domingo, 23 de outubro de 2016

A resposta de António Costa a questões incómodas

Para explicar aos socialistas o Orçamento do Estado para 2017, António Costa participou, na noite do dia 19, na conferência organizada pela Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) do PS, na sala do Jardim de Inverno do Teatro São Luiz.
Entretanto, não escapou a uma questão prévia que evitou durante o dia. Era a questão dos vencimentos dos administradores da CGD (Caixa Geral de Depósitos), que surgiu com indignação da parte duma mulher da plateia partidária. E o líder do partido respondeu: “Pode ser muito impopular o vencimento, mas não arrisco a má gestão da Caixa”.
Também um militante do PS, que tratou Costa por “meu camarada”, atirou que “é uma vergonha o salário do Presidente da Caixa Geral de Depósitos” e perguntou “como é possível alguém ganhar tanto dinheiro assim?”. E Costa fez um esgar de contrariado, ao ouvir a palavra “vergonha”, mas argumentou:
“A Caixa concorre no mercado como todos os outros bancos e tem de trabalhar no mercado como trabalham os outros bancos. Não é possível que tenha um ordenado alinhado pelo vencimento do primeiro-ministro [como pretende o PCP] e não pelo vencimento normal praticado na banca.”.
Mais referiu que a capitalização da CGD foi autorizada para que o banco público pudesse “funcionar normalmente no mercado e ser o grande estabilizador do nosso sistema financeiro e dar segurança a todos”. E gracejou: “Infelizmente o ordenado do primeiro-ministro é inferior ao praticado na banca”. E acrescentou:
“Se queremos uma Caixa bem gerida, com capacidade técnica e independência, temos de oferecer aos gestores da Caixa as mesmas condições dos gestores dos outros bancos. Se não, estamos a ter um banco a concorrer em condições de mercado inferiores.”.
É verdade que o vencimento do presidente da CGD é o terceiro mais vantajoso do setor bancário. O primeiro é o do presidente da comissão executiva do Santander e o segundo é o do presidente da comissão executiva do BPI. Fica, pois, numa posição intermédia.
O Presidente da República promulgou o decreto que permite tais vencimentos, mas, como é seu hábito, foi comentando que já havia casos em que no setor do Estado alguns gestores poderiam auferir vencimento superior ao do Primeiro-Ministro e que os gestores da banca privada, durante a crise, baixaram significativamente os seus vencimentos.
Ora bem. O Governo enfrenta um dilema: se encara a situação da CGD como de crise – este banco tem de ser capitalizado e em montante considerável –, não pode permitir a perceção de vencimentos desta grandeza; mas, se não permite estes vencimentos, não encontra gestores executivos que aceitem dar a cara pelo banco público, muito menos gestores profissionais. Ora, o novel presidente exigiu como condição prévia este tipo de vencimentos e a capitalização da Caixa nos montantes necessários, que as competentes instâncias internacionais autorizaram com a finalidade de que fala Costa. Além disso, estes vencimentos não estão alinhados pelo patamar maior nem pelo menor, mas pelo médio. É pena e não faz sentido que já se fale em prémios de desempenho, se ainda não há experiência bastante sobre consecução de objetivos estratégicos!
Porém, quando se fala da CGD, vêm à memória duas coisas: a nomeação por escolha política dos administradores (até houve tempo em que o presidente vinha da áreas do principal partido da oposição, realizando assim o bloco central de interesses); e casos de gestão ruinosa dos dinheiros e projetos do banco público. Quem não se lembra do “benemérito” Joe Berardo, que ocupa com uma coleção “arrendada” ao Estado grande parte do CCB e agora muito altruisticamente vai inaugurar em Lisboa dois novos museus com duas das suas coleções de arte? Ora uma das administrações da Caixa emprestou ao “benemérito” uma monstruosa quantia de dinheiro para este poder entrar na guerra de poder no BCP contra as mesmas ações que Berardo comprou no BCP como fiança, ações que foram desvalorizando cada vez mais e o devedor “aos costumes disse nada”. E o acionista Estado fez de conta que não percebeu. E este é só um dos casos que poderiam ser recordados no histórico gestionário da CGD.
Um alto vencimento não evita, por si, que a administração não cometa erros graves, mas torna difícil que o administrador tenha necessidade de se vergar à tutela para fazer o que ela lhe mande fazer caprichosamente. Por outro lado, evita que o administrador profissional se sinta dependente do poder político para sobreviver e dá ao acionista público lastro para exigir responsabilização pelos atos. Terá o Estado, liderado por António Costa e seus sucessores, essa capacidade de exigir a prestação de contas em assembleia geral da empresa ou teremos mais um caso de exercício e roda livre à custa dos depositantes e contribuintes? A CGD assim tem de pagar o investimento, dar lucro e realizar os fins sociais do Estado. Caso contrário, malditos vencimentos!
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Mas Costa não ia para falar da CGD. O líder quis garantir aos correligionários que “não há nenhuma proposta neste Orçamento que contrarie o que constava no programa eleitoral do PS”. E especificou, a começar pelos temas mais quentes, que a nova taxa adicional de IMI vai permitir seis anos extra de equilíbrio para o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social e que a sobretaxa se mantém além do dia 1 de janeiro do próximo ano (ao invés do que o Governo aprovara no final do ano passado), mas assegurando que a proposta de PSD e CDS era bem pior.
Passando em revista algumas das principais medidas do Orçamento do Estado para 2017, dedicou mais tempo à problemática do aumento das pensões, dizendo que houve algumas pensões que “apesar do congelamento não tiveram atualizações extraordinárias”, que há pensões mínimas que “nunca tiveram atualização e agora vão ter” e que “não se podem confundir pensões baixas com carências de recursos”. Com efeito, há pensões baixas no regime contributivo porque as pessoas descontaram pouco e durante pouco tempo, mas não apresentam carências económicas.
Em matéria de pensões futuras, o líder socialista explicou a predita garantia de seis anos extra de alívio para o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, com a receita da taxa adicional do IMI, que vai servir para “fortalecer o Fundo” e garantir “não o pagamento das pensões de 2017, mas das pensões futuras”. Fazendo contas à nova receita, disse:
“Permitiu alargar em seis anos o Equilíbrio do Fundo de Estabilização da Segurança Social, para mais de metade da década de 40 deste século”.
No atinente à sobretaxa de IRS – que vai desaparecer de forma faseada –, Costa nem chegou a ser questionado pelos socialistas que o viram a fazer aprovar no final do ano passado uma lei a definir que a cobrança acabava totalmente no dia 1 de janeiro de 2017. Apesar dessa atitude do auditório, o líder socialista antecipou argumentos, aduzindo:
“Fazer um Orçamento implica ter objetivos e fazer escolhas. Podíamos ter decidido não criar o adicional do IMI ou não acabar com a sobretaxa para ninguém”.
E, lembrando que a sobretaxa será eliminada em todos os escalões, em dezembro de 2017, disse:
“A proposta da direita era manter a sobretaxa até ao final da legislatura”.
Depois, explicou que a lógica em matéria fiscal foi a de “não aumentar os impostos que todos pagam e aumentar os que só alguns pagam”, referindo-se especificamente às alterações aos impostos, por exemplo, sobre refrigerantes, tabaco ou cartuchos de balas. E justificou a duplicação da taxa aplicada ao alojamento local (para a aproximação ao arrendamento normal), com o bom desempenho do setor do turismo, considerando que isso não afetará o mercado, pois “está aí o turismo para puxar pelo alojamento local” – posição que, momentos depois, havia de ser partilhada perante o auditório pela Secretária de Estado do Turismo Ana Mendes Godinho, que António Costa convidou a falar sobre este tema e que esclareceu que até agora “apenas 15% do rendimento era tributável” e passou a 35%, sendo que “este ano já foram legalizadas “10 mil unidades de alojamento local”.
Em síntese, apresentada pelo Observador de 20 de outubro, Costa apresentou as cinco marcas do Orçamento, na sua ótica:
- Aumento do rendimento disponível das famílias – que inclui a eliminação faseada da sobretaxa de IRS ao longo do ano, a extinção da Contribuição Extraordinária de Solidariedade, a atualização dos escalões de IRS de acordo com a inflação, a continuação do aumento do salário mínimo, o desbloqueio da contratação coletiva, mas principalmente do aumento das pensões: tanto a atualização de acordo com a lei de bases (em consonância com a inflação) como o aumento extraordinário de dez euros em agosto (excluindo pensões mínimas);
- Regresso ao investimento – com o esforço de “aumentar o investimento público” e “melhorar o investimento privado;
- Reforço da sustentabilidade da Segurança Social – com o escopo de reforçar as fontes de financiamento da Segurança Social, sendo neste ponto que o Primeiro-Ministro refere a criação do Adicional ao IMI cuja receita será usada para aliviar, em seis anos, a pressão sobre o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social;
- Competitividade – cuja “chave é investir na ciência e na cultura”, segundo a sua ótica;
- E dinamização da economia – embora se saiba que o “contexto não é favorável”, mas prevendo-se a desaceleração do crescimento da economia com a revisão em baixa.
Finalmente o dirigente socialista guardou uns minutos para falar dos “compromissos assumidos com o PCP, Bloco de Esquerda e Verdes” que “não contrariam” o programa do PS e que cumpriu “tudo” desses acordos que apoiam o XXI Governo no Parlamento. E, apesar das divergências em matérias europeias entre os parceiros, o Governo “cumpriu as regras que estão em vigor e continuará com a redução do défice nominal e estrutural” e obviamente honrará “os compromissos com a União Europeia”.
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Na verdade, não é nada fácil conseguir ganhar a batalha de todos os dias da negociação permanente com os parceiros políticos, ir cumprindo as regras europeias sem rastejar perante a Europa, satisfazer o compromisso partidário eleitoral e dar alguma impressão de que a vida esta melhor. Descaramento, habilidade ou realidade? Os portugueses julgarão a seu tempo e a do governante consciência julga diariamente!

2016.10-23 – Louro de Carvalho

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