Qual o comportamento adequado face ao pedido urgente de se inscrever no registo civil do clero segundo o estipulado por lei pelas autoridades políticas? O que fazer em relação ao dilema de consciência representado por alguns textos problemáticos para que é com frequência solicitada a assinatura?”.
Na sua resposta, a Santa Sé reafirma o princípio fundamental do respeito pela liberdade de consciência, pelo que ninguém pode ser obrigado a dar um passo que, indo contra a sua consciência, não tenha intenção de dar. Por outro lado, recorda o passo dado com o predito Acordo Provisório, de setembro de 2018, sobre a nomeação dos Bispos, que deu início a um novo caminho nas relações sino-vaticanas e levou ao importante resultado da plena comunhão de todos os bispos chineses com o Papa. Contudo, nem de longe foram ultrapassadas todas as dificuldades: o Acordo Provisório só representa o início dum percurso. E, entre as dificuldades subjacentes, conta-se a obrigação de os sacerdotes e bispos se registarem oficialmente junto das autoridades, como prescrito pela lei chinesa, apresentando o respetivo requerimento. Apesar do compromisso de querer encontrar uma solução aceitável e compartilhada, em várias regiões da República Popular da China, é exigido aos sacerdotes a subscrição de declaração cujos itens nem sempre são conformes com a doutrina católica, criando dificuldades de consciência, por exemplo, no atinente à aceitação do princípio de independência, autonomia, e autogestão da Igreja na China.
As Orientações Pastorais da Santa Sé para Bispos e sacerdotes face à exigência das autoridades governamentais para que se registem civilmente articulam a salvaguarda da doutrina católica e a liberdade de consciência com a resposta às necessidades da China e à de cooperar no bem comum daquela sociedade.
Assim, propõe-se o absoluto respeito pela liberdade de consciência de cada um, a proximidade e a compreensão da situação que atualmente as comunidades católicas vivem, algumas sugestões de escolhas de opções concretas que permitam ao clero chinês registar-se sem deixar de lado o que a Igreja Católica sempre acreditou sobre a comunhão com o Sucessor de Pedro.
Obviamente, o documento parte do olhar realista sobre a situação existente e as dificuldades ainda presentes, configura a intenção de ajudar os que se encontram na dúvida respeitando sempre a consciência de cada um na vivência dos sofrimentos, manifesta a vontade de contribuir para unidade dos católicos chineses e de favorecer o exercício público do ministério episcopal e sacerdotal para o bem dos fiéis. De facto, a clandestinidade, como escrevia Bento XVI na sua Carta (citada mais abaixo), “não pertence à normalidade da vida da Igreja” e esta Nota da Santa Sé deixa perceber a lei suprema da “salus animarum”, a salvação das almas, e a intenção de cooperar pela unidade das comunidades católicas chinesas, segundo um olhar evangélico que manifesta proximidade e compreensão pelo que viveram e estão a viver os católicos na China. Na verdade, a mensagem de Francisco,  de 26 de setembro de 2018, aos católicos chineses expressava, por parte do Papa, os “sentimentos de gratidão ao Senhor e de sincera admiração – que é a admiração de toda a Igreja Católica – pelo dom da vossa fidelidade, da constância na provação, da arraigada confiança na Providência de Deus, mesmo quando certos acontecimentos se revelaram particularmente adversos e difíceis”.
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É verdade que a situação atual é diferente da vivida nos anos Cinquenta, quando se originou a criação duma Igreja nacional chinesa separada de Roma. Hoje, pelo Acordo Provisório, as autoridades de Pequim reconhecem o papel peculiar do Bispo de Roma na escolha dos candidatos ao episcopado e tacitamente o seu múnus de Pastor da Igreja Universal; e a Santa Sé continua a trabalhar todas as declarações, solicitadas no âmbito do registo, a fim de serem consonantes não só com as leis chinesas, mas também com a doutrina católica e, portanto, aceitáveis para Bispos e sacerdotes. Assim, considerando a situação peculiar que vivem as comunidades cristãs no país e esperando superar definitivamente o problema, a Santa Sé sugere uma possível modalidade concreta para permitir à pessoa que se encontra em dúvida, com a intenção de se registar, que exprima as suas reservas. É uma sugestão que encaixa na rota inaugurada pela Carta aos Católicos da China publicada em maio de 2007 (já referida), em que Bento XVI reconhecia:
Em numerosos casos concretos, aliás quase sempre, no procedimento de reconhecimento intervêm organismos que obrigam as pessoas envolvidas a assumir posições, a realizar gestos e a assumir compromissos que são contrários aos ditames da sua consciência de católicos”.
E, considerando as dificuldades existenciais dos católicos, acrescentava:
Por isso, compreendo como nestas diversas condições e circunstâncias seja difícil determinar a escolha correta a ser feita. Por este motivo, a Santa Sé, depois de ter reafirmado os princípios, deixa a decisão a cada Bispo que, ouvido o seu presbitério, tem melhores condições para conhecer a situação local, para medir as concretas possibilidades de escolha e para avaliar eventuais consequências dentro da comunidade diocesana”.
Como se vê, já há 12 anos, o Papa mostrava compreensão e autorizava cada bispo a decidir pensando em primeiro lugar no bem das respetivas comunidades. E hoje a Santa Sé realiza uma ulterior etapa pastoral no caminho percorrido em contexto objetivamente diferente do passado.
Estas Orientações Pastorais sugerem a possibilidade de os Bispos e os sacerdotes pedirem, no momento da inscrição – o acréscimo, por escrito ou verbalmente, se possível com a presença de uma testemunha – da asserção de que independência, autonomia e autogestão da Igreja sejam entendidas sem deixar de lado a doutrina católica, ou seja, como independência política, autonomia administrativa e autogestão pastoral, como sucede com todas as Igrejas locais do mundo. E também instam a que o sacerdote informe imediatamente o respetivo Ordinário sobre a sua inscrição e as circunstâncias em que foi realizada. Por outro lado, quem não se queira registar nestas condições, não deve ser submetido a indevidas pressões.
Por fim, deve anotar-se que não há ingenuidade nestas Orientações pastorais. A Santa Sé está consciente dos limites e das “pressões intimidatórias” que sofrem muitos católicos chineses, mas quer mostrar que se pode olhar em frente e caminhar sem desvios dos princípios fundamentais da comunhão eclesial. É a solicitude papal que permite ancorar estas Orientações na esperança cristã seguindo o Espírito que leva a Igreja a escrever páginas novas aqui e agora.
Por outro lado, a China evidencia para a Igreja as consequências da incarnação do mistério eclesial na sociedade em que, a par dos sinais de Deus, emerge o mistério iniquidade a causar sofrimento ou a desviar os crentes da verdadeira rota. Foram também as tentações, a que Ele não cedeu, e os sofrimentos que a hostilidade, a negação, a traição ou incredulidade, de que foi vítima, os custos da incarnação do Filho de Deus para estar no mundo dos homens, próximo deles, vivendo a nossa vida.
Resta que se ore a Deus para que a Igreja na China saiba encontrar a forma de prevalecer incarnada e inculturada naquela sociedade, mas bem conectada com o desígnio e a força do Alto e muito firme no seu agir missionário.  
2019.06.28 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Aproximação entre a Santa Sé e a República Popular da China


Era sabido que, sendo a mesma e minoritária Igreja Católica, a Igreja na República Popular da China aparecia em duas frentes: a manifestamente alinhada com as indicações do Vaticano, incluindo a nomeação dos Bispos, sofrendo várias limitações, condicionamentos e até perseguições por parte do poder político; e a chamada Igreja patriótica, que, provavelmente por motivos de sobrevivência num regime confessadamente ateu sob a capa do laicismo, se deixou condicionar pelo Estado, que aprovava ou não a nomeação dos Bispos, obviamente com a discordância da Santa Sé e criando dúvidas e até suspeitas a muitos dos católicos.
Entretanto, a 22 de setembro, a Sala de Imprensa da Santa Sé publicou um comunicado – em italiano, inglês e chinês – que dá conta de ter sido celebrado, em Pequim, naquele mesmo dia, um acordo provisório entre a Santa Sé e a República Popular Chinesa sobre a nomeação dos Bispos, numa reunião formal, para o efeito, das delegações dos dois Estados, Vaticano e República Popular Chinesa, chefiadas, respetivamente, por Monsenhor Antoine Camilleri, Subsecretário para as Relações da Santa Sé com os Estados, e o Senhor Wang Chao, Vice-ministro do Assuntos Externos da República Popular Chinesa.
Nos termos do comunicado, o susodito acordo, fruto duma gradual e recíproca aproximação foi celebrado após um longo percurso de ponderada negociação e prevê avaliações periódicas do seu desenvolvimento e as convenientes melhorias. Com efeito, a nomeação dos Bispos é “uma questão de grande relevo para a vida da Igreja e cria as condições para uma mais ampla colaboração a nível bilateral”. É desejável para ambas as partes que “este entendimento favoreça um percurso fecundo e de visão de futuro no diálogo institucional e contribua positivamente para a vida da Igreja católica na China, para bem do Povo chinês e para a paz no mundo”.
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Em reação ao acordo, o Padre Antonio Spadaro SJ, diretor da revista “Civiltà Cattolica”, oferece aos leitores uma separata em que explica o sentido do acordo, que não é “um ponto de chegada, mas um novo ponto de partida”, pois “não há automatismos que garantam a melhoria da qualidade da vida religiosa católica chinesa”. Pelo que “os desafios permanecem”, porém, “o processo de remodelar a relação entre os dois lados é positivo para os católicos chineses”.
O ensaio de Spadaro retoma o fio das várias mensagens lançadas pelo Papa Francisco para dar um rosto ao desejo já expresso por João Paulo II e por Bento XVI na carta de 24 de maio de 2007, “de ver em breve estabelecidas vias concretas de comunicação e de colaboração entre a Santa Sé e a República Popular da China” para ver “superadas as incompreensões do passado” na certeza de que se poderia “trabalhar em conjunto para o bem do povo chinês e pela paz no mundo”. Agora, Francisco levou à maturidade um processo que dura desde 1986 (há mais de 30 anos), escrevendo assim uma página inédita da história. De facto, são cerca de 40 os bispos chineses ordenados sem mandato pontifício e que posteriormente receberam o reconhecimento da plena comunhão pelos Pontífices precedentes.
À luz do acordo, a Igreja na China é, pois, chamada a superar as divisões do passado e a renovar com novo ímpeto a sua missão de anunciar o Evangelho, para contribuir para o bem do povo chinês, com a sua mensagem religiosa e compromisso social. Por isso, deve ser plenamente chinesa, indo a fundo no processo de inculturação à luz da universalidade própria do catolicismo, portanto, totalmente chinesa e totalmente católica.
Mas, segundo a Reuters, Igreja Católica da China reafirmou, logo no dia 23, a sua lealdade ao Partido Comunista, ao mesmo em que saudou um acordo histórico com o Vaticano sobre a nomeação de novos bispos. E o facto de o Vaticano ter assinado uma acordo a dar à instituição  vos decisiva na nomeação de novos bispos na China é classificado pelos críticos como uma manobra de venda aos interesses do Governo. Na verdade, segundo alegam, a Igreja Católica na China disse que “vai perseverar em seguir um caminho adequado a uma sociedade socialista, sob a liderança do Partido Comunista Chinês”, pois a instituição diz que “ama profundamente a pátria” e “sinceramente endossou” o acordo, esperando que as relações entre a China e o Vaticano melhorem ainda mais.
Por sua vez, o Vaticano considera que o acordo, um avanço após anos de negociações, “não é político, mas pastoral”, e espera que leve à “plena comunhão de todos os católicos chineses”.
Mas as perspetivas do acordo dividiram comunidades de católicos em toda a China, com alguns a temerem uma maior supressão se o Vaticano ceder mais controlo a Pequim e outros a quererem ver a reaproximação e evitar um potencial desacordo.
Porém, o Papa, no voo de regresso da Estónia ao Vaticano, respondeu calmamente, assumindo a total responsabilidade pela sua celebração: “o acordo, eu próprio assinei as cartas de nomeação plenipotenciária”, disse, “eu sou o responsável”. E pediu que se rezasse pelos que, “tendo vivido muitos anos nas costas de clandestinidade”, não entendem hoje o seu alcance. Na verdade, como recordou, em todos os acordos de paz, “ambos os lados perdem algo” e todavia agora “é o Papa quem nomeia” os bispos chineses. E não se trata apenas da nomeação, mas também da análise do perfil dos candidatos, que é feita em diálogo, ficando a nomeação reservada ao Papa.
A este respeito, Francisco elogiou a “paciência” e a “sabedoria” dos negociadores do Vaticano – do cardeal Parolin a Monsenhor Celli, ao padre Rota Graziosi – dizendo ter avaliado todos os “dossiês dos bispos cuja nomeação ainda não tinha o aval pontifício” e lembrando que a mesma se tornou de exclusiva pertinência papal em tempos não tão distantes. E também frisou o apoio que recebeu dos episcopados do mundo, que afirmaram a sua proximidade com o Papa e a oração pelas suas intenções, bem como as manifestações de fiéis e bispo chineses, tanto da Igreja dita Tradicional como da Igreja dita Patriótica. 
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E, a 26 de setembro, a pretexto do Acordo, Francisco endereçou uma eloquente Mensagem aos Católicos Chineses e à Igreja Universal, de que fez menção na audiência geral, na Praça de São Pedro, no mesmo dia, e em cujo topo se lê:
Demos graças ao Senhor porque é eterna a sua misericórdia e reconhecemos que foi Ele quem nos criou e nós pertencemos-Lhe, somos o seu povo e as ovelhas do seu rebanho” (Sl 100/99,3).
Depois, retoma palavras da carta de Bento XVI, acima referida:
“Igreja Católica na China, pequeno rebanho presente e ativo na vastidão de um imenso povo que caminha na história, como ressoam encorajadoras e provocantes para ti as palavras de Jesus: Não temas, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino (Lc 12,32) (…); por isso, brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai, que está nos Céus” (Mt 5,16).
Segundo o Vatican News, o texto de 11 páginas, dirigido aos Católicos chineses, às Autoridades e a toda a Igreja católica, é marcado por expressões que demonstram a solicitude pastoral para com os fiéis e o povo chinês em geral da parte do Pontífice, que escreve:
Num momento tão significativo para a vida da Igreja e através desta breve Mensagem, antes de mais nada desejo assegurar que vos tenho diariamente presente nas minhas orações e partilhar convosco os sentimentos que moram no meu coração”.
Considerando a existência, no presente, de perplexidades e perspetivas de esperança entre os católicos chineses, a mensagem procura explicar o significado do Acordo e expressa as esperanças do Papa no futuro da Igreja na China. Efetivamente, a grande finalidade é sustentar e promover o anúncio do Evangelho, alcançar e conservar a unidade plena e visível da Comunidade católica na China. Para isso, o Bispo de Roma pede um ato de confiança aos fiéis, superando os momentos inevitáveis de perplexidade, pois é a fé que muda a história.
Se Abraão tivesse pretendido condições sociais e políticas ideais antes de sair da sua terra, talvez nunca tivesse partido. Mas não! (…) Portanto, não foram as mudanças históricas que lhe permitiram confiar em Deus, mas foi a sua fé pura que provocou uma mudança na história.” – Garante o Pontífice.
Para dar este passo, a primeira questão a enfrentar era as nomeações episcopais, que fez surgir o fenómeno da clandestinidade na Igreja presente na China. E Francisco relata que desde o início do seu pontificado recebeu “sinais e testemunhos concretos” de fiéis e bispos que manifestavam “o desejo sincero de viver a sua fé em plena comunhão com a Igreja universal e com o Sucessor de Pedro”. “Por isso, depois de ter examinado atentamente cada uma das situações pessoais e escutado diversos pareceres, refletiu e rezou muito, procurando o verdadeiro bem da Igreja na China. Por fim, decidiu conceder a reconciliação aos restantes sete Bispos “oficiais” ordenados sem Mandato Pontifício e, removidas todas as relativas sanções canónicas, readmiti-los na plena comunhão eclesial.
Francisco convida, pois, todos os católicos chineses a fazerem-se artífices de reconciliação, crendo ser possível iniciar um percurso inédito, que ajudará a curar as feridas do passado, a restabelecer a plena comunhão de todos os católicos chineses e a abrir uma fase de colaboração mais fraterna, para assumir com renovado empenho a missão do anúncio do Evangelho.
Tendo em conta que as experiências dolorosas do passado pertencem ao tesouro espiritual da Igreja na China e de todo o Povo de Deus peregrino na terra, o Papa assegura que “o Senhor, através do crisol das próprias provações, nunca deixa de nos cumular com as suas consolações e preparar-nos para uma alegria maior” na certeza absoluta de “aqueles que semeiam com lágrimas – como afirma o Salmo 126 – vão recolher com alegria”.
O Acordo, apesar de se limitar a alguns aspetos da vida da Igreja, pode contribuir para escrever esta página nova da Igreja Católica na China, pois é a primeira vez que se introduzem elementos estáveis de colaboração entre as Autoridades do Estado e a Sé Apostólica, com a esperança de garantir bons Pastores à comunidade católica. E à Igreja chinesa cabe o papel de procurar bons candidatos para o serviço episcopal, pois, não se trata de nomear funcionários para a gestão das questões religiosas, mas de ter “verdadeiros Pastores segundo o coração de Jesus”.
O Acordo é um instrumento que por si só não resolve todos os problemas existentes. Por isso, no plano pastoral, a comunidade católica na China é chamada a estar unida de modo que “todos os cristãos, sem distinção, realizem gestos de reconciliação e comunhão”. E, no plano civil e político, os católicos chineses são chamados a ser bons cidadãos, que amem plenamente a pátria e sirvam o seu país com empenho e honestidade, sem se eximirem de proferir uma “palavra crítica” quando necessária.
Depois de se dirigir aos Bispos, sacerdotes e pessoas consagradas, propondo a caridade pastoral como a bússola do ministério, pela superação dos contrastes do passado, pela renúncia à afirmação de interesses pessoais e pelo cuidado dos fiéis, o Papa dirige-se aos jovens, por ocasião do Sínodo dos Jovens, pedindo colaboração, entusiasmo, sem medo de levar a todos a alegria do Evangelho. E faz um pedido a todos os fiéis no mundo inteiro:
Temos uma tarefa importante: acompanhar com oração fervorosa e amizade fraterna os nossos irmãos e irmãs na China. Com efeito, devem sentir que, no caminho que se abre diante deles neste momento, não estão sozinhos.
Por fim, dirige-se às autoridades chinesas, convidando ao diálogo e cooperação, reiterando a disponibilidade da Santa Sé para trabalhar com elas na sinceridade pela causa do bem comum:
Renovo o convite a continuarem, com confiança, coragem e clarividência, o diálogo iniciado há algum tempo. Desejo assegurar que a Santa Sé continuará a trabalhar com sinceridade para crescer numa amizade autêntica com o povo chinês.”.
Segundo o Pontífice, há que aprender um novo estilo de colaboração simples e diária entre as Autoridades locais e as Autoridades eclesiásticas”, definindo este diálogo árduo, mas ao mesmo tempo fascinante. Com efeito, a Igreja na China não é alheia à história do país nem pede privilégio algum: a sua finalidade no diálogo com as Autoridade civis é “alcançar uma relação tecida de respeito recíproco e de profundo conhecimento”.
A mensagem conclui com uma oração a Nossa Senhora, Auxílio dos Cristãos, implorando do Senhor o dom da paz.
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Enfim, “Laudemus Deum: oremus pro Ecclesia et pro Pontifice” em prol dum futuro de paz e frutífera cooperação eclesial e política a bem do Povo e da Igreja, que serve a Deus trabalhando com as pessoas e pelas pessoas em dinamismo comunitário e sinodal.
2018.09.27 – Louro de Carvalho