quarta-feira, 15 de junho de 2016

Face a eventual punição externa impunha-se posição unívoca

A Assembleia da República aprovou, no passado dia 9 de junho, véspera do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, dois votosem relação às eventuais sanções por incumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento” (Voto n.º 92/XIII/1.ª) ou “relativo à eventual aplicação de sanções a Portugal no âmbito do procedimento por Défices Excessivos” (Voto n.º 93/XIII/1.ª) – contra a propalada hipótese de aplicação de sanções a Portugal.
Face a esta deliberação parlamentar, o presidente da Assembleia da República congratulou-se com o “consenso”, ao passo que o Presidente da República preferiu congratular-se com o sentido positivo da deliberação, deixando claro que preferia que os deputados tivessem acordado num texto único. Porém, Marcelo declarou-se contente, uma vez que, sendo o ótimo inimigo do bom, os deputados se entenderam na substância, embora discrepantes na forma. 
Relidos os textos dos dois votos, verifica-se que eles diferem em muito pouco, mas diferem. E a diferença, embora não seja muito significativa, acusa um défice de valor simbólico na posição dos nossos representantes e membros do relevante órgão de soberania, o Parlamento, sede por excelência do poder legislativo e fiscalizador da ação do Governo.
***
Além da falta de texto único, o voto (aliás, os votos) não é nem de incómodo, nem de protesto nem de condenação. É simplesmente voto, voto “em relação a” ou voto relativo a”. Depois, embora diferentes, poderiam merecer ambos a unanimidade, relegando-se a diferença para o momento originário da tomada de iniciativa, ou, pelo menos, a abstenção da parte dos partidos não subscritores. Se uma destas hipóteses se tivesse verificado, Ferro Rodrigues poderia com legitimidade ter-se congratulado pelo consenso. Assim, não percebo de que tipo de consenso quis falar. Por outro lado, se acompanho Marcelo nalgum conforto pelo facto de o Parlamento haver aprovado um voto ou dois votos face à eventual aplicação de sanções, não vejo bem, em textos de dimensão tão diminuta, suficiente razão para se falar numa unanimidade na substância e uma diferenciação quanto à forma, a não ser num certo preciosismo redatorial.
Desde logo as sínteses marcam diferenças: o voto n.º 92/XIII/1.ª, apresentado pelo PS, BE, PCP, PEV e PAN, posiciona-se “em relação às eventuais sanções por incumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento”; e o voto n.º 93/XIII/1.ª, apresentado pelo PSD e CDS-PP, declara-se “relativo à eventual aplicação de sanções a Portugal no âmbito do procedimento por Défices Excessivos”. É óbvio que, na prática, a razão é a mesma, pois o défice excessivo decorre do não cumprimento do PEC. Todavia, são em tese coisas diferentes, de tal modo que, se o défice excessivo resulta de fatores imprevistos, não se pode dizer que o PEC não tenha sido cumprido, ou então ele enferma de um pecado original na sua elaboração ou é interpretado de forma não inteligente.
Quanto ao resultado das votações, o voto n.º 92 foi aprovado com os votos favoráveis de toda a esquerda e a abstenção do PSD e do CDS-PP, ao passo que o voto n.º 93 teve também os votos favoráveis do PS e do PAN (Pessoas, Animais e Natureza), mas registou votos contra do BE (Bloco de Esquerda), PCP e PEV (Os Verdes).
Face ao resultado das votações e tendo em conta a falta de texto único e a iminência de sanções, é óbvio que tenho em apreço a postura do PS e do PAN, que votaram favoravelmente o texto apresentado pela direita, e, em certa medida, a do PSD e do CDS, que se abstiveram face ao texto apresentado pela esquerda, que, aliás, bem poderiam ter votado a favor.
O texto da esquerda, ao colocar a hipótese do incumprimento do PEC, parece arredar a ideia de que o défice excessivo possa ter decorrido simplesmente da falta de cumprimento do PEC, sem questionar a sua génese ou a sua interpretação, dando a entender que ignora os fatores alheios à vontade dos Estados e decorrentes da crise europeia e mundial.
Por seu turno, o texto do voto do PSD e do CDS, faz anteceder do segmento “os esforços e resultados de consolidação nominal e estrutural alcançados pelo País” o segmento “à grave crise económica que afetou Portugal”, como fundamento para classificar de “infundada e injusta” a “mera possibilidade de impor sanções ao país”. Os deputados que subscreveram o texto perderam, a meu ver, a oportunidade de referir que os ditos esforços foram feitos sob a égide da União Europeia cuja orientação política e económica os factos demonstram não dar os resultados previstos e desejáveis. Sendo assim, não parece que o texto naquela única diferença de fundo tenha vindo a acrescentar qualquer valia ao texto da formação partidária contrária.
Em todo o caso, os deputados fizeram bem em invocar o facto inédito de se colocar a hipótese de punir um país por incumprimento por défice excessivo, embora já outros tenham incorrido nesse incumprimento, vindo agora alguém clamar impudentemente que a França é a França.
Transcrevo a seguir o voto n.º 93/XIII/1.ª, por ser formalmente o mais completo, advertindo que o último parágrafo é igual nos dois votos:
Nas últimas semanas tem sido referida a possibilidade de Portugal ser alvo de sanções por alegado incumprimento das recomendações do Conselho Europeu no âmbito do Pacto de Estabilidade e Crescimento. A mera possibilidade de impor sanções ao país, para além de inédita ao nível da aplicação do Pacto de Estabilidade e Crescimento, afigura-se infundada, injusta, incompreensível e contraproducente. Infundada e injusta, face aos esforços e resultados de consolidação nominal e estrutural alcançados pelo País e à grave crise económica e social que afetou Portugal; incompreensível porque representaria um tratamento injustificadamente discriminatório de Portugal face a outros Estados-membros; e contraproducente, face aos desafios que se colocam para a recuperação económica de Portugal. A aplicação de sanções, que deteriora a relação entre instituições europeias e Estados soberanos, teria um efeito económico, orçamental e reputacional muito negativo na economia, no investimento, no emprego e, portanto, nas próprias finanças públicas de Portugal.
Assim, a Assembleia da República, nos termos regimentais e constitucionais aplicáveis, pronuncia-se no sentido de considerar infundada, injusta, incompreensível e contraproducente uma eventual decisão da Comissão Europeia de propor sanções ao país por incumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

Parece que foi tendo em conta aquele último parágrafo igual no texto dos dois votos que Ferro Rodrigues declarou que “no Parlamento há um consenso bastante verificável contra a aplicação de sanções a Portugal” – palavras que foram aplaudidas por alguns deputados desde o CDS-PP ao BE. Porém, as votações ocorreram após discussão muito dura entre as bancadas da esquerda e da direita parlamentar, com intervenções interrompidas por protestos de um e de outro lado.
Para justificar a necessidade duma posição unânime e inequívoca perante o exterior socorro-me de dois exemplos: um da vida animal e outro da tática militar.
Bois/vacas juntos no prado, às vezes, guerreiam-se, mas, ao pressentirem o inimigo externo, fazem instintivamente roda, voltam os posteriores respetivos para o centro e as “armações” para a periferia a fim de efetuarem a defesa comum; e as colunas militares de infantaria, embora disciplinarmente alinhadas na marcha, procedem de modo similar (salvaguardadas as diferenças de armas) quando sentem a emboscada, desenvolvendo rajadas de metralhadora a diversos níveis acima do solo, cobrindo assim todo o espectro direcional donde possa estar postado o inimigo.
Ora, assim deveriam fazer metaforicamente nossos representantes e defensores quando está em causa a nossa soberania residual, mas soberania, só porque aderimos de boa-fé à UE e ao Euro e de boa-fé aceitamos as condições do Tratado Orçamental e, dada a nossa posição periférica não temos conseguido controlar os fatores condicionantes da economia e do equilíbrio das contas.
Será que a solidariedade só existe para acorrer às necessidades dos outros?
***
Depois de o Presidente da Comissão Europeia ter declarado que a aplicação de sanções a Portugal e a Espanha seria problemática, embora em tese quem não cumpre deva ser objeto de sanções, e de o Presidente do Parlamento Europeu ter dito que não concordava com a aplicação das sanções aos dois países, vem agora o secretário-geral da OCDE juntar-se ao clamor contra a aplicação das sanções. Vem, antes reclamar a “aposta no investimento e crescimento”. “Parece-me que ninguém deve ser punido”, vincou Ángel Gurría, ao discursar em Paris na apresentação de dois relatórios económicos anuais da OCDE: um sobre a União Europeia (UE); e outro virado para a zona euro. E salientou o “grande esforço de consolidação orçamental” que Espanha e Portugal fizeram, estando entre os países que “mais” reformas tiveram de aplicar em virtude da crise económica e financeira dos últimos anos. 
O próprio presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que avisou, em meados de maio, que havia “sérias razões” para sancionar Portugal e Espanha por incumprimento das metas do défice em 2015, referiu que o Eurogrupo “vai ouvir primeiro a Comissão” e só depois decidirá.
E, como sabemos, a 18 de maio, Bruxelas adiou para julho a decisão que poderia ser no sentido da aplicação de sanções, avisando que, até lá, o Governo teria que pôr mãos à obra para convencer a Comissão da “injustiça” da aplicação de sanções.
Por sua vez, Mário Centeno desvalorizou as ameaças desde o primeiro momento. O Ministro das Finanças assegurou que não ficou “de todo” preocupado com as declarações do presidente do Eurogrupo sobre a possibilidade da aplicação de sanções a Portugal por incumprimento do défice em 2015. A este respeito, o Ministro declarou em maio:
“O país nunca saiu do caminho certo. O governo sabe exatamente o que tem que fazer para manter o país numa trajetória de consolidação das suas contas públicas, trazendo o crescimento que, no final do ano passado, parou”
***
Resta saber se com os dois textos se cumprirá o desejo de Marcelo – “o que interessa é que lá fora se ouça que todos os partidos políticos pensam o mesmo” – ou se bastam para que a Comissão Europeia se convença da injustiça da aplicação de sanções a Portugal.
Insisto que teria sido melhor que o Parlamento tivesse produzido um voto único ou que os deputados tivessem votado os dois por unanimidade. Perante o exterior, fala-se a uníssono e não à portuguesa, cada um para seu lado!

2016.06.14 – Louro de Carvalho    

Sem comentários:

Enviar um comentário