domingo, 2 de julho de 2017

75 anos depois, Vila da Ponte afirma-se como comunidade sacerdotal

Celebrou-se hoje, dia 2 de julho, na Sé Catedral de Lamego, a ordenação sacerdotal (presbiteral) de três jovens diáconos: Ângelo Santos, Diogo Rodrigues e Luís Rafael.
Felizmente, não é rara a celebração do Sacramento da Ordem na diocese de Lamego – de diáconos, presbíteros e, mesmo, bispos. E este é sempre um acontecimento notável e momento de oferta da graça divina. E, porque desde 26 de julho de 1942 a paróquia de Vila da Ponte, apesar de várias tentativas, não foi coberta eficazmente pelo dom da oferta de um sacerdote à Igreja, este é um dia extremamente festivo para esta comunidade de fé viva e intensa. E, mais do que se interrogar porque só agora isto acontece, apesar do zelo dos pastores (cuja preocupação pela organização paroquial poderá de certo modo ter-se sobreposto ao incremento pastoral da fé, só Deus o sabe!) e dos catequistas e da piedade de tanta gente da paróquia, o dia é de ação de graças pelo dom de Deus. Agora, com efeito, o Padre Luís Rafael é testemunho vivo duma comunidade sacerdotal, povo de Deus, nação santa, plantada à beira do Távora.
Dos quatro sacerdotes que foram ordenados naquele ano de 1942, na igreja paroquial de Vila Ponte – um deles era o excecional Cónego José Cardoso de Almeida, dali natural – e daqueles dois que lá receberam a ordem de diácono, um, e subdiácono, o outro, já nenhum se conta fisicamente entre nós. Mas agora, o dia, sem deixar de ser de memória por todos os que partiram, é sobretudo de festa por quem agora surge como servidor de Deus e dos homens! 
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Comecemos por falar do Luís Rafael. Diz-nos ele próprio que é “aquele menino que cresceu junto às águas do Távora, em Vila da Ponte”; a “criança irrequieta que nem sempre se portava bem na catequese”, mas que “gostava muito de vestir a alva e ajudar o Senhor Padre na Missa”; o “adolescente aventureiro que encontrou no Seminário de Resende uma nova casa”; o “Jovem Sem Fronteiras que sempre procurou ‘estar perto dos que estão longe, sem estar longe dos que estão perto’”; e o “estudante de teologia, seminarista, filho, amigo, diácono, discípulo-missionário, embalado pelo Amor de Deus”. Muito Bom!
Refere que  o estágio pastoral na Paróquia de Santa Maria Maior de Almacave tem sido “uma oportunidade para aprender”, já que “todas as semanas surgem novos desafios”, tendo tentado “encontrar em cada um deles algo que, em breve”, o possa “ajudar a ser um ‘melhor’ sacerdote”. E “o contacto diário com o povo de Deus tem sido a maior riqueza deste tempo”: “conhecer as pessoas, as famílias, as histórias, partilhar a mesa, as alegrias e as tristezas…”.
Sobre a formação recebida no Seminário e na Faculdade de Teologia, assegura que “o tempo de formação é essencial”, pois “ninguém nasce ensinado”. Diz que sente na vida “a importância de cada passo dado, cada ano de seminário, cada disciplina estudada”. Porém, nem sempre lhe “foi fácil compreender o porquê de algumas normas formativas do seminário ou vislumbrar automaticamente a ‘utilidade prática’ de determinadas temáticas estudadas na Faculdade”. Entretanto, o passar do tempo, foi-lhe dando a “resposta para a maior parte dessas inquietações, mas certamente existem alguns aspetos que devem ser alvo de uma reflexão profunda à luz do contexto atual”. E aos seminaristas e aos que estão a pensar entrar no Seminário declara:
Ao longo dos vários anos em que estive no seminário sempre gostei de me sentir acompanhado, principalmente pelos sacerdotes. Amigos, nunca estive sozinho… e nenhum de vós percorrerá este caminho sozinho! Contem comigo… Abraço.”. (cf Voz de Lamego, ano 87/33, n.º 4418, 27 de junho 2017).
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O que são os sacerdotes/presbíteros?
O Concílio Vaticano II esclarece-nos: “Os Presbíteros, embora não possuam o fastígio do pontificado e dependam dos Bispos no exercício do seu poder, estão-lhes, contudo, associados na dignidade sacerdotal e, por força do sacramento da Ordem, são consagrados, à imagem de Cristo sumo e eterno Sacerdote (cf Heb 5, 1-10; 7, 24; 9, 11-28), para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento (Conc. Vat. II, Const. Lumen Gentium, n. 21). São, pois, consagrados para a pregação, celebração do culto divino e apascentamento dos fiéis.
Pela sagrada Ordenação alguns fiéis são instituídos em nome de Cristo e recebem o dom do Espírito Santo para apascentarem a Igreja pela palavra e pela graça de Deus (Conc. Vat. II, Const. LG, n. 28). São, assim, destacados do comum dos fiéis, para receberem pela Ordem o dom de apascentar a Igreja pela Palavra e pela Graça.
E em outro lugar, pode ler-se: “Os Presbíteros, em virtude da sagrada Ordenação e da missão que recebem das mãos dos Bispos, são promovidos ao serviço de Cristo, Mestre, Sacerdote e Rei, de cujo ministério participam, e mediante o qual a Igreja é continuamente edificada, neste mundo, como Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo”. (Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 1). São destinados ao serviço de Cristo e edificação da Igreja.
Aos presbíteros, pela sagrada Ordenação é conferido um sacramento por força do qual eles são assinalados, “pela unção do Espírito Santo, com um caráter particular e, de tal modo ficam configurados a Cristo sacerdote, que podem agir na pessoa de Cristo Chefe” (Vat. II, PO, n. 2). Por isso, os presbíteros têm parte no sacerdócio e missão do Bispo. Zelosos cooperadores da Ordem episcopal, chamados a servir o povo de Deus, constituem com o seu Bispo um único presbitério com diversas funções. (cf Vat. II, LG, n. 28). É um sacramento que imprime o caráter particular de configuração com Cristo sacerdote.
Também o Pontifical Romano (de Paulo VI, revisto por João Paulo II), retomando a doutrina conciliar nos elucida sobre os presbíteros:
Participantes, segundo o grau do seu ministério, do múnus de Cristo, único Mediador (1Tm 2, 5), anunciam a todos a palavra de Deus e principalmente na celebração eucarística exercem a sua função sagrada. São, para com os fiéis penitentes ou enfermos, ministros da reconciliação e do conforto e apresentam a Deus Pai as necessidades e súplicas dos fiéis (cf Heb 5,1-4). Desempenhando, segundo a sua condição, o múnus de Cristo Chefe e Pastor, reúnem a família de Deus como fraternidade animada num só todo e, por Cristo, no Espírito Santo, conduzem-na a Deus Pai. No meio do rebanho adoram o Pai em espírito e verdade (cf João 4,24). Trabalham, enfim, pregando e ensinando (cf 1Tim 5,17), acreditando o que leram e meditaram na lei do Senhor, ensinando o que creem e vivendo o que ensinam.” (vd PR, Preliminares da Ordenação dos Presbíteros, n. 102). São, pois, ministros da Palavra e da Eucaristia, da Reconciliação e do Conforto; são fatores da unidade e convocantes da comunidade; e são crentes e orantes exemplares que ensinam o que creem e vivem o que ensinam.
Pela imposição das mãos do Bispo e a Oração de Ordenação é conferido aos candidatos o dom do Espírito Santo para o múnus de presbíteros – os presbíteros também impõem as mãos aos candidatos juntamente com o Bispo, para significarem a receção no presbitério. As palavras seguintes, enquanto nucleares desta Oração, pertencem à natureza da Ordenação, de tal modo que são exigidas para a sua validade:
Nós Vos pedimos, Pai todo-poderoso, constituí estes vossos servos na dignidade de presbíteros; renovai em seus corações o Espírito de santidade; obtenham, ó Deus, o segundo grau da Ordem sacerdotal que de Vós procede, e a sua vida seja exemplo para todos”. (cf id, n.112).
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Nas palavras sugeridas pelo Pontifical para a homilia da Missa da ordenação dos presbíteros, refere-se que, pelo Batismo, “todo o povo santo de Deus se torna, em Cristo, um sacerdócio real”. Porém, Cristo “escolheu alguns discípulos para desempenharem na Igreja, em seu nome, o ministério sacerdotal em favor dos homens”. E, “enviado pelo Pai, Ele mesmo enviou os Apóstolos por todo o mundo” para continuar, por meio deles e dos Bispos, seus sucessores, “a sua missão de Mestre, Sacerdote e Pastor”. E os presbíteros, constituídos cooperadores dos Bispos e associados a eles na missão sacerdotal, “são chamados ao serviço do povo de Deus”.
Assim, os presbíteros servem a “Cristo, Mestre, Sacerdote e Pastor” e, pelo seu ministério, a Igreja, Corpo de Cristo, “cresce e edifica-se como templo santo e povo de Deus”. E, sendo configurados com Cristo e associados aos Bispos, são “consagrados como verdadeiros sacerdotes da Nova Aliança para anunciarem o Evangelho, apascentarem o povo de Deus e celebrarem o culto divino, principalmente no sacrifício do Senhor”.
Pelo sacramento da Ordem, os presbíteros, exercem, no que lhes compete, o “múnus de ensinar em nome de Cristo, nosso Mestre”; distribuem “a todos a palavra de Deus” que receberam com alegria; e, “meditando na lei do Senhor”, procuram crer o que leem, ensinar o que creem e viver o que ensinam.
Há de ser o seu “ensino alimento para o povo de Deus” e o seu “viver motivo de alegria para os fiéis”, para edificarem, “pela palavra e pelo exemplo, a casa que é a Igreja de Deus”.
Exercem também o múnus de santificar. Com efeito, pelo seu ministério, “se realiza plenamente o sacrifício espiritual dos fiéis, unido ao sacrifício de Cristo, que, juntamente com eles, é oferecido” pelas suas mãos sobre o altar, de modo sacramental, na celebração dos santos mistérios. Hão de, pois, tomar consciência do que fazem e imitar o que realizam. Celebrando “o mistério da morte e da ressurreição do Senhor”, esforçam-se por fazer morrer em si “todo o mal e por caminhar na vida nova”. E, fazendo “entrar os homens no povo de Deus pelo Batismo”, perdoando “os pecados em nome de Cristo e da Igreja no sacramento da Penitência”, aliviando “os enfermos com o óleo santo”, celebrando “os ritos sagrados” ou oferecendo, “nas horas do dia, o louvor com ações de graças e súplicas, não só pelo povo de Deus, mas também por todo o mundo”, lembram-se de que foram “assumidos de entre os homens e postos ao serviço dos homens” nas coisas Deus. Realizam, pois, “com verdadeira caridade e alegria constante, o ministério de Cristo Sacerdote”, não procurando os seus interesses, mas os de Jesus Cristo.
Enfim, unidos e atentos ao Bispo, congregam os fiéis numa só família para os poderem conduzir a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo; e trazem sempre diante de si o exemplo do Bom Pastor que veio, não para ser servido mas para servir e buscar e salvar o que estava perdido.
Assim, desprovidos de si mesmos, enchem-se de Deus e dedicam-se de corpo e alma ao serviço dos homens através da Igreja.
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É de considerar com muita atenção a oração consecratória, que, a seguir à imposição das mãos pelo Bispo, como matéria sacramental (e de outros sacerdotes como receção no presbitério), serve de forma da Ordenação Sacerdotal.
Invoca-se o “Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente”, para que esteja connosco.
Por Ele, “autor da dignidade humana” e “distribuidor de todas as graças”, “crescem e se tornam firmes todas as coisas”. É Ele que, “para formar o povo sacerdotal”, lhe dá e estabelece “em diversas Ordens, os ministros de Cristo”, seu Filho, “pelo poder do Espírito Santo”.
Depois, faz-se uma resenha orante da história da Salvação no Antigo Testamento:
Para mostrar que “já na antiga Aliança se desenvolveram funções sagradas que eram sinais do sacramento novo”, a Oração refere que Moisés e Aarão foram postos por Deus “à frente do povo para o conduzirem e santificarem” e a eles foram associados por Deus, como colaboradores daqueles, outros homens; que, no deserto, o Senhor comunicou “o espírito de Moisés a setenta homens prudentes, com o auxílio dos quais ele governou mais facilmente” o povo de Deus. também, “as graças abundantes concedidas a Aarão”, o Senhor as transmitiu a seus filhos, para não faltarem sacerdotes que oferecessem “os sacrifícios do templo, sombra dos bens futuros”.
Nos últimos tempos, o Pai Santo, enviou ao mundo o seu Filho Jesus, Apóstolo e Pontífice da nossa fé”, o qual “Se ofereceu” ao Pai, pelo Espírito Santo, como vítima imaculada, e tornou participantes da sua missão, os seus Apóstolos, santificados na verdade”. A eles o Senhor juntou “outros companheiros, para anunciarem e realizarem, por todo o mundo, a obra de salvação”.
Depois de rezado este historial de salvação, vem o núcleo da Oração Consecratória:
Agora, Senhor, concedei também, à nossa fragilidade, estes cooperadores, pois deles carecemos no desempenho do sacerdócio apostólico. Nós Vos pedimos, Pai todo-poderoso, constituí estes vossos servos na dignidade de presbíteros; renovai em seus corações o Espírito de santidade; obtenham, ó Deus, o segundo grau da Ordem sacerdotal que de Vós procede, e a sua vida seja exemplo para todos.
A seguir, vêm em termos de petição as caraterísticas de que se devem revestir os presbíteros na sua vida e ministério:
Sejam cooperadores zelosos da Ordem (episcopal), a fim de que, pela sua pregação, as palavras do Evangelho frutifiquem, pela graça do Espírito Santo, nos corações dos homens, e cheguem até aos confins do mundo.
Sejam (juntamente com os bispos), fiéis dispensadores dos divinos mistérios, para que o povo que a Deus pertence renasça pelo banho da regeneração e se alimente do altar, os pecadores se reconciliem e os enfermos encontrem alívio.
Unam-se (aos bispos) para invocar a misericórdia do Senhor pelo povo a eles confiado e em favor do mundo inteiro. Assim todas as nações, congregadas em Cristo, se hão de converter num só povo que pertença a Deus e consumar-se no seu Reino.
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É uma missão hercúlea, não é? O Pontifical Romano não o esquece e recorda (vd n. 103):
“É dever de todos os fiéis da diocese orar pela perseverança dos candidatos ao presbiterado, o que devem fazer principalmente na oração universal da Missa e nas preces das Vésperas”.
Depois, é imperativo continuar a rezar pela multiplicação e santificação dos sacerdotes e para que o Coração Sacerdotal de Jesus atue através deles. E, finalmente, cada cristão deve assumir as suas responsabilidades e tarefas na Igreja e no mundo, em sentido e estilo de cooperação e fraternidade. PrositParabéns à JSF de Vila da Ponte!
2017.07.02 – Louro de Carvalho

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