sábado, 1 de julho de 2017

Presidente da República condecorou os Servitas de Fátima

O Presidente da República agraciou, no Palácio de Belém, a Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima como Membro Honorário da Ordem do Mérito. Recebeu as insígnias, no passado dia 26 de junho, no Palácio de Belém, o Presidente da Direção, Pedro Santa Marta, que assumiu que a condecoração representa “uma responsabilidade e será um estímulo para nos mantermos sempre humildes e fiéis à nossa missão”.
Dado o caráter excecional e lacónico da notícia como vem referenciada no site da Presidência da República e na agência Ecclesia, parece-me oportuna uma referência mais desenvolvida a esta entidade.
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Os Servitas
É no contexto da multiplicidade de grupos que prestam serviço em Fátima que se integram, sendo o primeiro corpo de Voluntários, constituído logo em 13 de junho de 1924, ainda antes do reconhecimento das Aparições pela Carta Pastoral do Senhor Dom José Alves Correia da Silva, então sob a designação de “Associação dos Servos de Nossa Senhora do Rosário de Fátima”, pois interessava acompanhar de perto as necessidades espirituais e logísticas dos peregrinos.
A Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, que se colocou sob a proteção de Nossa Senhora e que trabalha desde a sua fundação ao serviço dos peregrinos no Santuário de Fátima, é uma associação pública de fiéis, constituída por leigos, religiosos, diáconos e sacerdotes, católica, ereta canonicamente pelo Bispo de Leiria-Fátima, sob a proteção de Nossa Senhora, no Santuário de Fátima, onde tem a sua sede. Enquanto associação de Igreja, submete-se à autoridade do prelado da diocese de Leiria-Fátima e, no exercício da sua atividade no Santuário, integra-se na sua orgânica, na dependência direta do Reitor. Hoje a associação tem cerca de 450 membros. A média de idades dos servitas ronda os 45 anos. Parece um tempo longo, mas há uma explicação que José António Santos, de 67 anos, que foi Presidente da Associação, aduz:
“Existe uma equipa que faz a triagem dos candidatos. Há os que pensam ter vocação, mas, depois de começarem a trabalhar, percebem que não a têm.”.
A Associação tem, atualmente, os seguintes setores de atividade: Oração, Secretaria, Serviços de Saúde, Recinto, Confissões, Informações, Retiro de Doentes, Fins de semana e Formação.
Considerando que se trata de uma vocação simples ou uma vocação à simplicidade, pode dizer-se que os Servitas têm crescido servindo, obedecendo e rezando. No atinente ao serviço, autossurpreendem-se a aceitar e amar o sacrifício, não por especial heroísmo, mas porque as circunstâncias o ditam e o amor aos peregrinos é mais forte que todas as dificuldades; no capítulo da obediência, há de dizer-se que obedecem, não por serem reverentes ou incapazes de raciocinar, mas porque é conatural à sua vocação de serviço a alegria de aceitar o que a cada momento lhes é destinado e a humildade de se reconhecerem pequena parte de um todo; e no concernente à oração, asseguram-nos que rezam, não por serem particularmente místicos, mas pela avidez de aproveitar a “atmosfera de sobrenatural” fatimita e por uma consciência implícita e segura de que todo o seu serviço radica na identificação e conformação com a Mensagem de Nossa Senhora que nos visitou na Cova da Iria.
Os Servitas vivem assim, em respeito da mensagem fatimita e em sentido de Evangelho e de Igreja, na fidelidade e obediência ao Magistério da Igreja e, de modo peculiar, aos ensinamentos do Santo Padre; vivem a Mensagem de Fátima fazendo da sua vida instrumento de divulgação; rezam o Terço todos os dias e fazem a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados de cada mês, tal como foi pedido por Nossa Senhora de Fátima; e servem os Peregrinos em Fátima.
Para ser membro da Associação dos Servitas o candidato – leigo, religioso, diácono e sacerdote de qualquer Diocese – têm de reunir as seguintes condições: ter atingido 18 anos e não ter atingido ainda os 50 anos de idade, podendo a Direção tomar outra deliberação, em casos especiais; ser membro e apóstolo da Igreja Católica e querer cumprir generosamente os deveres dos Servitas; ter disponibilidade para servir os Peregrinos no Santuário de Fátima; e aceitar as disposições constantes dos Estatutos e Regulamentos da Associação.
O candidato servita deve cumprir as seguintes etapas antes de ser admitido como servita: receber a formação adequada para o pleno desempenho da sua missão; conhecer e aceitar plenamente os Estatutos e Regulamentos da Associação dos Servitas; ter recebido a decisão da Direção, em que esta o(a) considera apto(a); e solicitar, por escrito, à Direção, a sua admissão à Promessa. Com efeito, O Servita só o será formalmente depois de fazer a Promessa, que é feita perante o Bispo de Leiria-Fátima, com a presença dos Servitas, no Santuário de Fátima.
A Promessa “é um compromisso público, consciente e livre, com Cristo e a Igreja, fruto da sua resposta ao chamamento de Nossa Senhora, tal como foi confiada aos Pastorinhos”.
Os servitas fazem o bem em silêncio e docemente, prestando assistência material e espiritual aos peregrinos do Santuário de Fátima. São homens e mulheres que perguntam a cada momento o que a Senhora quer deles. Dizem o seu “sim”, como o fez Maria, porque também Ela se disponibilizou como a “serva do Senhor” pela fé e pela aceitação do mistério – pelo que as gerações A aclamam Bem-aventurada.
Servir é, pois, um verbo que se constitui como um programa de vida. É assim que os Servitas de Fátima encaram a sua ação específica. Eles, que também são peregrinos, têm como missão acolher os peregrinos de Fátima. E Maria é a mestra dos servos, discípula com os discípulos e peregrina com os peregrinos, que os ajuda a responder aos apelos que lhes são dirigidos. A mensagem de Fátima é a bússola que norteia estes peregrinos peculiares no serviço de cada dia.
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Como se reconhecem os Servitas?
Exteriormente, facilmente se identificam os servitas no Santuário. Os homens envergam as correias (que, no passado, serviam para facilitar o transporte das macas) e as mulheres a farda branca, o véu e a Cruz de Cristo. É gente proveniente de todo o país (há também alguns espanhóis) e até do resto do mundo, nomeadamente muitos portugueses da diáspora que utilizam alguns dias das suas férias em Portugal para estarem ao serviço do Santuário. São diferentes dos guardas, que têm um uniforme diferente e que prestam um serviço profissional permanente no Santuário.
Especificamente, os Servitas lavam os pés aos peregrinos, dão água aos que têm sede, ajudam os que levam a cabo o cumprimento de promessas de joelhos, dirigem a organização da bênção dos doentes e das procissões. Estão presentes em Fátima nas peregrinações aniversárias de maio a outubro, em todos os fins de semana de maio a novembro e nos retiros de doentes organizados pelo Santuário. É um serviço que se prolonga há 93 anos.
Em 12 de junho de 2014 assinalaram a celebração oficial do 90.º aniversário. No final da Missa celebrada do dia 13 de manhã no recinto do Santuário, o Bispo de Leiria-Fátima, Dom António Marto, que concelebrou, deixou, em nome do Santuário de Fátima e dos peregrinos deste lugar, uma palavra de “parabéns e de gratidão” à Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, que celebrava os 90 anos de existência ao serviço dos peregrinos deste santuário, de modo especial no acolhimento aos doentes, e da divulgação e vivência da mensagem de Fátima.
Cada Servita tem de estar disponível em três peregrinações por ano e num fim de semana ou num retiro de doentes. É uma entrega que exige um compromisso de grande responsabilidade. Por ano, cerca de dez pessoas fazem a “Promessa dos novos” para serem admitidas como servitas. São homens e mulheres de todas as profissões, casados ou solteiros, leigos ou religiosos, que estão dispostos a oferecer-se a Deus, servindo os peregrinos. Sentem-se diariamente interpelados pela Mensagem de Fátima – oração, penitência e conversão – mas reconhecem a dificuldade em realizar cabalmente os pedidos de Nossa Senhora. De facto, Ela lança-nos muitos desafios e deixa-nos a pensar em muitas coisas, de tal modo que hoje é, para os cristãos, muito difícil o caminho para a perfeição e, por consequência, a santidade perfeita só existe no céu. Por isso, o fundamental é a atitude de disponibilidade total e a interrogação permanente de cada um a si próprio – em cada pensamento, ato e emoção – sobre qual é a vontade de Deus e o desejo de Maria a respeito de cada um.
A Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima tem 93 anos e colabora ativamente com o Santuário no acolhimento aos peregrinos de modo especial no acolhimento aos doentes e na divulgação e vivência da mensagem de Fátima – uma estrutura e um serviço eclesiais.
O 2.º Congresso dos Servitas
A Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima concluiu em Fátima, nos dias 16 e 17 de março de 2007, no ano em que decorria o 90.º aniversário das Aparições, o seu 2.º Congresso. No último dia deste momentoso encontro, na presença do Bispo da Diocese de Leiria-Fátima, Dom António Marto, e também do Emérito da mesma diocese, Dom Serafim Ferreira e Silva, foram lidas as conclusões deste encontro no Santuário de Fátima, o qual, para além das sessões de trabalho, integrou momentos de oração e a visita à exposição patente no Centro Pastoral Paulo VI até ao final de abril, intitulada “Fátima no Coração da História”. 
O documento final, entre outros aspetos refere:
A Assembleia Geral Ordinária, de dezembro de 2001, da Associação aprovou por unanimidade a realização do segundo Congresso da sua história para repensar a sua missão à luz da realidade atual de Fátima e das perspetivas da sua evolução. A opção por esta reflexão sob a forma de Congresso teve como pressuposto a vontade de que ele decorresse de forma participada por todos os Servitas. E considerou-se que a sua urgência não deveria pôr em causa a necessária ponderação dos inúmeros temas e fatores a analisar e avaliar, das fontes a consultar e das participações a solicitar.
E, para que se focar no essencial, adotou um tema, um método e um modelo. O Tema “Renovar o Coração, para Acolher o Futuro” fixava a atenção no essencial da mudança que nasça do coração e nele se enraíze, que o torne capaz de abraçar a realidade da Missão, sempre diferente e sempre nova. O Método propunha, em duas grandes etapas, quatro passos indispensáveis: no primeiro, “Redescobrir o nosso Carisma”, os Servitas olharam para si próprios, refazendo o percurso, desde as origens até à atualidade; no segundo, “Conhecer a realidade”, percorreram a realidade de Fátima (o que é, como é e quem a serve). Era a primeira etapa, que pretendia ser de observação e aprofundamento. Uma segunda etapa, mais voltada para a concretização, incluiu o terceiro passo, “Renovar o Coração”, em que se tentou encontrar os passos de mudança a dar para se abraçar com determinação o que o futuro pedia; e o quarto passo, “Acolher o futuro”, levava à procura da descoberta dos novos caminhos para o serviço dos peregrinos. O Modelo – porque o caminho se previa duro e difícil – postulava a égide de quem ajudasse a colocar o coração em posição disponível e sustentasse a vontade. E assim se decidiu que tudo seria feito “Com os olhos em Maria”, aquela que foi sempre dócil ao Espírito, fiel à vontade de Deus e atenta aos sinais do tempo e aos anseios dos homens. Nestes termos, se encadeou o trabalho de “Com os Olhos em Maria, Renovar o Coração, para Acolher o Futuro”. A certeza de que as mudanças verificadas na realidade de Fátima impunham uma transformação na maneira de ser, estar e realizar a Missão dos Servitas não evitou alguma perplexidade perante a interpretação dos fenómenos e das mutações com que se deparavam. O tempo que decorreu desde dezembro de 2001 até ao Congresso foi tempo de mudança para Fátima: a Diocese de Leiria-Fátima recebeu um novo Bispo; no Santuário, foi renovada a equipa de Capelães, passou a haver novos Servidores, a estrutura física do Recinto foi alterada e a construção da nova Igreja da Santíssima Trindade (ora Basílica) estava em fase conclusiva. Enquanto isto acontecia, os Servitas receberam um novo Assistente Espiritual e foram, também eles, mudando. Partiram uns e chegaram outros, ajustaram-se métodos e alteraram-se serviços, aperfeiçoaram-se critérios e exigiu-se maior rigor na resposta ao compromisso. E continuaram a suceder-se os tempos de serviço a que dão resposta, em Peregrinações Aniversárias, Retiros de Doentes e Fins de semana. E o esforço de reflexão e discussão desenvolveu-se a par do Serviço, o que quer dizer que não o fizeram em “tempo sabático”, mas assegurando todos os compromissos que lhes estavam confiados. Não parando, foram servindo enquanto refletiam. Se a fórmula “Congresso” não atingiu totalmente o objetivo de participação coletiva, teve a virtude de manter sempre atualizado o objeto da reflexão. E o primeiro crédito conseguido foi o de estarem hoje muito mais conscientes daquilo que o Santuário é e do que não é. Ainda que presentes neste lugar desde há mais de 80 anos e agora em ritmo quase diário durante metade do ano, não foram poucas as novidades encontradas, as relações aprofundadas e as ideias germinadas. Como seria de esperar, as conclusões não apontaram para uma “revolução”, mas deixaram claro que muito teria que mudar para que a ação corresponda de modo adequado e atempado às reais necessidades de Fátima, no concreto do Santuário e dos Peregrinos.
O documento final adotou a estrutura seguinte: caraterização da realidade de Fátima, dos Peregrinos, do Santuário, bem como dos Servidores que hoje ali acolhem os peregrinos, caraterizando de modo especial a Associação dos Servitas; as conclusões propriamente ditas, que apontam o Serviço Voluntário como a resposta mais adequada para o serviço dos peregrinos no Santuário, onde se incluem os Servitas, e desenvolvem algumas das suas caraterísticas essenciais; e o caminho a prosseguir na contínua renovação do coração, para todos e de cada um dos Servitas, a fim de sustentar o esforço de mudança que o futuro nos guarda.
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O itinerário do Congresso é um exemplo inspirador para outros congressos em Igreja. E esta condecoração constitui um forte reconhecimento público dum serviço discreto e eficaz ao povo.

2017.07.01 – Louro de Carvalho

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