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domingo, 6 de outubro de 2019

Por e com os irmãos na Amazónia, caminhemos juntos


É o apelo de Francisco deixado na missa inaugural da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, celebrada na manhã deste domingo, dia 6 de outubro, na Basílica de São Pedro, na profunda convicção de que “muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja”. Por isso, é imperativo o caminho conjunto por eles e com eles.
A missa foi precedida de longa procissão de entrada e concelebrada com os treze novos cardeais, criados no Consistório presidido pelo Santo Padre no sábado à tarde e com os 185 padres sinodais (58 do Brasil); e, na assembleia, estavam representantes de comunidades indígenas.
É de recordar que o tema deste Sínodo, que terminará a 27 deste mês, é “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
Dirigindo-se aos padres sinodais, bispos provenientes não só da região pan-amazónica, mas também de outras regiões, e tendo presente a 2.ª carta de São Paulo a Timóteo proposta nesta liturgia do XXVII Domingo do Tempo Comum, no Ano C, Francisco, salientou que o apóstolo Paulo, o maior missionário da história da Igreja, nos ajuda a ‘fazer Sínodo’, a ‘caminhar juntos’; e observou que o recado “parece dirigido a nós, Pastores ao serviço do povo de Deus, aquilo que escreve a Timóteo”. 
Depois, vincou que é preciso fazer Sínodo, ou seja, caminhar juntos. A sinodalidade é um dom que recebemos para sermos dom – disse o Pontífice, que explicitou:
Um dom não se compra, não se troca nem se vende: recebe-se e dá-se de prenda. Se nos apropriarmos dele, se nos colocarmos a nós no centro e não deixarmos no centro o dom, passamos de Pastores a funcionários: fazemos do dom uma função e desaparece a gratuitidade; assim acabamos por nos servir a nós mesmos, servindo-nos da Igreja.”.
E, prosseguindo o discurso sobre o dom, acentuou que “a nossa vida, dom recebido, é para servir”, pelo que toda a nossa alegria a colocamos em servir, “porque fomos servidos por Deus”, que Se fez nosso servo. Assim, exortou a que nos sintamos chamados para servir, “colocando no centro o dom de Deus” e não a nós próprios.
Ainda na perspetiva do dom, o Papa Francisco disse que “o dom que recebemos é amor ardente a Deus e aos irmãos”, é chamamento ao serviço, chamamento à missão. E, assumindo a ótica paulina, enfatizou que, para sermos fiéis a este chamamento, à nossa missão, “São Paulo lembra-nos que o dom deve ser reacendido”. E explicitou o sentido deste verbo fascinante: “reacender é, literalmente, dar vida a uma fogueira”. Assim, “o dom que recebemos é um fogo, é amor ardente a Deus e aos irmãos”, um fogo que “não se alimenta sozinho”, que “morre se não for mantido vivo”, que se apaga “se a cinza o cobrir”.
Aplicando este dinamismo ao Sínodo que acabou de ser inaugurado, o Pontífice explicou o sentido do reacender e que se trata duma graça do Espírito Santo. Eis as suas palavras:
Reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada. E ser fiéis à novidade do Espírito é uma graça que devemos pedir na oração. Ele, que faz novas todas as coisas, nos dê a sua prudência audaciosa; inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazónia, para que não se apague o fogo da missão.”.
Não deixou o Santo Padre de fazer uma premente exortação aos Pastores a serviço do povo de Deus no sentido de se passar da pastoral de manutenção a uma pastoral missionária:
A Igreja não pode de modo algum limitar-se a uma pastoral de ‘manutenção’ para aqueles que já conhecem o Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial. Jesus veio trazer à terra, não a brisa da tarde, mas o fogo. O fogo que reacende o dom é o Espírito Santo, doador dos dons.”.
Verificando e lamentando o erro histórico do colonialismo em relação ao dom, disse que “o fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome”, que é “um fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora”. E, pondo o dedo na ferida, frisou: “Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo”. E exclamou:
Contudo, quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos.”.
Aplicando ao caso da Amazónia o fenómeno da colonização em vez da evangelização, vincou:
O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazónia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros.”.
E exortou a reacender o dom; receber a prudência audaciosa do Espírito, fiéis à sua novidade, acrescentando que o anúncio do Evangelho é o critério primeiro para a vida da Igreja.
Por fim, na certeza de que os irmãos amazónicos aguardam a consolação do Evangelho, convidou a olhar juntos para Jesus Crucificado, para o seu coração aberto por nós, fez mais uma exortação, a exortação mais emblemática e em que ele mesmo se sente comprometido:
Muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos.”.
***
Em complemento do que desenvolveu na homilia da missa de inauguração do Sínodo, o Papa, aquando da recitação da oração mariana do Angelus com os fiéis peregrinos reunidos na Praça São Pedro, pediu a todos queacompanhem com a oração este importante evento eclesial, a fim de que seja vivido na comunhão fraterna e na docilidade ao Espírito Santo”. E explicou aos peregrinos ali reunidos:
Durante três semanas os Padres sinodais, reunidos em torno do Sucessor de Pedro, refletirão sobre a missão da Igreja na Amazónia, sobre a evangelização e sobre a promoção de uma ecologia integral. Peço-vos que acompanheis com a oração este importante evento eclesial, a fim de que seja vivido na comunhão fraterna e na docilidade ao Espírito Santo, que sempre mostra os caminhos para o testemunho do Evangelho.”.
Na alocução que precedeu a susodita oração mariana, Francisco ateve-se ao Evangelho deste XXVII Domingo do Tempo Comum (Lc 17,5-10), cuja página evangélica apresenta o tema da fé: “Aumentai a nossa fé!” – pediam os apóstolos. “Uma bonita oração que devemos fazer muito durante o dia: Senhor, aumentai a minha fé!” – disse o Santo Padre.
Se na missa abordou a temática do dom e do serviço, desta vez, navegou pelo ângulo da fé e da humildade para desembocar no serviço.
Jesus responde ao pedido dos apóstolos de que lhes aumentasse a fé com as seguintes palavras: “Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘arranca-te e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”. E observou:
A fé comparável a um grão de mostarda é uma fé que não é soberba e segura de si, não finge ser um grande crente e muitas vezes acaba a fazer bobagem, não! (…) É uma fé que na sua humildade sente uma grande necessidade de Deus e na sua pequenez se abandona a Ele com plena confiança. (…) É a fé que nos dá a capacidade de olhar com esperança as vicissitudes alternas da vida, que nos ajuda a aceitar também as derrotas, os sofrimentos, conscientes de que o mal jamais terá a última palavra.”.
Ora, se o revestimento da fé é a humildade, a sua medida é o serviço. E a este respeito, o Pontífice interroga-se: “Como podemos entender se temos realmente fé, ou seja, se a nossa fé, mesmo minúscula é genuína, pura, sincera?”. E avançou com a resposta:
Jesus explica-nos indicando qual é a medida da fé: o serviço. E fá-lo com uma parábola que no primeiro impacto resulta de certo modo desconcertante, porque apresenta a figura de um proprietário prepotente e indiferente. Mas propriamente desse modo de fazer do proprietário ressalta aquilo que é o verdadeiro centro da parábola, ou seja,  a atitude de disponibilidade do servo. Jesus quer dizer que assim é o homem de fé diante de Deus: coloca-se completamente à sua vontade, sem cálculos ou pretensões.”.
Depois, Francisco destacou o que Jesus ensina nesta passagem evangélica: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer”. Com efeito, a expressão “servos inúteis”, que evangelicamente significa servidores “sem pretensões de ser agradecidos, sem reivindicações”, é, no dizer do Sumo Pontífice, uma expressão de humildade, disponibilidade que faz muito bem à Igreja e evoca a atitude justa para trabalhar nela: o serviço humilde, do qual Jesus deu exemplo, lavando os pés dos discípulos”.
Por fim, evocando a festa de Nossa Senhora do Rosário que se celebra amanhã, dia 7, e volvendo o seu olhar para a Virgem Mãe, exprimiu o voto de que “a Virgem Maria, mulher de fé, nos ajude a seguir neste caminho”.
***
Constituirá o discurso do dom e do serviço, da fé e da humildade, do fogo e do amor, da oração e da sinodalidade uma resposta consolidada às críticas dos opositores do pontificado de Francisco e, em especial, ao Sínodo pan-amazónico?
2019.10.06 – Louro de Carvalho

sábado, 5 de outubro de 2019

Hoje, 5 de outubro, Portugal tem o 5.º cardeal, chamado à compaixão


Portugal estava até hoje representado por quatro cardeais: Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima; Dom Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa; Dom Manuel Monteiro de Castro, Penitenciário-mor emérito, e Dom José Saraiva Martins, Prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos, os dois últimos com mais de 80 anos. Com a nomeação do Arcebispo Dom José Tolentino de Mendonça, o número passa a cinco, três dos quais eleitores, ou seja, com idade para votar num eventual conclave.
Com cinco cardeais – e sem distinguir entre a população católica e não-católica – Portugal passa a ter cerca de um cardeal por cada dois milhões de habitantes, ou menos, se contarmos apenas os católicos. Na Europa, entre países comparáveis com Portugal em termos de matiz religiosa e/ou dimensão demográfica, esse valor só é superado pela Itália.
Como refere Filipe d'Avillez à Renascença, a Cúria romana mantém um peso enorme de clérigos italianos – o que não surpreende, tendo em conta que Roma é diocese italiana – e tem hoje 42 cardeais no colégio cardinalício, ou seja, um para cada 1,4 milhões de italianos. É o maior contingente, que é seguido à distância pelos Estados Unidos, com 14, e Espanha com 13, respetivamente um para cada 23 milhões de habitantes e um para cada 3,6 milhões. Contudo, a proporção americana desce para um por cada cinco milhões tendo apenas em conta os católicos. A Bélgica, por exemplo, com uma população de 11,5 milhões, tem apenas um cardeal, tal como a Áustria, com uma população de 11 milhões.
França e Alemanha também têm mais cardeais que Portugal: seis e oito respetivamente. Mas, como as suas populações são significativamente maiores, a proporção acaba por ser favorável a Portugal. França tem um cardeal por cada 11 milhões e Alemanha um para cada 10 milhões de habitantes. Olhando pelo ângulo da população, Portugal terá cinco vezes mais cardeais que estes dois países. Também o México tem mais cardeais que Portugal – 6 – mas a proporção é de um para 32 milhões de habitantes.
Conclui-se, pois, que os países com mais cardeais que Portugal são significativamente maiores demograficamente, tendo, assim, uma proporção de cardeais por habitante, ou por habitante católico, menor do que Portugal. Itália, como já vimos, é a exceção.
Usando o mesmo princípio da proporcionalidade, há muitos países que têm apenas um cardeal, mas que se encontram em melhor posição que Portugal e, nessa perspetiva, o “campeão” dos cardeais seria Marrocos, que passa a ter um cardeal para uma população de apenas 50 mil católicos (embora tenha nascido em Espanha, Cristóbal López Romero é arcebispo de Rabat e, por isso, conta como marroquino para efeitos oficiais). Em termos de proporção, isso equivale a 200 cardeais para um país de dez milhões. Já Cabo Verde e Malta, com um cardeal cada, teriam cerca de 200. A extrapolação é absurda, mas ajuda a colocar em perspetiva a importância para a comunidade católica marroquina de estar representada no Colégio dos Cardeais.
O caso de Marrocos é paradigmático da estratégia adotada por Francisco. Países como Santa Lúcia e Tonga, com populações entre 100 mil e 200 mil pessoas, não imaginariam ter um cardeal em pontificados anteriores. E outros países, como a República Centro-Africana, o Burkina Faso ou a Papua Nova Guiné, não obstante terem populações significativas, eram preteridos por serem muito periféricos. Contudo, Francisco pretende dar sinais às periferias de que as suas vozes são ouvidas e valorizadas em Roma, assim como quer fazer do diálogo com o Islão um fator importante do pontificado, o que se deduz das visitas pastorais que fez a países de maioria islâmica e dos encontros que mantém com altas figuras desta religião.
Ora, também no atinente a nomeações de cardeais, o Papa escolheu figuras do mundo islâmico, onde as populações católicas são reduzidas e até alvo de perseguição. São escolhas que têm o duplo efeito de valorizar estas comunidades, como sucede no Paquistão, Bangladesh, Iraque, Marrocos e a Albânia, e de fortalecer os líderes das comunidades aos olhos dos conterrâneos, que têm de interceder a favor dos direitos dos seus fiéis.
Quanto a Portugal, é de questionar se existe uma explicação para termos visto aumentar o número de elementos portugueses no Sacro Colégio. O estado da Igreja em Portugal não parece justificar este entusiasmo, pois não difere muito de outros países ocidentais tradicionalmente católicos. Considerando os cardeais em questão, verifica-se que dois, os que já ultrapassaram os 80 anos, tendo perdido direito ao voto em conclave, são da carreira diplomática e da Cúria Romana, estando mais diretamente ligados ao Vaticano do que à Igreja em Portugal. O terceiro cardeal português é Dom Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa. A sua nomeação para o Colégio Cardinalício seria normal, visto que tradicionalmente o Patriarca de Lisboa será feito cardeal, como sucede com bispos de certas dioceses. Todavia, com Francisco cedo se percebeu que nem todas as tradições são para cumprir. Aliás, Francisco ignorou uma bula de um dos seus antecessores ao não fazer cardeal Dom Manuel logo no primeiro consistório após a sua nomeação como Patriarca de Lisboa, embora a decisão tenha sido interpretada à luz do facto de Dom José Policarpo ainda ser vivo e ter idade para votar num conclave nessa altura.
A tradição acabou por ser cumprida em 2015. Mas há dioceses supostamente beneficiadas pela mesma tradição – embora sem bulas – que têm sido sucessivamente ignoradas, como é o caso do Patriarcado de Veneza, cujo Patriarca foi nomeado em 2012 e ainda não foi feito cardeal.
A nomeação do nosso quarto cardeal foi surpreendente. Dom António Marto é o primeiro bispo de Leiria-Fátima a ser feito cardeal e a decisão foi tomada na sequência da visita do Papa a Fátima para o centenário das aparições, em 2017. Os sucessores não esperarão que isto constitua uma tradição a manter só por inerência do cargo. Isto mesmo sucedeu com a Cátedra do Porto, com o Cardeal Dom Américo.
E o quinto cardeal português, Dom José Tolentino Mendonça, é também um membro da Cúria Romana, para a qual foi nomeado em 2018. A surpresa aqui é a forma como o antigo professor e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa viu a sua vida mudar de rumo depois de ter sido convidado a pregar o retiro de Quaresma do Papa nesse ano. A impressão que deixou junto de Francisco foi tal que o Papa o nomeou arquivista e bibliotecário do Vaticano, levando-o para Roma. O titular desses cargos costuma ser feito cardeal e é uma tradição que Francisco cumpre.
Portanto, mais do que ter Portugal como alvo privilegiado, estão em causa as personalidades em referência e os serviços que prestam.
***
Na cerimónia de criação dos novos cardeais, o Papa criticou o “hábito da indiferença” e pediu aos novos cardeais compaixão, que definiu como “requisito essencial” para a sua missão.
A disponibilidade de um purpurado para dar o seu próprio sangue – significado na cor purpúrea das suas vestes – é certa, quando está enraizada nesta consciência de ter recebido compaixão e na capacidade de ter compaixão. Caso contrário, não se pode ser leal”, afirmou o Sumo Pontífice, que acentuou que “muitos comportamentos desleais de homens da Igreja dependem da falta deste sentimento da compaixão recebida e do hábito de passar ao largo, do hábito da indiferença”.
Antes da imposição do barrete cardinalício, o Santo Padre questionou os então futuros cardeais se têm viva a consciência desta compaixão, que não é uma “coisa facultativa” ou um mero “conselho evangélico”. “É um requisito essencial. Se não me sinto objeto da compaixão de Deus, não compreendo o seu amor. Não é uma realidade que se possa explicar, ou a sinto ou não”, prosseguiu o Papa, que acrescentou: “E, se não a sinto, como posso comunicá-la, testemunhá-la, dá-la?”.
E questionou-se:
Concretamente, tenho compaixão pelo irmão tal, pelo bispo tal, pelo padre tal? Ou sempre destruo com a minha atitude de condenação, de indiferença?”.
Antes, o Papa referiu que, “muitas vezes, os discípulos de Jesus dão provas de não sentir compaixão”, notando que basicamente dizem que se arranjem”. “É uma atitude comum entre nós, seres humanos, mesmo em pessoas religiosas ou até ligadas ao culto. A função que desempenhamos não basta para nos fazer compassivos, como demonstra o comportamento do sacerdote e do levita que, vendo um homem moribundo na beira da estrada, passaram ao largo”, prosseguiu o Pontífice. E, citando um excerto do Evangelho de São Lucas (Lc 5,28) a propósito da cura de um de leproso na Galileia que se ajoelhou diante de Jesus, disse:
Jesus estende-lhe a mão, toca-o e ordena que este fique purificado. E, neste gesto e nestas palavras, temos a missão de Jesus, Redentor do homem: ‘Redentor na compaixão’. Ele encarna a vontade de Deus de purificar o ser humano doente da lepra do pecado; Ele é a ‘mão estendida de Deus’, que toca a nossa carne enferma e, fazendo-o, preenche o abismo da separação”.
E, sobre a natureza desta compaixão divina, esclareceu:
“Esta compaixão não despontou a certo ponto da história da salvação. Não! Sempre existiu em Deus, gravada no seu coração de Pai. Vemo-lo na narração da vocação de Moisés, quando Deus lhe fala da sarça ardente dizendo: ‘Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor, (...) conheço, na verdade, os seus sofrimentos’ (Ex 3, 7).”.
Francisco assinalou ainda que aqueles terão dito para consigo “não é da minha competência”, lamentando que haja “sempre justificações – às vezes até se tornam lei, dando origem a descartados institucionais”.
Para o Papa, “deste comportamento muito humano, demasiado humano, derivam estruturas de não compaixão”. Pelo que exortou:
Peçamos hoje, por intercessão do apóstolo Pedro, a graça dum coração compassivo, para sermos testemunhas d’Aquele que nos olhou com misericórdia, escolheu, consagrou e enviou para levar a todos o seu Evangelho de salvação”.
***
À Renascença, a 4 de outubro, o novo cardeal declarou ver-se como “mais um trabalhador” no colégio cardinalício, recusando tratar-se de “uma questão de peso político, de fazer lobby por isto ou por aquilo”. E disse que na forma de ser do Papa Francisco “há uma pulsão nítida do evangelho” e sublinhou que na Igreja “o mais importante é convergir no essencial”.
Sobre o número de cardeais portugueses e o facto de três serem eleitores num futuro conclave, desvaloriza essas contabilidades, por desinteressantes e fixa-se no que um cardeal eleitor pode e deve fazer:
Tem de escutar a sensibilidade da igreja. Tem de se abrir ao espírito santo. Tem de fazer uma auscultação profunda do que são as necessidades. Não é uma questão de peso político, de fazer lobby por isto ou por aquilo. É uma coisa muito mais profunda e muito mais séria e comprometedora que é no fundo descobrir aquilo que nos Atos dos Apóstolos é bem claro: o protagonista da Igreja em cada tempo é o Espírito Santo. Não são os homens. É o espírito santo que conduz a Igreja.”.
O facto de ser o Espírito Santo o protagonista da condução da Igreja exige de nós – cardeais, bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos e leigos comprometidos:
Uma humildade muito grande, um desapego grande, uma capacidade de ler os sinais dos tempos, uma capacidade de ouvir, uma dimensão comunitária da vida da igreja”.
E o novel purpurado confessa:
Para mim um dos mais belos elogios que se pode fazer a alguém é dizer que aquela pessoa é mais um. É mais um trabalhador, mais um escritor, mais um filho, é mais um pai, é mais um. É essa beleza da vida comum que pode ser o sal da terra, que pode ser o fermento. Caso contrário, o perigo do mundanismo de que fala o Papa Francisco torna-se de facto uma ameaça muito grande e contamina se as nossas contabilidades se deixam levar por outros critérios.”.
Sobre a revolução do Papa Francisco, discorre:
Não sei se ele começou uma revolução. Ele começou um ministério, uma missão de conduzir os irmãos, de manter a unidade, de ser o elo de ligação, de ter múnus, de ter o poder de conduzir e de iluminar a igreja. Isso não há dúvida de que o Papa Francisco tem feito com um sentido de entrega extraordinária. Ver como este homem se gasta, como ele procura à sua maneira, porque cada um tem a sua maneira é belo. Na sua forma de ser, de estar, de conduzir a Igreja, de a abraçar, há uma pulsão do evangelho tão nítida, que penso que a igreja do nosso tempo tem de estar muito grata a Deus por este Pedro que lhe deu que é o Papa Francisco.”.
Quanto a poder dizer-se que é belo o Papa falar de um risco de cisma referindo-se aos críticos, o Cardeal pôs os pontos nos is:
O Papa disse que não tinha medo, que é uma coisa diferente. Um pai não tem medo. O que se espera de um pai ou de um guia é que ele não tenha medo. É essa confiança que nos mantém unidos, mesmo no meio das dificuldades, das incertezas, porque este momento da história é de enorme transformação. No meio disto tudo, manter a confiança é uma coisa muito, muito importante.”.
E falou do perfil deste Papa e do modo como vê a riqueza das diferenças e o dom da unidade:
O Papa Francisco é alguém que, de facto, inspira confiança. Quanto ao resto, ele é muito claro e, repetindo as palavras de Jesus, pede que todos sejam um. A Igreja tem dois mil anos de história. É uma comunidade muito polifónica, com sensibilidades espirituais muito diferentes. As diferenças de sensibilidade nunca foram um problema. São uma riqueza, uma expressão pneumática da natureza da igreja, da expressão do espírito santo. O importante é convergir naquilo que é essencial sabendo que a Igreja se mantém unida à volta de Pedro.”.
Vindo a talho de foice o convite que o Presidente da República lhe fez para presidir às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, disse confiar que, tal como “tem de passar o outono, o inverno, a primavera”, há de surgir-lhe “o fio essencial das palavras”. Ficou “muito comovido com o convite porque, no fundo, a tradição portuguesa é convidar um cidadão a tomar a palavra e a falar aos outros concidadãos”, o que “é um gesto democrático muito significativo e que nos ajuda a criar coesão”.
Sobre as próximas eleições, salienta que “as eleições são um momento muito belo, muito vital da democracia, um momento de construção da vida comum” e que “o importante é a participação de todos na construção do país”. E, sobre a posição dos cristãos, assegura:
Aí penso que os cristãos não podem ficar ausentes. Têm de contribuir. Não podem estar ausentes na vida pública, na participação política. Isso é muito importante. Percebe-se que hoje há uma perceção de que não se pode simplesmente delegar nas mãos de outros o nosso interesse pela causa pública, pela construção da história, pelo futuro da humanidade. Uma certa crise da democracia, que é no fundo a escassa participação dos cidadãos, vai ser superada, porque as gerações mais novas dão todos os sinais de um empenho muito maior e isso há de ter um reflexo da participação dos cristãos no espectro democrático.”.
***
Enfim, abundam os motivos para acreditarmos e esperarmos que o padre teólogo e poeta, ora Arcebispo e Cardeal seja um cooperador estrénuo na reforma permanente da Igreja com simplicidade, humildade, diálogo e eficácia. O Reino de Deus o postula e o homem de Deus o cumpre.
2019.10.05 – Louro de Carvalho

domingo, 21 de julho de 2019

Uma liturgia marcada pelo valor da hospitalidade



O Evangelho do 16.º domingo do Tempo comum no Ano C (Lc 10,38-42) situa-nos na caminhada de Jesus com os discípulos para Jerusalém (9,51-19,27), onde vai viver os últimos acontecimentos da Sua passagem pela terra. Durante o percurso, alojou-se em casa de amigos e pessoas bem conhecidas. Desta feita, visita a casa das discípulas Marta e Maria, que viviam em Betânia com o irmão Lázaro (cf Jo 11).  
O episódio da perícopa em referência integra uma estrutura quiástica com a anterior (Lc 10, 25-37): Palavra de Deus sobre a caridade (amor a Deus e ao próximo); prática espelhada na parábola do samaritano; relato da preocupação de Marta para com o próximo; e Palavra de Cristo sobre a necessidade primária da fé para o cristão. Quer dizer que a prática cristã só tem sentido se estiver ensanduichada pela fé e pelo amor, que se quer não interesseiro, lúcido, afetivo e efetivo.
O nome “Marta”, sendo a forma feminina de “marêh” (senhor) significa “senhora”; e Maria aqui não é a de Magdala, mas a que se identifica no 4.º Evangelho (Jo 1,1ss; 12,1-11), pois a descrição destas irmãs assim o leva a inferir. A evocação da viagem, do caminho (en dè tô poreúesthai autoús) neste episódio é de caráter estilístico, pois, do ponto de vista lucano, Jesus ainda não está em Betânia, onde residem as duas irmãs. Marta andava muito atarefada, pois era provável que no encalço de Jesus chegassem mais hóspedes. “Só é necessária uma coisa” – reza o texto atual, o que não é concorde com a tradição manuscrita: Só umas poucas coisas são necessárias, mas certamente só uma, referem alguns manuscritos, enquanto outros rezam Só umas poucas coisas são necessárias (os mais antigos) e outros, Só uma coisa é necessária. Enquanto a segunda versão manuscrita parece indicar que são precisas apenas algumas coisas sobre a mesa para comer, pois estamos no contexto dum banquete, a terceira aponta para a necessidade de algo mais espiritual, sendo que a primeira congraça as duas hipóteses de insinuação.   
Marta, que recebe Jesus, preocupa-se em acolhê-lo e oferecer-lhe uma generosa hospitalidade, enquanto Maria, sentada aos pés do Senhor, na posição e atitude de discípula (8,35; At 22,3), o escutava. Marta, envolvida pelas ocupações quotidianas, reclama com o Mestre, mas é advertida afetuosamente: “Marta, Marta! Tu ocupas-te com muitas coisas, porém uma só é necessária. Maria, ao escutar a palavra, manifesta em Jesus, escolhe a melhor parte que não lhe será tirada. A escolha do único necessário que é Cristo, Amor e Verdade do Pai, assegura o bom êxito do serviço, da diakonia cristã. Aos pés do Senhor, Maria aprende a escuta e ação em consonância com o projeto de vida e salvação. E revela-se aqui o caminho do discipulado caraterizado pela fidelidade à palavra: Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (11,28). Alicerçadas na Palavra, contemplação e ação tornam-se dimensões complementares ao serviço do Reino. O encontro com a Palavra torna fecundo o serviço generoso e compassivo ao próximo. Sem a disposição para escutar o Mestre, corre-se o risco de escolher a parte menos boa, arriscando o desvio do caminho do Reino de Deus.
Marta aparece como dona de casa diligente, ativa, preocupada em bem receber os hóspedes. Sente que nem tudo será perfeito, que precisa de ajuda. Intervém junto de Jesus enquanto Ele fala, pedindo que mande Maria a ajudá-la. Mostra-se agastada por lhe parecer, talvez injusto, que todo o trabalho recaia sobre ela e que Maria seja dispensada dele.
A resposta de Jesus é bastante misteriosa: Marta, Marta andas inquieta e agitada. Uma só coisa é necessária … Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada. Jesus censura a inquietação e a agitação de Marta, que faz muitas coisas ao mesmo tempo; a preocupação de bem receber o seu hóspede domina tudo o resto, quando o importante já não é receber bem o Senhor, mas fazer com que a receção seja um êxito. Marta, invadida pelas preocupações acaba por inverter o valor e a importância das coisas. O zelo tinha-a levado longe de mais: o que era acessório tomara o lugar do essencial.
Há, no texto, um pormenor relevante, o da “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica do discípulo diante do mestre (cf Lc 8,35; At 22,3). É situação surpreendente num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o facto decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra.
Não raro, o episódio foi lido em chave de oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é isso que está em causa. Lucas não está, nesta catequese, a explicar que a vida contemplativa é superior à vida ativa; está é a dizer que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que “fazer coisas”, “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é essa escuta que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós. Assim, a experiência de Marta é preciosa, pois é um aviso salutar para nós, que não devemos confundir os fins com os meios nem pôr estes acima daqueles. Um único fim é importante: servir o Senhor e não servirmo-nos do dele para as nossas ambições ou desejos pessoais. O próprio serviço do Senhor pode contribuir para isso se não estivermos atentos.
Quantas vezes, até quando nos empenhamos nas obras de apostolado (catequese, liturgia, pastoral social, pastoral familiar, acolhimento, etc.) não nos procuramos mais a nós próprios, ao nosso êxito pessoal do que propriamente a servir os outros ou a Deus!
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A 1.ª leitura (Gn 18,1-10a) apresenta o acolhimento de Abraão e Sara aos três visitantes, que manifestam a salvação de Deus. A hospitalidade, oferecida pelos pais da fé, é recompensada pela promessa de um filho, o maior desejo de Abraão.
Os capítulos 12-36 do Génesis são textos sem grande unidade e sem caráter de documento histórico ou de reportagem jornalística. Estamos ante uma mistura de “mitos de origem” (narravam a chegada dum “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nómada durante o 2.º milénio antes de Cristo. Na origem do texto em referência estará uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas terão aparecido a um cananeu anónimo junto do carvalho de Mambré (perto de Hebron), como o cananeu os acolhera na sua tenda e como fora recompensado com um filho pelos deuses (Mambré era um santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão ali se estabeleceu, a lenda cananeia foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas.
No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentarem a sua catequese. No estado atual do texto, a personagem central é Abraão, a figura que os catequistas jahwistas apresentam aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé.
Abraão está “sentado à entrada da tenda, na hora de maior calor do dia”. De súbito, aparecem três homens diante de Abraão, que os convida a entrar, não se limitando a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisando um banquete com pão recém-cozido, um vitelo “tenro e bom” do rebanho, manteiga e leite. Depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo vigilante para que nada falte aos convidados: é a lendária hospitalidade nómada no seu melhor. Abraão surge como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, o que tem de melhor.
Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus mais profundos anseios: a chegada dum filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência. Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à ação de Abraão: o autor jahwista quer dizer-nos que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuitidade, de amor.
Complementarmente, fica espelhada a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento em que Sara ri diante da “promessa”, mas Abraão conserva um silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida): tais são as atitudes que o crente é convidado a assumir diante deste Deus que vem ao encontro do homem.
Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que estabelece laços familiares com o homem, com quem deseja estabelecer uma história de amor e de comunhão. O jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que põe tudo quanto possui nas mãos de Deus e que manifesta, com este comportamento, a sua bondade, humanidade, confiança e fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão.

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A atitude de hospitalidade perpassa por toda a celebração litúrgica. Deus acolhe-nos, nós acolhemos Deus. A iniciativa é sempre d´Ele que nos ama primeiro. A hospitalidade implica também estar à mesa: Ele está à nossa porta e bate é preciso ouvir a sua voz e abrir, assim cearemos juntos (antífona da comunhão; cf Ap 3,20). Não é comer por comer, mas a partilha da mesa implica em nossa vida partilhar do mesmo destino de Jesus Cristo e para isto é necessário que Ele nos ajude a despojarmos do velho homem e para uma vida nova (oração pós-comunhão).
Para fomentar um ambiente agradável entre as pessoas é indispensável o cultivo dos bons hábitos, chamados vulgarmente virtudes humanas. Entre muitas outras, encontra-se a virtude da hospitalidade, que nos aparece com grande relevo na Sagrada Escritura e é ainda em muitos lugares tida em grande conta. No entanto, podemos perguntar até que ponto ela é possível nos nossos ambientes. As pessoas debatem-se com magros rendimentos, territórios destruídos pelas catástrofes (naturais e humanas), falta de tempo, habitações reduzidas, condicionamentos dos horários de trabalho e séria ameaça à segurança que aconselha a não receber em casa pessoas estranhas. Ademais, parece que é menos necessária hoje a hospitalidade. As pessoas deslocam-se rapidamente dum lugar para o outro, não tendo necessidade de se hospedarem fora de casa.
Não obstante, a hospitalidade, como todas as virtudes, é de todos os tempos. O importante é configurá-la aos tempos em que vivemos, encontrar formas novas de a viver.
Abraão, que recebeu três misteriosas personagens no seu acampamento, quando estava à porta da tenda, por causa do calor sufocante que se fazia sentir, surge como modelo da hospitalidade.
Uma virtude humana indispensável. “Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia. Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele. Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro.”. Abraão levanta-se prontamente, logo que se dá conta da presença os três personagens. Esta prontidão deixa-nos entrever que estava já habituado a fazê-lo. A hospitalidade, virtude humana que consiste em acolher bem os outros, acolhê-los e partilhar a vida com eles, traz consigo um grande número de virtudes-satélites.
Entre estas, contam-se a cordialidade e a simpatia. Abraão não espera que lhe venham ao encontro e peçam algo de que necessitam. Aproxima-se pressuroso, manifestando a sua alegria em recebê-los. Com efeito, é preciso que as pessoas sintam a nossa alegria em recebê-las.
Outra virtude conexa com a hospitalidade é o espírito de sacrifício. Era a hora mais quente do dia. Numa situação destas, somos tentados a pensar só em nós procurando evitar a temperatura incómoda, desejando que ninguém nos incomode e nos deixem em paz. Ora, sem esta dimensão do sacrifício, as pessoas tornam-se ilhas fechadas e isoladas, tornando impraticável a convivência humana. E o Senhor bate-nos à porta em horas incómodas, misteriosamente presente nos nossos irmãos.
Depois é necessária a abertura do coração. Mais do que abrir a porta de casa ou a bolsa, a hospitalidade consiste em abrir as portas do coração, em encontrar tempo e paciência para escutar e aceitar a partilha de problemas, dores ou preocupações. Abraão nem sequer tem casa para receber, porque vive ainda em nomadismo. Mas nós, hoje temos muitas oportunidades de praticar esta virtude. O isolamento, sobretudo dos mais idosos e doentes que são forçados a permanecer em casa é realidade gritante; muitas pessoas sentem-se asfixiadas pelos problemas da vida e vão até ao desespero. Precisam de quem as oiça. Fomenta-se o voluntariado e as obras de apostolado que oferecem ajuda e são uma forma preciosa de viver em solidariedade, porque trabalham sem qualquer recompensa e apoiam-se num compromisso de continuidade.
Acolher com generosidade. “Mandarei vir água, para que possais lavar os pés e descansar debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças antes de continuardes o vosso caminho, […].”. Abraão segue os costumes do seu tempo. Ofereceu aos misteriosos visitantes água para lavar os pés da poeira dos caminhos e o melhor que tinha nos seus rebanhos e na tenda para lhes preparar uma refeição.
No acolhimento é preciso situar-se bem entre dois extremos: esbanjamento, que tem como origem a tentação da vaidade, de aparentar um luxo que não existe, o que pode acontecer também com o tempo, ocupando espaço que pertence à oração, ao trabalho profissional, aos deveres de estado, etc.; e mesquinhez, que denuncia um coração tacanho, que leva a fazer o menos possível para receber alguém, não estando o problema tanto no que se dá, mas no modo como se dá. A falta de tempo, de disponibilidade, para acolher, pode ser uma máscara para encobrir o egoísmo. Para nos defendermos desta tentação, pensemos em que gastamos o tempo. Talvez houvesse outras coisas menos importantes que poderiam ter cedido o seu lugar a um acolhimento. É generosidade acolher com um rosto sereno quando temos muito que fazer e o tempo é reduzido e quando estamos em más condições de saúde ou cansados ou temos coisas urgentes à nossa espera.
Deus (e Jesus, a sua melhor imagem) recompensa a hospitalidade. “Depois eles disseram-lhe: ‘Onde está Sara, tua esposa?’. Abraão respondeu: ‘Está ali na tenda’. E um deles disse: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho’.”. Esta promessa aparece diretamente relacionada com o gesto de hospitalidade que Abraão tivera para com eles. Também a viúva de Sarepta ofereceu o último punhado de farinha e as últimas gotas de azeite para que se fabricasse o pão com que Elias matasse a fome, e nunca mais o alimento lhe faltou, até que acabou a seca naquela terra, pois Deus nunca se deixa vencer em generosidade e recompensa sempre a hospitalidade feita por amor d’Ele.
A primeira recompensa que Deus nos oferece pela hospitalidade é uma grande paz e alegria interiores. É o que deve ter sentido Abraão e Sara, depois deste acolhimento caloroso. É alegria de ver o outro feliz, e ter vencido o egoísmo, fazendo algo que talvez nos custasse. Depois, o coração de quem pratica esta virtude dilata-se, cresce na sua capacidade de amar e de vencer o egoísmo que nos fecha em nós mesmos.
A hospitalidade é uma das obras de misericórdia e merece recompensa eterna. No Evangelho do juízo final, Jesus faz consistir o julgamento apenas sobre a caridade que se exprime por estas obras. “Vinde, benditos de Meu Pai…!” (Mt 25,31-46).
E o Evangelho mostra à saciedade o valor da hospitalidade, que merece a recompensa eterna e já neste mundo a recompensa a cem por um. Jesus lava os pés aos discípulos e quer que eles façam o mesmo aos outros, aceita a unção duma pecadora, tal com aceitou o convite do fariseu para um banquete (Lc 7,37-50), como aceitou a unção de Maria de Betânia (Jo 12,1-11). 
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A hospitalidade pratica-se entre famílias com relações de amizade, que se encontram em almoços, jantares, passeios em comum e, mesmo, acolhendo-se na casa uns dos outros.
Quando as viagens eram longas e penosas, esta espécie de hospitalidade era mais necessária. A mãe de São João Bosco e os pais de São João Maria Vianney recebiam em sua casa viajantes, pobres e desertores dos exércitos, ofereciam-lhes comida e dormida. Hoje, porém, por causa dos exigentes horários de trabalho, habituações reduzidas ao mínimo indispensável, e até por causa da falta de segurança crescente, fica desmotivada esta espécie de hospitalidade. Ademais, parece que agora é menos necessária, por as viagens serem rápidas, e não se dispõe de tempo. Mas há formas de hospitalidade e de acolhimento muito necessárias no nosso tempo.
Hoje a hospitalidade concretiza-se em encontrar tempo e disposição para os outros: visitando idosos e doentes que passam o dia sós ou em lares perdidos no anonimato, embora identificados; disponibilizando-se para ouvir os que sofrem e iluminar o seu sofrimento e debilidades à luz da fé com a ternura do coração magnânimo; e acolhendo quem nos surge no caminho a abrir o seu coração e receber uma palavra amiga que lhe possa orientar a vida.
2019.07.21 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Quinta-feira Santa, dia sacerdotal


A opção pelo enunciado em epígrafe não tem a ver somente com o segmento imperativo do relato da Última Ceia “Fazei isto em memória de Mim” (Lc 22,19; 1Cor 11,23.25), no que se costuma ver – e porque não (?) – uma toada da instituição do sacerdócio ministerial.
Pelas possíveis citações bíblicas, nomeadamente dos Evangelhos, podemos chamar-lhe o dia da Eucaristia, pois tanto Mateus como Marcos, Lucas ou Paulo referem o pormenor da instituição da Eucaristia no contexto da Ceia. Podemos com toda a propriedade chamar a este dia o dia do Amor fraterno, porque hoje fica estabelecido o mandato novo do amor de uns para com os outros como Cristo ensinou e fez. Porque se trata de um amor não de palavras, mas de obras, de um amor afetivo e efetivo, de um amor não possessivo, mas oblativo, não de amor erótico, mas de filia e ágape, podemos chamar a este dia do dia do amor em Serviço fraterno.
Porém, se nos fixarmos bem no objetivo do dia, podemos chamar-lhe o dia da Entrega. Com efeito, Jesus “pôs-se à mesa e os Apóstolos com Ele e disse-lhes: ‘Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer, pois digo-vos que já não a voltarei a comer até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus’.” (Lc 22,14-16). Depois, é de considerar que o pão repartido e o cálice de vinho partilhado pelos discípulos são o Corpo do Senhor entregue por nós e o Sangue do Senhor derramado por nós. E tudo com referência ao cumprimento desta Ceia no Reino de Deus ou o Reino do Pai, no que acordam os três sinóticos. E Mateus e Lucas, bem como João colocam aqui a tónica na missão do serviço ao invés do mando ou do poderio e das mordomias terrenas, sendo este serviço um estilo de entrega dedicada sem espera de retribuição. Neste sentido, antes da Sua entrega ao Pai ou em concomitância com ela, Jesus quis entregar-Se aos homens, que são objeto de resgate.
Por outro lado, os sinóticos dão muita importância à Oração de Jesus no Horto das Oliveiras, para cujo cenário convocou os discípulos e, para mais perto, Pedro Tiago e João, a quem pediu que rezassem com Ele, sem que estes o conseguissem. Mas Jesus, num intenso diálogo a sós com o Pai, renuncia, embora com muita dor, à Sua vontade e assume por inteiro o cumprimento da vontade do Pai (Não se faça a minha vontade, mas a tua! – Lc 22,42; cf Mt 26,39.42.44; Mc 14,36.39).
Porém, João no âmbito da revelação de Jesus aos Seus através do grande sinal, refere que Ele, durante a Ceia, que não descreve como os sinóticos (estava já consolidada a fé na Eucaristia e a sua prática, mas não as suas consequências – a batalha de todos os dias), lavou os pés aos discípulos e enxugou-lhos, explicando-lhes o sentido e as consequências deste gesto, que eles devem replicar. Com toda a exigência e realismo entrega-lhes a nova tarefa do amor – ensanduichada pelo anúncio da traição de Judas e pelo da negação de Pedro – tarefa que será a marca distintiva dos discípulos de Cristo o longo do tempo. Depois, dá-lhes muitas e diversas pepitas de ensinamento, revela-Se-lhes como o Caminho, a Verdade e a Vida, promete-lhes por cinco vezes o envio do Paráclito, deixa-lhes a paz, acentua a união entre os discípulos e Ele próprio e deles entre si mesmos, renova o mandamento do amor e alerta-os para o ódio do mundo para com os discípulos, o que acarretará perseguições, mas anuncia que a tristeza se lhes converterá em alegria e fala abertamente, não só por comparações, garantindo a vitória sobre o mundo.   
Depois de feitas todas estas considerações nos capítulos 13 a 16, João transcreve (?) a Oração Sacerdotal de Jesus dedicando-lhe todo o capítulo 17.
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A análise de Bento XVI em 25/01/2012 permite a índole sacerdotal que adjetiva este dia.
Esta oração é compreensível na sua riqueza extrema, se a inserirmos no cenário da festa judaica da expiação, o Yom kippur. O Sumo-sacerdote cumpria a expiação em três etapas – para si mesmo, para a classe sacerdotal e para todo o povo – a fim de restituir ao povo de Israel, após as transgressões do ano, a consciência da reconciliação com Deus, a consciência de povo eleito, ‘povo santo’ no meio dos outros povos.
A oração, inscrita no capítulo 17 do 4.º Evangelho, segue a estrutura da predita festa. Jesus dirige-se ao Pai no momento em que Se oferece a Si mesmo (sacerdote e vítima, altar e cordeiro) ora por Si, pelos apóstolos e por todos aqueles que acreditam, pela Igreja de todos os tempos.
A oração de Jesus por Si mesmo é o pedido da sua glorificação na sua “hora” e “a declaração de plena disponibilidade a entrar, livre e generosamente, no desígnio de Deus Pai que se cumpre no ser entregue e na morte e ressurreição”. A “hora” começou com a traição de Judas e culmina com a elevação de Jesus ressuscitado para o Pai. Jesus comenta a saída de Judas com as seguintes palavras: “Agora o Filho do homem foi glorificado, e Deus foi glorificado nele” (Jo 13,31). Assim, começa a prece sacerdotal, dizendo: “Pai, chegou a hora: glorifica o teu Filho, para que o Filho te glorifique” (Jo 17,1). A glorificação que Jesus pede é o ingresso na obediência plena ao Pai, que O leva à sua condição filial mais completa: “E agora, Pai, glorifica-me diante de ti com aquela glória que Eu tinha em Ti antes da criação do mundo” (Jo 17,5). Este (pedido e disponibilidade) – dizia o Papa Ratzinger – é o primeiro ato do novo sacerdócio de Jesus, que é um doar-se totalmente na cruz, e precisamente na cruz, o supremo gesto de amor, ficando a cruz como sinal de glorificação e de amor.
Depois, temos a prece de intercessão e expiação de Jesus pelos discípulos, que permanecem com Ele. É sobre eles que Jesus diz ao Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus e Tu deste-mos, e eles observaram a tua palavra” (Jo 17,6). Ora, como ensinava Bento XVI, “manifestar o nome de Deus aos homens” é a realização duma nova presença do Pai no meio da humanidade: encarnando, Deus “visitou e redimiu seu povo” (Lc 1,68). Esta manifestação não é só uma palavra, mas é realidade em Jesus. Porque Deus está connosco, realizou-se a sua presença connosco, o ser um de nós. Portanto, esta manifestação realiza-se na encarnação e tem o ápice no sacrifício que Jesus realiza na Páscoa de entrega, morte e ressurreição. Em Jesus, Deus entra na carne humana, faz-se próximo de modo novo e único. No cerne desta prece de intercessão e de expiação em prol dos discípulos encontra-se o pedido de consagração. Com efeito, Jesus diz ao Pai:
Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. Consagra-os na verdade. A tua palavra é verdade. Como Tu me mandaste para o mundo, também Eu os enviei para o mundo; por eles consagro-Me a mim mesmo, a fim de que também eles sejam consagrados na verdade.” (Jo 17,16-19).
Uma vez que só Deus é propriamente “consagrado” ou “Santo”, consagrar quer dizer “transferir uma realidade, uma pessoa ou coisa, para a propriedade de Deus”. Neste sentido, como ensinava o Papa alemão, “consagrar” envolve dois aspetos complementares: separar das coisas comuns, retirar da ambiência da vida pessoal do homem para ser doado totalmente a Deus; e, ficando na posse de Deus, “consagrar” é tornar disponível para o envio, para a missão. Assim, a pessoa consagrada existe para os outros, é doada ao próximo. Doar-se a Deus quer dizer não existir mais para si mesmo, mas para todos. É consagrado/a aquele ou aquela que, como Jesus, se segrega do mundo e se põe à parte para Deus com vista à tarefa que Ele lhe destinar, pelo que está plenamente à disposição de todos. Para os discípulos, consistirá em continuarem a missão de Jesus, serem doados a Deus para estarem assim em missão para todos. Tanto assim é que na tarde da Páscoa, o Ressuscitado, aparecendo aos seus discípulos, dir-lhes-á: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio” (Jo 20,21). E o envio postula o revestimento da força do Alto (Lc 24,49) ou seja, receber o sopro do Espírito Santo, para distribuírem o perdão (cf Jo 19,22); a presença de Jesus com os enviados na missão (Mt 28,20); e a confirmação divina das palavras dos enviados (Mc 16,20).  
Em terceiro lugar, a oração sacerdotal amplia o olhar até ao fim dos tempos. Jesus dirige-se ao Pai para interceder a favor de todos aqueles que forem levados à fé mediante a missão inaugurada pelos apóstolos e continuada na história: “Não oro só por estes, mas também por aqueles que acreditarem em mim mediante a sua palavra”. Jesus reza pela Igreja de todos os tempos, ora também por nós (cf Jo 17,20). A este respeito, ensina o Catecismo da Igreja Católica:
Jesus cumpriu perfeitamente a obra do Pai e a sua oração, assim como o seu sacrifício se estende até à consumação dos tempos. A oração da ‘Hora’ preenche os últimos tempos e leva-os à sua consumação.” (n. 2.749).
O item central da oração sacerdotal de Jesus, dedicada aos discípulos de todos os tempos, é a unidade futura de quantos acreditarem – unidade que não é produto mundano, mas que provém somente da unidade divina e nos chega do Pai, pelo Filho e no Espírito Santo. Jesus invoca, assim, um dom que provém do Céu, mas que tem necessariamente efeito real e percetível na terra. Reza para que todos sejam um só: assim como Pai está nele e Ele está no Pai que também todos eles estejam em Jesus e no Pai, para que o mundo creia que o Pai O enviou (cf Jo 17,21). A unidade dos cristãos, por um lado, é realidade secreta presente no coração dos crentes; e, ao mesmo tempo, deve aparecer com toda a clareza na história para que o mundo creia. Tem, por isso, uma finalidade prática e concreta, devendo acontecer para que todos sejam realmente um só. A unidade dos discípulos futuros, sendo unidade com Jesus, enviado ao mundo pelo Pai, é a fonte originária da eficácia da missão cristã no mundo.
Citando o seu livro Jesus de Nazaré, II, 117s, o Papa Ratzinger discorria:
Podemos dizer que na oração sacerdotal de Jesus se cumpre a instituição da Igreja... Precisamente aqui, no ato da última Ceia, Jesus cria a Igreja. Porque, o que é a Igreja, a não ser a comunidade dos discípulos que, mediante a fé em Jesus Cristo como enviado do Pai, recebe a sua unidade e é envolvida na missão de Jesus de salvar o mundo, conduzindo-o ao conhecimento de Deus? Aqui encontramos realmente uma verdadeira definição da Igreja. A Igreja nasce da oração de Jesus. E esta prece não é apenas palavra: é o gesto em que Ele se ‘consagra’ a Si mesmo, ou seja, se ‘sacrifica’ pela vida do mundo.”.
Por esta unidade rezada por Jesus e recebida e conservada pela Igreja, esta “pode caminhar ‘no mundo’ sem ser ‘do mundo’ (cf Jo 17,16) e viver e agir na missão que lhe foi confiada para que o mundo creia no Filho e no Pai que O enviou”. A Igreja torna-se, pois, o lugar e o instrumento da continuidade da missão de Cristo: conduzir o mundo para fora da alienação do homem em relação a si e a Deus, para fora do pecado, para o mundo voltar a ser o mundo de Deus.
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O discurso de Bento XVI tem respaldo na Carta aos Hebreus. Jesus, o perfeito sacerdote penetrou os céus, pois não precisou de oferecer o sacrifício por Si (só requer a glorificação Sua e a do Pai), pois não conheceu o pecado, mas apenas pelos outros (o seu sacrifício foi totalmente vicário, ou seja, só pelos outros), pois assumiu o nosso pecado para que sejamos salvos; não é um sacrifício reiterado todos os anos, mas feito de uma só vez; não tem um horizonte limitado, mas goza da intimidade ‘cenal’ (de ceia ou banquete) e comunitária de quinta-feira e do drama espetacular de sexta, constituindo o mesmo ato de entrega; não é o sacrifício do cordeiro (ou do novilho) contraposto ao do pão e do vinho de Melquisedeque, mas junta as duas vertentes – corpo e sangue de Jesus (não de animais) feitos, nas espécies de pão e de vinho, excelente alimento e saciedade de todos e cada um dos discípulos e cimentação da comunidade, antecipando a chegada definitiva do Reino e constituindo a forma de reiteração diária do mesmo sacrifício e banquete em todos os tempos e lugares, em benefício dos fracos, doentes e pobres, que se alimentarão e alegrão – estimulando e confirmando a profundidade, o estilo e a prática do amor.
Ora, para tornar possível o usufruto deste dom amorável e sacrificial da Eucaristia realmente instituída, temos a participação dos ministros no sacerdócio de Jesus, Sumo, Eterno e verdadeiramente Único Sacerdote que, instruindo-se a si mesmos e aos outros no ensino dos apóstolos, repetem as palavras e os gestos de Jesus sobre o pão e o vinho, que oferecem em sacrifício ao Pai e dão em comunhão – tudo em memória de Jesus e sua pura e santa oblação. Por consequência necessária, promovem e orientam, como verdadeiros líderes o serviço às consciências e às mesas e a colmatação das necessidades de todos e de cada um, levando o facho da palavra, da santidade e da justiça na caridade às mais longínquas periferias existenciais. No entanto, será paupérrima a ação dos ministros sagrados se não conseguem congregar toda a plêiade de crentes que, incorporados em Cristo e na sua Igreja pelo Batismo e confirmados pelo Crisma da Salvação, são ungidos no Espírito Santo para a consagração de entrega oblativa e missão sustentada exercendo sacerdotalmente em união com os ministros o múnus sacerdotal – deste sacerdócio comum que nos capacita e insta a oferecermos Cristo ao Pai oferendo-nos com Cristo em reparação de nossos erros e dos erros dos outros. Também todos somos sacerdotes intercessores pelos outros junto do Pai e missionários junto dos outros.
Quinta-feira Santa não é o único dia sacerdotal: é, antes, o primeiro do tríduo pascal – um verdadeiro dia da Igreja – e o primeiro de muitíssimos dias sacerdotais. Basta que haja ensino de Evangelho, Eucaristia, com perdão das ofensas, amor e serviço, intercessão e missão!
2019.04.18 – Louro de Carvalho