segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Candidatura a emprego: limitações e cuidados a ter

O caderno do “Emprego” do Expresso, de 1 de agosto, publicou um texto de Cátia Mateus subordinado ao título “E se for você a entrevistar o chefe?” e um caixilho com “5 perguntas que vai querer fazer”, referindo-se obviamente à entrevista de recrutamento e seleção para a provisão num posto de trabalho.
Citando Don Goodman, assegura que, sendo a entrevista “o momento decisivo em que o empregador avalia o candidato”, será “também a oportunidade que o candidato tem de avaliar o seu futuro chefe e o seu modelo de liderança”, podendo constituir suficiente informação que leve o candidato ao emprego a não querer trabalhar “sob a lupa daquele líder”.
O especialista vai a ponto de sugerir que o candidato faça perguntas, na entrevista ao seu interlocutor ou fora dela a trabalhadores juniores e seniores, atinentes, entre outros aspetos, ao ambiente de trabalho, cultura e clima e da empresa, relações interpessoais, antiguidade e perfil do líder e estilo de liderança.
Entre as questões que o candidato é aconselhado a colocar ao seu entrevistador enquanto líder da organização ou chefe da equipa onde vai trabalhar, ficam registadas cinco: 1- Como descreve a cultura corporativa da empresa (para a eficácia do trabalho, é conveniente de futuro não entrar em choque com a respetiva cultura organizacional); 2- Qual é o seu estilo de gestão (um líder fraco não motiva nem valoriza o trabalho dos colaboradores; e o líder demasiado controlador limita o trabalho dos colaboradores e cria um péssimo ambiente); 3- O que procura em quem contrata para a sua equipa (é importante perceber quais as qualidades que se esperam de quem ocupe a vaga que está em jogo); 4- O que espera do candidato que preencha esta vaga (conhecer os objetivos do posto de trabalho e ter a perceção global da empresa facilita a dinâmica do trabalho e gerará o bem-estar); e 5- Há quanto tempo trabalha na empresa (saber da antiguidade empresarial do líder, bem como de um colaborador júnior e de um colaborador sénior, é fulcral para aferir a cultura da empresa e o ambiente de trabalho).
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Tudo isto seria plausível se se verificassem algumas condições, que estão longe de na prática se concretizarem. Em primeiro lugar, o entrevistador deveria ser um dos gestores da empresa e/ou o chefe do setor a que pertence a vaga a ocupar. Em segundo lugar, sendo o entrevistador, como acontece em muitíssimos casos, um perito de empresa supostamente vocacionada para o recrutamento e seleção de recursos humanos, deveria este perito ter conhecimento da cultura da empresa donde provém a vaga de emprego e do perfil e estilo de lideranças, bem como a competência delegada para responder de forma cordata e eficaz às questões levantadas pelo candidato. Depois, a empresa não deveria considerar intrusas, irritantes ou indiscretas as perguntas feitas pelo candidato, devendo mesmo franquear as portas do conhecimento e do diálogo aos potenciais empregados ou colaboradores.
Ora, o que se passa é que estes peritos de recrutamento e seleção de recursos humanos (RH) são contratados para obviar à incapacidade científica da empresa que lança a oferta pública de emprego, mas também – consciente ou inconscientemente – para dificultar ao máximo o contacto extemporâneo com a empresa, não suceda que se crie algum anticorpo por antecipação. Acresce que habitualmente são muitos os candidatos a um único lugar vago.
Ao invés, colocar aquelas questões está ao alcance do colaborador independente que, não precisando de emprego, negoceia as condições ambienciais e económicas de um contrato de prestação de serviços. Os outros, à partida, não podem pensar, sem grave risco de inconveniência, nestas hipóteses de questionamento.
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Entretanto, há que preparar a candidatura a emprego. Tal preparação passa pela qualificação escolar e profissional, o que nem sempre se tem em conta no tempo de escola e/ou de formação profissional. Depois, importa elaborar o currículo pessoal, académico e profissional, destacando o específico, o que sobressairá no meio dos demais, e adaptá-lo à especificidade de cada candidatura.Sigo livremente no essencial algumas das indicações de Universia Portugal.
Porque forma a primeira impressão para o potencial empregador, o currículo torna-se uma peça muito importante. Escrever o currículo não é atividade fácil. Um simples erro pode tirar o candidato do processo de seleção.  Por isso, a sua elaboração deve evitar os seguintes erros:
. Esquecimento do destaque dos pontos fortes, já que o empregador quer saber como poderá beneficiar da admissão do titular deste currículo, o que é que o recomenda sobre outrem.
. Prestação de informações irrelevantes ou incorretas, pois o currículo não é o estendal de qualidades, muito menos de conteúdos não rigorosos e exatos. Inexatidões e inutilidades têm de ser evitadas, sob pena de mais tarde se sofrerem consequências no caso de admissão indesejável.
. Afirmações subjetivas, visto que o currículo, embora pessoal, não se organiza em função do autor mas do destinatário.
. Linguagem rebuscada, dado que o recrutador não quer dispor de dicionário enquanto faz a sua leitura, pelo que, se o documento for complicado, é possível que o ponha de lado.
. Inclusão de mentiras, porque compagina o maior erro que se pode cometer, até porque mais tarde ou mais cedo elas serão descobertas, o que acarretará sanção por falsas declarações.
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Depois, vem a preparação da entrevista, antecipando possíveis questões. A título de exemplo, enunciam-se dez (e pistas de resposta), ressalvando que as palavras podem não ser exatamente as mesmas, como a ordem por que são formuladas:
Fale sobre si. Pode ser esta uma solicitação que lhe façam, devendo ocupar uns 2 ou 3 minutos sobre aspetos da vida pessoal relacionáveis com este emprego em concreto, não porém, sobre curiosidades que não interessam ao caso.
Quais são os seus pontos fortes? Pretende-se conhecer a existência das qualificações constantes na descrição da vaga, bem como outros pontos relevantes para este emprego.
Quais são as suas fraquezas? Devem ser enunciadas fraquezas que não prejudiquem o emprego, como por exemplo, “dizem que sou organizado/a demais”.
Porque quer trabalhar connosco? É óbvio que toda a pessoa e/ou organização aprecia um elogio e não propriamente o toque salarial ou o desespero pela não consecução de emprego.
Porque deixou o último emprego? Não vale aduzir problemas antigos com a empresa ou serviço anterior, mas a mudança para um lugar, por exemplo, mais vantajoso ou de melhor imagem.
Conte o que sabe sobre esta empresa. Isto implica que o candidato deve colher previamente informações da empresa a que se candidata, deixando má impressão a sua total ignorância.
De que é que se orgulha mais? Há que relacionar a resposta com o trabalho a que se candidata, por exemplo, algo que desenvolveu no passado e que pode ser útil a esta empresa.
Fale de um obstáculo que teve e de como conseguiu superá-lo. Saber resolver problemas é uma qualidade importante em qualquer emprego, pelo que é conveniente pensar em algo que mostre que sabe lidar com a pressão e comunicar bem com os colegas.
O que espera estar a fazer daqui a 5 anos? Não será contratado/a se planeia ficar na empresa apenas por um ano para depois a trocar por concorrente que pague melhor. Diga que se vê a trabalhar arduamente nela e que está ansioso/a com a perspetiva de futuro ali.
Quais são as suas expectativas de salário? Descubra previamente quanto é que alguém da sua área e com a sua idade ganha no setor a que se candidata. Depois, alvitre um teto salarial, a partir do qual possa negociar, relevando que este ensejo significa muito mais que o dinheiro.
E, sobretudo, não se cometa nenhum dos seguintes erros:
. Medo de dizer não. Por exemplo, se de momento se tem dificuldade em mudar de residência, não há por que dizer que “sim”. A honestidade e a justificação razoável do “não” acima de tudo.
. Hipervalorizar-se sobre os demais. O que importa é mostrar a marca pessoal e os valores diferenciadores. Em vez de desfiar o rosário de virtudes e negar defeitos, o recomendável é identificar as áreas de especialidade e falar delas, não iludindo o entrevistador, ou criando-lhe expectativas desproporcionadas.
. Ser arrogante. O normal é que a empresa tenha processos longos de seleção, pelo que não será apenas na primeira entrevista que o candidato falará com o chefe ou diretor de Recursos Humanos. Ser arrogante com esta pessoa trará prejuízo para o candidato.
. Obsessão pelo salário. Há muitos/as que, na primeira entrevista, tentam falar exclusivamente de salário. Isso faz com que sejam mal vistos/as pelos recrutadores. Embora se trate de algo vital, a ser abordado, não se pode reduzir a entrevista a uma conversa de caráter transacional.
. Tratamento do recrutador por igual ou inferior. O recrutador não é amigo do recrutando. Por isso, mesmo que se vá a uma entrevista em que o cargo oferecido é mais alto, não se pode cometer a insensatez de tratar o recrutador como amigo, como inferior ou como psicólogo.
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Finalmente, recordam-se algumas das limitações que enformam as entrevistas de emprego, que nem entrevistados nem entrevistadores têm sempre na devida conta:
. Há coisas que não são mensuráveis ou avaliáveis por entrevista. Assim, habilidades técnicas e inteligência são medidas de forma mais eficaz através de provas ou testes.
. Não resulta totalmente partir do passado para prever o futuro. Com efeito, a entrevista trata do que foi feito no passado. Porém, o que e como foi feito não antecipa nem antevê o futuro.
. Quanto a perguntas e competências, nem sempre as questões e os cenários são criados de forma independente, não havendo nada que garanta que a entrevista ponha à prova todas as caraterísticas – boas ou más – do candidato à vaga. 
. No atinente à inconsistência das questões, porque não há um “script” de questões para os entrevistadores, estas não são as mesmas para cada candidato, ficando difícil de compará-los.
. Como, normalmente, as questões nas entrevistas não são separadas por importância, as perguntas cruciais acabam por ter o mesmo peso que as menos pertinentes.
. Não há usualmente uma pontuação direta, pelo que os recrutadores, baseando-se na entrevista, não fazem uma folha onde apontem uma pontuação e comparem os candidatos.
. Porque os recrutadores normalmente baseiam as entrevistas no momento, não param para pensar o que seria uma resposta má, regular e boa a cada questão. Por consequência, diferentes candidatos podem dar as mesmas respostas e serem avaliados de modo diferente.
. O fundamento da entrevista é baseado na premissa de que os candidatos serão verdadeiros durante a conversa, o que é improvável, porque podem estar nervosos antes, durante e depois da avaliação. Por isso, os recrutadores basearão as escolhas nos erros e não nos aspetos positivos.
. Normalmente, os entrevistadores veem na resposta o que querem ouvir. Isso facilita: é só dizer o que eles querem ouvir (às vezes, os entrevistados omitem informações e mentem).
. Diversos fatores subjetivos influenciam as decisões do recrutador. Estão no caso: a linguagem corporal, o sotaque, a altura, a forma de cumprimentar, a roupa e alguns outros estereótipos, como fatores demográficos (raça, sexo, idade, nacionalidade).
. A subjetividade da própria entrevista é também um fator marcante. A pessoa que tenha passado por várias entrevistas estará mais à vontade, bem como a que que tenha procurado dicas de emprego na Internet. Ora, isso não significa que a pessoa esteja mais preparada para o cargo; apenas o estará para a entrevista.
. As questões específicas que os recrutadores colocam podem tornar-se genéricas e fáceis de responder graças à Internet.
. O recurso a entrevistas comportamentais é ineficaz. Muitas baseiam-se em situações passadas. Ora, isso não significa que as coisas aconteceram exatamente da forma como o entrevistado as descreveu. É claro que ele, na sua descrição, tentará beneficiar-se. Geralmente, estas avaliações orais devem avaliar as qualidades do candidato e o que ele tem para contar, o que ele fez de diferente. Não se focam em como resolveu determinado problema.
. O entrevistador, em geral, foca o passado e esquece-se de que o candidato trabalhará no presente/futuro. Será importante que o recrutador tenha visão do futuro e o projete, por exemplo, com uma questão do género: que irá fazer para que a empresa cresça ainda mais?
. É difícil conjugar presente e futuro. Obviamente, a empresa contrata pelo que o candidato é, mas esquece-se de avaliar se ele será capaz de crescer e dar conta das atividades quando o presente virar a futuro.
. Também é preciso ter em conta que o entrevistado é diferente do entrevistador. Fatores como a idade, sexo e experiência influenciam na empatia mútua. É má a tendência que leva os entrevistadores a agir como psicólogos diante do candidato e a fazer juízos erróneos.
. Também alguns entrevistadores se deixam condicionar por preconceitos/estereótipos e tomam decisões não profissionais.
. Os entrevistadores, em geral, não são treinados, porque é convicção de que tal não é necessário. Além disso, os profissionais de RH geralmente não têm uma formação específica.
. Muitos profissionais de RH criam fatores subjetivos para dispensar um candidato, o que tira a oportunidade a profissionais qualificados.
. Depois de muitas entrevistas, os recrutadores ficam cansados, ficando diminuídos os seus poderes de julgamento.
. Quanto menos estruturada for a entrevista, menos credibilidade terá. O facto de ela ser feita da mesma forma em quase todos os países prejudica a escolha, já que as culturas locais variam.
. Também o volume e ritmo de entrevistas podem condicionar a escolha. O recrutador que tenha realizado 5 entrevistas avaliará de modo diferente do que outro que tenha feito intervalos.
. O período de tempo dedicado ao candidato também pode ser um indicador da eficácia da decisão. O mundo empresarial não gosta de que o recrutador tenha conversa muito longa com o candidato. Assim, o entrevistador tem de tomar decisões baseadas nas primeiras impressões.
. A ordem de entrevistas também influencia. Assim, o primeiro na fila de entrevistas tem menor hipótese de ser contratado que o último.
. O próprio lugar pode influir positiva ou negativamente na performance do candidato. Assim, entrevistas de almoço ou por skype produzem resultados diferentes.
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 Por tudo isto se vê quão aflitiva é a situação de quem procura um emprego, a complexidade que envolve o trabalho dos recrutadores e selecionadores de RH, a precariedade das escolhas e das soluções, sobretudo quando a crises apertam! E era necessária maior dedicação e aplicação na tarefa de recrutamento e seleção.
2015.08.03 – Louro de Carvalho

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