Segundo o que refere Fábio Monteiro, jornalista
do Expresso na edição on line de hoje, dia 27 de abril, Eduardo
Catroga disse, em entrevista à Rádio
Renascença, que as famílias portuguesas pagam uma das energias mais caras
da Europa em razão da elevada carga fiscal, mas assegura não estar disponível
para ceder no défice tarifário e recusa pagar a tarifa social.
Está visto, para o chairman da EDP – que se
entende à letra como Eletricidade de
Portugal, mas agora da China – para o qual foi um enorme sucesso a entrega
deste estratégico fragmento de Portugal aos chineses de regime de partido único
(Catroga é liberal com a pele de socialdemocrata!), a
culpa do elevado preço das tarifas impostas aos clientes é exclusivamente do
Governo.
E, se dúvidas havia, hoje chegou a sua dissipação.
Os administradores receberam um notável aumento de vencimento fixo e outros
beneficiaram também dum aumento nas remunerações variáveis, os preços ao
cliente têm subido como convém, os serviços não acusaram melhoria significativa
e a empresa não aumentou o número de postos de trabalho nem o know how. No entanto, tem anexa à
atividade económica a vertente social plasmada numa fundação através da qual
exibe o seu rosto solidário. E Catroga resolveu colocar os pontos nos is: a EDP
não renuncia aos intentos económicos, o Governo é que deve baixar o IVA da eletricidade,
o que, nos termos discursivos do português achinesado, é preferível ao da sua baixa
na restauração.
Já na sessão da assembleia geral de acionistas,
no passado dia 19 de abril, Eduardo Catroga, presidente Conselho Geral e de
Supervisão da EDP, sugeriu
que a solução para a tarifa social poderia passar pela redução do IVA,
apontando que a taxa de 23% cobrada na eletricidade em Portugal é superior à
média europeia, que é de 16%.
Por seu turno, António Mexia, presidente executivo da EDP, tem
vindo a criticar as mexidas previstas para a tarifa social energética. Embora diga concordar com a sua existência, sustenta ambiguamente que
a “política social se faz através dos impostos ou dentro dos preços dos bens
que estão em causa”. Sendo assim, do meu ponto de vista, deveria tanto o Governo
(pela
amenização tributária) como
as empresas (pela consecução do peço justo dos bens e
serviços) fazer cada qual a
sua parte para desagravar a vida dos clientes de bens essenciais.
Mas não. Catroga, dada a sua experiência
política não partidária (!), pretende orientar o Governo sentenciando:
“Era, talvez, preferível
reduzir o IVA na eletricidade ‘a’ [e não “do que”] reduzir o IVA nos
restaurantes. São opções políticas. A redução do IVA na eletricidade beneficia
todas as famílias portuguesas. A redução do IVA na restauração beneficia,
essencialmente, os donos dos restaurantes em certos segmentos”.
Mais: o
economista ora feito politólogo, provavelmente em Pequim, ambiciona catequizar
os partidos e o Parlamento – quiçá também o Presidente da República – ao decretar
que seria
bom que o Bloco de Esquerda subisse ao lugar de quarto partido do arco da
governação. É de questionar porque não o terceiro, o segundo ou até o primeiro lugar.
Porém, o ideólogo é comedido no seu raciocínio de ciência política, tornado
desígnio nacional:
“Tenho esperança [de] que,
pelo menos, o Bloco de Esquerda seja cada vez mais um partido do arco do poder
e se venha a transformar num ‘Syriza 2’ ou ‘Syriza 3’ (...) Isto seria muito
bom para Portugal, não ter apenas os três partidos tradicionais do arco do
poder, mas ter mais um partido com uma visão mais de esquerda, mas que
compreendesse as exigências da globalização”.
Vamos lá, Catarina Martins e
companheiros, matriculai-vos na escola para compreenderdes as exigências da globalização!
Fazei-lhe a vontade, dai o gostinho ao liberal socialdemocrata.
***
A 20 de abril,
ou seja, um dia depois da susodita sessão da assembleia geral da EDP, o
Primeiro-Ministro esteve, a convite de Eduardo Catroga, na Fundação EDP, onde destacou a índole solidária do grupo através da Fundação e agradeceu
à entidade empresarial energética por ter de suportar os encargos com a tarifa
social de energia, declarando:
“Sei que cumprir a lei é um
dever, mas também sei que há normas e deveres que são impostos e que é justo
que sejam acompanhados do devido agradecimento. A tarifa social merece o nosso
reconhecimento pelo esforço que isso implica para as empresas, particularmente
para a EDP.”.
Esta declaração de António Costa revela que o Governo
não está para desistir na negociação do défice tarifário, sendo que a EDP não
estará na disponibilidade de ceder, tendo até já pedido uma reunião para discutir com o Primeiro-Ministro o fim da taxa
extraordinária.
Por isso é que não se
tinha percebido a razão do convite de Catroga para visitar a Fundação EDP a presidir a uma cerimónia
de solidariedade e muito menos aquela atitude de melga em torno de Costa para pessoalmente lhe fazer o convite a uma
conversa com os acionistas da companhia energética. Foram bem percebidas
em televisão as suas palavras: “Os acionistas da EDP precisam de conversar consigo”.
António Costa,
mostrando-se esquivo e sorridente, limitou-se a anuir com um “muito bem, muito bem”.
No entanto, mais
estranha foi a inesperada disponibilidade para intermediador que o anfitrião convidante
manifestou insistente e esclarecedoramente ao ilustre convidado, a quem tratou
por você (O “Vossa Excelência”
perdeu-se provavelmente no mar da China!):
“Se você precisar de mim para eu dar aí alguns
entendimentos, eu disponho-me a isso. Porque eu tenho essa visão da política
que não é partidária”.
Evidentemente que o chairman da EDP, aliás como qualquer
empresário que se preze, obviamente que se confessa rigorosamente apartidário.
Contudo, o Catroga que se tornou conhecido – o que foi Ministro das Finanças de
um Governo de Cavaco Silva e o que ajudou na elaboração do Memorando de Entendimento
que serviu de instrumento à intervenção externa – é homem de partido. E foi em
nome do seu partido que se arrogou clamar que o memorando era bom para o país,
porque saiu da sua pena, e foi alinhado com o PSD que, mais tarde, veio a dizer
cobras e lagartos do memorando que ajudou a cozinhar a bem da nação, que
alegadamente estava à beira da bancarrota.
Fez, por isso, bem o Primeiro-Ministro em voltar
a retorquir à conversa com o simples “Muito bem. Sim senhor”. Ademais, o partido
de Catroga, do pretenso intermediador (que pelos vistos agora não tem partido, a não ser o da
reforma e do dinheiro pelos cargos que exerce), entende,
com muita gente, que qualquer negociador com privados em nome do Estado deve
pertencer à hierarquia do Estado ou, pelo menos, ter celebrado um qualquer contrato
com o Estado – tudo isto em nome da transparência, arvorada em valor absoluto
da democracia, quando a economia reclama a prioridade da eficácia. Não é assim,
senhores detratores de António Costa e de Diogo Lacerda Machado?
Parece que não sabem das eminências
pardas que sempre intervieram nas grandes decisões dos Estados, sem pertencerem
às respetivas hierarquias. Quem isto escreve e diz sabe do que fala… E Pacheco
Pereira tem razão, embora possa ter sido infeliz nos exemplos que selecionou para
justificar as suas declarações sobre a matéria.
***
Mas o chairman da EDP sabia muito bem o que queria quando convidou o Primeiro-Ministro.
Uma das razões era efetivamente a real problemática atinente à tarifa social na
energia (provavelmente
não apenas no setor elétrico: aliás a EDP não trabalha apenas com a
eletricidade) que
o Governo pretende alargar para um milhão de famílias; e outra era a CESE (Contribuição
Extraordinária sobre o Setor Energético),
taxa na energia, que custou, em 2015, o montante
de 62 milhões de euros à EDP e que o executivo manteve para este ano.
Ora, segundo as contas da ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços
Energéticos), se a tarifa social chegasse aos 500
mil beneficiários este ano, os descontos teriam um custo total de 32 milhões de
euros, isto segundo o atual modelo. Porém, como o Governo pretende agora levar
a tarifa social a um milhão de beneficiários, o aumento da fatura das eléctricas
fará elevá-la para os 100 milhões de euros.
Catroga,
interpretando o sentimento dos acionistas da EDP, não quer nem o alargamento da
tarifa social na energia nem a Contribuição
Extraordinária sobre o Setor Energético. Mas, mesmo assim, quer manter o rosto solidário da companhia. Com
que fins? Dar credibilidade social à entidade ora totalmente privada, mas sob o
patrocínio e tutela de um Estado estrangeiro proprietário direto ou indireto dos
principais meios de produção e distribuição? Reconhecer na prática a função social
da propriedade privada? Pedir a Deus que dê pobres ao país para a EDP ter
oportunidade de exercer a “caridade”? Aliviar a companhia do excessivo peso da
oneração fiscal através da manutenção de uma entidade privada de utilidade pública?
Entretanto, como o Estado não deve interferir na esfera privada,
mas os privados podem interferir na esfera do Estado, provavelmente em nome da
cidadania, Catroga usa o seu estatuto de administrador não executivo para orientar
a ação do Estado: reduzir a carga fiscal da eletricidade, beneficio que
beneficiará toda a gente, em vez da redução na restauração, que só beneficia
alguns. Tudo bem, caro economista ora apartidário, mas não como moeda de troca
para renunciar à CESE ou à tarifa social energética. Aliás, cabe ao Estado
intervir quando as goelas dos privados se abrem em demasia sobre os clientes de
bens essenciais.
2016.04.27 –
Louro de Carvalho
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