terça-feira, 28 de junho de 2016

Concílio Panortodoxo de Creta

Iniciado oficialmente a 19 de junho, dia do Pentecostes (segundo o calendário juliano, seguido pela Igreja ortodoxa), com a solene celebração da Liturgia Divina, decorreu o Concílio Panortodoxo ou o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa na Academia ortodoxa de Creta. Foi esta uma semana de intensos trabalhos da parte dos 290 delegados representando 10 Igrejas ortodoxas (Faltaram quatro: as da Rússia, Bulgária, Geórgia e Antioquia, que no último momento decidiram não participar). As sessões de debates iniciaram-se no dia 20 e terminaram no dia 25, superando as previsões mais pessimistas existentes antes da abertura. Com efeito, a Assembleia Conciliar, não somente adotou os seis textos que figuravam na ordem do dia, mas também publicou uma Encíclica e uma importante “Mensagem ao povo ortodoxo e a todas as pessoas de boa vontade”.
Foi a primeira vez, em mais de mil anos, que se realizou esta reunião magna das diversas Igrejas ortodoxas. E o evento constitui uma “grande apologia ao diálogo”. Foram estes os termos com que se lhe referiu a mensagem final do Grande Concílio das Igrejas Ortodoxas: uma “exaltação da importância do diálogo entre as várias denominações ortodoxas, mas também do diálogo ecuménico com as outras Igrejas cristãs”, porque, como explicitou o Patriarca Bartolomeu I, “a unidade ortodoxa serve também para a causa da unidade dos cristãos”. Trata-se de segmentos discursivos registados pela Rádio Vaticano, que também afirmou que o Patriarca Ecuménico garantiu que este encontro panortodoxo presta ajuda ao diálogo inter-religioso tentando um frutuoso contraponto à explosão do fundamentalismo, porque o diálogo sincero é o único caminho para a confiança recíproca, a paz e a reconciliação.
A este respeito, o Concílio lançou forte apelo à comunidade internacional para que se cumpram todos os esforços possíveis para “uma resolução dos conflitos armados” no Oriente Médio: “Estamos ouvindo a dor, as angústias e o grito de justiça e de paz dos povos” – clamaram.
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Culmina deste modo a longa caminhada pré-conciliar encetada pelas Igrejas Ortodoxas ainda nos anos 60 do século XX, com a abertura de uma nova página na sua história, inspirada no esforço da boa vontade católico-ortodoxa, personificada em Atenágoras I e Paulo VI. Não obstante as indisfarçáveis lacunas e para lá dos documentos e do próprio Concílio, a Igreja Ortodoxa deu importante passo no exercício da sinodalidade, certamente até agora professada, mas não vivida suficientemente entre todas as Igrejas Ortodoxas. Como o próprio Concílio vaticinou, é improvável que este precedente não tenha consequências positivas visíveis.
A sessão final de 25 de junho, tal como havia ocorrido com a primeira, a 20 de junho, foi aberta aos observadores e jornalistas. Sendo a sessão conclusiva, foi substancialmente uma sessão de agradecimentos, no decurso da qual o Patriarca Ecuménico pôde fazer um primeiro balanço avaliativo. Algo entristecido pela notória ausência das quatro Igrejas acima mencionadas e reconhecendo que “não foi fácil” e que “o fator humano esteve presente”, Bartolomeu I (em grego: Βαρθολομαίος ο Α') congratulou-se e manifestou o seu regozijo pela concórdia alcançada e pela mensagem de unidade entregue ao mundo. Prova disto é o facto de que, “não obstante a instituição da autocefalia, somos uma Igreja indivisível e gozamos da unidade na nossa diversidade e da diversidade na nossa unidade”. Assim, pôde concluir: “Escrevemos, juntos, uma página de história, um novo capítulo na história contemporânea das nossas Igrejas”.
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Aos observadores Sua Santidade, Bartolomeu I, Arcebispo de Constantinopla Nova Roma e Patriarca Ecuménico (H Αυτού Θειοτάτη Παναγιότης ο Αρχιεπίσκοπος Κωνσταντινουπόλεως Νέας Ρώμης και Οικουμενικός Πατριάρχης Βαρθολομαίος Α'), agradeceu, em particular, pela oração, apoio e interesse manifestado pelas suas respetivas Igrejas. Indo um pouco além das palavras dos textos fixados no Concílio, salientou que esta magna assembleia “confirmou a importância vital do diálogo com as outras Igrejas cristãs”. Fez uma síntese do resultado fundamental consubstanciada na metáfora do “caminho comum” (syn-odos):
“Apesar das imperfeições do caminho, este Santo e Grande Concílio oferece-nos a oportunidade de revitalizar o processo conciliar, de modo que os Concílios eclesiais se tornem novamente o caminho canónico e natural para alcançar e afirmar a unidade ortodoxa para todas as nossas Igrejas irmãs Ortodoxas”.
No final da última sessão conciliar, Bartolomeu pronunciou, de improviso, um discurso em que sublinhou a contribuição da Igreja Ortodoxa, e em particular a de Constantinopla, para o movimento ecuménico. Depois, aproveitou o ensejo para evocar recordações pessoais, como estudante do Instituto de Bossey e como Vice-Presidente da Comissão Fé e Constituição (do Conselho Ecuménico das Igrejas), bem como o diálogo com João Paulo II, Bento XVI e Francisco.
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Já no domingo, dia 26, Solenidade de Todos os Santos, celebrada pela Igreja Ortodoxa no domingo subsequente ao do Pentecostes, os Primazes concelebraram a Divina Liturgia na Igreja dos Santos Pedro e Paulo em Chanya.
Após a proclamação do Evangelho, foi proferida a mensagem comum que – “fundada na certeza de que a Igreja não vive para si mesma” – desenvolve em 12 itens os temas debatidos. O Concílio, para já, tomara decisões sobre 6 deles, enquanto os outros 6 serão examinados posteriormente. Assegurando que a prioridade é a proclamação da unidade da Igreja Ortodoxa – unidade que se expressa no Concílio – o texto destaca, antes de mais, que a conciliaridade (da Igreja Ortodoxa) lhe modela a organização, o modo de tomada decisões e a forma de determinação do seu destino. Na verdade, as Igrejas Ortodoxas autocéfalas não são simplesmente “uma federação de Igrejas, mas a Igreja una, santa, católica e apostólica”, em que subiste a Igreja fundada por Jesus Cristo. Neste sentido, aplicado ao fenómeno problemático da diáspora, o princípio de conciliaridade está na base das Assembleias Episcopais que o Concílio aceita e confirmou, como está na origem origina das sinaxys dos Primazes e do Santo e Grande Concílio, pelo que este será, doravante, convocado regularmente, “a cada sete ou dez anos”.
A mensagem prossegue no relevo da necessidade do testemunho da fé, “Liturgia após Liturgia”, com vista à evangelização e à “reevangelização”. Evidencia a importância do diálogo, “em particular com os cristãos não ortodoxos” (diálogo ecuménico), para fazer resplandecer melhor a ortodoxia, e também com os não cristãos (diálogo inter-religioso), num sentido de respeito, aceitação e inclusão. E, ressaltando, de forma expressiva, a preocupação pelos cristãos e pelas minorias perseguidas no Oriente Médio, bem como a situação dos refugiados, a par da clara denúncia do “secularismo moderno”, o documento deixa bem vincado que “a cultura ocidental traz a marca indelével da contribuição do cristianismo”.
Também a conceção cristã do matrimónio recebeu a atenção dos Patriarcas e Arcebispos, tal como o valor da abstinência e ascese, “caraterística da vida cristã em todas as suas expressões”.
O documento recorda, por fim, “importantes questões contemporâneas”, que é necessário aprofundar: as relações entre fé e ciência; a crise ecológica; o “respeito pelo particularismo”; a relação entre Igreja e âmbito político; e os jovens. Antes de concluir, é relevado que “o santo e Grande Concílio abriu o nosso horizonte sobre o mundo contemporâneo”. A Igreja ortodoxa é, na entrada do 3.º milénio, sensível à invocação de paz e justiça dos povos do mundo e proclama a boa notícia da salvação, anunciando a glória e as maravilhas de Deus entre todos os povos.
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Também a homilia pronunciada pelo Patriarca Ecuménico foi dedicada à sinodalidade. Citando várias vezes o teólogo ortodoxo de origem russa Alexander Schmemann, Bartolomeu I recordou “a natureza sinodal” da Igreja, definida como um “sínodo ecuménico”, que Deus convoca. Se não entendermos a Igreja como “essencialmente sinodal”, se não aceitarmos que toda a sua vida é uma vida “em sínodo”, “então não seremos capazes de entender corretamente a função dos Concílios no sentido mais estreito da expressão” – declarou.
O Arcebispo de Constantinopla insistiu na necessidade de divulgar e aplicar as decisões conciliares, segundo o processo que definiu como “Concílio após o Concílio”:
“As decisões sinodais panortodoxas devem ser inseridas na vida das Igrejas Ortodoxas locais, divulgadas nas paróquias, nas santas arquidioceses, nas ‘metropolias’ e nos santos mosteiros, discutidas nas escolas teológicas e nos seminários, utilizadas para o catecismo e educação dos jovens, para poderem dar fruto no ministério pastoral e nas atividades da Igreja no mundo”.
Segundo a reiterada ideia de Bartolomeu I, o ensinamento principal do Concílio é o seguinte: “A sinodalidade é outro termo para descrever a unidade, a santidade, a catolicidade e a natureza apostólica da Igreja”. Ideias que Francisco tem destacado. De facto, o Santo e Grande Concílio revelou que a Igreja una, santa, católica e apostólica, unida pela fé, sacramentos e testemunho no mundo, encarna e expressa de modo autêntico o princípio eclesiológico central e a verdade da sinodalidade; e reiterou que a Igreja vive como um “sínodo”. Pegando nas palavras de Steven Runciman, que citara, em 16 de junho, o Patriarca Bartolomeu I afirmou, no final do Concílio:
 “Se o século XXI pode e deve tornar-se o ‘século da ortodoxia’,  o Santo e Grande Concílio de nossa santíssima Igreja, pela graça do Deus adorado, trino e Senhor de tudo, colocou a primeira pedra para o cumprimento desta visão divina”.
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O Papa dedicou a este Concílio umas palavras, ao Angelus do dia 19, na praça de São Pedro:
“Vamos unir-nos em oração pelos nossos irmãos ortodoxos, invocando o Espírito Santo, para que ajude com os seus dons os patriarcas, os arcebispos e os bispos que estão reunidos no Concílio. E todos juntos oremos a Nossa Senhora, por todos os nossos irmãos ortodoxos: Ave-Maria...”.
E, no regresso da Arménia, disse aos jornalistas que fazia um juízo positivo sobre este fórum:
Foi feito um passo avante: não 100%, mas um passo avante. As coisas que justificaram – entre aspas – são sinceras para eles, são coisas que com o tempo podem ser resolvidas. Esses quatro que não participaram queriam fazê-lo mais para frente. Mas creio que o primeiro passo se faz como se pode. Como as crianças, quando dão os primeiros passos, fazem como podem: os primeiros como os gatos, e depois os primeiros passos.
E acrescentou:
“Eu estou feliz. Falaram de tantas coisas. Creio que o resultado seja positivo. Somente o facto de essas Igrejas autocéfalas se terem reunido, em nome da ortodoxia, para se olharem face a face, para rezar juntos e falar e talvez fazer algum comentário, isso é muito positivo. Eu agradeço ao Senhor. No próximo, serão mais numerosos. Abençoado seja o Senhor!”.
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Louvores a Deus pela lucidez, vontade e estilo sinodal!
2016.06.28 – Louro de Carvalho

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