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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Festa de Maria, festa de Cristo, festa da Igreja, festa do crente


A solenidade litúrgica da Assunção de Nossa Senhora mostra que Deus antecipou em Maria tudo o que deseja realizar em nós. Basta que sejamos livres como Maria para acolher a sua vontade. Para tanto, deveremos ultrapassar a nossa condição de prisioneiros do nosso desejo de nos afirmarmos ante dos outros e ante Deus, ou da resignação às dificuldades, e obtermos a graça de vivermos plenamente a liberdade dos filhos de Deus, à imagem de Maria.
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A perícopa bíblica do Apocalipse (Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab) tomada como 1.ª leitura da Liturgia da Palavra, dá-nos, em visão simbólica, a chave de leitura da Solenidade da Assunção. No dragão, cuja cauda varria um terço das estrelas do céu, que luta contra a mulher – vestida de sol, coroada de estrelas e com a Lua sob os seus pés – e que pretende capturar-lhe o filho que acabou de dar à luz, estão representadas as ideologias que hoje nos dizem que é absurdo pensar em Deus ou cumprir os seus mandamentos e os atrativos mundanos que tentam desviar-nos da rota do Evangelho. Ora, a mulher que acreditou que iria cumprir-se tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor e que se fez a serva da Palavra, a discípula da fé, a mestra dos apóstolos, sentiu que em si o Senhor fez maravilhas e, na sua alta autoestima que lhe foi segredada pelo Pai da Bondade e da Misericórdia, previu que todas as gerações a proclamariam bem-aventurada, como acontece.
Nossa Senhora, a do “sinal grandioso”, a fiel que foi dizendo o “sim” inabalável ao leque das possibilidades de Deus, participa da glória do Ressuscitado como prémio pela sua autenticidade e generosidade. Coroada de doze estrelas, também ela diz: “Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus”.
Recorde-se que as visões do Apocalipse se exprimem em linguagem codificada. Revelam que Deus arranca os fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, pode ser aplicada a Maria a visão do sinal grandioso. Proclamando esta mensagem na Assunção, reconhecemos que, no seguimento de Jesus e na pessoa de Maria, a nova humanidade já é acolhida junto de Deus.
Esta é a festa de Maria. Com efeito, a Mãe de Deus, que foi imune do pecado por graça de Deus que a inundou do seu favor e que a fez sua mãe pela geração do Verbo de Deus encarnado e pelos cuidados nutrícios e educacionais, depois de terminada a sua missão terrena, é elevada aos Céus em corpo e alma – privilégio singular que faz de Maria modelo do nosso caminhar.
Deus fez nesta simples criatura tão humilde algo parecido com o que fez com seu Filho Jesus: ressuscitou-a do túmulo, não a deixando incorrer na corrupção tumular, e elevou-a ao Céu, à plenitude em todo o seu ser, corpo e alma. Revemo-la na mulher do Apocalipse, quando os Céus se abriram e ficou patente a Arca da Aliança e ressaltou a mulher coroada e iluminada, que deu à luz o Filho que o Céu arrebatou para que o Dragão o não devorasse.
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Porém, como ficou entredito, o que se passou com Maria não tem origem nela, mas em Deus e no seu Cristo. Quem a coroou, a iluminou e lhe sujeitou a Lua foi o Cristo – morto e ressuscitado – e que subiu ao Céu. É Ele o protagonista desta festa, pois é pela sua Paixão, Ressurreição e Ascensão que Ele pode introduzir na glória e coroar de glória a crente singular, a discípula discreta, mas modelar, a apóstola basilar do apostolado orante, atento e dedicado, em verdadeira saída. E, revestindo-a da glória como a revestiu da graça, torna-a nossa intercessora, junto de Si como em Caná no segmento do “Não têm vinho”, e sua mensageira e missionária junto de nós, como em Caná no segmento do “Fazei tudo o que Ele vos disser”.  E Caná inicia o itinerário especial para a Cruz e para o Cenáculo em que Ela se faz a Mãe dos discípulos.     
Não é a morte o destino comum e final de tudo quanto vive, como dizem os pagãos, os descrentes ou os sábios segundo o mundo. O nosso destino é a vida, o nosso ponto final é a glória no coração de Deus: glória no corpo, na alma, em tudo que somos. Foi isso que Deus nos preparou – Bendito seja ele para sempre! Vemo-lo em Maria na sua proximidade junto de nós, que, estando presente nas horas de Deus, está presente em todas as nossas horas. E vemo-lo no Cristo do Gólgota, do túmulo vazio, no aparecido aos discípulos a quem passou a chamar irmãos, no Cristo da Ascensão. 
A presente solenidade é, então, primeiramente, exaltação da glória de Cristo: Nele está a vida e a ressurreição; Nele, a esperança de libertação definitiva. Por isso, na esteira da 1.ª Carta aos Coríntios (1Cor 15,20-27), diremos que todo aquele que crê em Jesus e é batizado no seu Espírito Santo no sacramento do Batismo morrerá com Cristo e com Cristo ressuscitará. Imediatamente após a morte, a nossa alma será glorificada e estaremos para sempre com o Senhor. Quanto ao nosso corpo, será destruído e, no final dos tempos, quando Cristo nossa vida aparecer, será também ressuscitado em glória e unido à nossa alma. Será assim com todos nós. Mas não foi assim com a Virgem Maria. Aquela que não teve pecado não foi tocada pela corrupção da morte. Imediatamente após a sua passagem para Deus, foi ressuscitada, glorificada em corpo e alma, foi elevada ao céu. Podemos, portanto, exclamar seguindo a pedagogia de Isabel Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o fruto do teu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu!”.
Esta, sendo a grande festa de Cristo, é também a festa de plenitude de Maria, a sua chegada a glória, no seu destino pleno de criatura. Nela aparece clara a obra da salvação que Cristo realizou Ela é aquela Mulher vestida do sol, que é Cristo, pisando a instabilidade deste mundo, representada pela lua inconstante, toda coroada de doze estrelas, número de Israel e da Igreja. A leitura da mencionada passagem do Apocalipse mostra-nos tudo isto; mas termina com a grande proclamação: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus e o poder do seu Cristo!. Enfim, a plenitude da Virgem é a realização da obra e da vitória de Cristo nela.
A Assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. Tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência duma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão.
Todo o capítulo 15 da 1.ª Carta aos Coríntios é uma longa apologia da ressurreição. No texto de hoje, o apóstolo apresenta uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, o princípio da nova humanidade. Eis porque o apóstolo o designa como o novo Adão, mas que se distingue absolutamente do primeiro Adão; este tinha levado a humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz aqueles que o seguem para a vida. O apóstolo não evoca Maria, mas, se proclamamos esta leitura na Assunção, é porque reconhecemos o lugar eminente da Mãe de Deus no grande movimento da ressurreição.
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Mas é preciso considerar que o livro do Apocalipse foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem Igreja, ainda tão frágil, mas já o fermento da nova humanidade a que preside Cristo ou o novo Israel de que Cristo é a Cabeça: a Igreja. Assim, numa linguagem codificada, em que os animais terrificantes designam os perseguidores, vem o profeta neotestamentário evocar estes acontecimentos. A Mulher em que se vê a figura de Maria é o protótipo da Igreja, pelo que pode representar a Igreja, onovo Israel, o que sugere o número doze (as estrelas). O seu nascimento é o do batismo na cruz; a sua conceção é o banquete da noite pascal da Última Ceia; o seu espelho e horizonte é o Céu da Ascensão e o mundo que é preciso evangelizar, segundo a missão que o redentor redivivo lhe confiou; e a sua capacidade de caminhar acontece no Pentecostes. Esta igreja, nascida do lado de Cristo e instituída em Pedro, deve dar à terra a nova humanidade. O Dragão é o perseguidor que põe tudo em ação para destruir o recém-nascido. Mas o destruidor não terá a última palavra, pois o poder de Deus está em ação para proteger o seu Filho. A mulher, protótipo da Igreja, é levada para o deserto para se livrar do Dragão e de lá o esmagar com toda a força e, no caso da Igreja dos homens e mulheres, para se purificar.
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Ora, Deus não veio ao mundo, não escolheu Maria como Mãe, não se deixou crucificar em função dum belo espetáculo. Em causa estava a salvação do homem. Foi por nós homens e por nossa Salvação que desceu dos Céus, encarnou, passou pelo mundo fazendo o bem, ressuscitou. E, ressuscitando, fez-se fundamento da nossa fé e garantia da nossa ressurreição. Subindo aos Céus, mostrou-nos o caminho da glória a que somos chamados e Maria tornou-se a primeira a trilhá-lo com a visibilidade que a economia da Salvação requer.
Por isso, esta é a festa do crente, a nossa festa. Como seres pascais, temos de aspirar às coisas do Alto e afeiçoar-nos a elas. E, como a Ascensão de Cristo, a Assunção da Virgem aponta-nos o Alto, onde Cristo está sentado à direita do Pai, de modo que, no momento em que Jesus Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, nós nos havemos de manifestar com Ele na glória.      
E estaremos bem avisados se tivermos em conta que a devoção à Mãe de Deus é uma grande força da nossa vivência cristã a apontar-nos a força do Alto, porque, longe de desviar a nossa atenção de Cristo, ela nos integra no plano de salvação proposto por Deus e realizado por seu Filho único, Jesus Cristo, que se encarnou e veio ao mundo por meio dela.
Nós celebramos Maria porque é Mãe de Deus, porque nos deu o Salvador e se tornou, de facto e de direito, a corredentora da humanidade e a nossa Mãe. E foi Deus que assim o quis. Foi Ele que, em sua infinita sabedoria e bondade, estabeleceu que a redenção da humanidade acontecesse através de seu Filho único nascido de uma virgem; e a virgem escolhida foi Maria. Ora, se Deus, o Senhor de todas as coisas não se envergonhou de escolher Maria e a fez Cheia de Graça, para ser a Mãe de seu Filho, não faz sentido nós, simples mortais, recusarmo-nos a ter para com ela uma devoção toda especial. A Assunção de Maria é a preciosa antecipação da nossa ressurreição e baseia-se na de Cristo, que transformará o nosso corpo corrutível, fazendo-o semelhante ao seu corpo glorioso. Por isso Paulo recorda-nos que, “se a morte veio por um homem (pelo pecado de Adão), também por um homem, Cristo, veio a ressurreição. Por Ele, todos retornarão à vida, mas cada um a seu tempo: como primícias, Cristo; em seguida, quando Ele voltar, todos os que são de Cristo; depois, os últimos, quando Cristo devolver a Deus Pai o seu reino. Dessa vinda de Cristo, de que fala o Apóstolo, disse São João Paulo II:
Não devia por acaso cumprir-se, neste único caso (o da Virgem), de modo excecional, por dizê-lo assim, imediatamente, quer dizer, no momento da conclusão da sua vida terrena? Esse final da vida que para todos os homens é a morte, a Tradição, no caso de Maria, chama-o com mais propriedade dormição.  Para nós, a Solenidade de hoje é como uma continuação da Páscoa, da Ressurreição e da Ascensão do Senhor.  E é, ao mesmo tempo, o sinal e a fonte da esperança da vida eterna e da futura ressurreição.”.
Maria é causa de nossa alegria! Pois foi através dela que nos veio a alegria, Jesus Cristo, e é nela que nós vemos o que seremos: gloriosos com a glória que tomará conta do nosso corpo e da nossa alma no dia eterno, no qual ela, gloriosamente, em corpo e alma, já nos precedeu.
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Pela Visitação que teve lugar na Judeia (Lc 1,39-56) e onde se encontra a legitimidade da devoção a Maria, Maria levava Jesus pelos caminhos da terra. Pela Dormição e Assunção, é Jesus quem leva a Mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para a Visitação definitiva. Nesta festa, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a humanidade a juntar-se a Ele pelo caminho da ressurreição. Em Maria, Ele realizou a sua obra na totalidade; com ela, nós proclamamos: “dispersou os soberbos, exaltou os humildes”. Os humildes são os que creem no cumprimento da palavra de Deus e se põem a caminho, os que acolhem até ao mais íntimo do ser a Vida nova, Cristo, para o levar ao mundo. Deus debruça-se sobre eles e faz maravilhas.
A humilde disponibilidade de Maria tornou-a nossa intercessora junto de Jesus.
E a Assunção deveria servir também para purificação de hábitos e linguagem. Assim, em vez de rezar a Maria, deveríamos rezar por intermédio de Maria, pois a oração cristã dirige-se a Deus, ao Pai, ao Filho e ao Espírito: só Deus atende a oração. Os irmãos protestantes que, ao invés do que se pretende por vezes, têm fé na Virgem Maria Mãe de Deus, recordam-nos que Maria é e se diz Ela própria a Serva do Senhor. Rezar por intermédio de Maria é pedir que Ela reze por nós: “Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte!” A sua intervenção maternal em Caná resume a sua intercessão por nós: “Eles não têm vinho!”. E é nossa conselheira: “Fazei tudo o que Ele vos disser! Depois, é preciso rezar com Maria. Ela, como no Cenáculo, está ao nosso lado para nos levar na oração, como uma mãe sustenta a palavra balbuciante do filho. Na glória de Deus, na qual nós a honramos hoje, ela prossegue a missão que Jesus lhe confiou sobre a Cruz: “Eis o teu Filho!”. Rezar com Maria, mais que ajoelhar-se diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus. Por último, é preciso rezar como Maria. Aprendemos junto de Maria os caminhos da oração. Na escola daquela que “guardava e meditava no seu coração” os acontecimentos do nascimento e da infância de Jesus, meditamos o Evangelho e, à luz do Espírito Santo, avançamos nos caminhos da verdade. A nossa oração torna-se alegria e ação de graças no eco ao Magnificat. Pomos os nossos passos nos passos de Maria para dizer com ela na confiança: “Que tudo seja feito segundo a tua Palavra, Senhor!”. O cântico de Maria descreve o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que ele prosseguiu em Maria e que cumpre agora na Igreja, para todos os tempos.
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Por dizer que Maria está nas horas de Deus e em todas as nossas horas, recordo que hoje Ela é celebrada em muitos lugares e sob muitos títulos (é sempre a única Senhora), que até fazem esquecer o mistério de hoje. Mas é nessa abundância de títulos que Ela mostra estar nas horas de Deus (as suas qualidades e privilégios vêm-lhe de Deus) e nas horas dos homens; necessidades, circunstâncias, saúde, ar, terra, mar, luz, etc. E apraz-me salientar uma curiosidade. No Douro Sul é orago em muitas localidades, mas sucede não raro que tem um título na igreja paroquial e outro no cimo do monte ou colina. Assim, em Lamego é Senhora da Assunção na Sé e Senhora dos Remédios no Santo Estêvão, Santa Maria Maior em Almacave e Senhora da Serra, no Poio; Senhora da Corredora na igreja de Caria e Senhora da Guia na colina; Senhora do Amial na igreja da Vila da Ponte e Senhora das Necessidades e Senhora do encontro na Borralheira; Senhora da Assunção na igreja de Fonte Arcada e Senhora da Saúde na colina; Senhora das Neves na igreja de Granjal e Senhora da Aparecida no monte. Enfim, quanto mais alta, mais próxima!
2019.08.15 – Louro de carvalho

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Num mundo ferido, as pessoas têm necessidade de buscar a inocência


Celebra-se, a 20 de fevereiro, a memória de São Francisco Marto e de Santa Jacinta Marto, que tem a categoria de festa na diocese de Leiria-Fátima e muito grande significado no Santuário de Fátima, em cuja Basílica da Santíssima Trindade, hoje o Cardeal Dom António Marto, o bispo diocesano, presidiu à celebração da Eucaristia, em participaram vários grupos de crianças.
O insigne prelado manifestou a sua alegria por estar a viver este momento festivo com os peregrinos e partilhou um momento vivido com o Papa Francisco, ocorrido a 30 de setembro de 2017, em audiência particular, quando lhe foi agradecer a sua visita a Fátima, ocasião em que teve o ensejo de informar Sua santidade de que as visitas aos túmulos dos Pastorinhos tinham triplicado desde a sua canonização, ao que ele de uma forma muito simples respondera: “Sabes, num mundo ferido, as pessoas têm necessidade de buscar a inocência”.
E eu lembro-me de que, em miúdo, ouvia as pessoas da minha terra a falar dos generosos e inocentes, dizendo que era com eles que Deus equilibrava o mundo. Talvez a sede que Jesus confessou ter no alto da cruz não se circunscreva à sede física, mas se estenda ao sonho de Deus pela felicidade dos seus filhos e à sede de ver as pessoas em resposta crescente ao desígnio redentor.
E o purpurado fatimita explicou aos participantes na celebração litúrgica, contrastivamente com “a voz da inocência” plasmada na postura das crianças: 
Este mundo ferido a que o Papa se refere é-nos dado a contemplar praticamente todos dias, quando nos ecrãs da televisão ou nas primeiras páginas dos jornais nos é oferecido, em espetáculo, a vastidão do mal no mundo, a força destruidora do pecado do mundo”.
O Cardeal convidou os peregrinos a orar pelo encontro do Santo Padre com os presidentes das Conferencias Episcopais sobre os abusos de menores por parte de clérigos, que decorrerá em Roma de 21 a 24 de fevereiro, para que saibam encontrar caminhos de conversão e reparação para acabar com o escândalo do abuso de menores que destrói vidas e corrói a Igreja”. E falou nas consequências que deixam
A marca da dor e das feridas, nas pessoas, no corpo, na alma, e nas consciências tantas vezes feridas, ao ponto de já nem se distinguir o bem do mal, nas famílias tantas vezes divididas e às vezes ocultando a violência que está lá dentro; na sociedade marcada pela indiferença e pelo individualismo e egoísmo de cada um; nos povos com os dramas das guerras e os dramas dos refugiados, refugiados que fogem à morte, à miséria e à fome”.
Dom António Marto continuou a reflexão, observando:
Isto é, de facto, um espetáculo da vastidão do mal, força destruidora do pecado, que nos assusta e mete medo que leva tanta gente a perder a confiança na vida e na bondade da vida, na ternura, que deve marcar a nossa vida e as nossas relações”.
E, para dizer que “as crianças são a voz desta inocência que faz bem a todos”, vincou:
Este mal contagia o coração, e mata a inocência. E, por isso, nós, fartos deste espetáculo, procuramos a inocência e é neste contexto que o Papa diz esta expressão.”.
Referindo que os Santos Pastorinhos – Jacinta e Francisco – nos dão a contemplar “a inocência das crianças quando estão felizes e se sentem amadas”, assegurou que são também “a voz da inocência, nos rostos tristes e de lágrimas nos olhos, nas caravanas dos refugiados, muitas vezes sozinhos, muitas vezes a fugir sem o pai ou a mãe”.
O Bispo cardeal lembra que Francisco Marto e Jacinta Marto contemplaram “em visão os infernos, que os homens são capazes de construir, a monstruosidade do mal, a força destruidora do pecado”, através da visão do inferno descrita nos relatos da Irmã Lúcia, contando ainda como a pequena Jacinta sentia “aflição” pela “perda da humanidade, perda da bondade, perda da ternura, perda da santidade, não só das pessoas, mas do mundo”. Por outro lado, puderam contemplar “a força curadora, sanadora e vitoriosa da misericórdia de Deus” e foram “testemunhas desta misericórdia que cura as feridas e as dores da humanidade”.
Os mais jovens santos não-mártires da Igreja Católica, segundo o presidente da Celebração, “transmitiram esta inocência através do amor a Deus e do encanto por este amor santo e misericordioso que os fascinou e os fez sentir imersos como numa luz”. E Dom António Marto, considerando o gesto deles como “uma mensagem de esperança” e que “é possível restaurar a inocência nas consciências e nos corações, através da santidade de vida”, discorreu:
Naquela disponibilidade dos pequeninos para colaborarem com Deus na reparação dos estragos que o mal faz nos corações, nas relações e no mundo, através das suas orações e do seu sacrifício, do seu amor ao próximo e da partilha do pouco que tinham, foram crianças normais, que procuraram viver o seu dia a dia como os pequenos e simples”.
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Porém, esta missa celebrada na Basílica da Santíssima Trindade está longe de ter sido o único momento celebrativo da Festa dos Pastorinhos. Ao invés, esta notável festa litúrgica envolveu momentos de música e de oração e mesmo um momento de formação.
Assim, para assinalar a efeméride, as celebrações no Santuário de Fátima tiveram início no dia 17 com o V Concerto evocativo dos Pastorinhos de Fátima, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, às 15,30 horas, com o grupo “Nova Era” Vocal Ensemble (com direção musical a cargo do maestro João Barros, é composto por 24 cantores, cujo objetivo principal é a divulgação da música contemporânea), que estreou a peça “Hail Mary” composta especialmente para o momento e cujo texto diz respeito à oração que saúda a Virgem Maria nos momentos da Anunciação e Visitação (cf Lc 1,21-42). A obra pretende retratar os louvores dos fiéis à Virgem Maria, através de momentos de maior ou menor densidade harmónica e textual, consoante a visão pessoal sobre o significado de cada verso do texto, lê-se na folha da sala de imprensa do Santuário.
Contudo, a obra central deste programa musical foi a Missa para dois coros de Martin. Entre cada um dos andamentos da missa foram interpretadas obras de compositores contemporâneos, como Arvo Pärt, John Tavener, Sandström e João Fonseca e Costa, que têm em comum uma profunda ligação à música sacra.
O concerto abriu com “Virgencita”, composição de Arvo Pärt, após uma visita ao México, que nos remete para o mistério da aparição da Virgem Maria a Juan Diogo em Guadalupe.
Relacionado com o texto presente no “Kyrie” de Martin, foi executado “Hear my Prayer, O Lord”, de Sandström. 
O cântico “Deer’s Cry” é baseado no poema escrito por São Patrício, na Irlanda em 433. Ouvindo rumores sobre uma emboscada que tencionava matá-lo a ele e aos seguidores, fugiram para uma floresta, entoando o cântico. Segundo a lenda, o grupo de fugitivos conseguiu escapar, transformando-se num veado e vinte filhotes. Arvo Pärt compôs a obra em 2007, segundo o poema da Lorica (oração por proteção), de São Patrício.
Seguiu-se a peça “Hail Mary”, em estreia absoluta e, depois, “The Lamb”, do compositor britânico John Tavener, numa inter-relação ímpar entre texto e música. O texto escolhido é um poema de William Blake, cantado inicialmente por vozes femininas e ao qual responde o coro com um encadeamento harmónico que nos faz parar no tempo.
A obra final do concerto é também da autoria de Arvo Pärt, “Drei Hirtenkinder aus Fátima”, dedicada aos três pastorinhos de Fátima – oferta ao Santuário de Fátima aquando da sua visita, obra simples, pura, sensível, mas afirmativa, evocativa da fé inabalável dos três pastorinhos.
No dia 19 realizou-se uma Vigília, com Rosário, procissão de velas e veneração dos Santos Pastorinhos nos seus túmulos (Capelinha e Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima).
No dia 20, às 10 horas, procedeu-se à recitação do Rosário na Capelinha das Aparições, a que se seguiu a Procissão com os ícones dos Santos Francisco e Jacinta até à Basílica da Santíssima Trindade, onde decorreu, a partir das 11 horas a Eucaristia, como se disse. Às 14 horas, realizou-se um Encontro com as crianças na Basílica da Santíssima Trindade. E, às 17,30 horas, foram celebradas as Vésperas na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.
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Embora não estivesse integrada nas celebrações festivas, mas sendo alusiva aos Santos Pastorinhos, a Escola do Santuário organizou no passado fim de semana a primeira Oficina Pastoral intitulada “Francisco e Jacinta na catequese da infância”, que decorreu na Casa de Retiros de Nossa Senhora do Carmo, a partir de sábado, dia 16 de fevereiro.
O itinerário temático partiu duma introdução em que a pedagogia catequética foi recordada e enquadrou o resto do percurso, o qual, seguindo os passos típicos dessa pedagogia, tomou o acontecimento das aparições e as vidas e perfis de espiritualidade e santidade do Francisco e da Jacinta como motivos de ‘experiência humana’, ‘Palavra de Deus’ e ‘expressão de fé’.
Neste percurso procurou-se ler a espiritualidade e a santidade dos Pastorinhos (dimensão de fé) como expressão e concretização de vidas (experiência humana) transformadas pelo encontro e pela relação com Deus (Palavra). E, deste caminho preparatório partiram os trabalhos oficinais que, pontuados por tempos de plenário, permitiram a criação de propostas concretas para a catequese da infância (como subsídios para a oração ou a celebração dos sacramentos, para a peregrinação a Fátima e em Fátima, entre outros) a partir da riqueza das vidas de Francisco e de Jacinta, candeias que Deus acendeu para alumiar a humanidade e exemplos da resposta que a humanidade, como afirmou o Papa São João Paulo II. Estas oficinas visavam: aprofundar o conhecimento do acontecimento e do significado do fenómeno Fátima; descobrir São Francisco Marto e Santa Jacinta Marto; conhecer as suas biografias e a especificidade do itinerário espiritual de cada um; aprofundar o seu potencial pedagógico-catequético; aplicar o exemplo de São Francisco à educação para o silêncio; aplicar o exemplo de Santa Jacinta à educação para o sentido do outro; e elaborar propostas/subsídios para a catequese da infância a partir desses exemplos.
Dos conteúdos o destaque vai para quatro aspetos principais: Introdução e pedagogia catequética; a Experiência humana – as crianças Francisco e Jacinta Marto e o seu contexto; a Palavra de Deus – o acontecimento de Deus nas Aparições; e a Expressão de fé – os perfis de santidade de Francisco Marto e Jacinta Marto.
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Também no dia 17, o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, apelou aos peregrinos para se deixaram tocar pelo exemplo dos Santos Pastorinhos que, na Escola de Maria, aprenderam a “confiar e a dar primazia a Deus nas suas vidas”.
A partir do passo do Evangelho de Lucas (Lc 6,20-26) sobre as bem-aventuranças, que apresenta uma palavra paradoxal de Jesus sobre a vida centrada em Deus e a vida centrada na própria autossuficiência, o reitor afirmou que “o retrato dos Pastorinhos de Fátima (a partir das suas vidas) é um retrato das bem-aventuranças e dos bem-aventurados”. E disse:
Este mês de fevereiro é o mês por excelência dos Santos Pastorinhos: no passado dia 13 celebrámos o aniversário da morte de Lúcia; dia 20 celebramos o dia de São Francisco Marto e de Santa Jacinta Marto... Eles são o exemplo desta bem-aventurança de que nos fala a palavra de Deus este domingo, pois mostraram a sua total disponibilidade para Deus e para a sua vontade; sofreram por isso, mas confiaram no amor de Deus que lhes foi anunciado por Nossa Senhora.”.
Seguindo o exemplo dos Pastorinhos, procuremos esta bem-aventurança de quem confia e se confia a Deus; a bem-aventurança de quem procura dar a Deus o primeiro lugar na sua vida” – exortou o sacerdote no final da homilia da missa na qual participaram vários grupos portugueses e também de Espanha, Estados Unidos da América, França e Itália. E, destacando que se trata de “afundar as raízes da nossa vida em Deus”, acrescentou:
Se a nossa vida tem as suas raízes em Deus, se seguimos a sua vontade, se a sua palavra guia os nossos passos, então a nossa vida produzirá frutos abundantes, apesar das dificuldades”.
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O Dia dos Pastorinhos passa a ser feriado municipal na terra natal de Lucas, o menino do milagre que permitiu a canonização de Francisco e Jacinta Marto. É a primeira decisão do género duma instituição pública de natureza civil e foi tomada pela prefeitura brasileira de Juranda no passado dia 11.
Com efeito, este dia 20 de fevereiro, data em que a Igreja assinala a festa litúrgica dos santos Pastorinhos, foi comemorado pela primeira vez o feriado municipal do “Dia dos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto”, em Juranda, Município da Diocese de Campo Mourão, no Estado brasileiro do Paraná, a terra natal de Lucas, a criança do milagre que levou Francisco e Jacinta à canonização, tendo-os o Papa declarado santos a 13 de maio de 2017, em Fátima.
A instituição do Dia dos Pastorinhos como feriado municipal foi aprovada pela Câmara Municipal e promulgada pela Prefeita Municipal de Juranda, Leila Amadei, no dia 11 de fevereiro e tem efeitos imediatos, pelo que hoje já foi feriado municipal ali. Diz a lei municipal n.º 2.271/2019, assinada pela prefeita Leila Amadei: 
Fica instituído no Município de Juranda, o feriado municipal religioso do ‘Dia dos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto’, a ser comemorado no dia 20 de fevereiro. A data fica incluída no calendário Municipal de Eventos e Datas Comemorativas do Municípios de Juranda. […] As despesas decorrentes da presente lei, caso se façam necessárias, correrão por conta de dotações orçamentárias próprias, suplementadas, se necessário.”.
A criança estava em casa dos avós, a brincar com uma irmã, quando caiu por acidente de uma janela, de cerca 6,5 metros de altura, sofrendo um grave traumatismo cranioencefálico, com a perda de massa encefálica. A criança foi levada ao hospital, em coma, e operada.
Segundo os médicos, caso sobrevivesse, o menor viveria em estado vegetativo ou, na melhor das hipóteses, com graves deficiências cognitivas. Mas, três dias após a queda, a criança recebeu alta, não sendo constatado qualquer dano neurológico ou cognitivo.
A 2 de fevereiro de 2017, uma equipa médica consultada pelo Vaticano deu parecer positivo unânime sobre o caso, classificando-o como “cura inexplicável do ponto de vista científico”.
No momento do acidente, o pai da criança invocou Nossa Senhora de Fátima e os dois pequenos beatos; os familiares e uma comunidade de religiosas de clausura rezaram com insistência, pedindo a intercessão dos Pastorinhos de Fátima. A este respeito, a Irmã Ângela Coelho, religiosa da Aliança de Santa Maria e então postuladora da Causa de Canonização de Francisco e Jacinta Marto, referiu na altura em que o milagre foi aprovado pelo Papa, a 23 de março de 2017: “É bonito por isto mesmo: duas crianças cuidam de uma criança”.
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E, para a trilogia dos santos Pastorinhos ficar completa, só falta a canonização de Lúcia, por que os devotos, mormente os que peregrinam ao Santuário de Fátima, anseiam e esperam.  
2019.02.20 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

“Não esqueçamos a hospitalidade”


É o tema do Encontro Europeu de Jovens, animado pela comunidade ecuménica de Taizé, que a cidade de Madrid vai acolher a partir de amanhã, dia 28 de dezembro, até ao dia 1 de janeiro de 2019, com a passagem de ano especial em clima de oração e festa.
Esta é a 41.ª edição da iniciativa, que já passou por Lisboa e acontece pela primeira vez na capital espanhola, reunindo milhares de participantes de vários países, incluindo Portugal.
O Papa Francisco enviou aos participantes uma mensagem em que recorda o Sínodo dos Bispos que decorreu em outubro, no Vaticano, sobre a relação entre a Igreja e as novas gerações, pedindo a todos que façam crescer a “cultura do encontro”, no respeito pelas diferenças.
Segundo a agência Ecclesia, o texto papal destaca a importância do tema escolhido, a hospitalidade, num mundo “ferido”, que convida a ir ao encontro “dos que são descartados, rejeitados ou excluídos, dos pequenos e dos pobres”. Com efeito, conforme assinala a mensagem pontifícia, divulgada pela comunidade de Taizé, “é possível viver uma hospitalidade generosa, aprender a ver nas diferenças alheias uma riqueza para si e fazer frutificar os próprios talentos, para ser construtores de pontes entre Igrejas, religiões e povos”.
Também o português António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, evoca, por seu turno, os encontros em que participou, na sua juventude, elogiando o “espírito ecuménico” destas iniciativas. E escreve a este respeito:
Reunis-vos num tempo de desafios e de incertezas, perante as alterações climáticas, os conflitos, as desigualdades crescentes e a intolerância que aumenta. Mas esta é também uma era de oportunidades.”.
O secretário-geral da ONU diz contar com os jovens para que o mundo avance nos “objetivos comuns da paz, do desenvolvimento sustentável e no respeito pelos direitos da pessoa”.
Por sua vez a Presidente da Câmara de Madrid, em sua mensagem, saúda cada um dos jovens que se vão encontrar nesta cidade “aberta, multicultural, tolerante, uma cidade segura e acolhedora”. Salienta o facto de o símbolo da cidade serem “dois braços que abraçam cada pessoa que nos visita” e encarece o facto de Madrid, neste período do ano, ser “ainda mais hospitaleira porque está totalmente imersa nas festas de Natal que enchem a cidade de luz e de cor”. Por isso, a líder da autarquia quer que todos se sintam verdadeiramente como em sua casa.
E diz expressamente querer oferecer, como Presidente da Câmara, a estes jovens “todo o apoio e a ajuda do Conselho Municipal e de todos os que fazem parte desta instituição”, augurando a todos “uma estada feliz e fecunda no seio desta grande família que é Madrid”.
Também fizeram chegar mensagens à comunidade de Taizé vários líderes cristãos, como o Patriarca Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, o Arcebispo John Sentamu, da Igreja Anglicana, Olav Fykse-Tveit, do Conselho Ecuménico das Igrejas, Elijah M. Brown, da Aliança Batista Mundial ou Martin Junge, da Federação Luterana Mundial.
Madrid vai ser a quarta cidade espanhola a receber o encontro europeu de cariz ecuménico, depois de Barcelona, Santiago de Compostela e Valência.
Um dos momentos marcantes é a passagem de ano, num programa que inclui um piquenique partilhado e distribuição de chá quente; a oração comunitária nas igrejas do centro da cidade;  e uma vigília de oração pela paz no mundo, seguida por uma “festa dos povos” na paróquia de acolhimento dos vários participantes. E o Cardeal Carlos Osoro Sierra, Arcebispo de Madrid, defendeu ontem, dia 26, que é necessário transmitir uma mensagem clara aos jovens sobre os casos de abuso sexual na Igreja, “encarando a questão com todas as consequências que ela possa ter”.
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A comunidade convida, pois, os jovens a participar no Encontro Europeu de Jovens em Madrid e rezar com cânticos e em silêncio; encontrar milhares de jovens de toda a Europa e até de mais longe para aprofundar juntos a compreensão da fé; fazer uma experiência de hospitalidade junto das famílias e partilhar com simplicidade a vida destas pessoas; e partilhar com pessoas que perante os desafios atuais são testemunhas do Evangelho e procuram dar um rosto solidário à Europa. Assim, o programa prevê:
Sexta-feira, dia 28 de dezembro – chegada a Madrid de manhã, para o acolhimento e primeiro encontro com a paróquia e família de acolhimento; jantar e, depois, oração comunitária num pavilhão da “Feria de Madrid” (IFEMA).
Sábado, dia 29 de dezembro – oração da manhã na paróquia de acolhimento, seguida de um tempo de partilha em grupos de reflexão ou de encontros com pessoas empenhadas na vida da comunidade local; no final deste encontro, piquenique partilhado; distribuição de chá quente e oração comunitária nas igrejas do centro da cidade; à tarde, em diferentes locais do centro da cidade: ateliês com temas variados; compromisso social, fé e vida interior, criação artística…; jantar e, depois, oração comunitária num pavilhão da IFEMA.
Domingo, dia 30 de dezembro – participação nas celebrações habituais das paróquias de acolhimento e, depois, piquenique partilhado; à tarde, ateliês no centro da cidade; jantar e, depois, oração comunitária num pavilhão da IFEMA.
Segunda-feira, dia 31 de dezembrooração da manhã na paróquia de acolhimento, seguida de um tempo de partilha em grupos de reflexão ou de encontros com pessoas empenhadas na vida da comunidade local; no final deste encontro, piquenique partilhado; depois, distribuição de chá quente e oração comunitária nas igrejas do centro da cidade; à tarde, encontros por países; jantar e, depois, oração comunitária num pavilhão da IFEMA.
E, às 23 horas, vigília de oração pela paz no mundo, seguida de uma “festa dos povos” na paróquia de acolhimento.
Terça-feira, dia 1 de janeiro – participação nas celebrações habituais das paróquias de acolhimento e, depois, almoço com as famílias.
Partida a partir das 17 horas.
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O alojamento será em casas de habitantes da cidade ou da região ou em alojamentos coletivos (salões paroquiais, salas de aula de escolas, ginásios...) Todos devem levar colchão e saco-cama para poderem dormir no chão. Os jovens deficientes que precisem de um alojamento especial deviam inscrever-se antes de dia 1 de novembro, para que se pudesse prever um alojamento adaptado.
Por outro lado, em espírito de peregrinação de confiança, todos são incentivados a ser acolhidos por pessoas que ainda não conhecem: habitantes da cidade e da região que abrem as portas de suas casas gratuitamente a quem chega como peregrino.
Caso alguém tenha, apesar disso, organizado o seu próprio alojamento, era indispensável que escrevesse com antecedência a comunicar o endereço e que passe também pelo acolhimento para se inscrever, receber o programa, senhas, etc., explicando que o seu alojamento já estava previsto. Os anfitriões devem também contactar a paróquia mais próxima de sua casa e explicar que o s jovens acolhidos vão participar lá nas atividades.
A contribuição nos custos do Encontro pedida a cada participante cobre as despesas de alimentação, transportes locais, o aluguer e o equipamento dos espaços necessários e diferentes despesas ligadas ao acolhimento. Não é idêntica para todos, variando com o país de origem.
A Comunidade informa que o irmão Alois vai falar aos jovens todos os dias do Encontro, no final da oração da noite.
Durante a oração da comunidade, são lidas todos os dias estas leituras breves, retiradas da Bíblia, sendo que a referência bíblica indica uma passagem um pouco mais longa:
Sexta-feira, 28 de dezembroSão Paulo escreve: “Tende um só amor, uma só alma e um só sentimento. Nada façais por ambição. Tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus.” (Fil 2,1-11).
Sábado, 29 de dezembroJesus disse: “O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai vender tudo o que possui e compra o campo.” (Mt 13,44-46).
Domingo, 30 de dezembro – “Quando Maria e José encontraram o menino Jesus no Templo, ele disse-lhes: ‘Por que me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?’ E sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração’.” (Lc 2,41-52)
Segunda-feira, 31 de dezembro – “O que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. E foi aquilo que o mundo despreza que Deus escolheu.” (1Cor 1,26-31).
Terça-feira, 1 de janeiro de 2019 – “Corro pelo caminho dos teus mandamentos, Senhor, porque deste largas ao meu coração”. (Sl 119,25-32).
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Por outro lado e em termos de justificação e de intencionalidade, a Comunidade refere que “os dois últimos Encontros Europeus foram realizados em cidades do norte da Europa”, mas que, “este ano será numa cidade do sul da Europa em que nunca tivemos um Encontro Europeu”. No entanto, recorda que “na Península Ibérica, já fomos calorosamente recebidos em várias ocasiões, em Barcelona, Lisboa e Valência”. E, “agora formos convidados a animar em Madrid o 41.º Encontro Europeu”.
Em consonância com o que referiu a Presidente da Câmara de Madrid, também a Comunidade Ecuménica de Taizé observa:
Madrid é uma cidade aberta e diversificada, os seus habitantes vêm de todas as regiões de Espanha e de outros países. Muitas famílias estarão disponíveis para abrir as suas casas num espírito de acolhimento aos peregrinos que virão de toda a Europa. Madrid já acolheu várias reuniões internacionais, acordos de paz e protocolos ecológicos. A nossa peregrinação de confiança será enriquecida pelos valores desta tradição de solidariedade.”.
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É de ter em conta que a Comunidade deixou várias indicações para a preparação deste encontro e reflexão posterior por parte de cada grupo. Referem aspetos considerados pertinentes para este Encontro e para situações de espiritualidade similar.
Segundo a sua página web, podia prever-se, por exemplo, um ou dois encontros por mês, animando cada encontro num local diferente, mas tendo o cuidado de escolher locais facilmente acessíveis a todos.
Assim, em outubro, teriam sido feitos os primeiros contactos; em novembro, uma vigília e de encontro e de oração; em dezembro, encontro de partilha bíblica, com informações práticas sobre a peregrinação e oração de envio; e, em janeiro, partilha das experiências do Encontro.
Nos encontros de outubro poderiam colher-se testemunhos vários e refletir sobre questões com estas: Quem se sentiria tocado se o convidássemos para esta peregrinação? Como podemos entrar em contacto com outros jovens, para lhes propormos que participem connosco no Encontro? Será possível convidar jovens que se afastaram da Igreja ou mesmo alguns que perderam a Fé?

Em novembro, a questão pertinente terá sido: Porque nos juntamos para rezar?

Para nos ajudarmos uns aos outros a aprofundar a fé. Para tornar visível a realidade de uma Igreja acolhedora e calorosa, simples e aberta a todos, sinal de comunhão entre pessoas diferentes: habitantes de diferentes zonas de uma cidade, de diferentes terras de uma região, de diferentes comunidades culturais, igrejas ou paróquias, pessoas que já estiveram em Taizé e pessoas que nunca estiveram, pessoas empenhadas na sociedade e na Igreja e pessoas que procuram comprometer-se ou mesmo pessoas mais afastadas. Para encorajar jovens a começar ou continuar um caminho de fé na sociedade.
Podiam convidar-se muitas pessoas a participar neste tipo de vigílias comunitárias meditativas, que têm lugar numa igreja, com cânticos de Taizé, textos curtos, um momento de silêncio e um breve tempo de partilha. Os jovens podiam empenhar-se especialmente na sua preparação e animação. Seria bom convidar também aqueles que não costumam ir à igreja...
E que gestos de solidariedade se poderiam inventar em atenção àqueles que não vão ao Encontro Europeu? Levar as suas intenções de oração, dar testemunho da nossa experiência no regresso, ficar com as moradas das pessoas sós da paróquia ou do bairro para lhes enviar uma mensagem de esperança de Madrid em nome dos jovens reunidos pela paz...

Em dezembro, no encontro de partilha bíblica sobre o tema “Atenção a Deus, respeito pelo homem”, era de reservar algum tempo para que cada um se apresente ao pequeno grupo que lhe foi atribuído (grupos de 7 a 10 pessoas) e refletir:

Qual a minha ligação e o meu empenho com a Igreja? O que espero do Encontro Europeu? Como pode o Encontro Europeu ajudar-nos a aprofundar a relação entre a vida de fé e um compromisso pelos outros?

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A “festa dos povos”. No dia 31 de dezembro à noite, depois da vigília de oração, terá lugar em cada paróquia uma festa durante a qual cada país apresentará qualquer coisa da sua cultura. O que poderemos apresentar do nosso país? (canções populares, danças, testemunhos...).

Em janeiro: partilha das experiências do Encontro. Para lá dos que vão participar no Encontro Europeu, que outras pessoas podemos convidar para este encontro de partilha? Seria bom fixar a data deste encontro (que poderia ter lugar no final de janeiro ou início de fevereiro) antes do Encontro Europeu e recordá-la na viagem de regresso.

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Que seja uma boa oportunidade para a construção do diálogo ecuménico e inter-religioso e uma pedrada no charco em favor da paz.

2018.12.27 – Louro de Carvalho


domingo, 16 de dezembro de 2018

Natal: o abraço do Deus misericordioso, próximo do homem ferido



Depois de considerar o presépio como centro do Natal por ser o sítio onde Deus Se colocou no mundo dos homens e que Maria tornou no primeiro altar de adoração familiar com abertura escancarada a todos (vd “Tu também tens de ser o presépio”, 2 de dezembro), é pertinente considerar outras vertentes do mistério da condescendência divina para com o homem perdido no pecado por via do seu egocentrismo, culto exacerbado do prazer e da inveja, já que a soberba da vida, o orgulho dos olhos e a concupiscência da carne toldam a prontidão do Espírito.
Neste sentido, quis refletir sobre a atitude de disponibilidade para aceitarmos o mistério pondo-nos na atitude de confiante espera do Senhor para que Ele nos conduza aos sítios onde Ele vive a pobreza e o descarte para que, mediante a nossa humildade cooperante, o mundo se torne cada vez mais segundo o coração de Deus pela via da reconciliação com o projeto divino, da renúncia aos erros e da forte vivência e promoção da alegria. Com efeito, o Senhor veio historicamente nascendo em Belém, há dois mil anos, como prometido a Abraão, lembrado pelos profetas, esperado pelo Povo; vem agora e continua a vir, na Igreja, nos corações – pela Palavra, pela Eucaristia e pela caridade fraterna; e virá, no fim dos tempos e nós O aguardamos na esperança orante e no trabalho. (vd “Não podemos viver de esperas, mas devemos viver na espera”, 1 de dezembro).
Neste esforço de reflexão, deparei-me com a figura de Maria, que se voluntariou para serva do Senhor, deixando que em Si e por Si se cumprisse a Palavra de Deus. E, como a Palavra de Deus é o próprio Filho de Deus, que em Maria Se tornou carne humana, Ela é simultaneamente a morada da Palavra, a serva da Palavra e a oferente sempre discreta da Palavra ao Mundo – o modelo do ser e da ação da Igreja e de cada um dos crentes (vd “Maria, a beleza luminosa no Advento/Natal”, 8 de dezembro). E ontem, 15 de dezembro, com o texto “Natal, ‘O abraço misericordioso’ – exposição fundada numa parábola”, pretendi ver o Natal como o desejável encontro de Deus – bondoso, paciente e respeitador – com o homem, que O abandonou, se sente sozinho e oprimido pela miséria, para que o Pai bondoso possa acolher o filho perdido que se reencontrou, correr até junto dele e o abraçar, mandar vesti-lo com a nova túnica, calçar-lhe as sandálias típicas da casa do Pai, colocar-lhe o anel no dedo, mandar matar o vitelo gordo e convocar todos para a festa, festa em que é desejo do Pai que o filho mais velho, que nunca transgredira, pelos vistos, uma ordem do Pai (considerava-o um patrão), se integre com alegria e solidariedade. Com efeito, na casa do Pai, não patrão, os filhos não cumprem ordens, partilham das preocupações e alegrias da família, que são as alegrias e preocupações do Pai, com vista à abertura da Casa a todos, pois, nela todos têm o seu lugar sem se invejarem, atropelarem, apertarem ou se sobreporem.
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Hoje, no III domingo do Advento, o da alegria da comunidade peregrina que divisa o seu Senhor, o que a enche de alegria a ficar plena aquando do ósculo e do amplexo do Senhor, seu Pai e doravante amoroso companheiro de todas as horas, tenho diante dos olhos a parábola do bom samaritano, explanada no capítulo 10 do Evangelho de Lucas (vd Lc 10,30-37):
Tomando a palavra, Jesus respondeu:     
Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia pelo caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e o que gastares a mais pagar-to-ei quando voltar.
‘Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?’
Respondeu [o doutor da Lei]: ‘O que usou de misericórdia para com ele’. Jesus retorquiu: ‘Vai e faz tu também o mesmo’.”.
Este homem espancado e prostrado na berma do caminho, sem capacidade para se erguer, é bem a imagem de cada um de nós, quando nos esquecemos de Deus e das exigências do espírito, que são fundamentais no ser e no devir do homem e da comunidade que ele integra. E, quando isso acontece, o homem deixa de sentir a pertença à comunidade, sente-se um estranho e isola-se. Pode mesmo considerar os outros como inimigos: em vez de pontes, levantam-se barreiras ou cavam-se fossos. E tudo pode acontecer.
Mas nós também estamos bem representados naqueles salteadores: cheios de manha e força, surgiram de súpito, roubaram e maltrataram, não se incomodando com os danos causados, mas somente com a satisfação dos seus intentos e interesses.
E também ficamos bem na fotografia com o sacerdote e o levita, que ofuscados pelo serviço do Templo ou com medo de se conspurcarem com sangue alheio, optaram pela indiferença saloia e passaram quanto mais longe melhor.
Ora, era urgente mudar esta situação. Mas os salteadores, satisfeitos com a sua proeza indigna, fugiram; o sacerdote e o levita, levados pelo falso zelo ou pelo escrúpulo, seguiram a sua vidinha. E o desgraçado do caminhante morreria na berma do caminho abandonado de todos.     
Eis que passa um samaritano, pelos vistos não de boas graças com os judeus. Não obstante, “chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
São nove formas verbais a caraterizar a ação do samaritano: chegar ao pé dele, ver, compadecer-se (encher-se de compaixão), aproximar-se, ligar as feridas, deitar azeite e vinho, colocar sobre a montada, levar para estalagem e cuidar.
E não podemos esquecer que o samaritano quis implicar no cuidado o estalajadeiro: “Trata bem dele e o que gastares a mais pagar-to-ei quando voltar”.
É precisamente este dinamismo que Deus tem para com quem está ferido e sozinho, vítima da maldade e da indiferença. Queremos ósculo ou abraço de Deus melhor do que este?
E Deus bem quer tratar de forma adequada os salteadores. Eles fugiram, mas Deus não desiste. Quer britar a indiferença, o excesso de zelo cultual e o escrúpulo dos sacerdotes e levitas, o que se torna difícil, porque no seu coração empedernido estão convictos de que são os santos, ao passo que os outros é que são pecadores. Mas Deus há de arranjar forma de lhes dar uma oportunidade, porque Deus não desiste! 
E a melhor forma de Deus se fazer “bom samaritano” foi e é vir ao mundo na figura de menino, crescer como os demais homens e passar pelo mundo a fazer o bem, ensinando, escutando, rezando e curando e, por fim, entregando-se à morte por amor e triunfando pela ressurreição. Este Deus feito homem e bem próximo de nós, de cada um de nós, como o pastor das suas ovelhas, é Jesus. Conhece todas e cada uma das suas ovelhas, chama cada uma pelo seu nome; e elas ouvem a sua voz. Mas Ele não descansa enquanto não juntar ao redor de Si todas as ovelhas: as fiéis, as perdidas, as maltratadas, as sozinhas ou descartadas, as violentadas e exploradas, as sem vez nem voz, as maltratantes, as exploradoras e violentas, as que fogem, as que têm excesso e desvio de zelo, as escrupulosas. Por isso, criou a família dos discípulos para correrem mundo e fundarem comunidades que, em toda a parte e até ao fim dos séculos, sejam testemunhas desta proximidade e deste ósculo e abraço de Deus em Jesus Cristo ao homem. Como o samaritano Deus e o Seu Cristo querem implicar a todos no cuidado do Evangelho, neste agregar todos em redor do único Pastor e médico das nossas almas.
São estes homens e estas mulheres – a quem somos convidados a juntar-nos – que junto de nós e connosco replicam diariamente a oração da paternidade divina “Pai nosso, que estais nos Céus…”, a sementeira da fraternidade, porque filhos do Pai comum, somos irmãos.
Assim, sendo o Natal o Abraço do Pai a cada um dos filhos, há de consequentemente ser o abraço da fraternidade.
Por isso, aceitemos ser transportados à estalagem do cuidado das feridas, ergamo-nos, enverguemos a túnica nova, calcemos as sandálias, ponhamos o anel no dedo, mandemos matar o vitelo gordo, convidemo-nos uns aos outros para a festa, a festa de Deus, a festa dos homens.
E, assim, se formos mais fortes que o mundo, a onda consumista, em vez de nos atrair e arrastar, servirá de paisagem emoldurante da Festa de Natal, enquanto festa de Deus e do Homem. E a paz passará a ser o estilo de vida de todos.
Assim vale a pena o Natal, o Natal que desejo a todos os amigos e amigas!
2018.12.16 – Louro de Carvalho