quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Pietro Parolin em Fátima na peregrinação aniversária – outubro/2016

Decorreu, nestes dias 12 e 13, a Peregrinação Internacional de outubro, que assinala a 6.ª aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, em torno do tema “Quem perder a sua vida… salvá-la-á”, e sob a presidência do Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, que chegou, na tarde do dia 12, à Cova da Iria.
Nesta grande Peregrinação Internacional Aniversária, a última antes de maio de 2017,  estão inscritos no Santuário 92 grupos de peregrinos. As maiores representações são as de Portugal e de Itália, mas há peregrinos polacos, alemães, espanhóis, do Benin, de França, do Brasil, da Croácia, da Eslováquia, do Reino Unido, dos Estados Unidos, da Coreia do Sul, da Austrália, da Áustria, das Filipinas, da Hungria, da Suíça e de Timor.
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Na conferência de imprensa em que participou, no início da Peregrinação, o número dois e chefe da diplomacia do Vaticano escusou-se a dar uma resposta detalhada à pergunta sobre a viagem do Papa em maio de 2017, admitindo que a mesma pergunta se sucedeu nos “vários encontros” que manteve até ao momento em território português. Porém, adiantou que a vista papal será de “peregrinação”, uma “peregrinação mariana no centenário das aparições”, pois Francisco “quer concentrar-se nesta celebração” do centenário, em Fátima, partilhando com os peregrinos “a devoção e a mensagem de Fátima, que está muito presente no seu magistério”.
Avançou que em breve começarão os preparativos da viagem, recordando que uma visita pontifícia exige “preparação adequada”, embora Fátima “já esteja habituada” a visitas papais (e mencionou as de Paulo VI, João Paulo II – 3 vezes – e Bento XVI) e tenha “capacidade de acolhimento e de resposta em tempo breve”. Nesse sentido, realçou que é preciso esperar respostas “mais detalhadas”, que não deverão “demorar muito”. O certo é que “sabemos que o Papa virá aqui”, insistiu, falando numa “grande alegria”, já que “há um grande desejo de que o Papa venha”. E insistiu que, neste momento, “está tudo por pensar e por organizar segundo a vontade do Santo Padre” e que “a razão pela qual o Papa vem a Portugal são os 100 anos das aparições, por isso é que foi convidado”.
O purpurado italiano, referindo-se a Fátima, disse que é um Santuário que sempre considerou como “muito caro” e um “ponto de referência” da sua própria espiritualidade mariana; e que visitar pela primeira vez este espaço, no 99.º aniversário das aparições na Cova da Iria, é uma data “particularmente significativa”, tendo em vista as grandes celebrações do próximo ano.
Já noutra ocasião, em que abordara a sua então futura presença aqui, assegurou que não vinha apenas numa ótica institucional, mas também como filho que vem à casa materna protestar a fidelidade e a gratidão de filho.
Por sua vez, o bispo de Leiria-Fátima apresentou o cardeal italiano e manifestou a “alegria e honra” do Santuário por contar com a presença do secretário de Estado do Vaticano. Disse Dom António Marto:
“É um gosto e uma honra que o Senhor Cardeal Secretário de Estado tenha aceite o nosso convite e é uma ocasião para exprimirmos a comunhão com o Santo Padre através da sua pessoa”.
O chefe da diplomacia vaticana, ainda no âmbito da predita conferência de imprensa, que se realizou, uma hora e meia mais tarde do que é habitual, pronunciou-se ainda sobre a recente nomeação de Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas, elogiando o seu percurso e dizendo que a nomeação de António Guterres é um motivo de satisfação”. Porém, esclareceu que o Vaticano não vota para a eleição do secretário-geral, já que é apenas membro observador das Nações Unidas.
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Na homilia que proferiu na missa internacional à meia-noite do dia 12, Pietro Parolin criticou valores promovidos pela sociedade de informação e apelou a que façamos a “opção da fé”.

Na concelebração eucarística a que presidiu – acompanhado pelo Cardeal Patriarca de Lisboa Dom Manuel Clemente, 21 bispos e 250 sacerdotes – Dom Pietro Parolin, fazendo o paralelo entre os valores promovidos pela sociedade da informação e os valores dos que se “dedicam ao conhecimento de Jesus”, apontou o dedo a uma cultura que “nos instiga cada vez mais a comer informação a todas as horas”, mas que simultaneamente apenas “se preocupa com armazenar em si mesma a maior quantidade de informações, fazendo deste tesouro o metro para se medir a si mesma, à sociedade e ao mundo”. É o “modelo do mundo ocidentalizado”, em que a “pessoa informada” é o “exemplo do cidadão responsável, do trabalhador ativo, do homem e da mulher à altura dos seus direitos e dos seus deveres” sem se preocupar “em sair de si mesma e apostar em Cristo”, para fazer d’Ele “o tesouro e o metro para medir a existência”.
Assegurando que “precisamos de nos reconciliar com a santidade” já que, “sem ela, somos pedras, mas não vivas, somos pedras mortas”, afirmou que nos encontramos ainda “na órbita das portas do inferno”. E frisou que a santidade é a porta por onde entramos no mundo da misericórdia, cujo anúncio mais verdadeiro e escandaloso continua a ser a Cruz”. Ora, para o purpurado, “tomar maior consciência, redescobrir a grandeza e voltar a saborear a alegria desta nossa dedicação (a Deus): é a graça e a finalidade primeira desta nossa peregrinação”.
Saudando os peregrinos “com fraterno afeto em nome do Santo Padre Francisco”, manifestou a sua alegria em estar em Fátima a participar nas celebrações conclusivas dos 99 anos das aparições da Virgem Santíssima aos três pastorinhos Jacinta, Francisco e Lúcia, e exprimiu o sentido daquela magna assembleia nos termos seguintes:
“Meus irmãos e irmãs, somos um povo que está dedicado ao Senhor. A nossa assembleia, na sugestiva vigília mariana desta noite, e as próprias velas que trazemos na mão e quebram a escuridão da noite recordam-nos a dedicação de cada um de nós ao Senhor”.
Já, na saudação à Virgem, celebração que marcou, pelas 18,30 horas, o início formal da Peregrinação Internacional o chefe da diplomacia do Vaticano tinha convidado os peregrinos a rejeitarem a “corrupção e a mentira” e advertido para o facto de o mundo viver “seguindo a lei do mais forte e deixar-se tragicamente encantar pela mentira”. Num cenário em que “o mundo faz da corrupção o segredo duma vida bem-sucedida”, ao invés dos que se inspiram no Evangelho e “refulgem com a justiça e a fraternidade que jorram do coração da Santíssima Trindade”, o purpurado, na sua primeira visita a Portugal, diz-se “feliz por estar aqui, peregrino com todos vós, neste lugar onde se encontram o coração da Virgem Mãe e o coração da Igreja”, uma Igreja de “portas abertas” e de uma vida espiritual marcada pela “gratidão”.
Sobre as disposições de quem entra neste santuário assente que “quem entra cheio de gratidão nos corações da Mãe, da Igreja, de Cristo, não pode deixar de ficar maravilhado, vendo neles um modo de viver diferente daquele do mundo”. Porém, avisou, sobre as disposições de quem regressa, que as mesmas portas do santuário impelem a uma “saída”, o “compromisso de dar a conhecer a todos a existência, o carinho e o projeto que pulsa no coração da Mãe, no coração da Igreja, no coração da Trindade”. E concluiu, pedindo orações:
“Peço-vos para rezardes pelo Papa Francisco e por mim, para que também eu possa fazer esta mesma experiência. Ponhamos de lado qualquer temor e caminhemos, juntos, ao encontro do Senhor”.
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Na homilia da celebração da Missa de encerramento da peregrinação, no dia 13, Parolin apresentou a Virgem Maria como exemplo nos momentos de “dúvida” e “dor”, Ela que “sabe estar ao pé da Cruz” e, por isso, tem uma “missão materna” na Igreja. Nesse sentido, declarou:
 “Para muitos de nós, estes são momentos mais do que justificados em que o ‘coração’ se comprime, se fecha, se aniquila, rompe qualquer comunicação com tudo e com todos; mas não sucedeu assim com Maria”.
E acrescentou:
“Ao pé do Crucificado, o próximo são todos os discípulos e discípulas que Jesus ama; todos, sem excluir ninguém. Assim, ao pé do Crucificado, são próximo os discípulos e discípulas que fugiram”.
Recordando situações em que os fiéis colocam “em dúvida a fidelidade de Deus” ante os “inimigos”, os “lados obscuros da vida”, e, contrapondo a estas hesitações a convicção da fé da Virgem Maria, o cardeal da Cúria Romana observou:
“Ao pé do Crucificado, está disposta a atravessar uma das contradições mais dolorosas que uma mulher possa viver: a morte do seu próprio Filho; uma morte ainda mais gravosa, porque resultante da maldade dos outros”.
E acentuou que aqueles que amam “realmente” o próximo rejeitam as “regras, as ideias e os comportamentos dos fortes”, que se amam apenas a si mesmos, pois “os 'fortes' e os 'poderosos' amam os 'fortes' e os 'poderosos'”.
O secretário de Estado do Vaticano acabou por rogar aos peregrinos que todos saibam ser “construtores pacientes duma Igreja que anuncia o Evangelho não obstante as contradições e os lados obscuros da vida”.
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Parolin, que prometeu em Fátima que iria contar a Francisco a experiência que viveu nestes dias e que só não sabe se conseguirá fazer com que o Papa venha mais que um dia a Portugal, fez significativas declarações em Lisboa, no dia 12, centradas no mote “A Europa tem necessidade da palavra de Deus”.
O secretário de Estado do Vaticano sustentou que a União Europeia não consegue falar eficazmente a uma só voz perante as crises geopolíticas em curso e que é incapaz de enfrentar o crescimento duma cultura do medo. Disse-o no quadro duma intervenção na Universidade Católica Portuguesa – perante centenas de pessoas no auditório Cardeal Medeiros – sobre a “Identidade Europeia”, referindo que os recentes ataques terroristas de “matriz islâmica” levaram a um “curto-circuito do medo” e mostraram a necessidade de recuperar as “raízes culturais profundas do continente”. E alertou para a necessidade de não se “desvalorizar o crescente sentimento de medo e de insegurança nas populações europeias”, que evolui para a “recusa do outro”.
O conferencista assinalou que o medo pode causar “graves danos” às instituições democráticas e ao “sistema de valores” da Europa. E, admitindo a existência de “preocupações pelo futuro do projeto europeu”, sem esquecer os “resultados históricos obtidos”, o diplomata do Vaticano diz que é preciso debater o projeto da União Europeia, atualmente um “híbrido democrático” entre soberania nacional e soberania comunitária.
A intervenção começou por recordar o papel “imprescindível” do Cristianismo na construção da identidade europeia, convidando à redescoberta das “raízes cristãs” do continente, sendo que “a Europa tem necessidade da Palavra de Deus” – sustentou ao mesmo tempo que lamentava que, após as duas Guerras Mundiais, se assista à perda do “ideal” de unidade europeia, por “falta de valores comuns”.
Parolin endereçou também uma palavra especial à Universidade Católica, que se prepara para celebrar o seu cinquentenário, elegendo aquela instituição académica como “um dos frutos” da dinâmica gerada pelas aparições de Fátima.
O Magno Chanceler e Cardeal Patriarca de Lisboa Dom Manuel Clemente sublinhou que “poucos” como o secretário de Estado do Vaticano poderiam traçar o quadro atual da Europa, uma realidade que “aparece por ação de várias missões” cristãs, entre o século V e o século X, criando um continente como “espaço cultural”. E porfiou que, “nesta casa [UCP] juntam-se duas realidades que estão na alma da Europa: a Igreja e a universidade”.
Já a Reitora da UCP Maria da Glória Garcia agradeceu a “atenção” e a palavra que o cardeal italiano dedicou à instituição académica nesta visita a Portugal, “um suplemento de alma” para seguir em frente, e recordou que a universidade nasceu como “último ato” das comemorações do cinquentenário das aparições de Fátima.

2016.10.13 – Louro de Carvalho

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