sábado, 22 de outubro de 2016

Os Quatro Evangelhos por Frederico Lourenço

Para responder a dúvidas de leitores da revista Bíblica, que terão ouvido falar duma “nova Bíblia”, traduzida pelo professor Frederico Lourenço, Frei Herculano Alves, capuchinho, doutor e notável professor de Sagrada Escritura, dá a sua opinião limitando-se ao que se conhece neste momento: o I dos seis volumes prometidos (Os Quatro Evangelhos); e entrevistas publicadas em diversos jornais. Por outro lado, aduz que o tradutor se referira ao seu nome no atinente a traduções da Bíblia em Portugal e fizera considerações explícitas sobre a tradução que coordenara para a Difusora Bíblica, em 1998.
Concordo com o biblista crítico no sentido de que algumas tiradas de marketing jornalístico criaram confusões, a meu ver desnecessárias, que têm prejudicado a obra e o seu obreiro. Porém, concordo com Francisco José Viegas, coordenador da edição, quando replica que a crítica de caráter técnico será válida se tiver em conta a obra e a sua intenção. Porém, Herculano Alves não pode dizer que falta ao tradutor “a informação e a verdade exigidas para falar de um tema como este”. Teria razão se Lourenço pretendesse intrometer-se nos meandros da teologia sistemática a partir da Bíblia ou da teologia bíblica – o que, de facto, o tradutor não almeja.
Se não se vê motivo para nos impedirem de estudarmos os objetos e a linguagem mitológica de Gregos e Romanos ou de outras civilizações e culturas e mesmo os livros de outras religiões – já que não professamos as crenças que veiculam –, não creio que se possa estranhar que um leigo sem erudição académica teológica possa trabalhar o texto bíblico em si, desde que tenha em conta os materiais e os contextos de cada um dos livros, o tal Sitz im Leben próprio de que fala Herculano ou o “situs in viventia” das comunidades em que eles foram elaborados.
Por outro lado, quem está de fora em relação a uma determinada dinâmica e mística pode ver com olhos mais independentes determinadas situações históricas. Recordo que o livro Filosofia do Comunismo, de  Charles J MC Fadden, com prólogo de Fulton Sheen, analisava o tema de forma séria e isenta na sua Parte I: fundo histórico, filosofia na natureza, filosofia da inteligência, filosofia da história, filosofia do Estado, filosofia da religião, filosofia da moralidade, filosofia da revolução, filosofia da sociedade. Esta Parte I foi editada nos países de leste para elucidação geral. E, como era de supor, eliminaram a Parte II Crítica à Filosofia do Comunismo

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Do meu ponto de vista, não colhe a objeção de Lourenço ter decidido traduzir, sozinho, uma Bíblia. De facto, como ele próprio esclarece e Herculano admite, houve traduções feitas por um único tradutor: João Ferreira Annes d’Almeida, o padre António Pereira de Figueiredo e, já no séc. XX, o padre Mattos Soares. Herculano aduz que os dois últimos, católicos, traduziram da Vulgata latina e assegura que não é qualquer pessoa que tem capacidade para contestar essas traduções e reconhece que elas, apesar de terem defeitos, “têm as suas virtudes”. Porém, aponta-lhes “um defeito fundamental”, serem “obras de um único tradutor”. De João Ferreira d’Almeida diz ser duvidoso que tenha traduzido a Bíblia a partir do hebraico e do grego – isso, sobretudo no que diz respeito ao hebraico. Obviamente que se socorreu do material em voga ao tempo. Porém, não vejo que o defeito seja o ser obra de um só. Ninguém tem dúvidas sobre a validade dos trabalhos de Orígenes ou de São Jerónimo. Por outro lado, não parece líquido que Lourenço esteja sozinho. A edição tem um coordenador e há vários colaboradores. Leu muito e é provável que se socorra de trabalhos parcelares de outrem, designadamente de alunos.
Sobre a polémica da Bíblia dos Setenta, no seu texto introdutório, o tradutor esclarece o assunto, apesar da confusão vertida para os jornais e a que, em tempo, fiz referência. Além disso, a recensão bibliográfica menciona as edições da Bíblia grega que segue: “Septuaginta. Id est Vetus Testamentum graece iuxta LXX interpretes” (Edidit Alfred Ralphs. Estugarda, 1935, 2 vols.); e Novum Testamentum graece (Post Eberhard Nestle et Erwin Nestle….. Estugarda, 1979).
É claro que o professor-tradutor sabe que tem de vencer “a enorme distância entre a língua e cultura cristalizadas num texto-origem e a língua e cultura atual” e que cada livro da Sagrada Escritura “é diferente dos outros”, com o seu vocabulário técnico. Pelas introduções que o volume tem e pelas suas notas, Lourenço mostra dar-se conta de que o Novo Testamento possui um substrato semita e, sobretudo, mostra capacidade para fazer uma tradução aceitável da Bíblia neotestamentária.
Sobre os textos evangélicos Lourenço tem as mesmas dúvidas e as mesmas hipóteses que os biblistas têm atualmente sobre datação e autoria e a mesma perspetivação sobre destinatários, finalidade, contexto e mensagem. Pode é dizer-se que, neste aspeto, o seu trabalho não confere uma notável mais-valia. Não obstante, tem uma vantagem, que é sintetizar o que é diferente e próprio em cada um dos evangelistas a nível de conteúdo, linguagem e perspetiva.
Assim, lá nos dá conta do teor teológico e espiritual do Evangelho de João e da sua peculiar apresentação entitativa de Jesus, da extensão e da índole perfecionista do grego de Lucas e da forma empolgante como se inicia a narrativa vindo a aproximar-se em simplicidade do contexto dos destinatários, da abundância dos materiais de Mateus e da breve extensão de Marcos, sua sobriedade de linguagem, latinismos (incluindo o nome Marcus) e aspeto fontal para Mateus e Lucas.
Deixa a nu, sem preocupação de qualquer harmonização, os aspetos discrepantes dos Evangelhos sobretudo no atinente à narrativa da Paixão e da Ressurreição. Reconhece que seria mais cómodo às Igrejas apresentarem uma narrativa sem contradições, mas salienta a lisura da apresentação dos textos divergentes, apesar de saber que houve alguns Padres que fizeram a tentativa de apresentar um texto único harmonizado, sem que tal se tivesse imposto à tradição. No entanto, entende que tais divergências não se tornam obstáculo a que os livros constituam um excelente objeto de leitura e se prestem à conveniente leitura teológica, espiritual e de fé. E, não se esperando cultura teológica da parte de Lourenço, é interessante notar o que escreve a propósito do bom samaritano em nota a Lc 10,33:
Vendo-o, compadeceu-se: a utilização aqui do verbo splankhnízomai (condoer-se visceralmente) é sugestiva, dando a entender que, atrás da máscara do Bom Samaritano, está a figura do próprio Jesus. Com efeito, das 11 vezes (cf Mt 9,36*), que o verbo aparece em Mateus, Marcos e Lucas, é sempre usado com referência a Jesus ou a personagem que ele apresenta como alter ego de si próprio. É o próprio caso do rei que perdoa as dívidas em Mateus (18,27); em Lucas, além de do Bom Samaritano, temos o pai do Filho pródigo, que se condói visceralmente ao ver o estado em que o filho regressa a casa (15,20). – vd pg 262.
Obviamente que as notas referidas têm um discurso concordante com este (vd Mt 9,35; 18,27).
Porém, onde o contributo de Lourenço parece mais significativo é no entendimento próprio que dá aos textos em si. Em primeiro lugar, ressalta a afirmação que a língua do Novo Testamento é mesmo língua grega, tão grega como a dos clássicos, a ponto de ver nalguns segmentos textuais a mesma cadência que vê em Homero. Todavia, chama a tenção para a evolução normal da língua ao longo do tempo e para as diferentes realizações culturais. Por outro lado, embora veja, por exemplo, no prólogo de João, forte arroubo poético, refere que se desvia da poesia grega clássica em termos da estrutura formal. Mas, para si, o grego do Novo Testamento não é uma língua à parte. Não tenho, entretanto, como seguro que ele tenha captado o sentido exato de diversos termos na dinâmica evangélica como, por exemplo, no caso do significado do verbo kharitóô. Chamar a Maria “favorecida” parece pouco ou não perceber a força do semitismo importado do Antigo Testamento pela via do midrash e do agadah. Algo parecido se deve dizer do significado do vocábulo parthénos, que efetivamente, tal como a correspondente hebraica almá, não significa “virgem”, mas uma jovem solteira, ou do vocábulo adelphoi, que, embora signifique “irmãos uterinos”, não tem sido assim entendido pelos católicos. Aqui, o tradutor pode legitimamente esquecer o entendimento que os Padres Apostólicos e os Padres da Igreja deram a este e a outros vocábulos bíblicos no contexto da economia da Salvação.
Porém, em segundo lugar, é preciso dizer que estes aspetos mais críticos não invalidam o precioso contributo que Lourenço dá aos estudos da Bíblia. Assim é de ter em conta a vasta informação que dá sobre a filologia e a história do texto com base no significado helenista – embora imbuído de algum fumo hebraico – das palavras e nos respetivos contextos e na abertura aos diversos sentidos, que é bom assumir. Dou, a título de exemplo, o duplo sentido que dá ao termo lógos, no prólogo de João, ou o múltiplo sentido que dá à palavra amartía (erro, dívida, desvio, pecado) ou o comentário que faz ao hebraico amen. Mas salienta as marcas de oralidade expressas na abundância e diversidade de elementos de ligação (vg: e, porém, eis que, sucedeu que,…) e ritmo oralizante, já que os textos foram escritos para serem lidos em voz alta e serem ouvidos.
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Tem, depois, um útil quadro alfabético-temático dos Evangelhos. Como é natural, apesar da sua utilidade, não está imune de falhas. Por exemplo, não localiza nos Evangelhos, pelo menos dois, a flagelação ou açoitamento de Jesus (Marcos 15,15; e João 19,1) e deslocou para Lucas o episódio da adúltera, que é de João 8,1-11. No entanto, não deixa de ser um interessante quadro sinótico.
Finalmente, há que dizer que Lourenço faz uma tradução tanto quanto possível fora do comum, mas o mais perto possível do texto grego, para que se sinta melhor o ritmo e o fluir semita do texto. Estranho, mas não percebo por que motivo se criticaria este tradutor quando, por exemplo Dom António Couto, um dos nossos melhores biblistas, também o faz em relação aos textos no Novo Testamento e à Bíblia hebraica. Aliás, aprecio em Lourenço as omissões do verbo em alguns segmentos em que ele não está expresso no grego, por exemplo, em Pai nosso nos céus (Mt 6,9), Paz para vós (Jo 20,19.21.26), Deus connosco (Mt 1,23). Não vejo, porém, porque não refere para Maria, O Senhor contigo (Lc 1,28) em vez de O Senhor está contigo, embora está venha entre < >, <está>.
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Ora, apesar de a tradução em causa não ter o valor duma Bíblia cristã propriamente dita, pois esta é “o livro da fé de um povo, dirigido a um povo de fé”, nem por isso se pode considerar obra pequena esta tradução cultural da Bíblia, podendo mesmo constituir um contributo excecional, mas válido para o estudo e a divulgação da Bíblia. De facto, é de salientar a sua fidelidade à filologia, ao valor denotativo das palavras, bem como a semântica, género literário, conotações, simbologia e até, sem ser este o escopo, a muitas das palavras da linguagem cristã, usadas através dos séculos para transmitir as verdades da fé. Vale a pena ler!

2016.10.22 – Louro de Carvalho

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