quinta-feira, 14 de junho de 2018

“Uma advocacia forte numa sociedade mais justa”


É o mote do 8.º Congresso dos Advogados, que arrancou esta manhã no Hotel Montebelo, em Viseu, e que vai até ao fim do dia 16.
Com efeito, durante três dias, a cidade de Viseu acolhe, ao todo (entre delegados, organizadores, jornalistas e personalidades diversas) cerca de 600 advogados e personalidades nacionais e internacionais do setor da Justiça para debater temas como a boa administração da Justiça, bem como os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. As conclusões serão debatidas e votadas em cada uma das secções organizadas, como adiante se discrimina, e submetidas a votação final numa sessão plenária que aprovará as conclusões do Congresso.
Estava previsto que a Ministra da Justiça presidisse à sessão de abertura do evento, que decorre de 5 em 5 anos, mas tal não aconteceu, dado que foi chamada de urgência, a pedido do PSD, à Assembleia da República para responder a questões dos deputados. Assim, o Governo esteve representado pelo Ministro-adjunto Pedro Siza Vieira, que mantém a sua presença no Congresso. Do programa consta que o encerramento do congresso estará a cargo de Maria Manuel Leitão Marques, Ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, logo após a apresentação das conclusões aprovadas.
Além do Bastonário da Ordem dos Advogados, Guilherme de Figueiredo, dos Presidentes dos Conselhos Superior e Fiscal, e dos membros do Conselho Superior, do Conselho Geral e do Conselho Fiscal, dos Presidentes dos Conselhos Regionais e de Deontologia, estarão presentes vários representantes de ordens internacionais, entre os quais, o Presidente da UIA (Union Internationale des Advocats), Pedro Pais de Almeida, o Presidente da UIBA (União Ibero-americana de Advogados), o argentino Carlos Andreucci, Cláudio Lamachia, simultaneamente Presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e da UALP (União dos Advogados de Língua Portuguesa), Luis Marti Mingarro, ex-Decano dos Advogados de Madrid e atual Presidente do CIAR (Centro Ibero-americano de Arbitraje), os Bastonários de Angola, Cabo Verde, Guiné- Bissau, São Tomé e Príncipe, Macau, Moçambique e a representante do Barreau des Avocats de Paris.
A seguir à sessão de abertura, foi prestada homenagem ao General Ramalho Eanes, antigo Presidente da República e figura central da vida política portuguesa, e ao Professor Manuel da Costa Andrade, Presidente do Tribunal Constitucional, aos quais foi atribuída pelo Bastonário a Medalha de Ouro da Ordem dos Advogados.
No Congresso estão representados os 31 mil advogados inscritos, através dos 309 delegados eleitos para esse efeito e que votarão 200 comunicações. Os temas em debate foram organizados em quatro Secções: Identidade da profissão – atos próprios, sigilo profissional, publicidade, discussão pública de questões profissionais (1.ª Secção); A tutela dos direitos – duração e execução das penas, acesso ao direito e aos tribunais, patrocínio judiciário (2.ª Secção); Administração da Justiça – organização judiciária, tribunais e outras formas de jurisdição, outros temas (3.ª Secção); e Aperfeiçoamento da Ordem jurídica – ação Executiva, inventários, procedimentos judiciários, outros temas (4.ª Secção).
Para lá do programa temático, o Congresso é emoldurado por um programa cultural, cuja participação postula um donativo de 5€ em prol duma IPSS dedicada à proteção de crianças. Os seus números são:
A 14 de junho, Cocktail de boas vindas (18,30 horas); e Sessão culturalO Teatro e a Justiça”, no Teatro Viriato – coorganização Teatro Viriato e Congresso dos Advogados Portugueses, seguido de conversa com intervenção de Lúcio, Jorge Fraga (Encenador) e Guilherme Figueiredo (Bastonário da Ordem dos Advogados) e Álvaro Laborinho Lúcio (21,30 horas).
No dia 15, inauguração de ExposiçãoDiálogo e Traição” – Grão Vasco/Resende Obras do Mestre Júlio Resende no Museu Grão Vasco (18,30); Sessão de Cinema – Exibição do filme “Custódia Partilhada”, de Xavier Legrand, seguida de debate promovido pelo Cine Clube de Viseu e moderado Advogado Luís Silva, com Maria Perquilhas e João Perry da Câmara, no Auditório do Instituto Português do Desporto e da Juventude (21,30 horas); e Magno Concerto, na Sé de Viseu, com o Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra e Coro Mozart (21,30 horas).  
No dia 16, Jantar de Encerramento do Congresso, no Expocenter (21,30 horas).
No dia 17 (Pós-Congresso), Missa Solene presidida pelo Bispo de Viseu e participação de Coros, na Sé Catedral de Viseu (11 horas).
14, 15 e 16 de Junho – Exposição de Fotografia, no Hotel Montebelo, nos dias do Congresso; e Mostra dos trabalhos fotográficos da autoria de Advogados, organizada pela Comissão para as Letras e as Artes da Ordem dos Advogados.
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A Ordem dos Advogados (OA) classifica este encontro como “um dos mais importantes momentos da advocacia portuguesa, durante o qual serão debatidos os temas mais relevantes para o exercício da profissão, para a boa administração da Justiça, bem como os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos”, como já foi referido, mas a reunião magna, que só se realiza de 5 em 5 anos, já carrega uma nuvem negra mesmo antes de começar. Concretizando: uma recusa pelo secretariado de 26 comunicações – entre as quais, uma que versava sobre um dos temas mais quentes do momento: a Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores (CPAS), decisão que acabou por ser rejeitada por alguns Conselhos Regionais e pelo Conselho Superior, o que motivou que a Comissão organizadora presidida pelo bastonário tivesse que as vir admitir; ou a falta de logística para acolher todos os advogados que queriam participar no Congresso; ou ainda o facto de algumas propostas serem consideradas inconstitucionais, como a de Pedro Alhinho, advogado do Porto, que versa sobre um rendimento mínimo de três mil euros líquidos obrigatórios para que um advogado pudesse exercer em nome da “dignidade da classe”.
Mas a mais marcante nuvem negra, politicamente, é mesmo a da ausência, pela primeira vez, de um titular da pasta da Justiça. A Ministra Francisca Van Dunem fez saber dois dias antes do evento que não poderia estar presente por questões de agenda, aliás como já foi esclarecido. Por outro lado, inicialmente, o bastonário teria ainda de lidar com uma manifestação marcada para o 1.º dia do Congresso – com protestos contra o regime da CPAS e contra a forma como as comunicações foram aceites –, mas acabou por ser cancelada por falta de quórum.
Em declarações ao Diário de Notícias, Guilherme de Figueiredo, que preside à Comissão Organizadora do congresso, desvaloriza as polémicas, enquadrando-as no “dinamismo dos conteúdos” que sempre surgem por alturas desta reunião.
Uma proposta em discussão será a de equiparar o estatuto dos advogados ao dos juízes e magistrados do Ministério Público no momento em que são constituídos arguidos. 
Considerando que tem sido crescente o número de advogados constituídos como coarguidos em processos-crime com os seus clientes, sem que existam indícios sérios e fortes da prática de qualquer ilícito penal, apenas para acobertar a angariação de prova contra os seus constituintes” e “considerando que que a constituição instrumental dos advogados como arguidos para obter prova contra os seus clientes, tem necessariamente como consequência impedi-los de exercer o mandato em processos nos quais tenham sido constituídos defensores, pondo em causa o direito de defesa dos cidadãos, além da dignidade e da integridade dos advogados”, é pedido (e será discutido na reunião magna) que deve, aquando da constituição de advogados como arguidos com vista ao seu julgamento em processo penal, sempre que tal resulte do exercício da sua profissão, ser-lhes aplicado um regime de garantia em tudo idêntico ao dos magistrados judiciais e magistrados do Ministério Público”. A proposta é levada pelos advogados António Jaime Martins (líder da Regional de Lisboa da Ordem dos Advogados), Paulo Sá e Cunha, João Massano, Rui Tavares, João Sampaio, Bernardo Seruca Mendes e Vasco Pais Brandão.
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Quanto à prestação da Ministra da Justiça, ausente do Congresso, mas presente no Parlamento, diga-se, em síntese, que as questões suscitadas na discussão parlamentar, segundo a governante, “não são problemas de justiça de há 2 anos e meio, mas de há 39 anos”. E disse que o número de processos judiciais pendentes nos tribunais é o mais baixo dos últimos 10 anos, enfatizando:
Podemos querer dizer que nada mudou! Mas mudou, senhoras e senhores Deputados”.
A resposta surgia depois das críticas do deputado socialdemocrata José Silvano a mais de uma dezena de grupos de trabalho criados pelo Governo na área da Justiça sem resultados expressivos. O PSD apontou para o “desapontamento generalizado, com um clima de crispação como há muito não se via”, pois alegadamente “todos os dias se anunciam contestações, muitas delas com marcação de greves e outras formas de lutas”, exemplificando com os guardas prisionais e funcionários judiciais.
Em discurso que apelava à colaboração mútua entre os partidos, essencial para a reforma da justiça, o deputado referiu que tal mudança “deve ser feita pelos partidos e agentes como um todo”, já que “nenhum governo ou partido consegue fazê-lo sozinho”. Entre os vários pontos de aposta socialdemocrata na reforma do setor, destacam-se: maior celeridade, maior rapidez e melhor cumprimento do segredo de justiça.
Por seu turno, a Ministra da Justiça explicava:
O criticismo ao sistema judiciário centra-se em duas dimensões essenciais: aparência de desigualdade e tempestividade, mas a realidade está a mudar”.
Francisca Van Dunem estribava a sua explicação nas estatísticas da Justiça referentes ao último trimestre de 2017, recém-publicadas. Assim, garantiu:
E temos uma trajetória descendente, já que menos de 300 mil processos estão nos tribunais portugueses. Registamos a menor pendência dos últimos dez anos, abaixo de um milhão. […] No passado mês de maio foram publicadas as estatísticas de justiça respeitantes ao quarto e último trimestre de 2017, que confirmam uma trajetória consistentemente descendente das pendências processuais, que passaram de 1 311 579 no quarto trimestre de 2015 para 983 610 no quarto trimestre de 2018, o que traduz uma redução global de 327 969 processos, e uma descida acumulada de 25 pontos percentuais.”.
Aduzindo que “todos contestam a ação ou mesmo a omissão da Ministra da Justiça”, José Silvano criticou o atraso de inúmeros diplomas como os estatutos dos vários grupos de profissionais da área da Justiça e vincou:
A senhora Ministra garantiu que os estatutos estariam em vigor em janeiro deste ano e até ao momento a única proposta que existe em abril é a do Estatuto dos Magistrados Judiciais”.
Por outro lado, apontou a demora na avaliação do sistema da CPAS, que “está em cima da mesa desde fevereiro de 2016 e desde então não houve nenhuma alteração até ao momento”.
Entre as diferentes reações às críticas socialdemocratas, Filipe Neto Brandão, do PS, mencionou o encerramento dos tribunais pelo Governo de Passos Coelho, mesmo “quando prometeu nunca o fazer”. E José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, pediu medidas concretas ao PSD: “na verdade, o grupo parlamentar do PSD será o menos credível dos grupos parlamentares para vir falar de justiça, pois o governo do PSD colocou a justiça em estado de Citius” – jogou o deputado bloquista, fazendo referência ao portal dos tribunais. E acusou:
O PSD diz que pretende uma reforma global, mas e uma proposta concreta? Não sabemos. Ficamos na expectativa, senhor deputado. Gostaria que houvesse uma referência a isso.”.
José Silvano ripostou, concretizando que o partido não traz hoje medidas concretas. Mas atirou:
Trazemos é a vontade que de fazer medidas que tenham a aceitação de todos. Acham que os portugueses estão satisfeitos com o funcionamento do atual sistema de justiça? É preciso existir um acordo de todos para que esse sistema fique implantado e seja eficaz.”.
E, enfatizando a situação dramática do anterior Governo, interrogou:
Se numa época de crise a crispação foi expressiva, como é que não estando numa época de crise esta crispação continua?
Confrontada com as várias críticas dos deputados no plenário parlamentar, focados no acesso difícil à justiça, nas contribuições mensais altas dos advogados para a CPAS, na precariedade da profissão e na demorada progressão de carreira nas profissões judiciárias, a Ministra da Justiça voltou aos números:
Estes não são problemas de há dois anos e meio, mas de há 39 anos. Estamos a trabalhar no pilar da eficiência e a desenvolver a introdução de automatismos.”.
Francisca Van Dunem deixou claro que não gosta de falar no passado e sustentou que “devemos focar-nos no presente e procurar investir no futuro”. E, em relação às questões relativas à CPAS e à morosidade dos funcionários da justiça, realçou que esses pontos estão a ser discutidos e trabalhados, mas não adiantou qualquer medida específica.
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Enfim, dois areópagos – um ordinário e soberano, outro extraordinário e científico-operacional – a discutir matéria de justiça. Qual deles será o mais produtivo? Uns (os do segundo) sabem do que falam, mas não têm poder decisório; outros (os do primeiro) têm poder decisório, mas podem não saber do que falam. E era bom que se entendessem.
Nem percebo por que motivo os homens e mulheres do direito se picaram pela ausência da Ministra da Justiça, quando o Governo se faz presente através de dois ministros próximos do gabinete primoministerial. Aliás todos os membros do Governo partilham a solidariedade institucional do Executivo que integram
Quanto ao mais, quem governa que o faça ultrapassando as dificuldades, que serão sempre muitas e, da oposição, a que foi Governo que não atire pedras ao “Deus dará”, sabendo, antes, reconhecer os erros passados e oferecer contributos concretos.
2018.06.14 – Louro de Carvalho

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