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domingo, 13 de outubro de 2019

Em Fátima, paz foi a intenção central da Peregrinação de outubro de 2019


Foi a intenção da paz que levou Dom Andrew Yeom Soo-jung, Cardeal sul-coreano e Arcebispo de Seul, a aceitar o convite para vir a Fátima presidir à Peregrinação Internacional Aniversária da 6.ª Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria, para a qual se inscreveram no Santuário 157 grupos de mais de três dezenas de países, entre eles muitos da Ásia. Disse o purpurado asiático na conferência de imprensa que antecedeu o início da peregrinação na tarde do dia 12, no final de uma intervenção que percorreu a história da evangelização da Coreia do Sul:
Na Coreia, a oração pela paz é diária. Vim a Fátima, sob o manto de Maria, trazer essa intenção pelos que sofrem e são torturados, na península coreana.”.
A paz é também uma das preocupações que traz a esta Peregrinação o prelado de Leiria-Fátima, que lembrou a ameaça da nova frente de guerra iniciada contra os curdos, na Síria (já morreram pelo menos 440 combatentes curdos das Forças Democráticas Sírias). 
Tanto Dom Andrew Yeom Soo-jung como Dom António Marto apontaram a paz como primeira intenção para as celebrações destes dois dias (12 e 13), na Cova da Iria. A respeito da paz e do Santuário, o prelado fatimita afirmou:
A presença do arcebispo de Seul quer ser um sinal da atenção que o Santuário de Fátima dedica à paz, bem como ao crescente número de peregrinos que aqui afluem vindos da Coreia do Sul e de toda a Ásia”.
Porém, o Cardeal Dom António Marto não esqueceu o que se passou a 6 de outubro e alertou para a importância de uma maior consciência democrática. Debruçando-se sobre a atualidade nacional, o purpurado congratulou-se com a “maneira cívica” como decorreram as eleições legislativas do passado fim-de-semana, mostrando-se, no entanto, preocupado com os “níveis tão elevados de abstenção” e a “crescente onda de populismos”, que, em sua opinião, exigem uma “elevação da qualidade da atividade política” e uma maior consciência democrática.
É preciso responder às questões de fundo da sociedade. A classe política deve mostrar que tem classe!” – afirmou deixando votos para que a nova legislatura traga “paz social; estabilidade; uma maior atenção à solidariedade social, para com os mais pobres, frágeis e vulneráveis e para com as instituições de solidariedade que a eles se dedicam”.
No âmbito da Igreja universal, Dom António Marto sublinhou a “especial importância para a Igreja” do Sínodo sobre a Amazónia, que está a decorrer no Vaticano, dizendo:
Podemos dizer que a Amazónia é um lugar concreto onde se centram e manifestam os grandes desafios globais do nosso tempo e onde se retomam as grandes linhas pastorais do Santo Padre”.
Ao nível da Igreja em Portugal, lembrou o encerramento do Ano Missionário, convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa – dentro do mês missionário extraordinário, proclamado pelo Papa – que acontecerá a 20 de Novembro, no Santuário de Fátima, evocando o seu propósito:
A finalidade deste Ano Missionário era dar um abanão à Igreja, para reavivar o ardor e a paixão pela missão de Jesus e reacender o dinamismo missionário de uma Igreja em saída da sua zona de conforto e da sua autorreferencialidade”.
Na sua intervenção, o purpurado português referiu-se ainda à viagem apostólica que o Papa vai fazer ao Japão e à Tailândia, no próximo mês, e às canonizações que hoje, dia 13, tiveram lugar em Roma, nomeando, pela “particular atualidade”, os nomes da Irmã Dulce Lopes Pontes, que se distinguiu pelas suas obras sociais em favor dos mais pobres, e o Cardeal Dom John Henry Newman, percursor e inspirador do Concílio Vaticano II.
Por seu turno, o Reitor do Santuário destacou a ida da Imagem Peregrina ao Panamá como um dos momentos altos da dinâmica pastoral do Santuário em 2018-2019 e deixou um balanço prévio do presente ano pastoral, relevando a continuidade da estabilização do número de peregrinos em Fátima, ao apresentar dados que revelam a participação de cerca de 4,5 milhões de peregrinos nas celebrações do Santuário nos primeiros 9 meses de 2019. E, sobre a dinâmica pastoral na Cova da Iria em 2018-2019, o Padre Carlos Cabecinhas destacou como um dos momentos mais marcantes a ida da Imagem Peregrina de Nossa Senhora ao Panamá, à Jornada Mundial da Juventude, lembrando o programa paralelo que levou a Virgem Peregrina aos lugares mais periféricos daquele país, como foi o caso da visita a uma prisão, a um hospital oncológico e a um bairro degradado. A este propósito, revelou:
Um dos frutos desta visita vai ser anunciado amanhã (hoje, dia 13) pelo senhor Arcebispo do Panamá: a construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima, na cidade do Panamá”.
E vincou que um o núcleo desse santuário será uma réplica da Capelinha das Aparições.
Sobre o presente ano pastoral, o Padre Cabecinhas destacou ainda o incremento que o Santuário levou a cabo nas ações de formação, nomeando algumas das iniciativas que concretizam esta aposta: as diversas propostas formativas, de caráter espiritual e de aprofundamento da mensagem de Fátima, oferecidas pela Escola do Santuário; e a promoção de atividades de reflexão e estudo sobre Fátima, quer nos espaços do Santuário, quer fora dele, na participação de fóruns de reflexão mais alargados.
Por fim, destacou a “especial atenção que o Santuário deu ao acolhimento dos peregrinos mais frágeis” neste ano, nomeadamente através dos retiros de doentes, das férias para pais de filhos com deficiência, da peregrinação dos idosos e da aposta no acolhimento inclusivo através de propostas para a comunidade surda portuguesa. E concluiu:
Procuramos que o Santuário seja, cada vez mais, lugar de acolhimento da fragilidade, na linha daquilo que tem defendido o Papa Francisco”.
***
No momento da saudação à Virgem, na tarde do dia 12, o Cardeal Dom António Marto renovou o pedido de Nossa Senhora aos pastorinhos, desafiando os peregrinos a rezarem o terço todos os dias pela paz nas famílias, nos países e no mundo, em especial na Coreia e na Síria, vincando:
Neste mês de outubro comemoramos Nossa Senhora como a Senhora do Rosário. Foi assim que Ela se apresentou aos Pastorinhos pedindo-lhes que rezassem o terço todos os dias. Também nós, hoje, queremos apelar à oração pela paz nas famílias, nos países e no mundo, mas em especial na Coreia e na Síria.”.
Em sintonia com o Santo Padre, disse que, “nesta peregrinação de outubro, mês missionário extraordinário, queremos ter em intenção esta vontade do Papa para que o sopro do espírito frutifique no coração dos homens” e sublinhou “o afeto e comunhão” com os cristãos católicos da Coreia e de toda Ásia que “aqui vêm em número tão expressivo”. Disse que a presença do cardeal sul-coreano nos alegra muito e permite exprimir o afeto e comunhão com os cristãos católicos da Coreia e de toda a Ásia” e assegurou que o caminho que faz cada se peregrino torna “uma expressão viva da peregrinação interior”, que, por mais dolorosa que seja, se faz “sempre com esperança porque sabemos que, no termo do caminho, alguém nos espera e espera por nós”.  
E rematou com a afirmação de que “a peregrinação é uma viagem com fé”.
Por sua vez, o prelado asiático garantiu:
Eu sou peregrino como vós, também venho em peregrinação ao encontro da Mãe. Vamos rezar e pedir a Nossa Senhora de Fátima pela paz no mundo e pela nossa conversão.”.
Um manto de luz voltou a cobrir o Santuário de Fátima este sábado à noite, durante a recitação do terço (em que a oração de alguns dos mistérios foi assegurada pelo menos por três línguas asiáticas: indonésio, coreano e tagalog) e na Procissão das Velas.
E, na homilia da Missa da vigília – concelebrada por 178 sacerdotes, 6 bispos e dois cardeais e em que a oração dos fiéis teve uma prece em coreano, centrada na questão da Paz – o Cardeal Arcebispo de Seul recordou a história do país, marcada pela “provação” ao longo do século XX, para assinalar que, apesar de todas as perseguições e “tragédias”, a fé do povo coreano não esmoreceu, como nunca é destruída a fé de um povo, se ela for entendida como uma missão. Pediu a paz e a reconciliação para a Península Coreana e rezou “pelo fim dos conflitos e das divisões”, apelando:
Peço as vossas orações pela paz e pela reconciliação na Península Coreana, pelos vossos irmãos e irmãs na fé, geograficamente distantes, mas unidos pela presença de Deus. Orai connosco pelo fim dos conflitos e das divisões na península.”.
E, em dado momento, observou:
A fé, a missão como povo de Deus, continua, não obstante a tragédia da destruição do templo e do exílio da comunidade. O templo foi, durante muitos séculos, central para o culto de Israel, mas não é essencial. Deus permanece connosco.”.
Sublinhando a importância do Santuário como “o verdadeiro centro da comunidade”, disse:
 Cada geração tem celebrado a presença de Deus refletindo a sua própria história de salvação”.
Sobre as sombras da história do seu povo, vincou: 
Foi um período de provação para a nossa nação e a nossa comunidade de fé. A combinação do colonialismo japonês e dos comunismos vizinhos da Rússia e da China marcou a entrada da Coreia numa era turbulenta de dominação estrangeira. Logo após a libertação colonial em 1945, a nação viu-se dividida: Norte versus Sul, comunista versus capitalista. (…) Cinco anos depois, a guerra devastou a península por três longos anos, causando morte, destruição e a divisão de muitas famílias. Infelizmente, a guerra trouxe uma divisão ainda mais profunda e hostilidade mútua entre o Norte e o Sul. Passadas sete décadas, desde 1950, a nação continua dividida e a reconciliação permanece inalcançável.”.
Lembrando que é também administrador apostólico de Pyong-yang, capital da Coreia do Norte, país que nunca foi autorizado a visitar, confidenciou:
Acredito que Nossa Senhora de Fátima, que apareceu há 100 anos, nos instaria hoje a trabalharmos e a orarmos pela paz neste nosso século. (…) Ela representa para nós a grande medianeira, apoiando a nossa jornada de fé até ao Senhor. Além disso, a nossa Santa Mãe não está apenas a orar por nós, mas está também a ensinar-nos: ‘Fazei tudo o que ele vos disser’ (Jo 2,5). As palavras de Santa Maria chegam-nos como um convite para sermos ‘abertos na presença de Deus’, tal como os israelitas que celebraram a reconstrução do templo.”.
***
Hoje, dia 13, na homilia da Missa Internacional Aniversária, concelebrada por 2 cardeais, 11 bispos e 232 presbíteros, Dom Andrew Yeom Soo-jung salientou a importância do louvor a Deus e apresentou a oração, a Eucaristia e a evangelização como expressões de agradecimento a Deus pela “dádiva da salvação”. Disse ele:
No Evangelho, ouvimos a narrativa de São Lucas acerca da cura dos dez leprosos. Estes leprosos gritaram a oração que deveria ecoar no nosso coração: ‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós’. Como reagimos a esta dádiva de uma nova vida? Nós fomos perdoados. A nossa lepra foi purificada. Precisamos de seguir o exemplo de Naamã e do leproso samaritano. Precisamos de dar meia-volta e dar graças a Deus.”.
Bem podia ser este o legado da peregrinação:Dar meia-volta e dar graças a Deus”. Com efeito, é preciso confiar na Misericórdia de Deus, pedir perdão e agradecer o perdão.
Ao evocar o Milagre do Sol, ocorrido na Aparição de 13 de outubro de 1917, como sinal da intervenção de Deus “nas leis da natureza” e “na luta contra o Mal”, o prelado apresentou os ensinamentos da Bíblia e o acontecimento de Fátima como garantia da presença inequívoca de Deus na vida de cada homem, garantindo:
As aparições de Nossa Senhora em Fátima dizem-nos que, apesar das dificuldades, nunca estamos sós. Aprendemos que, se as dificuldades existem, Nosso Senhor e Nossa Senhora estarão presentes para nos ajudarem nas nossas necessidades. Não nos esqueçamos de que na nossa Santa Mãe encontramos a ajuda e o apoio necessários para enfrentarmos os muitos desafios que inevitavelmente enfrentamos enquanto seres humanos.”.
Tomando como exemplo o fiat de Maria: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segunda a vossa palavra” – que foi tema da última Jornada Mundial da Juventude, no Panamá –, o cardeal sul-coreano exortou os peregrinos a responder com “humildade, confiança e coragem” às graças, bênçãos e misericórdia com que Deus reconforta a humanidade. E, perspetivando a Jornada Mundial da Juventude de 2022, em Lisboa, como uma ocasião para “proporcionar aos jovens uma visão de um mundo melhor e encorajá-los a encarnar Cristo no nosso tempo”, o Cardeal Arcebispo de Seul incentivou a assembleia a participar naquele encontro, pedindo, no final da homilia, a oração pela paz e reconciliação das Coreias.
***
Na palavra dirigida aos doentes, durante o momento de Adoração ao Santíssimo Sacramento, o Padre José Nuno Silva apresentou o acontecimento de Fátima como a resposta compassiva de Deus ao sofrimento humano. Começou por interrogar:
Quem não conhece a sensação íntima de sofrimento que faz o coração lançar-se para Deus: ‘tem compaixão de nós, tem compaixão de mim?’.”.
Depois, apresentando Deus como lugar certo para recorrer no sofrimento e estabelecendo um paralelo com o episódio da cura dos leprosos, narrado no Evangelho, garantiu:
Quando Deus aconteceu maternalmente em Fátima, nas aparições da Sua e nossa Mãe, veio responder a esta prece: ‘tem compaixão de nós’. A todos, a cada um, ele quer oferecer a experiência de se sentir salvo no seu sofrimento.”.
E prosseguiu, identificando Fátima como lugar que “ensina a voltarmo-nos para Deus”:
Ainda que não vejamos a cura, somos salvos, como atesta a resposta que Jesus deu ao único leproso que se voltou para ele não apenas para suplicar, mas para agradecer. Voltar-se para Deus no sofrimento – eis o que salva e nos permite sentir a salvação: voltar-se para Deus no sofrimento.”.
Evocou o sofrimento voluntário dos pastorinhos e o seu contributo para a causa de Deus e disse:
Voltar-se para Deus no sofrimento salva, diz Fátima. E não salva apenas o que sofre. Aprendemo-lo com São Francisco e Santa Jacinta Marto. Ofereceram-se a Deus e transformaram cada sofrimento num ato missionário. (…) Sem saírem de Fátima, como Santa Teresinha sem sair do Carmelo e, no entanto, proclamada padroeira das missões, foram missionários universais no sofrimento e pelo sofrimento.”.
Ao lembrar o mês de outubro dedicado às missões, o sacerdote desafiou os doentes a participar na missão da Igreja, apesar da doença:
A doença coloca-vos na fonte e no coração da missão da igreja: no sofrimento, podeis escolher ser páscoa, podeis decidir viver em Páscoa e podeis voluntariamente anunciar a Páscoa, com a autoridade das testemunhas, que só o sofrimento oferecido dá”.
E exortou os doentes que recebiam a bênção do Santíssimo Sacramento a “transformarem o sofrimento em ato de amor missionário para a salvação da humanidade”.
***
Por fim, o Cardeal Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, deixou a última palavra enaltecendo a coragem e a fé dos peregrinos de várias nacionalidades que, apesar do frio e da chuva, encheram o Recinto de Oração. Agradeceu a presença do Cardeal Dom Andrew Yeom Soo-jung e elogiou o testemunho “belo” de fé que o povo coreano tem dado ao longo da sua caminhada em Igreja, destacando o papel que Nossa Senhora de Fátima tem assumido como fonte de conforto neste percurso de fé. E assegurou que Fátima é conforto para o povo Coreano, dizendo:
No meio das provações, o povo cristão da Coreia encontrou apoio, ajuda e conforto na Santa Mãe Celeste e na Mensagem de Fátima”.
E concluiu dirigindo uma saudação final aos peregrinos, em especial aos doentes ali presentes, a quem se uniu espiritualmente em oração.
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É Fátima no seu melhor, no dinamismo evangelizador que inspira o ser e a missão do Santuário!
2019.10.13 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Um Bispo cujo pastoreio foi bastante meteórico


No dia 11 de outubro de 1966 (já lá vão 53 anos), celebrou-se na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, no Santuário de Fátima, a sagração (designava-se assim a ordenação episcopal) de Dom Américo Henriques, que Paulo VI nomeara por Bispo titular de Tisíli e Bispo auxiliar de Lamego a 5 de julho daquele ano e que, a 17 de abril de 1967, veio a nomear Bispo Coadjutor de Lamego, com direito a sucessão. Não fiz parte do grupo de Lamego que foi a Fátima, mas ouvi o relato que um dos contemplados com a viagem nos fez das cerimónias e de algumas impressões que padres da diocese de Leiria-Fátima terão comunicado sobre o novel prelado, sintetizadas na frase metafórica: Levais para Lamego o nosso melhor vinho.
O dia 11 de outubro não foi escolhido por acaso. Era o dia da festa da Maternidade de Maria, que foi estabelecida por Pio XI em 1931, por ocasião do 15.º centenário do Concílio de Éfeso em que o dogma da maternidade foi proclamado. Com efeito, Maria é Mãe de Jesus, porque Lhe deu o corpo e o sangue. O Filho de Deus, porque incarnou verdadeiramente d’Ela, é seu Filho. A este respeito, escrevia São Pio X na Encíclica Ad diem illium, de 2 de fevereiro de 1904:
Exortando-nos a venerar assim a Mãe do Salvador, a Santa Igreja quer despertar em nós sentimentos de amor filial para com Aquela que Se tornou, na vida da graça, nossa verdadeira Mãe por nos ter dado o Autor da vida. Todos nós, que vivemos unidos com Jesus Cristo e fazemos parte do seu corpo místico, saímos do seio de Maria como corpo unido com a cabeça. É Mãe de todos nós, Mãe espiritual, mas verdadeiramente Mãe dos membros de Cristo.”.
Com a reforma litúrgica na sequência do Concílio Vaticano II e com a subsequente reforma do calendário litúrgico, a festa passou para o dia 1 de janeiro, termo da Oitava do Natal, sob a designação de Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, na abertura do ano civil.
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Dom Américo Henriques, filho de Luís Henriques e de Ana de Jesus, nasceu a 6 outubro de 1923 em Alburitel, à época da freguesia de Seiça, concelho da Vila Nova de Ourém, da diocese de Leiria-Fátima.
Fez os seus estudos no seminário da sua diocese. Foi enviado para Roma em 1946, onde se licenciou em Teologia e Sagrada Escritura, na Universidade Gregoriana e no Pontifício Instituto Bíblico, respetivamente. Foi ordenado sacerdote em Roma, em 19 de julho de 1947. Regressou a Portugal e logo exerceu vários cargos: professor, vice-reitor e reitor do seminário de Leiria.
Feito sucessivamente Bispo Auxiliar e bispo Coadjutor de Lamego, como se disse, passou a Bispo residencial em 2 de fevereiro de 1971, por motivo de resignação de Dom João da Silva Campos Neves. E, a 19 de fevereiro do ano seguinte, foi transferido para a diocese de Nova Lisboa (agora arquidiocese de Huambo), vacante há quase dois anos, por morte do seu primeiro Bispo, Dom Daniel Junqueira. Estava esta diocese angolana a cargo do Padre Delfim da Silva Pedro, administrador apostólico, que passou, após a nomeação de Dom Américo, a governador da diocese até à posse e entrada solene do prelado.
O Padre Agostinho Ekongo, na rubrica “A Arquidiocese do Huambo desde as suas origens”, dá-nos informação detalhada sobre o exercício episcopal de Dom Américo Henriques, que tomava posse da diocese dois anos depois da morte de Dom Daniel Junqueira. Chegou ao Aeroporto de Nova Lisboa às 7,45 horas do dia 29 de junho de 1972, provindo de Luanda. Aguardavam-no centenas de pessoas de todas as classes sociais, muitos sacerdotes e muitas religiosas, bem como as autoridades civis do então Distrito do Huambo, as autoridades militares, judiciárias e académicas e os Bispos de Carmona (Uige), Dom Francisco da Mata Mourisca, de Benguela, Dom Armando Amaral dos Santos, e de Silva Porto (Kuito-Bié), Dom Manuel Antonio Pires.
À saída do avião, depois de ter ajoelhado em terra, em breve oração, Dom Américo Henriques que era acompanhado desde Luanda por Dom Eduardo André Muaca, em representação do Arcebispo de Luanda, Dom Manuel Nunes Gabriel, foi cordialmente saudado pelo Governador do distrito do Huambo, o Dr. Mário Pereira de Matos, pelo Presidente da Câmara Municipal de Nova Lisboa, Jaime Silva, pelo Comandante da Zona Centro, pelo Comandante Distrital da Polícia de segurança Pública e outras individualidades de relevo. Ainda na pista do Aeroporto, o novo Bispo diocesano saudou todos os habitantes da diocese de Nova Lisboa, através dos microfones da Rádio Clube de Nova Lisboa.
Recebidos os cumprimentos dos sacerdotes, das religiosas e das muitas pessoas que enchiam as salas e as varandas da aerogare, o Bispo dirigiu-se em cortejo automóvel para a Casa Episcopal e com ele os outros Bispos e as autoridades, bem como todos que o aguardavam.
Às 9,30 horas, realizou-se a sessão solene de boas vindas, no salão nobre do Paço do Concelho de Nova Lisboa, com a presença das individualidades mencionadas acima. Tomou a palavra o Presidente da Câmara, em nome da cidade, a que se seguiu o Governador em nome do Distrito e, por fim, Dom Américo Henriques.
Foi servido o almoço de confraternização no Seminário Maior de Cristo Rei de Nova Lisboa, com a presença dos bispos já referidos, das superioras das restritas ao Bispado, as representantes das várias Congregações Religiosas a trabalhar na diocese, masculinas e femininas e dos alunos do Seminário Maior.
O Padre Dr. José Adílio Barbosa de Macedo, reitor do Seminário Maior de Cristo Rei, usou da palavra para exprimir a alegria de toda a diocese pela presença do seu Pastor, há tanto tempo esperado. E o Bispo falou da sua disponibilidade ao serviço da diocese e disse que contava com a colaboração e amizade dos sacerdotes, sem dúvida, a parte mais querida para um bispo.
Às 18,30 horas, na Sé Catedral, iniciou-se a celebração da Missa que marcou a tomada de posse do prelado com a presença dos bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, autoridades civis, militares e policiais e considerável presença e participação de leigos e de diversos responsáveis de grupos apostólicos. Presente na solene celebração eucarística para transmitir em direto esteve a Rádio Clube de Nova Lisboa, bem como os órgãos de imprensa “O Planalto” e “A Província de Angola”, que fizeram a cobertura de todo acontecimento.
Depois da Missa, seguiu-se o jantar de confraternização no Palácio do Governo oferecido pelo Governador, com a presença dos Bispos, Presidente da Câmara, Comandante da zona Militar, Representante da Universidade, Juiz da Primeira Vara, Padre Delfim da Silva Pedro, que exercera o múnus de Administrador Apostólico e, depois, o de governador do Bispado e o secretário de Dom Américo Henriques, o Padre Adelino Rodrigues Ferreira.
No dia 19 de julho de 1972, o pelado celebrou os 25 anos do seu sacerdócio, tendo presidido na Sé Catedral à concelebração de cerca de 80 sacerdotes e ordenado um diácono e um presbítero. Participaram muitas religiosas, leigos e autoridades, destacando-se o Governador do distrito. À homilia, o Bispo agradeceu a presença amiga de todos, evocou os 25 anos do seu sacerdócio e, dirigindo-se aos ordenados, convidou-vos a seguir o exemplo de Cristo, que veio não para ser servido, mas para servir, que fez e ensinou, que encaminha o rebanho marchando à frente. Depois, lembrou aos sacerdotes que se tornaram ministros de Deus, servos da Igreja e homens dos homens e pediu aos cristãos que orassem constantemente a fim de que o Espírito de Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, se comunicasse a todo o Presbitério, de modo que os sacerdotes se assemelhassem efetivamente no ser e no múnus a Cristo Sacerdote eterno.
No ano seguinte, a 6 de outubro, Dom Américo celebrou os seus 50 anos de vida, em que deu graças a Deus pela vida, pela fé e pelo sacerdócio.
Segundo o Padre Ekongo, o período de serviço deste prelado foi breve, mas cheio de vitalidade. À luz do Concílio Ecuménico Vaticano II, procurou reorganizar a vida missionária e pastoral da diocese. Assim, no dia 3 de setembro de 1973, lançou as bases do Secretariado Diocesano de Construções, instalando um gabinete próprio na casa Episcopal cuja competência se espelhava na elaboração de projeto e plantas e na orientação de construção de igrejas e outras obras diocesanas. E, para dirigir este secretariado, chamou o Padre Boaventura Domingos.
Por decreto episcopal de 7 de outubro de 1973, criou a Missão Feminina da Calomanda, que foi confiada ao Instituto das Cooperadoras da Família. Ainda dentro das suas competências, Dom Américo, a 16 de novembro de 1973, publicou dois decretos a criar o Secretariado Diocesano do Ensino Religioso Médio e o Secretariado Diocesano do Ensino Primário nas Missões. O primeiro foi confiado ao Padre José Adílio Barbosa de Macedo e o segundo ao Padre Jacinto Gole. Ao longo do seu episcopado dois sacerdotes do clero diocesano foram nomeados e depois sagrados Bispos: Dom Zacarias Kamwenho, a 23 de novembro de 1974; e Dom Francisco Viti, a 28 de setembro de 1975. Com a sagração episcopal de Dom Zacarias, então vigário geral, nomeou vigário geral o Padre Eugénio Salessu, do clero diocesano.
Soprando os ventos da independência, pairava em Angola um clima de incerteza e turbulência, pelo que muitos missionários deixaram Angola. Para o Bispo diocesano, chegou também o momento de tomar uma decisão. E, a 30 de setembro de 1975, comunicou a sua decisão de sair da diocese, decisão já aceite pelo Delegado Apostólico. Na sequência, reuniu o conselho dos consultores para constituir o grupo do governo da diocese. Assim, criou um Conselho de Governo constituído pelos Padres Eugénio Salesu (mais tarde Bispo de Malange), vigário geral e presidente do grupo, Pedro Luís António, Camilo Cangumbe, Tomás Pilartes da Silva, Celestio Wilala e Bernardo Bongo, este último dos missionários do Espírito Santo.
Dom Américo deixou a diocese a 7 de outubro de 1975, num avião da Cruz Vermelha. Neste mesmo avião viajaram as últimas Irmãs do Instituto de Auxiliadoras de Família que durante três anos prestaram relevante trabalho na Casa Episcopal e fundaram a Missão Católica feminina da Calomanda. São ignoradas as causas da renúncia, mas é natural que temesse pela segurança pessoal e não quisesse obstar à nomeação dum bispo autóctone. A verdade é que Dom Américo tomou a decisão e, naquele ano, regressou a Leiria-Fátima, onde viveu o resto da sua vida sem mais ter assumido uma diocese, mas só passou a Bispo emérito a 13 de abril de 1976.
Faleceu com 82 anos, no dia 14 de agosto de 2006, na Casa do Clero, em Fátima. O funeral realizou-se dois dias depois, na Catedral de Leiria, seguindo o corpo para a sua terra natal. As exéquias fúnebres realizaram-se no dia 16, na Sé de Leiria, sob a presidência de Dom Serafim de Sousa Ferreira e Silva, Bispo emérito de Leiria-Fátima.
O Padre José Luís Ferreira, pároco da freguesia de onde o Bispo emérito do Huambo era natural, dizia que “é com um sentimento de admiração e serenidade que o povo de Alburitel vai recordar Dom Américo Henriques”. O Bispo “era uma pessoa que se mantinha próxima”, que “mantinha a sua residência junto à igreja paroquial” e que “todas as semanas regressava a Alburitel”, revelando até ao fim um afeto muito próximo com as pessoas da terra, fruto do qual é a doação da sua residência à paróquia e de um contributo para ajudar a erguer um monumento mariano. E referia o sacerdote: “Vou recordar o Bispo corajoso e fiel que foi”.
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Regressado de Nova Lisboa (Huambo) a Leiria, foi professor de Sagrada Escritura no Instituto Superior de Estudos Teológicos, em Coimbra, e no Seminário Diocesano de Leiria, onde passou a residir em ambiente de recolhimento. Versado em hebraico, grego e latim, bem como em várias outras línguas, foi um dos maiores especialistas em estudos bíblicos do seu tempo, tendo colaborado na tradução de várias edições da Bíblia para português. A vida espiritual intensa, a atitude contemplativa perante a natureza e a extrema simpatia e humanidade com que se relacionava com todos foram suas caraterísticas marcantes.
Os estudos bíblicos constituíram um interesse permanente na sua vida e ministério sacerdotal e episcopal. Colaborou na versão da Bíblia em português, designadamente com a tradução e notas do Cântico dos Cânticos, da Carta de Tiago, da Carta de Judas e do Apocalipse, para Bíblia Sagrada, da MEL Editores (maio de 2013), edição a partir da Bíblia Ilustrada da Editorial Universus (direção do cónego José Galamba de Oliveira, de 1959 a 1970) e com a com a tradução do 1.º Livro das Crónicas e do Evangelho de Marcos, para a mais recente edição da Bíblia Sagrada editada pela Difusora Bíblica (1998 e 2018).
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Em Lamego, só foi Bispo residencial durante um ano, embora tenha sido Bispo Auxiliar e Coadjutor durante quase 5 anos. Portanto, a sua obra não se evidenciou. Não obstante, revelou-se um Bispo próximo, de trato afável, aberto a novas experiências e muito exigente.
Recordo que, numa das primeiras visitas ao Seminário Maior, nos motivou para a aquisição da Bíblia, dizendo que não se compreendia um seminarista que não tivesse a Bíblia completa. Autorizou a ida de seminaristas dos últimos anos à experiência de trabalho no estrangeiro, designadamente na Alemanha e na França. Valorizava a reunião com o clero diocesano na sede da diocese e nas zonas pastorais. Estabeleceu, com a colaboração do então cónego António José Rafael (depois, Bispo de Bragança e Miranda), que em cada arciprestado houvesse um sacerdote encarregado do desenvolvimento da pastoral da evangelização, outro para a liturgia e outro para a atividade sócio-caritativa.
Dedicou-se com afinco às visitas pastorais. Acompanhei-o às visitas pastorais de Mezio, São Joaninho e Pendilhe, como o acompanhei no encerramento duma atividade de catequese familiar em Pendilhe, bem como na inauguração do Centro paroquial de Pendilhe por ocasião das bodas de prata do pároco de então, o cónego Clara Ângelo. Procedeu ao lançamento da 1.ª pedra da nova igreja de Alvite, iniciou obras de melhoria no Seminário de Resende e benzeu e inaugurou a igreja remodelada do Seminário de Lamego, por ordem do antecessor.
Interessou-se pelas celebrações e participação dos fiéis na Sé Catedral, onde servi como turiferário. Urgiu a implantação de altar versus populum nas igrejas e tentou, sem êxito eliminar altares laterais, considerados em excesso em muitas delas, o que trouxe problemas a alguns párocos. Tomou a seu cargo a conferição da prima-tonsura e as ordens menores e maiores. Bastantes sacerdotes receberam ordens das suas mãos. Os primeiros sacerdotes foram (15-8-1967): Augusto Souto, Fernando Artur Mergulhão, João Crisóstomo e Sabino Pinto de Almeida.
Sem agradar a todos, foi um bispo dedicado de muitos em Lamego guardam boa memória.
2019.10.11- Louro de Carvalho

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Morreu Manuela Silva, economista pioneira na luta contra a pobreza


A licenciada em economia e professora catedrática convidada do ISEG Manuela Silva, que foi Secretária de Estado para o Planeamento no I Governo constitucional, pioneira no estudo da desigualdade e pobreza, morreu no passado dia 7 de outubro, ao 87 anos de idade, como divulgou, no dia 8, o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).
O Presidente da República, como se lê em nota publicada na página da internet da Presidência da República, lamentou a sua morte nos termos seguintes:
No contexto do saber nas áreas do desenvolvimento e económico e social, a sua morte constitui uma perda de grande relevância para o nosso país”.
Com uma vida dedicada a causas de grande relevância económica e social, nas quais se incluem a justiça social, a luta contra a pobreza e a defesa dos Direitos Humanos, desempenhou vários cargos de relevância como sejam o de Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica em Portugal, fundadora da Fundação Betânia, Diretora do Gabinete de Estudos Sociais do Ministério da Saúde e Secretária de Estado para o Planeamento, no I Governo Constitucional (1976-77) – recorda a Presidência da República.
O Palácio de Belém lembra que, em paralelo, foi “investigadora e professora em várias instituições do ensino superior, com referência para o Instituto Superior de Economia e Gestão, lecionou nas áreas do planeamento, política económica, política social e economia portuguesa, onde se evidenciou em trabalhos de elevado reconhecimento nacional e grande relevância no processo de desenvolvimento económico e social de Portugal”.
Também Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, lamentou a morte de uma “mulher de causas” cuja morte “constitui uma perda para Portugal. Disse o socialista à agência Lusa que a economista de grande mérito e académica por excelência se destacou “no combate às desigualdades, tendo sido, até ao seu desaparecimento, uma das vozes mais importantes na temática da pobreza, em cuja erradicação se empenhou particularmente”.
O presidente da Assembleia da República acrescentou:
Em todas as organizações por que passou, bateu-se sempre por mais e maior justiça, pela paz. Em todas defendeu que não existe desenvolvimento sem combate à pobreza e às desigualdades.”.
Em comunicado a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) refere que recebeu “com pesar a notícia do fim da vida terrena de Manuela Silva, que foi sua presidente”. E escreve:
Ficará para sempre em nós marcado o seu testemunho de dedicação constante e incansável às causas da Justiça e da Paz, inspirada no Evangelho e da doutrina social da Igreja. Essa dedicação abarcou os âmbitos académico, social, político e eclesial. Sempre teve uma atenção especial à causa do combate à pobreza como violação dos direitos humanos.”.
O velório decorreu ao final da tarde do dia 8, na Igreja da Ressurreição, em Cascais, tendo o funeral tido lugar hoje, dia 9 de outubro, às 14 horas.
Agraciada com a Grã-Cruz do Infante Dom Henrique em 2000 pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, Manuela Silva desempenhou vários cargos na Administração Pública ao longo da sua vida, tendo sido Secretária de Estado para o Planeamento no I Governo constitucional e integrando diferentes grupos de peritos no âmbito da União Europeia, Conselho da Europa e OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Em 2013 recebeu o Doutoramento ‘honoris causa’ pela Universidade Técnica de Lisboa.
O ISEG presta-lhe homenagem, reconhecendo, publicamente, a sua especial distinção como sua estudante, professora catedrática convidada, presidente do Conselho Pedagógico, diretora da Revista de Estudos de Economia, membro-fundador do CISEP (Centro de Investigação Sobre Economia Portuguesa) e Doutora Honoris Causa pela então Universidade Técnica de Lisboa.
Como se referiu, na sua intervenção cívica, presidiu à Comissão Nacional Justiça e Paz, com a qual sempre colaborou, destacando-se o trabalho pioneiro desenvolvido no estudo da pobreza e das desigualdades em Portugal, mas também foi presidente do Movimento Internacional dos Intelectuais Católicos, fundadora e presidente vitalícia da Fundação Betânia e coordenou o Grupo Economia e Sociedade (GES).
Como pioneira no estudo do desenvolvimento comunitário em Portugal e no estudo da desigualdade e da pobreza, a ela se deve a coordenação dos primeiros estudos científicos sobre a pobreza realizados em Portugal nos anos 80. Ao longo da sua carreira publicou diversos livros e estudos sobre a economia e a sociedade em Portugal, nos quais revelou sempre uma profunda preocupação com os problemas do desenvolvimento, com as desigualdades, a injustiça social e as diversas formas de pobreza e de exclusão social. E publicou vários livros de espiritualidade, como, por exemplo “Utopia Cristã e Aventura Humana” e “Pelos Caminhos da Fé”, ambos da Multinova (2008); e “Ouvi do Vento”, da Pedra Angular (2010).
Dela diz a CNJP:
Dotada de uma extraordinária capacidade de iniciativa, dinamismo e organização de trabalho em equipa, Manuela Silva nunca esmoreceu na dedicação a essas causas, nem com o avançar da idade, nem com a doença que a veio a vitimar. É disso exemplo a criação recente da rede ‘Cuidar da Casa Comum – a Igreja ao serviço da Ecologia Integral’, rede a que a CNJP também se associou juntamente com muitas outras organizações. Foi ela a sua alma inspiradora, lançando uma semente de uma planta que há de crescer e dar frutos. Fê-lo na última fase da sua vida terrena, como se não quisesse desperdiçar nenhum momento dessa vida, nem mesmo os últimos, para se dedicar à missão a que se sentia chamada.”.
Segundo o presidente da CNJP, Comissão Nacional Justiça e Paz, Manuela Silva “não quis desperdiçar nenhum momento da sua vida, nem mesmo os últimos, ao serviço da missão a que se sentia chamada por Deus”. E Pedro Vaz Patto diz que ela sobressai como uma figura “dotada de uma extraordinária capacidade de iniciativa, trabalho e organização”, que conseguia levar “sempre os outros a trabalhar com ela”.
É recordada como uma economista ao serviço das pessoas. É a economista católica que defendia que a pobreza é uma violação de direitos humanos. A agência Ecclesia, recorda-a como “uma mulher de causas”, com um “dinamismo único” e um percurso “inspirado no Evangelho e na doutrina social da Igreja”.
Percurso académico e militância religiosa cruzaram-se ao longa da sua vida, com a economista a centrar a sua investigação nas áreas da pobreza, das desigualdades e da distribuição de rendimentos, defendendo políticas económicas dirigidas em primeiro lugar ao bem-estar social.
Durante a troika, foi voz ativa contra o programa de estabilidade, colocou-se ao lado dos que consideravam que nem toda a dívida pública era legítima e demarcou-se das vozes que dentro da Igreja saíram em defesa do Governo.
Numa entrevista ao Negócios durante a fase de assistência financeira, lamentava que “na nossa sociedade, certas camadas sociais tenham crivos muito apertados para julgar os mais pobres e deixem passar as grandes funcionalidades no topo da escala social”.
Na agência Ecclesia, o padre José Manuel Pereira de Almeida, que acompanhou Manuela Silva na CNJP, recorda-a como uma mulher “com um dinamismo único, que liderava todos os projetos com grande determinação. Uma mulher de causas, que criou a Fundação Betânia sonhando com uma Igreja mais fiel ao Evangelho”. E Carlos Farinha Rodrigues, professor do ISEG, refere:
O legado da intervenção de Manuela Silva, como economista, como professora Universitária e como católica profundamente marcada pela doutrina social da Igreja, marcou profundamente o ISEG, os seus alunos e os colegas com quem trabalhou. A sua visão de uma economia ao serviço das pessoas, a necessidade de um desenvolvimento socioeconómico sustentado e inclusivo permanece como um dos pilares da missão do ISEG e, em particular, do ensino aqui ministrado.”.
***
Entre as obras por ela publicadas, que refletem muitas das suas preocupações, estão Dizer Deus – Os textos da fé na leitura das mulheresTeologia e Género – Perspectivas, ruídos, novas construçõesOuvi do Vento (já referido)No Jardim do Peixe e Resiliência Criatividade Beleza.
Em outubro de 1999, faz agora 20 anos, dizia, numa entrevista ao Público: “Acredito ou quero acreditar que a Igreja do futuro terá um jeito mais feminino e menos petrino do que o que conhecemos”. E, citando um verso de Sophia – Dançam de alegria porque o mundo encontrado é muito mais belo do que o imaginado – dizia que essa era uma visão da esperança: “Eu gostaria de ter sempre esse olhar esperançoso sobre a realidade, qualquer que ela seja. É um modo de olhar que permite ver, no meio de ruínas, as flores que nelas desabrocham.”.
No seu último “Escrito do mês”, na página da Fundação Betânia, que criou e à qual presidia, dizia:
A ecologia de que fala a [encíclica do Papa Francisco] Laudato Si’ é, assim, simultaneamente, uma ecologia ambiental mas também económica, cultural, política, bem como uma referência para a ecologia na vida no quotidiano”.
Esta afirmação sintetiza a visão de Manuela Silva, aquela que confessava que “gostaria de ter sempre” um olhar esperançoso sobre a realidade”.
Economista de formação e profissão, foi a primeira, com Alfredo Bruto da Costa, a dinamizar estudos sobre a realidade da pobreza em Portugal. A propósito repetia amiúde que o fenómeno da exclusão social é evitável e insustentável e que isso só pode resolver-se mediante a transformação radical na forma de organizar os recursos e de os partilhar, ou com conceitos como “uma nova concepção do trabalho, da empresa, de repartição dos recursos, de responsabilização dos agentes económicos, do controlo dos mercados financeiros”, como dizia numa entrevista ao Público.
A coerência era uma virtude que buscava em permanência. E, neste sentido pretendia “ampliar as perguntas e ser coerente com as respostas”.
Apesar – ou por causa – da economia, nunca deixou de dar atenção a outras áreas como a espiritualidade cristã, a formação, a educação, o empenhamento nas questões da justiça e da paz ou o desenvolvimento, e também sobre o desenvolvimento comunitário, repartição do rendimento e retorno de emigrantes.
Nos últimos anos, a par da luta contra a doença, e na sequência da publicação da Laudato Si’, tinha dinamizado a rede Cuidar da Casa Comum, composta por pessoas, instituições e grupos atentos à emergência climática e que se propõe sensibilizar as igrejas cristãs e a sociedade para a urgência da conversão ecológica. Para ela, este empenhamento sintetizava muito do seu pensamento, uma vez que os problemas ambientais são reflexo da má distribuição da riqueza, da sobre-exploração de recursos, dos investimentos que continuam a destruir o planeta e o futuro das gerações mais jovens e, ao mesmo tempo, criam franjas enormes de pobres.
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Nascida a 26 de Junho de 1932, em Cascais, Manuela Silva licenciou-se em economia e foi professora catedrática convidada no ISEG (da então Universidade Técnica de Lisboa, hoje integrada na Unidade de Lisboa), entre 1970 e 1991. Na mesma escola receberia, em Julho de 2013, o doutoramento honoris causa. E foi investigadora honorária no Instituto de Ciências Sociais.
Como se disse, foi Secretária de Estado para o Planeamento no I Governo Constitucional (1976-77) após a implantação da democracia, em 1974, trabalhou em vários grupos de trabalho no âmbito da Comissão Europeia e do Conselho da Europa e presidiu à assembleia geral do CESIS (Centro de Estudos para a Intervenção Social). Foi membro do Graal, movimento internacional de mulheres católicas, na década de sessenta, e presidente do Movimento Internacional dos Intelectuais Católicos/Pax Romana (1983-87), da Juventude Universitária Católica Feminina (1954-1957) e da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica (2006-08). E criou, em 1990, a Fundação Betânia, que se propõe, entre outras coisas, “suscitar a procura de novos alicerces culturais e espirituais” ou “criar espaços de beleza, de silêncio, de interioridade e de comunhão, que incentivem o encontro mais fundo de cada pessoa consigo própria, com os outros, com natureza e com o Absoluto”.
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Como nota pessoal, recordo que participei num seminário, em janeiro de 1987, para reitores de santuários e organizadores de peregrinações, em Fátima, iniciativa do Secretariado Nacional do Episcopado, então dirigido por Monsenhor Arnaldo Pinto Cardoso.
Foram convidados especiais a Dra. Manuela Silva e o Dr. Alberto Ramalheira (este foi Secretário de Estado dos I e II governos constitucionais), que foram uma mais-valia para a reflexão dos participantes. Apreciei o facto de me falarem bem do clero de Lamego, com destaque para Monsenhor Ilídio Fernandes, pela obra social e espiritual que desenvolveu na diocese.  
Evoco a conferência provocatória de Manuela Silva sobre os santuários como lugares de acumulação de capital. Foi uma intervenção muito assertiva, mas muito bem fundamentada e que levou o Reitor do Santuário de Fátima, então Monsenhor Luciano Paulo Guerra, a expor e a explicar o modo como funcionava o Santuário de Fátima e as formas como eram captadas as receitas e como se fazia a sua gestão de modo a honrar os compromissos, fazer obra e satisfazer as obrigações de solidariedade, pelo lado da justiça e da caridade.
Por outro lado, sempre estiveram presentes nas intervenções de outros e nos trabalhos de grupo como os demais participantes.
Registo esta boa impressão que estes participantes e oradores me deixaram, enquanto rogo a Deus que premeie na eternidade a lutadora insigne contra a pobreza que nestes dias a sociedade e a Igreja têm em mente.
2019.10.09 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A “Mãe da Alegria”


Foi com este sugestivo título que Dom Rui Valério, Bispo das Forças Armadas e de Segurança, que presidiu à peregrinação evocativa da 5.ª Aparição da Virgem do Rosário na Cova da Iria, desafiou peregrinos a testemunharem Cristo pela alegria. Na Cova da Iria, neste dia 13, o venerando Ordinário Castrense olhou para Nossa Senhora como “Mãe da Alegria”, que aponta para o Redentor que salva a humanidade da tristeza da escassez do amor.
Para esta peregrinação, inscreveram-se 87 grupos de peregrinos, de 23 países a saber: Portugal, Alemanha, Austrália, Brasil, Cabo Verde, Coreia do Sul, Eslováquia, Espanha, EUA, França, Holanda, Indonésia, Irlanda, Itália, Polónia, Singapura, Burkina Faso, Canadá, China, República Checa, Filipinas, África do Sul e Reino Unido.
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A peregrinação iniciou-se na tarde do dia 12 com a habitual Saudação a Nossa Senhora na Capelinha das Aparições, com as presenças do presidente da Peregrinação e do Bispo de Leiria-Fátima, o Cardeal Dom António Marto.
Nesse momento, Dom Rui Valério quis interpelar os peregrinos desafiando-os a fazer de Fátima “um lugar de vida” e lembrou que a peregrinação a Fátima é sinónimo da “alegria de encontrar alguém que nos ama, nos recebe, nos acolhe e nos dirige um sorriso”. Por isso, convidou os peregrinos participantes neste momento de oração a encontrarem “essa mãe” e na “intimidade do coração” a escutarem a sua mensagem. E sublinhou:
Ela mostra-nos Cristo, acolhe as nossas preces e ensina-nos a fazer o que Ele quer. Acolhamos Maria no nosso coração para que ele seja morada do Senhor e do Espírito Santo.”.
Por seu turno, Dom António Marto sublinhou a importância do silêncio em Fátima como “a expressão mais bela e apropriada” da homenagem que os peregrinos fazem a Nossa Senhora quando chegam à Capelinha das Aparições e, diante da imagem, rezam em silêncio. E vincou:
É a reação mais profunda de quem chega. Todos ficamos em silêncio junto Dela, na contemplação do seu rosto, sentindo e experimentando a sua proximidade.”.
Para o prelado leiriense-fatimita, é neste silêncio que “sintonizamos o nosso coração com o coração imaculado de Maria, que nos conduz até Deus”. Com efeito, “o silêncio favorece o clima de oração que aqui se torna diálogo íntimo com a mãe; no silêncio interior queremos fazer chegar até Ela a nossa voz, em ação de graças ou com súplicas” – disse o Cardeal, frisando que, nesse silêncio, Maria faz chegar a cada um “o bom conselho para que vivamos na luz, verdade e amor de Deus, amor fraterno e solidário sem distinções ou discriminações”.
E, pedindo aos peregrinos que rezassem pelo Papa, pela Igreja e pela Paz no Mundo, concluiu:
Seja-nos dada a graça de escutarmos esta voz, a voz da Mãe do Senhor, pois todos nós precisamos dessa consolação. É uma palavra de encorajamento para a vida em Cristo, para a nossa participação na vida da Igreja e uma voz de advertência maternal que nos convida a fazer um exame sério de consciência e a pôr em ordem a nossa vida cristã. Escutemo-la e confiemo-nos a Ela.”.
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Durante a homilia da Missa da Vigília da Peregrinação Internacional Aniversária de setembro, no dia 12, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança afirmou que a sociedade moderna vive “encerrada em si mesma” sem soluções de paz porque o homem dispensou Deus. E o prelado sustentou que a autossuficiência do homem é um obstáculo à Paz.
Todas as vezes que o ser humano procura encontrar em si mesmo a solução para os seus problemas, contando só consigo e confiando apenas nas suas capacidades, que faz ele senão uma forte violência a si próprio?” – interpelou Dom Rui Valério, que explicitou detalhadamente o seu pensamento sobre a paz:
De facto, em todo o género de conflito seja bélico ou familiar, existencial, profissional ou pessoal deparamo-nos sempre com o mesmo cenário da pessoa centrada sobre si, fechada dentro do seu mundo, entregue somente aos seus recursos e projetando tudo a partir de si e do ponto de vista dos seus interesses pessoais. Pelo contrário, a paz é a bem-aventurança da aventura ao outro, da desfocalização e descentração e esta atitude germina e floresce na comunhão com o Senhor, vivida na oração autêntica.”.
Perante os milhares de peregrinos que participaram na Eucaristia que se seguiu à Procissão das Velas, o presidente da celebração apontou que não é de estranhar “se hoje nos deparamos, mais uma vez, com uma sociedade demasiado encerrada em si mesma, sem janelas para a eternidade” e porfiou que “só onde há oração há abertura a Deus e aos outros e só onde esta abertura existir será possível construir ou reparar todos os dias os delicados alicerces da paz”. E esclareceu:
A paz tem na oração não só a sua génese e o seu mais profícuo caminho, como também a sua principal medida e a sua mais justa dimensão. Rezar, viver o encanto do encontro com o Senhor não só é a principal ferramenta para destronar a guerra, mas é o passo decisivo para se construir a paz.”.
O prelado, invocando o exemplo de Maria na proximidade a Deus e na comunhão com Ele, frisou que foi esta atitude que fez Dela a construtora de uma “nova Humanidade” e ensinou:
A abertura de Nossa Senhora a Deus e à sua santa vontade abriu novos horizontes à humanidade, outrora bloqueados pela maldade e pelo pecado, quando Adão e Eva avistaram o fruto e, numa mera criatura, num simples objeto, quiseram ver o belo, o bom e o verdadeiro, atributos que só a Deus pertencem”.
E, concluindo que o mundo “só será salvo em Cristo”, o Prelado Castrense observou:
No Éden, o olhar da humanidade, pelos olhos de Eva, ficou fechado na idolatria. Mas, agora, pelos olhos de Maria, a nova Eva, a humanidade redescobre, incessantemente, a Beleza, a Bondade e a Verdade de Deus.”.
Por fim, Dom Rui Valério explicitou o itinerário do caminho que cada peregrino deve fazer para alcançar a verdadeira comunhão com Deus: acolhimento do outro tal como é, capacidade para aceitar o mistério deixando-se surpreender, disponibilidade para o serviço e abertura à missão. E, considerando que “sair ao encontro dos outros é a outra face do encontro com o Senhor”, o insigne Bispo exortou:
Sejamos, com Maria, coerentes com a nossa fé, capazes de nos admirarmos com as surpresas de Deus, de permanecermos disponíveis para fazer a sua vontade através do acolhimento dos outros e da atenção solícita para respondermos aos seus apelos”.
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Na manhã deste dia 13, na homilia da Missa Internacional Aniversária de Setembro (concelebrada, além do cardeal Dom António Marto, por 3 bispos e 123 sacerdotes), Dom Rui Valério apelou aos peregrinos a que deem testemunho vivo da alegria salvífica de Deus, através de uma concretização missionária do Evangelho na vida quotidiana.
A partir do relato da 5.ª Aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, na Cova da Iria, em que a Mãe do Céu “vem falar da alegria de Deus”, o presidente da celebração começou por dar conta da esperança da presença incessante de “um Deus vivo, que conhece e experimenta o doce sabor da alegria que irrompe sempre que o ser humano se deixa resgatar e é salvo”. E lembrou:
A Boa Nova que Nossa Senhora trouxe e que proclamou precisamente neste lugar é que o mundo não está perdido. (…) Maria Santíssima é a Mensageira dessa alegria e da salvação do mundo. Foi-o aqui em Fátima, como o tinha sido quando visitou a sua prima Isabel para lhe comunicar a boa nova da iminente vinda do Redentor.”.
Depois, olhou para Nossa Senhora como “Mãe da alegria” a partir do relato das Bodas de Canaã, proclamado no Evangelho.
Numa interpretação teológica do episódio de Caná, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança apontou o vinho que Jesus ali oferece, a partir de água, como símbolo da “alegria do amor” de Deus, e as talhas de pedra vazias como “o coração e a vida das pessoas privadas de sentido e de razões de viver”. E, tendo em conta que “o vazio indica a tristeza e nada esvazia tanto o coração humano como a escassez do amor”, alertou para a “embriaguez do consumo” com que o ser humano tenta colmatar este vazio e apontando para o amor de Deus como resposta a este “consumismo afetivo e espiritual”. A seguir, garantindo que “a pessoa não se salva por intermédio das coisas efémeras” e, evocando a fundação da “nova Aliança fundada no amor” que Jesus institui com o seu povo nas Bodas de Caná, sublinhou:
Só o amor nos salva e nos preenche, construindo e reconstruindo a vida redimida a partir das ruínas em que tantas vezes nos encontramos. (…) E só Cristo, nosso Redentor, pode realizar essa obra de salvação.”.
O presidente da Peregrinação Internacional Aniversária reforçou, depois, o “valor salvífico” dos sacrifícios dos Pastorinhos, fundado num “excesso de amor abundante”, para enumerar três ações para alcançar a alegria salvífica que Deus oferece à humanidade: acolher Maria no coração, sendo Sua morada; escutar a Palavra do Senhor, pondo-A em prática; e, a partir da comunhão irmãos, assumir a missão evangélica de testemunhar, na vida quotidiana, a alegria da comunhão com Cristo. E, concluindo, desafiou:
Seja esta a nossa proposta para o mundo: mostrar a nossa pessoal experiência de vida com Cristo, testemunhá-la na vida quotidiana para que todos os que observarem a nossa alegria e a forma como vivemos de amor se sintam atraídos e fascinados com a vida cristã que na Igreja transparece”.
***
É também de realçar a palavra dirigida aos doentes, durante o momento de Adoração ao Santíssimo Sacramento, por Pedro Santa Marta, da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, que perspetivou a vida como um Rosário, convidando os peregrinos a ser exemplo de “alegria e esperança na aceitação do sofrimento” e desenvolvendo:
Nem sempre Deus nos cura ou nos alivia. Não porque não goste de nós – porque Deus nunca nos abandona – mas porque, através desse sofrimento, nos oferece uma oportunidade para nos purificarmos ou, então, porque se quer servir de nós para ajudar os outros na sua conversão. E, se o soubermos e quisermos aceitar, com alegria e muita esperança, estaremos a ser um instrumento de Deus na conversão dos pecadores, tal como Nossa Senhora aqui o pediu em maio de 1917.”.
E formulou o seguinte voto:
Que a nossa vida seja como um rosário: as contas serão as nossas boas ações, ligadas por uma corrente feita das nossas orações e do nosso amor a Deus e a quem nos rodeia” – afirmou o responsável pelos Servitas de Fátima.
***
Como é habitual, a última palavra da celebração coube ao Bispo de Leiria-Fátima, que reforçou a tonalidade da alegria (a alegria de Deus por nós e a nossa alegria em Deus) enunciada na homilia por Dom Rui Valério, a quem agradeceu a presença e a mensagem “bela e calorosa”. E afirmou:
Deus alegra-se connosco, e a nossa alegria em Deus, no amor, na ternura, na misericórdia, no perdão e na vida nova que nos oferece. A alegria da qual Nossa Senhora fez eco aqui, em Fátima, aos Pastorinhos... Uma alegria que é um dom de Deus e que levamos no nosso coração para dar testemunho dela na vida quotidiana.”.
No dia em que em que se iniciam as aulas para muitas crianças, o Prelado de Leiria-Fátima enviou uma bênção aos “pequenitos e pequenitas” para este início de ano letivo, deixou uma palavra de conforto aos doentes e saudou os peregrinos, que vieram à Cova da Iria, provenientes de várias geografias do mundo.
Por fim, Dom António Marto lembrou os bombeiros portugueses e o seu esforço no combate aos incêndios, convidando a assembleia a rezar uma Ave-Maria por estes soldados da paz.
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E aí está Fátima na sua força da bem-aventurança evangelizadora e como espaço da vida e da alegria em Deus e por Deus.
2019.09.13 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
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Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
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Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
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Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
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Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho