quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Através de planos de ação estratégica no âmbito do PNPSE…

Terminou hoje, dia 15, o prazo dado pelo ME (Ministério da Educação) para o início das aulas, ou seja, o início de mais um ano letivo (entre 9 e 15 de setembro). E, comparativamente com os anos anteriores, o ano letivo arrancou de forma serena, do ângulo de vista do exterior. Com efeito, os horários requisitados pelos diretores dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas foram integralmente preenchidos; o número de horários “zero” caiu para metade em relação ao ano letivo anterior.
Não sei dizer se as condições de trabalho na escola melhoraram significativamente ou se se dissipou o clima de tensão e silêncio passivo da parte dos docentes. E os sindicatos, realçando a melhoria na colocação de docentes, em parte pela abolição da bolsa de contratação pelas escolas (BCE), aguardam que os horários supervenientes por força dos impedimentos de última hora sejam preenchidos nas melhores condições, bem como a contratação de pessoal não docente, designadamente assistentes operacionais e técnicos especiais, como psicólogos e assistentes sociais, continue a ocorrer como o ME vem prometendo. Mas denunciam a continuação do excessivo número de alunos por turma e a existência de turmas mistas no primeiro ciclo, algumas das quais com os quatro anos de escolaridade, sendo que o número destas aumenta.
Por outro lado, o ME promete, dentro em breve, rever as metas curriculares anteriormente definidas e, a partir dos contributos fornecidos pelas escolas, definir o perfil de formação para a escolaridade de 12 anos, repartido por ciclos. E já publicou as novas orientações curriculares para a educação pré-escolar. Ademais o Governo, constituiu um grupo de trabalho para rever o mecanismo de acesso e ingresso no ensino superior, trabalho cujos resultados serão de considerar no próximo ano letivo.
Também já muitas escolas sujeitaram os alunos do 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade às provas de aferição, resultados que o IAVE-IP já comunicou às escolas para efeitos de reflexão e introdução de melhoria – procedimento generalizado a partir do presente na letivo.   
Porém, o próximo biénio, ora inaugurado, fica marcado pelos planos de ação estratégica (PAE) que 90% dos agrupamentos e escolas não agrupadas (as escolas e agrupamentos inseridos em TEIP – territórios de intervenção prioritária não integraram este conjunto) apresentaram atempadamente à Estrutura de Missão definida pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 23/2016, de 11 de abril, que criou o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar (PNPSE), com a finalidade de “promover um ensino de qualidade para todos, combater o insucesso escolar, num quadro de valorização da igualdade de oportunidades e do aumento da eficiência e qualidade da escola pública“.
Com efeito, a predita Resolução do Conselho de Ministros corporiza o que são os princípios centrais da política educativa do Governo. Torna-se, pois, urgente melhorar o sucesso escolar num país que, embora tenha registado algumas melhorias, está muito aquém da média da UE e dos países da OCDE. É, de facto, preciso travar o abandono escolar e a saída precoce do sistema de ensino e, no pressuposto de que a retenção dos alunos é uma medida excecional, há que diminuir as taxas de retenção, a começar logo no 2.º ano de escolaridade, momento em que o insucesso é insustentável. Diga-se, em abono da verdade, que esta evidência resulta de vários fatores, um dos quais é proibição legal de retenção no primeiro ano de escolaridade.
E, porque a prossecução dos desígnios do PNPSE carece do envolvimento ativo das diferentes entidades responsáveis pelo setor da educação, com especial enfoque das escolas e dos professores, torna-se necessário adotar uma nova estratégia para o setor, assente em soluções pensadas nas escolas, em articulação com vários agentes educativos, designadamente as autarquias locais, as instituições da comunidade, as entidades formadoras e os pais.
Nestes termos, o Governo entendeu dever promover a criação do PNPSE assente no princípio de que são as comunidades educativas quem melhor conhece os seus contextos, as dificuldades e potencialidades, sendo, por isso, quem está melhor preparado para encontrar soluções locais e conceber planos de ação estratégica, pensados ao nível de cada escola, com o objetivo de melhorar as práticas educativas e as aprendizagens dos alunos.
Da sua parte, o ME assume um papel de apoio às escolas e aos docentes, com especial enfoque na dinamização de planos de formação contínua dirigidos à conceção dos PAE e à sua implementação, disponibilizando apoio específico a medidas que se revelem essenciais na melhoria do trabalho pedagógico em sala de aula.
Os critérios que deviam ser observados na conceção e implementação de tais planos, são, entre outros: a alteração das dinâmicas de trabalho na sala de aula; o reforço do trabalho de colaboração entre os professores; e a rentabilização dos recursos da própria escola.
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Para lograr a conceção e implementação dos preditos planos de ação estratégica, os Centros de Formação de Associações de Escolas tiveram de organizar várias fases de formação.
Logo numa primeira fase houve que pensar nos principais efeitos a produzir, designadamente a mudança de práticas, de procedimentos e de produção de materiais didáticos – meta a replicar nas fases seguintes. Para tanto, havia que: tomar conhecimento da trajetória do sucesso escolar em Portugal; identificar os desafios que se colocam ao sistema educativo português; explicitar o papel dos diferentes órgãos de gestão e administração escolar na construção do sucesso educativo; realizar diagnósticos identificando áreas a melhorar nas práticas letivas e na respetiva unidade orgânica; compreender o processo de ensino e de aprendizagem ao nível do planeamento, do desenvolvimento e da avaliação; incorporar práticas de avaliação formativa enquanto instrumentos produtores de informação de retorno e reguladores do processo de ensino e de aprendizagem; selecionar estratégias de diferenciação pedagógica e formas de implementação; conhecer o processo de construção de um plano de ação estratégica centrado nas fragilidades priorizadas; enunciar problemas prioritários, passando a definir objetivos, metas e indicadores simples, claros, adequados, pertinentes, quantificáveis e exequíveis; identificar as potencialidades do processo de monitorização para a melhoria do trabalho da escola; enunciar princípios e regras de construção de instrumentos de monitorização; elaborar sistemas de monitorização centrados no trabalho em sala de aula; conceber, implementar, monitorizar e avaliar planos de ação estratégica; e definir fatores críticos de sucesso para planeamento, implementação e avaliação de estratégias de melhoria focadas na sala de aula.
Pretendia-se que os professores formandos, em diálogo com as estruturas dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas a que pertencem, elaborassem, durante a oficina de formação, o plano de ação estratégica (PAE) para promoção da qualidade das aprendizagens.
As escolas apresentaram à Estrutura de Missão até 11 de julho os PAE para o biénio (2016/2018).
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Já em tempos referi as caraterísticas dos PAE, cabendo agora destacar a relevância do trabalho se focar, em especial, nos anos de início de ciclo de estudos, se centrar na sala de aula e incidir sobretudo nos grupos de alunos mais vulneráveis
Criticava então a necessidade de o ME quase colocar como condição de apoio a candidatura de financiamento aos fundos estruturais do Portugal 2020. Tarde percebi que tal candidatura implicava o empenho e a mediação das autarquias locais, o que pode colocar em risco a candidatura dado o timing próprio das autarquias.
Também se duvidava de que o ME respondesse positivamente às pretensões das escolas. Porém, sem dar de flanco em relação ao rótulo de despesismo, o ME alterou a fórmula do crédito horário, beneficiando a escola, e determinou o estabelecimento de tutorias para os alunos que tenham sido objeto de duas ou mais retenções. Por outro lado, as escolas puderam inscrever no horário semanal de cada docente um tempo letivo para reunião dos professores de cada disciplina por ano (aplicável sobretudo as mais atingidas pelo insucesso), para ajustamento da planificação, monitorização do desempenho dos alunos; e os coordenadores de departamento curricular viram reforçado, em um tempo letivo, o tempo disponível para a coordenação do departamento. E, no regime de codocência, pode fazer-se, quando necessário, o desdobramento de grupos mais problemáticos à imitação do que que se fazia no âmbito do Projeto Fénix, uma iniciativa local agora com repercussões a nível nacional.
Resta saber se a intenção da formação a disponibilizar para os docentes responsáveis pelo desenvolvimento do PAE se manterá face à iminência da rarefação dos fundos estruturais por dificuldades orçamentais ao nível do Estado.
E, sobretudo, havia que restabelecer o prestígio e a autoridade dos professores (tão desgastados por governos e opinião pública) para que, pela recriação de condições de disciplina, o sucesso tivesse na sala de aula – e outros espaços adequados – a sua principal âncora, ao invés de a procurar no explicador, que sem má intenção acaba por bloquear o trabalho do professor ao não explicar, mas “quase fazer”.
Para tanto, também os encarregados de educação devem ser mais recetivos em relação à escola, mais do que juízes da escola e dos professores prestando-lhes a informação pertinente (e só essa) para o êxito do processo de aprendizagem dos seus educandos, bem como apoiando e acompanhando o trabalho dos mesmos educandos.
A escola o merece e os alunos também!

2016.09.15 – Louro de Carvalho  

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