terça-feira, 15 de março de 2016

Lula a superministro, não!

Não vivo no Brasil e confesso não acompanhar muito de perto a política brasileira, a não ser naquilo que representa a generalidade das suas linhas. Admito, pois, não ser de suficiente mérito a minha posição sobre estas matérias. Reconheço-me em parte nas teses de Ângela Dutra de Menezes quando, em O português que nos pariu, fazendo História do ponto de vista do brasileiro, explica muito da índole brasileira com a feição própria do português, gerado na ponta ocidental da Europa na descendência de inúmeros povos e andante pelo mundo, a ele chegou com toda a carga de virtude e defeitos que não pode descartar, repartindo-se em pedaços humanos.
Compreendo a complexidade da multiplicação das diversidades do povo brasileiro, boas, más e indiferentes. Penso que os europeus, pelos erros, ambições e tentativas de hegemonia, não gozam de grande autoridade moral para julgar a política brasileira, a sua economia ou o seu status social, até porque um crítico que tenha telhados de vidro não pode atirar pedras e um observador prudente não cospe para o ar.
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Não obstante, entendo dever marcar posição sobre os últimos desenvolvimentos noticiosos.
Lula da Silva foi Presidente do Brasil e, como tal, o homem que, vindo do sindicalismo, chegou ao topo do Estado, ganhou uma, até há pouco inquestionável, aura de reformista, pensando-se ter acionado, de forma consolidada e irreversível, o comboio da moralização do regime. Recordo que a Universidade de Coimbra fê-lo seu doutor honoris causa. Já o critiquei, não há muito tempo, pela tentativa de em Espanha, numa conferência, atribuir aos portugueses a culpa pela instauração alegadamente tardia do ensino superior.  
Entretanto, o impoluto ex-Presidente foi apanhado na teia da Justiça do seu país. Não possuo elementos para o considerar culpado ou inocente. No entanto, como em Portugal, no Brasil e em qualquer dos países decentes, qualquer cidadão se presume inocente até sentença contrária transitada em julgado, também eu o devo considerar inocente até provas em contrário.
Por isso, esperava que Lula se ocupasse em declarar inequivocamente a sua inocência e a preparar com todos os meios disponíveis a sua defesa. Admito que não o criticaria acerbamente se ele tentasse fugir à Justiça pela via do autoexílio. Mas nunca esperava do cidadão – o político que eu nunca pensaria que viesse a ficar manchado por qualquer modalidade de impudência grave – usasse a via da governação para se escapar à administração comum da Justiça.
Eis que as últimas horas forneceram a informação de que Lula iria integrar o governo de Dilma Roussef, que – todos o sabem – está a braços com um processo que bem a poderá levar à destituição. Dilma acaba de o convidar para chefiar um superministério da Economia e da Articulação política.
Ora esta medida tentaria resolver duas situações: a Dilma serviria para mascarar toda a matéria que tem sido objeto de contestação e reivindicação e para gerir os conflitos ente a parte dos que lutam pela destituição da Presidenta e a parte dos que tentam defender a sua permanência na chefatura do Estado; e a Lula serviria para lhe conferir a imunidade governamental que o subtrairá à ação da Justiça comum – uma despudorada forma de ganhar tempo!  
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Porém, os jornais on line têm dado indicações de que o anúncio da entrada de Lula para o governo fora adiado, já que o Palácio do Planalto marcou para amanhã, dia 16, uma tomada de posição sobre o caso, ou seja, decidir se o ex-Presidente vai mesmo sobraçar uma superpasta ministerial, como previsto, ou se o processo será suspenso.
Na génese desta alteração de planos estará a decisão do Supremo Tribunal Federal, que validou as denúncias de Delcídio do Amaral, senador do PT (Partido dos Trabalhadores), que no quadro de um acordo com a Justiça (em prisão domiciliária, cedeu informações em troca de redução de pena) declarou que Dilma e Lula tentaram interferir nas investigações, no âmbito da operação Lava Jato, designação como ficou a ser conhecida a investigação à rede de corrupção na Petrobrás.
A Presidenta, que hoje, dia 15, deveria receber Lula da Silva para fechar a definição do “formato” do seu trabalho no Governo, convocou uma reunião de emergência do Executivo para avaliar o impacto da validação das denúncias do super-referido senador do PT, denúncias que aumentaram a altíssima tensão que já se bem vivendo na capital.
Mais: segundo as novéis informações, Dilma Roussef – que sempre veio a terreiro defender a não interferência do Governo nas investigações da Lava Jato – terá ficado “atónita”, quando soube da tentativa de compra do silêncio de Delcídio por Aloizio Mercadante, um dos seus ministros. Pelos vistos, há uma gravação de uma das suas assessorias a oferecer dinheiro a um homem de confiança do senador para obstar a que este firmasse o acordo de delação. Por consequência, a Presidenta, desmentida pela gravação, pretende avaliar o efeito dessa tentativa da compra de silêncio no seu Governo.
Um dos efeitos poderá ser a saída do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) do Executivo, que precipitaria a queda do elenco governativo. Ora, o PMDB fizera saber que, se Lula entrasse na equipa governativa, manteria o apoio ao Governo e a Dilma, que tem pendente no Parlamento o processo de destituição.
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Apesar de a Presidenta, que aposta na vitória nas diversas frentes, não querer contaminar o ex-Presidente com o facto acima referenciado, a nomeação de Lula como superministro parece garantida. O próprio Lula terá confessado aos seus mais próximos não ter como declinar o convite de Dilma.
Com o seu ingresso no Executivo, o ex-Presidente ganha imunidade ministerial em relação ao Ministério Público paulista, que propusera a sua prisão preventiva por lavagem de dinheiro, no âmbito duma investigação sobre a posse de um apartamento de luxo. Por outro lado, a partir do ingresso de Lula no Governo sobraçando uma superpasta ministerial, Rousseff manterá o cargo presidencial, mas delegará no ex-Presidente, ora superministro, o grosso das decisões.
Além disso, Lula terá duas prioridades no Executivo: a recuperação da economia do país e a articulação política com o Congresso, a fim de impedir o processo de destituição de Dilma.
Há quem refira, no Palácio do Planalto, a probabilidade de o ex-Presidente assumir a Secretaria de Governo, sucedendo a Ricardo Berzoini.
Ademais, informação de fontes próximas de Dilma assegura que Lula terá sugerido uma viragem no rumo da política económica para o Governo recuperar a confiança dos sindicatos e dos movimentos sociais, contrariando os ajustamentos fiscais em marcha nos últimos tempos.
Não obstante, é de ter em conta a intenção pessoal de Lula, segundo O Globo: “convencer a opinião pública de que não está a fugir do Juiz Sérgio Moro, na Operação Lava Jato, para que o seu processo corra no Supremo Tribunal Federal”.
Como consequência da divulgação da notícia da integração do Governo por Lula da Silva, a bolsa brasileira, segundo a Reuters, caiu 4% e a moeda brasileira desvalorizou-se 2%.
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Por mim, penso que Dilma e Lula se irmanam cumplicemente na asneira. Que Dilma envide todos os esforços por evitar a destituição, compreendo. Que Lula se declare inocente e se empenhe em organizar a sua defesa, percebo. Que tudo isto se faça pela via da consecução da imunidade para evitar um processo judicial num tribunal comum de instância, vindo a ocupar uma pasta ministerial ou mais, acho infame.
Estou mais habituado a que ministros peçam a demissão quando são apanhados em situação de transgressão ou em contextos de graves catástrofes acidentais, ou deputados a pedirem o levantamento da imunidade parlamentar – embora haja más exceções.
Depois, pergunto-me sobre a credibilidade do exercício do suspeito Lula à testa duma superpasta e/ou da Secretaria do Governo.
Francamente, esperaria tudo, mas isto não!  

2016.03.15 – Louro de Carvalho

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